Ia proceder-se à eleição primária em uma paróquia dos subúrbios do Recife. Desde a véspera que o rábula político do lugar tinha arranjado a cousa a bico de pena e conforme a senha; mas era preciso dar representação e mostra oficial da farsa para embaçar uns escrúpulos ridículos do presidente calouro.
Para esse fim um grupo de governistas, com o competente destacamento policial, acampou na Matriz, onde a oposição, que tivera o cuidado de meter-se nas encóspias, não apareceu.
Na ocasião de começar a encamisada, deu-se por falta da urna de que ninguém se lembrara. Felizmente lá desencavaram no fundo do armário da sacristia um cofre ou arca de jacarandá, que devia ter servido, no tempo de El-Rei Nosso Senhor, para guardar os pelouros da vereança.
Havia dentro da tal arca três antigualhas, dignas de uma memória do Instituto Histórico. Eram: uma cabeleira de rabicho que naturalmente pertenceu ao último juiz do povo; uma liga de belbute com atacadores de prata em forma de corações, adereço casquilho de alguma Egéria dos tempos coloniais; e finalmente um grosso rolo de escrita enleado com um cadarço de Lamego.
Sem o menor respeito atiraram essas preciosas relíquias a um canto, onde as descobriu dois dias depois o sacristão da freguesia.
Era este o Sr. Beltrão, que ao mister de enxota-cães da matriz acumulava o ofício de meirinho do subdelegado, combinação esta que dava boa suma das habilidades do nosso homem. Sentia ele também suas cócegas pela política, e desde certo tempo andava chocando de longe, como jacaré, o lugar de inspetor de quarteirão. Até já lhe passara uma vez pela cachola a idéia de trocar a opa vermelha por uma farda azul de alferes da Guarda Nacional; e saindo-lhe a cousa certa, por que não havia de entrar na lista de eleitores, e pilhar a subdelegacia?
Cometera o governo de então o erro gravíssimo de não prestar a consideração devida ao merecimento de um homem dessa marca e a seus relevantes serviços, como fósforo que era e da melhor fábrica. Justamente ofendido em seus brios, o Sr. Beltrão decidiu virar a jaqueta, pois ainda não se tinha metido em casaca; e desandou em oposicionista de quatro costados.
Achando os objetos no canto, o gírio do sacrista contemplou-os um instante com um sorriso manhoso e deitou-se a passo de rafeiro para a casa do escrivão, que era ali o tombo e conselho do partido. Nesse mesmo dia partiu para a cidade um próprio, levando pesado embrulho e uma carta com endereço ao redator do órgão oposicionista.
O tarelo escritor andava a tinir com o malogro de sua candidatura. Ainda garraio em política, tivera a ingenuidade de tomar ao sério a eleição e concebera a louca esperança de furar a chapa do governo, empresa mais difícil do que a de brocar o Pão de Açúcar.
Foi receber a carta e pular o tarouco do publicista à mesa, onde cortadas as tiras de papel almaço, desandou um artigo em estilo de bomba, no qual trovejava deveras contra o despotismo que oprimia o país.
No outro dia apareceu o presidente com cara de demissão, o que logo se conheceu pelas cerdas revoltas do bigodinho, que o excelentíssimo esmerava-se em trazer sempre com um torcido dos mais elegantes. Pudera não! Logo na cama tomara, à guisa de mingau ou chocolate, a siribanda da folha oposicionista num artigo furibundo, sob a epígrafe - Ubinam gentium sumus!... Era o tal sobre a eleição.
Depois de uns rasgos eloqüentes acerca da depravação do sistema representativo, e da corrupção que lastra como uma lepra oficial (isso é lá do publicista pernambucano), descrevia o retumbante artigo os atentados inauditos praticados pelo partido dominante para tomar de assalto as urnas. Esse partido então dominante, confesso que não indaguei qual seria, mas cada um porá o que for mais de seu gosto; assim ficaremos todos contentes, e não haverá motivo de zanga entre conservadores e liberais.
Aí vai a amostra do tal artigo:
Chegou a ponto a ousadia, a impudência, dessa horda de vândalos que não respeitaram as cousas mais sagradas, a santidade do templo, as cãs de uma velhice honrada e a virtude do sexo frágil!
- O honrado capitão-mor, o Sr. A***, esse benemérito ancião, acatado em todos os tempos como um tipo de sisudez e probidade, foi vitima dos insultos e apupadas dos energúmenos, que depois de tentarem contra sua existência, tiveram a protérvia incrível de calcar aos pés a sua cabeleira, esse venerando símbolo da velhice gloriosa do grande patriota.
Não escapou à sanha dos bandidos a ilustre Sr.a D. B***, essa ínclita matrona pernambucana, digna dos melhores tempos de Roma por sua virtude e austeridade. Talhada no molde de D. Maria de Sousa, a heroína brasileira, é adorada como uma providência daqueles lugares por sua caridade inexaurível. Estando na missa, foi ultrajada sem respeito à santidade do lugar e ao recato do sexo. E por quê... Pelo crime imperdoável de ser mãe de um nosso amigo, o Sr. C***, oposicionista importante. Para se avaliar quanto sofreu a ilustre matrona, bastará saber-se que no meio do tumulto caiu-lhe uma liga de preço, e esse penhor da castidade veio a servir - horresco!... de joguete à canalha.
No dia seguinte o corpo da igreja onde se fez a eleição, apresentava aspecto igual ao teatro de uma bacanal. Rolavam pelo chão, de envolta com aqueles objetos respeitáveis, maços de cédulas arrancados à urna violada, e sobejos da opípara ceia com que banquetearam a seus janízaros.
E o governo, depois de se debochar nessa orgia, ousará ainda com o maior cinismo falar em liberdade de voto e pureza de eleição! Infeliz país, governado por lacaios a quem servem outros lacaios, e outros, desde a antecâmara até a cocheira.
Um esquisitão que havia em Pernambuco, republicano de 1817, convertido em comendador, ao ler aquele trecho saiu-se com estaque não era escrito de pena, mas de chuço.
Tinha uma nota o artigo, e assim concebida:
Ficam em nosso poder, onde podem ser examinados, os objetos a que nos referimos, verdadeiro corpo de delito da saturnal representada pelos esbirros do governo.
Muitas pessoas foram ao escritório da folha ver a cabeleira, a liga e o maço a que aludia o artigo. Entanto era a toda pressa chamado a palácio o chefe do partido. A conferência esteve tempestuosa.
O presidente engrilou-se, declarando que estava disposto a fazer tudo, mas guardadas as aparências. O chefe bateu-lhe o pé; deu-lhe três gritos, e acabou por dizer-lhe que não faltavam presidentes para Pernambuco. Da secretaria ouviu-se a altercação; e horas depois assoalhou-se que as duas potências estavam desavindas.
Por este tempo o capitão-mor e a matrona, sabendo do artigo, quiseram protestar. O primeiro assegurava que sua cabeleira de rabicho há muitos anos fora roída pelos ratos, e lamentava esse desastre. A segunda, furiosa contra o escritor e disposta a não aturar desaforos, jurava que tivera sempre sua perna bem grossa e carnuda para segurar a meia sem necessidade de ligas. Ambos declaravam que não tinham saído de casa no dia da eleição.
Interpuseram-se, porém, os oráculos da oposição, e usaram de todos os meios de influência para obstar à declaração. Exigiam as conveniências do partido não se tirasse a força moral de um artigo, que produzira grande efeito e dera azo ao rompimento do chefe governista com o presidente.
O subdelegado da freguesia, cabo da eleição, desmentiu em oficio e por cartas as acusações do jornal oposicionista; mas ninguém, nem os seus próprios amigos acreditaram nas asseverações do homem, que sabiam capaz de maiores façanhas, useiro e vezeiro nelas. Não obstante, a imprensa do governo desfez-se em elogios à imparcialidade e moderação do prestante cidadão a quem estava confiada a autoridade do lugar.
Um mês depois, cá na corte, o ministro da Justiça voltava do despacho azoado com uma sabatina que sofrera a respeito da eleição da tal paróquia, cuja existência ele ignorava, pois era homem do Sul. O oficial de gabinete ouviu no meio de um solilóquio trágico estas palavras inauditas:
- Não se pode ser ministro assim!...
Tirando então da pasta um caderno de papel com o título de extrato dos jornais, o pimpolho do estadista procurou um lugar marcado à margem com uma cruz sinistra riscada a lápis. Era nada menos do que o trecho elo quentíssimo do publicista pernambucano.
Expediu-se nesse mesmo dia um reservado ao presidente exigindo com urgência informações a respeito dos fatos escandalosos referidos pela folha. A oposição em Pernambuco teve logo noticia do que havia, e compreendendo o partido que podia tirar do incidente, remeteu para a corte os objetos a que aludira o artigo, a fim de serem vistos por ALGUÉM.
Foi portador o nosso jornalista. Chegando à corte fez-me o favor de procurar como colega, e pedir que preparasse a opinião com um artigo de minha lavra, confiando-me para este fim o pacote onde estava o corpo de delito do grande escândalo. Há embrechadas de que ninguém se livra: era esta uma das tais.
Atirei o embrulho a um canto muito resolvido a desculpar-me com as minhas lidas, quando o homem viesse buscá-lo no sábado próximo, para a audiência que esperava. Nesse ínterim, porém, caiu o ministério; e houve mudança na política.
Disseram nas câmaras que, tendo-se agravado os incômodos do ministro do império, este insistira pela demissão, e o gabinete julgando inconveniente uma reorganização, resolvera retirar-se. O público ouviu estas explicações com o mesmo ar do homem da boa sociedade quando o amigo se desculpa de o não ter visitado ainda, por causa de incômodos de saúde. Sabe-se que é uma calva mentira; mas todos a aceitam e agradecem como uma prova de polidez.
A verdadeira causa da queda do ministério só muito depois vim eu a sabê-la; e como não me pediram segredo, aí vai sem tirar nem pôr.
Recebendo o reservado do ministro da Justiça, o presidente de Pernambuco pressentiu que ali andava dedo de mestre; e desenvolveu um zelo digno dos maiores encômios. É preciso notar que nessa mesma ocasião o fedelho administrativo fora honrado com uma particular do ministro do Império, na qual o novo Mazarin insinuara habilmente esta máxima profunda: - Aos reis como às crianças, é preciso enganá-los para seu próprio bem.
Apesar de tão salutar advertência, o presidente porventura já fascinado pelo irresistível prestigio do absurdo, tomou ao sério o reservado. No mesmo dia foi demitido o subdelegado da tal freguesia com todos os seis suplentes; e o chefe de policia recebeu ordem de se dirigir imediatamente àquela localidade a fim de sindicar dos fatos graves ocorridos durante a eleição.
Estes atos foram publicados na folha oficial. O chefe governista, que depois do rompimento resolvera contemporizar, bufou. No primeiro paquete veio o seu ultimato: A conservação do atual presidente é uma calamidade. Meus amigos estão sendo sacrificados ao capricho deste moço enfatuado; e a lealdade exige que eu os acompanhe na adversidade.
Andava o ministro do Império muito desgostoso com os colegas porque não conseguira fazer o genro barão. A carta do chefe pernambucano foi um pretexto magnífico. Instou pela demissão do presidente, o que não obteve, como de antemão sabia; pediu então respeitosamente vênia para retirar-se do poder, e foi-lhe graciosamente recusada. Não havia motivo para separar-se de seus colegas; devia continuar a prestar bons serviços ao país, e juntos deixarem o governo quando lhes viesse a faltar o apoio do parlamento do que não havia receio. A saída de um membro do gabinete isoladamente não era de boa política.
Tais foram pelo menos as palavras que o ministro do Império trouxe a seus colegas reunidos em conferência na casa do presidente do conselho. O secretário da Marinha, grumete de primeira viagem, expandiu-se como uma papoula, convencido de que o ministério estava mais firme que rocha, e tinha vida para cinco anos, senão dez.
Qual não foi seu pasmo, vendo que o matreiro do ministro do Império apesar daquelas palavras graciosas, insistia calculadamente pela retirada, mas a pretexto de moléstia; e que o presidente do conselho anunciava com um riso jâmbico a resolução de acompanhar seu colega: "Estava cansado e velho; devia passar o fardo a ombros mais robustos."
A bom entendedor meia palavra basta. A trempe do gabinete manobrava para alijar o colega do Império; mas aquela augusta solicitude manifestada pela solidariedade ministerial, abriu-lhe os olhos. Soara o buona sera; cumpria se despedirem logo, para não representarem o papel de D. Basílio.
Assim operou-se a mudança política. Mal sabia a essa hora o maroto do sacristão que ele tivera a honra de servir de pretexto a um acontecimento tão importante! Se o adivinhasse, não limitaria suas ambições ao modesto lugar de inspetor, que arranjou-lhe o escrivão, e à patente. de alferes que o novo presidente prometeu-lhe.
Decorreram oito ou nove meses.
A câmara fora dissolvida. O jovem escritor tinha sido eleito deputado, e estava com assento na câmara. Um domingo por manhã recebi sua visita, em retribuição do cartão que lhe deixara à chegada. Conversamos a respeito de política; o autor do artigo sobre a cabeleira do capitão-mor pensava que tínhamos demasia de liberdade; a imprensa especialmente carecia de um corretivo salutar.
Trouxe-me à memória o embrulho que ainda atravancava uma gaveta de minha papeleira. Sem advertir que fazia um epigrama ao Cícero pernambucano, perguntei-lhe:
- Que destino devo dar aos objetos que 1'. Ex.a me confiou? Quer que os envie à sua residência?
- Oh! não vale a pena! respondeu com um rubor de primeira legislatura. A mudança, que se operou na política, tirou a estes objetos sua importância.
Ao sair encontrou-se a visita com um indivíduo esguio, que subia a escada. O feto ministerial não se dignou abaixar o augusto e digníssimo olhar para a zumbaia do desconhecido, cujo ar beguino cheirava de longe a morrão de igreja.
Quem havia de ser o sujeito?
O marreco do sacristão, que já foi encaixado na Guarda Nacional vinha à corte pretender um empregozinho para viver. Servia-lhe até mesmo o oficio de seu amigo, o escrivão, arriscado a perdê-lo por certo desfalque no cofre de órfãos.
- Dizem, acrescentou ele; eu não creio; talvez não passem de calúnias; mas enfim tudo pode acontecer.
Trazia-me o mirífico alferes uma carta de recomendação, que lhe dava o direito de importunar-me uma hora a contar sua genealogia, como prólogo necessário e importante da biografia. Mas nunca um tagarela caiu-me tão a propósito do céu como aquele.
- Sr. Beltrão, meus pequenos serviços estão à sua disposição; mas não tenho valimento. É bom que procure os deputados de sua província.
- Qual, sr. doutor. São uns ingratos; já estou escarmentado deles. Não viu este que saía quando entrei? Depois que se encarrapitou, faz que não conhece a gente. Não gosto de falar... Mas se não fosse eu, ele não estaria hoje - senhor deputado!
- Trabalhou a favor de sua candidatura?
O sacristão olhou-me com um sublime gesto de modéstia:
- Fui eu que derrubei o ministério passado.
- Ah!...
O Sr. Beltrão tinha em um saguão ministerial travado conhecimento com o correio do ex-presidente do conselho, que lhe referiu a verdade verdadeira a respeito da queda do último ministério.
- Ora, concluiu ele; quem meteu o capitão-mor na dança fui eu..
- Então ele não perdeu a cabeleira na igreja?
- Qual cabeleira, sr. doutor. Aqueles cacarecos velhos estavam escondidos numa caixa do defunto vigário, que a tinha metido no armário da sacristia. Eu é que arranje: a tramóia com o escrivão.
- Pois Sr. Beltrão, já vejo que há de ser bem sucedido em sua pretensão. Um homem de seu talento deve ir longe.
Foi-se afinal o sacristão. Tornando ao gabinete, depois de uma manhã perdida, deu-me a curiosidade de examinar as antigualhas do embrulho, antes de mandá-las para o lixo. O rolo de papel, que o escritor pernambucano, jurando na palavra do escrivão, qualificara de maço de cédulas e como tal fora visto por várias pessoas; era nada menos do que um tesouro.
Era o manuscrito de uma crônica inédita da Guerra dos Mascates. Devorei o cartapácio e desde logo fiz tenção de o tirar a lume, espanando-lhe de leve as roupagens do estilo, que me pareceram um tanto poentas. Só agora, no remanso destas férias, à sombra de umas jaqueiras que sem dúvida competem com as faias virgilianas, se pôde levar a cabo a grande empresa; e não sei como, lá se meteram pela velha crônica uns cerzidos ou remendos de estofo moderno, que seguramente lhe tiram seu ar carrança, o melhor sainete do manuscrito.
Esta advertência, bem se vê que era imprescindível, para evitar certos comentos. Não faltariam malignos que julgassem ter sido esta crônica inventada à feição e sabor dos tempos de agora, como quem enxerta borbulha nova em tronco seco; não quanto à trama da ação, que versa de amores, mas no tocante às cousas da governança da capitania.
Pois não lograrão seu intento; que o público aí fica munido do documento preciso para julgar da autenticidade desta verídica história.
Se os tempos volvem como as vistas de uma marmota, e as figurinhas cá do presépio da terra entram para saírem, com os mesmos engonços e geringonças, embora metidas em trajos diferentes; disso não tem culpa o cronista. Lá se avenham com o mundo, que é o titereiro-mor de tais bonecos.
O que se tira agora à estampa forma apenas a primeira parte da crônica, e bem se pode chamar o Prólogo da comédia, que a seu tempo, quando houver folga e pachorra, também virá a lume.
Tijuca, dezembro de 1870.
S.
Tendo entrado nos prelos em 1871, como se vê do frontispício, só agora 1873 vem a lume, e ainda assim desacompanhado do outro tomo, que lhe serve de parelha.
A culpa é do autor e ele a confessa contrito.
Poderia alegar em seu favor que logo depois de remetido à tipografia o original, teve necessidade de ir a Baependi fazer uso das águas de Caxambu, que lhe eram aconselhadas.
Nem venha o leitor com a sua contrariedade, lembrando que nesse decurso escrevia ele o Til, para o folhetim da República.
É o Til desses livros que se compõem com material próprio, fornecido pela imaginação e pela reminiscência; e que portanto se podem escrever em viagem, sobre a perna, ou num canto da mesa de jantar.
Não sucede o mesmo com um romance histórico, e ainda mais em nosso país onde as fontes do passado nos ficaram tão escassas, senão muitas vezes exaustas.
Para decrever a nossa sociedade colonial é necessário reconstrui-la pelo mesmo processo de que usam os naturalistas com os animais antediluvianos. De um osso, eles recompõem a carcaça, guiados pela analogia e pela ciência.
O escritor que no Brasil tenta o romance histórico, há de cometer antes de tudo essa árdua tarefa de recompor com os fragmentos catados nos velhos cronistas a colônia portuguesa da América, tal como ela existiu, a separar-se de dia em dia da mãe pátria, e já preparando o futuro império.
Imagine o leitor a cópia de livros de que tem de cercar-se o autor; o isolamento a que deve sujeitar seu espírito a fim de identificá-lo com esses órgãos do passado; a leitura incessante que lhe é necessária para saturar-se da antiguidade que se exala dos velhos alfarrábios.
Isto não se faz em viagem, e ainda menos em viagem de terra, pelos caminhos que temos, e com as pocilgas que às vezes servem de pouso aí por esse interior.
Bem saudades levava eu dos meus personagens da Guerra dos Mascates, com os quais me habituara a tratar, e a quem já conhecia tão bem, que os distinguia de longe pelo gesto ou pelo andar.
Quando, de volta de Caxambu, de novo os procurei, já não eram os conhecidos que eu tinha deixado; e custou-me a entrar de novo em sua convivência.
Este inconveniente, eu o noto todas as vezes que interrompo alguma obra. Se ela ganha pela reflexão, perde muito da energia e abundância que tem o primeiro arrojo da concepção.
A idéia de um livro, para aqueles que o escrevem de inspiração, brota de uma ebulição do pensamento, como a planta do germe que fermenta no solo.
Essa ebulição traz consigo toda a seiva do livro como no torrão em que vem o broto há o sal da terra, que deve formar o lenho, as folhas e a flor da árvore.
Uma vez apagada a efervescência d'alma, sem que o livro esteja concluído, é muito difícil reproduzir o fenômeno, e nunca ele volta com a mesma exuberância e o brilho da primeira expansão.
Malfadada nasceu esta crônica, pois quando o autor se julgava tornado a ela, arrancou-o a enfermidade para levá-lo outra vez em triste peregrinação, mas desta vez pelos arrabaldes da cidade.
Cá ficaram as provas a rever, e os materiais do segundo volume outra vez fechados na pasta à espera de uma folga, que só veio decorrido um ano, e depois de profundos desgostos.
Acudirá o leitor com o Garatuja, que há poucos dias foi dado à estampa?
O Garatuja estava feito; faltava-lhe apenas a forma. A cidade colonial de São Sebastião, eu tenho-a tantas vezes estudado e discorrido por ela, que já a conheço melhor do que a cidade imperial em que habitamos.
Foi para mim um anódino ao tédio da moléstia, essa crônica despretensiosa, escrita sem esforço nem cuidado, com o maior desalinho. Outra sorte desejava eu para a Guerra dos Mascates, que todavia sai mau grado, tanto, se não mais, descuidada na composição, como na revisão.
Era minha intenção acompanhar este volume de notas, com referência à parte histórica da obra, mas sobre faltar-me o tempo, careço da paciência para esse trabalho tão fastidioso, quanto em geral desdenhado.
A Guerra dos Mascates é talvez dos fatos da nossa história colonial aquele de que nos ficaram mais copiosos subsídios. Temos acerca dessa grotesca revolução o informe dos dois partidos, os quais, como sempre acontece, exageraram cada um por sua conta.
Dos personagens, que a história memorou, o principal é sem dúvida Sebastião de Castro Caldas, governador e capitão-general de Pernambuco, posto ao qual foi promovido depois que deixou o governo da Capitania do Rio de Janeiro, onde serviu entre os anos de 1695 a 1697.
De seu caráter, como dos fatos que referem os cronistas, não carecemos de ocupar-nos aqui, pois melhor se verão do texto da obra, especialmente do segundo volume, onde a ação se desenvolve.
Foi este governador muito caluniado, em seu tempo, acabando por lhe faltarem os amigos e defensores, em qualquer dos partidos; até mesmo naquele a quem por último se entregara. É a sorte dos caracteres dúbios e perplexos, que dirigindo todo seu esforço a manter-se em equilíbrio entre as idéias e os homens, quando uma vez falseiam, não acham esteio e despenham-se.
Copiando-lhe o vulto histórico, além de vingar sua memória contra a injustiça e o aleive dos coevos, erigi em vera efígie, para exemplo dos pósteros, a estátua dessa política sorna, tíbia, sorrateira e esconsa, que à maneira da carcoma rói e corrompe a alma do povo.
Quanto aos outros personagens, tanto os que vieram à tona da história, como os outros que a onda dos acontecimentos submergiu, não são mais do que os manequins da crônica, semelhantes às figuras de pau e cera em que os alfaiates e cabeleireiros põem à mostra na vidraça roupas e penteados.
Se o leitor malicioso quiser divertir-se experimentando carapuças, o autor desde já protesta contra semelhante abuso e pelos prejuízos, perdas e danos que dai possam provir a seu livro, o mais inocente de quantos já foram postos em letra de fôrma, desde que se inventou esse gênio do bem e do mal chamado imprensa.
12 de maio de 1873.
Foi uma tarde como qualquer, em fazendo bom tempo. O sol tinha a cara dos mais dias, aí pela volta das quatro horas que seriam então; nada mais, a não ser uma carapuça de algodão que lá as nuvens haviam encasquetado na cabeça do astro para guardá-lo de constipar-se com o relento.
E o mais é que assim encarapuçado, Febo, como ainda o chamavam então os poetas e os namorados, fazia a figura de um Xerxes trajado à moda de rei constitucional, de casaca e chapéu redondo.
O céu estava azul mais ou menos; o mar pelo mesmo teor; levanta-se a viração e as árvores tinham o verde do costume, misturado com alguns ramos secos e folhas murchas. Também deviam de cantar pelos arredores alguns passarinhos; não falando das flores que sem dúvida estrelavam o campo.
Agora, se era de cetim o manto do firmamento, e de safira a redoma do oceano; se as auras suspiravam amores nos seios das boninas, e arrulhavam saudades as rolas melancólicas, enquanto as açucenas abriam as suas caçoulas cheias de perfumes, não sei eu: que não o diz a crônica.
Mas por isso não haja queixa. Tome cada um de sedas, pedrarias, endeixas e fragrâncias, quanta porção queira, e vá enfeitando e arrebicando a minha descrição a seu gosto. Eu cá prefiro a simplicidade, que é o mais cômodo de todos os estilos; basta ver que forra-se a gente ao trabalho de fantasiar, e deixa isso ao leitor.
Há nada como aquele modo chão de principiar as histórias da carocha? - Foi um dia... E cada um que imagine o tal dia à sua feição, de inverno ou de verão, de outono ou primavera, como lhe saiba melhor.
Pois era uma tarde... e a janela do sótão, na casa do. Perereca, abria manso e manso fazendo uma fresta, onde se mostrou a medo a ponta arrebitada do mais lindo narizinho retorcido de que há notícia desde Aglaia, a qual o tinha de primor, valha a fábula, como a graça que era do chiste e da malícia, donde veio chamarem-na os gregos de esplêndida.
Agora vejo que não se conhece ainda a casa, nem o lugar em que estava situada, sem falar de outras particularidades, que não deixam de ser curiosas, com especialidade o dono; pois, e não digo novidade, se em geral os prédios são cousa de seu proprietário, também donos há que são acessórios de sua casa.
Estamos no Recife.
Andando a Rua da Praia dos Coqueiros, no bairro de Santo Antônio, quem ia naquele tempo do Colégio para as bandas das Cinco Pontas, quase a meio caminho encontrava um vasto edifício que ficava fronteiro à barra; ainda a Rua da Maré com sua casaria não se tinha prolongado até aquele ponto da ribeira.
Larga e baixa, a casa terreira acaçapava-se entre o arvoredo do quintal que a beirava de um e outro lado; mas dava logo nas vistas pela especialidade da pintura extravagante com que a haviam lambuzado, pois outra qualificação não quadraria à incrível borradela.
Tinha cerca de quatro anos o edifício. Acabada nele a obra de pedreiro e carapina, quando se teve de passar ao artigo pintura, vieram as tribulações para o dono, o digno Sr. Simão Ribas, mascate de peso e marca entre os principais do Recife.
Não sei se já ai por essa monarquia doméstica tinham inventado o governo pessoal, e usavam as calças responsáveis meterem-se por baixo da saia inviolável. Cá, no meu alfarrábio, só vejo que houve muita rezinga e altercação, acabando o bate-barba ou questão de alcova, como de costume, com o triunfo completo da trunfa, que era então, como o coque é hoje, a coroa doméstica.
Sabidas as contas, decidira a Sr.a Rufina Ribas que a fachada fosse de uma cor farfante e para ver-se a léguas, lá do alto-mar. Antes de surdir o navio pelo Lameirão adentro, queria a respeitável matrona que sua casa nova entrasse pelas vistas da gente que vinha da santa terrinha.
Nem por sombras ocorreu ao marido a idéia de opor-se à vontade de sua dona. Era um marido constitucional o Sr. Simão Ribas; e não há ai ministro cortesão, a que ele não levasse as lampas na arte insigne de fundir-se, como cera, em figurinhas moldadas ao capricho mulheril. Não foram, pois, assomos de resistência que perturbaram a paz doméstica; ao inverso, proveio tudo de excessos de zelo e obediência.
Chamado a conselho o exímio borrador a fim de dar alvitre sobre o caso, foi de voto que não havia como o zarcão, para fazer o gosto à Sr.a Rufina. Dito e feito: no dia seguinte amanheceu a parede assanhada com uma crosta do mais coruscante vermelho.
Muito ancho de si, o digno mascate já se regozijava de ter uma vez na a feito as cousas ao agrado da querida metade, quando lhe veio ela deitar água na fervura. Esguelhando à parede um olhar impertinente, espevitou o nariz, torceu o beiço, e deu um muxoxo, que erriçou os cabelos ao marido.
Barulh0 no caso: novo apelo ao borrador que gizou a combinação do verdete com o zarcão; e assim, de rezinga em rezinga, chegou-se àquele espalha. fato de todas as cores, onde o azul brigava com o encarnado, o verde com o vermelho, e o roxo-terra com o amarelo da oca. Era cousa indescritível, que o prospeto de algumas tabernas de hoje ainda não conseguiu imitar.
Nos primeiros dias esteve a casa de mostra aos basbaques e pascácios que por lá iam, para se pasmarem diante daquela maravilha. Por um mês não se falou no Recife doutra cousa; até que um dia lá apareceu pela manhã escrito a carvão, na frente, este dístico maligno - Perereca.
Lavou-se da parede a tisna, mas a alcunha ficou ai fisgada à casa, como se a tivessem gravado em bronze. Fora o brejeiro de um rapaz que, voltando a ave-maria da escola e ouvindo cantar a rã numa touça de bananeiras, lembrou-se da semelhança que tinha com a frente da casa, e escreveu-lhe o nome na parede. Ao outro dia, antes que apagassem as letras, sucedeu passarem ai um frade, uma comadre e um soldado. Leu o franciscano em voz alta, se julgando a sós, e riu-se: ouviram-no os dois que atinaram com a graça.
Tanto bastou para que ao meio-dia se soubesse em todo o Recife do acontecido; e, pelo plebiscito do motejo unânime, a casa sarapintada ficou sendo conhecida pelo nome expressivo de - Casa do Perereca.
Cobria o edifício um telhado de largas abas e alto cocuruto, que lançava em cada quina uma ponta de barro com pretensões a figura de marreca. Nas duas faces laterais erguiam-se as águas-furtadas do sótão, que rasgava duas janelas, uma para cada banda.
Na janela da direita, que durante o dia estava aberta sempre, de costume estendiam em um cordel passado de uma à outra ombreira certa colcha de chita de ramagens, que ao sopro do vento desfraldava-se à guisa de estandarte. Quem tinha a dita de conhecer a Sra. Rufina Ribas, acertando de passar por aqueles sítios e dando com o espantalho da tal coberta, adivinhava logo que era da garrida matrona essa janela.
Tinha outro ar e outros modos a janela da esquerda. Começava logo por uma latada que lhe haviam armado em volta, e lhe servia como de capuz, com as ramadas do maracujazeiro, entrelaçada pelos escaques do caramanchel. Dava-lhe isso, à tal janelinha, uns biocos de freira, mas de freira moça e bonita, que lá do remanso do claustro enfia pela grade uma olhadela curiosa e ávida do burburinho do mundo.
Outra diferença vinha de estarem as adufas da direita sempre cerradas, em horas soalheiras; nisso pareciam-se com o cálice de certas flores e com os cílios da juriti, que fecham-se pela muita luz e só abrem ao doce toque do crepúsculo. Todavia não eram elas tão recatadas do sol, que não se descerrassem lá uma ou outra vez, na calma do dia, sobretudo aos domingos, para deixar que entrasse algum raio fagueiro pela câmara do sótão.
No estreito eirado, rente com o peitoril, havia três vasos de barro onde cresciam várias plantas. A mão que reunira ai o alvo bogarim, a rubra cravina, o goivo amarelo e os bagos escarlates da pimenta, esse conjunto singular lhe estava denunciando a travessura. Se é verdade, e eu creio, que a alma imprime nos objetos que a cercam a sua própria feição, podia-se ver naquele grupo de plantas o enigma de um coração.
Não seria o alvo bogarim o reflexo da candidez, como as pétalas da cravina a imagem dos vivos rubores de uma petulante castidade? O goivo, ali na mansão da juventude, não exprimia a descuidosa alegria, que orvalha de risos até as horas aziagas? E naqueles bagos vermelhos e brilhantes da pimenta, não havia quiçá o emblema das unhas de nácar, habituadas a insinuar no afago o belisco traiçoeiro?
Afinal de contas, quem sabe se apesar de todas as suas mostras encantadoras não estava a tal sonsa da janelinha enganando a gente que passava, como certas moças do tempo de hoje, cujo fraco é porem-se às vessas; quero eu dizer, e sem malícia, que se empenham com todas as forças para fazerem-se outras, das que as criou a natureza.
Assim tosquia-se para fazer cachos, aquela que Deus ornou com a túnica mais bela, que é uma soberba madeixa. Se não a possuísse, havia de esmagar a cabeça com uma trouxa enorme de cabelos postiços. Estufa-se a magra com enchimentos para simular contornos, como a gorda se espartilha e acocha para figurar de esbelta. E nesse teor, enganando-se a si e aos outros, vai o mundo a rolar como uma bola que é, levantando estes e abaixando aqueles, mas por fim esmoendo a todos.
Eis porque não seria caso de espantar, se naquela janelinha tão louçã viesse a aparecer uma velha encarquilhada, descobrindo-se afinal que o nosso narizinho retorcido não passava da ponta fungada do cavalete setuagenário de um respeitável par de óculos de tartaruga.
Tudo pode ser.
Dir-se-ia que ele farejava como uma lebre arisca, tal era sua volubilidade, se não fosse mais natural presumir um olhar, que ainda se não distinguia, coando pela fresta, a espreitar os arredores. Como nada aparecia de suspeito, as duas abas correram, escancarando-se de par em par com arrebatamento igual da timidez anterior.
Assim abrem-se também as asas do passarinho, que há pouco titilava dentro do ninho, e já talha os ares com o vôo rápido.
No vão da janela mostrou-se o busto de uma menina; mas o que primeiro se viu, senão somente, pois arrebatava os olhos todos e a alma, foi a cabecinha cheia de papelotes, que se enroscavam entre os anéis do cabelo negro. Nunca flores, nem pérolas, ornaram uma fronte fidalga como aqueles crespos de papel.
Trazia a menina os bolsos do avental cheios de gomos de cana, cortados à feição de chupar; e naquele momento, seus dentes brancos e polidos como o jaspe mordiam uma talhada, que lhe arregaçava graciosamente os lábios purpurinos. No prazer com que ela trincava a fibra da cana, sugando-lhe o mel, adivinhava-se o segredo dessa boquinha faceira.
Não era boca para embeber-se na delícia de um beijo ardente, com a ânsia da paixão que imbui uma alma na outra, fundindo-as em delíquios de amor. Não o era decerto; mas para trincar um coração, como se fosse um gomo de cana, ou para esgarçar a vida de um mísero amante, como o bagaço que segurava entre os dedos, isto sim: podia-se jurar.
Quem admirou a fina polpa desse lábio e não viu logo as semelhanças da pétala de rosa cobrindo o espinho, ou do bago da pitanga onde acaso insinua-se o farpão da abelha? Desses lábios, quando ele, alguma vez se abrocham em botão, não há fiar; são beijos de morder, os que eles sabem, caricias que pungem n'alma e a deixam em piques. Por isso estão sempre a rir, não tanto de alegria, como pelo gosto de mostrar o dentezinho branco, sutil e afilado como o dardo da áspide que se escondesse em um aljôfar.
Mas naquele rosto gracioso, o primor não eram nem a boca brejeira e os cabelos cacheados, nem os olhos pretos que faziam cócegas no coração, nem mesmo a covinha da barba, que um poeta chamaria o ninho das graças. Era... Adivinhem!... Era o narizinho retorcido, que no meio daquelas gentis feições, parecia um anjo traquinas dentro de um berço de boninas.
Quando encontro um desses narizes arrebitados, já se entende, em rosto de moça, cuido estar vendo um passarinho, que arrufa-se de cólera e empina a cabeça, pronto a lançar a bicada. Reparem bem; depois digam-me se nesse retorcido gracioso de uma ventinha rósea e transparente, não está aí esculpido na sua mais bela forma o capricho. E se não sabem o que seja capricho, posso confiar-lhes este segredo de minha invenção: é um colibri que tem o ninho no coração de certas moças, e chupa-lhes o mel de todas as flores d'alma.
Chupando os gomos de cana, ia-os a menina dos papelotes arranjando um perto do outro, em fileiras, sobre o batente da janela; no cuidado com que o fazia, e certo arzinho lesto, se estava denunciando o pensamento de uma travessura, de que ela já saboreava o gostinho.
De vez em quando relanceava um olhar pela praia fronteira do bairro do Recife, desde o Forte do Matos até à ponte, que unia as duas margens, e da qual os tetos das casas e arvoredos dos quintais não lhe deixavam avistar senão a extremidade oposta. Entretanto, se acontecia farfalharem as folhas com alguma rajada mais fresca da brisa do mar ou com o arranco de alguma rola assustada, estremecia a fingida e punha-se alerta.
Reparando nas plantas dos vasos, que formavam seu jardim, o narizinho arrebitado achou-as lânguidas e tristes com o calor do dia, e lembrou-se de regá-las.
Foi dentro buscar um moringue d'água, dos bojudos e pesados como os costumam fazer ainda hoje; e a custo, erguendo-o com ambas as mãos para vencer-lhe o peso, conseguiu deitá-lo no peitoril da janela. Daí inclinando-o, tomava ela os bochechos d'água, que deitava sobre as plantas, de bruços ao parapeito para alcançar o vaso.
Uma carriça, que tinha construído o ninho no vão de uma telha, desde instantes folgava defronte da janela, traçando no ar os adejos, como costuma, a voar e revoar no mesmo lugar.
Convidada pela frescura d'água, foi esconder-se entre as folhas rociadas do bogarim, e bebeu uma gota que tremulava dentro da nívea corola da flor. Invejou a menina dos papelotes aquela travessura, e sentiu não ser passarinho para fazê-la.
Que é isso? Temos novidade?
Ergueu-se rápida a cabeça dos papelotes; os olhos vivos lhe cintilaram de prazer, fitando um objeto, lá da outra banda.
Seria acaso um rapazola que desembocava apressado da Rua do Azeite na da Madre de Deus, e depois de quebrar a esquina, voltando a cabeça para assegurar-se que o não seguiam, deitara a correr na direção da ponte?
Bem pode ser, porque os olhos buliçosos, agora atados, vieram seguindo passo a passo pela praia o sujeitinho, até passar o arco e entrar na ponte onde o esconderam as casas. Todavia continuaram os olhinhos caminheiros a andarem pelo ar uma certa vereda que lá eles conheciam de a terem batido muita vez, e que, era eu capaz de apostar, vinha cair aí perto, entre os cajueiros e mangues do areal da Penha, mesmo naquele claro para onde está olhando agora a curiosa.
Debruçada sobre o peitoril, com as mãos seguras ao batente onde apoiava o seio, o pescoço estendido e o ouvido alerta, tinha a menina o jeito de uma lebre agachada à boca da toca sobre as patas dianteiras, com as orelhas crespas, de espreita ao perigo. Este não andava longe.
Atravessando a ponte e seguindo pela Rua da Maré, o garoto ganhara o arvoredo além da coroa de areia onde se elevava o convento de Nossa Senhora da Penha de França. Ai parou um instante, com a ligeira hesitação da esperança que receia um malogro.
Era ele um belo rapaz de dezessete anos; não obstante a pouca idade, mostrava no gentil parecer tal ardimento, e no talhe bem composto um donaire firme e resoluto, que imprimiam em sua graça adolescente uma encantadora bizama.
Com um movimento que parecia habitual alisava um bigode ausente, o qual apenas se anunciava pela macia pubescência do lábio superior. Em falta dos longos pêlos que repuxasse em momentos de enfado, à moda dos veteranos, pagavam os cantos da boca fresca e rosada.