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O Sertanejo

José de Alencar

PRIMEIRA PARTE

I – O comboio

Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o sertão de minha terra natal.

Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha de cavalo acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela cauda com admirável destreza.

Aí, ao morrer do dia, reboa entre os mugidos das reses, a voz saudosa e plangente do rapaz que abóia o gado para o recolher aos currais no tempo da ferra.

Quando te tomarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei há muitos anos na aurora serena e feliz da minha infância?

Quando tornarei a respirar tuas auras impregnadas de perfumes agrestes, nas quais o homem comunga a seiva dessa natureza possante?

De dia em dia aquelas remotas regiões vão perdendo a primitiva rudeza, que tamanho encanto lhes infundia.

A civilização que penetra pelo interior corta os campos de estradas, e semeia pelo vastíssimo deserto as casas e mais tarde as povoações.

Não era assim no fim do século passado, quando apenas se encontravam de longe em longe extensas fazendas, as quais ocupavam todo o espaço entre as raras freguesias espalhadas pelo interior da província.

Então o viajante tinha do atravessar grandes distâncias sem encontrar habitação, que lhe servisse de pousada; porisso, a não ser algum afoito sertanejo à escoteira, era obrigado a munir-se de todas as provisões necessárias tanto à comodidade como à segurança.

Assim fizera o dono do comboio que no dia 10 de dezembro de 1764 seguia pelas margens do Sitiá buscando as faldas da Serra de Santa Maria, no sertão de Quixeramobim.

Uma longa fila de cargueiros tocados por peões despeja o caminho nessa marcha miúda e batida a que dão lá o nome de carrêgo baixo, e que tanto distingue os alegres comboios do norte das tropas do sul a passo tardo e monótono.

Os recoveiros armados de sua clavina e faca de mato formavam boa escolta para o caso de necessidade. Além deles, acompanhava a pesada bagagem uma caterva de fâmulos de serviço doméstico e acostados.

Adiante do comboio, e já muito distante, aparecia a cavalgada dos viajantes.

Compunha-se ela de muitas pessoas. Dessas, vinte pertenciam à classe ainda não extinta de valentões, que os fazendeiros desde aquele tempo costumavam angariar para lhes formarem o séquito e guardarem sua pessoa, quando não serviam, como tantas vezes aconteceu, de cegos instrumentos a vinganças e ódios sanguinários.

Em geral essa gente adotara um trajo em que a moda portuguesa do tempo era modificada pela influência do sertão. Aqueles, porém, traziam um gibão verde guarnecido de galão branco, uma véstia amarela e calções da mesma côr com botas pretas e chapéus à frederica.

Larga catana à ilharga, trabuco a tiracolo e adaga à cinta, além dos pistoletes nos coldres, completavam o equipamento dêstes indivíduos cuja sinistra catadura já de si inculca mais susto do que as próprias armas.

Traziam mais, presa à borraina da sela e suspensa às ancas do animal, a larga machada que servia-lhes no caso de necessidade para abrir a picada na mata-virgem, ou improvisar uma ponte sôbre o rio cheio: utensílio indispensável naquele tempo ao viajante, que muitas vezes o transformava em arma terrível.

Ia de cabo a essa fôrça um homem de exígua figura, magriço, que trajava como os seus companheiros, com a diferença de trazer a farda de pano verde e o chapéu do feltro agaloados de prata.

Esta escolta acompanhava duas pessoas que eram sem dúvida os donos do comboio.

A primeira, homem de cincoenta anos, do alto porte e compleição robusta, mostrava pelo chapéu armado e pela farda escarlate com galões dourados ser um capitão-mór de ordenanças. Montava cavalo ruço-pedrês, o qual dava testemunho de seu vigor na galhardia com0que suportava o pêso do corpulento cavaleiro, além de umas vinte libras da prata dos arreios.

A segunda personagem, dama de meia idade, mas bem conservada e prazenteira, manejava com donaire o seu cavalo castanho, também ajaezado de prata como o de seu marido. O vestido de montar era de fino droguete verde-garrafa com alamares de torçal de ouro, e o chapéu, em forma de touca, ornado de um cocar de plumas tricolores, que ao movimento do cavalo se agitavam em tôrno da cabeça.

Atualmente viaja-se pelo nosso interior em hábitos caseiros; não era assim naquele bom tempo em que um capitão-mór julgaria derrogar da sua gravidade e importância, se fossem vistos na estrada, êle e a esposa, sem o decôro que reclamava sua jerarquia.

Acresce que o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo e sua mulher D. Genoveva estavam a chegar à sua fazenda da Oiticica, onde pretendiam entrar antes de uma hora com a solenidade, que alí era de costume, sempre que os donos voltavam depois de alguma ausência.

A última pessoa da cavalgada, ou antes a primeira, pois rompia a marcha, era D. Flor, a filha do capitão-mór. Formosa e gentil, esbeltava-lhe o corpo airoso um roupão igual ao de sua mãe com a diferença do ser azul a côr do estôfo.

Trazia um chapéu de feltro à escudeira, com uma das abas caída e a outra apresilhada um tanto de esguelha pelo broche de pedrarias donde escapava-se uma só e longa pluma branca, que lhe cingia carinhosamente o colo como o pescoço de urna garça.

Na moldura dêsse gracioso toucado, a beleza deslumbrante de seu rosto revestia-se de uma expressão cavalheira e senhoril, que era talvez o traço mais airoso de sua pessoa. No olhar que desferia a luminosa pupila; na seriedade dos seus lábios purpurinos, que ainda cerrados pareciam enflorar-se de um sorriso cristalizado em rubim; na gentil flexão do colo harmonioso; e no garbo com que regia o seu fogoso cavalo, assomavam os realces de uma alma elevada que tem conciência de sua superioridade, e sente ao passar pela terra a elação das asas celestes.

O sôfrego baio mastigava o freio e espumava; porém a mão firme da linda escudeira, calçada de comprido guante de sêda, que lhe vestia o braço até à curva, retinha os ímpetos do animal, impaciente desde que aspirara as emanações dos campos nativos.

A chapada, que os viajantes atravessavam neste momento, tinha o aspecto desolado e profundamente triste que tomam aquelas regiões no tempo da sêca.

Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam poeticamente os indígenas.

Pela vasta planura que se estende a perder de vista, se erriçam os troncos ermos e nus com os esgalhos rijos e encarquilhados, que figuram o vasto ossuário da antiga floresta.

O capim, que outrora cobria a superfície da torra do verde alcatifa, roído até à raiz pelo dente faminto do animal e triturado pela pata do gado, ficou reduzido a uma cinza espêssa que o menor bafejo do vento levanta em nuvens pardacentas.

O sol ardentíssimo côa através do mormaço da terra abrasada uns raios baços que vestem de mortalha lívida e poenta os esqueletos das árvores, enfileirados uns após outros como uma lúgubre procissão de mortos.

Apenas ao longe se destaca a folhagem de uma oiticica, de um joazeiro ou de outra árvore vivaz do sertão, que elevando a sua copa virente por sôbre aquela devastação profunda, parece o derradeiro arranco da seiva da terra exhausta a remontar ao céu.

Êstes ares em outra época povoados do turbilhões de pássaros loquazes, cuja brilhante plumagem rutilava aos raios do sol, agora ermos e mudos como a terra, são apenas cortados pelo vôo pesado dos urubús que farejam a carniça.

Às vezes ouve-se o crepitar dos gravetos. São as reses que vagam por esta sombra de mato, e que vão cair mais longe, queimadas pela sede abrasadora ainda mais do quê inanidas pela fome. Verdadeiros espectros, essas carcaças que se movem ainda aos últimos arquejos da vida, inspiraram outrora as lendas sertanistas dos bois encantados, que os antigos vaqueiros, deitados ao relento no terreiro da fazenda, contavam aos rapazes nas noites do luar.

Quem pela primeira vez percorre o sertão nessa quadra, depois de longa sêca, sente confranger-se-lhe a alma até os últimos refolhos em face dessa inanição da vida, dêsse imenso holocausto da terra.

É mais fúnebre do que um cemitério. Na cidade dos mortos as lousas estão cercadas por uma vegetação que viça e floresce; mas aquí a vida abandona a terra, e toda essa região que se estende por centenas de léguas não é mais de que o vasto jazigo de uma natureza extinta e o sepulcro da própria criação.

Das torrentes caudais restam apenas os leitos estanques, onde não se percebe mais nem vestígios da água que os assoberbava. Sabe-se que ali houve um rio, pela depressão às vezes imperceptível do terreno, e pela areia alva e fina que o enxurro lavou.

É nos estuários dessas aluviões do inverno, conhecidos com o nome de várzeas, onde se conserva algum vislumbre da vitalidade, que parece haver de todo abandonado a terra. Aí se encontram, semeadas pelo campo, touceiras erriçadas de puas e espinhos em que se entrelaçam os cardos e as carnaúbas. Sempre verdes, ainda quando não cai do céu uma só gota de orvalho, estas plantas simbolizam no sertão as duas virtudes cearenses, a sobriedade e a perseverança.

O capitão-mór havia sesteado a quatro léguas da fazenda, e partira à tarde quando já quebrara a fôrça do sol, contando chegar à sua casa à noitinha.

Nessas horas do ocaso o sertão perde o aspecto morno, acerbo e desolador que toma ao dardejar do sol em brasa. A sombra da tarde reveste-o de seu manto suave e melancólico; é também a hora em que chega a brisa do mar e derrama por essa atmosfera incandescente como uma fornalha, a sua frescura consoladora.

À medida que se aproximam da fazenda, o capitão-mór Campelo ia observando com maior atenção o estado dos terrenos que atravessava, e a propósito dirigia a palavra, umas vezes à sua mulher, outras a um dos acólitos, o que parecia o cabo da escolta e que lhe ficava mais próximo.

Ao longo do caminho, de um e outro lado, alvejavam, entre as maravalhas dos ramos queimados pelo sol, as ossadas dos animais que já tinham sucumbido aos rigores da sêca.

— A sêca por aquí foi rigorosa, D. Genoveva, que poder de gado se perdeu.

— Há de ver, sr. Campelo, que poder de gado se perdeu.

— Com isso já conto eu; as ossadas que temos encontrado estão mostrando. Não é um boi que lá está caído, Agrela?

— Lá ao pé da marizeira, sr. capitão-mór? Aquele já esticou a canela.

— Aposto que deixaram entupír as cacimbas? acudiu D. Genoveva.

— Não duvido; respondeu Campelo.

Nesse momento chegavam os viajantes a uma pequena elevação, donde se avistava ao longe, sôbre aquela mata adusta, a copa verde e frondosa de uma prócera oiticica.

Um dos acostados que trazia a trombeta a tiracolo, levou-a à bôca e tocou uma alvorada cujos sons festivos deramaram-se pelo espaço e encheram a solidão.

O fogoso cavalo em que montava a gentil donzela, já excitado desde que primeiro sentia as auras da terra natal, com os rebates da trombeta se arremessou impetuoso pelo caminho da fazenda.

D. Flor deixou-o desafogar aquele generoso anelo que também lhe assomava n’alma ao reconhecer os sítios onde passara a sua infância e lhe corriam felizes os anos da juventude.

Logo abaixo da eminência, o caminho dividia-se; uma trilha estendia-se pelos tabuleiros, a outra serpejava pelo doce aclive que já alí formavam as abas da próxima serra. Sôbre essa lomba, cujo terreno estava menos abrasado por causa das filtrações da montanha, as árvores ainda conservavam a folhagem, que tornava-se mais embastida e virente, à proporção que se avizinhavam das cabeceiras do Sitiá.

Foi por êste último caminho que tomou a donzela.

— Flor! gritara D. Genoveva, chamando-a.

Mas ela voltou-se para sorrir à sua mãe, fazendo-lhe um gesto prazenteiro, e deixou-se levar pelo árdego ginete.

A moça breve desapareceu encoberta pelo mato aí mais fechado, e revestido ainda de alguma rama, embora rara e crestada.

Com a rapidez do galope, o vento agitava os cabelos castanhos da donzela, fustigando-lhe o rosto, e ela experimentava um indizível prazer, como se a terra de seu berço lhe abrisse os braços carinhosa, e a estivesse apertando ao seio, e cobrindo-lhe as faces de beijos.

Cerrando a meio os olhos, engolfada nessa ilusão, parecia-lhe que a terra tomava as feições da ama que a criara, da boa Justa, de quem se apartara pela primeira vez com tamanha saudade.

De repente o brioso cavalo que relinchava de alegria, erriçou a crina e soltou do peito um ornejo surdo, lançando os olhos pávidos para a esquerda do caminho.

D. Flor pensando que êsse terror proviria de ter o baio pressentido no mato a carniça de alguma rês, afagou-lhe o pescoço com a mãozinha afilada, excitando os brios do animal por uma carícia da voz.

Mas o cavalo estacou espavorido, com o pêlo híspido e as narinas insufladas pelo terror.

II – Desmaio

A par com a comitiva, mas por dentro do mato, caminhava um viajante à escoteira.

Parecia acompanhar o capitão-mór, porém de longe, às ocultas, pois facilmente percebia-se o cuidado que empregava para não o descobrirem, já evitando o menor rumor, já afastando-se quando o mato rareava a ponto de não escondê-lo.

Sua paciência não se cansava; tinha caminhado assim horas e horas, por muitos dias, com a perseverança e sutileza do caçador que segue o rasto do campeiro. Não perdia de vista a comitiva, e quando a distância não lhe deixava escutar as falas, adivinhava-as pela expressão das fisionomias que seu olhar sagaz investigava por entre as ramas.

O cavalo cardão, que êle montava, parecia compreendê-lo e auxiliá-lo na emprêsa; não era preciso que a rédea lhe indicasse o caminho, O inteligente animal sabia quando se devia meter mais pelo mato, e quando podia sem receio aproximar-se do comboio. Andava por entre as árvores com destreza admirável, sem quebrar os galhos nem ramalhar o arvoredo.

Tinha o cavalo um porte alto e linda estampa; mas nessa ocasião, além da fadiga da longa viagem que devia emagrecê-lo, sobretudo por uma sêca tão rigorosa, o animal vaqueano conhecia que não era ocasião de enfeitar-se, rifar e dar mostras de sua galhardia. De feito tinha mais aspecto do um grande cão montado por seu senhor, do que de um corcel.

Era o viajante moço de vinte anos, de estatura regular, ágil, e delgado do talhe. Sombreava-lhe o rosto, queimado pelo sol, um buço negro como os compridos cabelos que anelavam-se pelo pescoço. Seus olhos, rasgados e vívidos, dardejavam as veemências de um coração indomável.

Nesse instante o constrangimento a que a espreita o forçava, tolhia-lhe os movimentos e embotava a habitual impetuosidade; mas ainda assim, nesses agachos de caçador a esgueirar-se pelo mato, percebia-se a flexibilidade do tigre, que roja para arremessar o bote.

Vestia o moço um trajo completo de couro de veado, curtido à feição de camurça. Compunha-se de véstia e gibão com lavores de estampa e botões de prata; calções estreitos, bolas compridas e chapéu à espanhola com uma aba revirada à banda e também pregada por um botão de prata.

Ainda hoje êsse trajo pitoresco e tradicional do sertanejo, e mais especialmente do vaqueiro, conserva com pouca diferença a feição da antiga moda portuguesa, pela qual foram talhadas as primeiras roupas de couro. Ultimamente já costumam fazê-las de feitio moderno, mas não têm o valor e estimação das outras, cortadas pelo molde primitivo.

Trazia o sertanejo, suspensa à cinta, uma catana larga e curta com bainha do mesmo couro da roupa, e na garupa a maleta de pelego de carneiro, com uma clavina atravessada e um maço de relho.

Quando a comitiva chegou à eminência donde se avistava a oiticica, o viajante acompanhou com os olhos a donzela até que seu vulto gracioso desapareceu entre o arvoredo; e dando volta ao cavalo afastou-se vagarosamente do caminho da fazenda.

Não tinha, porém, andado vinte braças, que sua fisionomia traiu súbita inquietação. Reclinando sôbre o arção, perscrutou com o olhar o mato que o rodeava. Ouvia-se ao longe um leve crepitar, semelhante ao rugir do vento nas palmas crenuladas da carnaúba.

O que, porém, mais preocupava o sertanejo era a cálida rajada que ao passar escaldara-lhe o rosto. Arripiando caminho avançou contra o bochorno para verificar a causa, que tinha logo suposto.

Seu cavalo cardão rompeu o mato a galope, como quem estava acostumado a campear o barbatão no mais espêsso bamburral; e com pouco o sertanejo, atalhando a distância, avistou D. Flor parada além, no caminho.

A donzela debalde fustigava o baio, que recuava cheio de terror. Também ela sentira-se envôlta por uma evaporação ardente, que se derramava na atmosfera e oprimia-lhe a respiração, mas, ocupada em vencer a relutância do animal, não prestara ao incidente maior atenção.

Nisso levantou-se no mato um fortíssimo estrépito que rolava como o borbotão de uma torrente; e a donzela viu, tomada de espanto, um turbilhão de fogo a assomar ao longe e precipitar-se contra ela para devorá-la.

Conhecendo então a causa do terror que assustara o animal, e pressentindo o perigo que a ameaçava, lembrou-se a donzela de retroceder; mas outro bulcão de chamas já arrebentava por aquela banda e tomava-lhe o passo.

O incêndio, causado por alguma queimada imprudente, propagava-se com fulminante rapidez pelas árvores mirradas que não passavam então de uma extensa mata de lenha. A labareda, como a língua sanguinolenta da hidra, lambia os galhos ressequidos, que desapareciam tragados pela fauce hiante do monstro.

No seio do denso pegão do fumo, que já submergia toda a selva, rebolcava-se o incêndio como um ninho de serpentes, que se arremetiam furiosas, enristando o colo, brandindo a cauda, e desferindo silvos medonhos.

Ao mesmo tempo parecia que a tormenta percorria a floresta e a devastava. Ouvia-se muir o vento, agitado pelo ressolho ardente e ruidoso das chamas; um trovão soturno repercutia nas entranhas da terra, e a cada instante, no meio do constante estridor da ramagem, reboavam com os surdos baques dos troncos altaneiros os estertores da floresta convulsa.

Do meio dêsse torvelinho, o dragão de fogo se arremessava desfraldando as duas asas flamantes, cujo bafo abrasado já crestava as faces mimosas de D. Flor, e a revestiam de reflexos purpúreos.

Entre as duas torrentes ígneas que transbordavam inundando o campo e não tardavam sossobrá-lo, a donzela não desanimou, e fez um supremo esfôrço para arrancar seu cavalo do estupor que lhe causava o terror do incêndio.

Negros rolos de fumo, porém, a envolveram, e sufocada pelo vapor ela sentiu desfalecer-lhe a vida.

Então com um gesto de sublime resignação cruzou as mãos ao peito, reclinou a linda fronte, e abandonou-se à morte cruel que vinha ceifar-lhe sem piedade a primícia de sua beleza, quando apenas desabrochava.

Nenhum grito lhe rompeu do seio nessa tremenda angústia; com o nobre pudor das almas altivas recalcou o supremo gemido, e em seus lábios mimosos a voz feneceu exalando apenas esta palavra, que resumia toda a sua aflição:

— Jesús!…

O corpo desmaiado resvalou pelo flanco do baio, mas não chegou a cair. Um braço robusto o suspendeu quando já a fralda do roupão de montar arrastava pelo chão.

Apenas o sertanejo conheceu o perigo em que se achava a donzela, rompeu-lhe do seio um grilo selvagem, o mesmo grito que fazia estremecer o touro nas brenhas e que dava asas ao seu bravo campeador.

No mesmo instante achava-se perto da moça, a quem tomara nos braços. Para salvá-la era preciso voltar antes de fechar-se o círculo de fogo, que já o cingia por todos os lados com exceção da estreita nesga de terra por onde acabava de passar.

Não houve de sua parte a mínima demora; o campeador devorou o espaço, e não se poderia dizer que chegara, pois sem parar voltara sôbre os pés. Mas o incêndio tinha as asas do dragão; retrocedendo, achou-se o sertanejo em face de um bulcão de chamas que o investia.

As duas trombas de fogo, que desfilavam pelo campo fora, se haviam encontrado, não frente a frente, mas entrelaçando-se, de modo que deixavam ainda, de espaço em espaço, restingas de mato poupadas pelas chamas.

Arrojou-se o mancebo intrepidamente nessa voragem. Estreitando com o braço direito o corpo da donzela cujo busto envolvera em seu gibão de couro, com um leve aceno da mão esquerda suspendia pelas rédeas o bravo campeador que, de salto em salto, transpôs aquelas torrentes de fogo, como tantas vezes sobrepujara os rios caudalosos, abarrotados pelas chuvas do inverno.

Fustigado pelas chamas que já o atingiam, e instigado também do exemplo, o baio, saindo afinal do torpor que dele se apossara, disparou à cola do brioso campeador; porém, menos intrépido e ágil, muitas vezes tropeçou no braseiro, donde a custo pôde safar-se.

Para rodear a coluna de fogo que lhe cortava o caminho da fazenda, teve o sertanejo de dar grande volta, que o levou aos fundos da habitação, completamente deserta nesse momento, pois todos os moradores e gente do serviço, avisados pelo toque da trombeta, haviam acorrido para o terreiro da frente a receber os donos e festejar a chegada.

Saltou o mancebo em terra sem esperar auxílio, e atravessando a varanda deitou o corpo desfalecido de D. Flor no longo canapé de couro adamascado, que ornava a sala principal.

Compôs rapidamente, mas com extrema delicadeza, as amplas dobras da saia de montar, para que não ofendessem o casto recato da donzela, descobrindo-lhe a ponta do pé, nem desconsertassem a graciosa postura dessa linda imagem adormecida. Com os olhos enlevados na contemplação da formosa dama, agitava como leque a aba de seu chapéu do couro, refrescando-lhe o rosto.

Não assustava ao sertanejo a imobilidade da moça; durante a corrida, a-pesar-do estrépito do incêndio e do esfôrço que empregava para arrancá-la às chamas, não cessara um instante de ouvir sôbre o peito a palpitação do coração de D. Flor, a princípio violenta, mas que foi moderando-se gradualmente.

Conheceu que não passava isso de um simples desmaio causado pelo vapor do incêndio. Com o repouso e a inspiração do ar mais vivo e fresco, a donzela não tardaria a voltar a si. Mas se não receava já pela vida preciosa que salvara, todavia não se desvaneceu completamente a inquietação do mancebo pelas consequências que podia ter aquele susto para a saúde e tranquilidade de D. Flor.

Êste desvêlo extremo enchia-lhe os olhos os feros olhos negros, que fuzilavam procelas nos assomos da ira e que agora, ali, em face da menina desfalecida, se quebravam mansos e tímidos, espreitando a volta do espírito gentil que animava aquela formosíssima estátua, e estremecendo ao mesmo tempo só com a lembrança de que as pálpebras cerradas pelo desmaio se abrissem de repente e o castigassem com mostras de desprazer.

Indefinível era a unção dêsse olhar em que o mancebo embebia a virgem, como para reanimá-la com os eflúvios de sua alma, que toda se estava infundindo e repassando da imagem querida. Ninguém que o visse momentos antes, lutando braço a braço com o incêndio, gigante contra gigante, acreditara que esse coração impetuoso encerrasse o manancial de ternura, que fluía-lhe agora do semblante e de toda sua pessoa.

A respiração da donzela, sopitada pela vertigem, foi-se restabelecendo; o seio arfou brandamente com o primeiro alento, e na face que parecia de alabastro perpassara um frouxo vislumbre de côr.

Ajoelhou então o sertanejo à beira do canapé; tirando do peito uma cruz de prata, que trazia ao pescoço, presa a um relicário vermelho, deitou-a por fora do gibão de couro. Com as mãos postas e a fronte reclinada para fitar o símbolo da redenção, murmurou uma avemaria, que ofereceu à Virgem Santíssima como ação de graças por haver permitido que ele chegasse a tempo de salvar a donzela.

Terminada a oração, volveu a vista em torno como se temesse que as paredes se crivassem de olhos para espiá-lo, e perscrutou o semblante da donzela com uma expressão pávida e suplicante. Afinal, trêmulo, pálido, qual se cometesse um crime, curvou-se e beijou a franja que guarnecia o fraldelim do roupão, como se beija a mais santa das relíquias.

Tênue suspiro exalou dos lábios já rosados da donzela; a mão esquerda moveu-se com um brando gesto que a aproximara do peito. O mancebo retraíra-se vivamente par ao lado da cabeceira: e à medida que os sinais do recobro se manifestavam na menina, ele, sempre voltado para o canapé, sem tirar-lhe os olhos do semblante, se afastava de costas em direção à varanda. Cada movimento de D. Flor era um passo que êle dava, pronto a desaparecer da sala como uma sombra.

Já próximo à porta, violenta comoção o abalou. Dos lábios frouxos da donzela se desprendera em mavioso queixume um nome, e esse nome era o seu:

– Arnaldo!

Irresistível impulso arrojou-o para a donzela; mas, como o cedro que o vento inclina, sem arranca-lo do solo onde lançou a profunda raiz, o sertanejo tinha dentro d’alma um poderoso sentimento, que lhe encadeava os assomos da paixão, e o soldava ao pavimento.

Foi lentamente e com supremo esfôrço tornando do primeiro elance, até que, arrancando-se enfim ao encanto que alí o prendera, desapareceu da sala.

Levantara-se então um grande alarido no terreiro da casa.

III – Chegada

Quando o capitão-mór reconheceu os primeiros sinais do incêndio, preveniu a gente de sua escolta.

— Queimada, Agrela? disse êle surpreso. Neste tempo e nestas paragens, não pode ser.

— É que vem de longe, observou o tenente fincando as esporas no cavalo. Toca avante a escolta.

O trôço de cavaleiros disparou com a machada em punho, desbastando o mato de uma e outra banda para formar um largo aceiro que impedisse o fogo do propagar-se pela floresta.

Enquanto êles abatiam as maravalhas e ramadas altas que facilmente concebiam a chama e a comunicavam, os peões, chamados a tempo, arredavam para longe todo êsse chamiço, isolando os grossos troncos, que se não podiam facilmente derrubar na ocasião.

No meio dessa faina que o capitão-mór dirigia em pessoa e animava com a palavra e o exemplo, soou um grito de aflição. Partira de D. Genoveva, a quem de repente acudiu a idéia do perigo que podia correr a donzela nesse instante, se é que já não fôra vítima da horrível catástrofe.

— Minha filha!… Flor!… bradava a desolada mãe.

E ora queria atravessar por dentro da mata abrasada, levada pelo desespêro à busca da menina; ora voltava-se para o marido com as mãos postas, suplicando-lhe que a amparasse naquela ânsia.

Rápida contração frisou o rosto grave e plácido do capitão-mór, que logo dominou-se. Podia medir-se a energia que recalcou a primeira impulsão, pela fôrça com que o velho se firmou na sela, vergando ao seu pêso o espinhaço da cavalgadura à feição de um arco.

— Não se assuste, D. Genoveva! disse com voz sossegada. Nossa filha não corre perigo.

— De-certo, acudiu Agrela; a doninha passou antes que o fogo chegasse ao caminho, senão teria voltado.

— Esteja descansada, minha mulher. D. Flor já chegou à nossa casa, observou o capitão-mór e tomou ao serviço: Aguenta, rapazes!

— Quem sabe, sr. Campelo; Flor é tão animosa! Talvez teimasse em passar para mostrar que não tem mêdo.

— Mas, senhora dona, insistiu o Agrela, se tivesse acontecido alguma coisa, do que Deus nos livre e guarde…

— Amém! disse a dama.

O capitão-mór tirou o chapéu, gesto que toda a escolta imitou.

— Por fôrça que se havia de ouvir!

— Com êsse barulho do fogo, que parece uma trovoada!…

— Lá o grito da doninha, não digo nada, mas o rincho do cavalo chega longe; e então quando o fogo começasse a chamuscar-lhe a pele!

— Convença-se do que lhe digo, senhora, acrescentou o capitão-mór.

— A prova aí está! Não ouve, senhora dona? Um cavalo que está rinchando lá em casa?

— É verdade! exclamou D. Genoveva.

Agrela aplicou o ouvido.

— E não é outro senão o baio!

— Está vendo, D. Genoveva?

A inquietação da mãe abrandou um tanto, mas não serenou de todo. Nessas ocasiões, quando um grande susto abala profundamente o coração, deixa uma incredulidade, que se não desvanece com palavras e muitas vezes resiste à própria realidade.

É só depois que ao coração, como ao lago revôlto pela tempestade, volta a bonança, que êle recobra sua limpidez, na qual espelha as celestes esperanças.

— Enquanto meus olhos não virem Flor, eu não fico sossegada, sr. Campelo.

O capitão-mór voltou-se para Agrela. Minha senhora dona já pode passar, disse o tenente. Olá, o Xavier e o Benteví!

— Pronto! disseram dois sequazes acudindo à ordem do cabo.

— Ordena o sr. capitão-mór que acompanhem à casa a sra. D. Genoveva? perguntou Agrela.

— Ordenamos!

— Até logo, sr. Campelo. Não se demore; já basta de aflições.

O capitão-mór fez à mulher uma respeitosa cortesia, e enquanto ela se encaminhava à fazenda, tomou ao serviço que sua gente empreendera para atalhar o incêndio e salvar as matas vizinhas, ameaçadas de ficarem reduzidas a cinzas.

O trabalho avançara rapidamente a ponto de poder D. Genoveva atravessar para o outro lado sem necessidade de fazer grande volta. O aceiro aberto na direção da fazenda tinha cortado a tromba do incêndio que o vento impelia naquele rumo, de modo que não foi difícil ilhá-lo nessa porção de terreno já devastada, onde brevemente, consumido pela chama todo o combustível, começou a apagar-se, ficando apenas o brasido.

Todavia, não era prudente abandonar êsse imenso borralho, donde o vento a cada instante levantava enxames de fagulhas, que inflamavam-se no ar e podiam atear novamente o fogo no mato cheio de gravetos e chamiços.

Agrela não descansou enquanto não extinguiu de todo o fogo na largura de umas dez braças, e ainda assim postou de espaço a espaço vigias que aí deviam ficar durante a noite, para dar aviso de qualquer acidente, quando por si não o pudessem remediar.

Durante essa arriscada e árdua tarefa, a gente da escolta e do comboio não deixava de torcer-se com a impaciência de Agrela, mas alí estava o capitão-mór que não somente não se poupava para dar o exemplo, como não duvidaria esborrachar com um murro a cabeça do primeiro que respingasse contra o seu tenente.

Com pouco apareceu o refôrço da gente da fazenda, que avisada pela chegada de D. Genoveva, corria em socorro e deu a última demão ao serviço.

— Podemos seguir, sr. capitão-mór, se V. S. não manda o contrário.

— Vamos!

Só então o capitão-mór Campelo resolveu-se a deixar aqueles sítios para dirigir-se à sua casa da qual se achava ausente havia meses, e a que tão a propósito voltara para salvá-la da ruína de que não escaparia com certeza, se o fogo continuasse com a violência em que ia.

Entretanto havia chegado D. Genoveva ao terreiro, onde a aguardava novo susto.

Toda a gente da casa, agregados e servos, apinhada no meio do pátio, em frente ao caminho, esperava ansiosa que aparecesse a cavalgada para recebê-la com as alvíçaras, toques e aclamações de prazer, que eram de uso em tais ocasiões.

D. Genoveva, apenas entrou no terreiro, sem atender às festas com que a saudavam, foi em altas vozes perguntando pela filha às primeiras pessoas que lhe saíam ao encontro.

— Flor?… onde está Flor!…

Esta pergunta instante deixou a todos surpresos. Não podiam compreender como a dona lhes pedia novas de uma pessoa, que devia estar a essa hora em sua companhia e chegar juntamente com ela e o marido.

A hesitação que se pintava em todos os semblantes, o espanto que já assomava nos gestos de alguns, lançou outra vez a mãe extremosa na mesma, senão mais cruel aflição.

— Minha filha!… gritou com um clamor de angústia. Não viram minha filha?… Ela não chegou?… Então, meu Deus, está morta! O fogo a queimou!…

A dama se arremessara da sela ao chão, e estorcendo os braços convulsos, arrancava os cabelos que se desgrenhavam revoltos pelas espáduas.

Nem uma das mulheres presentes, crias de sua casa e fâmulas, se animava a consolar a dôr suprema da mãe, que perdera a filha. Limitavam-se a acompanhá-la com o pranto e a velar sôbre ela, para ampará-la, se afinal desfalecesse com o atroz suplício.

Foi o capelão, o padre Teles, quem no exercício do santo ministério dirigiu palavras de confôrto à mãe aflita.

— Lembre-se a dona que mais sofreu a mãe de Cristo, vendo seu filho não só morto e crucificado, mas coberto de baldões. E ela bebeu resignada êsse cálice de amargura!…

Mas outro grito soou aí perto, que a todos estremeceu:

— Minha mãe!

Na janela da casa assomara o vulto de D. Flor, que também inquieta pela sorte dos pais a quem estremecia, soltava uma exclamação de desafôgo, avistando sua mãe.

D. Genoveva caiu de joelhos, dando graças a Deus que lhe restituia a filha; e quando ergueu-se foi para estreitar ao peito a donzela que se lançara em seus braços.

— E meu pai? interrogou a menina assustada.

— Não lhe aconteceu nada; sossega; ficou atrás para apagar o fogo; eu é que não podia descansar enquanto não te visse perto de mim, livre do perigo… Que desespêro, quando cheguei, e ninguém sabia de ti! Como não morrí, meu Deus!

— Já passou! murmurava D. Flor. Agora sossegue, que aqui está sua filha querida.

— Sim, sim; parece-me que ainda mais te quero depois que te chorei perdida.

A êsse tempo já toda a gente de serviço corria para o lugar do fogo.

Entre as mulheres que cercavam a dama e sua filha, nem uma tomara maior parte nas aflições, como nas alegrias maternais, do que uma sertaneja alta e robusta sem corpulência, que mostrava no semblante rude, porém amorável, uma franqueza de cativar.

Era essa a Justa, a ama de D. Flor, cujo amor pela menina às vezes causava ciúmes a D. Genoveva, tamanha era a devoção da carinhosa aldeã por sua filha de criação.

Apenas se desprendeu dos braços de sua mãe, D. Flor se atirou com efusão à Justa, que esperava essa carícia, como seu foro e juro de segunda mãe. A alentada sertaneja não se contentou com qualquer afago dos que se costumam fazer às moças; tomou a menina ao colo, e conchegando-a a si como fazia outrora quando a trazia aos peitos, comeu-a de beijos desde as macias tranças dos cabelos até à ponta dos pequeninos pés, calçados de coturnos de setim escarlate.

— Olhem só, gentes!… como veio bonita!… Está-se rindo, hein!… Teve saudades de sua mamãe?… Teve!… Teve?… Não havia de ter!… Por que não voltou logo?… A gente tanto tempo aqui penando!… Pois agora há de pagar! Tome! Um, dois, três… cem!… Ah! cuida que não me hei de desforrar?

Tudo isto interrompido por mil carinhos e entremeado dessa ingênua garrulice com que as mães falam aos filhinhos de colo, e que êles parecem entender: misteriosa linguagem do mais sublime afeto, formada de arrulhos, de carícias e de ternos balbucios.

D. Flor deixava-se acariciar; e cheia de risos, mostrava no semblante o contentamento que sentia banhando-se nessas efusões de amor.

— Então lembrou-se muito de mim, mamãe Justa? disse D. Flor.

— Nem se fala, gente!

A donzela pôde enfim receber as festas das companheiras da Justa. Com todas mostrou-se afetuosa, porém mais especialmente com uma moça que no seu tímido receio não ousava aproximar-se.

— Adeus, Alina, vem abraçar-me.

Entraram afinal as duas senhoras na sala principal.

— Ainda não me disseste, Flor! tomou D. Genoveva, sentando-se no sofá e chegando a filha para junto de si, como que ainda receosa de que lha arrebatassem. O fogo assustou-te muito, ou não havia nada quando passaste?

— Pensei morrer! exclamou D. Flor erriçando-se à lembrança do transe horrível que passara. Está bom; não fique outra vez aflita! Para que falar mais destas coisas?

— Não; conta, Flor!

— Foi um milagre. O baio espantadiço empacou; a princípio não sabia o que era; quando descobrí o fogo, quis voltar. Estava cercada; via as labaredas correrem para mim, e pareciam-me estarem folgando e rindo do mêdo que me causavam. Mas a fumaça de repente sufocou-me, e não soube mais de mim!… Vi que era chegada a minha última hora e encomendei-me a Deus.

— Jesús! pôde afinal proferir D. Genoveva em quem se repetia a ânsia já passada da filha. E como escapaste, Flor?

— Não sei, minha mãe; respondeu a menina ingenuamente. Disse-lhe já que foi um milagre; não pode ser outra coisa. Nossa Senhora quis valer-me!

— Pois foi mesmo Nossa Senhora da Penha de França! afirmou a Justa, que ouvia de pé. E porisso há de ter a sua novena de arrôjo êste ano, que foi a minha promessa, se trouxesse a minha filha e todos a salvamento.

— Obrigada, mamãe!

— Mas, Flor, como chegaste à casa sem que te acontecesse nada?

— Não posso lembrar-me! respondeu a menina pensativa e evocando do íntimo as vagas impressões que lhe flutuavam no espírito. Desde que a fumaça cobriu-me toda, como se fosse a minha mortalha, não vi mais nada; sé dei acôrdo de mim aqui, neste canapé!…

— Neste canapé ! exclamou D. Genoveva atônita.

— E deitada, como se tivesse dormindo.

— Foi a minha Senhora da Penha, que a trouxe nos braços. Porisso ninguém viu quando chegou.

— É verdade! exclamaram outras vozes de mulher.

— Eu tinha acordado; não sabia onde estava, nem tinha idéia de quê me acontecera. Erguí-me e começava a reconhecer a casa, quando ouví gritos no terreiro; corrí à janela e dei com minha mãe.

A moça proferindo estas últimas palavras lançou os braços ao pescoço da mão, e ambas ficaram enlaçadas naquela ardente efusão com que novamente se restituiam uma à outra.

A maneira por que a donzela fôra salva do incêndio, ficou sendo um mistério. A maior parte da gente da fazenda atribuiu o caso à intervenção divina, e acreditava que Nossa Senhora da Penha fizera um milagre em favor da menina e pela intercessão da Justa. Outras, sem afirmar, supunham que a menina, trazida a casa pela disparada do cavalo, que se encontrou atado ao pilar da varanda, apeara-se fora de si e caíra desmaiada de susto no sofá, não se recordando dessas circunstâncias pelo abalo que sofrera.

Quanto a D. Flor, cogitando depois sôbre o acontecimento que ameaçara a sua existência, recordava-se de um grito que ouvira ao perder os sentidos e de um vulto que surgira de repente a seus olhos já anuviados pelas sombras da morte.

Mas essa impressão que ao despertar exalava-se em um nome murmurado à flor dos lábios, seria a fugaz reminiscência deixada por confusa realidade, ou ilusão apenas da fantasia turbada pela vertigem?