Propaganda do Brasil – o que se dizia do Estado do Espírito Santo – viagem – Os trens da Leopoldina – Jornais de Campos – Itabapoana – Paisagens espírito-santenses – O Saturno – Habitações camponesas – O destino das terras marginais da linha férrea – A construção dessa linha e a iniciativa do Governo espírito-santense – A estação terminal de Argolas – A luz – a travessia do canal em lanchas – As senhoras de Vitória – Cais de embarque, etc.
Estou convencida, agora mais do que nunca, de que precisamos fazer a propaganda do Brasil—não só na Europa, onde ela deve ser feita com extrema habilidade, como no próprio Brasil. Porque a verdade é esta: nós conhecemos muito imperfeitamente o nosso país. Acabo eu própria de obter uma prova disto, observando num estado vizinho coisas, que estava bem longe de imaginar.
Deliberei por esse motivo expô-las a quem tinha delas a mesma ignorância que eu tinha. Escrevo com inteira e absoluta isenção, por não ser presa à política por nenhum vínculo quer de família, quer de simpatia pessoal.
Comecemos:
Quando constou que eu arrumava minhas malas para uma excursão à Vitória, alguém, que não há muitos anos viveu por algum tempo nessa cidade, correu a avisar-me que as suas ruas eram fétidas, verdadeiros depósitos de lixo, não devendo eu esquecer-me de carregar comigo frascos de desinfetante e perfumarias. Obedeci sem hesitação, pondo um vidro de Feno, em cada canto da mala e enchendo de frascos de essências a bolsinha de mão. Além dessa calamidade, avisava-me o meu informante, há a da falta d'água. Um chafariz pinga uma lágrima hipócrita de cinco em cinco minutos, ainda assim espremida com inaudito esforço e esperada pela população com enorme anseio. Em frente do chafariz há sempre uma multidão de carregadores, homens, mulheres e crianças, com bilhas e latas vazias de querosene, fazendo cauda, à espera do momento feliz de ir aparar o choro da fonte quase exaurida.
Só esse espetáculo basta para demonstrar a apatia daquela gente. Quem quiser, após as agruras de uma longa viagem, refrescar-se, ao chegar ao hotel, com um banho geral, terá de avisar o hoteleiro com certo tempo de antecedência por carta ou por telegrama, para que ele possa dar para isso as suas providências.
Ouvindo tais palavras eu não sabia se havia de sorrir, se de tremer, tanto elas me pareciam mentirosas ou apavorantes! Logo a onda das informações engrossou. Toda a gente que dizia conhecer o Espírito Santo me descrevia com pena o seu atraso material. Além do mais afirmava-se que o fanatismo do seu atual presidente criara por todo o estado uma atmosfera opressiva de desconfiança e de terror. Ninguém dobrava uma esquina sem se benzer. Falava-se em funcionários exonerados de cargos vitalícios por não assistirem à missa (!); em ruas coalhadas de batinas e de gente escorrida, de olhos postos no chão ou espreitando pelas frinchas a vida alheia para fazer ressuscitar na terra brasileira a alma terrível da Inquisição.
Procuro orientar-me pela leitura dos jornais. Mas o jornais não me orientam. Ao contrário, agravam-se a expectativa, comentando com acrimônia um contrato de madeiras firmado pelo governo do Espírito Santo com uma firma estrangeira, em que, segundo dizem, as florestas famosas desse estado serão devastadas, pondo a nu a terra e amesquinhando os mananciais dos rios. Eu, que sou uma defensora das florestas, toda me sinto arrepiar a esses comentários. Diante de tantas informações desagradáveis, não será muito mais prudente deixar-me ficar quietinha em casa? Voltando-me, entretanto, a falar da beleza da baía de Vitória, Afonso Celso, alma de artista e de poeta, recomenda-me que não deixe de navegar em horas de vária luz por entre as sua penedias e as suas ilhas maravilhosas. Há qualquer coisa que me chama, que atrai o meu coração e o meu pensamento para essas terras tão nossas vizinhas e tão nossas desconhecidas; tomo uma resolução e invisto para o trem.
***
Às nove horas de uma sexta-feira parti da estação de Santana, em Niterói, para a Vitória num confortável vagão-leito da Leopoldina. O quarto, iluminado a luz elétrica, fornecida ao trem pelo movimento das rodas e nunca interrompida, porque ele dispõe de acumuladores, permite que, mesmo deitada, eu continue a leitura de um livro que me interessa. A cama é boa, de alvos lençóis de linho e cobertor branco, de lã. Para início da viagem não estou mal; de resto, o movimento de tangage (dos pés para a cabeça) imprimido ao corpo por esse leitos transversais parece-me menos enjoativo que os colocados no sentido longitudinal, como os da Central. Com pequenas interrupções, durmo até a vizinha cidade de Campos, onde se passa ao carro-salão, e onde há uns tantos minutos de demora para o café. Percorro a gare — olho para todos os lados, a ver se lobrigo algo da cidade: pontas de torre ou dorsos de telhados. Mas a cidade deve ficar longe; não vejo nada e verifico com alegria que, se nada posso julgar, embora furtivamente, da sua grandeza material, tenho do seu desenvolvimento intelectual uma prova ao alcance das minhas mãos: os jornais. Nada menos de cinco. Compro-os com avidez e atiro-me para o trem, que partiu logo.
Da minha travessia pelo estado do Rio tinha-me ficado um desgosto: não ter visto a estação, já que não podia ser mais, da velha cidade de Macaé, a que sou afeiçoada por tradições de família e que não conheço. Mas agora, à luz da manhã toda azul e ouro, eu não tinha tempo para lamentar coisa nenhuma e só para ver.
A região descampada que percorríamos respondia à nossa curiosidade amiga com uma nuvem de pó, e foi só transposto o rio da divisa, o claro e manso Itabapoana, que essa nuvem loura e importuna se dissipou, como que por encanto.
Por maior que seja a simplicidade com que procuro escrever estas linhas, desornando-as de todo o luxo de uma adjetivação embaraçosa, tornando-as, tanto quanto possível, numa espécie de fotografia intelectual, em que se veja mais a nudez da verdade do que a atmosfera que a envolve, é bem possível que me fuja da pena uma ou outra expressão, que possa parecer ao leitor demasiada em relação à beleza dessa estrada que sobe em voltas de valsa de longas elipses até a uma altura de setecentos e dezesseis metros, e que desce do mesmo modo até quase ao nível do mar.
Os cortes das montanhas desenham pórticos de roxo antigo no fundo verde da vegetação. A estrada, evitando a perfuração de túneis, como se tivesse medo ao escuro, coleia pelo dorso das montanhas, quase na grimpa, ora aproximando-se, ora fugindo de águas que se despenham ou que deslizam. Aqui ondeia o Muqui, de leito tachonado como uma pele de tigre, e de alma sossegada como uma pomba juriti. Apertado entre colinas e penedias, acompanha por algum tempo a estrada, dando lugar depois a outros rios mais fortes e cachoeirosos.
Há, porém, um trecho nesta belíssima estrada da Leopoldina, de que jamais se esquecerá quem o tenha percorrido com a cabeça fora da portinhola do trem: é o "Soturno" ou Garganta do Inferno. O trem corta o flanco da penedia imensa, cosendo o seu corpo de réptil negro e fumegante ao corpo duro e frio de pedra branca. O precipício é terrível. Não tem mistérios. É a ribanceira enorme, íngreme, alvadia, em que se despedaçaria, implacavelmente, carne humana ou ferro bruto, que nele fosse despenhado.
Vista de cima, do caminho estreito em que parece haver apenas espaço para os trilhos, cortado parte na rocha, parte suspenso sobre um viaduto, a pedreira do Soturno, na sua nudez e austera simplicidade, acorda fatalmente em quem a veja a idéia da morte. Vista de fora, de uma curva da estrada, tem o aspecto de uma obra de arte monumental, escultura da nossa natureza posta ali pela mão formidável de um ignoto Miguel Ângelo.
A par de belezas imponentes há doçuras de paisagens, que atraem a imaginação para outras idéias.
Não me sinto nunca afagada pela sombra fria de florestas densas. As regiões que atravesso devem ser antes propícias a campos de criação, embora todas ondeadas pelos dorsos dos morros sucessivos. Há de longe em longe restos de cafezais e um ou outro canavial sem importância.
O destino daquelas terras deve estar realmente preso ao gado. Entre montes de vegetação rasteira e clara aparecem aqui e além grandes tufos de árvores. São os bosques de mataria, em que sobressaem as umbaúbas e imbaíbas com os seus troncos altos, esguios, muito brancos, como ossos descarnados ou grossos traços verticais de giz sobre o fundo verde-negro da vegetação.
Sempre que viajo pelo interior dos nossos estados procuro, embora de passagem, observar o tipo de habitação dos nossos camponeses. Estes, do Espírito Santo, parece terem certos instintos de gosto. As casa, se ainda têm telhados de palha, esta é subjugada por linhas paralelas de trançados de embiras aparadas com maior ou menor perfeição. Entretanto, entre estes telhados são freqüentes outras cobertas de escamas de madeira com a sua cor natural. As casa são em geral bem caiadas, resplandecendo de alvura no meio dos prados, e tanto os seus umbrais como as suas portas vêm-se ao longe pela violenta tinta azul anil com que são pintadas. O aspecto é agradável e dá, francamente, a quem o vê, uma impressão saudável de alegria e de asseio. Uma outra nota que afina com essa é a de fazerem paredes divisórias de terrenos com pés de laranjeiras, plantadas tão perto umas das outras que os seus ramos se embaralham e confundem, a ponto que elas mesmas, interrogadas, não poderiam dizer quais seriam os seus galhos, quais os das suas vizinhas.
Isto, que parece coisa nenhuma, é já, aos meus olhos, um magnífico sintoma. Passam-se, todavia, largos trechos sem que veja nenhuma habitação. A terra está à espera do trabalhador que a fecunde, do rebanho que a anime. Ao longe, a famosa pedra Itabira aponta silenciosamente o azul limpo do céu, entre os grandes rochedos — o Frade e a Freira. Por mais curvas que o trem faça, vejo-a sempre ao longe como uma sentinela sonhadora, coberta pelo véu azul da idealidade.
Eis-me, porém, sobre o raso Itapemirim, largo e cantante, em frente à cidade do Cachoeiro, que, a julgar pelo movimento da gare, deve ser animada.
Tendo almoçado no próprio trem, no seu bem organizado salão-restaurante, eu não tinha, desde a véspera à noite, posto o pé em terra senão na curta estadia em Campos, para o café matinal. Não me sentia, contudo, enfadada pela viagem; ao contrário, tinha a convicção de que, só por si, ela justificaria interesse de uma excursão à Vitória.
Essa estrada, inaugurada pelo Dr. Nilo Peçanha, creio que no último mês da sua administração, é um verdadeiro desafogo para o estado do Espírito Santo . Ela é tanto uma estrada estratégica como um traço de união entre o progresso da capital da República e a Vitória, e representa um golpe de alto tino administrativo do homem que, como depois observei, à energia silenciosa de um esforço incansável, alia a habilidade de um fino diplomata: o Dr. Jerônimo Monteiro.
Quando esse senhor assumiu a presidência do Espírito Santo, encontrou feito um trecho dessa estrada, entre a cidade da Vitória e a do Cachoeiro, tendo, portanto, princípio e fim em terras do mesmo estado, numa zona de insignificante produção agrícola e pequeno movimento comercial. O custo desse trecho da estrada tinha sido excessivamente caro e sua manutenção era incompensada, mesmo onerosa. À vista desse embaraço econômico, o governo do estado tomou a resolução progressista de o vender por preço reduzidíssimo à Leopoldina, impondo-lhe a obrigação de, em prazo determinado, inaugurar a viação férrea entre Vitória e Niterói e exigindo ainda dessa Companhia outras obrigações entre as quais figura a construção de uma grande ponte movediça que ligue a cidade da Vitória ao continente. Houve naturalmente quem pusessem as mãos na cabeça, clamando contra o desperdício de ver vender por quase nada o que tanto dinheiro tinha custado ao estado; mas tudo leva a crer que essas mesmas pessoas estejam hoje convencidas de que, mesmo que o governo tivesse feito presente desse trecho de caminho de ferro à Leopoldina, ainda assim teria lucrado com a transação. Graças a esse rasgo administrativo, nem as pessoas nem os progressos da Capital Federal precisam esperam, com oito dias de intervalo, o enjoativo transporte marítimo, a fim de seguirem para a terra capixaba.
Estas primeiras informações foram-me fornecidas no próprio trem por um viajante português, que eu conheci há anos no rio de Janeiro e que é atualmente morador na Vitória. Nenhum laço o prende à política nem às pessoas da representação oficial. É, pois, uma voz insuspeita, a primeira voz que me revela alguma coisa sobre a organização administrativa do Espírito Santo.
É ainda esse viajante quem me aponta, na vertiginosa corrida do trem, uma grande represa de águas e uma usina fornecedora de eletricidade.
— Então a cidade da Vitória...
— É iluminada a luz elétrica. Devemos também esse melhoramento ao governo atual. E vai ver que boa luz!
— Antes, havia gás?
— Não; havia lampiões de querosene e lanternas. Quem se aventurasse a sair à noite teria de levar luz consigo... Passar-se do petróleo e da vela à lâmpada elétrica é caminhar aos saltos!
Era já noite quando o trem parou na sua estação terminal, em Argolas, em face da cidade da Vitória. A gare estava coberta de povo, sendo grande parte dele constituído por senhoras, elegantemente trajadas. A estação tem o caráter provisório; é feia e de madeira. Espera naturalmente o lançamento da ponte para se mudar definitivamente para a outra margem. Mas não há tempo de olhar para isso, já as lanchas estão atracadas à espera dos passageiros, e temos todos de saltar para elas sem perda de um minuto.
Ainda não rompeu o luar, mas no céu de veludo azul ferrete brilham os astros com um esplendor diamantino. Nas águas escuras tremeluzem reflexos de ouro e de escarlate de várias luzes, as lanchas partem, e em poucos minutos pisávamos o solo da Vitória, desembarcando no Éden-parque. A cidade tinha uma feição alegre e tumultuosa, a que não me referirei por ser anormal; somente posso assegurar que ao adormecer, tarde, nessas noite no hotel, eu me sentia abalada pela doce impressão de uma agradável surpresa.
Cidade de granito e de mangue – O estilo da cidade – Maria Ortiz e os Holandeses – Casas comerciais – Uma esperança – Uma crisálide que rompe o casulo abandonado – Vila Moscoso – Um parque e duas avenidas – O quartel de Polícia – Lodaçais e mangues que desaparecem – O hospital novo – Habitações populares -A cidade acorda de um letargo – O Bairro do Rubim ou a cidade de palha – Os telhados – A água – Os filtros – Elementos de salubridade – O astro saudoso encarregado do policiamento da cidade – A luz elétrica – Águas servidas – Os esgotos – Quando as famílias dos oposicionistas devem discordar dos seus chefes – O futuro Mercado – O futuro hotel – O papel desempenhado pelos frascos de Fenol e de essências -Serviço de limpeza pública e domiciliária – Em duas horas de passeio – O Suá – A capela do Rosário – O palácio presidencial; o cais do imperador; o jardim da Esplanada – Velhos conventos – Maravilhosa transparência da atmosfera – Os astros – Partida para Vila Velha.
Vitória, se não é, como a Lisboa cantada pelo poeta, uma cidade de mármore e de granito, é uma cidade de granito e de mangue.
A casaria apertada, no estilo das velhas cidades minhotas, encarrapita-se pelo morro acima formando ladeiras e vielas que fazem, a quem as veja pela primeira vez, pensar nas aventuras dos romances de capa e espada.
Aqui na rua estreita descendo em sucessivos lances de escadas entre prédios altos, de janelas à antiga, de uma das quais Maria Ortiz despejou água a ferver sobre os holandeses invasores; acolá a sinuosidade de um caminho beirando as paredes de um convento ou de um colégio fundados pelos jesuítas nos tempos coloniais e, de repente, um corte de terreno, de onde se descortina o azul do mar ou o dorso verde das colinas da outra banda, isto é, do continente.
Na linha plana, em baixo, as ruas comerciais têm muito maior movimento do que eu poderia supor, à vista do que me diziam no Rio da apatia do povo e do atraso do lugar. Nessa parte da cidade as casas, já com fachada à moderna, infundem, muitas delas, a idéia da abastança e da prosperidade.
Há coisas que não se vêem nem se explicam — sentem-se. O ambiente de um lugar tem a sua voz que, embora intraduzível, nos assegura se nele se vive com esperança ou desespero. E tudo, neste torrãozinho pitoresco que é a velha cidade de Vitória, me fala do futuro, porque, todo ele é uma esperança que lateja, uma crisálide que rompe o tosco casulo abandonado para espanejar à luz as asas multicores.
Basta olhar, de qualquer ponto em que se descortine uma área considerável, para se observar o seu esforço de transformação. Os mangues, a que aludi, começam a desaparecer sob as camadas do aterro. Na parte baixa da cidade, em uma planície conquistada a um antigo e extenso lodaçal, Vila Moscoso, vi o debuxo de duas avenidas e um parque já com o leito do seu lago pronto e já combinadas as suas futuras sombras pelo agrupamento das plantas, indicadas nos relvados nascentes.
Em frente a esse campo, agora todo drenado e enxuto, onde em vez de caranguejos patinhando em lama correrão em breve as crianças por sob a galharia das árvores benéficas, o Quartel de Polícia, livre agora das umidades geradoras do béri-béri, que se infiltravam nas suas paredes precipitando a ruína do edifício e a morte dos soldados, firma-se em terra seca e mostra internamente condições de higiene, que não sei se serão comuns em outros quartéis. No alojamento das praças, por exemplo, vi camas com lastros de arame revestido de sola. Essas camas são móveis, ficando durante o dia suspensas, para que toda a sala livre e nua possa ser lavada sem estorvo. O ofício rude do soldado é adoçado assim na sua hora de repouso. Não tive tempo de visitar as aulas de leitura e de música no curso policial, porque a minha visita a esse estabelecimento foi apenas uma visita de passagem, matinal e apressada.
Não longe desse lodaçal desaparecido, está desaparecendo também um mangue, engolido pelo aterro do hospital novo. Esse hospital é edificado em pavilhões separados, quase concluídos, olhando do alto de uma colina para a cidade e para o mar. Se bem entendi o meu cicerone, para construírem esses pavilhões em terreno nivelado fizeram um platô no alto da colina, e é com a terra tirada para esse efeito que aterram o mangue próximo, saneando o local e prolongando uma das ruas mais bonitas de Vitória, que é a avenida Schmidt.
Foi um curto passeio matinal que tive ocasião de observar estas coisa, que desejaria descrever com absoluta clareza, porque tenho a convicção que serviriam de estímulo a muitas atividades ainda adormecidas...
Realmente a impressão, que tive naquele curto passeio, foi uma alegre impressão de trabalho.
Enquanto as carroças cobriam o lodo salgado com a terra seca do morro; enquanto os trolhas e os pintores davam a última demão a uma grande série de habitações populares higiênicas e baratas, feitas por iniciativa do governo de acordo com um poderoso capitalista do lugar, com quem contratou a edificação de duzentas casas sob várias condições de preço, de tipo e de tamanho, prestando com isso grande benefício à população crescente da Vitória, enquanto as paredes do hospital novo cresciam para refúgio de futuros padecimentos, cá em baixo na estrada os engenheiros eletricistas se apressavam mandando a turma dos seus empregados abrir covas no chão para os postes dos bondes elétricos.
A cidade acorda de um letargo de séculos e quer ganhar tempo aos saltos.
Foi no bairro Rubim, antigamente Cidade de Palha, que eu vi as obras, que acabo de citar. Essa visita não figurava no programa estabelecido para os seis dias da minha demora na Vitória.
Para ver a Cidade de Palha não roubei nada ao meu programa, mas roubei ao meu sono algumas horas, que só no Rio recuperei. Pelo menos isto indica que a Vitória tem que ver!

Vila Rubim
Que é a cidade de palha? Uma vila de operários, uma espécie do nosso Morro de Santo Antônio, mas sem lixo, com alegria, com asseio, com água. Até ao alto do mais alto barranco, onde se aninha um casebre, ali vereis uma torneira jorrando água em abundância.
Antigamente todas as cobertas das habitações desse bairro eram trançadas com folhas de palmeira ou com sapé.
Era o canto da pobreza, bem significativo e bem pitoresco, entretanto.
Numa colina, em frente ao canal que divide a ilha do continente, esse bairro policromo e modesto dá a impressão de um quadro curioso, uma grande tela coberta de borrõezinhos de tintas disseminadas sem ordem, ao salpicar dos pincéis, pela mão fantasiosa de um paisagista risonho.
Hoje as casas têm paredes caiadas, e a maioria delas é coberta de telhas. Pode-se ainda assim, conforme observou o ilustre médico que me acompanhava, presidente do Congresso espírito-santense sr. dr. Júlio Leite, a cujo espírito e a cuja amabilidade seria ingratidão muito feia não fazer eu aqui uma referência, estudar nesses telhados da Vila Rubim, alinhados em vários planos como nas camadas geológicas, as diferentes épocas da sua história.
Ao lado de um ou outro teto de palha ainda refratário, vê-se um de zinco com a sua cor natural, para logo adiante aparecerem outros também de zinco, mas já pintados de vermelhão ou verde, até aos outros, de telha comum. Não será preciso esperar muito para surgirem entre eles alguns de terraço, com as competentes balaustradas e tinas para flores...
Mas a principal alegria para os habitantes do Rubim, como para os de toda a cidade, é a água. Se para os ricos e os remediados a água era ainda há três anos na Vitória um líquido quase tão precioso como o Champagne, imagine-se o que seria para os operários, que a não podiam comprar com a mesma facilidade, porque na estação estival cada lata (das de querosene) cheia de água custava 200 réis, 500 réis e, quando a seca apertava, dez tostões e por muito favor! Então ela era colhida dos mananciais escassos da ilha, distribuída em quatro chafarizes da cidade, fora alguns poços para serventia pública. Parece impossível que um tal estado de coisas pudesse durar perto de um século, para só agora ser remediado, mas felizmente remediado de um modo absoluto e definitivo. Disseram-me haver na Vitória água pura para uma cidade de dez vezes maior população, e que haverá em breve para uma cidade de cem vezes maior população, porque está sendo atacada com vigor uma nova obra para abastecimento de água aos arrabaldes do continente, bem como outra muito importante — que é a construção dos filtros. A água sairá já filtrada das torneiras, e não em pranto gotejado como outrora, mas em torrentes copiosas.
Tanto este elemento de alegria e de salubridade como o da luz elétrica, que substituiu as lâmpadas belgas a querosene que alumiavam as ruas, com exceção das noites de luar, em quem de boa ou de má vontade, o astro saudoso ficava encarregado do policiamento da cidade; tanto esses dois melhoramentos como ainda o dos esgotos, inaugurado no ano passado, deram tamanha popularidade na Vitória ao atual governo do Espírito Santo, que não se pode deixar de falar num, e com justo louvor, sempre que se tenha de falar da outra.
Até há bem pouco tempo era um problema saber-se nessa cidade, em que a maioria das casas não tem quintais, onde atirar-se um pouco de água servida, visto que nem sempre pode ser considerada obra meritória vazar-se de uma varanda qualquer tachada de barrela a ferver sobre a cabeça de quem passe, seja holandesa ou cabocla, pacífica ou belicosa.
Mas foi sobretudo o abastecimento da água, primeira comodidade estabelecida pelo sr. Jerônimo Monteiro na capital do Espírito Santo, que lhe granjeou a simpatia da cidade, e muito especialmente a de todas as donas de casa. As próprias famílias dos oposicionistas discordam com certeza dos seus chefes sempre que abrem as torneiras dos seus banheiros ou das suas cozinhas.
A par das obras que observei nessa excursão matinal, citam-me outras já contratadas e com proteção do governo, como por exemplo o mercado. O de agora será substituído por um outro de ferro e de vidro, com aquário para peixes e câmaras frigoríficas para carnes e frutas. Falam-se também da construção de um hotel com cerca de oitenta quartos e todos os rigores da higiene e do conforto moderno, preocupação que não pode ser adiada, porque já é considerável o número de forasteiros nessa cidade. E esse número crescerá em pouco tempo enormemente, sem a menor dúvida.
Volto para o meu hotel com a cabeça cheia de surpresas. Realmente, será esta a gente apática, de que me falavam, e esta a cidade fétida atapetada de lixo? Para certificar-me ainda, chego à janela do meu quarto. Em frente, a ladeira da Matriz sobe apertada entre casaria de paredes brancas; em baixo, ondeia outra rua edificada em estilo mais moderno. Olhei: tanto uma como outra estavam limpas. Inclinei-me da sacada, dilatei as narinas no esforço de perceber a qualidade do cheiro dessa cidade marítima. Não senti nada. Se nas varandas não havia rosas, também nas portas não havia lixo. Lembrei-me então dos meus vidros de fenol e de essências, ainda arrolhados, e não pude deixar de sorrir.
Contando eu isto a algumas pessoas nesse mesmo dia, retrucaram-me que na verdade até pouco tempo o leito das ruas da Vitória permanecia por longas horas enfeitado por pequenos montículos de retalhos e de detritos de toda a espécie. O atual governo estabeleceu o serviço de limpeza e de higiene pública e domiciliária, de modo a fazer cessar por completo essa vergonhosa exibição de imundícies.
Em duas horas de passeio, feito ora de bonde, ora a pé, tive assim nessa manhã ensejo de observar, colhendo-a a bem dizer, em flagrante, a ânsia de progresso que se está desenvolvendo na capital do Espírito Santo, essa pequena cidade, hoje de tão originais aspectos e tão alegres coloridos e destinada a ser em futuro não remoto um grande empório marítimo; assim lhe sucedam a este atual outros governos igualmente patrióticos e ativos.
Em contraposição ao bairro dos operários, a antiga Cidade de Palha, há o bairro elegante da Praia do Suá, preferido por toda a gente que pode hoje na Vitória construir um chalé ou um palacete, Fica um pouco distante do centro. Corresponde em ponto muito mais pequeno e em relação à cidade à nossa Copacabana. Demais a mais, é a melhor, se não única praia de banhos da Vitória, e parece que muito concorrida, pela facilidade de condução, indo o bonde até à praia em viagens amiudadas. O bonde atravessa grandes extensões ainda por edificar, ora em linhas retas, ora em estradas curvas marginando golfos e mangues. Mas esses mangues estarão em breve cobertos de bosques de eucaliptos e essas colinas alegradas pelos talhões das hortas e dos jardins.

Praia de Banhos Suá
O seu destino está escrito pelo progresso da cidade que desperta, guardada à vista pelo penhasco majestoso do Penedo, que desempenha na baía da Vitória, com mais austeridade, o mesmo papel ornamental do nosso Pão de Açúcar.
Conquanto a cidade seja constituída num terreno rochoso, há nela em vários pontos alguns tufos de vegetação forte de um verde intenso, como um, do qual se destaca o palacete do coronel Guaraná, e o outro que serve de fundo à capela do Rosário, que se vê de longe com a sua branca escadaria de pedra e o seu adro cingido de pilastras e de grades.
Como em toda a parte do mundo por onde andem, os jesuítas souberam escolher na Vitória os pontos mais culminantes e melhores para suas edificações. Dá disso testemunho o próprio palácio presidencial, que é um antigo convento construído na parte alta da cidade, e dominando por uma das suas faces laterais uma larga escadaria de pedra que vai até a baixo, o cais do Imperador. Em frente à sua fachada principal há um novo jardim, de esplanada, sustentado por muralhas, e onde duas vezes por semana tocam as bandas locais para alegrar o povo. Junto ao palácio, tem a igreja de S. Tiago, que não visitei, como não visitei também o velho convento de S. Francisco, o que lamento, porque deve haver dentro deles algum assunto antigo e artístico digno de atenção. Nem ousei falar nisso, porque havia um programa a cumprir, e eu começava a perceber que a pequena e tão singular cidade de Vitória não se mostrava toda em poucos dias a ninguém.
O que notei ali desde o primeiro dia até ao último, foi uma admirável transparência na atmosfera, uma claridade puríssima que envolvia as coisas, fazendo-as realçar com todos os seus detalhes.
Essa nitidez que deleitava os meus olhos deve fazer o desespero dos pintores que tentem passar para a tela as encantadoras paisagens espírito-santenses. Águas, troncos, pedras, galharias de árvores, telhados de casas ou barrancos de estradas, não se dissimulam nem se fazem adivinhar sob nenhum véu de névoa que os idealize; mostram-se cruamente, nuamente, em todas as minúcias da sua cor e da sua contextura. O céu tem por isso tintas de um fulgor delicioso, manhãs de turquesa líquida, crepúsculos cor de rosa que tingem de vermelho as águas fundas do mar. Mas é sobretudo à noite, que na sua transparência e profundidade o firmamento mais se embeleza pelo clarão lucilante dos seus astros.
Mas não nos detenhamos a olhar para as estrelas feiticeiras, porque é tempo de tomar a lancha e partirmos para Vila Velha.
A baía da Vitória – Um canteiro ambulante de papoulas – Vila Velha – O fim destes artigos – Um período de transformação – A sociedade – Pedro Palácios – O Convento da Penha – Um quadro de Velasquez – Efeitos da fé – A construção do Convento no alto da Penha – Rivalidade de Vila Velha e da Vitória – A Diamantina e seus prodígios futuros – Ladeira mais fácil de subir que descer – Promessas – Hospedagem fidalga – Escolas – Governo Municipal de Vila Velha – Fortaleza de Piratininga – Beleza do local – Ordem do estabelecimento – Ginástica sueca – "Five o'clock tea" – Doçura ambiente – Volta à Vitória.
Eram oito horas da manhã, quando "Santa Cruz" zarpou da Vitória com rumo à cidade do Espírito Santo.
Ora, até que enfim, ia eu ver essa poética baía tão recomendada pelos poetas e pelos navegantes. Propensa às contemplações da natureza, desviei a atenção das pessoas que me rodeavam, o que posso garantir não ser coisa fácil, visto que a sociedade da Vitória tem na singeleza do seu trato seduções imperiosas, e abri bem os olhos para as maravilhas dessa porção de mar em que a "Santa Cruz" ia estendendo o lençol do seu rasto escumoso.
A quem já conhece a baía Guanabara parece impossível poder encontrar motivo de admiração em outra baía, de mais a mais do mesmo país, o que quer dizer da mesma natureza e a pequena distância, relativamente. E, todavia, encontra-o. A da Vitória tem surpresas. Toda ela é feiticeira, toda ela é um misto de poema e de graça, de transparências lúcidas e de recortes airosos. Porque eu levasse talvez nos olhos a impressão majestosa da baía do Rio, tudo nessa do Espírito Santo me parecia de proporções reduzidas e tendo nisso mesmo um encanto muito peculiar e muito interessante. As montanhas que a rodeiam não assombram ninguém; guardam proporções perfeitamente compreensíveis e de uma normalidade de formas quase inquietante.
Em certos pontos, quem está dentro dela pode julgar-se em um lago, tanto a conformação das terras que a cingem parece isolá-la do grande Atlântico.
Alguém, dentro da lancha, chama a minha atenção para os pontos mais pitorescos: aqui uma ilhota; acolá uma linha branca de praia, ou a habitação de um inglês, de bom gosto, numa colina solitária e verde, ou um bosque à beira da água. No cimo de tal montanha azul, cujo nome a minha triste memória esqueceu, descrevem-me uma cavidade natural, para onde os índios atiravam os seus mortos.
Ficava assim o seu alto cemitério de fácil comunicação com o céu.
Reconheço de longe a graciosa Praia do Suá com as suas barracas brancas ainda armadas para os banhistas; e perto o forte de S. João, Penedo, e o contorno de terras vistas na véspera. O mar está de um azul veemente. Cruzamos com outra lancha, em que escolares de vestidos escarlates, uniforme dos colégios, fazem lembrar a floração de papoulas num canteiro ambulante.
Sacodem-se lenços, mas já alguém me faz voltar a cabeça para a Pedra dos Ovos, ilhota que lembra as da vizinhança de Paquetá.
Seria estultice tentar sequer descrever com esta minha pena rombuda e trôpega o encanto das terras, que circundam a baía da Vitória. De resto, o fim destes artigos não é fazer literatura, mas dar, com a possível clareza, idéia do movimento de um dos nossos estados de menores recursos e em um período que é para ele, positivamente, de transformação.
Foi a verificação deste fato que me impulsionou a escrever estas linhas, com a esperança de que elas possam servir de alento a outros estados de mais frouxa iniciativa.
Fique, pois, entendido que a baía da Vitória não desmentiu, antes confirmou absolutamente todo o bem, que dela me tinham dito, e que foi com os olhos cheios da sua beleza que aportei a Vila Velha, primeiro pouso desse desventurado boêmio Vasco Fernandes Coutinho, a quem por mercê de D. João III foi doada a capitania do Espírito Santo.
Rodeada, ali como na Vitória, por uma sociedade fina e carinhosa, empreendi corajosamente a subida do convento da Penha, proeza de que me sinto ainda agora um pouquinho espantada. Não sei a quantos metros de altura fica esse templo, mas posso assegurar que jamais pisei rampas mais resvaladiças nem mais íngremes do que as da Penha, em que ele está assente.
Antes de subir, para que eu tomasse fôlego, levaram-me a ver, perto do portão da entrada, uma pequena gruta natural, onde um frade, frei Pedro Palácios, salvo de um naufrágio, se acolheu, ou antes se escondeu, talvez com medo dos índios, guardando consigo um registo a óleo da Senhora da Penha, que atribuem a Velasquez, não sei por quê, e que também não sei como pode escapar são e perfeito do naufrágio aludido. Mas lendas não são assuntos de comentário neste gênero de artigos meramente descritivos, não se podendo gastar com eles senão o tempo da referência. Não sei quantos dias viveu frei Palácios agachado no seu obscuro buraco, sob uma lapa suspensa e úmida.
O caso espantoso não é esse; o caso espantoso é que todas as noites o quadro a óleo da Senhora da Penha, com o seu bendito filho nos braços, via na gruta da planície adormecer o frade em santa paz, para, ao romper da aurora, aparecer bem do alto da alta penha, em que vive agora definitivamente! O poder do milagre fez os seus efeitos. índios e colonos, tocados por ele, consentiram em carregar à cabeça as pedras, as madeiras, todos os materiais, enfim, com que lá em cima se construiu o grande convento, com a sua torre quadrangular, a sua capela, em que a obra de talha conserva a cor natural da madeira em que é feita, as suas grandes cisternas, porque não havendo fontes no morro seria preciso prevenirem-se para conservar as águas da chuva; as suas celas e corredores e as suas escadarias e terraços. Bem como as pedras, foi carregada à cabeça a água com que se argamassou o barro e a areia para edificação de tantas e tão grossas paredes!
O caso espanta o touriste, mesmo o menos impressionável, e que ainda arquejante dá por bem empregado o esfalfamento da subida, quando lá em cima espalha a vista pelo panorama em redor e vê de um lado o mar, de que emergem aqui e além dorsos de rochas ou pontas de serras de vários cambiantes, estendendo-se depois azul e largo até ao infinito horizonte. Em baixo, a grande planície de Vila Velha, verde-clara e branca, toda ela coberta de gramíneas curtas e de areais, com os seus grupos de casas aqui e além, ruas bem alinhadas e campos cortados de esteiros, que lampejam ao sol e que ali estão à espera da futura cidade, que os há de aproveitar como elemento de graça, margeando-os de árvores, cobrindo-os de longe em longe por pontes elegantes.
Parece-me perceber uma certa rivalidade entre Vila Velha e Vitória, mas essa rabugice ingênua desaparecerá logo que as duas cidades formem uma só, ligada que seja a ilha ao continente pela ponte móvel da Leopoldina. Se as distâncias hoje são grandes entre si, também grande será o incremento dado à capital do Espírito Santo pela Estrada de Ferro da Leopoldina, destinada a transformar o porto da Vitória num dos portos mais ativos do Brasil.
Calculam-se já as toneladas de ferro bruto, que os comboios dessa estrada trarão diariamente de Minas e dos confins do próprio estado do Espírito Santo, para despejarem nos porões dos transatlânticos estrangeiros à sua espera na Vitória, e o número dessas toneladas atinge a uma soma enorme. Mas, voltemos a falar do convento.
Como a ladeira do fado português, que é mais fácil de subir que de descer, porque ao subi-Ia levava o namorado a esperança de ver lá em cima a sua amada, e descendo-a já vinha carregado de saudades suas — assim, mas por outras razões, está claro, é a do convento da Penha de Vila Velha.
Para cima, o peito arfa, mas os pés não escorregam; para baixo, é necessário vir-se executando prodígios de equilíbrio para não se cair redondamente sobre os duros calhaus denegridos e lustrosos, que revestem o solo. E ao pisá-los pensa a gente com espanto na resistência de certas criaturas, que sobem aquelas rampas de rastos por promessa, chegando a cima quase exânimes, ensangüentadas, mas, enfim, ainda vivas!
Parece que hoje não são permitidos tais excessos e que mesmo as ofertas de cera, de cabelos, de trabalhos a miçanga e de quadrinhos ingênuos e grotescos, que ali, como em todos os templos milagrosos, cobrem as paredes das sacristias, vão ser pouco a pouco substituídas por pequenas placas de mármore com o voto do ofertante.
Creio bem que a imaginação do povo relute em aceitar essa substituição, não encontrando na pedra fria o símbolo correspondente ao ardor da sua fé.
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