– Que temporal!
– E um friozinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho da chuva quando se está agasalhado? Eu estou me regalando...
– Sempre o mesmo egoísta! Como estás em tua casa... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quase horas de me ir recolhendo aos meus penates. E ali o padre Assunção, caso não fique pelo caminho, terá também que marchar um bom pedaço a pé. Ao Teles, esse o bonde leva-o até o quarto de dormir! Nasceu empelicado.
Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Cláudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assunção, o deputado Armindo Teles e o Adolfo Caldas, homem de quarenta anos, sem profissão determinada, mas muito bem aceito nas rodas políticas e literárias, que freqüentava assiduamente.
Tinham jantado tarde, fumavam agora na biblioteca de Argemiro, sentados à mesa do pôquer.
Menos por virtude que por cansaço, padre Assunção não quisera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o pano da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma cor pálida; e nas suas feições acentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolfo Caldas costumava dizer:
– O riso do Assunção cheira a rosas brancas.
O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diários do Rio – dos mais distintos do nosso foro – jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos à sua casa de viúvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...
"Ah! uma casa sem mulher, afirmava ele, é um túmulo com janelas: toda a vida está lá fora..." E lembrar-se que aquilo havia de ser para sempre!
O dr. Argemiro Cláudio de Menezes, descendente direto dos Iglésias de Menezes, nobres de Portugal, cujo solar brasonado existe ainda, bem que arruinado, naquele país, em terras limítrofes da Espanha, à beira de um rio espelhento e de pinheirais perdidos, – era um homem ainda moço, robusto, de carnes sólidas e uns olhos negros, em que talvez a raça árabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta talhada rente ao rosto pálido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabelo muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Tinha as mãos pequenas, a atitude preguiçosa, em contradição à energia do tipo. Viúvo há sete anos de uma formosa senhora, cujo retrato aparecia em todos os cantos da casa, ele protestara não tornar a casar-se.
A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida.
Do primeiro ano do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Glória. Vivia esta menina com os avós maternos, numa chácara dos subúrbios, e andava agora pelos seus onze anos e os rudimentos de português e de música. Tanto como o pai e os avós, por ela se interessava o padrinho, padre Assunção. Sem interromper a partida, o deputado Armindo Teles gabou-se:
– Foi hoje um dos dias mais belos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrifícios que a deputação me tem custado... rios de dinheiro, noites de insônia, descomposturas de outros partidos... de tudo colhi hoje o prêmio. Imaginem vocês que tive de lutar renhidamente com o próprio governo, molestar colegas, ir de encontro mesmo a princípios que prezo de gratidão pessoal e de conveniência própria, e que, arrostando tudo, como um soldado na guerra, consegui a minha vitória. Imaginem se não devo estar satisfeito! Uma vitória política, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor.
– Chartrier?... perguntou com curiosidade o padre Assunção.
Armindo Teles pareceu não ouvi-lo e continuou:
– Infelizmente temos agora na Câmara poucos talentos de combate. Carecemos de mais vivacidade... A indiferença de uns e a má vontade de muitos enfraquecem os golpes de um ou outro mais entusiasta... Eu cruzei as minhas armas, nesta porfia, com os maiores talentos da Câmara e feri-os a todos sem piedade. Criei inimigos; pouco importa, mas triunfei!
Adolfo Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo::
– Por que feito ilustre glorificaste a pátria?
– Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu colega Simão da Cunha, que a Câmara em peso guerreava!
Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolfo Caldas impregnou de cândida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar:
– Cunha?...
E depois:
– Ah! o Simão! sim... é desempenado. Veste-se bem.
– Não é águia, afirmou Teles; mas é o que se chama – uma mediocridade operosa – e é, sobretudo, um homem de bem!
– Isso em política não tem valor... comentou o dono da casa. – Mas que faz você aí, padre Assunção, remexendo nas estantes?!
– Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier...
– Olha, o catálogo dos livros deve estar naquela gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho...
– O que você deve procurar é os sermões do Padre Vieira! – disse malignamente Armindo Teles.
– Não preciso; sei-os de cor.
– Impinge-os como seus?
– Impingi-los-ia se os deputados fossem à igreja; mas você sabe, aos outros não... tenho medo que percebam!
Riram-se todos. Teles retrucou:
– Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre!
– Talvez. Os cilícios fazem os santos... mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo...?
– Simão da Cunha.
– Por esse senhor?
– Eu mesmo.
– Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço – o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro.
– Qual é?
– Vida de D. Frei Bertolomeu dos Mártires.
Adolfo Caldas comentou:
– Soleníssimo! Que bela língua, reverendo!
– Formosa! Frei Luiz de Sousa tinha a quem sair...
Padre Assunção ficou de pé, junto à alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito atento.
O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo.
– A sabedoria dos provérbios está sendo comprometida... – declarou Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compatível com a do jogo!
Adolfo Caldas acrescentou:
– Leito, tribuna e mesa. Aí está um lema conveniente aos teus triunfos, Armindo!
Teles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade:
– Leito e tribuna... vá; mas mesa, não sei porquê!
Caldas, baralhando as cartas, concluiu:
– Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um dicionário. Referi-me à mesa do orçamento, à mesa do bacará e mesmo à do jantar. Não quero fazer-te a injustiça de supor que te alimentas a leite e a água de Vichy... Começas a ter pança; não te podes rir de mim; e jantaste hoje a meu lado, não te esqueças dessa circunstância; jantaste como um homem de boa consciência e magnífico estômago! Fiquei te considerando mais, depois que te vi comer.
Argemiro observou, rindo:
– É o exercício da profissão...
Armindo Teles respondeu:
– Vocês confundem-me como Araújo Braga... que trouxe da pasta a prática da mastigação e leva mesmo a imprudência a ponto de dizer, como disse ontem à porta do Watson, à minha vista: – eu hoje só rôo subsídios e clientes.
– Esse tem, ao menos, o mérito da franqueza. A mim então só me aparecem causas péssimas, clientes já esfoladas, em osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina! – declarou Argemiro.
O jogo chegara a um ponto que requeria a atenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a boca para a passagem das expressões obrigadas do pôquer.
Padre Assunção continuava a sua leitura, de pé, com o ombro encostado ao ângulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente à moldura do móvel, confundindo-se com ele na sombra do aposento.
Os três jogadores eram de bem diferente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Teles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escocesa picada por um rubi fulgurante.
Representante do Paraná, que o tinha como um político hábil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a família carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleável, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes políticas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e desta arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, ele aparentava menos idade do que a que tinha realmente. Falava com sossego, num agradável timbre de voz. Às vezes mesmo Caldas caçoava:
– Na Câmara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C’est la voix d’or do Congresso!
Assim como a voz ele tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não se aplicara nunca... As mãos, pequenas, mostravam os anéis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos corretíssimos.
Em frente dele, Adolfo Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se à vontade no seu veston de pano preto, com um bom ar de despretensiosa superioridade.
Adolfo Caldas dizia-se rio-grandense, mas afirmavam alguns que ele era nascido em Montevidéu, de família brasileira. Vivia desde os vinte anos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda de financeiros ilustres e ministros afamados, chegando-se para as árvores de substanciosos frutos e boa sombra. Solteirão, intermediário de bons negócios, permitia-se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cor.
Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portugueses, clássicos sobretudo. Era com ele que o padre Assunção conversava às vezes sobre literatura antiga, certo de que os bons livros espirituais, como os profanos, tinham a mesma admiração no juízo competente daquele homem de tão esperta sagacidade.
Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os cálices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.
– Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? – perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos anos, esgrouviado e bem vestido.
– Na família da minha sogra... é filho da ama de minha mulher.
– Se não fosse relíquia de família, pedia-to para mim.
Feliciano, servindo a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sair, silenciosamente.
– Se me não engano, – observou o Armindo Teles – vi-o outro dia em casa de Lolota...
– Ah! também você?...
– Que! ir à casa da Lolota? Mas toda a gente vai à casa da Lolota!
– Até o Feliciano... murmurou Caldas.
– Não! o Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro.
– Por isso ela discutiu leis com tanto apuro! Parabéns. É uma mulher estonteadora...
– Não sei, a minha carta era acerca de negócios; ela é minha cliente.
– Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me pecador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para ver se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assunção!
O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura.
– Pecar ainda é e será a coisa melhor da vida, – continuou o Armindo – pecado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguém foge à tentação! Você conhece o dr. Aguiar?
– O da Caieira?
– Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da Câmara ou dos ministros, manda a mulher às secretarias ou à casa dos deputados. A mim procurou-me ela um dia no hotel, e como o negócio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda!
– E?...
– O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás, a pretensão era justa; todavia, se a mulher fosse feia, não digo isto por minha parte, creio que ele não arranjaria nada. O caso não dependia de mim, mas de quem "mais caso faz da formosura alheia"!
Armindo interrompeu o assunto para sorver um gole de Chartreuse.
O padre Assunção, talvez para desviar o assunto mal encaminhado, por achar a propósito o trecho ou para fazê-lo notar a Adolfo Caldas, leu alto uma frase:
"... um pecado chama outro pecado, e este outro vem logo acompanhado até criar devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remédio. Miserabilíssimo estado que abre as portas de par em par a todo o gênero de vício e apaga toda a memória do Céu e da Eternidade".
Padre Assunção fechou o volumezinho de Frei Luiz de Sousa, pô-lo na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro.
Estava à espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva caía em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de fúria. Assunção confessou:
– Estou com medo que o temporal desta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal...
Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. Daí a pedaço, já desinteressado do pôquer e prestando atenção à bulha das águas, Argemiro propôs que ficassem todos com ele: a casa tinha quartos para hóspedes. Nenhum aceitou. Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua ménagère e o padre Assunção afirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o ver entrar.
A partida prolongou-se até as onze horas, em que deixaram os baralhos e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua através dos vidros das janelas.
– Chove ainda! E deve estar frio lá fora! Parece-me que estou em Curitiba!
Padre Assunção, voltando-se para o dono da casa, disse:
– Amanhã terei de ir à casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?
"Nossa Maria" era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem batizara e adorava.
– Nada... eu irei vê-la no domingo. Quero ver se para a semana ela vem passar uns dois dias comigo.
– Aqui?!
– De que te espantas?
– Ora essa! Com quem a deixarás, quando tiveres de sair?
– Vais-te rir... Botei hoje um anúncio no Jornal, pedindo uma moça para tratar da casa de um viúvo só.
– Estás doido! Não caias nessa asneira... Olha que chamas o perigo para casa.
– Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguém que me ajude a suportá-lo. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia à sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mês.
– E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?!
– Glória não deixará os avós senão por um dia... É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho...
Caldas preveniu:
– Olha que essas madamas trazem anzóis nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E tu que és bom peixe! É uma raça abominável, a das governantas... Verás amanhã que afluência de francesas velhas à tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar sossegadinho nos braços do Feliciano!
– Que lembrança, pôr anúncio! – repetia o padre. – Ainda se não tivesses tua filha...
– Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu lugar. Nem quero vê-la, mas sentir-lhe apenas a influência na casa. É a minha primeira condição.
– Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse ofício mulheres aposentadas, pela força da idade, de outros serviços! Feias, mas habilidosas... No fim de algum tempo tu cairás doente, ela será uma enfermeira carinhosa e a comédia acabará quase sem se sentir. É o costume. O Assunção reprova-te. Eu aviso-te.
– Consultaste ao menos tua sogra? – perguntou o padre.
– Não. Ela, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.
– Não tires de lá a nossa Glória. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por anúncio para tratarem da casa de um viúvo só devem trazer intenções muito esquisitas. Será preferível uma velha.
– Não! As velhas cheiram a galinha, desde que não sejam de fina sociedade. Uma, que meti por experiência em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha boa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciais, numa dona de casa. Quero uma moça educada.
Armindo Teles, enfiando o sobretudo, de que levantou a gola até as orelhas, ofereceu-se para vir esperá-la no dia seguinte...
Adolfo Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta anos e não se resignaria a não conhecer monsieur... E concluiu: – Cá estou para espectador da cena. Vamos rir.
Só o padre Assunção não enfiou sobretudo nem calçou galochas, limitando-se a tirar do cabide o seu grande guarda-chuva inglês. Ele ali estava para defender a afilhada de um mau contato... previa desastres que procuraria obstar. Ora, como pudera Argemiro cair naquele ridículo?
Saíram os três, calados, para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestíbulo, desejou a todos – muito boas-noites – e fechou a porta.
Era meio-dia quando um bonde das Águas Férreas parou à entrada do Cosme Velho e uma moça desceu para a rua, com ar vexado. O bonde continuou o seu caminho; ela consultou uma notazinha da carteira e entrou num prédio cor de milho, ladeado por um jardim em meio abandono.
Um rapazinho lavava o vestíbulo; a moça olhou para ele ainda embaraçada e perguntou:
– O dono da casa...?
Felizmente, o pequeno não a deixou concluir; estava prevenido e gritou logo para dentro, fazendo correr uma porta de vidro que devassou um trecho do interior:
– Ó seu Feliciano, venha cá!
E voltando-se para a recém-chegada:
– A senhora entre.
Ela levantou cuidadosamente o seu vestido de lã preta, para que se não molhasse no chão encharcado, e atravessou o vestíbulo em bicos de pés.
O rapazinho olhou e viu que ela levava as botinas esfoladas, tortas no calcanhar, e que tinha os tornozelos finos. Mal ela chegava à porta do fundo, quando apareceu um negro muito empertigado, com um arzinho desdenhoso e enfiado num dólman branco de impecável alvura.
Ela repetiu a mesma frase e ele fez-lhe um gesto para que o acompanhasse.
Seguiram por um corredor até o escritório do dr. Argemiro, que escrevia à secretária, no meio de um montão de papéis, muito atarefado, já pronto para sair.
Feliciano avisou da porta:
– Uma pessoa que vem pelo anúncio!
O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um ombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade.
– Tenha a bondade de sentar-se... permita-me mais um momento e prestar-lhe-ei toda a atenção...
Ela fez um gesto de assentimento e sentou-se perto da porta. Ele, bem iluminado pela claridade de fora, apressou as últimas notas, fazendo ranger a pena no papel. Chegada a vez de ordenar as folhas esparsas pela secretária e de acamá-las na pasta, para não perder muito tempo, foi dizendo:
– Antes de mais nada, como estes anúncios reclamando senhoras para casas de viúvos são ambíguos e prestam-se a interpretações pouco airosas, digo-lhe desde já que preciso, para governanta de minha casa, de uma senhora honesta, a quem eu possa francamente confiar minha filha, que é uma menina de onze anos. Ela mora fora, mas deverá vir passar de vez em quando alguns dias em minha companhia... Sendo essa a condição essencial, não estranhará por certo que lhe peça algumas informações...
Argemiro esperou um instante, a ver se ela se decidia a falar sem ser interrogada; mas ela, coitada, encolheu-se na cadeira e ele foi forçado a perguntar:
– A senhora é viúva?
– ... Não, senhor... sou solteira...
– Ah... mas já governou alguma casa, naturalmente?
– Sim... senhor...
– Bem... desculpe-me a minuciosidade. Poderá dizer-me em que casa desempenhou o cargo a que se propõe?
Ela pareceu não entender; depois disse baixo:
– Na minha... na de meu pai...
– Ah!... O nome de seu pai é...
– Meu pai morreu... e é por isso que eu...
Houve uma pausa. Argemiro consultou o relógio. Era tarde. O diabo da mulher não serviria?!
– Que idade tem?
– Vinte e cinco anos...
– É saudável? A saúde é também uma das condições que eu exijo.
– Sou.
– Pois, minha senhora, infelizmente tenho o tempo contado e não posso demorar-me. Vou procurar em poucas palavras fazer-me bem entendido; peço-lhe que me escute com a maior atenção e que me responda com absoluta franqueza. Como lhe disse, quero uma governanta para minha casa, que seja ao mesmo tempo uma companheira para minha filha nos dias em que ela vier ver-me. Para isso é preciso que essa governanta seja uma senhora séria, sobretudo educada, não digo instruída, mas que enfim não seja analfabeta e que tenha hábitos de asseio, de ordem e de economia. É absolutamente preciso pôr um dique à impetuosidade das minhas despesas domésticas. Eu não posso tratar disso. A senhora dirigirá tudo, com energia, de modo a regularizar as coisas definitivamente. Para isso lhe darei toda a força moral. Há uma cláusula, que talvez lhe pareça absurda, mas é indispensável na nossa situação, caso a senhora aceite as condições que estipulo...
Ele parou, com ar interrogativo.
Ela respondeu com um fio de voz trêmula:
– Perfeitamente...
– É esta: não nos vermos senão quando isso for absolutamente indispensável, ou melhor, não nos vermos nunca! A razão desta esquisitice, ou desta mania, não pode ser explicada por inteiro em poucas palavras; suponha, porém, que repousa só nisto: não querer eu que paire sobre quem deve velar por minha filha nem a sombra de uma suspeita! A minha casa é grande, tem dois pavimentos e eu passo o dia na cidade, só vindo jantar à noite. Na minha ausência toda a casa será sua; desde que eu entre a senhora saberá e poderá evitar-me. Acha isso possível?
– Acho...
– Concorda em que seja assim?
– Concordo.
– Pense na responsabilidade que vai assumir.
– Já pensei...
– Eu sou exigente. Quero sentir na minha casa a influência de uma pessoa moça, saudável e ordenada. Não quero ver essa pessoa, por motivos que expus e por outros particulares e que não vêm ao caso, como também já disse. Aviso-a de que sou comodista. A senhora julga-se com os predicados que apontei?
– Julgo-me.
– Tanto melhor; parece-me que nos entenderemos. Todavia, desejaria, repito, que me desse algumas informações a seu respeito. Como se chama?
– Alice Galba.
– Galba... tenho idéia de ter conhecido na minha infância um velho com esse nome... um botânico, se me não engano...
– Era meu avô...
– Então seu pai...
– Meu pai morreu há dez anos...
Argemiro puxou o relógio. Era a hora do bonde; levantou-se apressado, apanhando a pasta e o chapéu.
– A senhora veio tão tarde! E temos ainda uma coisa a combinar: o ordenado?
A moça levantou-se com timidez.
– O senhor dará o que entender...
– Ora essa! Eu não sei.
– Eu também não... É a primeira vez que me emprego...
Argemiro pressentiu sinceridade naquela confissão e olhou para a moça. Mal percebeu, através do véu, um rosto magro e pálido.
"Parece-me feia..." – pensou ele consigo, com uma pontinha de desgosto; e logo alto:
– Onde poderei mandar preveni-la?
– Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta.
– Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Somente peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado.
Ele já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedi-la. Ela fez uma reverência tímida e saiu.
Quando Argemiro chegou à rua, com a sua pasta pejada de papéis, viu Alice subir para o bonde e notou, como o seu criado, que ela levava as botinas rotas e tinha os tornozelos delicados.
O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? Talvez aparecesse outra mais jeitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os ombros encolhidos até as botinas esfoladas...
Quando Argemiro voltou a casa para jantar, encontrou o padre Assunção, que vinha trazer-lhe notícias de Maria da Glória.
– Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que diabo fazes, que a não vais ver?
– Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquilo e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar comigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste?
– Magnífica, muito corada, forte! A avó exasperada porque ela não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ela encarapitada no muro, apanhando as amoras do vizinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descosida. A avó mostrou-me aquilo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava!
Riram-se ambos, Argemiro e o padre.
– A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aqueles modos de rapaz...
– É uma criança... deixa-a.
– Mas, afinal, de quem é a culpa? dos avós. Se ela morasse comigo seria muito outra.
– Não estaria tão bem.
– É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe ler, rabisca umas letras em péssima caligrafia... e toca sem compasso umas intoleráveis lições do método! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece?
– Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se cora roupa e se deitam galinhas. É uma ciência rara hoje em dia e muito útil. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o catecismo, para a primeira comunhão.
– E tu...
– Eu disse-lhe que deixasse a menina por enquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chácara ela repartia frutas com a criançada pobre da vizinhança.
– É brutinha, mas tem bons sentimentos...
– É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo.
– Não basta o tempo; estou convencido de que ela precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrificá-la ao egoísmo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroçoes a minha negligência; esta é a verdade. Se eu pudesse organizar a minha vida de outro modo... A propósito: veio hoje uma rapariga, pelo anúncio do jornal, oferecer-se para governanta. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem várias, poderíamos escolher. Desta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta.
– Corcunda?
– Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ela voltará quinta-feira à tarde; conversa tu com ela e decide tudo. Não quero tornar a vê-la, mas desde já te digo que seja como for, direita ou torta, será preferível a coisa nenhuma.
– Vais criar uma situação embaraçosa e insustentável. Já não estás em idade de fantasias.
– Fala para aí. Que disse tua mãe?
– Contra a minha expectativa, aprova a tua resolução...
– Por força.
– Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo teto com uma criatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.
– Com esta, coitadinha, parece-me que isso há de ser fácil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governanta bonita, ou pelo menos graciosa. A beleza sugestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegância. Imagina, se ela efetivamente for aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade à nossa situação!
– Preferes o perigo...
– Para pôr à prova a minha impassibilidade e dar-me ares de herói – respondeu, rindo, Argemiro. – Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue frio.
– Tolices!
– Mas que queres que eu te diga, a ti, que me conheces de cor e salteado?! Vens com uns ares esquisitos assustar-me com um futuro que não promete coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo desta imposição está nisto: ser-me-ia penoso ver agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão viúva, que só vivo para senti-la. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridículo. Tu me compreenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher através do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ela preside à minha vida, soberanamente. Expliquei à outra, que aí veio, que só uma razão me obrigava a impor-lhe esta cláusula extravagante: não querer dar azo à maledicência e aos comentários dos criados... Como se isso me importasse!
– E ela?
– Aceitou.
– Enfim... acho que fazes mal. Mas isso é contigo. Preferiria que te casasses, apesar...
– Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser...
– A não ser...
– Para essa espécie de amores que só tem um sabor – o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente à minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma dela não sai desta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fora sou um viúvo como outro qualquer, não me abstenho nem da corte à mulher de salão, nem do abraço à mulher do pecado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquela sua frase ciumenta e que era como que o seu estribilho: "Ama-me, a mim só! a mim só!"
Houve uma pausa. Padre Assunção observou:
– A nossa Maria não se parece com a mãe...
– Nada.
– Saiu a ti.
– Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lírico.
À mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu à direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um níquel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assunção.
– Naturalmente, uma dona de casa faz falta... – observou este.
Jantaram sem alegria; à sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de cristofle, mostrou ao padre que o garfo tinha sinais de fogo na extremidade dos dentes, e que as lâminas das facas começavam a bailar nos cabos.
E tudo aquilo era novo!
Padre Assunção sorriu:
– Agora reparas em tudo!
Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com atenção para o criado, viu que ele ostentava cinicamente uma das suas camisas bordadas; também não estava certo de lhe haver dado já aquela bonita gravata roxa de bolinhas pardas. Como o padre Assunção era considerado de casa, Feliciano, mesmo à vista dele, apresentou ao amo as contas da semana.
– A ode do desperdício!
Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almaço abaixo, atropelando-se no seu exagero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das frutas finas, até à cerzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através da multiplicação do negro.
– Vês, Assunção? Quase um conto de réis numa quinzena, isto numa casa própria, onde há adega e que a chácara do sogro enche de perus, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastava-se muito menos.
– Ainda tens um recurso...
– Qual?
– Uma pensão...
– Deus me livre! A casa de pensão é a vala comum da vida. Repugna-me!
E voltando-se para o negro:
– Olha cá, explica-me: por que, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ela deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que espécie de costureira é essa:
O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha.
– É uma espécie de velha...
– Ah! uma espécie abominável! Despede-a.
Acabado o jantar, padre Assunção saiu para a sua caminhada até o largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espetáculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade:
– Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso.
– O teu bolso não tem fundo, nunca se pode encher! Que conta é essa?
– Uma conta antiga, de um carro...
Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E saiu pensando: "Acabou-se o teu reinado, ladrão!"
O salão do Lírico estava repleto.
O primeiro ato ia quase no fim.
Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esgoelavam-se em protestos de amor. O público via aquilo com respeito e certa solenidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exatamente para ele nesse momento. No primeiro intervalo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ela estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com domínio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou-se para o corredor, em conversa com o conselheiro Isaías e o dr. Sebrão.
O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na ocasião ostentando pelos jornais grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a secura sábia da fraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicência de outros, que os atribuíam ao Benedito Lemos, um boêmio inteligente como o diabo e bêbedo como um gambá.
Ele, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o conselheiro Isaías, ambos comensais e amigos do presidente da República.
Era um homem arguto.
A esposa, baixa, trêfega, de um moreno pálido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições aparatosas da alta política.
Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta anos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impor a sua autoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que ele trabalhava por penetrar-lhe as intenções.
Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo teso no seu alto colarinho, com uma camélia branca na lapela e o cabelo achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se diante dela numa reverência. E depois de sentado:
– Magnífico este primeiro ato. Não gostou?
A Pedrosa respondeu quase secamente:
– Muito.
Benjamim olhou para o Argemiro, que pôs o binóculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, compreendeu que chegara inoportunamente e acabou também binoculando a Vieirinha!
Depois de um curto silêncio ouviu-se a voz da dona do camarote num comentário de enfado:
– Não é feia aquela senhora, mas veste-se muito mal...
Benjamim, confirmando:
– Realmente, não tem gosto... usa umas cores muito espantadas...
Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um pecado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhara no ar quando vinha atirada às mãos do Pedrosa!
Argemiro, sem retirar o binóculo:
– Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro ato?
– Absolutamente!
– Homem feliz...
– Por quê?!
– Porque pode gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restrições...
– Pois olhe, – acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; – pela sua insistência em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ela, ao menos para o senhor, não tem restrições.
A Pedrosa tinha jeito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se também e o advogado respondeu com um suspiro:
– É que aquela senhora não permite com facilidade que a gente a veja de perto...
– Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A propósito, minha filha deixa amanhã definitivamente o colégio das Irmãs de Sião. Vou buscá-la a Petrópolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sábado quero apresentá-la aos meus amigos. Ela tem grande predileção pelo sr. dr. Argemiro!
Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão diferente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida...
Intrigava-o aquilo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?...
Ao sair do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaías e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demóstenes brasileiro.
Argemiro ouvira já o colega, num dos seus mais famosos discursos no Senado.
O conselheiro Isaías aprovou o cognome de Demóstenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Atenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a política como uma das artes superiores... Também eles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que ele escrevia atualmente um livro jurídico de extraordinário interesse...
Pedrosa, ufano da amizade dos três, resplandecia de orgulho.
Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo dessa manhã. Bons argumentos, excelentes demonstrações!
Pedrosa esfregou as mãos: sim, ele era sincero e estudara a questão a fundo. Fora impelido à publicidade por uma série de circunstâncias muito especiais; do contrário nunca sairia do seu retiro, onde queimava as pestanas a ler os mestres e a estudar as mais graves questões financeiras do país...
O conselheiro Isaías afirmou:
– Ainda não pude ler o seu artigo; mas o presidente leu-o e ficou bem impressionado.