Je ne suis pas téméraire, je n'ai pas la prétention de suivre vos traces; ce n'est pas prétendre suivre vos traces que d'écrere une pauvre étude tant soit peu natulaliste. On ne vous imite pas, on vous admire.
"Nous nous échauffons, dit Ovide, quand le dieu que vit en nous s'agite": eh bien! Le tout petit dieu qui vit en moi s'est agité, et j'ai écret La Chair.
Ce n'est pas l'Assommoir, ce n'est pas la Curée, ce n'est pas la Terre, mais, diantre! Une chandelle n'est pas le soleil, et pourtant une chandelle éclaire.
Quoi qu'il en soit, voici mon oeuvre.
Agréerez-vous la dédicace que je vous en fais? Pourquoi pas! Les rois, quoique gorgés de richesses, ne dédaignent pas toujours les chétifs cadeaux des pauvres paysans.
Permettez que je vous fasse mon hommage complet, lige, de serviteur féal en empruntant les paroles du poète florentin:
Tuduca, tu signore, tu maestro.
St. Paul, le 25 janvier 1888
Jules Ribeiro.
O doutor Lopes Matoso não foi precisamente o que se pode chamar um homem feliz.
Aos dezoito anos de sua vida, quando apenas tinha completado o seu curso de preparatórios, perdeu pai e mãe com poucos meses de intervalo.
Ficou-lhe como tutor um amigo da família, o coronel Barbosa, que o fez continuar com os estudos e formara-se em direito.
No dia seguinte ao da formatura, o honesto tutor passou-lhe a gerência da avultada fortuna que
lhe coubera, dizendo:
- Está rico, menino, está formado, tem um bonito futuro diante de si. Agora é tratar de casar, de ter filhos, de galgar posição. Se eu tivesse filha você já tinha noiva; não tenho, procure-a você mesmo.
Lopes Matoso não gastou muito tempo em procurar: casou-se logo com uma prima de quem sempre gostara e junto à qual viveu felicíssimo por espaço de dois anos.
Ao começar o terceiro, morreu a esposa, de parto, deixando-lhe uma filhinha.
Lopes Matoso vergou à força do golpe, mas, como homem forte que era, não se deixou abater de vez: reergueu-se e aceitou a nova ordem de coisas que lhe era imposta pela imparcialidade brutal da natureza.
Arranjou de modo seguro seus negócios, mudou-se para uma chácara que possuía peno da cidade, segregou-se dos amigos e passou a repartir o tempo entre o manusear de bons livros e o cuidar da filha.
Esta, graças às qualidades da ama que lhe foi dada, cresceu sadia e robusta, tomando-se desde logo a vida, a nota alegre do eremitério que se constituíra Lopes Matoso.
Visitas de amigos raras tinha ele, porque mesmo não as acoroçoava: convivência de fama não tinha nenhuma.
Leitura escrita gramática aritmética, álgebra, geometria, geografia, história, francês, espanhol, natação, equitação, ginástica, música , tudo isso Lopes Matoso exercitou a filha porque em tudo era perito: com ela leu os clássicos portugueses, os autores estrangeiros de melhor nota, e tudo quanto havia de mais seleto na literatura do tempo.
Aos quatorze anos Helena ou Lenita, como a chamavam, era uma rapariga desenvolvida, forte, de caráter formado e instrução acima do vulgar.
Lopes Matoso entendeu que era chegado o tempo de tomar a mudar de vida, e voltou para a cidade.
Lenita teve então ótimos professores de línguas e de ciências; estudou o italiano, o alemão, o inglês, o latim, o grego; fez cursos muito completos de matemáticas, de ciências físicas, e não se conservou estranha às mais complexas ciências sociológicas. Tudo lhe era fácil, nenhum campo parecia fechado a seu vasto talento.
Começou a aparecer, a distinguir-se na sociedade.
E não tinha nada de pretensiosa, bas bleu: modesta, retraída mesmo, nos bailes, nas reuniões em
que não de raro se achava, ela sabia rodear-se de uma como aura de simpatia escondendo com arte infinita a sua imensa superioridade.
Quando, porém, algum bacharel formado de fresco, algum touriste recém-vindo de Paris ou de Nova Iorque queria campar de sábio, queria fazer de oráculo em sua presença, então é que era vê-la. Com uma candura adoravelmente simulada, com um sorriso de desdenhosa bondade, ela enlaçava o pedante em uma rede de perguntas pérfidas, ia-o pouco a pouco estreitando em um círculo de feno e, por fim, com o ar mais natural do mundo, obrigava-o a contradizer-se, reduzia-o ao mais vergonhoso silêncio.
Os pedidos de casamento sucediam-se: Lopes Matoso consultava a filha.
- É i-los despedindo, meu pai, respondia ela. Escusa que me consulte. Já sabe, eu não me quero casar.
- Mas, filha, olha que mais cedo ou mais tarde é preciso que o faças.
- Algum dia talvez, por enquanto não.
- Sabes que mais? estou quase convencido de que errei e muito na tua educação: dei-te conhecimentos acima da bitola comum e o resultado é ver-te isolada nas alturas a que te levantei. O homem fez-se para a mulher, e a mulher para o homem. O casamento é uma necessidade, já não digo social, mas fisiológica. Não achas, de certo, homem algum digno de ti?
- Não é por isso, é porque ainda não sinto a tal necessidade do casamento. Se eu a sentisse, casar-me-ia
- Mesmo com um homem medíocre?
- De preferência com um homem medíocre. Os grandes homens em geral não são bons maridos. Demais, se os tais senhores grandes homens escolhem quase sempre abaixo de si, por que eu, quê, na opinião de papai, sou mulher superior, não faria como eles, escolhendo marido que me fosse inferior?
- Sim, para teres uns filhos palermas...
- Os filhos puxariam por mim: a filosofia genésica ensina que a hereditariedade direta do gênio e do talento é mais comum da mãe para o filho.
- E do pai para a filha, não?
- De certo, e por isso é que eu sou o que sou.
- Lisonjeira!
- Lisonjeiro é papai que quer à fina força que eu seja moça prodígio, e tanto tem feito que até eu já começo acreditar. Voltando ao assunto, sobre casamento temos conversado, não falemos mais nisso.
E não falaram. Lopes Matoso ia despedindo os pretendentes com grandes afetações de mágoa - que a menina não queria casar, que era uma original, que ele bem a aconselhava, mas que era trabalho baldado, mil coisas enfim que suavizassem a repulsa.
Sempre no mesmo teor de vida chegou Lenita aos vinte e dois anos, quando um dia amanheceu Lopes Matoso a queixar-se de um mal-estar indescritível, de uma opressão fortíssima no peito. Sobreveio um acesso de tosse, e ele morreu de repente sem haver tempo de chamar um médico, sem coisa nenhuma. Matara-o congestão pulmonar.
Lenita quase enlouqueceu de dor: o imprevisto do sucedido, vácuo súbito e terrível que se fez em torno dela, a superioridade e cultura do seu espírito que refugia a consolações banais, tudo contribuía para acentuar-lhe o sofrimento.
Dias e dias passou a infeliz moça sem sair do quarto, recusando-se a receber visitas, tomando inconscientemente, a instâncias dos fâmulos, algum ligeiro alimento.
Por fim reagiu contra a dor pálida, muito pálida nas suas roupas de luto, ela apareceu aos amigos do pai, recebeu os pêsames fastidiosos do estilo, procurou por todos os meios afazer-se à vida solitária que se lhe abria, vida tristíssima, erma de afetos, povoada de lembranças dolorosas. Tratou de dar direção conveniente aos negócios da casa, e escreveu ao coronel Barbosa, avisando-o de que se retirava temporariamente para a fazenda dele.
Os negócios da casa nenhuma dificuldade ofereciam: a fortuna de Lopes Matoso estava quase toda em apólices e ações de estradas de ferro. Sendo Lenita, com era, filha única, não havia inventário, não havia delonga alguma judicial.
A resposta do coronel Barbosa não se fez esperar - que fosse, que fosse quanto antes; que sua velha esposa entrevada folgara doidamente com a notícia de ir ter junto de si uma moça, uma companheira nova; que com eles só morava um filho único, homem já maduro, casado, mas desde muito separado da mulher, caçador, esquisitão, metido consigo e com os seus livros; enfim que se não demorasse com aprontações, que atabulasse, e que marcasse o dia para ele a ir buscar.
Uma semana depois estava Lenita instalada na fazenda do velho tutor de seu pai: tinha levado consigo o seu piano, alguns bronzes artísticos, algum bibelots curiosos e muitos livros.
Pior do que na cidade, horrível foi a princípio o isolamento de Lenita na fazenda.
A velha octogenária, além de entrevada, era muito surda. O coronel Barbosa, pouco mais moço do que a mulher, sofria de reumatismo, e, às vezes, passava dias e dias metido na cama. O filho, o divorciado, estava caçando havia meses no Paranapanema.
O trabalho da fazenda era dirigido por um administrador caboclo, homem afável, mas ignorantíssimo sobre tudo o que não dizia com a lavoura.
Lenita comia quase sempre só na vastíssima varanda; depois de almoçar ou de jantar ia conversar com o coronel, e fazia esforços incríveis para conseguir fazer-se ouvir da velha que, resignada e risonha, aumentava com a mão trêmula a concha da orelha para apanhar as palavras.
Tal entretenimento cansava a moça, e ela recolhia-se logo aos seus cômodos para ler, para procurar distrair-se.
Tomava um livro, deixava; Tomava outro, deixava; era impossível a leitura.
Apertava-lhe, constringia-lhe o ânimo a lembrança do pai. E tudo lhe fazia lembrar - uma passagem marcada a unha em um livro, uma folha dobrada em outro.
Saía, ia de novo conversar, tornava a voltar, tomava a sair, era um inferno.
A mulher do administrador, carinhosa já por índole, recebera do patrão recomendações especiais a respeito de Lenita.
A todo o momento eram copos de leite quente, copos de garapa, café, doces, frutas.
Lenita ora recusava, ora aceitava uma ou outra coisa, indiferentemente, só por comprazer à boa mulher.
O coronel Barbosa dera a Lenita uma sala independente, um quarto amplo com duas janelas e uma alcova; pusera-lhe às ordens, para seu serviço especial, uma mulatinha esperta, de alta trunfa e cor deslavada, e também um molecote acaboclado, risonho, de dentes muito brancos.
Lenita, por vezes, passava horas e horas à janela, contemplando as pendências da fazenda.
Estava esta a meia encosta de um outeiro a cuja balda corria um
ribeirão. Em frente estendia-se o grande pasto. A monotonia de verdura clara era quebrada aqui e ali pelo sombrio da folhagem basta de alguns paus-d'alho, deixados propositadamente para sombra, e pelo amarelo sujo das reboleiras de sapé. Ao fundo, de um lado, em corte brusco, a mata virgem, escura, acentuada, maciça quase, confundindo em um só tom mil cores diversíssimas; de outro em colinas suaves, o verde-claro alegre e uniforme dos canaviais agitados sempre pelo vento; mais além, os cafezais alinhados, regulares, contínuos, como um tapete crespo, verde-negro, estendido pelo dorso da morraria. Em um ou outro ponto, a terra roxa de pedra de ferro, desnudada, punha uma nota estrídula de vermelho-escuro, de sangue coagulado.
E sobre tudo isso, azul, diáfano, puro, cetinoso, recurvava-se o céu em uma festa de luz branca, vivificante, mordente...
Quando se embruscava o tempo a paisagem mudava: o céu pardacento, carregado de nuvens plúmbeas, como que se abaixava, como que queria afogar a terra. O revestimento verde perdia o brilho, empanava-se, amortecia em um desfalecimento úmido.
Lenita deu em sair, em passear pelas cercanias, ora a pé, acompanhada pela mulata, ora a cavalo, seguida pelo rapazinho.
Mas o exercício, a pureza do ar, a liberdade do viver da roça, nada lhe aproveitou.
Uma languidez crescente, um esgotamento de forças, uma prostração quase completa ia-se apoderando de todo o seu ser: não lia, o piano conservava-se mudo.
Com a morte do pai, parecia ter-se-lhe transformado a natureza: já não era forte, já não era viril como em outros tempos. Tinha medo de ficar só, tinha terrores súbitos.
Ia para o quarto da entrevada, recostava-se em uma cadeira preguiçosa e aí se deixava ficar quieta horas e horas, mal respondendo às perguntas solícitas do coronel.
Quando voltava para os seus aposentos, tomada em caminho por um pavor inexplicável, agarrava-se trêmula à mulata.
Não podia comer, tinha um fastio desolador, cortado por desejos violentos de coisas salgadas, de coisas extravagantes.
Sobrevieram-lhe salivações constantes, vômitos biliosos quase incoercíveis.
Uma manhã não se pôde levantar.
Acudiram apressados o coronel e a mulher do administrador; abeiraram-se do leito, instando com a enferma para que tomasse um chá de erva-cidreira, um remédio qualquer caseiro, enquanto não vinha o médico que se tinha mandado chamar a toda a pressa.
Quando este chegou estava Lenita abatidíssima: emaciada, lívida, com os olhos afundados em uma auréola cor de bistre, comprimia o peito, estertorava sufocada. Uma como bola subia-lhe do estômago, chegava-lhe à garganta, estrangulava-a. No alto da cabeça, um pouco para a esquerda tinha uma dor circunscrita, fixa, lancinante, atroz: era como se um prego aí estivesse cravado.
E seu sistema nervoso estava irritadíssimo: o mais ligeiro ruído,
o jogo de luz produzido pelo abrir da porta arrancava-lhe gritos.
O doutor Guimarães, médico já velho, de fisionomia inteligente e bondosa, aproximou-se da cama, examinou a enferma detidamente, em silêncio, sem tomar-lhe o pulso, sem incomodá-la na mínima coisa, baixando-se muito, com as mãos cruzadas nas costas, para ouvir-lhe a respiração, para escutar-lhe os gemidos, para atentar-lhe nas contrações da face.
- Quando começou isto, coronel? perguntou.
- Doente tem ela estado desde que aqui chegou, mas assim, ruim, é só hoje.
- Sufoco! acudam-me! gritou de repente Lenita e, revolvendo-se, escoucinhando, dilacerava a camisa com as mãos ambas, arranhava o peito. Um rubor súbito, vivíssimo, colorira-lhe o rosto, brilhavam-lhe os olhos de modo insólito.
- Sei o que isto é, disse o médico; tenho pela frente um conhecido velho, não me dá cuidado, volto já.
E saiu.
Poucos minutos depois reapareceu, trazendo uma seringuinha de Pravaz.
- Dê-me o braço, minha senhora, vou fazer-lhe uma injeção, e verá como daqui a pouco nada mais há de sentir.
Lenita estendeu a custo o braço nu, e o doutor, tomando-o, pôs-se a beliscá-lo morosamente, demoradamente, em um lugar só, na altura do bíceps; depois segurando a parte malaxada entre o dedo índice e o polegar da mão esquerda, com a direita fez penetrar por baixo da pele a agulha do instrumento e, calcando no cabo do pistão, injetou todo o conteúdo do tubo de vidro.
Lenita, apesar de seu estado de irritabilidade nervosa, nem pareceu sentir.
O efeito foi pronto. Dentro de pouco tempo as faces descoraram, cessaram as crispações nervosas dos membros, cerraram-se os olhos, e um suspiro de alívio entumeceu-lhe o peito.
Adormeceu.
- Deixemo-la assim, disse o médico, deixemo-la dormir, quando acordar estará boa. Todavia vou receitar: não dispenso para estes casos o meu brumoreto de potássio.
E saíram nos bicos dos pés. Junto de Lenita ficou a mulher do administrador.
Realizou-se o prognóstico do médico.
Lenita, após um comprido sono, acordou calma, com os nervos sossegados, com os músculos distendidos, soltos. Mas estava abatida, mole, queixava-se de peso na cabeça, de grande cansaço. Passou dois dias na cama, e só ao terceiro pôde levantar-se.
O apetite foi voltando aos poucos, e suas refeições foram sendo tomadas com prazer, a horas regulares.
Podia-se dizer que entrara em convalescença do cataclismo orgânico produzido pela morte do pai.
E Lenita sentia-se outra, feminizava-se. Não tinha mais gostos viris de outros tempos, perdera a sede de ciência: de entre os livros que trouxera procurava os mais sentimentais. Releu Paulo e Virgínia, o livro quarto da Eneida, o sétimo do Telêmaco. A fome picaresca de Lazarilho de Tortnes fê-la chorar.
Tinha uma vontade esquisita de dedicar-se a quem quer que fosse, de sofrer por um doente, por um inválido. Por vezes lembrou-lhe que, se casasse, teria filhos, criancinhas que dependessem de seus carinhos, de sua solicitude, de seu leite. E achava possível o casamento.
A imagem do pai ia-se esbatendo em uma penumbra de saudade que ainda era dolorosa, mas que já tinha encanto.
Passava horas e horas junto da entrevada, conversava com o coronel, por vezes ria.
- Isto vai melhor, muito melhor, dizia o bom do homem. É pôr-se você por aí alegre,
filhinha. O mundo é assim mesmo: o que não tem remédio remediado está.
Uma tarde, achando-se só em sua sala, Lenita sentiu-se tomada de uma languidez deliciosa, sentou-se na rede, fechou os olhos e entregou-se à modorra branda que produzia o balanço.
Em frente, sobre um console, entre outros bronzes que trouxera, estava uma das reduções célebres de Barbedienne, a da estátua de Agasias, conhecida pelo nome de Gladiador Borghese.
Um raio mortiço de sol poente, entrando por uma frincha da janela, dava de chapa na estátua, afogueava-a, como que fazia correr sangue e vida no bronze mate.
Lenita abriu os olhos. Atraiu-lhe as vistas o brilho suave do metal ferido pela luz.
Ergueu-se, acercou-se da mesa, fitou com atenção a estátua: aqueles braços, aquelas pernas, aqueles músculos ressaltantes, aqueles tendões retesados, aquela virilidade, aquela robustez, impressionaram-na de modo estranho.
Dezenas de vezes tinha ela estudado e admirado esse primor anatômico em todas as suas minudências cruas, em todos os nadas que constituem a perfeição artística, e nunca experimentara o que então experimentava.
A cerviz taurina, os bíceps encaroçados, o tórax largo, a pélvis estreita, os pontos retraídos das inserções musculares da estátua, tudo parecia corresponder a um ideal plástico que lhe vivera sempre latente no intelecto, e que despertava naquele momento, revelando brutalmente a sua presença.
Lenita não se podia arredar, estava presa, estava fascinada.
Sentia-se fraca e orgulhava-se de sua fraqueza. Atormentava-a um desejo de coisas desconhecidas, indefinido, vago, mas imperioso, mordente. Antolhava-se-lhe que havia de ter gozo infinito se toda a força do gladiador se desencadeasse contra ela, pisando-a, machucando-a, triturando-a, fazendo-a em pedaços.
E tinha ímpetos de comer de beijos as formas masculinas estereotipadas no bronze. Queria abraçar-se, queria confundir-se com elas. De repente corou até à raiz dos cabelos.
Em um momento, por uma como intussuscepção súbita, aprendera mais sobre si própria do que em todos os seus longos estudos de fisiologia. Conhecera que ela, a mulher superior, apesar de sua poderosa mentalidade, com toda a sua ciência, não passava, na espécie, de uma simples fêmea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade orgânica do macho.
Invadiu-a um desalento imenso, um nojo invencível de si própria.
Robustecer o intelecto desde o desabrochar da razão, perscrutar com paciência, aturadamente, de dia, de noite, a todas as horas, quase todos departamentos do saber humano, habituar o cérebro a demorar-se sem fadiga na análise sutil dos mais abstrusos problemas da matemática transcendental, e cair de repente, com os arcanjos de Milton, do alto do céu no lodo da terra, sentir-se ferida pelo aguilhão da carne, espolinhar-se nas concupiscências do cio, como uma negra boçal, como uma cabra, como um animal qualquer... era a suprema humilhação.
Fez um esforço enorme, arrancou-se do feitiço que a dementava, e, vacilante, encostando-se aos móveis e às paredes, recolheu--se ao seu quarto, fechou com dificuldade as janelas, atirou-se vesti sobre a cama.
Jazeu imóvel largo espaço.
Uma umidade morna, que se lhe ia estendendo por entre as coxas, fê-la erguer-se de súbito, em reação violenta contra a modorra que a prostrara.
Com movimentos sacudidos, nervosos, atirou o xale, desabotoou rápida o corpete, arrebentou os coses da saia preta e das anáguas, ficou em camisa.
Uma larga mancha vermelha, rútila, viva, maculava a alvura da cambraia.
Era a onda catamenial, o fluxo sangüíneo da fecundidade que ressumava de seus flancos robustos como da uva esmagada jorra o mosto nubente.
Mais de cem vezes já a natureza se tinha assim nela manifestado, e nunca lhe causara o que ela então estava sentindo.
Quando aos quatorze anos, após um dia de quebramento e cansaço, se mostrara o fenômeno pela primeira vez ela ficara louca de terror, acreditara-se ferida de morte, e, com a impudícia da inocência, correra em gritos para o pai, contara-lhe tudo.
Lopes Matoso procurara sossegá-la - que não era nada; que isso se dava com todas as mulheres; que evitasse molhadelas, sol, sereno, que dentro de três dias, ou de cinco ao mais tardar, havia de estar boa, que se não assustasse da repetição todos os meses.
Com o tempo, os livros fisiologia acabaram de a edificar. em Püss aprendera que a menstruação é uma muda epitelial do útero, conjunta por simpatia com a ovulação, e que o terrível e caluniado corrimento é apenas uma conseqüência natural dessa muda.
Resignara-se, afizera-se a mais esta imposição do organismo, assim como já estava afeita a outras. Somente, para estudo de si própria, começara de marcar, com estigmas de lápis vermelho, em calendariozinhos de algibeira, as datas dos aparecimentos.
Anoiteceu.
A mulata a veio chamar para a ceia. Encontrou-a deitada, encolhida, aconchegando-se nas roupas.
Perguntou-lhe se estava doente, ao saber que efetivamente o estava, saiu, avisou o senhor, trouxe as suas cobertas e travesseiros, arranjou uma cama no tapete, ao pé do leito, quedou-se solícita para o que fosse preciso.
O coronel, cheio de cuidados, veio à porta do quarto interrogar Lenita.
Que não era nada, respondeu ela, que aquilo não passava de uma indisposição sem conseqüências, que havia de acordar boa no dia seguinte.
- Menina, você sabe que agora seu pai sou eu. Se precisar de alguma coisa, franquezinha, mande-me chamar a qualquer hora, não receie me incomodar. A pobre da velha lá está aflita, amaldiçoando o tolhimento que a faz não prestar para nada. Não quererá você um chá de salva, um pouco de vinho quente?
- Obrigada, não quero coisa nenhuma.
- Bem, bem, já a deixo em paz. Até amanhã. Procure dormir.
E saiu.
Lenita adormeceu. A princípio foi um dormitar interrompido, irrequieto, cortado de pequenos gritos. Depois apoderou-se dela um como langor, um êxtase que não era bem vigília, e que não era bem sono. Sonhou ou antes viu que o gladiador avolumava-se na sua peanha, tomava estatura de homem, abaixava os braços, endireitava-se, descia, caminhava para o seu leito, parava à beira, contemplando-a detidamente, amorosamente.
E Lenita rolava com delícias no eflúvio magnético do seu olhar, como na água deliciosa de um banho tépido.
Tremores súbitos percorriam os membros da moça; seus pêlos todos hispidavam-se em uma irritação mordente e lasciva, dolorosa e cheia de gozo.
O gladiador estendeu o braço esquerdo, apoiou-se na cama, sentou-se a meio, ergueu as cobertas, e sempre a fitá-la, risonho, fascinador, foi-se recostando suave até que se deitou de todo, tocando-lhe o corpo com a nudez provocadora de suas formas viris.
O contato não era o contato frio e duro de uma estátua de bronze; era o contato quente e macio de um homem vivo.
E a esse contato apoderou-se de Lenita um sentimento indefinível; era receio e desejo, temor e volúpia a um tempo. Queria, mas tinha medo.
Colaram-se-lhe nos lábios os lábios do gladiador, seus braços fortes enlaçaram-na, seu amplo peito cobriu-lhe o seio delicado.
Lenita ofegava em estremeções de prazer, mas de prazer incompleto, falho, torturante. Abraçando o fantasma de sua alucinação, ela revolvia-se como uma besta-fera no ardor do cio. A tonicidade nervosa o erotismo, o orgasmo, manifestava-se em tudo, no palpitar dos lábios túmidos, nos bicos dos seios cupidamente retesados. Em uma convulsão desmaiou.
Lenita voltava à saúde a olhos vistos.
Levantava-se cedo, tomava um copo de leite quente, dava um passeio pelo campo, almoçava com apetite, depois do almoço sentava-se ao piano, tocava com brio peças marciais, alegres, movimentadas, de ritmo sacudido.
Ia ao pomar, comia frutas, trepava em árvores.
Jantava, ceava, deitava-se logo depois da ceia, levava a noite de um sono.
Tomara-se garrida: mirava-se muito ao espelho, cuidava com impertinência do alinho do vestir, tomava os cabelos, que eram muito pretos, com flores de cor muito viva.
Abusava de perfumes: a sua roupa branca recendia a vetiver, a sândalo, a ixora, a peau d'Espagne.
Corria, saltava, fazia longas excursões a cavalo, quase sempre a galope, estimulando o animal com o chicotinho, com o chapéu, de faces rubras, brilhantes os olhos, cabelos soltos ao vento.
Caçava.
Um dia calmoso, depois do almoço, tomou uma espingardinha Galand de que habitualmente usava, atravessou o pasto, enfiou por um carreadouro sombrio, através de um vasto trato de mata virgem.
Seguiu distraída, em cisma, avançou muito, foi longe.
De repente prendeu-lhe a atenção um murmurejar de águas, doce, monótono, à esquerda.
Tinha sede, teve desejo de beber, tomou para lá, seguindo uma trilha estreita.
Parou assombrada ante o cenário majestoso que a pouca distância se lhe adregou.
No fundo de uma barroca muito vasta erguia-se um paredão de pedra negra, musgoso, talhado a pique: por sobre ele atirava-se um jorro de água que ia formar no talvegue da barroca um lagozinho manso, profundo, cristalino.
Escadeando por sobre o açude natural que fechava a barroca pelo lado, baixo, derivava-se a água, sonorosa, fugitiva.
No espelho calmo do lago refletia-se a vegetação luxuriante que o emoldurava.
Perobas gigantescas de fronte escura e casca rugosa; jequitibás seculares, esparramando no azul do céu a expansão verde de suas copadas alegres; figueiras brancas de raízes chatas, protraídas a estender ao longe, horizontalmente, os galhos desconformes como grandes membros humanos aleijados; canchins de folhas espinhentas, a destilar pelas fibras do córtex vermelho-escuro um leite cáustico, venenoso; guaratãs esbeltos, lisos no tronco, muito elevados; taiúvas claras; paus-d'alho verdenegrosos, viçosíssimos, fétidos; guaiapás perigosos abrolhados em acúleos lancinantes e peçonhentos; mil lianas, mil trepadeiras, mil orquídeas diversas, de flores roxas, amarelas, azuis, escarlates, brancas -, tudo isso se confundia em uma massa matizada, em uma orgia de verdura, em um deboche de cores que excedia, que fatigava a imaginação. O sol, dardejando feixes luminosos por entre a folhagem, mosqueava o solo pardo de reflexos verdejantes.
Insetos multicolores esvoaçavam zumbindo, sussurrando. Um sorocoá bronzeado soltava de uma caneleira seu sibilo intercadente.
Uma exalação capitosa subia da terra, casava-se estranhamente à essência sutil que se desprendia das orquídeas fragrantes: era um misto de perfume suavíssimo de cheiro áspero de raízes de seiva, que relaxava os nervos, e adormecia o cérebro.
Lenita hauriu a sorvos largos esse ambiente embriagador, deixou-se vencer dos amavios da floresta.
Apoderou-se dela um desejo ardente, irresistível, de banhar-se nessa água fresca, de perturbar esse lago calmo.
Circunvolveu os olhos, perscrutou toda a roda, a ver se alguém a poderia estar espreitando.
- Tolice! pensou, o coronel não sai, o administrador e os escravos estão no serviço, no cafezal, não há ninguém de fora na fazenda. Demais, nem isto é caminho. Estou só, absolutamente só.
Depôs a espingarda e junto dela o chapéu de palha, de abas largas, que a protegia nesses passeios, começou a despir-se.
Tirou o paletozinho, o corpete espartilhado, depois a saia preta, as anáguas.
Em camisa, baixou a cabeça, levou as mãos à nuca para prender as tranças e, enquanto o fazia, remirava complacente, no cabeção alvo, os seios erguidos, duros, cetinados, betados aqui e ali de uma veiazinha azul.
E aspirava com delícias, por entre os perfumes da mata, o odor de si própria o cheiro bom de mulher moça que se exalava do busto.
Sentou-se, cruzou as pernas, desatou os cordões dos borzeguins Clark, tirou as meias, afagou corrente, demoradamente, os pezinhos os breves em que se estampara tecido fino do fio de Escócia. Ergueu-se, saltou das anáguas, retorceu-se um pouco, deixou cair a camisa. A cambraia achatou-se em dobras moles, envolvendo-lhe os pés.
Era uma formosa mulher.
Moreno-clara, alta, muito bem lançada, tinha braços e pernas roliças, musculosas, punhos e tornozelos finos, mãos e pés aristocraticamente perfeitos, terminados por unhas róseas, muito polidas. Por sob os seios rijos, protraídos, afinava-se o corpo na cintura para alargar-se em uns quadris amplos, para arredondar-se de leve em um ventre firme, ensombrado inferiormente por velo escuro abundantíssimo. Os cabelos pretos com reflexões azulados caíam em franjinhas curtas sobre a testa indo frisar-se lascivamente na nuca. O pescoço era proporcionado, forte, a cabeça pequena, os olhos negros vivos, o nariz direito, os lábios rubros, os dentes alvíssimos, na face esquerda tinha um sinalzinho de nascença, uma pintinha muito escura, muito redonda.
Lenita contemplava-se com amor-próprio satisfeito, embevecida, louca de sua carne. Olhou-se, olhou para o lago, olhou para a selva, como reunindo tudo para formar um quadro, uma síntese.
Acocorou-se faceiramente, assentou a nádega direita sobre o joelho esquerdo erguido, lembrando, reproduzindo a posição conhecida da estátua de Salon, da Venus Accroupie.
Esteve, esteve assim muito tempo: de repente deu um salto, atufou-se na água, surgiu, começou a nadar.
O lago era profundo, mas estreito. Lenita ia e vinha, de uma margem para a outra, do paredão ao açude, do açude ao paredão. Passava por sob o jorro e dava gritos de prazer e de susto ao choque duro da massa líquida sobre o seu dorso acetinado.
Virava de costas e deixava-se boiar, com as pernas estendidas, com o ventre para o céu, com os braços alargados, movendo as mãos abertas, vagarosamente, por baixo da água.
Voltava-se e recomeçava a nadar, rápida como uma flecha.
Um calafrio avisou-a de que era tempo de sair da água.
Saiu com o corpo arrepiado, gélido, a tiritar. Quedou-se ao sol, em uma aberta, esperando a reação do calor, soltando, torcendo, sacudindo os cabelos. De seu corpo desprendia-se um vaporzinho sutil, uma aura tênue, que a envolvia toda.
O calor do sol e o seu próprio calor enxugaram-na de pronto. Vestiu-se, espalhou pelas costas os cabelos ainda molhados, pôs o chapéu, tomou a espingarda, e partiu para casa, a correr, trauteando um trecho dos Sinos de Comeville.
- Oh! meus pecados! Gritou o coronel ao vê-la chegar, alegre, risonha, com os cabelos úmidos. Pois o é esta louquinha que se foi banhar no poço do paredão!
Aquilo é água gelada... Com certeza pilhou um formidável resfriamento!
- O que eu pilhei foi um formidável apetite: hoje ao jantar hei de comer por quatro.
- Ó moleque, anda, vai, traz conhaque lá de dentro, depressa.
- O coronel vai beber conhaque?
- Você vai beber conhaque.
- Nunca provei tal coisa.
- Pois agora há de prová-lo, é o único meio de fazermos as pazes.
Veio o conhaque, um conhaque genuíno, velho, de 1848. Lenita bebeu um calicezinho, tossiu. Lagrimejaram-lhe os olhos, achou forte mas gostou; repetiu.
Chegara o dia de principiar a moagem.
Já de véspera tinham os negros andado em uma faina a varrer a casa no engenho, a lavar os cochos e as bicas, a arear, a polir as caldeiras e o alambique, com grandes gastos de limão e cinza.
Mal amanhecera entrou-se a ver no canavial fronteiro uma fita estreita de emurchecimento que aumentava, que avançava gradualmente no sentido da largura. Era o corte que começara. As roupas brancas de algodão, as saias azuis das pretas, as camisas de baeta vermelha dos pretos punham notas vivas, picantes, naquele oceano de verdura clara, agitadas por lufadas de vento quente.
No casarão do engenho, varrido, asseado, quatro caldeiras e o alambique de cobre vermelho reverberavam polidos, refletindo a luz que entrava pelas largas frestas. As fornalhas afundavam-se lôbregas, escancarando as grandes bocas gulosas.
A água, ainda presa na calha, espirrava pelas juntas da comporta sobre as línguas da roda,
filetes cristalinos. As moendas brilhavam limpas, e os eixos e endentações luziam negros de graxa. Compridos cochos e vasta resfriadeira abriam os bojos amplos, absorvendo a luz no pardo fosco da madeira muito lavada.
Ao longe, quase indistinto a princípio, mas progressivamente acentuado, fez-se ouvir um chiar agudo, contínuo, monótono, irritante. A crioulada reunida em frente ao engenho levantou uma gritaria infrene, tripudiando de júbilo.
Eram os primeiros carros de cana que chegavam.
Arrastados pesadamente por morosos mas robustos bois de grandes aspas, avançavam os ronceiros veículos estalando, gemendo, sob a carga enorme de grossas e compridas canas, riscadas de verde e roxo.
Carreiros negros, altos, espadaúdos, cingidos na altura dos fins por um tirador de couro cru, estimulavam, dirigiam os ruminantes com longas aguilhadas, com brados ostentóricos:
-Eia, Lavarinto! Fasta, Ramalhete! Ruma, Barroso!
Os carros entraram no compartimento das moendas. Negros ágeis saltaram para cima deles, a descarregar. Em um momento empilharam-se as canas, de pé, atadas em feixe com as próprias folhas.
Fez-se fogo na fornalha das caldeiras, abriu-se a comporta da calha, a água despenhou-se em queda violenta sobre as línguas da roda, esta começou de mover-se, lenta a princípio, depois acelerada.
Cortando os atilhos de um feixe a golpes rápidos de facão, o negro moedor entregou as primeiras canas ao revolver dos cilindros. Ouviu-se um estalejar de fibras esmagadas, o bagaço vomitado picou de branco o desvão escuro em que giravam as moendas, a garapa principiou a correr pela bica em jorro fano, verdejante. Após pequeno trajeto foi cair no cocho grande, marulhosa, gorgolante, com grande espumarada resistente.
Os negros banqueiros, empunhando espumadeiras de compridos cabos, tomaram lugar junto às caldeiras.
Levada por uma bica volante, a garapa encheu-os em um átomo. A fornalha esbraseou-se, escandesceu, irradiando um calor doce por toda a vasta quadra. As espumadeiras destras atiravam ao ar em louras espadanas o melaço fumegante, que tornava a cair nas caldeiras, refervendo, aos gorgolões.
Dominava no ambiente aroma suave, sacarino, cortando espaços por uma lufada tépida de cheiro humano áspero, de catinga sufocante exalada dos negros em suor.
O coronel gostava da lavoura de cana; vencendo o seu reumatismo, passava os dias da moagem sentado em um banco de cabriúva alto, largo, fixo entre duas janelas, a distância razoável das caldeiras. Dirigia o trabalho, tomando o ponto ao melaço em um tachinho de cobre muito limpo, muito areado, remexendo com uma pá o açúcar na esfriadeira, quando este, transvazado os reminhóis por uma bica volante especial, aí parava, coalhando-se por cima em crosta amarela, quebradiça.
Lenita não saía do engenho; tudo queria ela saber, de tudo se informava.
O coronel passava por verdadeiros interrogatórios - quais os meses do plantio da cana; que tempo levava esta na terra até ficar pronta para o corte; quando e quantas vezes devia ser carpida; como se cortava; que era baixar, que era levantar o podão; quais os sinais de maturidade; como se conhecia a cana passada; que era carimar; por que tinha menos viço e mais doçura a cana de terra safada; como se plantavam as pontas.
Entrava em detalhes de lavoura, tomava notas; sabia que um alqueire agrário paulista tem cem braças cinqüenta; que a Quarta essa área, em relação à lavoura de canas, chama-se quartel; que um quartel de terra própria, em anos favoráveis, dá de quarenta a cinqüenta carros de canas; que um carro de canas boas produz cinco arrobas de açúcar; que o açúcar sem barro, mascavo, faz mais conta em comércio do que o açúcar com barro, alvo; que o barro é suprido com vantagem pelo estrume bovino.
Subia ao tendal, contava as fôrmas, duas em cada pau; computava o produto em açúcar das quatro tarefas de cada dia; calculava o que haviam de produzir, em aguardente, os resíduos, a espuma, o mel; avaliava a capacidade dos caixões, dos estanques, dos vasos de tanoa de grande arqueação; punha-se ao fato dos preços; comparava os do ano corrente com os dos nove anos anteriores do decênio; generalizava, induzia, chegava a conclusões positivas sobre a renda do município em futuro próximo, dada mesmo a eliminação do fator servil.
O coronel admirava-a. Um dia disse-lhe:
- Com uma mulher como você é que eu devia ter casado.
Pobre eu não sou, mas estaria podre de rico se a tivesse tido para minha administradora desde os meus princípios. Inda se eu tivesse um filho ou um neto da sua idade para se casar com você...
- Por falar em filho, quando vem o seu que está em Paranapanema? perguntou Lenita.
- Eu sei lá? Aquilo é esquisitão, sempre foi. Mete-se com os livros e fica meses sem sair do quarto. De repente vira-lhe a mareta, e lá se vai ele para o sertão, põe-se a caçar e adeus! Não se lembra mais de nada.
- É casado, parece-me ter ouvido dizer.
- Desgraçadamente.
- Onde está a mulher?
- Na terra dela, em França.
- Com que, então, é francesa?
- É, ele casou-se por extravagância em Paris; no fim de um ano nem ele podia suportar a mulher, nem ela a ele. Separaram-se.
- Não sabia que seu filho tinha estado na Europa.
- Esteve, esteve lá dez anos; quando voltou até já falava mal o português.
- Em que países esteve?
- Um pouco em toda a parte: esteve na Itália, na Áustria, na Alemanha, em França. Na Inglaterra foi que parou mais tempo: demorou-se lá, aprendendo com um tipão que afirma que nós somos macacos.
- Darwin?
- Exatamente.
- Então seu filho é homem muito instruído?
- É, fala umas poucas línguas, e conhece bastantes ciências. Sabe até medicina.
- Deve ser muito agradável a sua companhia.
- Há ocasiões em que é de fato, há outras em que nem o diabo o pode aturar. Está então com uma coisa que ele chama em inglês... um nome arrevesado.
- Blue devils?
- Há de ser isso. Então você também pesca um pouco da língua dos bifes?
- Falo inglês sofrivelmente.
- Bem bom, quando Manduca vier e estiverem de veneta, temperarão língua para matar o tempo.
- Estimarei muito ter ocasião de praticar.
E Lenita daí em diante pensou sempre, mesmo a seu pesar, nesse homem excêntrico que, tendo vivido por largo espaço entre os esplendores do mundo antigo, a ouvir os corifeus da ciência, a estudar de perto as mais subidas manifestações do espírito humano; que, tendo desposado por amor, de certo, uma das primeiras mulheres do mundo, uma parisiense, se deixara vencer de tédio a ponto de se vir encafuar em uma fazenda remota do oeste da província de São Paulo, e que, como isso lhe não bastasse, lá ia para o sertão desconhecido a caçar animais ferozes, a conviver com bugres bravos.
Sabia que era homem de quarenta e tantos anos, pouco mais moço do que lhe morrera o pai.
Figurava-o em uma virilidade robusta que, se já não era mocidade, ainda não era velhice; emprestava-lhe uma plástica fortíssima, atlética, a do torso do Belvedere; dava-lhe uns olhos negros, imperiosos, profundos, dominadores. Ansiava por que lhe chegasse a notícia de que ele vinha vindo, de que já tinha pedido os animais para transportar-se da estação à fazenda.
E continuava na sua alegria progressiva: a saudade do pai já não era dolorosa, era apenas melancólica.
Bebia garapa, mas preferia-a picada. Gostava muito de chupar canas: que era melhor do que garapa, dizia; que a cana descascada, torneada a canivete, triturada pelos dentes tinha um frescor, uma doçura especial, que o esmagamento pelas moendas lhe tirava.
Detestava o furu-furu, mas em compensação adorava o ponto, o puxa-puxa. Quando o melaço começava na esfriadeira a engrossar, a cobrir-se de espuma amarela, ela corria-lhe o índice da mão direita pela superfície quente, tirava urna dedada grande, lambia-a com prazer dando estalinhos com a boca, fechando os olhos. Um dia um preto que tinha a seu cargo guiar a carroça de bagaço para o bagaceiro, e que trazia ao pé esquerdo uma grande pega de ferro, falou-lhe:
- Sinhá, olhe como está esta perna; está toda ferida. Ferro pesa muito, fale com sinhô para tirar.