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Da Terra à Lua

Júlio Verne

Capítulo 1

O Clube do Canhão

Durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos, um novo clube muito influente fundou-se na Cidade de Baltimore, no Estado de Maryland. Sabe-se com que energia o instinto militar se desenvolveu entre esse povo de armadores, de comerciantes e de industriais. Simples negociantes deixaram os seus balcões para se improvisarem capitães, coron éis, generais, sem terem passado pelas aulas de academias militares; em breve igualam na ?arte de guerra? os seus colegas do Velho Continente, e como eles conseguiram brilhantes vitórias à força de prodigalizarem balas, milh ões e homens.

Contudo, no que os americanos ultrapassaram singularmente os europeus foi na ciência da balística. Não que as suas armas atingissem mais alto grau de perfeição, mas porque ofereceram dimensões inusitadas, tendo, por conseq üência, alcances desconhecidos até então. No que respeita a tiros rascantes ou de rajada, os ingleses, os franceses e os prussianos nada mais tinham a aprender; mas os seus canhões, os seus obuses, os seus morteiros não passavam de pistolas de bolso comparados com os formidá- veis engenhos bélicos da artilharia americana.

Isto não deve espantar ninguém: os ianques, esses primeiros mecânicos do Mundo, são engenheiros, como os italianos são músicos e os alemães metafísicos - de nascen ça. Nada mais natural que vê-los levar para a ciência da balística a sua audaciosa engenhosidade. Daí esses canhões gigantescos, muito menos úteis do que máquinas de costura, mas tão espantosos como elas e ainda mais admirados.

Portanto, durante essa terrível luta entre nortistas e sulistas, os artilheiros estiveram em primeiro lugar; os jornais dos Estados Unidos celebravam as suas invenções com entusiasmo, e não havia comerciante nem ingênuo basbaque que não quebrasse a cabeça, de dia e de noite, e calculando trajetórias absurdas.

Ora, quando um americano tem uma idéia, procura logo outro americano que a partilhe com ele.

Se chegam a ser três, elegem um presidente e um secretá- rio. Se forem quatro, nomeiam um arquivista e a sociedade funciona. No caso de serem cinco, convocam uma assembl éia geral e o clube fica constituído. Foi assim que sucedeu em Baltimore. 0 primeiro a inventar um novo canh ão associou-se ao primeiro que o fundiu e ao primeiro que o forjou. Foi esse o início do Clube do Canhão. Um mês após a sua formação, contava mil oitocentos e trinta e três membros efetivos e trinta mil quinhentos e setenta e cinco sócios correspondentes.

Uma condição sine qua non era imposta a todos aqueles que quisessem entrar na associação: ter imaginado ou pelo menos aperfeiçoado uma arma, qualquer arma de fogo.

No entanto, para falar a verdade os inventores de revólver de quinze tiros, de carabinas de repetição ou de sabres e pistolas não gozavam de grande consideração aos artilheiros é que era reconhecida primazia em todas as circunst âncias.

Fundado o Clube do Canhão, calcula-se facilmente o que produziu neste gênero o gênio inventivo dos americanos.

Os engenhos de guerra tomaram proporções colossais, e os projéteis foram, para além dos limites permitidos, cortar em dois os transeuntes inofensivos. Todas essas inven- ções deixaram muito para trás os tímidos instrumentos da artilharia européia.

Era uma reunião de ?anjos exterminadores?, que no entanto continuavam a ser considerados as melhores pessoas do mundo.

Deve acrescentar-se que esses ianques, dotados de uma coragem sem limites, não se limitaram às fórmulas e se dedicaram de corpo e alma à arte da guerra. Havia entre eles oficiais de todas as patentes, de tenentes a generais; militares de todas as idades: os que iniciavam a sua carreira e os que nela envelheciam. Muitos deles ficaram para sempre no campo de batalha e os seus nomes passaram a figurar no livro de honra do Clube do Canhão. Daqueles que voltaram, a maior parte ostentava honrosos sinais da sua indiscutível intrepidez: muletas, pernas de pau, braços artificiais, mãos artificiais, maxilares de borracha, crânios de prata, narizes de platina, nada faltava à coleção, e Pitcaim chegou mesmo a calcular igualmente que no Clube do Canh ão não chegava a haver um braço para quatro pessoas, e apenas duas pernas para seis.

Todavia, esses valentes artilheiros não se importavam com tais ninharias, e sentiam-se com todo o, direito de se ufanarem quando o boletim de uma batalha mostrava um nú- mero de vítimas que decuplicava a quantidade dos projéteis gastos.

Porém, num dia, num triste e lamentável dia, a paz foi assinada pêlos sobreviventes da guerra, as detonações cessaram pouco a pouco, os morteiros calaram-se, as peças de artilharia foram amordaçadas por muito tempo e os canh ões, de cabeça baixa, voltaram para os arsenais, as bala empilharam-se nos paióis, as recordações sangrentas apagaram- se, os algodoeiros cresceram magnificamente nos campos largamente adubados, as roupas de luto acaba ram por desaparecer com as dores e as saudades, e o Clube do Canhão estagnou em profunda inatividade.

- É desolador - disse uma noite o bravo Tom Hunter, enquanto as pernas de pau se carbonizavam no fogo da lareira da sala de fumo. - Nada a fazer! Nada a esperar! Que existência fastidiosa! Aonde vai o tempo em que o canhão nos acordava todas as manhãs com as suas alegres detona ções? - Esse tempo já não existe - respondeu o fogoso Bilsby, procurando estirar os braços que lhe faltavam. - Então sim, era um prazer! Inventavam uma peça de artilharia, e logo que a fundiam corriam a experimentá-la nas fileiras do inimigo; depois, voltavam ao acampamento com um encorajamento de Sherman ou um aperto de mão de Mac- Clellan! Mas hoje, os generais voltaram para as suas ocupa ções civis, e, em vez de projéteis, ?expedem inofensivos fardos de algodão! Por Santa Bárbara. 0 futuro da artilharia está perdido na América.

- Sim, Bilsby - exclamou o Coronel Blomsberry - que cruéis decepções! Um dia deixa a gente os hábitos tranqüilos, exercita-se no manejo das armas, troca-se Baltimore pelos campos de batalha, porta-se como um herói, e, dois anos, três anos mais tarde, é preciso desprezar o fruto de tantas fadigas, adormecer numa deplorável inatividade e enfiar as mãos nos bolsos.

Dissesse o que dissesse, o valente coronel seria impedido de dar um tal sinal da sua inatividade, e, no entanto, não eram os bolsos que lhe faltavam.

- E nenhuma guerra em perspectiva - disse então o famoso J. T. Maston, coçando com a sua mão de ferro o seu crânio de guta-percha. - Nem uma nuvem no horizonte, e isso quando há tanto a fazer na ciência da artilharia! Eu terminei esta manhã o desenho, com plano, perfil e eleva- ção, de um morteiro destinado a alterar as leis da guerra! - Verdade? - replicou Tom Hunter, pensando involuntariamente na última experiência do honrado J. T.

Maston.

- É verdade - respondeu Maston. - Mas de que servirão tantos estudos levados a bom termo, tantas dificuldades vencidas? Não será trabalhar à toa? Os povos do Novo Mundo parecem estar decididos a viver em paz, e o nosso belicoso Tribune chega ao ponto de anunciar catástrofes iminentes devido ao escandaloso crescimento da popula- ção.

- No entanto, Maston - retorquiu o Coronel Blomsberry -, continuam a bater-se na Europa para manter o princípio das nacionalidades! - E então? - E então! Talvez pudéssemos tentar qualquer coisa lá, se aceitassem os nossos serviços...

- Tem pensado nisso? - escandalizou-se Bilsby. - Fazer bal ística em proveito dos estrangeiros! - Vale mais isso do que não fazer nada - respondeu o coronel.

- Sem dúvida - disse J. T. Maston -, seria melhor, mas não devemos pensar sequer nesse expediente.

- E por quê? - perguntou o coronel.

- Porque no Velho Mundo têm idéias que contrariam todos os nossos hábitos americanos. Essa gente acha que não se pode ser general-chefe sem ter servido como tenente, o que equivaleria a dizer que não se pode ser bom artilheiro a não ser que se tenha fundido o canhão! Ora, isso é simplesmente...

- Absurdo! - replicou Tom Hunter, rasgando os braços do seu cadeirão com o seu facão. - E, visto que as coisas estão neste pé, só nos resta plantar tabaco ou destilar óleo de baleia.

- Como! - exclamou J. T. Maston, com voz retumbante. - Não passaremos os últimos anos da nossa existência aperfei çoando armas de fogo? Não se apresentará nova ocasi ão de experimentar o alcance dos nossos projéteis? A atmosfera não se iluminará mais com o clarão dos nossos canhões? Não surgirá uma dificuldade internacional que nos permita declarar guerra a qualquer potência transatlântica? Os franceses não afundarão um só dos nossos barcos, e os ingleses não enforcarão, desprezando os direitos humanos, três ou quatro dos nossos compatriotas? - Não, Maston - respondeu o Coronel Blomsberry -; não teremos essa felicidade! Não. Nenhum desses incidentes se produzirá e, mesmo que se produzisse, não tiraríamos proveito algum dele. - A suscetibilidade americana vai desaparecendo de dia para dia e nós vamos nos tornando efeminados.

- Sim, nós humilhamo-nos! - replicou Bilsby.

- E humilham-nos! - retrucou Tom Hunter.

- Tudo isso é verdade - replicou J. T. Maston com veemência.

- Há no ar mil razões para nos batermos e no entanto não nos batemos. Economizam-se braços e pernas, e isso em proveito de pessoas que não sabem que fazer deles! E sem precisarmos de ir procurar tão longe um motivo de guerra... a América do Norte não pertenceu outrora aos ingleses? - Sem dúvida - respondeu Tom Hunter, queimando raivosamente a extremidade da sua muleta.

- Pois bem! - replicou J. T. Maston. - Por que é que a Inglaterra não há-de pertencer por sua vez aos americanos? - isso seria justo - retrucou o Coronel Blomsberry.- Entretanto - continuou J. T. Maston, para concluir -, se não me dão ocasião para experimentar o meu novo morteiro num campo de batalha, demito-me de membro do Clube do Canhão, e corro a enterrar-me nas savanas do ArKansas! - E nós segui-lo-emos - responderam em uníssono os interlocutores do audacioso J. T. Maston.

Estavam as coisas nesse pé, e os espíritos exaltando-se cada vez mais, o que ameaçava o clube de próxima dissolu ção, quando um inesperado acontecimento impediu tão lamentável catástrofe.

Logo no dia seguinte, cada membro do clube recebia uma circular escrita nestes termos: ?Baltimore, 3 de outubro.

0 Presidente do Clube do Canhão tem a honra de comunicar aos caros colegas de que na sessão de 5 do corrente lhes fará uma exposição da natureza a interessá-los vivamente: Conseqüentemente, pede-lhes que, pondo de parte qualquer outro negocio, não deixem de comparecer à reunião para que são convidados pela presente.

Muito cordialmente.

Impey Barbicane Presidente do Clube do Canhão.?

Capítulo 2 Comunicação do Presidente Barbicane

No dia 5 de outubro, às oito horas da noite, encontrava-se reunida uma compacta multidão nos salões do Clube do Canhão.

Entretanto, o grande salão oferecia aos olhares um curioso espetáculo. Estava maravilhosamente apropriado para o que se destinava. Altas colunas compostas por canhões sobrepostos e apoiados em enormes morteiros sustinham os finos lavores da abóbada. Panóplias de bacamartes, de arcabuzes, de carabinas, de todas as espécies de armas de fogo antigas e modernas se entrelaçavam pitorescamente nas paredes. A luz do gás emergia de centenas de revólveres agrupados em forma de lustres, enquanto girândolas de pistolas e candelabros feitos de espingardas reunidas em feixes completavam a esplêndida iluminação. Os modelos de canhões, as amostras de bronze, os alvos criva dos de tiros, as chapas quebradas pelo choque das balas do Clube do Canhão, coleções completas de soquetes e lanadas, os rosários de bombas, os colares de projéteis, as grinaldas de obuses - em uma palavra, todos os utensílios do artilheiro surpreendiam pela sua espantosa e admirável disposição e faziam pensar que o seu verdadeiro fim era mais decorativo que mortífero.

No lugar de honra, resguardado por uma esplêndida vitrina, um pedaço de culatra, quebrado e torcido, sob os efeitos da Pólvora, destroço precioso do canhão de J. T. Maston.

No fundo da sala, o presidente, assistido por quatro secret ários, ocupava uma espaçosa plataforma. 0 seu lugar, erguido sobre um reparo esculpido, assemelhava-se, no seu todo, às robustas formas de um morteiro de trinta e duas polegadas; estava assestado sob um ângulo de noventa graus e suspensos em munhões, de tal modo que o presidente podia imprimir-lhe, como às cadeiras de balanço, um movimento bastante agradável nas ocasiões de grande calor. Sobre a secretária, grande placa metálica, apoiada em seis obuses, via-se um tinteiro de requintado gosto, admiravelmente cinzelado, e uma campainha de detona- ção, que soava, nas ocasiões em que era tocada, como um revólver. Durante as mais veementes discussões, essa campainha de novo gênero mal chegava no entanto para cobrir a voz daquela legião de artilheiros entusiasmados.

Impey Barbicane era um homem de quarenta anos, calmo, frio, austero, com um espírito eminentemente sério e concentrado; exato como um cronômetro, de um temperamento a toda prova e de um caráter inquebrantável; pouco cavalheiresco, aventureiro, mas levando o seu espírito prático até para os empreendimentos mais temerários; era por excelência o homem da Nova Inglaterra, o nortista colonizador, o descendente desses Cabeças-redondas tão funestos aos Stuarts, e implacável inimigo dos gentlemen do Sul, esses antigos cowboys da mãe-pátria. Era de estatura mediana, tendo, como rara exceção no Clube do Canhão, todos os seus membros intactos. Em resumo: um ianque feito de uma única peça.

Quando soaram as oito horas no relógio da grande sala, Barbicane, como se fosse movido por uma mola, ergueuse subitamente; fez-se um silêncio geral e o orador, num tom um pouco enfático, tomou a palavra nestes termos: - Bravos colegas, de há muito tempo que uma paz infecunda veio mergulhar os membros do Clube do Canhão numa lamentável inatividade. Após um período de alguns anos, tão cheio de incidentes, foi necessário abandonar os nossos trabalhos e deter-nos na senda do progresso. Não receio proclamar em voz alta que uma guerra que voltasse a colocar as armas nas nossas mãos seria bem-vinda...

- Sim, a guerra! - exclamou o impetuoso J. T. Maston.

Ouçam! Ouçam! - gritaram de todos os lados.

Mas a guerra - continuou Barbicane -, a guerra é impossível nas circunstâncias atuais, e, apesar do que possa esperar o meu honrado colega, passar-se-ão muitos anos antes que os nossos canhões voltem a troar nos campos de batalha.

Devemos, portanto, tomar uma decisão e procurar em outro campo de ação alimento para a atividade que nos devora! A assembléia sentiu que o seu presidente ia abordar o Ponto delicado. Redobrou, portanto, de atenção.

- Desde há alguns meses, meus bravos colegas - continuou Barbicane - que pergunto a mim mesmo se, embora continuando a manter-nos dentro da nossa especialidade, não poderíamos empreender alguma grande experiência digna do século XIX, se os progressos da balística não nos permitiriam levá-la a bom termo. Procurei, trabalhei, calculei, e dos meus estudos resultou a convicção de que ?poderemos ter êxito numa empresa que pareceria impraticável para qualquer outro país. Este projeto, longamente elaborado, vai ser o objeto da minha comunicação; é digno de vós, digno do passado do Clube do Canhão, e não poderá deixar de fazer sensação no Mundo.

- Muita sensação? - perguntou um artilheiro apaixonado.

- Muita sensação no verdadeiro sentido do termo! - respondeu Barbicane.

- Não interrompam! - repetiram muitas vozes.

- Peço-lhes, portanto, caros colegas, para me darem toda a vossa atenção.

Um frêmito correu pela assistência. Barbicane, depois de ter num gesto rápido assegurado a posição de seu chapéu na cabeça, continuou o seu discurso com voz calma.

- Não há um só de vós, caros colegas, que não tenha visto a Lua, ou pelo menos não tenha ouvido falar nela. Não se admirem de eu vir aqui falar do astro da noite. A nós está talvez reservado sermos os colombos desse mundo desconhecido.

Compreendam-me, apoiem todo o vosso poder, e eu conduzi-los-ei à sua conquista, e o vosso nome juntar-se-á ao dos trinta e seis Estados que formam este grande país! - Viva a Lua! - exclamou o Clube do Canhão numa só voz.

- A Lua tem sido muito estudada - prosseguiu Barbicane _; a sua massa, a sua densidade, o seu peso, o seu volume, a sua constituição, os seus movimentos, a sua distância, o seu papel no sistema solar estão perfeitamente determinados; fizeram-se mapas selenográficos com uma perfeição que iguala, se é que não ultrapassa, a dos mapas terrestres; a fotografia deu do nosso satélite provas de uma incomparável beleza. Resumindo, sabe-se da Lua tudo que as ciências matemáticas, a astronomia, a geologia e a ótica podem ensinar a seu respeito; mas até agora nunca foi estabelecida uma ligação direta com ela.

Esta última frase excitou tal interesse e surpresa que chegou a produzir grande agitação.

- Permitam-me - continuou ele - lembrar-lhes como certos espíritos ardentes, embarcados em viagens imaginárias, pretenderam ter penetrado os segredos do nosso satélite.

No século XVII, um certo David Fabricius gabou-se de ter visto com os seus próprios olhos os habitantes da Lua. Em 1649, um francês, Jean Baudoin, publicou a Viagem Feita ao Mundo da Lua pelo Aventureiro Espanhol Dominguez Gonzalez. Na mesma época, Cyrano de Bergerac deu à luz da publicidade aquela célebre expedição que tanto êxito teve na França. Mais tarde, outro francês (porque esses indiví- duos ocupam-se muito da Lua), chamado Fontenelle, escreveu a Pluralidade dos Mundos, uma obra-prima do seu tempo; mas o avanço da ciência esmaga as obras-primas1 Por volta de 1835, um folheto traduzido do New York American contou que Sir John Herschell, enviado ao cabo da Boa Esperança, para ali fazer estudos astronômicos, tinha conseguido, por meio de um- telescópio aperfeiçoado por uma iluminação interna, trazer a Lua para uma dist ância de oitenta jardas. Teria então visto distintamente as cavernas em que viviam os hipopótamos, as verdes montanhas orladas de rendas de ouro, carneiros com chifres de marfim, cabritos brancos, habitantes com asas membranosas como as dos morcegos. Esta brochura, obra de um americano chamado Locke, conheceu grande popularidade.

Mas em breve se reconheceu tratar-se de uma mistificação científica, e os franceses foram os primeiros a rir-se dela.

- Rir de um americano! - exclamou J. T. Maston. - Mas isso é um caso de guerra!...

- Tranqüilize-se, meu digno amigo. Os franceses, antes de rirem, tinham sido perfeitamente iludidos pelo nosso compatriota.

Para terminar este rápido relato histórico, acrescentarei que um certo Hans Pfael, de Roterdã, subindo num balão cheio de um gás obtido do azoto, e trinta e sete vezes mais leve do que o hidrogênio, atingiu a Lua após dezenove dias de travessia. Essa viagem, como as tentativas precedentes, era simplesmente imaginária, mas tratase de obra de um escritor popular na América, de um gênio singular e contemplativo. Refiro-me a Edgar Poe.

- Viva Edgar Poe! - gritou a assembléia, eletrizada pelas palavras do presidente.

- Acabei - continuou Barbicane - com essas tentativas a.

que chamarei puramente literárias, e perfeitamente insuficientes para estabelecer relações com o astro da noite.

Assim, há alguns anos um geómetra alemão propôs enviar uma comissão de sábios para as estepes da Sibéria. Ali, em vastas planícies, deviam fazer desenhar imensas figuras geométricas, por meio de refletores luminosos, entre outras a do quadrado da hipotenusa. ?Qualquer ser inteligente ?, dizia este geómetra, ?deve compreender o destino cient ífico dessa figura. Portanto, os selenitas, se é que existem, responderão com uma figura semelhante, e, uma ?vez estabelecida a comunicação, será fácil criar um alfabeto que permitirá trocar mensagens com os habitantes da Lua.? Assim falava o geómetra alemão, mas o seu projeto não foi posto em execução e até agora nenhuma ligação direta foi estabelecida entre a Terra e o seu satélite. Mas está reservado ao gênio Prático dos americanos a concretização da relação com o Mundo sideral. 0 meio de conseguir é sim?, fácil, certo, infalível, e vai ser o objeto da minha proposta.

Um barulho ensurdecedor, uma tempestade de aclamações acolheu estas palavras.

Quando a agitação se acalmou, Barbicane recomeçou em tom mais grave o seu interrompido discurso: - Sabeis bem - disse - que progressos a balística tem feito desde há alguns anos e a que grau de perfeição teriam chegado as armas de fogo se a guerra tivesse continuado.

Também não ignorais que, de modo geral, a força de resist ência ? dos canhões e o poder expansivo da pólvora são ilimitados. Pois bem, partindo deste princípio, perguntei a mim mesmo se, por meio de um instrumento adequado, em condições de resistência determinadas, não seria poss ível enviar uma bala para a Lua.

A estas palavras, uma exclamação de estupefação saiu de mil peitos ofegantes; depois fez-se um momento de silêncio, semelhante a essa calma profunda que precede o ruído do trovão. E, realmente, a tempestade rebentou mas uma tempestade de aplausos, de gritos, de clamores, que fez tremer a sala. 0 presidente queria falar, mas não podia. Só passados dez minutos é que ele conseguiu fazer-se ouvir.

- Deixem-me concluir - continuou com voz fria. - Examinei a questão sob todos os aspectos, abordei resolutamente o problema, e dos meus cálculos, indiscutíveis, resulta que qualquer projétil dotado de uma velocidade inicial de doze mil jardas por segundo, e dirigido para a Lua, chegará necessariamente até lá. Tenho, portanto, a honra de vos propor, meus valentes colegas, tentarem esta pequena experi ência! É impossível descrever o efeito produzido pelas últimas palavras do honrado presidente: Era uma desordem, um sussurro de vozes indescritível. As bocas gritavam, à mãos batiam, os pés faziam estremecer o pavimento. Todas as armas daquele museu de artilharia, disparadas ao mesmo tempo, não teriam agitado mais violentamente as ondas sonoras. Isso não pode surpreender.

Há artilheiros quase tão ruidosos quanto os seus canh ões.

Barbicane permanecia calmo no meio desses clamores entusiastas; talvez quisesse dirigir ainda algumas palavras aos seus colegas, pois os seus gestos reclamavam silêncio, e a sua campainha. fulminante detonou tão inútil quanto violentamente. Nem sequer o ouviam. Pouco depois foi arrancado da sua cadeira e levado em triunfo.

Passou das mãos dos seus fiéis camaradas para os braços de unia multidão não menos exaltada.

0 passeio triunfal do presidente prolongou-se pela noite.

Foi uma verdadeira marcha iluminada por archotes.

Precisamente, como, se tivesse compreendido que se tratava dela, a Lua brilhava nesse momento com uma serena magnificência, eclipsando com a sua intensa radiação as luzes terrestres. Os ianques voltavam os olhos para o seu disco cintilante; uns saudavam-na com a mão, outros com nomes mais meigos; enquanto uns a mediam com o olhar, havia outros que a ameaçavam.

Somente por volta das duas horas, a emoção acalmou-se.

0 Presidente Barbicane conseguiu voltar para a sua casa, moído, cansado. Um hércules não teria resistido a semelhante entusiasmo. A multidão abandonou pouco a pouco as praças e as ruas.

No dia seguinte, mil e quinhentos jornais diários, ,semaná- rios, mensais ou bimensais, apoderaram-se da questão, examinaram-na sob os seus diferentes pontos de vista, físicos, meteorológicos, econômicos ou morais, pela .perspectiva da preponderância política ou da civilização. Perguntavam se a Lua seria um mundo morto, se não estaria ainda em via de transformação. Se assemelharia à Terra no tempo em que ainda não tinha atmosfera. Que espetáculo apresentaria a parte invisível do nosso satélite? Se bem que se tratasse ainda apenas de enviar uma bala ao astro da noite, todos viam nela um ponto de partida para uma série de novas experiências; todos esperavam que um dia a América penetrasse os últimos segredos desse disco misterioso e alguns mesmo pareciam temer que a sua conquista alterasse sensivelmente o equilíbrio europeu.

Discutido o projeto, nenhum jornal pós em dúvida a possibilidade da sua realização; as revistas, os panfletos, os boletins e os magazines publicados pelas sociedades científicas, literárias ou religiosas, faziam ressaltar as suas vantagens, e a Sociedade de História Natural de Boston, a Sociedade Americana das Ciências e das Artes de Alabany, a Sociedade Geográfica e Estatística de Nova Iorque, a Sociedade Filosófica Americana de Filadélfia, o Instituto Smithsoniano de Washington, enviaram em cartas as suas felicitações ao Clube do Canhão, com ofertas imediatas de coadjuvação e de dinheiro.

A verdade, pode dizer-se, é que nunca nenhuma proposta reuniu tal número de adesões; hesitações, dúvidas, inquieta ções não ocorreram a ninguém. Quanto às brincadeiras, às caricaturas, às canções que teriam acolhido na Europa, e especialmente na França, a idéia de enviar um projétil à Lua, teriam servido muito mal os seus autores; nem todos os revólveres do mundo seriam capazes de garantir a sua segurança contra a indignação geral. Há coisas de que as pessoas não riem no Novo Mundo. Impey Barbicane tornou- se, a partir desse d ia, um dos maiores cidadãos dos Estados Unidos, qualquer coisa como o Washington da Ci- ência.

Capitulo 3 O romance da Lua

Um observador dotado de uma vista infinitamente penetrante, e colocado nesse centro desconhecido em redor do qual gravita o mundo, teria visto miríades de átomos encherem o espaço na época caótica do Universo. Mas, pouco a pouco, com os séculos, produziu-se uma mudança; manifestou-se uma lei de atração e a ela obedeceram os átomos outrora errantes; esses átomos combinaram-se quimicamente segundo as suas afinidades, tornaram-se moléculas e formaram esses agregados nebulosos de que estão semeadas as profundezas do céu.

Animaram-se então esses agregados de um movimento de rotação em torno do seu ponto central. Esse centro, formado de moléculas vagas, começou a girar sobre si m esmo e foi condensando-se progressivamente; de resto, seguindo as leis imutáveis da mecânica, à medida que o seu volume diminuía pela condensação, o seu movimento de rotação acelerava-se e, persistindo esses dois efeitos, resultou daí o aparecimento de uma estrela principal, novo centro do agregado nebuloso.

Se o observador olhasse atentamente teria então visto as outras moléculas do agregado comportarem-se como a estrela central, condensando-se a seu modo por um movimento de rotação progressivamente acelerado, gravitando em torno da central sob a forma de inúmeras estrelas.

Assim se formaram as nebulosas, que os astrônomos contam hoje em número de cinco mil.

Entre essas cinco mil nebulosas existe uma a que os homens chamaram Via Láctea, que comporta dezoito milhões de estrelas, das quais cada uma se tornou o centro de um sistema solar.

Se o observador tivesse então examinado especialmente entre esses dezoito milhões de estrelas uma das modestas e menos brilhantes, uma estrela de quarta ordem a que chamamos orgulhosamente ?Sol?, todos os fenômenos aos quais é devida a formação do Universo desenrolar perante os seus olhos.

Efetivamente, teria visto esse sol, ainda no seu estado gasoso e composto de moléculas móveis, girando sobre o seu eixo para concluir o seu trabalho de concentração. Esse movimento, fiel às leis da mecânica, havia de acelerar-se com a diminuição de volume, e haveria de chegar um momento em que a força centrífuga venceria a força centrípeta, que atrai as moléculas exatamente para o centro.

Então ter-se-ia passado outro fenômeno diante dos olhos do observador: as moléculas- situadas no plano do equador, soltando-se como a pedra de uma funda cuja corda se quebra subitamente, teriam formado, em redor do Sol, vá- rios anéis concêntricos semelhantes aos de Saturno. Por sua vez, esses anéis de matéria cósmica, animados por um movimento de rotação em redor da massa central, teriam quebrado e decomposto em nebulosidades secund árias, isto é, em planetas. Se o observador tivesse então concentrado toda a sua atenção sobre esses planetas, tê- los-ia visto comportarem-se exatamente como o Sol e provocar o nascimento de um ou vários anéis cósmicos, origem desses astros de ordem inferior a que dão o nome de satélites.

Assim, indo do átomo à molécula, da molécula ao agregado nebuloso, do agregado nebuloso à nebulosa, da nebulo20 sa à estrela principal, da estrela principal ao Sol, do Sol ao planeta, e do. planeta ao satélite, temos toda a série das transformações sofridas- pelos corpos celestes desde os primeiros dias do Universo.

0 Sol parece perdido nas imensidades do mundo estelar e no entanto está ligado, segundo as atuais teorias da ciência, à nebulosa chamada Via Láctea. Centro de um mundo, por mais pequeno que pareça no meio das regiões etéreas, é no entanto enorme, pois o seu volume é um milhão e quatrocentas mil vezes o volume da Terra. Em torno dele gravitam oito planetas que nos primeiros tempos da cria- ção lhe saíram das próprias entranhas. São estes planetas, partindo-se do mais próximo para o mais remoto, Mercú- rio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.

Além destes circulam, regularmente, entre Marte e Júpiter, outros corpos, de volume menos considerável, talvez restos errantes de algum astro quebrado em milhares de peda ços. Destes, o telescópio já descobriu noventa e sete.

Alguns dos corpos que o Sol mantém nas respectivas órbitas elípticas, por força da grande lei da gravitação, também têm seus satélites. Urano tem oito, Saturno, oito, Júpiter, quatro, Netuno, talvez três, a Terra, um apenas, que é dos menos importantes do mundo solar, a Lua, que o engenho audaz dos americanos pretendia conquistar.

0 astro das noites, já pela proximidade relativa a que está, já por virtude do espetáculo sempre renovado das diversas fases que apresenta, partilhou sempre com o Sol a atenção dos habitantes da Terra. A diferença é que olhar para o Sol cansa e os esplendores da luz solar forçam a abaixar os olhos. A loura Felye é mais humana e, mais cheia de modesta graça, deixa-se ver com complacência. É suave para a vista, pouco ambiciosa e no entanto permitese por vezes eclipsar o irmão, o radioso Apolo, sem nunca ser eclipsada por ele. Os maometanos compreenderam o reconhecimento que deviam a essa fiel amiga da Terra e por isso regularam os seus meses sobre a sua rotação.

Os primeiros povos votaram um culto especial a essa casta deusa. Os egípcios chamavam-lhe Ísis; os fenícios Astartéia; os gregos adoraram-na com o nome de Febe, filha de Latona e Júpiter, e explicavam os seus eclipses pelas visitas misteriosas de Diana ao belo Endimião. A crer na lenda mitológica, o leão de Neméia percorreu as campinas da Lua antes do seu aparecimento na Terra, e o poeta Agenianax, citado por Plutarco, celebrou nos seus versos os seus olhos meigos, o seu nariz encantador e a sua boca amável, que figuram as partes luminosas da admirável Selene.

Contudo, se os antigos compreenderam bem o caráter, o temperamento, numa palavra, as qualidades morais da Lua do ponto de vista mitológico, os mais sábios dentre eles permaneceram muito ignorantes em selenografia.

Entretanto, vários astrônomos das épocas longínquas descobriram certas particularidades confirmadas hoje pela ci- ência. Se os arcádios pretenderam ter habitado a Terra numa época em que a Lua ainda não existia, se Tatius a considerou como um fragmento destacado do disco solar, se Clearco, discípulo de Aristóteles, fez dela um espelho polido sobre o qual se refletiam as imagens do oceano, se outros, enfim, viram apenas nela um amontoado de vapores exalados pela Terra, ou um globo semi gelado, que girava sobre si mesmo, alguns sábios, por meio de sagazes observa ções, à falta de instrumentos de ótica, suspeitaram pelo menos da existência da maior parte das leis que regem o astro noturno.

Assim Tales de Mileto, quatrocentos e sessenta anos antes de Cristo, emitiu a opinião de que a Lua era iluminada pelo Sol. Aristarco de Samos deu a verdadeira explicação das suas fases. Cleômenes ensinou que a Lua brilhava com uma luz refletida. 0 caldeu Barósio descobriu que a duração dó seu movimento de rotação era igual à da sua revolução, e explicou assim o fato de a Lua apresentar sempre a mesma face. Por fim, Hiparco, dois séculos antes da era cristã, reconheceu algumas desigualdades nos movimentos aparentes do satélite da Terra.

Estas diferentes observações confirmaram-se mais tarde e serviram aos modernos astrônomos. Ptolomeu, no século II, o árabe Abul-Wefa, no século X, completaram as observa ções de Hiparco acerca das desigualdades apresentadas pela Lua na linha ondulada da sua órbita sob a ação do Sol.

Depois Copérnico, no século XV, e Ticho Brahe, no século XVI, explicaram completamente o sistema do mundo e o papel desempenhado pela Lua no conjunto dos corpos celestes.

Nessa época, os seus movimentos estavam mais ou menos determinados; mas pouco se sabia da sua constituição física. Foi então que Galileu explicou os fenômenos luminosos produzidos em certas fases pela existência de montanhas, às quais atribuía uma altura média de quatro mil e quinhentas toesas.

Depois dele, Hevélio, um astrônomo de Dantzig, avaliou as mais elevadas dessas montanhas em duas mil e seiscentas toesas; mas o seu confrade Riccioli elevou-as para sete mil. Herschell, nos fins do século XVIII, armado de um poderoso telescópio, reduziu singularmente as medidas precedentes.

Atribuiu mil e novecentas toesas às montanhas mais altas, e reduziu a média das diferentes alturas para apenas quatrocentas toesas. Mas também Herschell se enganava, e foram necessárias as observações de Shroeter, Louville, Halley, Nasmyth, Bianchini, Partorf, Lohrman, Gruithuysen, e sobretudo os pacientes estudos de Beer e de Moedler, para resolver definitivamente a questão. Gra- ças a esses sábios, a altitude das montanhas da Lua é perfeitamente conhecida hoje em dia. Beer e Moedier mediram mil novecentas e cinco altitudes, das quais seis estão acima das duas mil e seiscentas toesas, e vinte e duas acima das duas mil e quatrocentas. 0 seu mais alto cume domina de uma altura de três mil e oitocentas e uma toesas a superfície do disco lunar.

Ao mesmo tempo, ia-se completando o conhecimento da Lua; esse astro mostrava-se crivado de crateras e cada nova observação confirmava mais a sua natureza essencialmente vulcânica. Da falta de refração nos raios dos planetas ocultos por ela, concluiu-se que a atmosfera devia faltar-lhe quase totalmente., Essa ausência de ar levava à conclusão de haver igualmente ausência de água. Tomavase, portanto, evidente que para viver na Lua os seus habitantes deviam ter um organismo especial, diferindo essencialmente dos habitantes da Terra.

Enfim, graças aos novos métodos, instrumentos mais aperfei çoados perscrutaram a Lua sem descanso, não deixando por explorar nenhum ponto da sua superfície, e no entanto o seu diâmetro mede duas mil cento e cinqüenta milhas, a sua superfície é a décima terceira parte da superf ície do Globo e o seu volume a quadragésima nona parte do volume do esferóide terrestre; mas nenhum dos segredos podia escapar ao olhar dos astrônomos, e esses há- beis sábios levaram ainda mais longe as suas prodigiosas observações.

Assim, notaram que, durante a lua cheia, o disco surgia em certas partes raiado por linhas brancas e durante as outras fases raiado por linhas negras. Estudando com maior precis ão, conseguiram determinar com exatidão a natureza dessas linhas. Eram sulcos compridos e estreitos, cavados entre mar. s paralelas, levando geralmente aos contornos das crateras; tinham um comprimento compreendido entre dez e cem milhas e uma largura de oitocentas toesas. Os astrônomos chamaram-lhes ranhuras, mas não passaram disso. Quanto à questão de se saber se essas ranhuras eram ou não leitos secos de rios, não puderam resolvê-la de maneira completa. Os americanos já concebiam tamb ém a esperança de determinar com exatidão aquele fato geológico.

Quanto à intensidade da luz lunar, nada mais havia a aprender a esse respeito; sabia-se que ela era trezentas mil ve24 zes mais fraca que a do Sol e que o seu calor não tem ação apreciável sobre os termômetros; quanto ao fenômeno conhecido pelo nome de luz cendrada, explicasse naturalmente pelo efeito dos raios do Sol refletidos na Terra e que depois da reflexão se dirigem para a Lua. Parece, por este fenômeno, completar-se o disco lunar, quando este se apresenta sob a forma de um crescente na sua primeira e última fase. Era este o estado dos conhecimentos adquiridos a respeito do satélite da Terra, e que o Clube do Canhão se Propunha completar em todos os campos: cosmográfico, geológico, político e moral.