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Viagem ao Centro da Terra

Júlio Verne

I

A 24 de maio de 1863, um domingo, meu tio, o professor Lidenbrock, voltou precipitadamente para sua casinha no número 19 da Königstrasse, uma das ruas mais antigas do velho bairro de Hamburgo.

A boa Marthe deve ter achado que estava muito atrasada, pois o jantar mal começara a chiar no fogão da cozinha.

"Bem", pensei, "se estiver com fome, meu tio, que é o mais impaciente dos homens, vai dar gritos de aflição".

- O senhor Lidenbrock já chegou! - exclamou Marthe, estupefata, entreabrindo a porta da sala de jantar.

- Já, Marthe; mas o jantar tem o direito de não estar pronto, pois não são nem duas horas. Acabou de dar a meia hora em São Miguel.

- Então por que o senhor Lidenbrock está de volta? - Logo saberemos por ele mesmo.

- Ei-lo! Vou sumir, senhor Axel; o senhor se encarregue de fazer com que se mostre razoável.

E a boa Marthe desapareceu em seu laboratório culinário.

Fiquei sozinho. Fazer com que o mais irascível dos professores se mostrasse razoável era algo que o meu temperamento um tanto indeciso não permitia. Preparava-me para voltar ao meu quartinho no último andar quando as dobradiças da porta rangeram; a escada de madeira estalou sob os grandes pés, e o dono da casa, depois de atravessar a sala de jantar, precipitou-se imediatamente para seu gabinete de trabalho.

Durante a rápida passagem jogara num canto sua bengala com um quebra-nozes na ponta, seu grande chapéu de pêlos arrepiados na mesa, e as seguintes palavras retumbantes a seu sobrinho: - Axel, siga-me! Eu mal tivera tempo de me mexer, e o professor já gritava num tom vivo de impaciência: - Vamos! Por que ainda não está aqui? Corri para o gabinete de meu temível mestre.

Tenho de convir que Otto Lidenbrock não era um homem mau; mas, a não ser que ocorressem mudanças improváveis, morreria como um terrível excêntrico.

Era professor no Johannaeum, onde dava um curso de mineralogia, durante o qual se enraivecia pelo menos duas vezes.

Não que se preocupasse com a assiduidade ou a atenção dos alunos, nem com o seu sucesso depois de formados; eram detalhes nos quais nem pensava. Ele lecionava "subjetivamente", para empregar uma expressão da filosofia alemã, para si, e não para os outros. Era um cientista egoísta, um poço de ciência cuja roldana guinchava quando alguém tentava extrair algo dele: em suma, um avaro.

Há alguns professores assim na Alemanha.

Infelizmente, meu tio não tinha grande facilidade de expressão, nem na intimidade, quanto mais quando falava em público, o que era um lamentável defeito em um orador. De fato, em suas palestras no Johannaeum, muitas vezes o professor parava de falar de repente. Lutava com uma palavra recalcitrante que não queria sair de sua boca, uma dessas palavras que resistem, incham e acabam saindo sob a forma pouco científica de um palavrão.

Daí grandes acessos de cólera.

Ora, em mineralogia, há muitas denominações semigregas, semilatinas, difíceis de pronunciar, nomes rudes que esfolariam os lábios de um poeta. Não que eu queira falar mal dessa ciência.

Longe de mim. Mas quando estamos diante de cristalizações romboédricas, de resinas retinasfálticas, de guelenitas, de fangasitas, de molibdênio de chumbo, de tungstato de manganésio, de titanato de zircônio, até as línguas mais bem treinadas perdem o prumo.

De qualquer forma, digo e repito, meu tio era um verdadeiro cientista. Apesar de quebrar por vezes suas amostras pela sua brusquidão, reunia a visão do mineralogista ao gênio do geólogo.

Com seu martelo, seu buril de aço, sua agulha imantada, seu maçarico e seu frasquinho de ácido nítrico, era um grande profissional. Pela fratura, pelo aspecto, pela dureza, pela fusibilidade, pelo som, pelo cheiro ou pelo gosto, era capaz de classificar sem hesitação um mineral qualquer entre as seiscentas espécies com que a ciência conta hoje em dia.

O nome Lidenbrock resplandecia com honra nos ginásios e associações nacionais. Quando passaram por Hamburgo, Humphry Davy, de Humboldt e os capitães Franklin e Sabine fizeram questão de encontrar-se com ele. Becquerel, Ebelmen, Brewster, Dumas, Milne-Edwards, Sainte-Claire-Deville gostavam de consultá-lo a respeito das descobertas mais palpitantes da química, que lhe devia umas tantas das descobertas, e em 1853 foi publicado em Leipzig um Tratado de cristalografia transcendente do professor Otto Lidenbrock, grande in-fólio com ilustrações, que infelizmente não cobriu seus custos.

Acrescentarei que meu tio era o conservador do museu mineralógico de Struve, embaixador da Rússia, preciosa coleção, célebre em toda a Europa.

Eis, portanto, o personagem que me interpelava com tanta impaciência. Imaginem um homem alto, magro, saúde de ferro, lourice juvenil, que fazia com que parecesse um quarentão e não o cinqüentão que era. Seus olhos grandes não paravam atrás dos óculos consideráveis. Seu nariz comprido e fino parecia uma lâmina afiada. Os mexeriqueiros até pretendiam que era imantado e atraía limalha de ferro. Pura calúnia: só atraía tabaco, mas em grande abundância, para ninguém dizer que sou mentiroso.

Se eu acrescentar que os passos de meu tio mediam matematicamente meia-toesa' e se disser que, ao caminhar, mantinha os punhos solidamente fechados, sinal de um temperamento impetuoso, terei dito o bastante para ninguém se mostrar ansioso por sua companhia.

Morava em sua casinha da Königstrasse, de madeira e tijolos, empena rendada, que dava para um dos canais sinuosos que se cruzam no meio do bairro mais antigo de Hamburgo, respeitado, felizmente, pelo incêndio de 1842.

É verdade que a velha casa era um pouco inclinada e mostrava a barriga aos transeuntes. Seu teto inclinava-se sobre a orelha, como o boné de um estudante da Tugendbund. O aprumo de suas linhas deixava a desejar, mas, em suma, conseguia sustentar-se graças a um velho olmo engastado com vigor na fachada, cujos brotos em flor penetravam na primavera pelos vidros das janelas.

Meu tio até que era rico para um professor alemão. Tudo na casa, conteúdo e continente, pertencia-lhe. O conteúdo consistia em sua afilhada Grauben, jovem Virlandesa de dezessete anos, a boa Marthe e eu. Em minha dupla qualidade de sobrinho e órfão, tornei-me auxiliar-assistente em suas experiências.

Confesso que me entreguei com grande apetite às ciências geológicas. Tinha sangue de mineralogista nas veias e nunca me entediei na companhia de meus preciosos pedregulhos.

Em suma, era possível viver feliz na casinha da Königstrasse apesar da impaciência de seu proprietário, pois, embora agisse com um pouco de brutalidade, meu tio não deixava de me amar.

Contudo, era um homem que não sabia esperar e mais apressado que o normal.

Quando, em abril, plantava, nos vasos de porcelana da sala, seus pés de resedá ou volubilis, ia, todas as manhãs, puxar-lhes as folhas para apressar seu crescimento.

A única forma de lidar com um excêntrico daqueles era obedecer-lhe.

Precipitei-me para o seu gabinete.

II

O gabinete era um verdadeiro museu, onde todas as amostras estavam etiquetadas na mais perfeita ordem, de acordo com as três grandes divisões dos minerais: inflamáveis, metálicos e litóides.

Como eu conhecia aqueles bibelôs da ciência mineralógica! Quantas vezes, em vez de ir brincar com as crianças de minha idade, preferi ficar espanando as grafitas, os antracitos, hulhas, linhitas, turfas! E os betumes, as resinas e os sais orgânicos, que era necessário proteger do menor grão de poeira! E aqueles metais, do ferro ao ouro, cujo valor relativo desaparecia diante da igualdade absoluta dos espécimes específicos! E todas aquelas pedras que dariam para reconstruir a casa da Königstrasse, até com mais um quarto, o que eu não acharia nada mal! Mas, ao entrar no gabinete, não estava pensando naquelas maravilhas. Só tinha meu tio em mente. Estava escondido em sua enorme poltrona de veludo de Utrecht com um livro que considerava com a mais profunda admiração.

- Que livro! Que livro! - exclamava.

A exclamação lembrou-me de que o professor Lidenbrock era também bibliomaníaco nas horas vagas. Mas, para ele, um livro só tinha valor se fosse impossível encontrá-lo ou se fosse ilegível.

- Você não está vendo? - disse-me. - Hoje de manhã encontrei um tesouro inestimável remexendo no sebo do judeu Hevelius.

- Que maravilha! - respondi, com um entusiasmo um tanto artificial.

Afinal, para que tanto barulho por causa de um velho inquarto encadernado com camurça grosseira, um livro amarelado do qual pendia um marcador descolorido! O professor não parava de soltar interjeições de admiração.

- Veja - dizia, fazendo perguntas às quais ele mesmo respondia -, não é uma beleza? É admirável! E que encadernação! Não é fácil abrir esse livro? Facílimo, fica aberto em qualquer página! Fecha fácil? Sim, pois a capa e as folhas formam um todo bem unido, não se separam ou abrem em nenhum lugar! E esse dorso, que não tem uma única rachadura apesar de seus sete séculos de existência! Ah! Que encadernação! Deixaria qualquer Bozerian, Closs ou Purgold orgulhosos! Enquanto falava, meu tio abria e fechava o velho livro. A única coisa que eu poderia fazer era perguntar sobre o que versava, embora absolutamente não estivesse interessado.

- E qual o título desse volume maravilhoso? - perguntei com um ardor um tanto entusiasmado demais para ser sincero.

- Essa obra... - animou-se meu tio - é o Heims-Kringla de Snorre Turleson, o famoso autor islandês do século XII! É a crônica dos príncipes noruegueses que reinaram na Islândia! - Sério? - exclamei como pude. - E, com toda a certeza, é uma tradução para o alemão? - Uma tradução! - replicou o professor com vivacidade. Uma tradução! O que eu faria com uma tradução? Quem quer uma tradução? É a obra original em islandês, esse idioma magnífico, ao mesmo tempo rico e simples, que permite as combinações gramaticais mais variadas e inúmeras modificações de palavras! - Como o alemão - insinuei, com bastante felicidade.

- Sim - respondeu meu tio dando de ombros -, sem contar que o islandês admite os três gêneros como no grego e declina os nomes próprios como no latim! - Ah! - minha indiferença foi um pouco abalada. - E os caracteres desse livro são bonitos? - Caracteres? Que caracteres, infeliz? Caracteres... Ah, você está achando que é um impresso? Santa ignorância, é um manuscrito, e um manuscrito rúnico! - Rúnico? - Claro! Só falta agora você pedir-me que eu lhe explique essa palavra.

- De jeito nenhum - repliquei no tom de um homem ferido em seu amor-próprio.

Mas meu tio não deu importância às minhas palavras e ensinou-me, contra a minha vontade, coisas que eu não fazia a menor questão de saber.

- As runas - continuou - eram caracteres de escrita empregados outrora na Islândia, que, de acordo com a tradição, foram inventados pelo próprio Odin! Olhe, admire, ímpio, esses tipos procedentes da imaginação de um deus! Como não sabia o que responder, ia me prosternar, que era uma espécie de reação que deve agradar tanto aos deuses quanto aos reis, pois tem a vantagem de nunca embaraçá-los, quando um incidente desviou o curso da conversa.

Foi o surgimento de um pergaminho imundo, que escorregou do livro e caiu no chão.

Meu tio precipitou-se sobre aquela ninharia com uma avidez fácil de compreender. Um velho documento encerrado desde tempos imemoriais num velho livro não podia deixar de ser muito valioso para ele.

- O que é isso? - exclamou.

E desdobrou cuidadosamente em sua mesa um pedaço de pergaminho de cinco polegadas de comprimento e três de largura, no qual se distribuíam em linhas transversais caracteres ilegíveis.

Aqui está seu fac-símile exato. Faço questão de apresentar esses sinais estranhos, pois levaram o professor Lidenbrock e seu sobrinho à expedição mais estranha do século XIX: öx.ö,l,ööh öhö,tntö ö,ör:rrlblö h dThh'YP ntö.Y.Ylö'F!ö ITbööö T! 1ö' I ötö t11öÞ YT öh ö Ibö ö1ö öTn öö ö, . I, h Y,ö r ö r r b ,öör I .r .r n T n r F ö,ö t,T n bTö Iö r kh.öI Bk YtbIlI

O professor considerou por alguns instantes a série de caracteres; depois disse, erguendo seus óculos: - É rúnico; esses tipos são idênticos aos do manuscrito de Snorre Turleson! Mas... o que será que tudo isso significa? Como eu acreditava ser o rúnico uma invenção dos cientistas para ludibriar o pobre mundo, não fiquei aborrecido com o fato de meu tio não entender nada. Pelo menos é o que parecia pelo movimento de seus dedos, que começavam a tremer muito.

- Mas é islandês antigo! - murmurava entre os dentes.

E o professor Lidenbrock devia entender disso, pois passava por um verdadeiro poliglota. Não que falasse correntemente as duas mil línguas e os quatro mil idiomas empregados na superfície do globo, mas conhecia boa parte deles.

Toda a impetuosidade de seu temperamento estava prestes a mostrar-se diante dessa dificuldade, e eu começava a prever uma cena violenta, quando soaram duas horas no reloginho da lareira.

A boa Marthe abriu a porta do gabinete e disse: - O jantar está na mesa.

- Ao diabo o jantar, quem o fez e os que vão comê-lo! - exclamou meu tio.

Marthe saiu correndo. Corri atrás dela e, sem saber como, encontrei-me sentado no meu lugar habitual na sala de jantar.

Esperei alguns instantes. O professor não apareceu. Era a primeira vez, que eu saiba, que ele não comparecia à solenidade do jantar. E que jantar! Uma sopa com muita salsinha, uma omelete de presunto, temperada com azedinha e noz-moscada, um lombo de vitela na compota de ameixas, e, de sobremesa, camarões açucarados, tudo regado por um belo vinho do Mosel.

Eis o que um papel velho custaria a meu tio. É óbvio que, na qualidade de sobrinho dedicado, achei que era minha obrigação comer por ele e por mim. O que fiz conscienciosamente.

- Nunca vi isso! - dizia a boa Marthe. - O senhor Lidenbrock não aparecer para o jantar! - Inacreditável.

- É o presságio de um acontecimento muito grave! - continuou a velha criada, balançando a cabeça.

No meu entender, aquilo não significava nada, a não ser uma cena horrorosa quando meu tio encontrasse seu jantar devorado.

Estava no último camarão, quando uma voz tonitruante arrancou-me das voluptuosidades da sobremesa. Em um salto, eu estava no gabinete.

III

- É evidente que é rúnico - dizia o professor franzindo o cenho. - Mas existe algum segredo que descobrirei, senão...

Um gesto violento arrematou seu raciocínio.

- Sente-se ali - acrescentou, indicando-me a mesa com o punho - e escreva...

Em um instante eu estava a postos.

- Agora vou ditar-lhe as letras correspondentes aos caracteres islandeses em nosso alfabeto. Veremos o que acontece. Mas, por São Miguel, trate de não errar! Começou o ditado, durante o qual fiz o melhor que pude.

As letras foram soletradas uma a uma e formaram a seguinte sucessão de palavras:

m.rnlls esreuel seecJde sgtssmf unteief niedrke rt,samn atrate5 Saodrrn emtnael nuaect rrilsa Atvaar .nscrc ieaabs ccdrmi eeutul frantu dt,iac oseibo Kedii Y

Assim que concluímos o trabalho, meu tio pegou bruscamente a folha na qual eu acabara de escrever e examinou-a por muito tempo com atenção.

- O que quer dizer isso? - repetia maquinalmente.

Juro que eu não saberia explicar-lhe. Aliás, ele não estava me perguntando nada e continuou a falar consigo mesmo: - É o que chamamos de criptograma - dizia -, no qual o sentido está escondido nas letras misturadas de propósito e que, dispostas adequadamente, formariam uma frase inteligível.

Quando penso que talvez esteja diante da explicação ou da indicação de uma grande descoberta...

Quanto a mim, achava que aquilo não queria dizer nada, mas não ousava formular minha opinião.

Então, o professor pegou o livro e o pergaminho e comparou-os.

- As letras não pertencem à mesma pessoa - disse. - O criptograma é posterior ao livro, é irrefutável. A primeira letra é um M duplo que se procurava em vão no livro de Turleson, pois só foi adicionada ao alfabeto islandês no século XIV. Desta forma, há pelo menos duzentos anos entre o manuscrito e o documento.

Isso me pareceu bastante lógico.

- Sou levado a pensar - continuou meu tio - que um dos proprietários desse livro traçou esses caracteres misteriosos.

Mas quem diabo era esse proprietário? Não teria escrito seu nome em algum lugar do manuscrito? Meu tio ergueu os óculos, pegou uma lupa potente e, com todo o cuidado, passou em revista as primeiras páginas do livro.

No verso da segunda, a do ante-rosto, descobriu uma espécie de mácula que parecia uma mancha de tinta. No entanto, examinando-se com maior cuidado, era possível distinguir alguns caracteres semi-apagados. Meu tio achou ter descoberto um ponto interessante; deteve-se na mácula e, com o auxílio de sua enorme lupa, acabou reconhecendo os seguintes sinais, caracteres rúnicos, que leu sem hesitar:

- Arne Saknussemm! - exclamou com um ar de triunfo.

- Isso é que é nome e ainda por cima um nome islandês, de um cientista do século XVI, célebre alquimista! Eu olhava para o meu tio com uma certa admiração.

- Esses alquimistas - continuou -, Avicena, Bacon, Lulle, Paracelso eram os únicos e verdadeiros cientistas de seu tempo.

Fizeram descobertas que nos surpreendem até hoje. Por que não teria esse Saknussemm escondido sob esse criptograma incompreensível alguma invenção surpreendente? Deve ser isso! Deve ser! Essa hipótese estimulava a imaginação do professor.

- Com certeza - ousei responder. - Mas que interesse teria o sábio em esconder dessa forma sua maravilhosa descoberta? - Que interesse? Que interesse? E eu sei? Galileu não agiu da mesma forma com Saturno? Além disso, logo saberemos: descobrirei o segredo desse documento e não comerei nem dormirei antes de tê-lo adivinhado.

"Oh! ", pensei.

- Nem você, Axel - ordenou.

"Que diabo!", disse para mim mesmo, "ainda bem que comi por dois".

- Antes de mais nada - falou meu tio - precisamos encontrar a chave dessa "cifra". Não deve ser difícil.

Ao ouvir essas palavras, ergui a cabeça bruscamente. Meu tio continuou seu solilóquio: - Nada mais fácil. Nesse documento há cento e trinta e duas letras, setenta e nove consoantes e cinqüenta e três vogais.

Ora, as palavras das línguas meridionais são formadas mais ou menos nessa proporção, enquanto os idiomas do norte são infinitamente mais ricos em consoantes. Trata-se portanto de uma língua do sul.

Suas conclusões eram extremamente corretas.

- Mas que língua é essa? É isso o que eu queria saber de meu cientista, no qual acabara de descobrir um profundo analista.

- Saknussemm era um homem culto - continuou. - Ora, já que não estava escrevendo em sua língua materna, deve ter escolhido de preferência a língua corrente entre as mentes cultas do século XVI, ou seja, o latim. Se eu estiver enganado, poderei tentar o espanhol, o francês, o italiano, o grego e o hebraico.

Mas os cientistas do século XVI escreviam geralmente em latim.

Tenho, portanto, o direito de dizer a priori: é latim.

Dei um pulo na cadeira. Minhas lembranças de latinista revoltavam-se ante a pretensão de pertencer essa seqüência de palavras barrocas à doce língua de Virgílio.

- Claro, latim - continuou meu tio -, mas latim misturado.

"Ainda bem", pensei, "e haja sutileza para destrinçá-lo!" - Examinemos com cuidado - disse, tornando a pegar a folha na qual eu escrevera. - Eis uma série de cento e trinta e duas letras em aparente desordem. Há palavras formadas apenas de consoantes, como a primeira, "mürnlls", outras em que, ao contrário, há uma abundância de vogais, a quinta, por exemplo, "unteieet" ou a antepenúltima, "oseibo". Ora, é evidente que essa disposição não foi elaborada: é apresentada matematicamente pela razão desconhecida que presidiu à sucessão dessas letras. Parece-me certo que a frase primitiva tenha sido escrita normalmente e depois invertida de acordo com uma lei que temos de descobrir.

Assim que possuirmos a chave da cifra, poderemos lê-la correntemente. Mas qual é a chave? Você sabe, Axel? Não respondi a essa pergunta pela seguinte razão. Meu olhar detivera-se num encantador retrato pendurado na parede, o retrato de Grauben. A pupila de meu tio encontrava-se então em Altona, na casa de um de seus parentes, e sua ausência deixava-me bem triste, pois, devo confessar, a jovem Virlandesa e o sobrinho do professor amavam-se com toda a paciência e a tranqüilidade alemãs. Havíamos ficado noivos à revelia de meu tio, geólogo demáis para compreender tais sentimentos. Grauben era uma loura encantadora de olhos azuis, temperamento um tanto grave, caráter um tanto sério. Mas não era por isso que gostava menos de mim.

Eu simplesmente a adorava, se é que esse verbo existe na língua germânica! A imagem de minha pequena Virlandesa transportou-me num instante do mundo das realidades ao mundo dos sonhos, das lembranças...

Revia minha fiel companheira de trabalho e de prazer. Todo dia ajudava-me a arrumar as preciosas pedras de meu tio. Ela as etiquetava comigo. A senhorita Grauben era uma mineralogista e tanto! Poderia dar aulas a mais de um cientista. Gostava de aprofundar as questões mais difíceis da ciência. Quantas horas passamos estudando juntos! E quantas vezes invejei aquelas pedras insensíveis que ela tocava com suas mãos encantadoras! Depois, nos momentos de folga, saíamos os dois para percorrer as aléias frondosas de Alster e íamos juntos ao velho moinho alcatroado, tão lindo no canto do lago. Enquanto andávamos, conversávamos de mãos dadas. Contava-lhe coisas que a faziam rir com gosto. Chegávamos assim até a beira do Elba e, depois de cumprimentarmos os cisnes que nadam entre os grandes nenúfares brancos, voltávamos ao cais com o barco a vapor.

Estava nesse ponto do meu sonho, quando meu tio me trouxe de volta à realidade, batendo com o punho na mesa.

- Vejamos - disse -, a primeira idéia que temos ao tentarmos misturar as letras de uma frase é, acho, escrever as palavras na vertical, em vez de na horizontal.

"Perfeito!", pensei.

- Temos de verificar o que isso dá. Axel, escreva uma frase qualquer num pedaço de papel, mas, em vez de colocar as letras uma após a outra, coloque-as sucessivamente em colunas verticais, de forma a agrupá-las em cinco ou seis.

Imediatamente escrevi de cima para baixo:

E o o h u r n u m, a e a! a u m p n u a i i e a b m t n q G e

- Bem - disse o professor sem ter lido. - Agora disponha essas letras numa linha horizontal.

Obedeci e consegui a seguinte frase:

EmtnqGeuoohurnam. aealaumpniuiieab.

- Perfeito! - considerou meu tio, arrancando-me o papel das mãos. - Já parece com o velho documento: as vogais e as consoantes estão agrupadas na mesma desordem; tem até maiúsculas e vírgulas no meio das palavras, como no pergaminho de Saknussemm! Não pude evitar achar as observações bastante engenhosas.

- Ora - continuou meu tio, dirigindo-se diretamente a mim -, para ler a frase que você acabou de escrever e que não conheço, basta que eu pegue sucessivamente a primeira letra de cada palavra, depois a segunda, depois a terceira e assim por diante.

E para sua grande surpresa - e principalmente para a minha -, meu tio leu:

Eu a amo muito, minha pequena Grauben!

- O quê? - espantou-se o professor.

Sim, sem perceber, como apaixonado desastrado, traçara aquela frase comprometedora! - Ah, você gosta de Grauben? - retomou meu tio, num tom de verdadeiro tutor.

- Sim... Não... - balbuciei.

- Ah, você ama Grauben? - continuou maquinalmente.

- Muito bem, apliquemos esse método ao documento em questão.

Voltando a cair em sua contemplação absorta, meu tio já esquecera minhas palavras imprudentes. Imprudentes, pois o cérebro de um cientista não compreenderia as coisas do coração.

Felizmente, prevaleceu a importância do documento.

No momento de fazer sua experiência capital, os olhos do professor Lidenbrock reluziram através dos óculos. Seus dedos tremeram ao pegar o velho pergaminho. Estava seriamente emocionado. Finalmente, tossiu com força e, a voz grave soletrando sucessivamente a primeira letra e depois a segunda de cada palavra, ditou-me a seguinte série:

messunkaSenrA.icefdoK.segnittamurtn: erertserrette, rotaivsadua, ednecsedsadne lacartniiiluJsiratracSarbmutabiledmek meretarcsilucoYsleffenSnl

Confesso que estava comovido quando acabei; essas letras, pronunciadas uma a uma, não tinham qualquer significado para mim; esperava portanto que o professor deixasse escapar de seus lábios uma frase de magnífica latinidade.

Mas quem poderia prever? A mesa foi abalada pelo seu punho violento. A tinta esparramou-se, a pena caiu de minha mão.

- Não é nada disso! - exclamou meu tio. - Isso não tem sentido! Depois, atravessando o gabinete como uma bala, descendo as escadas como uma avalanche, precipitou-se para a Königstrasse e. num instante, desapareceu.

IV

- Ele saiu? - exclamou Marthe, acorrendo ao barulho da porta da rua, que abalou a casa inteira pela violência com que foi fechada.

- Saiu mesmo - respondi.

- E o almoço? - resmungou a velha criada.

- Não vai almoçar.

- E o jantar? - Não vai jantar.

- Como? - disse Marthe, unindo as mãos.

- Minha boa Marthe, ele não vai mais comer, nem ninguém nesta casa! Meu tio Lidenbrock vai obrigar-nos a todos nesta casa a jejuar até decifrar aquele pergaminho indecifrável! - Jesus! Vamos todos morrer de fome! Não ousei confessar que, com um homem tão fanático quanto meu tio, era um destino inevitável.

Seriamente alarmada, a velha criada voltou para a cozinha gemendo.

Quando fiquei sozinho, passou-me pela cabeça ir contar tudo a Grauben. Mas como sair de casa? O professor podia voltar a qualquer momento. E se me chamasse? E se quisesse recomeçar o trabalho logogrífico que poderia ser proposto em vão ao velho Édipo? E se eu não acorresse a seu chamado, o que aconteceria? Era mais sensato ficar. Justamente, um mineralogista de Besançon acabara de nos enviar uma coleção de geodos siliciosos que era preciso classificar. Comecei a trabalhar. Triava, etiquetava e dispunha em sua vitrina todas aquelas pedras ocas dentro das quais se agitavam cristaizinhos.

Mas não consegui me envolver naquela ocupação. O caso do velho documento não deixava de preocupar-me de forma estranha. Minha cabeça fervilhava, e eu me sentia vagamente perturbado. Pressentia uma catástrofe iminente.

Ao final de uma hora, os geodos estavam arrumados. Fui sentar-me na grande poltrona de Utrecht, braços pendentes e cabeça caída. Acendi meu cachimbo de longo tubo curvo, cujo fornilho esculpido representava uma náiade deitada com descontração; depois, diverti-me em seguir as evoluções da carbonização que transformava minha náiade numa negra. De vez em quando, prestava atenção para tentar ouvir algum passo ressoando na escada. Nada. Onde estaria meu tio naquele momento? Via-o correndo sob as belas árvores da estrada de Altona, gesticulando, batendo nos muros com sua bengala, atacando a relva com violência, decapitando os espinhos e perturbando o repouso das cegonhas solitárias.

Como voltaria, triunfante ou desanimado? Quem venceria, o segredo ou ele? Enquanto falava comigo mesmo, peguei maquinalmente entre meus dedos a folha de papel sobre a qual se estendia a incompreensível série de letras traçadas por mim. Perguntava-me todo o tempo: - O que significa isso? Tentava agrupar as letras de modo a formar palavras. Impossível! Por mais que as reunisse em grupos de duas, três, cinco ou seis, não dava nada de inteligível. Bem que as décima quarta, décima quinta e décima sexta palavras formavam o termo inglês "ice". A octagésima quarta, a octagésima quinta e a octagésima sexta, formavam a palavra "sir". Finalmente, observei também as palavras latinas "rota", "mutabile", "ira", "nec" e "atra" no corpo do documento.

"Diabos", pensei, "essas últimas palavras parecem dizer que meu tio tem razão quanto à língua do documento! E vejo na linha quatro a palavra "luco", que pode ser traduzida por "bosque sagrado". É verdade que na terceira linha, podemos ler o termo "tabiled", completamente hebraico, e, na última, os vocábulos mer, arc, mŠre, puramente franceses ''.

Era de enlouquecer! Quatro idiomas naquela frase absurda! Que relação poderia haver entre as palavras "gelo, senhor, cólera, cruel, bosque sagrado, mutante, mãe, arco ou mar. Apenas o primeiro e o último teriham uma certa coerência entre si: não era nada surpreendente mencionarem num documento escrito na Islândia um "mar de gelo". Mas daí a entender o resto do criptograma, era outro caso.

Lutava com uma dificuldade insolúvel; meu cérebro fervia, meus olhos piscavam diante da folha de papel. As cento e trinta e duas letras pareciam esvoaçar ao meu redor, como aqueles pontos negros que aparecem no ar quando o sangue sobe muito violentamente à cabeça.

Parecia-me estar vivendo uma alucinação. Sufocava, sentia falta de ar. Maquinalmente, abanei-me com a folha de papel, e fiquei olhando sucessivamente sua frente e seu verso.

Qual a minha surpresa quando, numa dessas reviravoltas rápidas, no momento em que o verso se voltava para mim, acreditei estar vendo aparecer palavras perfeitamente legíveis, palavras latinas, entre outras, "craterem" e "terrestre"! De repente, compreendi tudo; esses indícios haviam-me mostrado o caminho da verdade; eu descobrira a lei da cifra. Para entender o documento, nem era necessário lê-lo pela folha invertida! Não. Era assim, assim me fora ditado, assim podia ser soletrado normalmente. Todas as combinações engenhosas do professor realizavam-se. Tinha razão quanto à disposição das letras, quanto à língua do documento! Nada era necessário para ler do começo ao fim a frase latina, e o acaso acabara de oferecer-me esse "nada".

Dá para imaginar como fiquei emocionado! Meus olhos turvaram-se, tornando-se inúteis. Havia disposto a folha de papel sobre a mesa. Bastava olhá-la para tornar-me detentor do segredo.

Finalmente consegui acalmar-me. Condenei-me a dar duas voltas no quarto para tranqüilizar meus nervos e fui meter-me novamente na vasta poltrona.

- Bem, leiamos - exclamei para mim mesmo, após ter abastecido meus pulmões com muito ar.

Debrucei-me sobre a mesa; colocava meu dedo sobre cada letra e, sem parar, sem hesitar, pronunciei a frase inteira em voz alta.

Por que estupefação, por que desvario fui invadido! Sentia-me como que atingido por um raio. O quê! O que eu acabara de saber acontecera! Um homem tivera audácia suficiente para penetrar...! "Ah, não", exclamei dando um pulo, "não, não, meu tio não saberá disso! Só faltava ele saber de tal viagem! Vai querer fazêla! Nada conseguirá detê-lo! Um geólogo tão determinado! Vai fazê-la de qualquer forma, apesar de tudo, a despeito de tudo! E vai levar-me com ele, e nós não voltaremos! Nunca! Nunca! É difícil descrever minha excitação.

- Não, não, de jeito nenhum - disse com energia -, e como não posso evitar que meu tirano tenha tal idéia, vou fazê-lo.

De tanto virar e revirar esse documento, vai acabar descobrindo sua chave! Vou destruí-lo! Ainda havia brasas na lareira. Peguei não somente a folha de papel, como também o pergaminho de Saknussemm; as mãos febris, ia jogar tudo sobre os carvões e aniquilar o segredo perigoso, quando a porta do gabinete abriu-se. Meu tio apareceu.

V

Mal deu tempo para voltar a depor o infeliz documento sobre a mesa.

O professor Lidenbrock parecia profundamente absorto. A idéia fixa não lhe dava um único momento de descanso. Era evidente que havia perscrutado e analisado o caso, que lançara mão de todos os recursos de sua imaginação durante o passeio e que vinha aplicar alguma nova combinação.

De fato, sentou-se em sua poltrona e, pena na mão, começou a estabelecer fórmulas que pareciam um cálculo algébrico.

Eu seguia com os olhos sua mão fremente; não perdia um único movimento seu. Surgiria algum resultado inesperado? Eu tremia sem motivo, pois, como já encontrara a verdadeira combinação, qualquer outra pesquisa era forçosamente vã.

Meu tio trabalhou sem parar por três horas, sem erguer a cabeça, apagando, rasurando, recomeçando mil vezes a tarefa.

Eu bem sabia que, se conseguisse organizar as letras de acordo com todas as posições relativas que podiam ocupar, encontraria a frase.

Mas também sabia que apenas vinte letras podem formar dois quinquilhões quatrocentos e trinta e dois quatrilhões novecentos e dois trilhões oito bilhões cento e setenta e seis milhões seiscentas e quarenta mil combinações. Ora, havia cento e trinta e duas letras na frase, e essas cento e trinta e duas letras davam um número de frases diferentes composto de cento e trinta e três números pelo menos, número quase impossível de enunciar e que escapa a qualquer avaliação.

Fiquei mais tranqüilo com esse meio heróico de resolver o problema.

O tempo passou. A noite caiu. Os ruídos da rua diminuíram.

Ainda debruçado em sua tarefa, meu tio nada viu, nem mesmo a boa Marthe, que entreabriu a porta; nada ouviu, nem mesmo a voz da digna criada, que disse: - O senhor não vai jantar hoje? Marthe teve que ir embora sem resposta. Quanto a mim, após ter resistido por algum tempo, fui tomado por um sono invencível e adormeci num canto do canapé, enquanto o meu tio Lidenbrock continuava a calcular e rasurar.

Quando acordei no dia seguinte, o trabalhador incansável continuava em suas pesquisas. Olhos vermelhos, rosto lívido, cabelos despenteados por suas mãos febris, maçãs do rosto avermelhadas, indicavam sua terrível luta contra o impossível e o cansaço mental, contra o esforço cerebral das últimas horas.

Fiquei realmente com pena dele. Embora eu achasse que tinha o direito de censurá-lo, começava a sentir uma certa emoção.

O pobre homem estava tão possuído por sua idéia que se esquecia de encolerizar-se. Todas as suas forças vitais encontravam-se num único ponto, e, como não escoavam por seu exutório normal, era de temer-se que sua tensão fizesse com que explodisse de uma hora para outra.

Com um gesto, com uma única palavra poderia desapertar o anel de ferro que lhe esmagava o crânio! Mas não me mexi.

E, no entanto, eu tinha um bom coração. Por que ficava mudo naquelas circunstâncias? No próprio interesse de meu tio.

"Não, não", repetia, "não falarei". Vai querer ir até lá, conheço-o bem, nada o deterá. Tem uma imaginação vulcânica e, para fazer o que os outros geólogos não fizeram, arriscaria sua vida. Não falarei nada. Guardarei esse segredo que me foi revelado por acaso! Revelá-lo seria matar o professor Lidenbrock! Ele que adivinhe, se conseguir. Não quero carregar a culpa de tê-lo conduzido à perdição! '' Resolvido isso, cruzei os braços e esperei. Mas não contara com um incidente que aconteceu algumas horas depois.

Quando a boa Marthe quis sair de casa para ir ao mercado, encontrou a porta fechada. A chave sumira da fechadura. Quem a tirara? É claro que meu tio, quando voltara, na véspera, de sua excursão apressada.

Fizera de propósito ou fora distração? Queria submeter-nos aos rigores da fome? Achei que era demais. Imaginem! Marthe e eu, vítimas de uma situação com a qual nada tínhamos a ver! Com certeza, e lembrei-me de um precedente de dar medo. De fato, há alguns anos, na época em que meu tio trabalhava em sua grande classificação mineralógica, ficou quarenta e oito horas sem comer, e toda a casa teve de se conformar à sua dieta científica. Tive cãimbras no estômago bem pouco recreativas para um moço bastante voraz por natureza.

Ora, constatei que não iríamos ter café da manhã, assim como não tivéramos jantar. Resolvi, contudo, ser heróico e não ceder às exigências da fome. Marthe levava o caso muito a sério e estava desolada, pobre mulher! Já eu estava mais preocupado com a impossibilidade de sair de casa, e com razão. Estou certo de que todos me compreenderão.

Por volta do meio-dia, comecei realmente a sentir fome. Muito inocentemente, Marthe devorara na véspera as provisões da despensa; não havia mais nada em casa. Assim mesmo, resisti. Era uma espécie de questão de honra.

Deram duas horas. Aquilo começava a tornar-se ridículo e até intolerável. Esbugalhava os olhos. Começava a achar que havia exagerado na importância do documento; que meu tio não acreditaria em minhas deduções, que só veria nelas uma simples mistificação, que, na pior das hipóteses, conseguiria detê-lo contra sua vontade se quisesse arriscar a aventura e que, finalmente, ele mesmo poderia descobrir a chave da "cifra", o que tornaria minha abstinência completamente inútil.

Esses motivos, que eu teria rejeitado na véspera com indignação, pareceram-me excelentes; achei até completamente absurdo ter esperado por tanto tempo e decidi contar tudo.

Procurava, portanto, uma forma de entrar no assunto que não fosse muito brusca, quando o professor levantou-se, enfiou o chapéu e preparou-se para sair.

O quê! Sair de casa e deixar-nos trancados. Nunca! - Meu tio! - chamei.

Não pareceu ter me ouvido.

- Meu tio Lidenbrock! - repeti, falando mais alto.

- Hum? - resmungou como um homem que acaba de despertar.

- Então, e a chave? - Que chave? A chave da porta? - Não - exclamei -, a chave do documento! O professor encarou-me por cima dos óculos; sem dúvida notara algo de insólito na minha fisionomia, pois agarrou meu braço e, sem conseguir falar, interrogou-me com o olhar. No entanto, nunca uma pergunta foi formulada mais claramente.

Concordei com a cabeça.

Ele sacudiu a sua mão com uma espécie de piedade, como se estivesse falando com um louco.

Fiz um gesto ainda mais afirmativo.

Seus olhos brilharam; sua mão tornou-se ameaçadora.

Essa conversa muda naquelas circunstâncias interessaria o espectador mais indiferente. E realmente começava a achar que não ousaria falar, pois temia que meu tio me sufocasse com seus primeiros abraços de alegria. Mas ele estava tão ansioso que tive de responder.

- Sim, essa chave... o acaso!..

- O que você está dizendo? - exclamou com uma emoção indescritível.

- Veja - eu disse, apresentando-lhe a folha de papel na qual havia escrito. - Leia.

- Mas isso não quer dizer nada! - respondeu amarrotando a folha.

- Não quer dizer nada se começarmos a ler pelo começo, mas lendo a partir do fim...

Mal havia terminado a frase, e o professor já dava um grito, mais do que um grito, um verdadeiro rugido! Acabara de ter a revelação. Estava transfigurado.

- Ah! Engenhoso Saknussemm! - exclamou. - Então você escreveu a frase ao contrário? E precipitando-se para a folha de papel, olhar turvo, voz emocionada, leu o documento inteiro, seguindo da última letra até a primeira.

Eram esses os termos da mensagem: In Sneffeis Yoculis craterem kem delibat umbra Scartaris Julii intra calendas descende, audas viator, et terrestre centrum attinges.

Kod feci. Arne Saknussemm.

em mau latim pode ser traduzido dessa maneira:

Desça à cratera de Yocul do Sneffels, que a sombra do Scartaris vem acariciar antes das calendas de julho, viajante audacioso, e chegarás ao centro da Terra. Foi o que fiz.

Arne Saknussemm.

Ao final da leitura, meu tio pulou como se tivesse tocado sem querer numa garrafa de Leyde. Estava magnífico em sua audácia, alegria e convicção. Ia e vinha; pegava a cabeça com as duas mãos; tirava as cadeiras do lugar; empilhava livros; fazia malabarismos com seus preciosos geodos, o que parecia inacreditável; batia com o punho aqui, dava um tapa acolá. Finalmente acalmou-se e, como homem esgotado por um grande desperdício de energia, voltou a cair em sua poltrona.

- Que horas são, afinal? - perguntou após alguns minutos de silêncio.

- Três horas - respondi.

- Que coisa! Digeri o almoço depressa demais. Estou morrendo de fome. Vamos comer. Depois...

- Depois? - Vá fazer minha mala.

- O quê? - exclamei.

- E a sua também! - respondeu o implacável professor, entrando na sala de jantar.