Eugénio Irtenieff tinha razões para aspirar a uma carreira brilhante. Para tal nada lhe faltava, a sua educação fora muito cuidada; terminara com brilho os estudos na Faculdade de Direito de S. Petersburgo e, por intermédio do pai, falecido havia pouco, conseguira as melhores relações na alta sociedade. Basta dizer-se que entrara para o Ministério pela mão do próprio Ministro. Possuía também uma avultada fortuna, embora esta já estivesse comprometida. O pai vivera no estrangeiro e em S. Petersburgo e dava a cada um dos seus filhos, Eugénio e André, uma pensão anual de seis mil rublos, e ele e a mulher de nada se privavam, gastavam à larga. No verão, passava dois meses no campo, mas não administrava directamente as suas propriedades, confiando tal encargo a um encarregado que por sua vez, embora este fosse pessoa da sua inteira confiança, deixava andar tudo ao Deus dará.
Por morte do pai, quando os dois irmãos resolveram liquidar a herança, apareceram tantas dívidas que o advogado aconselhou-os a ficarem apenas com uma propriedade da avó, que fora avaliada em cem mil rublos, e desistirem do restante. Mas um vizinho da herdade, igualmente proprietário, que tivera negócios com o velho Irtenieff, veio a S. Petersburgo propositadamente para apresentar uma letra aceite por este - e fez-lhes saber que, apesar das grandes dívidas, poderiam chegar a acordo com ele e ainda refariam grande parte da fortuna. Para tal, bastava que vendessem a madeira, alguns bocados de terreno bravio e conservassem o melhor, isto é, a propriedade de Semionovskoié, uma verdadeira mina de oiro, com as suas quatro mil geiras de terra, duzentas das quais de belos pastos, e a refinaria. Afirmou ainda que, para tal se arranjar, era indispensável que uma pessoa enérgica se entregasse de corpo e alma a essa tarefa instalando-se no campo para administrar a herdade inteligente e economizante.
O pai morrera na altura da quaresma e na primavera, Eugénio, foi à propriedade; depois duma inspecção minuciosa, resolveu pedir a sua demissão de oficial do exército e fixar lá residência com a mãe, a fim de dar execução às sugestões do vizinho. Mas antes disso, contratou o seguinte com o irmão: pagar-lhe anualmente quatro mil rublos, ou entregar-lhe duma vez só oitenta mil, com o que ficariam saldadas as suas contas.
Eugénio, logo que se instalou com a mãe na velha casa, atirou-se com coragem e prudência à revalorização das terras. Pensa-se, em geral, que os velhos são conservadores impenitentes e que, pelo contrário, os novos tendem mais para as modificações. Mas não é bem assim! Às vezes, mais conservadores são os novos que desejam viver e não têm tempo de pensar na maneira como devem fazê-lo, por isso se entregam à vida tal como ela é.
Contudo não era este o caso de Eugénio. Agora, que vivia no campo, o seu sonho, o seu ideal máximo, era restabelecer, não o modo de vida do pai, que fora um mau administrador, mas sim as medidas adoptadas pelo avô. Em casa, no jardim, em toda a parte, procurava ressuscitar o método de então, para sentir em redor a alegria de todos, o bem-estar e a ordem. Em casa, no jardim, em toda a parte. Era preciso ir de encontro às exigências dos credores e dos bancos e, para tal, procurava vender terras e adiar pagamentos... Depois, era forçoso arranjar dinheiro para as culturas, por administração directa servindo-se dos próprios criados no amanho da imensa propriedade de Semionovskoié, com as suas quatrocentas geiras de terreno de cultivo e a sua refinaria. Impunha-se que a casa e o parque não tivessem o aspecto de abandono e ruína. A tarefa parecia exaustiva mas a Eugénio não faltava força de vontade. Tinha vinte e seis anos, era de estatura mediana, robusto e sanguíneo, tinha os músculos desenvolvidos pelo exercício, as faces rosadas, os dentes fortes, os cabelos anelados apesar de pouco espessos. O seu único defeito era a miopia, agravada pelo uso dos óculos, que não podia deixar.
Era uma destas pessoas que, quanto mais as conhecemos, mais delas gostamos. A mãe sempre manifestara por ele uma exagerada preferência e, depois da morte do marido, sentiu que aumentava a sua ternura pelo filho, como se nele encontrasse toda a sua vida. E não era só a mãe que o amava. Também os companheiros do liceu e da universidade lhe dedicavam uma grande estima. O mesmo acontecia com os estranhos. Ninguém tinha coragem de pôr em dúvida uma afirmação sua, ninguém o supunha capaz de mentir, tão sincera era a sua expressão, tão francos eram os seus olhos.
A sua figura em muito o ajudava nos negócios. Os credores tinham confiança nele e concediam-lhe, muitas vezes, aquilo que negavam a outros. Um camponês ou um staroste, capazes de cometer a maior vilania, não ousavam enganá-lo, porque lhes era agradável entabular relações com um homem tão bondoso e, sobretudo, tão franco, tão leal.
Era nos fins de Maio. Bem ou mal, Eugénio conseguira resgatar as hipotecas das suas terras incultas, que foram vendidas a um negociante, que ainda por cima, lhe emprestou dinheiro para comprar o gado e as alfaias agrícolas de que necessitava. Havia já trabalhadores nas dependências da quinta e comprara oitenta carros de adubo. No entanto, reconhecia que, apesar de toda a prudência e boa vontade, qualquer descuido poderia desmoronar-lhe o pouco sólido castelo da vida.
Entretanto deu-se um acontecimento que, embora de pouca importância, muito contrariou Eugénio. Ele, que até aí levara uma vida de rapaz solteiro, tivera, como é natural, relações com mulheres de diferentes classes sociais. Não era um devasso mas, segundo ele próprio afirmava, também não era um monge. Por isso gozara da vida tanto quanto lhe exigia a saúde do corpo e a liberdade do espírito. Desde os dezasseis anos que tudo lhe correra bem e não se corrompeu nem contraiu qualquer doença. Em S. Petersburgo fora amante de uma costureira; porém, como esta adoecesse, procurou substitui-la, e a sua vida em nada se modificara.
Mas desde que, havia dois meses, se tinha instalado no campo, não voltara a ter relações com qualquer mulher. Uma continência tal principiava a enervá-lo. Precisaria de ir à cidade.
Eugénio Ivanovitch começou a seguir com uns olhos concupiscentes as raparigas que encontrava. Sabia bem que não era bonito ligar-se a qualquer mulher do campo. Sabia, isto pelo que o informaram, que o pai e o avô tiveram uma conduta que sempre se distinguira dos outros proprietários, nunca se metendo com as criadas de casa ou as jornaleiras. Por isso, resolveu seguir-lhes o exemplo. Mas, com o tempo, sentindo-se cada vez mais inquieto, pensou que seria possível arranjar uma mulher, isto sem que ninguém o soubesse... Quando falava com o staroste ou com os carpinteiros, encaminhava a conversa para o assunto, prolongando-a propositadamente. Entretanto, sempre que se lhe proporcionava o ensejo, olhava para as camponesas com mal contido interesse.
Contudo, uma coisa é tomar uma decisão e outra é efectivá-la. Dirigir-se pessoalmente a uma mulher, não era possível. E qual? E onde? Era precisa a intervenção no caso de uma terceira pessoa. Mas quem? Uma vez sucedeu-lhe ter de entrar em casa do guarda florestal, um antigo caçador, ao serviço da casa, no tempo de seu pai. Eugénio Irtenieff pôs-se a conversar com ele. O guarda contou-lhe velhas histórias de orgias e caçadas e Eugénio pensou, logo, que talvez fosse possível conseguir alguma coisa naquela cabana, em plena floresta. O que não sabia era como o velho Danilo receberia a proposta. «É capaz de ficar indignado», disse de si para si. «Mas também pode ser que não se importe...» Tais eram os pensamentos de Eugénio enquanto o velho falava. A certa altura, este contou como uma vez conseguira uma mulher para Prianitchnikoff. Vou tentar, decidiu-se por fim.
- Seu pai, que Deus tenha em descanso a sua alma, não se metia nessas coisas...
Para apalpar o terreno, Eugénio perguntou: - E tu prestavas-te a esses papéis? - Ora! Que mal tem isso? Ela gostava e Fédor Zakaritch também. E como ele me dava sempre um rublo, por que não havia de auxiliá-lo? Afinal, um homem é um homem...
Parece-me que posso falar, pensou Eugénio. E começou: - Pois, amigo Danilo, tu bem sabes que, e - sentiu-se corar até às orelhas -, afinal de contas, não sou nenhum frade, estou acostumado...
Percebeu que as suas palavras eram estúpidas, mas verificou que Danilo esboçava um sorriso de aprovação.
- Por que o não disse há mais tempo? Sim, tudo se pode arranjar. Diga qual delas prefere.
- É-me indiferente. O que é preciso é que tenha saúde e não seja muito feia.
- Está bem - disse Danilo. - Tenho uma, muito bonita, que casou no outono, debaixo de olho.
E segredou qualquer coisa a Eugénio, que o deixou espantado.
- Mas, não - disse ele. - Não é propriamente isso o que eu pretendo. Pelo contrário: quero uma mulher sem compromissos, mas que seja saudável.
- Muito bem! Stepanida serve-lhe. O marido trabalha na cidade. É como se fosse uma mulher solteira. Além disso, é uma bela rapariga, muito desenxovalhada. O senhor vai ficar satisfeitíssimo. Amanhã já lho direi. Venha cá, e ela...
- Quando? - Amanhã, se quiser. Vou comprar tabaco e passarei por sua casa. Esteja ao meio-dia no bosque, perto da clareira. Ninguém os verá a essa hora, porque depois do almoço, todos dormem a sesta.
- Está bem.
Uma comoção extraordinária se apoderou de Eugénio ao voltar para casa. Que irá acontecer? Como será essa camponesa? Feia? Nojenta? Não, algumas até são bem lindas, murmurou recordando-se das que já lhe tinham atraído a atenção.
No dia seguinte, à hora combinada, foi à choupana do guarda. Danilo estava à porta e, com ar de importante, fez-lhe um sinal apontando na direcção do bosque. O coração bateu-lhe com força. Dirigiu-se para o sítio indicado e não viu ninguém. Inspeccionou as imediações e já ia a retirar-se quando ouviu o súbito estalar dum ramo seco. Voltou-se. A mulher estava atrás duma árvore, separada dele por uma vala apenas. Foi ao seu encontro. Picou-se numa urtiga em que não tinha reparado e caíram-lhe os óculos quando saltou para o outro lado do talude. Ei-lo junto duma linda mulher, fresca, de saia branca, com uma bata vermelha, e um lenço da mesma cor na cabeça, os pés descalços, sorrindo timidamente...
- É melhor o senhor passar por esse atalho - disse-lhe a rapariga.
Aproximou-se dela e, depois de certificar-se que não era visto, abraçou-a. Dali a um quarto de hora separaram-se. Passou pela cabana de Danilo e, como este lhe perguntasse se estava satisfeito, atirou-lhe um rublo para as mãos, retomando em seguida o caminho interrompido.
Ia contente. A princípio tivera vergonha, mas agora sentia-se calmo, tranquilo e corajoso.
Quase não encarara a mulher. Lembrava-se de que não lhe parecera feia nem fizera cerimónia.
Quem será ela?, perguntou a si mesmo. Chamava-se Petchnikoff, mas existiam duas famílias com esse nome. Talvez seja a nora do velho Mikhail. É com certeza. O filho trabalha em Moscovo. Hei-de perguntar isto a Danilo.
Dessa altura em diante a vida de Eugénio, passou a ter encantos até ai desconhecidos.
Sentia-se com mais coragem para tratar dos seus negócios. A tarefa assumida era bem difícil. Às vezes parecia-lhe que as forças iam faltar-lhe, antes de levar tudo a bom termo, que se seria obrigado a vender as terras, e que seria em vão todo o seu esforço. E isso entristecia-o, pois mal pagava uma conta, outra aparecia em seu lugar.
Além disso, quase todos os dias surgiam dívidas ignoradas contraídas pelo pai. Sabia que, nos últimos tempos, ele pedira dinheiro emprestado a toda a gente. Por ocasião das partilhas, Eugénio convenceu-se de que ficava a ter conhecimento de todos esses empréstimos mas, em certa altura, avisaram-no de que havia ainda um de doze mil rublos, de que era credora a viúva Essipoff. Não existia qualquer documento considerado legal mas um recibo, que segundo a opinião do advogado oferecia dúvidas. Eugénio, porém, nem sequer podia conceber a ideia de se negar ao pagamento duma dívida contraída pelo pai.
Quis apenas saber se efectivamente a dívida existia.
- Mamã, quem é essa Essipoff, essa Caléria Vladimirovna Essipoff? - perguntou à mãe, enquanto jantava.
- Essipoff? Ah! foi pupila do teu avô. Por que fazes essa pergunta? E, como Eugénio lhe dissesse do que se tratava, a mãe acrescentou: - Essa mulher devia ter vergonha... Tanto dinheiro que o teu pai lhe deu...
- Mas, não lhe deveria nada? - Quer dizer... Dívida não. Teu pai, cuja bondade era infinita...
- Mas ele considerava ou não isso uma dívida? - Que dizer-te? O que sei é que todas essas coisas te causam muitas dores de cabeça.
Eugênio percebia que Maria Pavlovna não tinha lá multo bem a consciência do que estava a dizer.
- O que deduzo de tudo isso é que é preciso pagar - disse o filho. - Amanha irei a casa dessa senhora perguntar-lhe se é possível um adiamento.
- Tenho pena de ti, meu filho, por te teres metido nesses trabalhos, mas realmente será melhor lá ir. Pede-lhe para esperar algum tempo - aconselhou a mãe.
Havia outra coisa que apoquentava Eugénio, era o facto de sua mãe o não compreender.
Habituada a gastar às mãos cheias durante toda a sua vida, não podia compreender a situação do filho, que dispunha somente dum rendimento de dois mil rublos e que, para refazer a casa, se via na necessidade de diminuir todos os gastos, fazer cortes nos salários do jardineiro, dos cocheiros e mesmo até nas despesas com a alimentação.
Como a maior parte das viúvas, sua mãe sentia pela memória do marido uma admiração que ultrapassava toda a afeição que por ele tivera em vida, e não admitia que nada do que por ele fora feito, se modificasse. Eugénio, com grande dificuldade, conseguia o arranjo do jardim e da estufa e das cavalariças com dois jardineiros e dois coveiros. Mas Maria Pavlovna, só porque não se queixava do pouco pessoal da cozinha, a cargo da antiga cozinheira, nem das áleas do jardim por não andarem rigorosamente amanhadas, nem de só terem um criado de mesa em vez de muitos, pensava ingenuamente que fazia tudo quanto uma mãe extremosa deve fazer por um filho.
Naquela nova dívida, em que Eugénio via um golpe que lhe podia arrasar a vida, Maria Pavlovna descobria apenas um ensejo para o filho mostrar a sua generosidade. Havia, ainda, uma circunstância que em muito concorria para Maria Pavlovna se não inquietar com a situação material da casa: tinha a certeza de que Eugénio havia de fazer um casamento brilhante. Conhecia até uma dezena de famílias que se julgariam felizes concedendo-lhe a mão de suas filhas.
Eugénio pensava também no casamento, mas não da mesma forma de sua mãe. A ideia de casar-se para pagar as dividas repugnava-lhe. Queria fazê-lo mas por amor. Olhava as raparigas que encontrava, examinava-as minuciosamente, comparava-as, mas não se decidia.
Entretanto, as suas relações com Stepanida continuavam e nada indicava que pensasse acabar com elas. Depois do primeiro encontro, Eugénio julgou que não a procuraria mais.
Todavia, passado algum tempo voltou a sentir-se inquieto, e na sua inquietação evocava aqueles mesmos olhos negros e brilhantes, aquela mesma voz grave, aquele mesmo aroma de mulher fresca e sádia, aquele mesmo peito vigoroso que tufava a blusa. Tudo isto lhe passava pela mente associado à ideia dum bosque de nogueiras e plátanos, inundado de luz.
Apesar de envergonhado, apelou outra vez para Danilo. E novamente a entrevista foi marcada para o meio-dia. Desta vez, Eugénio examinou-a demoradamente a rapariga e tudo nela lhe pareceu atraente. Procurou conversar, falou-lhe do marido. Era, com efeito, o filho de Mikhail e trabalhava em Moscovo como cocheiro.
- Bem... e que é que faz ele para o enganares? - Ah! - exclamou ela rindo. - Penso que ele, lá onde está, também se não priva de nada.
Então, porque não hei-de eu fazer outro tanto? Via-se que se esforçava por mostrar arrogância e isto pareceu a Eugénio encantador. Apesar disso não lhe marcou nova entrevista. Quando ela propôs que voltassem a encontrar-se sem a intervenção de Danilo, com quem não parecia simpatizar, Eugénio recusou-se. Esperava que fosse aquela a última vez. Apesar disso Stepanida agradava-lhe; de resto, entendia que uma ligação destas lhe era necessária e que daí não lhe viria nenhum mal.
No entanto, no íntimo, um juiz mais severo repreendia-o, e por isso Eugénio contava que fosse aquele o último encontro. Porém passou-se o verão e durante esse tempo encontraram-se uma dezena de vezes mas sempre com a interferência de Danilo. Certa ocasião, ela não apareceu, porque o marido chegara. Depois, ele regressou a Moscovo e as entrevistas recomeçaram, a princípio com a cumplicidade de Danilo, mas, por fim, Eugénio marcava o dia e ela vinha acompanhada duma outra mulher.
Um dia, precisamente à hora em que se devia realizar o encontro, Maria Pavlovna recebeu a visita duma rapariga com quem muito desejava casar o filho, o que tornou impossível a saída de Eugénio. Logo que pôde escapar-se, fingiu ir à granja e, por uma vereda, correu para o bosque, para o lugar da entrevista. Ela não estava, e tudo quanto havia no sítio fora destruído: nogueiras, cerejeiras e até os plátanos pequenos. Stepanida, como Eugénio a fizesse esperar, enervou-se e devastou tudo o que encontrou pela frente.
Eugénio ainda ali se demorou uns momentos, mas em seguida correu à choupana de Danilo e pediu-lhe que a convencesse a voltar no dia seguinte.
Assim se passou todo o verão. Estes encontros deram-se sempre no bosque, à excepção duma vez, já perto do outono, em que se encontraram na granja. A Eugénio nem lhe passava pela cabeça que aquelas relações viessem a ter, para si, qualquer complicação futura. Quanto ao caso de Stepanida, nem pensava nisso: dava-lhe dinheiro e tudo ficaria arrumado. Não sabia nem podia imaginar que toda a aldeia estava ao corrente das suas ligações, que todos invejavam Stepanida, lhe extorquiam dinheiro, a encorajavam, e que, sob a influência e os conselhos dos parentes, desaparecia completamente, para a rapariga, a noção do seu irregular comportamento. Parecia-lhe até que, pelo facto de os outros a invejarem, ela só procedia bem.
Muitas vezes Eugénio punha-se a discorrer: Admitamos que não está certo... e, embora ninguém diga nada, toda a gente deve saber... A mulher que a acompanha com certeza dá à língua... Parece-me que ando por mau caminho, mas como deve ser por pouco tempo.
O que mais aborrecia Eugénio era saber que ela tinha marido. A princípio, até sem saber porquê, imaginava-o feio e, se assim fosse, estava justificado em parte o procedimento da mulher. Mas quando uma vez o viu, ficou espantado; era um rapaz elegante, em nada inferior a ele, tinha até mesmo melhor apresentação. No primeiro encontro que tiveram depois disso, ele pô-la ao facto da impressão com que ficou a respeito do marido.
- Não há melhor em toda a aldeia! - exclamou ela com orgulho.
Isto mais espantou Eugénio. Uma vez, em casa de Danilo, no decorrer de uma conversa, este disse-lhe: - Mikhail perguntou-me há dias se era verdade o senhor andar a namorar-lhe a mulher.
Respondi-lhe que de nada sabia.
- Ora! - disse ele - afinal de contas, antes com um fidalgo, do que com um camponês.
- E que mais disse ele? - Nada, nada mais do que isto: - Vou saber a verdade e depois lhe farei ver.
- Se ele voltar da cidade deixá-la-ei.
Mas o marido lá ia ficando e as suas relações mantinham-se inalteráveis. Chegado o momento próprio, acabarei com isto duma vez para sempre, pensava. A questão parecia-lhe de fácil solução, tanto mais que nessa época andava muito ocupado com os seus trabalhos, a construção duma nova casa, a colheita, o pagamento de dívidas e a venda de uma parte das terras. Essas coisas absorviam-no inteiramente. E tudo isso era a vida, a verdadeira vida, enquanto as suas relações com Stepanida, que vendo bem não tomava muito a sério, não tinham o mínimo interesse. É certo que, quando lhe vinha o desejo de a ver, em nada mais pensava. Isto, porém, não durava muito: depois duma entrevista, a esquecia de novo durante semanas e, às vezes, até mais.
Entretanto, começou a frequentar a cidade onde vivia a família Annensky e onde conheceu uma menina que acabava de sair do colégio. Com grande tristeza de Maria Pavlovna, Eugénio enamorou-se de Lisa e pediu-a em casamento. Assim terminaram as suas relações com Stepanida.
Que teria levado Eugénio a escolher para sua noiva Lisa Annensky? Não se encontra uma explicação, pois ninguém sabe o motivo porque um homem escolhe esta ou aquela mulher.
Contudo nessa escolha havia uma série de prós e contras a considerar. Em primeiro lugar, Lisa não era o rico partido que a mãe sonhara para ele, nem embora fosse bonita, era uma dessas belezas que fascinam qualquer rapaz. Mas aconteceu conhece-la precisamente na ocasião em que principiava a amadurecer para o casamento. Lisa Annensky, de começo agradara-lhe e nada mais. Porém, ao resolver fazer dela sua mulher, experimentou um mais vivo sentimento e percebeu que estava apaixonado. Lisa era alta, delgada e esbelta. Tinha a pele do rosto fina e branca com um leve e permanente rubor; os cabelos loiros, sedosos, longos e encaracolados; os olhos eram azuis, suaves e confiantes. Quanto às suas qualidades morais, nada delas conhecia. Não via mais que os seus olhos, que pareciam-lhe dizer tudo quanto ele precisava saber.
Desde os quinze anos, ainda colegial, que Lisa se enamorava de quase todos os rapazes que conhecia. Só se sentia feliz quando tinha algum namoro. Depois de sair do colégio, continuou a gostar de todos os jovens que via e, muito naturalmente, apaixonou-se por Eugénio logo que o conheceu. Era esse temperamento amoroso que lhe dava aos olhos aquela expressão tão doce que seduziu Eugénio.
Naquele mesmo inverno andava ela enamorada por dois rapazes, a um tempo, e corava, e ficava perturbada se acontecia algum deles entrar onde ela já estivesse, ou até quando deles se falava. Mas, desde que a mãe lhe dera a entender que Irtenieff parecia ter ideias de casar, o seu amor por ele cresceu a tal ponto que, de súbito, se esqueceu dos outros dois. E quando Eugénio começou a frequentar a casa, quando nos bailes dançava mais com ela do que com as outras, quando procurava unicamente saber se ela correspondia ao seu amor, então Lisa apaixonou-se por ele dum modo quase doentio. Via-o em sonhos e acreditava vê-lo na realidade. Nenhum outro homem existia para ela.
Depois do pedido de casamento, quando se beijaram e ficaram noivos, um só pensamento, um só desejo se sobrepunha a todos os pensamentos, a todos os desejos, o de ficar com ele, o de ser amada. Orgulhava-se dele, enternecia-se pensando nele e a ternura que ele lhe demonstrava fazia-a enlouquecer. Do mesmo modo Eugénio, quanto mais a conhecia, mais a adorava. Jamais esperara encontrar semelhante amor na vida.
Antes da primavera, Eugénio regressou a Semionovskoié, a fim de ver a propriedade, dar ordens e preparar a casa onde devia instalar-se após o casamento. Maria Pavlovna estava descontente com a escolha do filho, não só por não fazer o casamento brilhante a que tinha direito, como por não lhe agradar a mãe da sua futura nora. Se era boa ou má, ignorava-o; aliás não se preocupava muito com isso. Verificara que não era uma mulher alta, uma inglesa como dizia, e isto bastava para a impressionar desagradavelmente. Mas era preciso resignar-se a amá-la, para não desgostar Eugénio, e Maria Pavlovna estava sinceramente disposta a tal sacrifício.
Eugénio encontrou a mãe radiante de felicidade e alegria; arranjara tudo em casa e preparava-se para partir, logo que o filho trouxesse a sua jovem esposa. Ele, porém, pediulhe que se deixasse estar, e essa questão ficou ainda para ser resolvida.
À noite, depois do chá, como de costume, Maria Pavlovna, com um baralho de cartas pôsse a fazer uma paciência. Eugénio, sentado a seu lado, ajudava-a. No fim, Maria Pavlovna fitou o filho e, um pouco hesitante, disse-lhe: - Ouve, Eugénio, quero dizer-te uma coisa. Apesar de eu nada saber a esse respeito, penso que é preciso acabar inteiramente com todas as tuas aventuras, para que nem tu nem tua futura mulher possam mais tarde ter aborrecimentos. Compreendes onde quero chegar? Deste modo, Eugénio compreendeu logo que Maria Pavlovna se referia às suas relações com Stepanida, acabadas desde o outono, e lhes dava uma importância exagerada. Corou ao ver a bondosa Maria Pavlovna imiscuir-se num assunto que não poderia compreender.
Garantiu-lhe que nada havia a recear, pois sempre se conduzira de modo a que nenhum obstáculo viesse entravar o casamento.
- Está bem, meu filho, não te zangues - disse-lhe a mãe, um tanto confundida.
Mas Eugénio notou que ela não dissera tudo o que pretendia. Com efeito, dali a pouco a mãe pôs-se a contar-lhe que durante a sua ausência lhe pediram que fosse madrinha duma criança nascida em casa dos Petchnikoff. Eugénio corou de novo. Maria Pavlovna continuou a conversar e, embora sem intenções reservadas, a certa altura disse que naquele ano somente tinham nascido meninos, o que provavelmente, era sinal de guerra. Em casa dos Vassine e em casa dos Petchnikoff os primogénitos eram rapazes. Maria Pavlovna queria contar isto sem parecer que o fazia premeditadamente, mas ficou arrependida de ter abordado o assunto ao notar o rubor do filho, os seus movimentos nervosos, o modo precipitado de acender o cigarro. Calou-se então. Ele não sabia como reatar a conversa, mas ambos se compreenderam mutuamente.
- Sim, é preciso que haja justiça, para que não existam favoritos como na casa de teu tio.
- Mamã - respondeu Eugénio a seguir - eu sei porque fala assim. Afianço-lhe, porém, que a minha futura vida doméstica será para mim uma coisa sagrada. Tudo quanto a esse respeito se passou comigo, enquanto fui solteiro, está acabado e bem acabado, tanto mais que nunca tive ligações duradouras e ninguém tem portanto alguns direitos sobre mim.
- Está bem! Sinto-me muito feliz por me poderes falar assim - concluiu a mãe - isso, não vem senão confirmar os teus nobres sentimentos.
No dia seguinte pela manhã, Eugénio dirigiu-se à cidade. Pensava na noiva... e tinha esquecido Stepanida. Mas, dir-se-ia que propositadamente para relembrar-lha, ao aproximar-se da Igreja, encontrou um grupo de pessoas: era o velho Mateus, algumas crianças, raparigas, duas mulheres, uma delas já idosa, a outra, elegante, que lhe pareceu conhecer, de lenço vermelho-escarlate. Ao encarar com ele, a velha saudou-o à moda antiga, parando; a outra, que levava o recém-nascido, inclinou apenas a cabeça e cravou nele os seus dois olhos alegres, risonhos e muito conhecidos. «Sim, é Stepanida, mas, como tudo acabou, não vale a pena olhar mais para ela. A criança? Talvez seja seu pai. Não! Mas que pensamento tão estúpido! O pai é certamente o marido».
Estava perfeitamente convencido de que, para ele, não houvera em toda aquela aventura mais do que uma necessidade fisiológica e que como tinha dado dinheiro a Stepanida o caso estava arrumado, que entre ele e Stepanida não existia agora qualquer ligação. E, ao pensar assim, Eugénio não procurava sufocar a voz da consciência, tanto mais que, após a conversa que tivera com a mãe sobre o assunto, nunca mais pensou nela nem a encontrara.
Depois da Páscoa celebrou-se o casamento e Eugénio trouxe a noiva para o campo. A casa estava preparada para condignamente receber os recém-casados. Maria Pavlovna quis retirar-se. Contudo, Eugénio e principalmente Lisa, pediram-lhe que ficasse. Ela acedeu, mas passou a ocupar uma outra parte da casa.
E, assim, começava para Eugénio uma vida nova.
Durante o primeiro ano de casado, Eugénio teve de vencer inúmeras dificuldades económicas. Primeiro, viu-se obrigado a vender uma parte da propriedade a fim de satisfazer alguns compromissos mais urgentes; e depois outros surgiram e ele ficou quase sem dinheiro. A propriedade ia dando bom rendimento, mas era preciso mandar uma parte ao irmão e isso impedia-o de continuar com a laboração da refinaria. O único meio de sair de tal embaraço era lançar mão dos bens de sua esposa. Lisa, compreendendo a situação do marido, exigiu que ele fizesse uso do seu dote; Eugénio concordou, desde que metade da herdade ficasse registada em seu nome. Assim se fez, não por vontade da mulher, mas para que fosse dada uma satisfação a sua mãe.
Depois, sete meses após o casamento, Lisa sofreu um desastre. Saíra de carro ao encontro do marido que regressava da cidade. O cavalo, apesar de ser manso, espantou-se. Lisa, cheia de medo, atirou-se do carro abaixo. A queda não foi grande mas, como estava grávida, abortou.
A perda do filho tão desejado, a doença da mulher e as dificuldades financeiras, tudo acrescido da presença da sogra, que acorreu a tratar da filha, contribuíram para que esse primeiro ano de casado fosse extremamente difícil para Eugénio.
Contudo essas dificuldades não o fizeram desanimar, pois verificava que o sistema do avô, por ele adoptado, ia dando resultado. Então, felizmente, já não existia o perigo de se ver obrigado a vender toda a propriedade para pagar as dívidas. A parte principal, agora em nome da mulher, estava salva e com uma excelente colheita de beterraba, vendida a bom preço, estaria assegurada a situação do ano seguinte.
Além disso encontrara na mulher aquilo que nunca esperara. Com efeito, Lisa ultrapassara toda a sua expectativa. Não se tratava da sua ternura, do seu entusiasmo amoroso. Mais do que tudo isso, Lisa convencera-se, logo a seguir ao casamento, de que, de todos os homens existentes no universo, o melhor era Eugénio Irtenieff. O melhor e o mais inteligente, o mais puro e o mais nobre.
Por conseguinte, o dever de todos era fazerem o possível para lhe serem agradáveis; como, todavia, não podia obrigar os estranhos a cumprir tal dever, a ela se impunha a necessidade de dirigir nesse sentido todas as suas forças. Assim foi. Aplicou toda a sua boa vontade em lhe adivinhar os gostos e os desejos, procurando satisfazê-los por mais dificuldades que para tal encontrasse. Graças ao seu amor pelo marido, sabia ler-lhe na alma. Compreendia, talvez, melhor do que ele o seu espírito e tratava de agir em conformidade com os sentimentos que ele traduzia, procurando adoçar-lhe desagradáveis impressões. Quase lhe adivinhava os próprios pensamentos. As coisas até então mais estranhas para ele, como os trabalhos agrícolas, a refinaria, a apreciação das pessoas, tornavam-se para ela, de repente, acessíveis e transformara-se numa companheira útil, insubstituível. Amava a mãe, mas, percebendo que a sua intromissão na vida do casal era desagradável a Eugénio, tomou logo o partido do marido, e tão resolutamente que ele se viu na necessidade de lhe recomendar moderação.
Possuía ainda, em grande dose, o bom gosto, o tacto administrativo e era dócil. A tudo imprimia um cunho de elegância, e de ordem. Lisa compreendera qual era o ideal do marido e esforçava-se por atingi-lo.
Só um desgosto escurecia a sua felicidade conjugal: não tinham filhos. No inverno, porém, foram a S. Petersburgo consultar um especialista, que lhes afirmou ter Lisa muito boa saúde e ser possível verem, dentro em pouco, os seus desejos realizados.
Com efeito, no fim do ano, Lisa estava grávida novamente.
Não há bela sem senão e Lisa era ciumenta o que a fazia sofrer muito. Pensava que Eugénio não devia apenas viver só para ela, como também não admitia que outra mulher pudesse amá-lo. Mas como, residiam no campo, não havia muita razão para acirrados ciúmes. Por consequência, a existência decorria-lhes serena e calma.
Até a sogra se tinha ido embora. Só Maria Pavlovna, de quem Lisa era extraordinariamente amiga, aparecia de vez em quando e com eles ficava semanas inteiras. O trabalho de Eugénio ia-se tornando mais suave a saúde de Lisa, apesar do seu estado, era excelente.
Eugénio levantava-se cedo e dava uma volta pela propriedade. Ao bater das dez horas ia tomar o café no terraço, onde o esperavam Maria Pavlovna, um tio que agora vivia com eles, e Lisa. Depois, não se viam até ao jantar, ocupando cada qual o tempo a seu modo; em seguida davam um passeio, a pé ou de carro. À noite, quando Eugénio regressava da refinaria tomavam chá; mais tarde, uma vez por outra, faziam qualquer leitura em voz alta; Lisa trabalhava ou tocava piano. Quando Eugénio precisava de se ausentar, recebia todos os dias carta da mulher. Mas, às vezes, ela acompanhava-o e sentia-se, com isso, particularmente alegre. No aniversário dum ou doutro reuniam alguns amigos, e era um gosto ver como Lisa sabia dispor as coisas de modo que estivessem satisfeitos. Eugénio sentia que admiravam a sua jovem e encantadora mulher, o que fazia com que ele a amasse ainda mais.
Tudo agora lhes corria bem. Ela suportava corajosamente a gravidez e ambos começavam a fazer projectos sobre a maneira de educar o filho. O modo de educação, os métodos a seguir, tudo isso era resolvido por Eugénio. Ela, afinal, não desejava senão uma coisa: proceder segundo a vontade do marido. Eugénio começou a ler muitos livros de medicina e prometia a si próprio que o menino havia de ser criado segundo os métodos da ciência. Lisa concordava naturalmente com esses projectos, e, numa perfeita comunhão de ideias, assim chegaram ao segundo ano do seu casamento, melhor, à sua segunda primavera de casados.
Era a véspera da Trindade. Lisa estava grávida de cinco meses e, embora tivesse os necessários cuidados, andava muito bem disposta. A mãe de Lisa e a mãe de Eugénio, que nessa altura estava em casa dele, a pretexto de cuidar da nora, tinham frequentes disputas que muito aborreciam o casal.
Aconteceu que, por essa ocasião, Lisa resolvera mandar fazer uma grande limpeza a toda a casa, o que não acontecia desde a Páscoa; para ajudar os criados, chamou duas mulheres a dias para lavarem os soalhos, janelas e móveis, bater os tapetes, pregar os reposteiros, etc.
De manhã cedo, as mulheres chegaram com grandes baldes de água e puseram-se a trabalhar. Uma delas era Stepanida que, por intermédio dum criado, conseguiu ser chamada: queria ver de perto a senhora da casa. Stepanida vivia como dantes, sem o marido; e, como outrora, tinha entendimentos com o velho Danilo, que a surpreendera uma vez a roubar lenha. Foi depois disso que Eugénio a conheceu; e agora mantinha relações com um dos empregados do escritório da refinaria.
Afirmava que não pensara mais no senhor. Ele agora tem a sua esposa - dizia ela - mas gostava de ver a casa que todos dizem estar muito bem posta.
Eugénio, desde que a encontrara com o filho nos braços, não a tornara a ver. Ela não trabalhava fora de casa, porque tinha de tomar conta da criança, e muito raramente ia à aldeia.
Naquela manhã, Eugénio levantou-se às cinco horas e saiu para o campo antes que chegassem as mulheres encarregadas da limpeza da casa; mas já havia gente na cozinha, perto do fogão, a aquecer água.
Contente, e cheio de apetite, Eugénio voltou para almoçar. Entregando o cavalo ao jardineiro, bateu com o pingalim na erva, ao mesmo tempo que repetia um dos seus estribilhos habituais. Ouvia-se o bater dos tapetes. Todos os móveis estavam fora de casa, no pátio. «Meu Deus, que limpeza anda Lisa a fazer. Eis o que é uma boa dona de casa! Sim, e que dona de casa!» dizia, ao lembrar-se de Lisa em roupas brancas, com aquele rosto radiante de felicidade que sempre apresentava quando o fitava. «Sim, é preciso mudar de botas, de contrário - e voltou a repetir a frase - «Sim, em Lisa cresce um novo Irtenieff».
E, sorrindo, empurrou a porta do quarto. Mas, no mesmo instante, a porta abriu-se, puxada de dentro, e ele deu de cara com uma mulher que saía do quarto, com um balde na mão, a saia enrolada, os pés descalços, as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Afastou-se para a deixar passar. Ela afastou-se também, ajeitando com a mão húmida o lenço que escorregara.
- Faça favor de passar - disse Eugénio, mas de repente reconheceu-a.
A rapariga sorriu-lhe com os olhos, fitou-o alegremente e, soltando a saia, retirou-se.
Mas afinal que significa isto? Não é possível disse Eugénio franzindo o sobrolho e afastando com a mão, como se fosse uma mosca, certa ideia importuna. Estava aborrecido por tê-la visto mas, ao mesmo tempo, não podia afastar os olhos do seu corpo ondulante, dos seus pés descalços, dos seus braços, dos seus ombros, das graciosas pregas da saia encarnada, erguida até meia perna.
«Mas por que será que eu estou a olhar para ela?» perguntou procurando desviar a vista.
«Sim, tenho de mudar de calçado». Entrou no quarto e ainda não tinha dado cinco passos quando se voltou para a ver uma vez mais. Ela fazia qualquer coisa, a pequena distância e, no mesmo instante, também se voltou para Eugénio. «Ah! que estou eu a fazer? Ela é capaz de pensar... Sim, com certeza já pensou.» O quarto ainda estava molhado. Uma mulher idosa e magra dava começo à lavagem.
Eugénio avançou na ponta dos pés até onde se encontravam as botas. Ia a retirar-se quando a mulher saiu também. Esta vai e Stepanida vem.
«Meu Deus, que irá passar-se? Que estou eu a fazer?» Pegou nas botas e foi calçar-se para o vestíbulo. Escovou-se e apareceu no terraço onde já estavam a mãe e a sogra. Lisa, evidentemente, esperava-o. Entrou por outra porta ao mesmo tempo que ele.
Meu Deus, se ela, que me supõe tão puro e tão inocente, soubesse!, pensou Eugénio.
Lisa, como sempre, foi ao encontro do marido, radiante de felicidade. Mas, nesse instante, ela pareceu-lhe singularmente pálida, desfigurada, esquelética... Durante o café, as duas senhoras, trocaram insinuações, cujos efeitos Lisa tentava iludir habilmente.
- Estou morta por que terminem com a limpeza do teu quarto - disse ela ao marido. - Gosto de ver tudo bem arrumado...
- Deixa lá isso. E tu dormiste depois de eu ter saído? - Dormi. Sinto-me muito bem, até.
- Como pode uma mulher nesse estado sentir-se bem com este calor insuportável e num quarto com as janelas viradas para o sol, sem reposteiros nem cortinas? - disse Bárbara Alexievna, a mãe de Lisa. Em minha casa há sempre cortinas.
- Mas aqui às dez horas da manhã já temos sombra - retorquiu Maria Pavlovna.
- É por isso que há tantas febres... - A humidade... - tornou Bárbara Alexievna, sem reparar que estava em contradição consigo própria - O meu médico disse sempre que não se pode diagnosticar a moléstia sem conhecer o temperamento do doente. E ele sabe muito bem o que diz, é o melhor médico que há por estas redondezas. Também, pagamos-lhe cem rublos, por cada visita. O meu defunto marido não gostava de chamar o médico para ele; mas, em se tratando de mim, não olhava a despesas.
- Mas como pode um homem fugir a despesas, quando está em jogo a vida da mulher e do filho? - disse Eugénio.
- Uma boa esposa obedece ao seu marido - acrescentou Bárbara Alexievna. - Simplesmente, Lisa está ainda muito fraca depois da doença que teve.
- Não, mamã, eu sinto-me bem. - E mudando de assunto - Não lhe serviram creme cozido? - Eu não quero creme cozido. Contento-me com o creme fresco.
- Eu bem disse a Bárbara Alexievna, mas ela não faz caso - disse Maria Pavlovna, como que a justificar-se.
- E, realmente, não quero.
Pretendendo terminar uma conversa que lhe era desagradável, Bárbara Alexievna perguntou a Eugénio: - Afinal, sempre lançaram à terra os fosfatos? Lisa, entretanto, corria a buscar o creme.
- Não vás, que não me apetece - gritou a mãe.
- Lisa! Lisa, mais devagar! - acudiu Maria Pavlovna. - Essas pressas podem dar mau resultado.
- Nada nos faz mal, quando estamos tranquilos de espírito - sentenciou Bárbara Alexievna, parecendo aludir a qualquer coisa.
Lisa, entretanto, corria a buscar o creme fresco.
Cabisbaixo, Eugénio bebia o café e ouvia em silêncio. Já estava habituado àquelas conversas que o irritavam particularmente. Queria reflectir sobre o que se passara consigo naquele dia, e não o conseguia. Depois do café, Bárbara Alexievna retirou-se de mau humor. A conversa entre os três tornou-se depois simples e agradável. Mas Lisa reparou que alguma coisa preocupava Eugénio e perguntou-lhe se tinha tido algum aborrecimento.
Como não estava preparado para essa pergunta atrapalhou-se um pouco ao responder negativamente. Lisa, no entanto, ficou desconfiada. Que alguma coisa o afligia, estava ela bem certa disso. Mas por que seria que ele não falava francamente.