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Ana Karenina
(Oitava PARTE)

Leon Tolstoi

CAPÍTULO I

Perto de dois meses haviam decorrido. Apesar dos cálidos dias de Verão, Sérgio Ivanovitch ainda não saíra de Moscovo, onde o retinha um acontecimento importante: a publicação do seu Ensaio sobre as Bases e as Formas de Governo na Europa e na Rússia, produto de seis anos de trabalho. Lera a um grupo de pessoas escolhidas alguns fragmentos dessa obra, inserira em revistas a introdução e alguns capítulos, e, conquanto o seu trabalho já não fosse propriamente uma novidade, contava que fizesse sensação.

Afectando indiferença e sem querer mesmo informar-se a respeito da sua venda junto dos livreiros, Kosnichev aguardava com impaciência febril os primeiros sinais da enorme impressão que o livro não deixaria de produzir, quer na alta sociedade, quer entre os sábios. A verdade, porém, é que semanas e semanas decorreram sem que a menor emoção agitasse o mundo literário. Alguns amigos, homens de ciência, dirigiram- lhe cumprimentos polidos, mas a sociedade propriamente dita, essa estava demasiado preocupada com questões muito diferentes para conceder a mínima atenção a uma obra desse gênero. Quanto à imprensa, durante dois meses manteve-se em silêncio. Apenas o Escaravelho do Norte, num folhetim consagrado ao cantor Drabanti, que perdera a voz, citava, de passo, o livro de Kosnichev, motivo de risota geral.

Finalmente, no decurso do terceiro mês, certa revista séria publicou uma crítica, aliás sem assinatura, de um jovem, doente e pouco instruído, que uma grande timidez atormentava, embora dispusesse de uma pena assaz viva. Sérgio Ivanovitch, porém, que o conhecera em casa do editor Golubtzov e o tinha em pouca conta, leu-lhe a prosa com grande respeito, embora experimentando uma viva mortificação. O crítico fazia uma interpretação do livro bastante inexacta. Todavia, graças a citações habilmente escolhidas e a numerosos pontos de interrogação, deixava perceber ao leitor — isto é, à maioria do público — que essa obra não passava de uma trama de frases pomposas e incoerentes. Tais frechas eram, aliás, despedidas com tal ímpeto que Sérgio Ivanovitch não pôde deixar de admirá-las: ele próprio não teria feito melhor. Por mero escrúpulo de consciência, reconheceu a justeza das observações do crítico, preferindo atribuir-lhes o fel que destilavam a uma vingança pessoal:

imediatamente lembrou os mínimos pormenores do seu mútuo encontro e acabou por recordar que chamara a atenção desse seu jovem confrade para um erro muito grosseiro que cometera.

Após o que, o silêncio foi absoluto. A decepção que tivera ao verificar que uma obra que lhe era tão cara e lhe custara seis anos de trabalho passara despercebida vinha juntar-se agora uma espécie de desânimo provocado pela ociosidade. Àquele homem cultivado, inteligente, saudável, ávido de actividade, nada mais restava que o exortório dos salões, das palestras, das assembleias. Porém, há muitos anos residente na cidade, não se entregava por completo a essas conversas, como acontecia a seu irmão quando chegava a Moscovo. Ainda lhe restavam muitas horas de ócio e grande vigor mental. Felizmente naquela época tão dolorosa para ele, em virtude do pouco êxito do seu livro, as questões do dia — a dos dissidentes, a dos amigos americanos, a da fome da Sarmácia e do espiritismo, bem como as exposições e discussões provocadas pelo problema eslavo — eram bruscamente substituídas pelo problema dos Bálcãs, que por muito tempo permanecera latente, embora ele de há muito pertencesse ao número dos seus animadores russos. No círculo a que pertencia Sérgio Ivanovitch não se discutia outra coisa nem se escrevia sobre mais nada que não fosse a guerra servia. Tudo o que a sociedade ociosa costumava fazer habitualmente para matar o tempo era consagrado nessa altura aos «irmãos eslavos». Os bailes, os concertos, os jantares, os discursos, as modas, as cervejarias e os cafés; tudo servia para proclamar adesão a eles.

Sérgio Ivanovitch não estava de acordo em muitos pormenores com o que se escrevia e comentava a respeito desta questão. Verificava que o problema eslavo se convertera num desses temas da moda, que, mudando de vez em quando, servem de distracção à sociedade; e via, igualmente, que muitos se ocupavam do caso com fins interessados e por vaidade. Reconhecia que os jornais publicavam muita coisa desnecessária, apenas para chamarem a atenção e poderem gritar mais alto uns do que outros. Notava mesmo que perante aquele momento geral de entusiasmo, os que mais gritavam eram os falhados e os ressentidos: os generais sem exército, os ministros sem ministério, os jornalistas sem jornal e os chefes de partido sem adeptos. Observava que em tudo aquilo havia muita frivolidade e ridículo, conquanto não deixasse de reconhecer o crescente entusiasmo em que comungavam todas as classes sociais e com que era forçoso simpatizar. Sofrimentos e heroísmo de sérvios e montenegrinos, seus irmãos de raça e religião, haviam despertado o desejo unânime de lhes prestar socorro, não apenas de proferir discursos. Semelhantes manifestações da opinião pública satisfaziam por completo Sérgio Ivanovitch. Finalmente, dizia, acabou por se mostrar em plena luz o

sentimento nacional. E quanto mais observava esse movimento tanto mas lhe descobria proporções grandiosas, um verdadeiro marco na história da Rússia. Assim esquecera o livro e as decepções que tivera com ele para consagrar-se de corpo e alma a essa grande obra. A tal ponto se deixara absorver por ela que só em Julho pôde permitir-se quinze dias de férias. Precisava de descansar e ao mesmo tempo queria assistir, em plena aldeia, aos primeiros sinais desse despertar nacional em que todas as grandes cidades do império acreditavam firmemente. Katavassov aproveitara a ocasião para cumprir a promessa que fizera a Levine, de o visitar um dia.

CAPÍTULO II

No momento em que os dois amigos, que se haviam apeado à porta da estação de Kursk, se ocupavam das bagagens confiadas a um criado, que os seguia, quatro fiacres chegavam com voluntários. Senhoras recebiam com flores os heróis do dia e, seguidos de grande multidão, acompanhavam-nos até ao interior da gare. Uma destas senhoras, conhecida de Sérgio Ivanovitch, perguntou-lhe em francês se também viera despedir-se.

— Não, princesa, parto para o campo, para casa de meu irmão. Preciso de descanso. Mas a princesa vem despedir-se dos voluntários? — perguntou Kosnichev com um sorriso imperceptível.

— Evidentemente! — replicou ela. — Não é verdade que já partiram oitocentos? Malvinski não queria acreditar.

— Mais de oitocentos. Se se contarem os que têm seguido directamente, e não apenas os que saem de Moscovo, ascendem já a mais de mil.

— Era o que eu dizia — corroborou a princesa com satisfação. — Realmente, já se teria recolhido perto de um milhão de rublos? — Mais, princesa!

— Leu o telegrama de hoje? Venceram de novo os Turcos.

— Li, sim — respondeu Sérgio Ivanovitch.

Referia-se ao último telegrama, que confirmava terem os Turcos sido batidos dois dias antes em toda a parte e que haviam fugido, aguardando-se um combate decisivo para o dia seguinte.

— A propósito — voltou a princesa —, queria pedir-lhe uma coisa. Não poderia apoiar o pedido de um excelente mancebo que tem encontrado não sei que dificuldades? Conheço-o pessoalmente: foi-me

recomendado pela condessa Lídia.

Depois de recolher alguns pormenores, Sérgio Ivanovitch entrou na sala de espera de ª classe para escrever uma carta a quem de direito.

— Sabe quem parte hoje? — observara a princesa, ao voltar a encontrá-lo para receber a carta no meio da multidão. — O conde Vronski, o famoso...

— disse ela, em tom triunfal, com um sorriso significativo.

— Ouvi dizer que ele se alistara, mas não sabia que partia hoje mesmo.

— Acabo de o ver. Vai apenas acompanhado da mãe. Aqui para nós, era o melhor que tinha a fazer.

— Evidentemente.

Entretanto a multidão arrastava-o para o bufete, onde um cavalheiro, de copo em punho, fazia uma saúde aos voluntários. «Vocês partem para defender a nossa fé, os nossos irmãos, a humanidade», dizia ele, erguendo cada vez mais a voz. «Que a nossa mãe Moscovo vos abençoe. Viva!» — concluiu em voz alta e comovida. Todos responderam: «Viva!» E outro grupo penetrou na sala, por pouco derrubando a princesa.

— Ah, princesa! — exclamou Stepane Arkadievitch radiante de alegria, aparecendo, de súbito, no meio da multidão — Falou bem, com muito calor e entusiasmo, não é verdade? Bravo! Também aqui está o Sérgio Ivanovitch! Devia dizer qualquer coisa para os animar. Fala tão bem! — acrescentou com um sorriso manso, cauteloso e cheio de respeito, empurrando ligeiramente Sérgio Ivanovitch pelo braço.

— Não, vou partir.

— Para onde?

— Para a aldeia. Para casa de meu irmão — respondeu Sérgio Ivanovitch.

— Então vai encontrar lá a minha mulher. Escrevi-lhe; mas como o senhor chega primeiro, faça o favor de lhe dizer que me viu e que all right. Ela vai entender. Mesmo assim, tenha a bondade de lhe dizer que me nomearam membro da Comissão... Bom, ela perceberá. Sabe? São les elites misères de la vie humaine — disse, para a princesa, como que a desculpar-se. — A Miagkaia, não a Lisa, a bibiche, oferece mil espingardas e doze enfermeiras. Não lhe tinham dito? — Sim, ouvi dizer — replicou Kosnichev, mal-humorado.

— É pena que se vá embora — continuou Stepane Arkadievitch.

— Amanhã oferecemos um jantar a dois voluntários que partem: Dimer

Tudo vai bem.

As pequenas misérias da vida humana.

Bartnianski, de Sampetersburgo, e o nosso Gricha Veslovski. Partem os dois. Veslovski casou há pouco. Que valente, não é verdade, princesa? — acrescentou, voltado para ela.

Sem responder, a princesa olhou para Kosnichev. Embora tudo denunciasse que Sérgio Ivanovitch e a princesa se queriam ver livres dele, Stepane Arkadievitch mantinha-se imperturbável. Olhava, sorrindo, ora para a pluma do chapéu da princesa, ora para um lado, ora para outro, como se procurasse lembrar-se de algo. Ao ver uma senhora que passava e fazia peditório, chamou-a e entregou-lhe uma nota de cinco rublos.

— Apesar de todos os seus defeitos, não há dúvida que é bem um temperamento russo, tipicamente eslavo — declarou a princesa para Kosnichev quando Oblonski se afastou — Receio, porém, que não seja muito agradável dar de cara com o irmão de Ana. Digam o que disserem, comove-me o destino deste homem. Procure falar com ele durante a viagem.

— Assim farei, se tiver oportunidade.

— Jamais gostei dele, mas este acto redime muitas coisas. Não se alistou apenas como voluntário, leva consigo todo um esquadrão a expensas suas.

— Sim, disseram-me isso.

Ouviu-se a sineta. Todos correram para as portas.

— Lá está ele — exclamou a princesa, apontando Vronski, que de grande capote e chapéu preto de abas largas se aproximava pelo braço da mãe. Oblonski, a seu lado, falava animadamente, enquanto o conde, de sobrecenho carregado, olhava em frente, como se o não ouvisse.

Naturalmente, por indicação de Oblonski, Vronski voltou-se para onde estavam a princesa e Sérgio Ivanovitch, descobrindo-se em silêncio.

A sua face envelhecida, onde havia sofrimento, parecia petrificada.

Sem dizer palavra, subiu para a plataforma, deixou passar a mãe e desapareceu no interior da carruagem.

Na estação ouvia-se Deus Guarde o Czar e em seguida hurras! e vivas! Um voluntário alto, muito jovem, de peito enfezado, respondia às saudações do público com ostentação, agitando o chapéu de feltro e um ramo de flores. Por detrás dele assomavam, também em grandes acenos, dois oficiais e um homem maduro, de farta barba, com um gorro sebento na cabeça.

— É mais forte do que eu — declarou. — Desde que tenha dinheiro no bolso não posso ver uma senhora de peditório sem lhe dar

Hino imperial russo.

qualquer coisa... Mas falemos das notícias de hoje. Que valentes aqueles montenegrinos!... Não pode ser! — exclamou, quando a princesa lhe disse que Vronski ia no comboio.

Uma sombra de tristeza se lhe pintou no rosto. No entanto quando, daí a pouco, penetrou, confiando as suíças, na sala onde Vronski se encontrava, Stepan Arkadievitch esquecera por completo os desesperados soluços dele diante do cadáver da irmã, vendo no conde apenas o herói e o velho amigo.

CAPÍTULO III

Depois de se despedir da princesa, Sérgio Ivanovitch, com Katavassov, que se lhe reunira, meteu-se num compartimento a transbordar de passageiros, e o comboio pôs-se em andamento.

Na estação de Tzaritsine, um grupo de rapazes acolheu os voluntários entoando, em harmonioso coro, o hino Glória ao Nosso Czar! E de novo houve agradecimentos e ovações. O tipo do voluntário era por de mais conhecido de Sérgio Ivanovitch para que este lhe testemunhasse curiosidade; Katavassov, pelo contrário, que, enfronhado nos seus estudos, não tivera oportunidade de observar aquela gente, estava sempre a fazer perguntas ao seu companheiro de viagem acerca desse gênero de pessoas. Sérgio Ivanovitch aconselhou-o a que as fosse observar de perto, nas suas próprias carruagens, e de facto, na estação imediata, Katavassov pôs em prática o conselho do amigo.

Foi encontrar os quatro heróis instalados num compartimento de ª classe, tagarelando ruidosamente, sem dúvida alguma cientes de estarem sendo objecto da atenção dos circunstantes. Graças às numerosas libações a que se votara, o mancebo alto, de peito metido para dentro, falava mais estentòreamente do que os outros, contando uma história. Sentado diante dele, um oficial, entrado em anos, que envergava o dólman austríaco da Guarda, ouvia-o, sorrindo, e interrompia-o de quando em quando. O terceiro voluntário, fardado de artilheiro, sentava-se ao lado deles em cima de uma mobília, e o quarto dormitava.

Katavassov entabulou conversa com o mais palrador. Tinha apenas vinte e dois anos. Era comerciante moscovita, dissipara já uma boa fortuna e supunha realizar agora uma empresa sem precedentes. Efeminado, de aspecto doentio e fanfarrão, desagradou desde logo a Katavassov, que também não gostou do seu companheiro, o oficial da reserva. Este fora tudo na vida: ferroviário, administrador de

propriedades agrícolas, industrial, tendo montado até uma fábrica. Falava de tudo com suficiência, empregando termos científicos a propósito e a despropósito.

Em compensação, o artilheiro agradou muito a Katavassov: era um jovem tímido e sossegado. Naturalmente deslumbrado pela sabedoria do oficial da Guarda e o heroísmo do comerciante, conservava-se calado. Quando Katavassov lhe perguntou que é que o levava à Sérvia, respondeu com toda a simplicidade: — Que quer? Faço como os outros. Os pobres sérvios precisam de quem os auxilie.

— Sim, e sobretudo têm poucos artilheiros como o senhor — observou.

— Oh! Servi pouco tempo na artilharia. Talvez me mandem para a infantaria ou para a cavalaria.

— Mas porquê, se lhes faltam principalmente artilheiros? — objectou Katavassov, calculando, pela idade do artilheiro, que devia ser já de patente elevada.

— Servi pouco tempo na artilharia — repetiu ele. — Sou apenas junker na reserva — disse, e pôs-se a explicar os motivos por que não fora aprovado nos exames.

Na estação seguinte, os voluntários apearam-se para tomar refrescos, e Katavassov, muito pouco entusiasmado com o que vira e ouvira, voltou-se para um velho, fardado de militar, que escutara calado toda a conversa.

— Tenho a impressão de que mandam para ali gente de toda a espécie — disse ele, para o obrigar a exprimir a sua opinião, limitando-se a deixar adivinhar a sua própria.

Tendo feito duas campanhas, o velho soldado não podia tomar a sério heróis cujo mérito militar dependia sobretudo do gosto que tinham pela bebida. E esteve para contar a Katavassov que na aldeola onde vivia, um soldado, de licença ilimitada, bêbedo, ladrão e vadio permanente, se alistara como voluntário. Mas sabendo por experiência que diante da exaltação geral dos espíritos seria perigoso expor opiniões independentes, contentou-se em responder, sorrindo com os olhos e interrogando, por sua vez, Katavassov apenas com a vista: — Que havemos nós de fazer? Há falta de homens! E os dois puseram-se, então, a falar do último comunicado de guerra, sem que nem um nem outro se atrevessem, no entanto, a formular a pergunta que os trabalhava intimamente: Se os Turcos, derrotados em toda a linha, tinham debandado, contra quem é que viria a desferir-se amanhã a batalha decisiva?

Quando Katavassov voltou para junto de Sérgio Ivanovitch, não ousou pô-lo ao corrente da sua opinião, declarando-se muito satisfeito com o que vira e ouvira.

Na primeira estação importante em que o comboio parou, repetiram-se os tantos, os vivas, as flores, o peditório, e as saúdes no bufete, embora com menos entusiasmo do que em Moscovo.

CAPÍTULO IV

Durante esta paragem do comboio, Sérgio Ivanovitch apeou-se e pôs-se a passear pela plataforma, passando diante do compartimento Vronski, cujos estores estavam corridos. De uma das vezes viu a velha condessa junto à portinhola. E a condessa chamou-o.

— Vou acompanhá-lo até Kursk.

— Tinham-me dito — respondeu Kosnichev relanceando a vista para o interior do compartimento. E, ao notar que Vronski não estava presente, acrescentou: — O seu filho pratica um belo acto! — Que havia ele de fazer depois da infelicidade por que passou?

— Que coisa horrível!

— Oh, o que eu sofri! Mas entre!... Se soubesse o que eu passei! Durante seis semanas ninguém lhe ouviu palavra e só comia quando eu implorava que o fizesse. Não o podíamos deixar só um único momento. Receávamos que ele cometesse um acto de desespero. Vivíamos num rés-do-chão e tirámos-lhe todos os objectos perigosos. Ninguém sabe o que pode vir a acontecer numa ocasião dessas... Já uma vez, por causa dela, tentara suicidar-se com um tiro de pistola — acrescentou a velha condessa, por cuja face perpassou uma sombra nesse momento. — Aquela mulher morreu como sempre tinha vivido: de maneira baixa, miserável.

— Não nos compete a nós julgá-la, condessa — replicou Sérgio Ivanovitch, suspirando —, mas compreendo que tenha sofrido muito.

— Nem me fale nisso! Estava a passar o Verão na minha quinta e meu filho fora visitar-me, quando lhe trouxeram uma carta a que ele respondeu imediatamente. Ninguém sabia que ela estava na estação. Nessa noite, acabava de me recolher ao meu quarto, quando a Mary, a minha criada, me veio dizer que uma senhora se atirara para debaixo do comboio. Tive um pressentimento! Passou-me pela cabeça que seria ela. E

a primeira coisa que recomendei foi que nada dissessem ao conde. Porém, já lho tinham dito. O cocheiro do meu filho estava na estação e presenciara a cena. Quando corri ao quarto do Alexei, encontrei-o como doido. Metia medo vê-lo. Sem dizer palavra, desatou a correr direito à estação. Não sei o que ali se passou. A verdade é que mo trouxeram para casa meio morto. O médico achou-o numa prostration complete . Depois disso é que surgiram as crises de loucura... Que época terrível esta em que vivemos! Diga o que disser, a verdade é que era uma mulher má. Pode compreender uma paixão assim? Que quis ela demonstrar com aquela morte? Perdeu-se a si mesma e estragou a vida de dois homens, qualquer deles de grande mérito: o marido e o meu infeliz filho.

— O marido, que fez?

— Recolheu a pequenina. No primeiro momento, Alexei consentiu em tudo. Agora está arrependido de ter confiado a filha a um estranho, mas não quer voltar com a sua palavra atrás. Karenine veio ao enterro. Fizemos o possível para que ele se não encontrasse com o Aliocha. Para Karenine, as coisas eram mais suportáveis. Ao menos assim ficava livre. Em compensação, o meu pobre filho tinha se lhe confiado por completo. Sacrificara lhe tudo tanto a sua carreira como até a mim mesma, e ela não só não teve piedade dele como acabou por perdê-lo desta maneira. Diga o que quiser, na minha opinião teve morte de má mulher, de mulher sem religião. Que Deus me perdoe, mas não posso deixar de ter ódio à sua memória, diante da perdição do meu filho.

— E ele como está agora?

— Deus quis ajudar nos com a guerra dos Sérvios. Sou uma velha e não entendo nada destas coisas, mas acho que Deus lhe enviou isto a ele.

É certo que eu, como mãe, estou assustada, e, além disso, dizem que cê rïest pás tres bien vu à Petersburg? Mas que fazer? Só isto lhe podia dar ânimo Iachvine, seu camarada, como perdeu toda a fortuna, resolveu partir para a Sérvia e foi ele quem levou o Alexei a fazer o mesmo. Os preparativos da partida distraíram no muito. Fale com ele, peço lhe, vai tão triste. Para cúmulo, esta com uma grande dor de dentes! Mas tenho a certeza de que gostara muito de o ver. Anda a passear do outro lado da gare.

Sérgio Ivanovitch declarou que também ele teria muita satisfação em vê-lo, e passou para o outro lado da plataforma à procura do conde.

Completa prostração.

CAPÍTULO V

Vronski, com o seu grande sobretudo de chapéu puxado para os olhos e de mãos enterradas nos bolsos, passeava de um lado para o outro, como uma fera enjaulada, por entre as sombras oblíquas dos fardos empilhados na gare, fazendo bruscamente meu volta de vinte em vinte passos. Ao aproximar se, Sérgio Ivanovitch julgou que Vronski fingia não o ver. Pouco lhe importou. Estava acima de qualquer susceptibilidade Vronski, opinava, ia desempenhar uma grande missão e devia ser amparado e encorajado.

Kosnichev aproximou se, pois, o conde parou, encarou com ele e tendo o por fim reconhecido apertou lhe cordialmente a mão.

— Talvez não estivesse com disposição para me falar’ — disse Sérgio Ivanovitch — Desculpe a minha insistência, mas queria oferecer lhe os meus préstimos.

Que não e muito bem visto em Sampetersburgo.

— A ninguém me seria menos desagradável encontrar neste momento do que a si. — replicou Vronski — Perdoe me. Mas deve compreender que a vida me pesa.

— Compreendo-o. No entanto, uma carta para Ristich ou para Milano, talvez lhe pudessem ser úteis — prosseguiu Sérgio Ivanovitch, impressionado com a expressão de fundo sofrimento que se pintava no rosto de Vronski.

— Oh! Não! — replicou este, num esforço para compreender — Acha que podemos caminhar um pouco? Sufoca se na carruagem! Uma carta? Não, muito obrigado. Serão precisas cartas para nos fazermos matar? A não ser uma carta endereçada aos Turcos? — acrescentou, sorrindo com a ponta dos lábios, enquanto conservava nos olhos a mesma expressão de dolorosa tristeza.

— No entanto, uma carta poder lhe ia facilitar relações que não poderá dispensar. Aliás, faça como quiser, mas queria dizer-lhe a satisfação que tive ao saber que tomara esta decisão. Criticam se tanto os voluntários, que a sua atitude só vem reabilitá-los.

— O meu único mérito — tornou Vronski — está em que a vida para mim nada mais significa. Apenas sei que ainda me resta energia suficiente para entrar na liça e matar ou morrer. Compraz me saber que existe alguma coisa porque possa dar a minha vida, e não porque precise dela, mas apenas porque se me tornou odiosa. Assim servirá a alguém — acrescentou, com um movimento de impaciência do maxilar, resultado da dor de dentes que o atormentava e, outrossim, lhe não permitia falar com

a expressão desejada.

— Vai renascer para uma nova vida, consinta que lho prognostique — disse Sérgio Ivanovitch, que se sentia comovido — Salvar irmãos oprimidos é uma causa tão digna de vida como de morte. Que Deus conceda pleno êxito ao seu empreendimento e lhe restitua a paz de consciência de que tanto precisa.

— Enquanto instrumento, ainda posso servir para alguma coisa, mas como homem, não passo de uma ruína — disse Vronski, pausada mente, apertando a mão que lhe estendia Kosnichev.

A terrível dor de dentes enchia lhe a boca de saliva e impedia o de falar Vronski calou se, de olhos maquinalmente fitos nas rodas de um tender que se aproximava, deslizando suavemente pelos carris. E, de súbito, um mal estar geral fê-lo esquecer a dor de dentes que sentia. O tênder e a via férrea, bem como a conversa com aquele seu conhecido a quem não tornará a ver depois da desgraça, fizeram no recordar a ela, isto é, o que restava dela quando ele entrou, correndo como louco, no posto de polícia da estação. Em cima da mesa, impudicamente estendido, entre pessoas desconhecidas, via se o corpo ensanguentado, ainda cheio de vida. A cabeça intacta estava atirada para trás, com as suas grossas franças e os seus caracóis nas fontes. Naquele rosto encantador — a boca rubra entreaberta — havia uma expressão estranha e dolorosa nos lábios e horrível nos olhos imóveis e abertos, como se pronunciasse ainda as terríveis palavras que lhe dissera quando da última discussão: «Que ele se arrependeria.»

Vronski procurou lembrar-se dela tal como era quando a encontrara pela primeira vez na estação, misteriosa, encantadora, afectuosa, procurando e distribuindo felicidade, e não cruel e vingativa, como durante a última época da sua vida. Tentou evocar os melhores momentos que passara com ela, mas sentiu que sempre estavam envenenados. Só a podia recordar triunfante, cumprindo a ameaça de o fazer sentir aquele arrependimento inevitável, que já não era preciso a ninguém. A dor de dentes desapareceu e os soluços contraíram-lhe o rosto. Deu alguns passos ao longo da pilha de fardos, e assim que se dominou dirigiu-se tranqüilamente a Sérgio Ivanovitch: — Não leu o último comunicado? Dizem ter voltado a derrotar os Turcos, mas que a batalha decisiva será amanhã.

E depois de discutirem a proclamação de Milano como rei e das enormes conseqüências que daí podiam resultar, separaram-se, logo que ressoou o segundo toque de sineta, dirigindo-se cada um para a sua carruagem.

CAPÍTULO VI

Como não sabia quando podia sair de Moscovo, Sérgio Ivanovitch não telegrafara ao irmão a pedir-lhe que lhe mandasse um carro à chegada do comboio. Levine não estava em casa, quando, por volta do meio-dia, apareceram Kosnichev e Katavassov, completamente cobertos de pó, num trem alugado na estação.

Kitty, sentada na varanda com a irmã e o pai, logo que reconheceu o cunhado, veio recebê-lo.

— Não tens vergonha de não nos teres avisado da tua chegada? — disse-lhe, estendendo-lhe a mão e apresentando-lhe a testa para que ele a beijasse.

— Chegamos muitíssimo bem e não os incomodamos — replicou Sérgio Ivanovitch. — Estou de tal modo coberto de pó que até tenho receio de te tocar. Também não sabia quando poderia sair de Moscovo, tão ocupado andava. E vocês, como sempre — acrescentou, risonho — desfrutando de uma felicidade tranqüila, fora de todos os embates, neste remanso de paz. O nosso amigo Katavassov acabou por se decidir a vir comigo.

— Mas não me tome por um negro. Quando me lavar, prometo-lhe parecer pessoa humana — disse Katavassov, no seu tom de ironia habitual, enquanto estendia a mão a Kitty e sorria, deixando a descoberto os dentes, particularmente brilhantes, no rosto enegrecido.

— O Kóstia vai ficar muito contente. Foi à granja. Já devia estar de volta.

— Anda sempre ocupado com a administração das terras neste recanto apetecível — disse Katavassov. — Em compensação, na cidade não pensamos noutra coisa se não na guerra dos Sérvios! Estou curioso por saber qual a opinião deste meu amigo a tal respeito: tenho a certeza de que não é da opinião geral.

— Acho que sim — replicou Kitty, confusa, procurando ler no rosto do cunhado. —Vou mandá-lo procurar... Está aqui o meu pai, que passa uma temporada connosco, no regresso do estrangeiro.

E Kitty, aproveitando a liberdade de movimentos de que por tanto tempo estivera privada, tratou de conduzir os seus hóspedes, um ao escritório, o outro ao antigo quarto de Dolly, para que se preparassem, mandando arranjar almoço para ambos enquanto enviava recado ao marido e se dirigia à varanda onde estava o pai.

— É o Sérgio Ivanovitch que nos traz o professor Katavassov.

— Oh! Que maçada! E com este calor! — comentou o príncipe.

— Não, paizinho, é muito simpático, e Kóstia gosta muito dele — disse Kitty, sorrindo, como se implorasse qualquer coisa ao ver a expressão irônica do rosto do pai.

— Mas está bem, está bem, eu não disse nada.

— Vai ter com eles, querida, e faz-lhes companhia — pediu Kitty à irmã. — Estiveram com o Stiva. Eu vou ver o Mitia. Fiz de propósito. Desde manhã que lhe não dou o peito, deve estar impaciente. — Sentindo que lhe afluía o leite aos seios, Kitty dirigiu-se, em passo rápido, ao quarto do filho.

Não é que o adivinhasse (ainda permanecia em união com ele), mas sabia, graças à afluência do leite, que a criança estava com fome. Antes de chegar ao quarto do filho, já Kitty sabia que Mitia chorava. Com efeito estava a chorar. Ouvindo-lhe a voz, estugou o passo. Todavia quanto mais se apressava, mais a criança chorava. Tinha uma voz sã e agradável, mas impaciente e faminta.

— Já está a chorar há muito? Já há muito? — perguntou Kitty rapidamente à criada enquanto se sentava e se preparava para amamentar o filho, desabotoando o vestido. — Deixe-o ver. Que lenta que é! Deixe-o ver e depois lhe atará a touca.

A criança sufocava de tanto chorar.

— Não se pode, mãezinha, é preciso vesti-lo convenientemente — disse Agáfia Mikailovna, quase sempre no quarto do pequeno. — Trá-la-rá, trá-la-rá! — cantarolava ela, sem prestar atenção ao nervosismo da mãe.

Por fim, a aia entregou o pequenino a Kitty. Agáfia Mikailovna seguiu-o com os olhos, enternecida.

— Conhece-me! Conhece-me! Pode crer, Catarina Alexandrovna, que ele me conhece! — gritava, elevando a voz ainda mais do que a criança. Mas Kitty não a ouvia. A sua impaciência corria paralela com a do filho. Por causa disso, tudo levou tempo a ficar em ordem. O bebê não se agarrava bem ao peito e irritava-se.

Finalmente, depois de um grito desesperado, pois mamara em falso e engasgara-se, encontrou o seio, e tanto a mãe como o filho se sentiram calmos ao mesmo tempo e ambos ficaram calados.

— Coitadinho, como está suado! — disse Kitty, num sussurro, tocando na criança. — Por que diz que ele a conhece? — perguntou, olhando de viés para os olhos do pequeno, cheios de malícia, segundo lhe

Mitia, diminutivo de Dimitri.

pareceu, fitando-a por debaixo da touca, enquanto observava as bochechinhas dele, que inchavam a compasso, e a sua mãozinha rósea, que fazia círculos no ar. — Não é possível. Se conhecesse alguém, era a mim que devia conhecer — acrescentou, respondendo à afirmação de Agáfia Mikailovna, e sorriu.

Sorria, pois, apesar do que dissera, no fundo do seu coração estava certa de que a criança não só conhecia Agáfia Mikailovna, mas que sabia tudo e compreendia muitas coisas de todos ignoradas e que ela, a sua própria mãe, apenas viera a saber graças a ele. Para Agáfia Mikailovna, para a aia, para o avô, e, principalmente, para o pai, Mitia era simplesmente um ser vivo que apenas exigia cuidados materiais, mas para a mãe era já um ente de razão, a que se unia toda uma história de relações espirituais.

— Quando ele acordar, se Deus quiser, vai ver. Basta que eu lhe faça assim, põe-se logo radiante. Ficará radiante como a luz do dia — disse Agáfia Mikailovna, — Pois sim, pois sim, então havemos de ver isso — murmurou Kitty. — Agora vá-se embora, que ele está a dormir.

CAPÍTULO VII

Enquanto Agáfia Mikailovna se afastava em bicos dos pés, a aia corria as cortinas; depois, com um ramo seco de bétulas, enxotou um moscardo que zumbia contra os vidros da janela e as moscas pousadas no véu de musselina que servia de dossel ao berço, sentando-se em seguida ao lado de Kitty, de quem continuou a enxotar as moscas com o ramo seco.

— Que calor! Que calor! Se ao menos Deus nos mandasse uma chuvinha! — disse ela.

— Sim; psiu, psiu!... —murmurou Kitty, embalando suavemente o corpo e apertando contra o peito o bracinho rechonchudo que Mitia, de olhos semicerrados, agitava ainda muito ao de leve e que ela teria beijado de bom grado se não fosse o receio de acordar o pequenino. Por fim o braço quedou imóvel e a criança, sempre a mamar, cada vez mais raramente soerguia as longas pestanas recurvas para pousar na mãe os olhinhos húmidos, que na obscuridade pareciam pretos. A aia dormitava. Por cima da sua cabeça, Kitty ouviu ressoar a voz do velho príncipe e o riso vibrante de Katavassov.

«Ainda bem», pensou ela, «animaram-se mesmo sem a minha presença. Que pena não estar aqui o Kóstia. Naturalmente voltou a deixar-se ficar junto das abelhas. Não gosto nada que ele ande sempre metido nos .cortiços, embora tenha de reconhecer que é uma distracção para ele. Vejo-o muito mais alegre do que na Primavera. Andava tão triste e atormentado, que cheguei a apoquentar-me com isso. Que gracioso corpo!», murmurou e sorriu.

Kitty sabia muito bem o que é que atormentava Levine: a incredulidade. Se lhe perguntassem se acreditava que Levine não teria salvação no outro mundo, seria obrigada a responder que sim, e no entanto a incredulidade do marido não a fazia sofrer. Embora reconhecesse que o incréu não tinha salvação e amasse o marido mais do que qualquer outra pessoa neste mundo, sorria sempre que pensava na sua falta de fé e para si mesma achava-lhe graça.

«Para que passará ele o ano inteiro a ler livros filosóficos?», perguntava a si mesma Kitty. «Se esses livros lhe explicam a fé, porque não há-de ele ter fé? E se não dizem a verdade, para que há-de lê-los? Ele próprio costuma dizer que gostaria de ter fé. Então por que a não tem? Provavelmente porque pensa muito. E pensa muito por causa da solidão em que vive. Está sempre só, sempre. Não pode falar de tudo isto connosco. Por isso os hóspedes serão agradáveis para ele, sobretudo Katavassov. Gosta de discutir com ele», murmurou de si para consigo, e acto contínuo pôs-se a pensar onde lhe seria mais cômodo fazer a cama para Katavassov: no quarto de Sérgio Ivanovitch ou noutro qualquer. E de súbito veio-lhe uma ideia que a fez estremecer de inquietação e até incomodou Mitia, que a olhou de semblante carregado. Lembrou-se que a lavadeira ainda não trouxera a roupa lavada e que toda a roupa dos hóspedes andava em serviço. «Se eu não der providências, Agáfia Mikailovna é capaz de pôr na cama de Sérgio Ivanovitch roupa já usada.» Ao pensar nisto, o sangue subiu-lhe todo ao rosto.

«Preciso de verificar isso», disse de si para consigo, e, voltando aos seus pensamentos anteriores, lembrou-se de que não chegara a discorrer até ao fim sobre qualquer coisa que dizia respeito à alma, qualquer coisa de muito importante, e procurou lembrar-se. «Ah, já sei! Que Kóstia não tem fé!», exclamou para consigo mesma, sorrindo.

«Pois bem, é preferível que viva sempre sem fé a que seja como Madame Stahl, ou como eu desejei ser nesse tempo no estrangeiro. Não, ele não é capaz de fingir!» E um recente acto de bondade do marido lhe ocorreu, de súbito. Quinze dias antes, Stepane Arkadievitch escrevera uma carta à mulher em que lhe pedia perdão e suplicava que lhe salvasse a honra vendendo a

quinta para pagar as dívidas que contraíra. Depois de amaldiçoar o marido e de pensar no divórcio, Dolly acabou por ter pena dele, disposta a consentir no que ele lhe pedia. Foi então que Levine veio ter com ela, Kitty, e lhe propôs, muito embaraçado e com muitos circunlóquios — e lembrando-se disso aos lábios de Kitty aflorava um sorriso de enternecimento — lhe propôs a maneira, solução em que ela não pensara, de socorrer Dolly sem a magoar: ceder-lhe a parte que lhes pertencia nessa propriedade.

«Como é possível ser incrédulo com um coração assim, com esse receio que tem de ofender uma criança? Está sempre a pensar nos outros.

Sérgio Ivanovitch entende que Kóstia tem obrigação de ser o administrador das suas coisas. E a irmã pensa da mesma maneira. E Dolly e os filhos já não têm outro apoio. E todos esses camponeses que diariamente vêm ter com ele, como se Kóstia tivesse obrigação de lhes sacrificar os seus ócios...» «Oxalá sejas como o teu pai, só como ele», murmurou, entregando Mitia à aia e aflorando-lhe a carinha com os lábios.

CAPÍTULO VIII

Desde que vira morrer o seu querido irmão, Levine dera-se a examinar pela primeira vez os problemas da vida e da morte através de ideias a que ele chamava novas. Estas tinham substituído, entre os vinte e os trinta e quatro anos, as suas convicções da infância e da adolescência.

Levine sentira horror, menos da morte do que da vida, por não podei compreender de onde vinha, que era, para que existia ou que representava. O organismo, a sua destruição, a indestrutibilidade da matéria, a lei da conservação da energia e a evolução, eis os termos que tinham substituído a sua antiga fé. Esses termos e os conceitos que lhe andavam ligados serviam para fins de ordem intelectual, mas não explicavam a vida. Levine encontrou-se, de súbito, na situação de um homem que houvesse trocado uma pelica que muito bem o agasalhasse por um traje de musselina e que pela primeira vez se sentisse gelar, não graças a raciocínios, mas com todo o seu ser, convencendo-se de que estar assim vestido era o mesmo que estar nu, e que seria inevitável morrer no meio de grandes tormentos.

Desde então, quase sem tomar consciência disso e sem que nada mudasse na sua vida exterior, não mais deixou de experimentar o horror que lhe causava essa ignorância. Demais, tinha o sentimento confuso de

que as suas pretensas convicções, em vez de dissiparem as trevas em que vivia, ainda as tornavam mais espessas. O casamento, com as alegrias e os deveres que traz consigo, abalaram-lhe por algum tempo os pensamentos; mas assim que, após o parto da mulher, se viu em Moscovo a viver na ociosidade, logo estes lhe voltaram com redobrada persistência.

«Se não aceito as explicações que me dá o cristianismo acerca do problema da minha existência», dizia de si para consigo, «onde encontrarei outras?» Por mais que perscrutasse as suas convicções científicas, não descobria nelas resposta a esta pergunta. Era como se fosse a uma loja de brinquedos ou a um armeiro comprar víveres.

Involuntariamente, inconscientemente, nas leituras, nas conversas e até junto das pessoas que o rodeavam, procurava uma relação qualquer com o problema que o preocupava. Um ponto o preocupava acima de tudo: porque é que os homens da sua idade e do seu meio, os quais exactamente como ele, pela sua maior parte, haviam substituído a fé pela ciência, não sofriam por isso mesmo moralmente? Não seriam sinceros? Ou compreenderiam melhor do que ele as respostas que a ciência proporciona a essas questões perturbantes? E punha-se então a estudar, quer os homens, quer os livros, que lhe poderiam proporcionar as soluções tão desejadas.

Entretanto descobrira que erradamente admitira com os seus camaradas da Universidade ter a religião passado de moda: afinal, as pessoas de quem mais gostava, o velho príncipe, Lvov, Sérgio Ivanovitch, Kitty, conservavam a fé da sua infância, essa fé em que ele outrora comungava. As mulheres, de maneira geral, eram crentes e também noventa e nove por cento da gente do povo, que ele acima de tudo estimava. Depois de muito ler, chegou à convicção de que as pessoas cujas opiniões partilhava não atribuíam a essas opiniões nenhum significado particular: em vez de explicarem as questões que ele considerava primordiais, afastavam-nas de si para se consagrarem à resolução de outras que a ele o deixavam completamente indiferente, como, por exemplo, a evolução das espécies, a explicação mecânica da alma, etc.

Depois, durante o parto da mulher, um facto estranho ocorrera: ele, incrédulo, rezara e rezara com uma fé sincera. Mas não havia maneira de poder conciliar esse estado de alma com as suas habituais disposições de espírito. Ter-lhe-ia aparecido então a verdade? Não o podia acreditar, pois o certo é que, desde que o analisava friamente, esse ímpeto para Deus desfazia-se em pó. Ter-se-ia enganado então? Se o admitisse, seria como que profanar uma recordação bem cara... Essa luta interior pesava- lhe dolorosamente e com todas as foraças do seu ser procurava acabar com ela.

CAPÍTULO IX

Atormentado constantemente por estes pensamentos, lia e meditava, mas o objectivo perseguido cada vez se afastava mais dele.

Convencido de que os materialistas nenhuma resposta lhe dariam, relera, nos últimos tempos da sua estada em Moscovo, e depois do seu regresso à aldeia, Platão e Espinosa, Kant e Schelling, Hegel e Schopenhauer. Estes filósofos satisfaziam-no enquanto se contentavam em refutar as doutrinas materialistas e ele próprio encontrava então argumentos novos contra elas; mas, assim que abordava — quer através das leituras das suas obras, quer através dos raciocínios que estas lhe inspiravam — a solução do famoso problema, sucedia-lhe sempre a mesma coisa. Termos imprecisos, tais como «espírito», «vontade», «liberdade», «substância» ofereciam num certo significado à sua inteligência enquanto se deixava envolver na subtil armadilha verbal que lhe armavam; logo que regressava, porém, depois de uma incursão na vida real, a este edifício que supusera sólido, ei-lo que o via desmoronar-se como um castelo de cartas, vendo-se obrigado a reconhecer que o edificara graças a uma perpétua transposição dos mesmos vocábulos, sem recorrer a essa «qualquer coisa» que, na prática da vida, importa mais do que a razão.

Schopenhauer proporcionou-lhe dois ou três dias de serenidade, mercê da substituição a que procedeu em si próprio da palavra «amon» por aquilo a que o filósofo chamava «vontade». Quando o examinou, porém, do ponto de vista prático, esse novo sistema estiolou-se como todos os outros, mero trajo de musselina que era no fundo.

Como Sérgio Ivanovitch lhe tivesse recomendado os escritos teológicos de Komiakov, foi ler o segundo volume das suas obras. Embora desanimado logo de princípio pelo estilo polêmico e afectado do autor, nem por isso deixou de se sentir menos impressionado com a sua teoria da Igreja. A crer em Komiakov, o conhecimento das verdades divinas, recusado a um homem só, é concedido a um conjunto de pessoas que comungam no mesmo amor, isto é, a Igreja. Esta teoria reanimou Levine; uma vez que aceitasse a Igreja, instituição viva de carácter universal, com Deus à frente, e santa infalível por conseguinte, era-lhe mais fácil aceitar os seus ensinamentos sobre Deus, a criação, a queda, a redenção, que principiar do princípio, pelo próprio Deus, esse ser longínquo e misterioso. Infelizmente, tendo lido em seguida duas histórias eclesiásticas, uma de um escritor católico, outra de um escritor ortodoxo, chegou à conclusão de que as duas Igrejas, ambas infalíveis na sua essência, se repudiavam mutuamente. E a doutrina teológica de

Komiakov não resistiu mais ao seu exame que os sistemas filosóficos.

Durante toda aquela Primavera, Levine parecia outra pessoa. Viveu momentos terríveis.

«Não posso viver sem saber o que sou e com que fim fui lançado a este mundo», dizia ele de si para consigo. «E visto que não poderei chegar a sabê-lo, torna-se-me impossível viver. No tempo infinito, na infinitude da matéria, no espaço infinito forma-se um organismo como uma borbulha, mantém-se por algum tempo, depois rebenta. Essa borbulha sou eu!»

Este sofisma doloroso era o único, era o supremo resultado do raciocínio humano levado a cabo durante séculos; era a crença final na base de quase todos os ramos da actividade científica; era a convicção reinante. E porque lhe parecia a mais clara, Levine, involuntariamente, deixara-se penetrar por ela. Mas esta conclusão parecia-lhe mais que sofística; via nela como a obra cruelmente irrisória de uma força inimiga a que era preciso subtrair-se. A maneira de se emancipar disso estava ao alcance de cada um... E a tentação do suicídio perseguiu tão freqüentemente aquele homem sadio, aquele feliz pai de família, que tratou de afastar de si todas as cordas e nem sequer se atrevia a sair com a espingarda.

Contudo, em vez de se enforcar ou de queimar os miolos, continuaria muito simplesmente a viver.

CAPÍTULO X

Eis como Levine perdia a esperança de resolver, no domínio da especulação, o problema da sua existência; em compensação, nunca agira na vida prática com tanta decisão e firmeza.

De regresso à aldeia nos primeiros dias de Junho, a sua lavoura, a administração dos bens do irmão e da irmã, os seus deveres familiares, as relações com os seus vizinhos e os seus mujiques, e a colméia nova, que principiara a organizar naquela Primavera, não lhe deram tréguas. O caminho tomado pelos seus pensamentos, a multiplicidade das suas ocupações e a falta de êxito das suas precedentes experiências não lhe consentiam que justificasse a sua actividade com o interesse no bem comum; muito simplesmente cumpria o seu dever.

Outrora — quase desde a infância — a ideia de concorrer com qualquer coisa de útil para a gente da sua aldeia, para a Rússia, para a

humanidade, dava-lhe uma grande alegria; no entanto, a acção em si mesma nunca o satisfazia e não tardava que tivesse dúvidas quanto ao valor dos seus empreendimentos. Agora, pelo contrário, se punha mão a uma obra, sem qualquer espécie de alegria prévia, adquiria, pouco depois, a convicção de que essa obra era necessária e que dava resultados cada vez mais satisfatórios. Inconscientemente, enterrava-se cada vez mais fundo na terra, como a charrua que só pode levantar-se quando chega ao fim da sua tarefa. Em vez de discutir certas condições da existência, aceitava-as, considerando-as tão indispensáveis como a nutrição diária. Levar a mesma vida que os seus antepassados, dar a seus filhos uma educação igual à sua, transmitir-lhes um patrimônio intacto e merecer deles o mesmo reconhecimento que ele próprio testemunhava à memória dos seus avós, eis para ele dever tão indiscutível como o de pagar aos seus credores. Era, pois, necessário que as terras prosperassem e para isso, em vez de enfraquecer, tratou de valorizá-las ele próprio, adubando os campos, criando gado, plantando árvores. Julgava-se obrigado a prestar ajuda e protecção — como a menores que lhe houvessem sido confiados — ao irmão, à irmã e aos numerosos camponeses que tinham por costume consultá-lo. A mulher e o filho, Dolly e os seus também tinham direito aos seus cuidados e ao tempo que despendia com eles. E tudo isto enchia largamente essa existência, cujo sentido não compreendia sempre que pensava nela.

E não só o seu dever lhe aparecia perfeitamente definido como não tinha a menor dúvida quanto à maneira de o cumprir em cada caso particular. Assim, não hesitava em contratar mão-de-obra o mais barata possível, sem no entanto escravizar os seus trabalhadores com adiantamentos feitos abaixo do preço normal. Se os seus mujiques precisavam de forragem, parecia-lhe lícito vender-lhes palha, por maior que fosse a pena que eles lhe inspirassem. Em compensação, os lucros das tabernas achava-os imorais, e em sua opinião esses estabelecimentos deviam set suprimidos. Castigava com rigor os roubos de lenha, mas recusava-se — apesar dos protestos dos guardas contra essa falta de firmeza — confiscar o gado do mujique, quando apanhado em flagrante delito a pastar nas suas terras. Era capaz de emprestar dinheiro a um pobre diabo para o salvar das garras de um usurário, mas não concedia nem adiantamentos nem pagamentos por conta sobre os adiantamentos feitos. Não teria perdoado ao seu administrador, caso ele se descuidasse e não mandasse ceifar todos os seus prados; porém, não tocava em oitenta hectares da terra em que aquele fizera plantações. Não consentia que se deixasse de descontar na jorna do camponês, que no tempo da faina do campo ia a casa por causa do falecimento do pai — fosse qual fosse a compaixão que ele lhe inspirasse —, mas, por outro lado, não deixava de pagar a mensalidade aos velhos, que já não serviam para nada.

Levine sabia que, ao regressar a casa, a primeira coisa a fazer era visitar a mulher, que estava doente, ainda que os camponeses tivessem de o esperar durante três horas, e também que, conquanto lhe produzisse grande prazer ocupar-se das abelhas, devia deixar essa ocupação a um velho, tratando de acudir aos mujiques que precisavam dele.

Ignorava se procedia bem ou mal: mas não só não desejava agora averiguá-lo, como evitava as conversas e os pensamentos sobre o assunto.

As reflexões conduziam-no à dúvida e impediam-no de ver o que se devia ou não fazer. Quando se contentava em viver sem pensar, sentindo constantemente na alma a presença do juiz infalível que decidia qual das duas maneiras de proceder era melhor, e se não procedesse dessa maneira, dava logo por isso.

Eis, pois, como vivia, sem saber e sem prever a possibilidade de se inteirar quem era e para que estava neste mundo, coisa que tanto o atormentava, que chegara a pensar no suicídio; mas, ao mesmo tempo, não deixava de traçar com firmeza a trajectória da sua vida.

CAPÍTULO XI

O dia em que Sérgio Ivanovitch chegara a Pokrovskoie fora um dos dias mais penosos para Levine.

Era a temporada mais activa das lides do campo, quando acorda nos camponeses um extraordinário espírito de sacrifício, desconhecido em outros aspectos da vida e que muito seria apreciado se os próprios que o realizam o soubessem estimar, se não se repetisse todos os anos e se os seus resultados não fossem tão simples.

Ceifar e recolher o centeio e a aveia, pôr o terreno em alqueire, proceder à debulha e às sementeiras de Outono, tudo isso parece simples e corrente.

Mas para o conseguir é preciso que todos os camponeses, do mais novo ao mais velho, trabalhem, durante três ou quatro semanas, sem parar, três vezes mais do que habitualmente, comer kvas, cebolas e pão negro, aproveitando as noites para o transporte das gabelas e dormindo duas ou três horas, se tanto. E é assim todos os anos na Rússia.

Como passava a maior parte da sua vida na aldeia e como vivia intimamente com o povo, Levine sentia sempre que, durante a quadra das tarefas agrícolas, a animação geral se lhe comunicava a ele também. Pela manhã fora assistir à primeira semeadura do centeio e à recolha da

aveia nas respectivas gabelas. Voltara a casa, à hora em que se estavam a levantar a mulher e a cunhada. Depois de tomar o pequeno almoço com elas, dirigiu-se a pé à granja onde iam pôr a funcionar a debulhadora para preparar as sementes.

Durante todo aquele dia, enquanto falava com o encarregado e com os camponeses, com a mulher, com Dolly, com os filhos desta, ou com o sogro, Levine não fazia outra coisa se não pensar no problema que o preocupava à margem das tarefas agrícolas, procurando em tudo uma relação com as suas perguntas: «Que sou eu? Onde estou? Para que estou eu aqui?»

Manteve-se algum tempo na granja, que acabava de ser telhada de novo. A cobertura de aveleira, fixada às vigas de álamo, exalava um agradável aroma. Naquela casa fresca, onde turbilhonava uma poeira acre, os operários cirandavam em volta da debulhadora, enquanto as andorinhas, chilreando, deslizavam pelo rebaixo do telhado e vinham, agitando as asas, pousar no dintel do portão todo aberto. Através deste divisavam-se a erva da eira, que brilhava ao sol, e montes de palha fresca, que acabava de sair do celeiro. Levine contemplava todo este espectáculo entregue a pensamentos lúgubres.

«Para quê tudo isto? Para que estou eu aqui a vigiá-los, e eles, por que se mostram eles tão zelosos diante de mim? Que tem ela de se despachar, a minha velha amiga Matriona», pensava, seguindo com os olhos uma grande mulher descarnada que, para melhor apanhar o grão, apoiava pesadamente no solo áspero os pés descalços e tostados pelo sol.

«Curei-a uma vez, que ficou toda queimada quando de um incêndio, em que lhe caiu uma trave em cima. Sim, fui eu quem a curou, mas apesar disso amanhã, ou daqui a dez anos, há que carregar com ela para debaixo da terra. E outro tanto há-de acontecer àquela janota de vestido encarnado que joeira a palha e o folhelho com tanto cuidado, bem como àquele pobre cavalo cor de pega, de grande barriga e respiração cansada, que lá vai arrastando a roda, penosamente. E também levarão a enterrar o Fiodor, com a sua barba encaracolada, cheia de palha e a sua camisa rota no ombro. E no entanto lá vai desfazendo as gabelas, dando ordens, gritando às mulheres e colocando a correia no volante. E o mais importante é que não só eles irão a enterrar; eu também, e nada ficará.

Para quê, pois, tudo isto?»

Enquanto assim pensava, nem por isso Levine deixava de consultar o relógio, calculando quanto debulhariam por hora. Precisava de o sabei para destinar a tarefa do dia.

«Está quase a fazer uma hora que se puseram a debulhar e ainda não passaram do primeiro monte.» Aproximou-se de Fiodor e ordenou-

lhe, elevando a voz, para dominar o ruído da máquina, que deitasse menos trigo.

— Deitas de mais, Fiodor. Vês? A máquina engasga-se e trabalha mais devagar. Quantidades iguais, Fiodor, negro com o pó que se lhe colava à cara coberta de suor, respondeu qualquer coisa, mas não fez o que Levine lhe ordenara.

Levine aproximou-se da máquina, afastou Fiodor e tomou o seu lugar.

Depois de trabalhar até à hora da merenda dos camponeses, Levine saiu do celeiro com Fiodor e entabulou conversa com ele. Detiveram-se junto a um monte de centeio amarelento preparado na eira para debulhar.

Fiodor era natural da aldeia, onde tempos atrás Levine cedera as terras de acordo com o princípio cooperativo. Agora arrendara-as a um tal Kirilov. Levine desejava arrendá-las no ano seguinte a outro camponês, bom homem e rico, que se chamava Platão. E interrogou Fiodor a esse respeito.

— É muito rico, Constantino Dimitrievitch. O Platão não pode pagar essa importância — replicou o mujique, retirando as espigas que se lhe haviam metido na camisa suada.

— Mas como pode Kirilov pagar?

— Kirilov? — repetiu Fiodor com desprezo. — Esse não está com meias medidas. Não tem pena do camponês, enquanto o tio Platão a uns dará as terras fiado e a outros perdoar-lhes-á as dívidas. Nem assim mesmo arranjará dinheiro para pagar ao patrão. É um bom homem.

— E porque há-de ele perdoar as dívidas?

— Os homens são todos diferentes uns dos outros, Constantino Dimitrievitch. Uns só vivem para as necessidades, como, por exemplo, o Kirilov, que só pensa na barriga. O tio Platão é um homem justo. Vive para a sua alma. Não se esquece de Deus.

— Que faz ele para se não esquecer de Deus? Como é que ele vive para a sua alma? — exclamou Levine quase num grito.

— É claro, vive como Deus manda, é justo. As pessoas não são todas iguais. Por exemplo, o patrão não é capaz de fazer mal a ninguém...

— Bom, bom, adeus — disse Levine, anelante de emoção. Voltou-se, pegou na bengala e saiu em passos largos, direito a casa.

Ao ouvir dizer que Platão vivia para a sua alma, segundo a verdade, como Deus manda, pensamentos vagos, mas significativos, acudiram-lhe à mente, em tropel, como se proviessem de algum ponto

onde tivessem estado encerrados, e, tendendo todos para um mesmo fim, deram-lhe volta a cabeça, cegaram-no com a sua luz.

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