Todas as famílias felizes se parecem, as infelizes não.
Havia grande confusão em casa dos Oblonski. A esposa acabava de saber das relações do marido com a preceptora francesa, e comunicara-lhe que não podiam continuar a viver juntos. Durava já há três dias a situação, para tormento não só do casal mas também dos demais membros da família e da criadagem. Todos em casa se apercebiam de que já não havia razão alguma para manter aquele convívio, e que as pessoas que por acaso se encontrassem numa estalagem teriam talvez mais afinidades entre si. A esposa não saía dos seus aposentos, havia três dias que o marido não parava em casa; as crianças corriam de um lado para o outro, como que perdidas; a preceptora inglesa indispusera se com a governanta e escrevera a uma amiga pedindo que lhe arranjasse outra colocação; na véspera, o cozinheiro abandonara a casa à hora do jantar; o cocheiro e a copeira tinham pedido que lhes fizessem as contas.
No terceiro dia após a altercação, o príncipe Stepane Arkadievitch Oblonski — Stiva, como lhe chamavam os íntimos — acordou à hora do costume, ou seja, às oito da manhã, não no quarto conjugal, mas no escritório, deitado no divã de couro. Revolveu o corpo, gordo e bem tratado, sobre as molas do divã, como se quisesse adormecer de novo, e abraçou se ao travesseiro, apertando o contra a face. De repente, porém, sentou se e abriu os olhos
«Como? Como era?», pensou, lembrando se do sonho que tivera «Como era aquilo? Ah, já sei! Alabine dava um jantar em Darmstadt, não, não era em Darmstadt; era na América. Sim, no sonho Darmstadt ficava na América. Alabine oferecia um jantar servido em mesas de cristal e as mesas cantavam Il Mio Tessoro! Talvez não fosse Il Mio Tesoro, mas qualquer coisa melhor, e havia umas garrafinhas, que afinal eram mulheres.»
Os olhos de Stepane Arkadievitch brilharam alegremente, e, sorrindo, ficou se a cismar. «Sim, era muito bonito, estava muito bem. E havia muito mais coisas magníficas, mas não podia descrevê-las nem por palavras nem por pensamentos, nem mesmo desperto como estava.» AoTodas as famílias felizes se parecem, as infelizes não.
Havia grande confusão em casa dos Oblonski. A esposa acabava de saber das relações do marido com a preceptora francesa, e comunicara-lhe que não podiam continuar a viver juntos. Durava já há três dias a situação, para tormento não só do casal mas também dos demais membros da família e da criadagem. Todos em casa se apercebiam de que já não havia razão alguma para manter aquele convívio, e que as pessoas que por acaso se encontrassem numa estalagem teriam talvez mais afinidades entre si. A esposa não saía dos seus aposentos, havia três dias que o marido não parava em casa; as crianças corriam de um lado para o outro, como que perdidas; a preceptora inglesa indispusera se com a governanta e escrevera a uma amiga pedindo que lhe arranjasse outra colocação; na véspera, o cozinheiro abandonara a casa à hora do jantar; o cocheiro e a copeira tinham pedido que lhes fizessem as contas.
No terceiro dia após a altercação, o príncipe Stepane Arkadievitch Oblonski — Stiva, como lhe chamavam os íntimos — acordou à hora do costume, ou seja, às oito da manhã, não no quarto conjugal, mas no escritório, deitado no divã de couro. Revolveu o corpo, gordo e bem tratado, sobre as molas do divã, como se quisesse adormecer de novo, e abraçou se ao travesseiro, apertando o contra a face. De repente, porém, sentou se e abriu os olhos
«Como? Como era?», pensou, lembrando se do sonho que tivera «Como era aquilo? Ah, já sei! Alabine dava um jantar em Darmstadt, não, não era em Darmstadt; era na América. Sim, no sonho Darmstadt ficava na América. Alabine oferecia um jantar servido em mesas de cristal e as mesas cantavam Il Mio Tessoro! Talvez não fosse Il Mio Tesoro, mas qualquer coisa melhor, e havia umas garrafinhas, que afinal eram mulheres.»
Os olhos de Stepane Arkadievitch brilharam alegremente, e, sorrindo, ficou se a cismar. «Sim, era muito bonito, estava muito bem. E havia muito mais coisas magníficas, mas não podia descrevê-las nem por palavras nem por pensamentos, nem mesmo desperto como estava.» Ao
perceber um raio de luz que penetrava por um dos lados da cortina, retirou alegremente os pés do divã, procurando com eles, no chão, as chinelas de couro dourado que a mulher lhe oferecera no ano anterior (presente de aniversário) e, costume seu de há nove anos, sem se levantar estendeu o braço para o roupão, geralmente dependurado à cabeceira da cama. Então lembrou-se subitamente do motivo por que não dormira no quarto conjugal; o sorriso desapareceu-lhe do rosto, e franziu as sobrancelhas.
— Ai, ai, ai! — queixou-se, ao lembrar-se do que sucedera. De novo se lhe representavam na memória todos os pormenores da altercação com a mulher, a posição insolúvel em que se encontrava e as culpas que tinha, e isto era o que mais o atormentava.
«Não! Não me perdoará, não pode perdoar-me. E o pior é que sou o causador de tudo, embora não seja culpado. Essa a tragédia», pensava.
— Ai, ai, ai! —repetia, desesperado, ao recordar os momentos mais dolorosos da discussão.
O momento mais desagradável fora aquele em que, ao regressar do teatro, alegre e satisfeito, com uma bonita pêra para a mulher, não a encontrou nem no salão nem no escritório, coisa que o surpreendeu, mas no quarto de dormir, na mão o maldito bilhete que tudo lhe revelara.
Dolly, a mulher sempre diligente, cheia de preocupações e tão limitada, segundo pensava Oblonski, sentara-se com o bilhete na mão e olhava-o num misto de cólera, horror e desalento.
— Que é isto? Que é isto? — perguntou-lhe, mostrando o bilhete.
Ao lembrar o ocorrido, o que mais lhe doía, como sempre acontece, não era tanto pelo facto em si, mas o modo como respondera à mulher.
Naquele momento sucedeu-lhe o que sucede a qualquer pessoa obrigada a confessar algo vergonhoso. Não soube encontrar expressão adequada à situação. Em vez de ofender-se, negar, justificar-se, pedir perdão ou mesmo mostrar indiferença — qualquer coisa teria sido melhor —, apareceu-lhe de súbito, na fisionomia, involuntariamente («Reflexos cerebrais» pensou Stepane Arkadievitch, que era dado à fisiologia), o sorriso habitual, bondoso e estúpido. Não podia perdoar-se sorriso tão absurdo. Diante desse sorriso, Dolly estremeceu, como se sentisse uma dor física, e, com o seu arrebatamento peculiar, rompeu numa torrente de palavras duras, acabando por sair, correndo, do quarto em que estava. Desde então não mais quisera ver o marido.
«Aquele estúpido sorriso é que teve a culpa de tudo. Mas que fazer? Que fazer?», perguntava-se Stepane Arkadievitch, sem encontrar resposta.
Oblonski era sincero consigo mesmo: não se sentia arrependido e não tinha remorso disso. Aquele homem bem parecido, de trinta e quatro anos, de temperamento amoroso, não podia, realmente, arrepender-se de não estar enamorado da mulher, um ano apenas mais nova do que ele, e mãe de sete filhos, dos quais cinco vivos e sãos. A única coisa que lamentava era não ter sabido esconder melhor os seus sentimentos. Mas compreendia a gravidade da situação e deplorava o que acontecera, tanto por Dolly e pelos filhos como por ele próprio. Talvez tivesse conseguido ocultar melhor as suas faltas, se pudesse adivinhar que causariam tamanho efeito sobre Dolly. Nunca pensara claramente no problema, embora imaginasse, um tanto vagamente, já há algum tempo, que a mulher desconfiava da sua infidelidade, sem no entanto atribuir grande importância ao facto. Era, inclusive, de opinião que a esposa, esgotada, envelhecida, sem beleza nem atributos, conquanto simples e boa mãe de família, devia ser condescendente por espírito de justiça. Ora, acontecera exactamente o contrário.
«Oh, é terrível, terrível!», exclamou Stepane Arkadievitch, sem descobrir uma solução para o caso. «E que bem vivíamos até aí! Dolly sentia-se feliz e contente com os filhos, eu não a incomodava em coisa alguma, deixava-a inteiramente à vontade com as crianças e a casa. Evidentemente, não estava certo que «ela» fosse a preceptora dos nossos filhos. Não estava certo! É grosseiro e vulgar fazer a corte à preceptora que nos educa os filhos. Mas, que mulher!» E recordou vivamente os astutos olhos pretos e o sorriso de Mademoiselle Roland.
«Enquanto esteve em nossa casa, no entanto, não houve nada, nada. E o pior é que ela já... Parece que tudo aconteceu de propósito! Ai!»
Resposta, só aquela, que a vida costuma dar a todas as questões complexas e insolúveis: viver o dia a dia, isto é, divertir-se. Já não podia fazê-lo através do sonho, pelo menos enquanto a noite não voltasse; já não podia tornar a ouvir a música que as mulheres garrafinhas cantavam.
Só lhe restava distrair-se com o sonho da própria vida.
«Veremos isso mais tarde», disse consigo mesmo Stepane Arkadievitch; e, levantando-se, enfiou o roupão cinzento forrado de seda azul e deu um nó no cinto de bolas. Depois, respirando a plenos pulmões, encheu-os de ar, aproximando-se da janela com o habitual andar resoluto
das suas pernas tortas, que com tanta ligeireza lhe transportavam a vigorosa figura, afastou a cortina e tocou a campainha. A chamada acudiu imediatamente o velho escudeiro Matvei, que lhe trazia a roupa, os sapatos e um telegrama. Atrás dele vinha o barbeiro com os respectivos apetrechos.
— Trouxeram os processos do tribunal? — perguntou Stepane Arkadievitch, pegando no telegrama e sentando-se diante do espelho.
— Estão em cima da mesa — respondeu Matvei, mirando o amo com uma expressão entre interrogativa e solícita, e daí a pouco acrescentou, com um sorriso malicioso: — Vieram umas pessoas da parte do cocheiro.
Stepane Arkadievitch não respondeu, limitando-se a encarar Matvei através do espelho; pelo olhar que trocaram percebia-se que se entendiam.
O olhar de Stepane Arkadievitch parecia perguntar: «Para que me falas nisso? Porventura não sabes?» Matvei enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e avançou um pé, fitando o amo em silêncio, com um imperceptível sorriso bondoso.
— Disse-lhes que voltassem no domingo e até lá não incomodassem o senhor nem se preocupassem sem necessidade — articulou o criado, que, ao que parecia, preparara a frase.
Stepane Arkadievitch percebeu que Matvei quisera brincar e também que lhe prestassem atenção. Rasgando o telegrama, leu-o, corrigindo com sagacidade os diversos erros de palavras, e o seu rosto iluminou-se.
— Matvei, amanhã chega a minha irmã Ana Arkadievna — disse ele, detendo, por momentos, a gorda mão reluzente do barbeiro que lhe abria uma risca rosada nas longas suíças frisadas.
— Graças a Deus — exclamou Matvei, dando a entender, com esta resposta, que compreendia tão bem como o patrão o significado daquela notícia, isto é, que Ana Arkadievna, a irmã querida de Stepane Arkadievitch, podia cooperar na reconciliação do casal. — Vem só ou com o marido? — perguntou.
Stepane Arkadievitch, que não podia falar porque o barbeiro lhe escanhoava o lábio superior, ergueu um dedo. Matvei olhou para o espelho e moveu afirmativamente a cabeça.
— Sozinha. Preparam-se-lhe os aposentos do andar de cima?
— Comunica a Daria Alexandrovna e prepara os aposentos que ela mandar.
— A Daria Alexandrovna? — repetiu Matvei, como que hesitante.
— Sim. E pega no telegrama. Mostra-lho.
«Quer experimentar!», pensou Matvei, compreendendo. E limitou-se a dizer: — Muito bem.
Stepane Arkadievitch, lavado e penteado, começou a vestir-se quando Matvei penetrou de novo no gabinete, em passo vagaroso, as botas rangendo um pouco, e o telegrama na mão. O barbeiro entretanto saíra.
— Daria Alexandrovna manda-lhe dizer que se vai embora. Que o patrão faça o que quiser, isto é, o que quisermos — disse, rindo-se apenas com os olhos. E, enfiando as mãos nos bolsos, inclinou a cabeça para um lado, de olhos fitos no chão.
Stepane Arkadievitch conservou-se calado durante um momento. Depois aflorou-lhe ao belo rosto um sorriso bondoso e um tanto compassivo.
— Então, Matvei? — disse, movendo a cabeça.
— Não se preocupe, meu senhor; tudo se «arrumará» — respondeu o criado.
— Se «arrumará»?
— Sim, senhor.
— Achas? Quem está aí? — perguntou Stepane Arkadievitch, ao ouvir o frufru de um vestido atrás da porta.
— Sou eu — retrucou uma voz feminina, fina e agradável. E o rosto marcado de bexigas de Matriona Filimonovna, a aia, assomou à entrada.
— Que há, Matriona? — inquiriu Oblonski, aproximando-se da porta.
Apesar de Stepane Arkadievitch ser considerado culpado perante a mulher e ter consciência disso, quase todos em casa, inclusive a aia, a melhor amiga da Daria Alexandrovna, estavam do lado dele.
— Que há? — repetiu com uma expressão triste.
— Vá pedir perdão à senhora outra vez. Talvez ela lhe perdoe. Sofre muito; faz dó. Além disso, tudo anda transtornado nesta casa. É preciso ter pena das crianças. Que havemos de fazer? Quem corre por gosto...
— Não me receberá...
— Seja como for, tente. Deus é misericordioso. Reze, meu senhor, peça a Deus.
— Está bem, vai-te embora — exclamou Stepane Arkadievitch, corando repentinamente. — Deixa ver a minha roupa — acrescentou, dirigindo-se a Matvei, enquanto despia o roupão, decidido.
Matvei já tinha na mão a camisa, aberta em forma de coleira, e soprava-lhe ciscos invisíveis. Com manifesto prazer enfiou-a no bem cuidado corpo do patrão.
Já vestido, Stepane Arkadievitch perfumou-se, ajeitou os punhos da camisa e, num gesto habitual, guardou nos bolsos os cigarros, a carteira, os fósforos e o relógio de corrente dupla com berloques. Sacudiu o lenço e, sentindo-se limpo, perfumado, são, fisicamente contente, apesar de tudo, dirigiu-se, balançando-se ligeiramente, ora num pé ora no outro, para a sala de jantar, onde já o aguardavam o café, as cartas e o expediente do tribunal.
Leu a correspondência. Uma das cartas era muito desagradável, escrevia-a o comerciante que se propunha comprar um bosque das propriedades de Dolly. Enquanto não se reconciliassem, impossível falar em tal assunto. Nada mais desagradável do que misturar interesses materiais no grave problema da reconciliação. Repugnava-lhe a ideia de que aquilo o compelisse a procurar um meio de fazer as pazes com a mulher.
Quando terminou a leitura das cartas, Stepane Arkadievitch pegou nos processos, folheou-os rapidamente, garatujou algumas notas com um lápis enorme e, pousando tudo de lado, começou a tomar o café, ao mesmo tempo que abria o jornal da manhã, ainda húmido de tinta.
Stepane Arkadievitch era leitor de um jornal liberal, não extremista, antes da tendência política a que pertencia a maioria. Embora, na realidade, não lhe interessasse nem a ciência, nem a arte, nem a política, defendia firmemente as mesmas opiniões da maioria e do jornal, só mudando de ideias quando todos o faziam, ou melhor, não mudava de ideias; estas é que se transformavam imperceptivelmente, por si mesmas.
Stepane Arkadievitch não escolhia as suas tendências nem os seus pontos de vista; estes é que vinham até ele, tal como acontecia no que respeitava ao feitio do chapéu e ao corte das roupas: usava o que estava na moda. Em virtude de pertencer a determinado círculo social e de necessitar de alguma actividade mental — coisa que geralmente se desenvolve na idade madura — era-lhe tão imprescindível possuir pontos de vista próprios como usar chapéu.
A razão que o levava a preferir a tendência liberal à conservadora, à qual pertenciam também muitas pessoas do seu nível social, não era o facto de aquela tendência lhe parecer a mais sensata, mas apenas por ser a que mais se ajustava à sua maneira de viver. O partido liberal era de opinião de que na Rússia nada ia bem e, com efeito, Stepane Arkadievitch tinha muitas dúvidas e positivamente o dinheiro não lhe chegava para nada. Segundo ainda o mesmo partido, o casamento era uma instituição caduca, cumprindo reformá-lo. Realmente, a vida familiar poucos prazeres proporcionava a Stepane Arkadievitch, obrigando-o a mentir e dissimular, o que contrariava a sua natureza. Por outro lado, o partido sustentava, ou melhor, dava a entender que a religião era um freio para a parte inculta do povo e Oblonski, que não podia assistir a qualquer cerimônia religiosa, por mais breve que fosse, sem se queixar dos pés, não conseguia entender o porquê de todas essas palavras terríveis e enfáticas acerca do outro mundo, quando neste se podia viver tão bem. Ao mesmo tempo, como gostava de gracejar, às vezes desconcertava as pessoas pacíficas com o argumento de que, se alguém se vangloriava da sua raça, não havia razão para se agarrar a Rurik e renegar o macaco, o primeiro ancestral. Eis, pois, como a tendência liberal se transformara num hábito de Stepane Arkadievitch, que apreciava o seu jornal como apreciava o cigarro depois de comer, graças à ligeira neblina que lhe provocava na mente, leu o artigo de fundo, em que se dizia ser completamente inútil, no nosso tempo, vociferar que o radicalismo ameaçava devorar os elementos conservadores e que o Governo tinha obrigação de tomar medidas que esmagassem a hidra revolucionária; mas, pelo contrário, «segundo a nossa opinião», dizia, «o perigo não reside na pretensa hidra revolucionária, mas na firmeza da tradição e no progresso reprimido», etc. Também leu outro artigo sobre economia, em que eram citados Bentham e Stuart Mill e se lançavam críticas ao Ministério. Graças à sua peculiar agilidade mental, compreendeu o significado de todas as alusões: de onde vinham e contra quem, ou qual o motivo que as determinava, o que, como sempre, lhe proporcionava certo prazer. Mas naquele momento esse prazer era estragado pela lembrança dos conselhos de Matriona Filimonovna e pelo que estava acontecendo em sua casa. Depois leu outras notícias: pelo que se dizia, o conde Beist passara por Wiesbaden; já não havia cabelos brancos; estava à venda uma carruagem ligeira e uma pessoa jovem oferecia os seus serviços. Nada disto, porém, lhe proporcionou a satisfação calma e irônica de outrora.
Quando acabou de ler o jornal e bebeu a segunda xícara de café, acompanhada de um bolo de manteiga, Oblonski levantou-se, sacudiu as migalhas que lhe tinham caído no coiete e, estofando o peito, sorriu jovialmente, não porque sentisse qualquer coisa de particularmente agradável, mas apenas porque comera bem. Aquele alegre sorriso, contudo, recordou-lhe imediatamente o que se passara e Stepane Arkadievitch absorveu-se em reflexões.
Atrás da porta ouviram-se duas vozes infantis (Stepane Arkadievitch reconheceu a voz de Gricha, o filho mais novo, e a de Titiana, a filha mais velha). Arrastavam qualquer coisa pelo chão que tinham deixado cair.
— Já te disse que não se podem pôr os passageiros no tecto. Anda, vai tirá-los! — gritava a menina em inglês.
«Que desordem», pensou Stepane Arkadievitch. «As crianças correndo sozinhas pela casa.» Aproximou-se da porta e chamou-as. Abandonando a caixa com que brincavam de carruagem, as crianças penetraram na sala de jantar.
Tatiana, a predilecta de Oblonski, entrou decidida, abraçou-se ao pai e, rindo, dependurou-se-lhe ao pescoço, deliciada, como sempre, com o perfume das suas suíças, tão seu conhecido. Finalmente, deu-lhe um beijo no rosto, afogueado por causa da inclinação, e, radiante de ternura, desprendeu as mãos, disposta a sair, correndo; Stepane Arkadievitch deteve-a, porém: — A mãezinha, como está? — perguntou, acariciando o pescoço macio da filha. —Olá! — acrescentou, sorrindo, para o pequeno que por sua vez lhe dava bom-dia.
Stepane Arkadievitch reconhecia que gostava menos do filho, e embora sempre procurasse mostrar-se justo, o garoto dava por isso, não correspondendo ao frio sorriso do pai.
— A mãezinha? Já se levantou — respondeu a menina. Stepane Arkadievitch suspirou. «Isto quer dizer que passou a noite acordada», pensou.
— Está bem disposta?
A menina sabia que os pais se tinham zangado, que a mãe não podia estar bem disposta e que Stepane Arkadievitch fingia ao fazer-lhe aquela pergunta tão despreocupadamente, pois devia saber a verdade. E corou por ele. Oblonski compreendeu-o imediatamente, enrubescendo por sua vez.
— Não sei. Mandou-nos para casa da avòzinha com Miss Hull, em vez de irmos estudar.
— Bom, então vai, vai, minha Tantchurotchka. Ah, espera um instante! — acrescentou Stepane Arkadievitch, retendo a filha e acariciando-lhe a mãozinha delicada.
Procurando em cima da prateleira do fogão uma caixinha de bombons, que ali deixara na véspera, deu dois à menina, escolhendo os de que ela mais gostava: um de chocolate e outro de creme.
— É para o Gricha? — perguntou ela, mostrando o de chocolate.
— Sim, sim — assentiu Stepane Arkadievitch. De novo acariciou um dos ombros da filha e, beijando-a no pescoço e na raiz dos cabelos, deixou-a partir.
— Já está aí a carruagem — disse Matvei, acrescentando: — Há uma visita para o patrão.
— Está aí há muito tempo?
— Há uma meia hora.
— Quantas vezes te disse que me deves anunciar imediatamente as visitas? — Ao menos, precisa de tomar sossegadamente o seu café — replicou Matvei naquele tom entre amistoso e brusco, com o qual ninguém conseguia zangar-se.
A visita, a esposa do segundo-tenente Kalinine, vinha solicitar algo impossível e absurdo, mas Stepane Arkadievitch, como era seu costume, pediu-lhe que se sentasse, ouviu-a atentamente, sem a interromper, e, pormenorizadamente, explicou-lhe a quem se devia dirigir. Inclusive, escreveu um bilhete, rápido e desembaraçado, na sua bela letra nítida, grande e espaçada, a uma pessoa que a podia auxiliar. Quando se despediu da esposa do tenente, Oblonski pegou no chapéu e deteve-se, procurando verificar se esquecia alguma coisa. Esquecia, apenas, o que queria esquecer: a mulher.
«Ah, sim!», baixou a cabeça, e uma expressão triste lhe inundou a simpática fisionomia. «Vou ou não vou?», perguntou a si mesmo. Uma voz, no íntimo, dizia-lhe que não, que esse passo era falso, que e reconciliação era impossível: como tornar-se ela de novo atraente, capaz de despertar amor e converter-se ele num velho, incapaz de amar? Só falsidade e mentira resultaria dali, e a falsidade e a mentira repugnavam à sua natureza.
«No entanto, alguma vez terá de ser a primeira; isto não pode continuar assim», disse com os seus botões, procurando reanimar-se. Aprumou-se, tirou um cigarro, acendeu-o e, depois de soltar algumas baforadas, atirou-o para o cinzeiro de nácar. Em seguida, atravessando o salão a passos largos, abriu a porta do quarto de dormir.
Daria Alexandrovna, de roupão e as tranças, outrora abundantes e sedosas, apanhadas na nuca, o rosto magro e abatido, que fazia ressaltar ainda mais os seus enormes olhos assustados, cercada de uma série de objectos, espalhados pelo quarto, encontrava-se diante de uma cômoda de cujas gavetas abertas ia retirando qualquer coisa. Ao ouvir os passos do marido, deteve-se e olhou para a porta, num grande esforço para demonstrar um ar de desprezo e severidade. Era evidente que receava tanto o marido como aquela entrevista. Naquele momento dispunha-se a fazer o que já tentara dez vezes em três dias: juntar as suas coisas e as das crianças e levar tudo para casa da mãe, sem nada dizer ao marido. Desta vez, ainda, como das anteriores, ia dizendo, intimamente, que a situação não podia continuar como estava, que devia fazer alguma coisa, que tinha de castigar e humilhar o marido, vingar-se dele, retribuindo-lhe, em parte que fosse, o sofrimento que ele lhe causava. Embora continuasse a dizer que abandonaria Oblonski, sentia-se ser-lhe isso impossível, pois não podia deixar de considerá-lo seu marido e a verdade é que ainda gostava dele. E depois, se em sua própria casa mal tinha tempo de cuidar dos cinco filhos, pior seria na casa de sua mãe. Com efeito, naqueles três dias, o benjamim adoecera por causa do caldo estragado, e os outros mal haviam ceado na véspera. Dolly estava certa de que não podia partir; no entanto, enganando-se a si mesma, pusera-se a juntar as suas coisas.
Ao ver o marido, meteu as mãos numa das gavetas da cômoda, como se procurasse qualquer coisa, e só se voltou quando ele já se encontrava a seu lado. No seu rosto, porém, que queria aparentar desprezo e severidade, apenas havia perturbação e sofrimento.
— Dolly! — exclamou Stepane Arkadievitch, em voz baixa e tranqüila. Encolheu-se, afundando a cabeça entre os ombros, afectando uma atitude submissa e dolorosa; no entanto, irradiava saúde e boa disposição. Num relance, Dolly percorreu dos pés à cabeça aquele corpo cheio de vigor, de vitalidade. «Sente-se feliz e satisfeito. E eu?», pensou.
«Como detesto esta odiosa bonomia que todos estimam e louvam.» Contraiu os lábios, e um músculo da face direita do seu pálido rosto nervoso tremeu ligeiramente.
— Que pretende? — perguntou, numa voz alterada e grave, que nem ela própria reconheceu.
— Dolly! — repetiu ele, em voz trêmula.— A Ana chega hoje.
— Que tenho eu com isso? Não posso recebê-la! — exclamou ela.
— Mas, Dolly, é preciso...
— Vá-se embora, vá-se, vá-se embora! — gritou Daria Alexandrovna, como se os gritos que soltava fossem provocados por uma dor física.
Stepane Arkadievitch conseguira estar tranqüilo enquanto pensara na mulher com a esperança de que tudo se «arrumaria», expressão de Matvei, e até pudera ler tranqüilamente o jornal e tomar o café. Mas agora, ao ver a fisionomia de Dolly, atormentada pelo sofrimento, ao ouvir-lhe o tom desesperado, resignado, sentiu que lhe faltavam as forças, que um nó lhe apertava a garganta, e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
— Meu Deus, que fui eu fazer! Dolly! Pelo amor de Deus!... Se... É — não pôde prosseguir, afogado pelos soluços.
Daria Alexandrovna fechou bruscamente as gavetas da cômoda e fitou o marido.
— Dolly, que te posso dizer?... Só uma coisa: perdoa-me... Porventura nove anos de vida em comum não chegam para resgatar uns momentos, uns momentos...? Daria Alexandrovna, de olhos baixos, ouvia o que ele dizia, como que suplicando-lhe que a convencesse de qualquer maneira.
— ...uns momentos de arrebatamento... — pronunciou Stepane Arkadievitch, disposto a sair.
Mas, ao ouvir semelhante palavra, os lábios de Dolly voltaram a crispar-se, e de novo lhe tremeu o músculo da face direita, como que contraído por uma dor física.
— Vá-se embora, vá-se embora daqui! — gritou num tom de voz ainda mais lancinante. — E não me fale de seus arrebatamentos nem das suas canalhices. — Quis sair, mas cambaleou e teve de apoiar-se ao espaldar de uma cadeira. O rosto de Stepane Arkadievitch dilatou-se, intumesceram-se os lábios, os olhos encheram-se de lágrimas.
— Dolly! — disse, soluçando. — Pelo amor de Deus, pensa nas crianças; elas não têm culpa. Sou culpado, castiga-me, diz-me como redimir a minha culpa. Que posso fazer? Estou disposto a tudo. Sou culpado; não há palavras que exprimam até que ponto sou culpado! Mas Dolly, perdoa-me! Daria Alexandrovna sentou-se. Stepane Arkadievitch ouvia-lhe a respiração forte e pesada, e era indescritível a compaixão que ela lhe inspirava. Por várias vezes quis falar, mas não pôde. Stepane Arkadievitch esperava.
— Lembras-te dos meninos apenas quando te divertes com eles.
Eu, ao contrário, sei agora que estão perdidos — disse ela. Pelo visto, era uma das frases que estivera repetindo durante aqueles três dias.
Daria Alexandrovna dissera «tu», e Oblonski olhava-a agradecido, aproximando-se dela, para lhe pegar na mão; ela, porém, afastou-se com repulsa.
— Penso nas crianças e faria tudo para salvá-las; mas não sei como, se levando-as comigo ou deixando-as junto de um pai depravado sim, junto de um pai depravado... Diga-me: acha possível continuarmos a viver juntos depois... do que aconteceu? Acha possível? Diga-me: acha que pode ser? — repetia, erguendo a voz. — Depois de o meu marido, o pai dos meus filhos, ter tido uma aventura amorosa com a preceptora das crianças...? — Mas, que fazer agora? Que fazer? —exclamou Stepane Arkadievitch, com voz lastimosa, sem saber o que dizia, e baixando cada vez mais a cabeça.
— O senhor é repugnante, repulsivo! — gritou ela, cada vez mais irritada. — As lágrimas que chora são de crocodilo. Jamais gostou de mim, não tem coração nem sentimento! É um infame, um homem repugnante, um estranho, isso mesmo: um homem completamente estranho para mim.
Daria Alexandrovna pronunciou com expressão de dor e de ódio a palavra «estranho», que lhe parecia horrível.
Stepane Arkadievitch olhou para a mulher, assustado e surpreendido com a revolta que se reflectia no seu rosto. Não compreendia que a compaixão que lhe manifestava provocasse repulsa. Dolly via nele compaixão, mas não amor. «Odeia-me. Não me perdoará», pensou ele.
— É horrível, horrível! — exclamou.
Naquele momento, no quarto contíguo ouviu-se gritar uma das crianças, que naturalmente caíra. Daria Alexandrovna apurou o ouvido e instantaneamente suavizou-se a sua fisionomia. Permaneceu alguns segundos como que procurando lembrar-se onde estava e o que devia fazer. Depois, levantou-se rapidamente e aproximou-se da porta.
«Mas se ela gosta assim de meu filho, do meu filho, como pode odiar-me?», pensou Oblonski, ao observar a mudança de expressão que se operara no rosto da mulher.
— Dolly, só uma palavra — disse, seguindo-a.
— Se me seguir, chamarei os criados e os meninos. Quero que todos fiquem sabendo que o senhor é um canalha! Ir-me-ei embora hoje; o senhor, se quiser, pode continuar a viver aqui com a sua amante!
Daria Alexandrovna saiu, batendo a porta com violência. Stepane Arkadievitch suspirou e, enxugando o rosto, aproximou-se da porta em passos lentos. «Matvei diz que tudo se há-de arrumar, mas como? Não vejo jeito. Oh, oh, que horror! E que maneira tão reles de gritar!», dizia consigo mesmo, recordando-se das palavras «canalha» e «amante». Se calhar até as criadas ouviram. Foi tremendamente vulgar.» Permaneceu imóvel alguns instantes, enxugou os olhos, suspirou e, aprumando-se, saiu do quarto.
Era sexta-feira. O relojoeiro alemão dava corda ao relógio da sala de jantar. Stepane Arkadievitch recordou, sorrindo, a sua pilhéria a propósito daquele relojoeiro calvo, tão pontual; costumava dizer que «lhe tinham dado corda para toda a vida, a fim de que ele, por sua vez, a desse aos relógios». Oblonski apreciava muito os ditinhos chistosos. «Talvez se arrume! Essa palavra agrada-me: arrumar-se. Hei-de empregá-la», pensou.
— Matvei! — exclamou ele — Prepara os aposentos para Ana Arkadievna na saleta Mana que te ajude.
— Muito bem, meu senhor.
Stepane Arkadievitch enfiou a pelica e saiu para o alpendre.
— Não janta em casa? — perguntou-lhe Matvei, enquanto o acompanhava.
— Isso depende. Toma lá para as despesas, Achas que chega? — interrogou Oblonski, entregando-lhe dez rublos, que tirara da carteira.
— Chegue ou não chegue, terei de me remediar — replicou Matvei, fechando a portinhola da carruagem e voltando ao alpendre.
Entretanto Daria Alexandrovna, que consolara a criança e compreendera, pelo ruído da carruagem, que o marido saíra, voltou ao quarto de dormir. Era o único refúgio das preocupações domésticas que a assaltavam, mal chegava à porta No momento em que foi ao quarto dos pequenos, logo a inglesa e Matriona Filimonovna a assediaram com um sem número de perguntas urgentes, a que só ela podia responder «Que deviam vestir os meninos para irem passear? Deveriam beber leite? Seria preciso arranjar outro cozinheiro?» — Por amor de Deus, deixem-me, deixem-me! — exclamou Daria Alexandrovna, e voltando para o quarto, sentou-se no mesmo lugar onde permanecera durante o diálogo com o marido.
Contorcendo as mãos esquálidas, de cujos dedos ossudos se desprendiam os anéis, lembrou-se das palavras que tinham trocado.
«Foi-se. Mas como terá ele acabado com ela? Será possível que
continuem a encontrar-se? Porque não lhe perguntei? Não, não podemos reconciliar nos? Ainda que continuássemos juntos sob o mesmo tecto, permaneceríamos estranhos um ao outro? Somos para sempre estranhos?», repetiu, repisando de maneira especial essa palavra que lhe ressoava horrorosa «E tu que tanto lhe quis ‘Como eu lhe queria’. E por ventura não continuo a querer ‘Não lhe quererei agora mais do que antes’.
E o mais terrível é que»
Matriona Filimonovna interrompeu o curso dos seus pensamentos
— Quer a senhora que eu mande vir o meu irmão! Ao menos preparará o jantar e os meninos não ficarão sem comer até às seis horas, como ontem.
— Está bem, vou dar as minhas ordens. Foram comprar leite fresco? E Daria Alexandrovna mergulhou nas preocupações quotidianas, afogando nelas, momentaneamente, os seus desgostos.
Graças aos seus dons naturais, Stepane Arkadievitch fizera bons estudos, mas, como era preguiçoso e travesso, saíra do colégio entre os últimos da sua classe. No entanto, apesar da vida dissipada que levara, da baixa classificação que obtivera e de ser ainda muito jovem, ocupava o lugar, bem remunerado, de presidente de um tribunal de Moscovo. Conseguira esse emprego graças ao marido de Ana, sua irmã, Alexei Alexandrovitch Karenine, que desempenhava um dos mais altos cargos do Ministério a que se subordinava o tribunal de que era funcionário. Mas se Karenine não lhe houvesse conseguido o cargo. Stiva Oblonski tê-lo-ia obtido, a esse ou a outro qualquer, com os seus mil rublos de remuneração — quantia de que precisava, dada a má situação dos seus bens pessoais e apesar da fortuna da mulher — graças a uma centena de protectores de que dispunha irmãos ou irmãs, tias ou segundos nós.
Metade da população de Moscovo e de Sampetersburgo era constituída por parentes ou amigos de Stepane Arkadievitch. Nascera entre pessoas que eram ou passaram a ser os poderosos deste mundo. Uma terça parte dos velhos funcionários fora das relações do pai e tinha-o conhecido de calções, a outra terça parte tratava o por tu e os restantes, sob a forma de empregos públicos, arrendamentos, concessões e coisas do mesmo estilo, seus amigos, não podiam deixar de mostrar interesse por ele. Eis, pois, como não fora difícil a Oblonski obter um bom lugar. A única coisa de que precisou foi de não contrariar ninguém, não ter inveja,
não discutir nem ofender-se, atitudes de que a sua bondade mata sempre o afastara. Ter-lhe-ia parecido simplesmente ridículo dizerem-lhe que não lograria um lugar com a remuneração que lhe era indispensável, sobretudo por nada exigir de excepcional. De facto, apenas queria o que os seus amigos da mesma idade haviam conseguido, persuadido como estava de ser tão capaz quanto qualquer deles.
Todos gostavam de Stepane Arkadievitch, não só pelo seu feitio alegre e bondoso e pela sua indiscutível probidade, mas também devido à sua arrogante e bela presença, dos seus olhos brilhantes, das suas negras sobrancelhas, dos seus cabelos e do seu rosto branco e rubonzável, coisas que produziam impressão agradável naqueles que o conheciam. «Olá, Stiva! Oblonski! Ei-lo!», costumavam exclamar, ao saudá-lo, quase sempre sorrindo alegremente Ainda mesmo quando, depois de com ele conversarem, não sentiam nisso uma satisfação especial, no dia seguinte, ao voltarem a encontrá-lo, acolhiam no sempre com igual regozijo.
Depois de haver desempenhado durante três anos o cargo de presidente de um dos tribunais de Moscovo, Stepane Arkadievitch alcançara não só a amizade mas também a consideração dos colegas, dos subordinados, dos chefes e de todos os que com ele privavam. As principais qualidades de Stepane Arkadievitch, as que lhe haviam granjeado esse respeito, consistiam, em primeiro lugar, numa extrema condescendência para com todas as pessoas, condescendência essa alicerçada na consciência dos seus próprios defeitos, em segundo lugar, no seu espírito liberal, não propriamente do liberalismo que ele extraíra dos jornais, mas do que tinha no sangue e graças ao qual tratava todos no mesmo pé de igualdade sem atender a posições ou a hierarquias, e em terceiro lugar — a sua qualidade mais importante, — na perfeita indiferença que mostrava pelo cargo ocupado, o que fazia com que nunca se entusiasmasse e por isso mesmo sem que nunca praticasse erros.
Ao chegar à repartição, Stepane Arkadievitch, seguido a respeitável distância pelo contínuo que lhe levava a pasta, penetrou no seu gabinete para vestir o uniforme, e logo em seguida dirigiu se à sala de sessões. Todos os funcionários se levantaram, saudando o alegre e respeitosamente. Como de costume, Stepane Arkadievitch apertou a mão de cada um e encaminhou se, pressuroso, para o seu lugar. Conversou e pilherou um pouco, justamente o tempo que a cortesia mandava, e pôs se a trabalhar. Ninguém sabia melhor do que Stepane Arkadievitch encontrar os limites da liberdade, a simplicidade e a afabilidade necessários para que o trabalho se tornasse agradável. O secretário aproximou se de Oblonski com o expediente, jovial e respeitoso, como todos na sua presença, mantendo esse tom familiar que o próprio Oblonski introduzira nas suas funções.
— Finalmente conseguimos as informações da administração provincial de Panz. Aqui estão. Se me permite.
— Chegaram por fim! — exclamou Stepane Arkadievitch, pegando num dos papéis —Bem, meus senhores. E a sessão principiou.
«Se eles soubessem que não há meia hora ainda o presidente do tribunal se sentia culpado como um garoto», pensou Stepane Arkadievitch, enquanto escutava a exposição, de cabeça inclinada e grave expressão no rosto. Os olhos sorriam lhe, o ouvido atento. Teriam de trabalhar sem interrupção até às duas horas, altura em que haveria um intervalo para comer.
Ainda não eram duas horas quando, de repente, se abriram as portas de vidro da sala de audiência e alguém entrou. Os membros do tribunal, sentados debaixo do retrato do czar e os que se sentavam por detrás do símbolo da Justiça, voltaram se para a porta, contentes com a distracção, mas o oficial de justiça, à entrada, imediatamente obrigou a sair quem entrara, fechando a porta atrás de si.
Quando acabaram de ler o expediente, Stepane Arkadievitch pôs-se de pé, endireitou se e, rendendo tributo ao liberalismo da época, acendeu um cigarro mesmo na sala do tribunal, encaminhando se depois para o seu gabinete. Os seus dois colegas, o velho funcionário Nikitine e o jovem Grimevitch, saíram com ele.
— Teremos tempo de acabar depois do almoço — disse Stepane Arkadievitch.
— Com certeza! — corroborou Nikitine.
— Esse Fomine deve ser um autêntico maroto — observou Grimevitch, referindo se a um dos implicados na causa que examinavam.
Stepane Arkadievitch franziu o sobrolho ao ouvir as palavras de Grimevitch, dando a entender que não convinha emitir juízos antecipados, e nada lhe respondeu — Quem entrou na sala? — inquiriu do oficial de justiça.
— Um senhor que perguntava por V Exª e que se introduziu na sala sem licença, apanhando me desprevenido. Disse lhe que quando saíssem os membros do tribunal.
— Onde está ele?
— Naturalmente foi para a antecâmara, primeiro andou às voltas por aí. É aquele — acrescentou, apontando para um homem corpulento, espadaúdo, barba encaracolada, na cabeça um gorro de pele de carneiro, que naquele momento subia apressadamente os gastos degraus da escada de pedra. Um empregado magricela, que descia com uma pasta na mão, deteve se, olhou, como que censurando, as pernas do homem que subia as escadas e dirigiu a Oblonski um olhar interrogativo.
Stepane Arkadievitch encontrava se no alto da escadaria e o seu bondoso rosto resplandecente, emergindo da gola bordada do uniforme, ao reconhecer o recém chegado, iluminou se mais ainda.
— Então eras tu! Finalmente, Levine! — exclamou com um sorriso amistoso e trocista, olhando Levine, que se aproximava — Como te dignaste vir buscar me a este «covil»? Chegaste há muito? — perguntou.
E não contente com o aperto de mão do amigo, beijou-o.
— Acabo de chegar, estava morto por te ver — respondeu Levine, numa expressão tímida, ao mesmo tempo que olhava à sua volta, inquieto e medroso.
— Bom, vamos para o meu gabinete — disse Oblonski, que conhecia o amor próprio e a timidez irritável do amigo.
E, pegando-lhe pela mão, arrastou o consigo, como se o levasse pelo meio de grandes perigos.
Stepane Arkadievitch tratava por «tu» quase todos os conhecidos: anciãos de sessenta anos, rapazes de vinte, comerciantes, actores, ministros, ajudantes de campo do imperador, de maneira que muitas das pessoas a quem tuteava pertenciam a extremos opostos da escala social e muitos se surpreendiam ao descobrir, através de Oblonski, um traço comum entre si Tratava por tu todos os que bebiam champanhe, e bebia champanhe com todos E quando, na presença dos subordinados, se encontrava com alguns dos tus que envergonhavam, como costumava chamai a muitos deles, por brincadeira, conseguia também atenuar, com a sua habilidade inata, qualquer impressão desagradável que porventura isto lhes pudesse causar. Levine não pertencia ao número dos tus que envergonhavam, mas, com a sua acuidade, Oblonski percebeu que o amigo pensava que talvez ele, Oblonski, não desejasse mostrar a intimidade que existia entre eles na presença dos seus subordinados, razão por que se dera pressa em levá-lo para o seu gabinete.
Levine tinha quase a mesma idade que Oblonski, e não só por ter bebido champanhe com ele o tratava por tu. Fora seu companheiro e amigo de adolescência. Apesar da diferença de caracteres e de gostos, estimavam-se como amigos que conviveram desde a mocidade. Mas, como geralmente acontece entre pessoas que se dedicam a actividades diferentes, embora cada um deles apreciasse e aprovasse a profissão do outro, a verdade é que, no fundo da alma, a desprezavam. Afigurava-se, a cada um deles, que a sua própria vida era a verdadeira, enquanto a do outro não passava de ficção. Oblonski não podia reprimir um certo sorriso de troça quando via Levine. Inúmeras vezes o vira chegar assim a
Moscovo, vindo da aldeia, onde se dedicava a qualquer coisa que Stepane Arkadievitch nunca soubera bem o que fosse e, para ser exacto, nem lhe interessava. Levine chegava a Moscovo sempre numa grande excitação, inquieto, um tanto inibido e irritado com a sua própria timidez, e a maior parte das vezes com um conceito novo e imprevisto sobre ai coisas. Stepane Arkadievitch troçava disso, mas ao mesmo tempo gostava. Assim mesmo, Levine, no seu íntimo, desprezava o gênero de vida citadina que o amigo levava e até mesmo o cargo que ele desempenhava, na sua opinião absurdo, rindo-se de tudo isso. A única diferença ê que Oblonski, ao fazer o que os outros faziam, gracejava com segurança e benevolência, ao passo que Levine o fazia pouco seguro e às vezes até irritado.
— Há muito que estávamos à tua espera — disse Stepane Arkadievitch, ao penetrar no gabinete e largando o braço do amigo, como que dando-lhe a entender que o perigo passara. — Estou muito contente em ver-te. Então como vai isso? Quando chegaste? — prosseguiu.
Levine calava-se, olhando as caras desconhecidas dos companheiros de Oblonski e sobretudo a mão do elegante Grimevitch, de longos dedos brancos e compridas unhas, pálidas e recurvas, bem como os enormes brilhantes das abotoaduras da sua camisa. Dir-se-ia que aquelas mãos o absorviam por completo, impedindo-o de pensar. Oblonski, observando isso, sorriu.
— Permitam que os apresente — disse. — Os meus amigos Filirx Ivanovitch Nikitine, Mikail Stanislavitch. — E dirigindo-se a Levine, acrescentou: — Constantino Dimitrievitch Levine, membro do zemstvo, homem original, ginasta, capaz de levantar cinco puds com uma só mão, fazendeiro, caçador, meu amigo e irmão de Sérgio Ivanovitch Kosnichev.
— Muito prazer — articulou o ancião.
— Temos a honra de conhecer seu irmão Sérgio Ivanovitch — disse Grimevitch, estendendo-lhe a delicada mão de grandes unhas.
— Escuta. Vamos almoçar no Guarine. Ali conversaremos. Estou livre até às três.
— Não. Ainda tenho de ir a outro lugar — replicou Levine, depois de pensar um pouco.
— Bem, então podemos jantar juntos.
— Jantar? Mas não se trata de nada importante. Quero apenas dizer-te duas palavras. Falaremos mais tarde à vontade.
— Pois diz-me agora essas duas palavras e conversaremos depois de jantar.
— Trata-se do seguinte... não é, aliás, nada de particular — disse Levine; e de súbito reflectiu-se no seu rosto uma viva irritação, provocada pelo esforço que fazia para vencer a timidez. — Que fazem os Tcherbatski? Continuam como dantes? — inquiriu.
Oblonski que soubera, tempos atrás, que Levine estava enamorado da sua cunhada, Kitty, sorriu imperceptivelmente e os olhos brilharam-lhe alegres.
— Disseste-me duas palavras, mas eu não posso responder-te com outras duas, porque... Desculpa-me por um momento...
Entrava nesse momento o secretário, com uns papéis; com a familiaridade respeitosa e com a discreta consciência que todos os secretários têm da superioridade sobre os chefes no conhecimento dos assuntos que lhes dizem respeito, aproximou-se de Oblonski para lhe explicar uma dificuldade como se fizesse uma pergunta. Stepane Arkadievitch, sem o ouvir até ao fim, pousou uma das mãos no braço do secretário, num gesto carinhoso.
— Seja como for, como eu lhe disse — articulou, suavizando a advertência com um sorriso. E após uma breve explicação acerca de como interpretar o caso, repeliu de si os papéis, acrescentando: — Faça assim, por favor, Zacarias Nikitine.
O secretário afastou-se, confuso. Levine, que durante aquela consulta, se refizera completamente da perturbação que o possuíra, apoiava-se com ambas as mãos às costas de uma cadeira e ouvia com uma atenção zombeteira.
— Não compreendo, não, não compreendo! — exclamou.
— Que é que tu não compreendes? — perguntou-lhe Oblonski, sorrindo também e puxando por um cigarro. Esperava de Levine uma saída extravagante.
— Não compreendo o que vocês fazem — replicou ele, encolhendo os ombros. — Como podes tomar estas coisas a sério?
— Por quê?
— Porque... porque aqui não há que fazer.
— É o que tu pensas; estamos cheios de trabalho.
— De papelada. Sim, realmente, sempre tiveste jeito para isso.
— Então, achas que para outras coisas não sirvo?
— Talvez. De qualquer modo, porém, admiro a tua importância e sinto-me orgulhoso de ter um amigo de tal categoria. Mas não respondeste à minha pergunta — acrescentou Levine, fitando-o nos olhos, num esforço desesperado.
— Bom, bom. Espera um pouco mais e verás como tu também hás-de lá chegar. Apesar dos teus três mil hectares de terra na província de Karazinski, desses músculos, dessa louçania de menina de onze anos, também acabarás por lá chegar, como nós. Quanto ao que perguntavas, não há novidade, mas é pena que tenhas estado tanto tempo sem aparecer.
— Por quê? — interrompeu Levine, assustado.
— Por nada. Depois falaremos. E afinal, para que vieste?
— Disso também falaremos depois — respondeu Levine, de novo corado até às orelhas.
— Sim, já percebi. Escuta: gostaria de te convidar para ires a nossa casa, mas minha mulher não está bem. Se queres ver os Tcherbatski, acho que devem ir hoje, das quatro às cinco, ao Jardim Zoológico. Kitty vai patinar. Passa por lá. Irei buscar-te para irmos jantar em qualquer parte.
— Perfeitamente. Até logo, então.
— Mas escuta. Bem te conheço, és muito capaz de te esqueceres ou de te ires embora para a aldeia — exclamou Stepane Arkadievitch, rindo.
— Não, não, irei sem falta.
E só depois de sair do gabinete, Levine se apercebeu de que não se despedira dos amigos de Oblonski.
— Parece ser muito enérgico — opinou Grimevitch, depois de Levine ter saído.
— Sim, meu velho. Nasceu com boa estrela! — observou Stepane Arkadievitch, abanando a cabeça. — Três mil hectares em Karazinski, uma vida inteira diante dele e aquele vigor! Tem mais sorte do que nós.
— O senhor de que se queixa, Stepane Arkadievitch?
— Tudo vai mal — disse este, com um profundo suspiro.
Quando Oblonski perguntou a Levine que tinha ele vindo fazer a Moscovo, este enrubesceu, coisa que o indispôs consigo mesmo, pois não pudera responder-lhe, «para me declarar à tua cunhada», apesar de ter vindo exclusivamente para este fim. Os Levines e os Tcherbatski, antigas famílias nobres de Moscovo, sempre haviam mantido íntimas e cordiais relações. Essa amizade ainda mais se consolidara durante o tempo de estudante de Levine, que se preparara para dar entrada na Universidade
e nela fora admitido ao mesmo tempo que o jovem príncipe Tcherbatski, irmão de Dolly e de Kitty. Naquela época, Levine costumava visitar muito amiúde os Tcherbatski e afeiçoara-se à casa. Por estranho que pareça, Constantino Levine apegara-se precisamente à casa, à família e em especial ao elemento feminino dos Tcherbatski. Não se lembrava da mãe e a única irmã que tinha era mais velha do que ele. Por isso mesmo fora em casa dos Tcherbatski que sentira pela primeira vez aquele ambiente de lar nobre, intelectual e distinto que não chegara a conhecer entre os seus por causa da prematura morte dos pais. Todos os membros daquela família, especialmente as mulheres, lhe apareciam como que envoltos num misterioso véu poético, e não só via neles defeito algum, como imaginava que por debaixo desse véu existissem os sentimentos mais elevados e todas as perfeições deste mundo. Levine não compreendia por que falavam aquelas senhoras hoje em francês e amanhã em inglês; por que, a horas determinadas, e por turnos, tocavam piano, cujos sons ele ouvia lá em cima no quarto do irmão, onde se reuniam para estudar; para que serviam aqueles professores de literatura francesa, de desenho, de música, de dança; por que iam as três irmãs a horas certas de carruagem, acompanhadas por Mademoiselle Linon, à Avenida de Tverskoi, embrulhadas nas suas pelicas — a de Dolly, comprida; a de Natália, três quartos, e a de Kitty, muito curta, de tal sorte que lhe deixava completamente descobertas as pernas com as suas meias vermelhas — e para que haviam de passear pela Avenida Tverskoi, ainda por cima acompanhadas de um lacaio com um distintivo dourado no chapéu. Tão-pouco compreendeu muitas outras coisas que sucediam naquele mundo misterioso, embora soubesse que tudo ali era magnífico e fosse precisamente essa atmosfera de mistério que o cativava.
Durante os tempos de estudante estivera a ponto de apaixonar-se pela irmã mais velha, Dolly, mas daí a tempo casavam-na com Oblonski. Depois começou a sentir-se atraído pela segunda, como se precisasse de estar sempre enamorado de uma das irmãs, sem poder dizer de qual delas gostava na verdade. Também Natália se casou, na ocasião em que foi apresentada à sociedade, com o diplomata Lvov. Kitty ainda era muito criança quando Levine saiu da Universidade. O jovem Tcherbatski, que ingressara na marinha de guerra, morrera no mar Báltico, e as relações dele com a família, por esse facto, tornaram-se menos freqüentes, apesar da sua amizade com Oblonski. Porém, quando no princípio do Inverno daquele ano chegou a Moscovo, depois de um ano de isolamento na aldeia, compreendeu de qual das irmãs estava predestinado a gostar deveras. Aparentemente, nada mais simples do que pedir a mão da princesa Tcherbatskaia, uma vez que Levine era homem de boa família, mais rico do que pobre, e com trinta e dois anos de idade Era de crer que vissem logo nele um bom partido Mas Levine estava apaixonado e por isso Kitty lhe parecia uma criatura tão perfeita em todos os sentidos, tão para além das coisas terrenas, quando ele, pelo contrário, era um ser tão baixo e mundano, que não podia pensar sequer que ela e os outros o considerassem digno de aspirar à sua mão.
Havia dois meses que estava em Moscovo, como num sonho, encontrando se quase todos os dias com Kitty nas reuniões mundanas a que assistia para vê-la, quando decidiu, repentinamente, que não teria êxito, e voltou para a aldeia.