A princesa Tcherbatski achava impossível celebrar o casamento antes da Quaresma, daí a cinco semanas, visto a parte do enxoval de Kitty que considerava imprescindível só poder estar pronta para essa data. Estava, contudo, de acordo com Levine de que não deviam adiar a boda para depois da Quaresma, pois a velha tia do príncipe Tcherbatski, muito doente, podia morrer de um momento para o outro, obrigando-os a adiar o casamento ainda para mais tarde. Zangava-se muito com Levine, que não lhe respondia com precisão se estava ou não de acordo com ela. De resto, a decisão parecia tanto mais cômoda quanto era certo os recém- casados partirem imediatamente, após a cerimônia, para a sua casa na aldeia, onde não era preciso todo o enxoval.
Levine continuava nesse estado de exaltação graças ao qual vivia na ilusão de que ele e a felicidade de que gozava constituíam o único e principal fim de tudo que existia e que nem sequer precisava de pensar no que quer que fosse, pois os outros tudo fariam por ele. Nem mesmo estabelecera planos para a vida que ia começar, deixando esta resolução aos demais, convencido de que tudo resultaria bem. Sérgio Ivanovitch, o irmão, Oblonski e a princesa guiavam-no no que tinha a fazer; ele limitava-se a estar de acordo com tudo. Foi Sérgio quem pediu dinheiro emprestado para ele, a princesa aconselhou-o a que saísse de Moscovo logo depois do casamento e Stepane Arkadievitch a que se dirigissem ao estrangeiro. Levine continuava de acordo com tudo. «Façam o que quiserem, se isso lhes agrada. Sou feliz e i minha felicidade não pode ser maior nem menor, façam vocês o que fizerem», pensava. Quando comunicou a Kitty que Oblonski os aconselhava a seguirem para o estrangeiro, grande foi a sua surpresa ao verificar que ela não estava de acordo e que formara já planos determinados para a vida de casada. Kitty sabia que os trabalhos agrícolas apaixonavam Levine, embora não compreendesse nem desejasse para ele essa actividade. Eis o que a não impedia, porém, de considerá-la muitíssimo interessante. E como não ignorava que fixariam residência na aldeia, não queria ir ao estrangeiro, mas para a aldeia, para o seu futuro lar. Esta decisão, muito concretamente exposta, surpreendeu Levine. Mas como lhe era indiferente ir aqui ou ali, pediu imediatamente a Oblonski, como se este tivesse obrigação de o fazer, que fosse à aldeia e que preparasse tudo como melhor lhe parecesse, com o seu bom gosto.— Escuta, tens o certificado de confissão e comunhão? — perguntou-lhe Stepane Arkadievitch, ao voltar da aldeia, onde preparara tudo para a chegada dos noivos. — Não, por quê? — Sem isso não te podes casar.— Ai, ai, ai! — exclamou Levine. — Acho que não comungo há nove anos. Não tinha pensado em tal.
— Bonito! — comentou Stepane Arkadievitch, rindo — E chamas-me niilista a mim. Mas isso não pode ser! Deves confessar-te e comungar. — Quando? Só faltam quatro dias. Stepane Arkadievitch também lhe resolveu esse problema. Levine principiou a assistir aos ofícios. Para Levine, que não era crente, embora respeitasse a crença de cada um, custava-lhe muito assistir aos diversos actos religiosos. Mas agora, no estado de sensibilidade em que vivia, enternecido e sentimental, a necessidade de simular parecia-lhe particularmente odiosa. Mentir, apoucar as coisas santas, com o coração cheio de fervor, sentindo-se em plena glória? Era incapaz de o fazer, mas, por mais que pedisse a Stepane Arkadievitch que lhe arranjasse um certificado que o dispensasse de cumprir aquele cerimonial, este respondia-lhe ser impossível.— Que te custa isso? Dois dias passam depressa, e o sacerdote é um velhinho muito simpático e muito inteligente. Verás que te extrai o dente sem dares por isso.
Durante a primeira missa a que teve de assistir, Levine quis reviver as impressões religiosas da juventude, que entre os dezasseis e os dezassete anos tinham sido muito vivas. Não conseguiu. Tentou então acompanhar a cerimônia como quem assiste a uma velha prática tão desprovida de sentido como o costume de fazer visitas. Tão-pouco o conseguiu. A semelhança da maior parte dos seus contemporâneos, sentiu-se, com efeito, tão incapaz de acreditar como de negar. E semelhante confusão de sentimentos, durante todo o período que teve de consagrar à devoção, causou-lhe um embaraço e uma vergonha extraordinários: a voz da consciência dizia-lhe que agir sem compreender era praticar uma acção má.
Durante os ofícios procurava em primeiro lugar atribuir às orações um sentido que não ferisse em demasia as suas convicções, mas, ao dar-se conta, dentro de pouco, que, em vez de compreender, criticava, ei-lo que se abandonou ao turbilhão das suas reminiscências e dos seus pensamentos íntimos. Assim ouviu a missa, as vésperas e as práticas da noite para a comunhão. No dia seguinte levantou-se mais cedo do que o costume e em jejum, por volta das horas, veio assistir às práticas da manhã e confessar-se. Não havia ninguém na igreja, além de um soldado que mendigava, duas velhas e os ministros do culto. Um diácono muito jovem, cujas costas se desenhavam sob a fina sotaina, veio ao seu encontro e, aproximando-se de uma mesinha, junto à parede, principiou a ler as regras. À medida que ia lendo, e sobretudo que ia repetindo as mesmas palavras: «Senhor, tem misericórdia!», que se confundiam num murmúrio: «Misericórdia, misericórdia», Levine dava-se conta de que a mente se lhe conservava fechada e selada e de que era melhor não fazer esforços para compreender, pois maior seria ainda a sua confusão. Visto o que permanecia de pé, atrás do diácono, sem ouvir nem prestar atenção ao que se passava, pensando nas suas coisas. «Que mãos extraordinariamente expressivas!», pensava, ao lembrar-se do serão da véspera, sentado com Kitty ao pé da mesa, num recanto da sala. Como acontecia agora quase sempre, nada tinha que lhe dizer. Kitty pousava a mão em cima da mesa, fechava-a, abria-a e ao observar esse movimento ela própria se punha a rir. E Levine lembrava-se de que lhe beijara a mão, examinando-lhe depois as linhas que se lhe uniam na palma cor-de-rosa.«Outra vez: tende misericórdia!», disse ele de si para consigo, persignando-se, e baixou a cabeça, olhando o movimento ágil das espáduas do diácono, que se inclinava. «Depois Kitty pegou-me na mão e examinou as linhas, dizendo: «‘Tem uma mão bonita’.» E Levine olhou para a sua própria mão e para a mão do diácono. «Sim, agora não falta muito para acabar», pensou. «Ah, não! Parece que recomeça outra vez», disse para si mesmo, apurando o ouvido às orações. «Sim, está a chegar ao fim. Já se inclina até o chão. Isto faz-se sempre no fim.» Apanhando uma nota de três rublos com a mão que aflorava no punho plissado, o diácono disse que escreveria a Levine. Aproximou-se do altar; os sapatos novos rangiam-lhe nas lajes, passado um momento, voltou a cabeça e chamou Levine com um aceno da mão. Os pensamentos deste, lá dentro do cérebro, agitaram-se-lhe, mas deu-se pressa em afastá- los. «Arranjar-se-á de qualquer maneira», pensou dirigindo-se aonde o chamavam. Ao subir os degraus, voltou-se para a direita e viu o sacerdote, um velho de barba rala, meio grisalha, de bondosos olhos fatigados, que, de pé diante do facistol, folheava o missal. Depois de saudar Levine com uma ligeira inclinação de cabeça, principiou a ler as orações em voz monocórdica. Uma vez terminadas, inclinou-se até ao chão e logo se voltou para Levine.— Cristo assiste, invisível, à sua confissão... — disse, mostrando o crucifixo. — Crê em tudo o que ensina a Santa Igreja Apostólica? — prosseguiu, afastando o olhar do rosto de Levine e cruzando as mãos debaixo da estola.— Duvidava e duvido de tudo — respondeu Levine, numa voz ressoante, desagradável ao seu próprio ouvido. Depois calou-se. O sacerdote esperou, como se aguardasse que ele dissesse mais alguma coisa. Segundos depois, fechou os olhos, e num rápido sibilo, sotaque da gente de Vladimir, disse: — A dúvida é própria da fraqueza humana, mas devemos rezar a Deus Todo-Poderoso, para que Ele venha em nosso auxílio. Quais são os seus principais pecados? — acrescentou, sem uma única pausa, como se procurasse não perder tempo. — O meu pecado principal é a dúvida. Duvido de tudo, e a maior parte do tempo é a dúvida que me persegue.— A dúvida é própria da fraqueza humana — repetiu o sacerdote. — De que duvida principalmente? — De tudo. Às vezes, até da existência de Deus — disse Levine, quase de má vontade.A inconveniência das suas palavras assustou-o, mas no padre essas palavras não provocaram a impressão que ele receava. — Que dúvida pode haver sobre a existência de Deus? — perguntou, com um sorriso quase imperceptível. Levine ficou calado.— Que dúvida pode ter acerca da existência do Criador, quando está a contemplar as suas obras? — continuou o sacerdote, no seu sotaque monótono e rápido. — Quem cobriu a abóbada celeste de todas essas estrelas? Quem encheu a terra das suas belezas? Como podia existir tudo isto sem o Criador? — concluiu, olhando interrogativamente para Levine.
Este, porém, compreendendo a impossibilidade de uma discussão filosófica com um padre, respondeu simplesmente: — Não sei.— Não sabe? Então como pode duvidar de que tenha sido Deus quem tudo criou? — voltou o sacerdote com alegre expressão de surpresa.
— Não entendo nada — volveu-lhe Levine, corando. Sentia o absurdo das respostas que, no caso presente, não podiam deixar de ser absurdas.
— Reze a Deus, implore-O. Até os Santos Padres tiveram dúvidas, mas pediam a Deus que lhes fortalecesse a fé. O Diabo tem uma força enorme e não nos devemos submeter-lhe. Reze e peça a Deus — repetiu com precipitação.
Permaneceu calado um momento, como se estivesse a pensar em alguma coisa.
— Ouvi dizer que se propõe casar com a filha do príncipe Tcherbatski, meu paroquiano e filho espiritual — acrescentou, sorrindo. — É uma excelente menina.— É verdade — respondeu Levine, corando, como se sentisse vergonha pelo próprio padre. «Que necessidade tem ele de fazer semelhantes perguntas na confissão?» E como que respondendo ao que ele pensava, o sacerdote acrescentou: — Pensa em casar-se e talvez Deus lhe conceda descendência, não é verdade? Que educação poderá o senhor dar aos seus filhos, se não vencer a tentação do Diabo que o arrasta para a incredulidade? — disse em tom de suave censura. — Se amar os seus filhos, como um bom pai, não só lhes deixará riqueza, luxo e honras, mas a salvação também, a iluminação espiritual pela luz da verdade. Não é assim? Que responderá aos seus inocentes filhos quando eles lhe perguntarem: «Paizinho, quem criou tudo o que se vê neste Mundo: a terra, a água, o sol, as flores, as plantas?» Porventura lhes poderá responder: «Não sei?» Não pode o senhor ignorar o que Deus, com toda a sua infinita bondade, lhe revelou.
E que lhes dirá quando lhe perguntarem: «Que me espera na outra vida?» Que lhes responderá, se tudo ignora? Que lhes responderá? Entregá-los-á à sedução do mundo e do Diabo? Isso não está certo! — concluiu, inclinando a cabeça para o lado. E fitou Levine com os seus olhos doces e bondosos. Levine nada respondeu, não já porque receasse desta vez uma discussão despropositada, mas porque nunca ninguém lhe fizera semelhantes perguntas. Se os filhos um dia viessem a fazer-lhas, veria, então, que resposta lhes devia dar. — Entra agora num momento da sua vida em que deve escolher um caminho e segui-lo — prosseguiu o sacerdote. — Reze a Deus para que Ele, com a Sua misericórdia, o ajude e perdoe. Que Nosso Senhor Jesus Cristo lhe perdoe, filho, com a Sua misericórdia infinita e o Seu imenso amor aos homens... — E proferindo as palavras de absolvição, o sacerdote abençoou Levine, mandando-o embora. Ao regressar a casa, Levine estava alegre, pois conseguira ver-se livre de uma situação incômoda, sem necessidade de mentir. Além disso, ficara-lhe a vaga impressão de que as palavras daquele sacerdote velho e bondoso não eram tão tolas quanto lhe tinham parecido de princípio; havia nelas qualquer coisa que precisava um dia de ser esclarecida.«Já, agora, não, mas depois, um dia», pensou Levine. Mais vivamente do que nunca, percebeu haver na sua alma regiões turvas e obscuras. No que dizia respeito à religião, encontrava-se exactamente na mesma atitude que Sviajski e alguns outros, a quem censurava a incoerência de opiniões.
Levine passou aquele serão em casa de Dolly, na companhia da noiva. Estava particularmente alegre e explicou a Oblonski, surpreendido, o estado de excitação em que se encontrava. Disse-lhe que sentia o alvoroço de um cão a quem ensinaram a saltar através de um arco e que, ao compreender o que querem dele, ladra, agita a cauda e salta entusiasmado para cima das mesas e do parapeito das janelas.A princesa e Dolly observavam à risca os velhos usos, por isso não consentiram que Levine visse a noiva no dia do casamento. Jantou no hotel com três celibatários que por acaso lhe apareceram. Um deles era o irmão, outro Katavassov, camarada da Universidade, agora professor de Ciências Naturais, e a quem encontrara e arrastara consigo quase à força, e por último um companheiro de caçadas ao urso, Tchirikov, que exercia as funções de juiz de paz em Moscovo e lhe ia servir de testemunha. O jantar foi animadíssimo. Sérgio Ivanovitch, muito bem disposto, apreciou em extremo a originalidade de Katavassov. Este, ao ver-se apreciado, deixou-se desfrutar. Quanto ao excelente Tchirikov, esse estava sempre pronto a. manter fosse que conversa fosse.
— Que rapaz cheio de predicados era o nosso amigo Constantino Dimitrievitch — dizia Katavassov, na lenta dicção do homem habituado a falar do alto de uma cátedra. — Falo dele no passado, porque hoje deixou de existir. Amava a ciência, outrora, quando saiu da Universidade, tinha paixões dignas de um homem, enquanto presentemente empregava metade das suas faculdades a iludir-se e a outra metade a dar às suas quimeras aparência de razão. — Nunca encontrei maior inimigo do casamento — disse Sérgio Ivanovitch voltado para ele.— Não é verdade, sou apenas partidário da divisão do trabalho. Aos zés-ninguém é que cabe a função de propagar a espécie, aos outros, a de contribuir para o desenvolvimento intelectual, para a felicidade dos seus semelhantes. Esta é a minha opinião. Não ignoro, porém, que existe uma infinidade de gente disposta a confundir estes dois ramos de
trabalho, mas eu não pertenço a esse número.
— Muito me vou rir no dia em que souber que está apaixonado! — exclamou Levine. — Peco-lhe, não deixe de me convidar para o casamento.
— Mas já estou enamorado.— Sim, de um choco. Sabes — disse Levine, voltando-se para o irmão —, o Miguel Semionovicth está a escrever um livro sobre a nutrição e...
— Não misture as coisas, se faz favor! Pouca importância tem o que eu escrevo, mas a verdade é que amo os chocos.
— Por quê?— Isso não o impedirá de amar uma mulher.
— Não, a minha mulher é que se oporia ao meu amor pelos chocos.
— Por quê?
— Depois o verá. Agora aprecia a caça, a agronomia. Pois bem, espere-lhe pela partida. Há-de contar-me depois...
— A propósito — disse Tchirikov —, o Archipe acaba de vir visitar-me. Disse-me que em Prudnoi apareceram dois ursos e muitas antas.
— Pois terão de os caçar sem mim.— Aí tens. De agora em diante, despede-te da caça ao urso. A tua mulher não te deixará caçar! — disse Sérgio Ivanovitch.
Levine sorriu-se. A ideia de que a mulher não o deixaria caçar o urso era-lhe tão agradável que estava disposto a renunciar para sempre ao prazer de ver ursos.— Seja como for, vai ser uma pena caçá-los sem a sua companhia. Lembra-se da última caçada em Kapilovo? Foi óptima! — disse Tchirikov.
Levine não queria desgostá-los dizendo-lhes que não podia haver nada bom sem Kitty, e preferiu calar-se. — Não é debalde que existe o costume de um homem se despedir da vida de solteiro — observou Sérgio Ivanovitch. — Por mais feliz que uma pessoa vá ser, lamenta a perda da liberdade. — Confesse que se sente «com desejos, como o noivo de Gogol, de saltar pela janela. — Está claro, mas todos se calam — afirmou Katavassov, desatando a rir às gargalhadas.— Mas a janela continua aberta... Vamos agora mesmo a Tver. A ursa está sozinha, podemos ir apanhá-la na toca. A sério, apanhamos o comboio das cinco, e aqui que se arranjem como quiserem — disse Tchirikov, rindo.
— Juro-lhes que não encontro dentro de mim essa pena de perder a liberdade — afirmou Levine, sorrindo.
— Dentro dele reina agora tão grande caos que não é possível encontrar lá seja o que for — objectou Katavassov. — Espere um pouco, e quando isso estiver mais em ordem lá dentro verá que a encontra.
— Não; se assim fosse, além do meu sentimento... — não quis dizer amor — e da minha felicidade, lamentaria ao menos um pouco perder a liberdade, mas, pelo contrário, dá-me alegria perdê-la.
— Muito mau! É um caso desesperado — disse Katavassov. — Bebamos à saúde do seu coração ou desejemos-lhe que se realize ao menos a centésima parte das suas ilusões. Com isso já teria mais felicidade que nenhum outro ser neste mundo.
Logo depois do jantar, os convidados retiraram-se, para terem tempo de mudar de fato para o casamento. Ao ficar só e ao lembrar-se da conversa daqueles solteirões, Levine voltou a perguntar a si mesmo se sentia alguma pena de perder a liberdade. Sorriu ao pensar nesse problema. «Liberdade? Para que quero eu liberdade? A felicidade consiste em amar e desejar; em pensar com os pensamentos e os desejos dela, isto é, em não ter liberdade alguma. É isso a felicidade!»«Mas porventura conheces os teus pensamentos, os teus desejos, o teu sentir?», murmurou lhe uma voz ao ouvido. O sorriso desapareceu lhe do rosto e Levine submergiu se em reflexões. De repente, invadiu o uma sensação estranha de temor e dúvida. Duvidava de tudo.
«E se ela não gosta de mim? E se ela casa comigo só por casar? E se ela própria não sabe o que faz?», perguntava a si mesmo «Pode ser que caia em si e uma vez casada compreenda que me não quer nem pode querer.» E os piores e mais estranhos pensamentos a respeito de Kitty lhe vieram à mente. Sentia ciúmes de Vronski, tal qual um ano antes, como se a noite em que a vira com ele tivesse sido na véspera. Receava que ela não lhe tivesse dito tudo.Levantou se precipitadamente «Não, isto não pode ficar assim. Vou ter com ela, interroga-la-ei pela última vez e dir lhe ei. Somos livres, não será melhor acabarmos? Tudo será melhor que a infelicidade eterna!» Numa grande amargura, irritado contra todos, contra si mesmo e contra ela, saiu do hotel e dirigiu se a casa de Kitty.
Encontrou a no interior da casa. Estava sentada num baú, dando ordens a uma criada e arrumando um monte de vestidos de todas as cores que se espalhavam pelas costas das cadeiras e pelo chão.
— Oh! — exclamou Kitty, ao vê-lo, radiante de alegria — És tu? Que lhe aconteceu? — Tratava o umas vezes por tu, outras não.. Não te esperava! Estou a fazer uma escolha nos meus vestidos de solteira, para oferecê-los.— Ah, muito bem! — exclamou Levine, relanceando à criada um olhar um tanto lúgubre.
— Vai te embora, Duniacha, que eu depois te chamarei — disse Kitty — Que tens tu? — perguntou a Levine, tratando-o resolutamente por tu, assim que a criada saiu.
Percebera que o rosto de Levine estava triste e alterado e teve medo.
— Kitty, estou a sofrer. Não posso sofrer só — disse com desespero, detendo se diante dela e fitando a nos olhos com uma expressão suplicante. Vira, no rosto franco e cheio de amor de Kitty, que não serviria de nada o que estava disposto a dizer lhe — Vim para te dizer que ainda estamos a tempo. Podemos desfazer o que esta feito e remediar as coisas.
— Que dizes? Não compreendo nada. Que tens tu?— O que te disse mil vezes e não posso deixar de pensar , que não te mereço. Não é possível que consintas em casar comigo. Pensa. Enganaste-te. Pensa bem. Não podes gostar de mim. Sim é melhor que o confesses — teimava Levine, sem olhar para Kitty — Serei desgraçado. Que as pessoas digam o que quiserem? Tudo é melhor do que não sermos felizes. Mais vale agora, enquanto estamos a tempo.
— Não te compreendo — replicou Kitty, assustada — Que queres tu? Desdizeres-te? Acabar? — Sim, se não gostas de mim.
— Enlouqueceste! — exclamou Kitty, toda corada de indignação. Mas o rosto de Levine era tão desolado, que ela, reprimindo a indignação, tirou os vestidos de uma cadeira e sentou se mais perto dele — Em que estás tu a pensar? — perguntou ela — Vamos, fala. Conta me tudo.
— Penso que não podes gostar de mim. Porque havias tu de gostar de mim? — Meu Deus! Que posso eu?—exclamou Kitty, e desatou a chorar.— Oh, que fui eu fazer? — gritou Levine, que se lhe ajoelhou diante e principiou a beijar lhe as mãos.
Cinco minutos depois, quando a princesa apareceu, encontrou-os completamente reconciliados. Kitty garantiu a Levine que gostava dele, até lhe explicou porquê, respondendo à pergunta que ele lhe fizera. Disse-lhe que era por compreendê-lo plenamente, por saber do que ele gostava e porque tudo do que ele gostava era bom. E esta explicação pareceu muito clara a Levine. Quando a princesa entrou estavam sentados no baú examinando os vestidos e discutindo se devia Kitty oferecer a Duniacha o vestido escuro que ela vestia quando Levine a pedira em casamento. Levine insistia em que aquele vestido não devia ser oferecido a ninguém e que podia oferecer a Duniacha um outro, o azul.
— Mas tu não compreendes que a Duniacha é morena e esse vestido não lhe ficará bem? Já pensei em tudo. Ao inteirar-se do motivo da visita de Levine, a princesa zangou se, meio a sério, meio a brincar. Disse lhe que se fosse vestir e que não estorvasse Kitty, que estava à espera do cabeleireiro Charles para a pentear. — Bem basta andar agitada como anda, e sem comer todos estes dias. Por isso está abatida como se vê. E ainda por cima apareces tu com essas patetices para a fazeres sofrer mais. — exclamou a princesa — Vai te embora, vai te, querido.Levine, envergonhado, mas sossegado já, voltou para o hotel. O irmão, Daria Alexandrovna e Stepane Arkadievitch, todos vestidos a rigor, esperavam no para o abençoar com o ícone. Não havia tempo a perder. Daria Alexandrovna ainda tinha de passar por casa, onde recolhera o pequeno, de cabeça encaracolada, penteado a brilhantina, que acompanharia a noiva com o ícone. Depois tinham de mandar um carro buscar a testemunha e dar ordens para vir a carruagem em que seguiria Sérgio Ivanovitch. Ainda havia muitas coisas complicadas a organizar Não podiam perder tempo, já eram seis e meia.
A bênção com o ícone não foi levada muito a sério. Stepane Arkadievitch pôs se ao lado da mulher, numa atitude ao mesmo tempo solene e cômica. Pegando na imagem, disse a Levine que se inclinasse, abençoou o com bondoso e irônico sorriso e beijou o três vezes. Dolly fez o mesmo e logo se dispôs a partir, precipitadamente, confundindo de novo a ordem em que os carros deviam seguir.— Bom, pois aqui tens o que vamos fazer. Tu vais no nosso carro buscar a testemunha e o Sérgio Ivanovitch terá a maçada de vir connosco a casa de onde seguirá na nossa companhia.
— Com todo o prazer.
— Não nos demoramos nada. Mandaram as coisas? — perguntou
Stepane Arkadievitch.
— Mandaram — respondeu Levine. E disse a Kuzma que lhe desse a roupa para se vestir.
Grande multidão, principalmente de mulheres, rodeava a igreja, iluminada para a boda. Os que não puderam entrar apinhavam-se junto das janelas, empurrando-se, discutindo e olhando através das grades.
Mais de vinte carruagens alinhavam-se já ao longo da rua, sob a vigilância dos guardas. Um oficial da polícia, indiferente ao frio, permanecia à porta da igreja, resplandecente no seu uniforme. A todo o momento estavam a chegar mais carruagens, e ora entravam senhoras, com raminhos afivelados no peitilho, soerguendo a cauda dos vestidos, ora cavalheiros, que tiravam os gorros e os chapéus altos ao entrarem no templo. Os dois lustres e as velas acesas diante dos ícones inundavam tudo de luz: o dourado em fundo vermelho do iconóstase, o cinzelado das imagens, os incensários e os candelabros de prata, as lajes do templo, os tapetes, os pendões do coro, as grades dos púlpitos, os velhos livros do ritual, enegrecidos pelo tempo, e as vestes sacerdotais. À direita da igreja, apinhavam-se os fraques e as gravatas brancas, os uniformes e os tecidos preciosos, os veludos e os cetins, os cabelos frisados e as flores raras, os ombros nus e as luvas brancas. E um murmúrio contido e animado evolava-se dessa multidão, ressoando sob a cúpula. De cada vez que a porta se abria com lamentoso rangido, o murmúrio cessava e todos se voltavam à espera de ver entrar os noivos. Mas a porta já se abrira mais de dez vezes para deixar passar, quer o convidado retardatário que ia juntar-se ao grupo da direita, quer a espectadora que, tendo sabido iludir, ou comover o oficial da polícia, engrossava o grupo da esquerda, exclusivamente de curiosos. Parentes e amigos haviam passado já por todas as fases da espera: tendo principiado por não ligar a mínima importância ao atraso dos noivos, ei-los que se voltavam para trás cada vez com mais freqüência, perguntando-se a si próprios que teria acontecido; e, por fim, como para dissipar o mal-estar que os inundava, fingiam o ar indiferente de pessoas interessadas nas conversas entabuladas entre si. O arquidiácono, como a lembrar quanto era precioso o seu tempo, tossia, impaciente, fazendo estremecer os vidros das janelas. No coro ouviam-se os cantores, aborrecidos, ensaiando a voz ou associando-seruidosamente. O padre a todo o momento estava a enviar o diácono ou o sacristão a informar-se se o noivo já chegara, e ele próprio, de casula lilás e cíngulo bordado, cada vez com mais freqüência assomava às portas laterais. Por último, uma das senhoras olhou para o relógio e disse: «É estranho.» Todos os convidados, inquietos, principiaram a exprimir em voz alta o seu descontentamento e a sua surpresa. Uma das testemunhas foi ver o que se passava lá fora. Entretanto, Kitty, com o seu vestido branco, o seu grande véu e a sua coroa, há algum tempo já que se encontrava na sala da sua casa, na companhia da madrinha e de sua irmã Natália Lvova. Espreitava pela janela. Há uma meia hora já que espiava que a sua testemunha a avisasse da chegada do noivo à igreja.
Pela sua parte, Levine, de calças, mas sem colete nem casaca, percorria de um lado para o outro os seus aposentos do hotel, indo à porta a cada momento. Porém, nada de lobrigar no corredor a pessoa que esperava; desesperado, voltara para trás, agitando os braços para Stepane Arkadievitch, que fumava tranqüilamente. — Já terá havido alguma vez um homem em tão estúpida situação?— Sim, estúpida — confirmou Stepane Arkadievitch, sorrindo com doçura. — Mas sossega, não tarda que te tragam isso.
— Mas que vou eu fazer? — exclamou Levine, mal reprimindo a ira. — Não há nada a fazer com estes absurdos coletes brancos abertos. Impossível! — acrescentava, mirando o peitilho da camisa todo amarrotado. — E se as minhas malas já estivessem no comboio? — gritou fora de si. — Porás a minha.— Era por aí que eu devia ter principiado.
— Não sejas ridículo... Paciência, tudo se «apanhará». Ao pedir a Kuzma, o velho criado, a roupa para se vestir, este dera a Levine a casaca, o colete, e tudo o mais, excepto a camisa.
— E a camisa? — exclamara Levine.
— Já a tem vestida — replicou o criado, com um sorriso tranqüilo. Kuzma, ao receber ordem de arranjar as coisas do amo e de as mandar para casa dos Tcherbatski, de onde os noivos partiriam naquela noite, não se lembrara de deixar uma camisa de fora própria para a casaca. A camisa que Levine tinha no corpo desde a manhã, toda amarrotada, seria um enxovalho com o colete aberto à moda. Como a casa dos Tcherbatski ficava muito longe para mandarem buscar a camisa, tinham enviado o criado a comprar uma, mas este voltara de mãos a abanar. Era domingo e tudo estava fechado. Mandaram então a casa de Stepane Arkadievitch, buscar uma, mas era muito larga e muito curta. Finalmente,decidiram mandar a casa. dos Tcherbatski, para que abrissem os baús. E enquanto na igreja esperavam o noivo, este, como uma fera enjaulada, andava no seu quarto de um lado para o outro, assomando à porta do corredor a cada instante. Lembrava-se, horrorizado, do que dissera a Kitty e sentia-se desesperado ao pensar no que ela podia estar a supor.
Finalmente Kuzma, o culpado, já exausto, surgiu no quarto com a camisa na mão.— Apanhei-a por muita sorte. Já estavam a pôr as coisas num carro — disse ele.
Três minutos depois, sem olhar para o relógio, para que a ferida não se abrisse ainda mais, precipitava-se Levine pelo corredor fora.
— Com isso não remedeias nada — dizia-lhe Stepane Arkadievitch, sorrindo e seguindo-o sem pressa. — Tudo se apanhará, tudo se apanhará.— Já chegou. Ali está ele. Qual? O mais novo, não é assim? E ela, a pobrezinha? Parece mais morta do que viva — dizia-se entre a multidão, quando Levine, juntando-se à noiva perto da porta, penetrou com ela no templo.
Stepane Arkadievitch contou à mulher o motivo do atraso, e os convidados sorriam, fazendo comentários a meia-voz. Levine não via nada nem ninguém: só tinha olhos para a noiva. Todos diziam que Kitty estava muito abatida naqueles últimos dias e com o véu ainda parecia menos bonita do que de facto era. Mas Levine não era da mesma opinião. Mirava o alto penteado de Kitty, o seu amplo véu branco, com as suas flores brancas, a sua fina cintura, a alta gola que lhe enquadrava virginalmente o airoso colo, descobrindo-o um pouco na frente — e parecia-lhe mais bela do que nunca, não porque as flores, o véu, o vestido, este de Paris, acrescentassem qualquer coisa à sua beleza, mas porque, apesar do esplendor artificial de tais atavios, a expressão do seu bonito rosto, dos seus olhos e dos seus lábios respirava uma especial sinceridade ingênua. — Já estava a pensar que te querias escapulir — disse-lhe Kitty, sorrindo.— Aconteceu-me uma coisa tão estúpida que até tenho vergonha de ta contar — replicou Levine, corando. Mas teve de prestar atenção a
Sérgio Ivanovitch, que se aproximara.
— Que linda história essa da tua camisa! — exclamou este, abanando a cabeça e sorrindo.
— É verdade, é verdade! — replicou Levine, sem compreender o que ele dizia.
— Agora, Kóstia, temos de resolver um problema importante — interveio Stepane Arkadievitch, com fingida preocupação. — A questão é grave e tu pareces-me em estado de lhe apreciar toda a importância. Perguntam-me se devem acender as velas novas ou as já queimadas. A diferença é de dez rublos — acrescentou, insinuando um sorriso. — Por mim, já decidi, mas receio que não estejas de acordo.
Levine percebeu que se tratava de um gracejo, mas não foi capaz de rir.— Então, que resolves tu? Acendem as novas ou as já queimadas? Eis a questão.
— As novas, as novas!
— A questão está resolvida — concluiu Stepane Arkadievitch, sempre a sorrir. — Temos de reconhecer que esta cerimônia torna as pessoas bastante estúpidas — murmurou para Tchirikov, enquanto Levine, depois de lhe relancear um olhar desconcertado, voltava para junto da noiva.
— Toma tento, Kitty, procura ser a primeira a pôr o pé no tapete— disse, aproximando-se da noiva, a condessa Nordston. — Lindas coisas faz, não há dúvida! — acrescentou, dirigindo-se a Levine.
— Quê? Não tens medo? — perguntou Maria Dimitrievna, uma velha tia.
— Não terás frio? Estás pálida... Abaixa-te um momento — disse a Senhora Lvov, erguendo os lindos braços para ajeitar a coroa da irmã.Dolly aproximou-se, por sua vez, e quis falar; mas a emoção estrangulou-lhe a voz na garganta e soltou um riso nervoso.
Kitty olhava para toda a gente com um olhar tão vago como o de Levine.Entretanto, os clérigos paramentavam-se e o sacerdote, acompanhado do diácono, aproximava-se do facistol, colocado na nave da igreja. O sacerdote dirigiu-se a Levine, dizendo-lhe qualquer coisa, mas ele não o entendeu.
— Pegue na noiva pela mão e conduza-a — disse a Levine a testemunha.Levine não percebeu. Várias vezes os presentes o corrigiram. Incapaz de compreender o que queriam dele, fazia o contrário do que lhe diziam. Finalmente, no momento em que, desanimados, todos iam desistir de o encaminhar, deixando-o entregue à sua própria inspiração, compreendeu que com a mão direita devia pegar na mão direita da noiva sem alterar a postura em que estava. Então precedidos do sacerdote, os dois deram alguns passos em frente e pararam diante do facistol. Parentes e convidados acompanhavam os noivos, num murmúrio de vozes e num frufru de sedas. Alguém se abaixou para ajeitar a cauda da noiva, e depois caiu um silêncio tão profundo na nave da igreja que se ouviam as gotas de cera tombando das velas.
O velho sacerdote, com o solidéu na cabeça e as madeixas de cabelos brancos, de um branco argênteo, penteadas para trás das orelhas, extraiu as miúdas e rugosas mãos de debaixo da pesada casula bordada a prata e com uma grande cruz dourada nas costas e principiou a remexer em qualquer coisa junto ao facistol. Stepane Arkadievitch aproximou-se, cauteloso, do velho sacerdote, disse-lhe alguma coisa em voz baixa, e, piscando o olho a Levine, voltou para o seu lugar. O sacerdote acendeu duas velas engrinaldadas de flores, ficou com elas inclinadas na mão esquerda, e enquanto a cera ia gotejando lentamente voltou-se para os noivos. Era o mesmo clérigo que confessara Levine. Depois de mirar o noivo com os seus olhos tristes e cansados mirou a noiva e em seguida, soltando um suspiro, tirou a mão direita de sob a casula e abençoou Levine. Da mesma forma, mas com um matiz de doçura, pousou os dedos dobrados sobre a cabeça inclinada de Kitty. Depois, ofereceu-lhe as velas e, pegando no incensário, afastou-se lentamente.«Será possível que tudo isto seja verdade?», pensava Levine, virando-se para a noiva. Via-lhe o perfil desde o alto e graças a um movimento imperceptível dos seus lábios e das suas pestanas percebeu que ela lhe sentira o olhar. Kitty permanecia imóvel; mas a gola do vestido agitou-se-lhe, roçando-lhe pela orelha rosada. Levine percebeu que um suspiro se afogara no peito de Kitty e que tremera na luva de cano alto a mãozinha que segurava a vela.
De repente, tudo se lhe desvaneceu na memória, o atraso, o descontentamento dos amigos, a estúpida história da camisa, e já nada mais sentia além de uma emoção onde havia terror e alegria.
O arquidiácono, belo homem de cabelos anelados, a dalmática bordada a prata, caminhou em passo firme para o padre e erguendo com dois dedos, num gesto familiar, a estola deste, entoou um solene
«Abençoa-nos, Pai», que ressoou longamente pela nave da igreja.
«Bendito seja Deus, agora e sempre e pelos séculos dos séculos», respondeu o velho sacerdote, na sua voz suave e melodiosa. E inundando toda a igreja, das janelas baixas ao topo da abóbada, um acorde de coro invisível elevou-se, harmonioso e amplo, cresceu e, cessando um instante, distinguiu-se suavemente.
Como sempre, orou-se pela outra vida e pela salvação da alma, pelo sínodo, pelo czar e pelos servos de Deus, Constantino e Catarina, que naquele dia contraíam matrimônio.«Oremos para que Deus os ajude e lhes conceda um amor eterno e pacífico.» Em toda a igreja reboava a voz do arquidiácono.
Levine ouvia essas palavras, surpreendido: «Como adivinharam que é de ajuda que eu preciso?», pensou, lembrando-se das dúvidas e receios por que passara. «É de ajuda que necessito precisamente agora.» Quando o arquidiácono acabou, o sacerdote dirigiu-se aos noivos com um missal na mão.
— «Deus eterno que uniste os que estavam separados — leu com voz doce e cantada —, que lhes concedeste a união do amor indestrutível, que abençoaste Isaac e Rebeca, como rezam os livros santos, abençoa os teus servos Constantino e Catarina e ensina-lhes o caminho do bem. Louvado seja Deus misericordioso, que ama os homens. Padre, Filho, e Espírito Santo, hoje e sempre e pelos séculos dos séculos.»— Ámen — responderam de novo as vozes do coro invisível.
«Que uniste os que estavam separados e lhes concedestes a união do amor indestrutível.» «Que profundo sentido têm estas palavras e como estão de harmonia com o que sinto neste momento!», pensou Levine. «Sentirá ela o mesmo que eu?»
Ao voltar-se, encontrou-se com o olhar de Kitty.
Pela expressão desse olhar, Levine acreditou que sim. Mas não era certo. Kitty mal compreendia as palavras da oração e nem sequer as ouvia. Não podia ouvi-las nem entendê-las, tão grande a comoção que lhe invadia a alma e nela por momentos se expandia. Tomava-a uma grande alegria ao ver realizar-se o que durante mês e meio fora o sonho da sua alma, ao ver cumprido o que durante aquelas seis semanas representara toda a sua satisfação e tormento.
No dia em que, com o seu vestidinho escuro no salão da sua casa, se aproximara de Levine em silêncio e se lhe oferecera, na sua almadera-se um rompimento com a vida passada, principiando vida nova, completamente desconhecida para ela, embora aparentemente desse a impressão de continuar a viver a mesma vida. Aquelas seis semanas haviam sido as semanas mais felizes e atormentadas de toda a sua existência. A sua vida, os seus anelos e as suas esperanças concentraram- se-lhe naquele homem a quem ainda não compreendia, a quem a unia um sentimento ainda mais incompreensível, que ora a atraía ora a repelia, continuando ao mesmo tempo a viver como sempre vivera. E aquilo, aquela maneira de viver, levava-a a horrorizar-se de si mesma, da sua completa e invencível indiferença para com todo o passado; para com as coisas, para com os costumes, para com as pessoas que a estimavam: a mãe, amargurada por tamanha indiferença, o querido e carinhoso pai, a quem antes amara mais do que a coisa alguma no mundo. Tão depressa se afligia com esta indiferença como com as causas que a haviam conduzido até aí. Não podia pensar nem desejar fosse o que fosse alheio à vida com Levine. Mas essa vida ainda não se realizara e Kitty nem sequer podia imaginar claramente o que essa vida fosse. Tudo era expectativa, temor e jubilosa ansiedade perante o novo e o desconhecido. E eis que isto ia acabar: a expectativa, o desconhecimento e o remorso de renunciar à vida passada. E eis que algo de novo principiava. E nem por isso era menos terrível, desconhecido que era. Terrível ou não, contudo, já estava consumado na sua alma havia seis semanas, agora tratava-se apenas de consagrar o consumado.
Voltando ao facistol, o sacerdote pegou com dificuldade no anelzinho de Kitty e pedindo a Levine que lhe desse a mão, colocou-lho na primeira falange do dedo.— Uno-te, Constantino, servo de Deus, a Catarina, serva de Deus.
E enfiando o anel grande no dedinho vermelho de Kitty, tão frágil que fazia pena, pronunciou as mesmas palavras, Os nubentes procuraram várias vezes fazer o que lhes era devido, mas enganavam-se sempre e o sacerdote corrigia-os em voz baixa. Finalmente, feito o necessário e depois de os benzer com os anéis, o sacerdote entregou de novo o anel grande a Kitty e o pequeno a Levine. Os noivos voltaram a enganar-se e por duas vezes passaram os anéis de mão em mão, sem conseguirem fazer o que deviam.
Dolly, Tchirikov e Stepane Arkadievitch adiantaram-se para os ajudar. Reinava a confusão, por todo o templo se cochichava e havia sorrisos; mas a expressão solene e humilde dos noivos não se modificara. Pelo contrário, ao trocarem as mãos ainda pareciam mais doces e solenes e o sorriso com que Oblonski lhes dissera, em voz baixa, que deviam pôr cada um o seu anel, mau grado seu expirou-lhes nos lábios.
Compreendera que um sorriso naquele momento era como que uma ofensa aos nubentes.
— Oh! Deus! — continuou o sacerdote, depois da troca dos anéis — Tu que criaste o homem no princípio do mundo e lhe deste a mulher para servir-lhe de companheira e perpetuar o gênero humano, Tu, Deus, Senhor nosso, que enviaste a Tua verdade aos teus servos, a nossos pais eleitos por Ti, de geração em geração, digna-Te olhar para o teu servo Constantino e para tua serva Catarina e confirma esta união na fé e num mesmo pensamento de verdade e de amor... Levine via agora, cada vez mais claramente, que todas as suas ideias sobre o casamento e que todas as suas ilusões sobre a maneira de organizar a sua vida eram pueris. O que se estava a realizar era algo que não entendera até então, e que compreendia menos do que nunca. Sentia oprimir-se-lhe o peito, sacudido por soluços cada vez mais fortes, e as lágrimas vinham-lhe aos olhos, sem que ele pudesse retê-las.