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Ana Karenina
(Segunda PARTE)

Leon Tolstoi

CAPÍTULO I

No fim do Inverno, os Tcherbatski tiveram uma conferência médica para decidir o que havia a fazer quanto à saúde de Kitty a jovem sentia-se muito fraca e a aproximação da Primavera pioraria as coisas. O médico assistente receitara lhe óleo de fígado de bacalhau, depois ferro e finalmente nitrato de pra. Como, porém, nenhum destes remédios fizera efeito, aconselhara uma viagem ao estrangeiro. Foi então que decidiram consultar uma celebridade médica. Esta celebridade, homem ainda novo e muito cheio de si, exigiu um exame rigoroso da doente. Insistia, com uma certa complacência, em que o pudor das donzelas era uma reminiscência bárbara e nada mais natural do que um homem ainda novo auscultar uma mocinha seminua. Como o fazia diariamente sem sentir — assim o acreditava — a menor perturbação, era natural que considerasse o pudor das jovens não só um resto de barbárie, mas até uma injúria pessoal.

Não houve remédio senão transigir. Embora todos os médicos tivessem estudado na mesma escola e praticassem uma e a mesma ciência, e houvesse quem falasse mal desta sumidade, o certo é que em casa da princesa e entre as pessoas das suas relações se considerava esse médico como um caso extraordinário, estando todos certos de que era o único capaz de salvar Kitty. Depois de um exame minucioso da doente, muito confusa e envergonhada, o médico lavou cuidadosamente as mãos e voltou para o salão onde falou com o príncipe. Este ouviu o tossindo, taciturno. Homem idoso, saudável e nada tolo, o príncipe não acreditava na medicina e irritava se tanto mais com toda aquela comédia quanto era certo não ser o único, talvez, a compreender a causa da doença de Kitty «Este lebréu sai daqui como entrou, sem uma peça de caça», dizia ele consigo mesmo, exprimindo, nesta linguagem de caçador, a sua opinião sobre o diagnóstico do famoso doutor. Por seu lado, este não se dava sequer ao trabalho de esconder o desdém que lhe merecia o velho fidalgo. Quase não se dignava dirigir lhe a palavra, a esse pobre diabo, uma vez que quem mandava-la em casa, evidentemente, era a princesa. Preparava se para derramar diante dela as pérolas da sua eloqüência, quando ela apareceu com o médico da família e o príncipe logo tratou de se afastar para não deixar perceber o que pensava de toda aquela farsa. A princesa,

desconcertada, não sabia que fazer. Sentia se culpada perante a filha.

— Então, doutor, decida a nossa sorte — disse — Diga me tudo — Queria acrescentar «Há esperanças?», mas os lábios tremeram-lhe e contentou-se em repetir — Fale, doutor.

— Permita, primeiro, princesa, que eu tenha uma conferência com o meu colega, depois terei a honra de lhe dar a minha opinião.

— Querem que os deixemos sós?

— Como quiserem. A princesa suspirou e saiu.

Uma vez a sós com o colega, o médico da família emitiu timidamente a sua opinião.

— Devia tratar se do princípio de um processo tuberculoso, mas o célebre médico ouviu o, porém a meio da sua tirada interrompeu o, consultando o enorme relógio de ouro.

— Sim — disse ele —, mas o médico assistente calou se respeitosamente.

— Como o colega sabe, não podemos determinar o princípio de um processo tuberculoso. Antes do aparecimento das cavernas, não há nada concreto. No caso presente, contudo, certos sintomas, como a desnutrição, a excitação nervosa, e outros, levam nos a recear precisamente isso. A questão é esta que deve fazer se para melhorar a nutrição quando se suspeita da existência de um processo tuberculoso?

— Não devemos perder de vista, no entanto, as causas morais — permitiu se insinuar, com um sorriso subtil, o médico da família.

— Sim, naturalmente — respondeu o famoso doutor, depois de olhar de novo para o relógio — Perdoe me sabe dizer me se a ponte de Iauski está pronta ou se temos de fazer algum desvio? — perguntou — Ah! Já esta pronta! Então poderei chegar em vinte minutos. Como estávamos dizendo, a questão é a seguinte melhorar a nutrição e cuidar dos nervos. Uma coisa esta em relação com a outra. Temos de actuar nas duas direcções.

— E a viagem ao estrangeiro?

— Sou contra essas viagens. De resto, se houver um princípio de tuberculose, coisa que não podemos saber, uma viagem ao estrangeiro nada adiantará. O essencial é arranjar maneira de melhorar a nutrição sem prejudicar o organismo da doente.

E o eminente clínico expôs o seu plano de um tratamento de água de Soden, cujo mérito principal consistia a seu ver, na mocidade. O colega ouvia o com uma atenção respeitosa.

— Eu invocaria, em favor da viagem ao estrangeiro, a mudança de

ambiente, o afastamento de tudo que desperta recordações. E além disso é esse o desejo da mãe.

— Bom, nesse caso, que vão, mas que esses charlatães dos alemães não lhe agravem o mal? É preciso que ela siga estritamente o trata mento Pois bem, que vão — Tornou a olhar para o relógio.

— Oh! São, horas de partir — declarou ele, e dirigiu se para a porta O eminente médico comunicou à princesa que teria de voltar a ver a enferma — naturalmente movido por um sentimento de conveniência.

— Como? Tornar a vela? — exclamou a mãe, horrorizada.

— Não, não, princesa, apenas alguns pormenores.

— Pois bem, seja!

E a princesa acompanhou o médico ao salão onde estava Kitty, de pé, no meio da casa, muito magra, as faces afogueadas e um brilho peculiar nos olhos, causado pela vergonha por que passara. Quando os viu entrar de novo, os olhos encheram se lhe de lágrimas e corou ainda mais. A sua doença e os tratamentos que lhe impunham pareciam lhe tolos e ridículos. Tratá-la desta maneira era tão absurdo como apanhar do chão pedaços de um vaso partido e tentar colá-los. Tinha o coração despedaçado e queriam curá-lo com pílulas e pós? Não queria porém, contrariar a mãe, principalmente porque sabia que esta se considerava culpada.

— Faça favor de se sentar, princesa — disse o médico, sentando-se diante dela.

Depois de lhe tomar o pulso, voltou a fazer lhe perguntas aborrecidas Kitty respondeu lhe, mas não tardou a levantar se, impaciente.

— Desculpe me, doutor, mas na verdade tudo isto não adiante nada. É a terceira vez que me pergunta a mesma coisa. O médico afamado não se ofendeu.

— Excitação nervosa — observou ele, voltando-se para a princesa, como para uma pessoa de excepcional inteligência, expondo lhe cientificamente o estado da filha, e terminou indicando-lhe como devia tomar as águas de que estava a precisar. Ao perguntar lhe a princesa se de veriam ir ao estrangeiro, aquela sumidade médica reflectiu profunda mente e o resultado das suas reflexões foi que podiam partir, com a condição de não se fiarem nos charlatães alemães e de seguirem apenas as prescrições dele, medico russo.

A partida do médico foi um alívio a mãe voltou alegre para junto da filha e esta fingiu também estar alegre. Agora via se obrigada muitas

vezes a fingir.

— Na verdade sinto me muito bem maman. Mas se queres que partamos, podemos partir — disse, fingindo se interessada na viagem que iam fazer, e pôs se a falar dos preparativos.

CAPÍTULO II

Pouco depois de o médico sair, chegava Dolly. Inteirada de que iria haver uma conferência médica naquele dia e não obstante acabar de levantar se de mais um parto (nascera lhe uma filha no fim do Inverno) e dos muitos desgostos e preocupações que a afligiam, deixando em casa a recém nascida e outra filha doente, quis saber o que havia sobre o destino de Kitty, que naquele momento se decidia.

— Então? — disse ela, ao entrar no salão, sem tirar o chapéu — Estão contentes? Quer dizer tudo caminha bem.

Procuraram explicar lhe o que o médico dissera, mas o certo é que, conquanto este tivesse falado muito e muito bem, não conseguiram resumir lhe a sua opinião. Alias, não as autorizara ele a que fossem ao estrangeiro? Eis a única coisa que importava.

Dolly teve um suspiro involuntário. A irmã, a sua melhor amiga, ia partir? E a vida era para ela tão pouco alegre? Depois da reconciliação com o marido, as suas relações com ele tinham se tornado francamente humilhantes a soldadura feita por Ana não mostrara firmeza e a harmonia conjugal quebrara no mesmo lugar. Nada de concreto, mas a verdade é que andavam sempre com falta de dinheiro Stepane Arkadievitch quase não parava em casa e a suspeita de que lhe era infiel atormentava Dolly, embora procurasse fugir a essa ideia, receosa de passar de novo pelo sofrimento que experimentara, entregando-se ao ciúme. A explosão de ciúmes que se verificara da primeira vez não podia voltar a produzir se, e, se era certo que isso não voltaria a dar se, não receava menos uma nova ruptura dos seus hábitos. Preferia, pois, deixar se enganar, desprezando o marido e desprezando se a si própria, mercê dessa mesma fraqueza. Além disso, as preocupações inerentes a uma família numerosa já lhe não davam pouco que pensar ora não aumentava de peso a recém nascida, ora a ama se despedia, ora, como naquele momento, algum dos filhos adoecia.

— As crianças como estão? — inquiriu a princesa

— Oh, mãe! As coisas não vão bem lá por casa. Lili está de cama,

tenho medo que seja escarlatina. Vim saber da Kitty, porque, se for escarlatina, Deus nos livre, não poderei sair de casa tão cedo.

O velho príncipe saiu também do escritório logo que soube da partida do médico e depois de apresentar a face ao beijo de Kitty, e de trocar algumas palavras com ela, dirigiu se à mulher.

— Que resolveram, afinal? Sempre partem? E que destino me dão?

— Acho melhor ficares, Alexandre.

— Como queiras.

— Maman, por que não há de o pai vir connosco? — perguntou Kitty — Seria melhor para ele, e para nós também.

O príncipe, que se sentara, levantou-se e acariciou os cabelos de Kitty. Esta levantou o rosto e fitou-o com um sorriso forçado. Kitty tinha a impressão de que de toda a família o pai era quem melhor a compreendia, embora pouco conversasse com ela. A filha mais nova era a predilecta do príncipe e o afecto que ele lhe tinha, pensava ela, devia torná-lo mais compreensivo. Quando o olhar de Kitty se cruzou com o do pai, que a fitava com os seus bons olhos azuis, teve a impressão de que ele lhe lia na alma e que via nela tudo o que lá se passava. Corando, debruçou-se para ele, à espera de um beijo, mas ele contentou-se em passar-lhe a mão pelos cabelos e em dizer:

— Que estúpidos estes cabelos postiços! Nunca conseguimos acariciar os cabelos da nossa filha; no que tocamos é na cabeleira de alguma pobre defunta... Bom, Dolly, que há? — inquiriu, dirigindo-se à filha. — Como vai o teu «ás»? — Bem, paizinho — replicou-lhe Dolly, compreendendo que o pai se referia ao marido. — Está sempre fora de casa, quase não o vejo — acrescentou, sem poder dominar um sorriso irônico.

— Ainda não foi à aldeia vender o bosque?

— Não, está sempre a preparar-se para isso.

— Realmente!... Então, também eu tenho de me preparar? Pois seja — acrescentou, dirigindo-se à mulher, enquanto voltava a sentar-se.

— E tu, Kitty, sabes o que deves fazer? É preciso que uma destas manhãs, ao acordares, digas a ti mesma; «Estou completamente curada e sinto-me alegre, vou dar um passeio com o papá pela manhã muito cedo, respirar o ar fresco.» Que te parece?

Ao ouvir estas palavras do príncipe, aliás de uma grande simplicidade, Kitty sentiu-se perturbada, como um criminoso surpreendido em flagrante. «Sim, ele sabe tudo, compreende tudo e com estas palavras dá-me a entender que, ainda que isso me custe, devo

dominar-me.» Quis falar, mas as lágrimas embargaram-lhe a voz e saiu correndo.

— É isto que consegues com as tuas tolices! — exclamou a princesa, irritada. — Sempre há-de...—prosseguiu, fazendo-lhe um sermão cheio de censuras.

O príncipe escutou-a um bom bocado em silêncio, mas o rosto ia-se-lhe anuviando cada vez mais.

— Faz tanta pena, a pobrezinha! Não compreendes que a menor referência à causa do seu desgosto a faz sofrer? Ah, como a gente se pode enganar com os outros! (Pela mudança do tom da voz, o príncipe e Dolly compreenderam que ela se referia a Vronski.) Só não compreendo que não haja leis para castigar criaturas tão vis!

— Farias melhor se te calasses! — exclamou o príncipe em tom sombrio, erguendo-se e fazendo menção de retirar-se. Mas ao chegar ao limiar da porta, deteve-se. — Essas leis existem, minha boa amiga, e já que me obrigas a isso, dir-te-ei que em tudo isto a verdadeira culpada és tu apenas. Sempre houve leis contra semelhantes indivíduos, e ainda as há! E embora velho como sou, eu próprio lhe teria pedido contas, a este peralvilho, se... se não se têm passado certas coisas que não deviam ter-se passado. E agora trata-lhe da saúde, manda vir essa cambada de charlatães! Dir-se-ia que o príncipe estava disposto a dizer ainda muito mais coisas, mas, como sempre que se tratava de questões sérias, a princesa, ao ouvi-lo, logo se arrependeu e se aquietou.

— Alexandre, Alexandre — murmurou ela, caminhando para ele, os olhos cheios de lágrimas.

O príncipe assim que a viu chorar acalmou-se e aproximou-se dela.

— Bom, bom, não chores mais! Bem sei que também sofres. Mas que havemos de fazer? Aliás, o mal não é grave e a misericórdia de Deus é infinita... Demos-Lhe graças... —acrescentou, já sem saber bem o que dizia e respondendo ao beijo que a princesa lhe depunha na mão. Por fim, resolveu retirar-se.

Guiada pelo seu instinto maternal, Dolly adivinhara, ao ver Kitty afastar-se chorando, que só uma mulher poderia ter influência sobre ela. Tirando o chapéu, chamou a si todas as forças e preparou-se para intervir. Quando a mãe increpou o príncipe, Dolly procurara detê-la, na medida que lhe permitia o respeito devido; mas à resposta do pai apenas opôs o silêncio, envergonhada pela mãe, embora não tardasse em comover-se ante a ternura que o príncipe logo manifestara pela princesa. Assim que o príncipe se retirou, logo ela se dispôs a cumprir a sua missão.

— Tenho-me esquecido de te perguntar, maman, se sabias que

Levine estava disposto a pedir a mão de Kitty, quando aqui esteve pela última vez. Disse-o ao Stiva.

— Sim, e então? Não compreendo.

— Talvez a Kitty o tenha repelido. Não lhe disse nada, mãe?

— Não, não me falou nem de um nem de outro: é demasiado orgulhosa. Mas sei que tudo isto é porque...

— Sim, mas suponha que ela repeliu o Levine! Nunca o teria feito se o outro não existisse, tenho a certeza. E esse outro enganou-a miseravelmente.

Custando-lhe reconhecer-se culpada perante a filha, a princesa zangou-se.

— Ai, já não compreendo nada! Hoje em dia cada um quer fazer o que lhe dá na veneta, já as filhas não dizem nada às mães, e depois...

— Maman, vou falar com ela.

— Pois sim. Porventura to proíbo?

CAPÍTULO III

Ao entrar no minúsculo quarto de Kitty, um gabinetezinho agradável, forrado de seda cor-de-rosa e guarnecido de figurinhas de vieux Saxe, tão juvenil, tão rosado e tão alegre como a própria Kitty havia dois meses, Dolly lembrou-se do prazer que ambas experimentaram quando um ano antes se dedicaram a decorá-lo. Oprimia-lhe o coração ver Kitty sentada numa cadeirinha baixa, junto a uma porta, com o olhar fixo num ponto qualquer do tapete. Havia no seu rosto uma expressão fria e severa, que não desapareceu com a entrada de Dolly. Contentou-se em lançar-lhe um olhar vago.

— Tenho receio de não poder voltar a sair de casa tão depressa, e de que não me possas vir visitar — disse Daria Alexandrovna, sentando-se ao lado da irmã. — Por isso gostava de conversar um pouco contigo.

— De quê? — perguntou Kitty, alarmada, levantando a cabeça.

— De que há-de ser senão do teu desgosto?

— Não tenho desgostos.

— Basta, Kitty. Julgas que porventura não sei? Sei tudo. E podes crer que é uma coisa tão insignificante... Todas passamos por isso. Kitty

permanecia calada, no rosto uma expressão severa.

— Não merece que sofras por ele — prosseguiu Daria Alexandrovna, atacando o assunto de frente.

— Claro, porque me desprezou — disse Kitty em voz trêmula. — Não me fales disso! Não me digas nada, peço-te!

— Mas quem te disse uma coisa dessas? Ninguém o acreditaria. Pelo contrário, estou convencida de que ele gostava de ti e que ainda gosta, mas...

— Ah, não há nada que mais me exaspere do que essa compaixão! — exclamou Kitty, exaltando-se de repente.

Agitou-se na cadeira, corando e, movendo rapidamente os dedos, pôs-se a retorcer, ora com uma mão ora com outra, a fivela do cinto. Dolly conhecia-lhe esse gesto, tão seu habitual, quando se exaltava. Sabia-a capaz de proferir palavras inúteis e desagradáveis. Quis acalmá-la, mas já era tarde.

— Que queres tu fazer-me compreender — prosseguiu Kitty, muito agitada —, que eu me apaixonei por um homem que não quer saber de mim e que morro de amor por ele? E é a minha própria irmã que me vem dizer isto, uma irmã que julga testemunhar-me... testemunhar-me simpatia!... Não preciso dessa piedade hipócrita!

— Kitty, estás sendo injusta!

— Para que me atormentas?

— Nunca pensei nisso... Pelo contrário. Vejo que sofres... Kitty, no seu arrebatamento, nada ouvia.

— Não tenho que me afligir nem que me consolar. Sou demasiado orgulhosa para amar um homem que não gosta de mim.

— Mas eu não compreendo... Ouve, diz-me a verdade — replicou Daria Alexandrovna, pegando-lhe na mão. — Diz-me, Levine falou-te?

Ao ouvir pronunciar o nome de Levine, acabou por perder completamente o domínio sobre si própria: deu um pulo da cadeira, atirou ao chão a fivela do cinto e gesticulando bruscamente exclamou: — Que tem o Levine a ver com isto? Não compreendo por que me queres fazer sofrer. Já o disse e repito-o: sou orgulhosa e absolutamente incapaz de fazer, nunca, nunca, o que tu fizeste: voltar para um homem que me enganou, que se apaixonou por outra mulher. Não posso compreendê-lo. Tu podes fazer uma coisa dessas, mas eu não! Ao dizer isso, encaminhou-se para a porta, mas ao ver que Dolly baixava a cabeça tristemente, sem dizer palavra, deixou-se cair numa cadeira e escondeu o rosto no lenço.

O silêncio prolongou-se por um ou dois minutos. Dolly pensava nas suas próprias aflições: a humilhação por que passara, que ela tão bem sentia, parecia-lhe agora mais dolorosa lembrada pela irmã. Kitty ferira-a; nunca a julgara capaz de tanta crueldade. Mas de súbito sentiu o ruge-ruge de um vestido, ao mesmo tempo que um soluço abafado, enquanto dois braços lhe envolviam o pescoço: Kitty estava de joelhos diante dela.

— Dolinka, sou tão desgraçada! — murmurou ela num tom contrito, escondendo na saia de Dolly o seu lindo rosto coberto de lágrimas.

Eram precisas talvez aquelas lágrimas para lubrificar as rodas da máquina das relações das duas irmãs: depois de terem chorado, não voltaram a falar nas coisas que as preocupavam, mas, falando de outros assuntos, compreendiam-se uma à outra perfeitamente. Kitty sabia que as suas palavras de censura e de azedume tinham ferido profundamente a irmã, mas sabia também que Dolly não lhe queria mal por isso. Por outro lado, Dolly sentia que adivinhara tudo: Kitty recusara a proposta de Levine para depois se ver enganada por Vronski. Aquele era o ponto doloroso, embora estivesse pronta a amar Levine e a esquecer Vronski. Claro que Kitty nada disse a este respeito, mas, assim que serenou, deixou entrever o seu estado de espírito.

— Não tenho nenhum desgosto, mas não podes calcular como tudo se me tornou odioso e repugnante, a começar por mim própria. Não podes calcular os pensamentos maus que me vêm à mente.

— Que maus pensamentos podes ter? — perguntou Dolly, sorrindo.

— Os piores, os mais feios, não os posso descrever. Não é nem tédio nem desespero, é coisa bem pior. Tudo que havia de bom em mim me parece, às vezes, ter cedido lugar ao mal... Como explicar-te? — prosseguiu ela, vendo uma certa perplexidade nos olhos da irmã. — O pai disse-me há pouco... Parece-me que a única coisa que ele desejava para mim era um marido. Se a mãe me leva a um baile, acho que o fazem apenas para me casarem e para se verem livres da filha. Bem sei que não é verdade, mas não posso deixar de pensar assim. Não posso ver esses homens a quem dão o nome de pretendentes. Tenho a sensação de que me estão a tomar as medidas. Antigamente era uma alegria para mim ir a qualquer baile, gostava de me vestir bem, agora tenho vergonha, não me sinto à vontade. Que queres que eu faça? O médico... Sim... Kitty calou-se, perturbada; queria dizer, além disso, que depois daquela nefasta transformação, detestava Stepane Arkadievitch e não podia tornar a vê-lo sem que as imagens mais baixas se lhe representassem no espírito.

— Sim, é verdade, tudo se me apresenta sob um aspecto infame, material... — prosseguiu Kitty. — Eis no que consiste a minha doença. Talvez isto venha a passar.

— Procura não pensar mais nisso...

— Não posso. Só me sinto bem em tua casa, no meio das crianças.

— Que pena não poderes ir agora para lá.

— Pois irei. Já tive a escarlatina e hei-de convencer a mãe.

Kitty cumpriu o que dissera: declarada a escarlatina, foi para a casa da irmã e ajudou-a a, tratar das seis crianças, e todas melhoraram, felizmente. Mas nem por isso a sua própria saúde melhorou. Os Tcherbatski saíram, portanto, de Moscovo pela Quaresma e dirigiram-se ao estrangeiro.

CAPÍTULO IV

A alta sociedade petersburguesa constitui, na realidade, um único círculo, onde todos se conhecem e se visitam. Mas este grande círculo tem as suas subdivisões. Ana Arkadievna tinha amizades íntimas e relações em três círculos diferentes. O primeiro, o círculo oficial, compreendia os colegas e os subordinados do marido, unidos ou divididos entre si pelas relações sociais mais diversas e mais caprichosas. A princípio, Ana nutrira por estas personagens um respeito quase religioso de que não lhe restava mais que a recordação. É que as conhecia a todas agora, como as pessoas se conhecem numa cidade pequena, cada uma com as suas manias e as suas fraquezas, as suas simpatias e as suas antipatias. Sabia onde lhes apertava o sapato, a quem deviam a situação que ocupavam e por que razão, quais as relações entre elas e relativamente ao centro comum a todas. Mas o certo é que, a despeito dos conselhos da condessa Lídia, este círculo de personalidades oficiais, a que estava ligada pelas funções do marido, não a interessava nada e evitava-o o mais possível.

O segundo círculo, ao qual Alexei Alexandrovitch devia o êxito da sua carreira, tinha por centro a condessa Lídia. Compunha-se de damas idosas, feias, virtuosas e devotas e de homens inteligentes, instruídos e ambiciosos. Um deles cognominara este grupo «A consciência da sociedade petersburguesa». Alexei Alexandrovitch apreciava-o muito e Ana, que sabia conviver com todas as pessoas, encontrou nele muitos amigos durante os primeiros tempos da sua vida em Sampetersburgo. Mas agora, de regresso de Moscovo, este círculo tornara-se-lhe

insuportável: afigurava-se-lhe que ali todos, a começar por ela própria, passavam o tempo a fingir, e como se sentia mal e pouco à-vontade em casa da condessa Lídia freqüentava-a cada vez menos.

Finalmente, o terceiro círculo era a alta sociedade propriamente dita, a sociedade dos bailes, dos banquetes, dos vestidos elegantes, a sociedade que dava a mão à Corte para não cair nessa meia sociedade que julgava menosprezar, compartilhando dos seus gostos. O elo que prendia Ana Karenina a este meio era a princesa Betsy Tverskaia, mulher de um dos seus primos, que dispunha de um rendimento de vinte mil rublos. Desde que Ana chegara a Sampetersburgo a princesa Betsy sentira-se atraída por ela. Procurava introduzi-la no seu meio, troçando muito do da condessa Lídia.

— Quando eu for velha e feia, farei como ela — dizia Betsy —, mas a Ana, nova e bonita como é, que vai fazer nesse asilo? Entretanto, Ana mantivera-se muito tempo afastada dessa sociedade, cujo meio de vida estava em relação com os seus meios de fortuna e que, aliás, lhe agradava menos que a outra. No seu regresso de Moscovo, porém, tudo se modificara: trocara os amigos virtuosos pelos amigos da alta sociedade. Ali encontrava Vronski, e sempre que o via sentia uma deliciosa emoção. A maior parte das vezes viam-se em casa de Betsy, Vronski de família e prima germana de Alexei. Este, porém, não perdia a mínima oportunidade de vê-la e de lhe falar do seu amor. Ana não dava qualquer esperança, mas, assim que o via, sentia apoderar-se da sua alma aquela mesma alegria de que se sentira possuída quando do primeiro encontro na estação. Esta alegria denunciava-se no sorriso que lhe aparecia nos lábios e na luz do olhar, e o certo é que percebia isso, embora sem forças para o esconder.

De princípio, Ana acreditava sinceramente que a perseguição de Vronski a desgostava, mas certa noite em que ele não apareceu numa casa onde esperava encontrá-lo, compreendeu claramente, frente à amargura que a trespassou, quanto eram vãs as suas ilusões e que, em vez de lhe desagradar, essa assiduidade constituía o interesse dominante da sua existência.

* * *

Uma cantora célebre cantava pela segunda vez e toda a alta sociedade fora à Ópera, incluindo Vronski, que estava na primeira fila da platéia.

Quando viu, porém, a prima num camarote, não esperou sequer pelo intervalo para ir ter com ela.

— Por que não veio jantar comigo? — disse-lhe ela, e acrescentou

a meia voz, de modo a não ser ouvida senão por ele: — Admiro essa segunda vista dos apaixonados: «ela» não está, mas vem depois do espectáculo.

Vronski interrogou-a com os olhos: Betsy respondeu-lhe com um aceno de cabeça; ele agradeceu-lhe com um sorriso e sentou-se junto dela.

— E os seus divertimentos de outrora, que é feito deles? — continuou a princesa, que seguia com uma prazer especial a marcha desta paixão. — Está apanhado, meu amigo.

— Não peço outra coisa — respondeu Vronski, com o seu sorriso sereno e bondoso. — Para falar francamente, se de alguma coisa me posso queixar é de não estar suficientemente «apanhado». Principio a perder a esperança.

— Que esperanças pode ter? — perguntou Betsy, defendendo a virtude da sua amiga. — Entendons-nous... Mas nos seus olhos excitados qualquer coisa dizia que ela compreendia tão bem como ele em que consistia essa esperança.

— Nenhuma — respondeu Vronski, mostrando, num sorriso, os seus dentes brancos e muito certos. — Perdão — acrescentou, pegando no binóculo, que retirou das mãos de Betsy, para observar, por cima dos ombros nus da prima, a fila dos camarotes do lado oposto. — Tenho receio de começar a ficar ridículo.

Vronski sabia perfeitamente que aos olhos de Betsy, bem como aos das pessoas do seu meio, não corria o mínimo risco de se tornar ridículo. Sabia muito bem que para essa gente o papel de namorado infeliz de uma donzela ou de uma mulher livre pode parecer ridículo, mas o do homem que persegue uma mulher casada e que tudo arrisca para a seduzir tem algo de belo e de grandioso e nunca pode parecer ridículo. Eis por que, pondo de lado o binóculo, olhou para Betsy com um sorriso de orgulho, que lhe brincava por debaixo do bigode.

— Mas porque não veio jantar? — insistiu ela, sem resistir a admirá-lo.

— É toda uma história. Estive ocupado. Em quê? Aposto um centra cem, ou contra mil, em como não adivinha... A reconciliar um marido com o homem que lhe ofendeu a mulher.

— E conseguiu?

— Quase.

— Tem de me contar isso no próximo intervalo — disse ela, levantando-se.

Entendamo-nos

— Impossível. Vou ao Teatro Francês.

— Deixa de ouvir a Nilson por causa disso? —exclamou Betsy, horrorizada, embora não fosse capaz de distinguir a Nilson da pior das coristas.

— Não me é possível. Tenho ali um encontro por causa da tal reconciliação.

— Bem-aventurados os pacificadores, que serão salvos — exclamou Betsy, que se lembrava de ter já ouvido qualquer coisa no gênero. — Bom, então diga-me depressa do que se trata.

E voltou a sentar-se.

CAPÍTULO V

— É um pouco indiscreto, mas como se trata de uma coisa muito simpática, estou ansioso por lha contar — disse Vronski, olhando-a com olhos risonhos. — Não direi nomes.

— Está bem, eu encarrego-me de os adivinhar. Tanto melhor.

— Então, ouça: dois rapazes bastante alegres...

— Seus camaradas de regimento, é claro!

— Não disse dois oficiais, mas dois rapazes que tinham almoçado bem...

— Traduza-se: fartos de beber.

— Talvez. Com óptima disposição, vão jantar a casa de um camarada. Passa por eles um carro; a linda mulher que o ocupa volta-se para trás, e, assim se lhes afigura, faz-lhes um aceno de cabeça. Está claro que lhe vão no encalço a todo o galope. Com grande surpresa deles, porém, a bela desconhecida pára exactamente diante da porta da casa para onde eles próprios se dirigiam. Sobe até ao andar superior. Apenas tiveram tempo de lobrigar dois lindos pèzinhos e por debaixo do véu o fulgor de uns lábios vermelhos.

— A avaliar pela maneira como se exprime, também devia fazer parte do grupo.

— Esquece-se do que disse há pouco... Os meus dois amigos entraram em casa do camarada, que nesse dia dava um jantar de despedida. Foi aí talvez que eles beberam um pouco mais do que deviam, como sempre acontece em jantares dessa ordem. À mesa tratam de investigar quem mora no andar de cima: ninguém lhes sabe prestar esse

esclarecimento. «Há donzelas na casa?», perguntam ao criado do amigo.

«Oh, há muitas», responde este. Findo o jantar, entram no escritório do amigo para escreverem uma carta à desconhecida. Redigem-na em tom incendiado e resolvem entregá-la em mão, para assim poderem explicar o que porventura ficasse obscuro.

— Para que me conta uma patifaria dessas? E depois?

— Tocam a campainha. Vem abrir uma jovem. Entregam-lhe a carta, declaram-lhe que estão loucos de amor e prontos a morrer diante daquela porta. A criada, estupefacta, parlamenta com eles. De súbito, aparece um sujeito vermelho como um pimentão, com suíças em forma de pata de coelho, que os põe na rua, não sem lhes dizer previamente que naquela casa só há uma mulher e que essa mulher é a sua.

— Como sabe que tinha suíças em forma de pata de coelho?

— Porque tentei hoje uma reconciliação.

— E depois?

— É o mais interessante da história. Acontece que aquele casal feliz é um conselheiro titular e esposa. O Senhor Conselheiro apresentou queixa e aí apareço eu como medianeiro. E que medianeiro! Junto de mim, Talleyrand fica a perder de vista.

— Onde estava a dificuldade?

— Já vai ver... Começámos por nos desculpar o melhor que pudemos. «Deplorável mal-entendido... Estamos desesperados... Queira desculpar-nos...» O conselheiro titular, com as suas suíças em forma de pata de coelho, principia a humanizar-se, mas também deseja exprimir os seus sentimentos e quando vai fazê-lo, exalta-se, diz grosserias e lá tenho de pôr novamente à prova as minhas habilidades diplomáticas.

«Reconheço que o comportamento desses rapazes não foi correcto, mas peco-lhe que tenha em consideração o equívoco: são rapazes e acabavam de jantar bem. Estão arrependidos e pedem-lhe que os desculpe.» O Senhor Conselheiro volta a humanizar-se. «Estou de acordo, conde, e estou mesmo disposto a perdoar-lhes, mas é preciso que compreenda: a minha mulher, uma senhora honesta, ver-se sujeita às perseguições, às grosserias, às impertinências de dois velhacos, de dois mise...» Isto nas bochechas dos ditos velhacos com quem estou encarregado de o reconciliar! Ponho novamente em jogo toda a minha diplomacia e de novo, quando o assunto parece resolvido, o conselheiro titular irrita-se, fica vermelho, eriçam-se-lhe as suíças e vejo-me obrigado a recorrer a novas subtilezas diplomáticas.

— Oh! Tenho de contar-lhe esta história — exclamou Betsy, numa gargalhada, dirigindo-se a uma senhora que acabava de entrar no

camarote. — Ri-me tanto!... Pois bem, bonne chance — acrescentou estendendo a Vronski o único dedo que o leque lhe deixava livre.

Antes de voltar para a primeira fila do camarote e de se exibir à luz crua do gás, com um rápido movimento de ombros alargou o decote do vestido para que a sala tivesse a completa revelação da sua esplêndida nudez.

Entretanto Vronski dirigia-se ao Teatro Francês, onde o seu comandante, que não falhava a uma única representação, lhe marcara, de facto, um encontro. Tinha de lhe fazer um relatório sobre a marcha das negociações que há três dias o ocupavam e divertiam. Os heróis da aventura eram dois oficiais do seu esquadrão: Petritski, de quem era grande amigo, e outro jovem, o príncipe Kedrov, que acabava de ingressar no regimento, belo rapaz e excelente camarada. E o mais importante é que a reputação do regimento estava em jogo.

Efectivamente, Wenden, o conselheiro titular, apresentara uma queixa ao coronel contra os ofensores da mulher. Segundo ele, esta, casada há seis meses, e em estado interessante, fora à igreja na companhia da mãe: uma súbita indisposição obrigara-a a tomar a primeira carruagem que lhe aparecera para voltar rapidamente a casa. Perseguida pelos oficiais, cheia de medo, subira as escadas a correr, o que lhe agravara o mal-estar físico. Ele, que já regressara da repartição, ouviu uma campainha e vozes desconhecidas. Foi ver quem era e ao defrontar os dois oficiais embriagados, com uma carta, pusera-os na rua, pedindo, agora, que eles fossem severamente castigados. O coronel enviara-lhe imediatamente Vronski.

— Diga o que quiser, Petritski está impossível — disse a Vronski o comandante do regimento. — Todas as semanas arma um escândalo. Esse funcionário não vai ficar por aí.

Efectivamente o caso era complicado. Não se podia pensar em duelo. Era indispensável, custasse o que custasse, acalmar o queixoso. Vronski compreendera-o imediatamente e o coronel confiava na sua habilidade, na sua inteligência e sabia quanto ele tinha em conta o bom nome do regimento. Os dois resolveram que Petritski e Kedrov apresentariam desculpas e que Vronski os acompanharia: o seu título e as suas insígnias de ajudante de campo deveriam impor-se ao ofendido. Assim a reconciliação estava ainda indecisa.

Vronski, ao chegar ao Teatro Francês, chamou o coronel ao foyer e contou-lhe o que se passava: o êxito, ou antes, o malogro da missão. Depois de muito pensar, o coronel decidiu não mexer mais no caso, o que não o impediu de fazer mais perguntas a Vronski e de rir a bom rir ao tomar conhecimento das oscilações de humor do Senhor Conselheiro e da

maneira hábil como Vronski, aproveitando um minuto de calma, tratara de se retirar trazendo consigo Petritski.

— História estúpida — concluiu ele —, mas engraçada. Seja como for, Kedrov não pode bater-se em duelo com esse sujeito! Quer dizer que estava furioso? — perguntou o coronel, rindo de novo a bom rir. — E que tal lhe parece a Claire esta noite? Maravilhosa, não é verdade? (Tratava-se de uma nova actriz francesa.) Por mais que a gente a veja representar, é sempre diferente. Só os Franceses são capazes de uma coisa destas, meu caro.

CAPÍTULO VI

A princesa Betsy saiu do teatro antes de terminado o último acto. Mal tivera tempo de entrar no toucador para passar a esponja de pó de arroz pelo longo rosto pálido e de arranjar se um pouco, mandando servir o chá no salão, logo principiaram a chegar as primeiras carruagens à sua vasta residência da Rua Bolchaia Morskaia. Os convidados desciam diante do grande alpendre, um porteiro monumental abria-lhes, sem ruído, a imensa porta envidraçada, atrás da qual costumava ler os jornais, todas as manhãs, para edificação dos transeuntes.

Quase ao mesmo tempo, entravam no salão, por uma porta, a dona da casa, já recomposta e o rosto refrescado, e, pela outra, os convidados. As paredes eram forradas de tecidos escuros, o chão coberto de tapetes espessos. Sobre uma mesa grande a luz das velas fazia cintilar a brancura da toalha em que estava o samovar de prata e um serviço de chá de porcelana transparente.

A princesa sentou se diante do samovar e tirou as luvas Lacaios práticos em deslocar cadeiras sem ninguém o notar ajudaram os convidados a sentar se. Logo se formaram dois grupos um em torno da dona da casa, o outro, no canto oposto do salão, em volta de uma formosa embaixatriz de bem desenhadas sobrancelhas pretas, toda de veludo negro. Nos primeiros momentos, como sempre acontece ao iniciar se uma reunião, a conversa, interrompida pelos que iam chegando, pelas chávenas de chá que se ofereciam e pela troca de cumprimentos permaneceu hesitante.

— É uma actriz extraordinária. Vê se logo que estudou Kaulbach — afirmou um diplomata no grupo da embaixatriz — Notaram como ela caiu? — Por amor de Deus, não falemos da Nilson, já está tudo dito a

seu respeito — exclamou uma gorda dama loura, muito corada, sem sobrancelhas nem postiços, que envergava um vestido de seda velho. Era a princesa Miagkaia, a quem chamavam l’enfant terrible por causa da sua irreverência. Assentada entre os dois grupos, apurava o ouvido e tomava parte na conversa dos dois — Já ouvi hoje três pessoas dizerem me a mesma coisa sobre Kaulbach. Parece que se tinham combinado. Não sei por que lhes caiu no gosto essa frase.

A conversa foi interrompida com este comentário. Houve que arranjar novo tema.

— Conte nos qualquer coisa divertida, mas que não seja maliciosa — pediu ao diplomata, que ficara sem saber o que dizer, a embaixatriz, muito hábil em artifícios de conversas elegantes, de smalltalk , como dizem os Ingleses.

— Dizem que isso é muito difícil e que a única coisa engraçada é a malícia — replicou o diplomata sorrindo — No entanto vou tentar. Desde que me dêem um tema. É o mais importante. Quando há um tema nada mais fácil que borboletear sobre ele. Às vezes penso que os grandes conversadores do século passado, se viessem hoje, teriam as suas dificuldades em manter uma conversa interessante Fazer espírito tornou-se uma maçada.

— Isso já foi dito há muito — interrompeu, rindo, a embaixatriz. A conversa ia assumindo um tom agradável, mas demasiado anódino para durar muito. Só havia um meio infalível de salvar a situação a maledicência. Era preciso recorrer a ela.

— Não acham que Tuchkevitch tem qualquer coisa de Luís XV? — voltou o diplomata, apontando, com um movimento de olhos, um belo rapaz louro junto à mesa.

— Oh! Sim! É no mesmo estilo do salão. Por isso vem cá tantas vezes. Desta vez a conversa manteve-se era divertido versar, por meio de alusões, um assunto interdito no local, a saber, a ligação de Tuchkevitch com a dona da casa.

Entretanto a conversa do grupo que se encontrava em volta desta flutuara um certo tempo sobre temas inevitáveis a notícia da última hora, o teatro e a censura ao próximo. E também ali prevaleceu a maledicência.

— Não ouviram dizer que a Maltischeva, a mãe, não a filha, está a fazer um trajo de diable rose? — Não é possível! Mas isso é delicioso!

Criança endiabrada Conversa de ninharias

— Admira me que com a inteligência dela, porque não é tola, não sinta o ridículo disso.

Todos tiveram qualquer coisa a dizer para criticar e ridicularizar a infeliz Maltistcheva, e as frases crepitaram, alegremente, como uma fogueira que arde.

O marido da princesa Betsy, um homem gordo e bom, coleccionador apaixonado de gravuras, ao saber que a mulher tinha convidados entrou no salão antes de sair para o clube. Em passos melífluos, que os grandes tapetes abafavam mais ainda, dirigiu se logo à princesa Miagkaia.

— Gostou da Nilson? — perguntou ele.

— Não tem o direito de assustar assim uma pessoa! — exclamou ela — Assustou me? Não me fale da opera, você não entende nada de musica. Prefiro descer até ao seu nível e falar de gravuras e de majolicas. Então, que descobriu mais no antiquário?

— Quer ver a minha última descoberta? Mas a senhora não percebe nada dessas coisas.

— Mesmo assim, mostre lá. Aprendi muito em casa desses esqueci-me do nome Você sabe, dos banqueiros. Palavra, têm gravuras, magníficas. Mostraram-mas.

— O quê? Você foi a casa dos Schutzburg?— perguntou de onde estava a dona da casa.

— É verdade, ma chère — respondeu a princesa Miagkaia, elevando a voz, pois percebia que todos a ouviam — Convidaram nos para jantar, a meu marido e a mim, e serviram nos um molho que, ao que parece, lhes ficou em mil rublos. Péssimo molho, alias, uma coisa assim esverdeada. Como tive de convidá-los, pela minha vez, ofereci-lhes um molho de oitenta e cinco copeques, que todos apreciaram muito. Eu não tenho meios para oferecer molhos de mil rublos! — Esta mulher é única! — comentou a dona da casa.

— Extraordinária? — aprovou alguém

Se a princesa Miagkaia nunca perdia o efeito das suas palavras, era apenas porque costumava dizer com bom senso, mas sempre a propósito, coisas absolutamente vulgares. Na sociedade em que vivia, aquele espesso bom senso passava por finura de espírito. O êxito que obtinha surpreendia a, o que, no entanto, não a impedia de tirar partido dele.

No silêncio que se seguiu, a dona da casa tentou uma fusão entre os dois grupos, dirigindo se à embaixatriz.

— Decididamente — disse-lhe ela — não querem tomar chá? Deviam sentar se aqui connosco.

— Não, muito obrigada, estamos muito bem aqui — respondeu a outra, sorrindo E retomou a conversa interrompida. O assunto valia a pena estavam na berlinda os Karenines — marido e mulher.

— A Ana mudou muito desde a viagem a Moscovo — dizia uma das suas amigas —Há nela qualquer coisa de estranho.

— A mudança que se operou foi a sombra de Alexei Vronski que ela trouxe atrás de si — comentou a embaixatriz.

— E que tem isso de especial? Ha um fabula de Grimm em que um homem, para castigo de não sei que maldade, é privado da sua própria sombra. Não consigo perceber tal gênero de castigos. Estou certa de que deve ser muito penoso para uma mulher ver se privada da sua própria sombra.

— Sim — interveio a amiga de Ana —, mas as mulheres que têm sombra geralmente acabam mal.

Ao ouvir estas palavras, a princesa Miagkaia observou.

— Devia levar pimenta na língua! Ana Karenina é uma mulher encantadora. Do marido, sim, não gosto mas dela gosto muitíssimo.

— E por que não gosta dele? — inquiriu a embaixatriz — É um homem notável. Meu marido diz que não há hoje na Europa outro estadista da sua envergadura.

— O meu é da mesma opinião, mas eu não concordo com ele. Se os nossos maridos nada tivessem dito a respeito dele, todas nós veríamos Alexei Alexandrovitch tal como é. E na minha opinião é um asno. Isto aqui entre nós, é claro. Ao menos assim tudo fica dito de uma vez. Antigamente, quando me mandavam considerá-lo uma pessoa inteligente, cheguei a conclusão de que a asna era eu, porque não havia maneira de descobrir onde estava a inteligência dele. Mas desde que disse, uma vez, em surdina, claro «É um asno», tudo se explicou.

— Que maldosa está hoje?

— Absolutamente. Mas não há outra alternativa. Um de nós dois é asno. E, como todos sabem, ninguém vai considerar se asno a si próprio.

— Ninguém está contente com a sua posição, mas todos estão contentes com a sua inteligência — insinuou o diplomata, citando um aforismo francês.

— Precisamente — tratou de confirmar a princesa Miagkaia Quanto à Ana, a essa não lhes deixo eu nas mãos. É encantadora, garanto lhes. Que culpa tem de que todos os homens se apaixonem por ela e a

sigam como uma sombra?

— Mas eu não estou a censurá-la — disse a amiga de Ana, dês culpando se.

— Lá porque ninguém nos segue como uma sombra, nem por isso nos assiste o direito de criticar os outros.

E apôs esta boa lição à amiga de Ana, a princesa levantou se e, seguida da embaixatriz, aproximou se da mesa grande, onde o assunto da conversa era o rei da Prússia.

— De quem estavam a falar mal? — perguntou Betsy.

— Dos Karenines a princesa fez nos o retrato de Alexei Alexandrovitch — respondeu rindo a embaixatriz. E sentou se a mesa.

— Que pena não a termos podido ouvir! — exclamou Betsy com os olhos voltados para a porta — Ah! Finalmente — acrescentou, sorrindo para Vronski, que acabava de entrar.

Vronski não só conhecia todos os presentes como estava mesmo com eles todos os dias. Entrou, pois, com o à vontade de um homem que se encontra diante de pessoas que deixara há pouco tempo.

— De onde venho? — replicou à pergunta da embaixatriz — Que hei de eu dizer? Vejo-me obrigado a confessar venho da ópera cômica. Deve ser a centésima vez que vou lá, mas nem por isso me diverti menos.

É uma vergonha dizê-lo, mas e a verdade na opera lírica adormeço, enquanto na opera cômica me sinto às mil maravilhas até ao fim Esta noite.

Vronski citou o nome de uma actriz francesa e dispunha se a contar qualquer coisa a seu respeito quando a embaixatriz o interrompeu com uma expressão de cômico espanto.

— Peco-lhe que não me fale desse horror!

— Esta bem, calar-me-ei, tanto mais que todos conhecem esse horror.

— E todos o iriam ver se fosse de bom-tom, como ir à ópera lírica — acrescentou a princesa Miagkaia.

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