Havia mais de dois meses que os Levines viviam em Moscovo. Tinha passado já o prazo em que, segundo os cálculos das pessoas entendidas no assunto, Kitty deveria dar à luz, sem que nada fizesse prever o parto para mais breve que dois meses antes. Tanto o médico como a parteira, Dolly, a mãe, e sobretudo Levine, não podiam pensar sem horror naquele acontecimento e começavam a sentir-se inquietos e impacientes. Apenas Kitty continuava serena e feliz.
Agora percebia claramente estar a nascer nela um novo sentimento de amor para com a criança que havia de chegar — e que em parte já existia nela — e nisto se compungia. Nessa altura, a criança já não era uma parte do seu corpo, mas às vezes chegava a viver por si mesma, independentemente da mãe. Amiúde lhe causava dores; mas à mistura com isso, apetecia-lhe rir com uma alegria nova e estranha.
Todos aqueles a quem amava estavam a seu lado e eram todos tão bons para ela, cuidavam tanto dela e faziam-lhe a vida tão agradável que, se não soubesse que aquele estado tinha de acabar dentro em pouco, não teria aspirado a existência melhor nem mais grata. A única coisa que fazia perder o encanto a essa vida era o facto de o marido não ser como ela gostava dele e como costumava mostrar-se na aldeia.
Kitty apreciava o tom tranqüilo, carinhoso e acolhedor que Levine tinha no campo. Na cidade andava constantemente inquieto e alerta, como se receasse que alguém o ofendesse e sobretudo que a ofendessem a ela, Kitty. Lá na aldeia, sentindo-se no seu ambiente próprio, nunca se precipitava nem nunca estava ocioso. Na cidade, pelo contrário, andava sempre apressado, como se não quisesse deixar que lhe escapasse alguma coisa, quando, na verdade, nada tinha que fazer. E Kitty condoía-se dele.
É certo que sabia que ele não inspirava pena aos outros. Nada disso. Quando Kitty o observava, em sociedade, como às vezes se olha para um ser querido, procurando vê-lo como se fosse um estranho, no intuito de avaliar a impressão que ele produzia nos demais, dava-se conta, e com alguns ciúmes, de que não só não inspirava pena, mas que até mesmo parecia muito atraente, graças à sua cortesia um tanto antiquada, à sua tímida amabilidade com as mulheres, à sua boa figura e, sobretudo,
assim ela o imaginava, graças à sua expressiva fisionomia. Mas Kitty via-o por dentro, não por fora, e percebia que na cidade Levine não era o autêntico Levine. Pelo menos era essa impressão que lhe causava o estado de espírito do marido. Às vezes, no seu foro íntimo, Kitty censurava-o por não saber viver na cidade. Mas a si própria confessava outras vezes que realmente lhe seria difícil organizar ali a sua vida de maneira satisfatória para ele.
Realmente, que podia ele fazer? Não gostava de jogar as cartas. Não ia ao clube. Agora Kitty já sabia o que significava freqüentar homens alegres como Oblonski... Era preciso viver e visitar certos lugares. E era com horror que pensava nos sítios onde os homens costumavam ir em casos assim. Freqüentar a alta sociedade? Kitty não ignorava que isso o levaria a lidar com mulheres novas, coisa que lhe não agradava a ela. Ficar em casa com ela, com a mãe e com as irmãs? Era de crer que o marido se aborrecesse, por mais agradáveis que fossem para ela as conversas de Aline e Nadine, como o velho príncipe costumava chamar às tagarelices entre as filhas. Que havia ele de fazer então? Continuar a escrever a sua obra? Tentara fazê-lo, e de princípio fora à biblioteca tomar notas e recolher dados. Mas, como Levine costumava dizer, quando menos trabalhava menos tempo livre tinha. Depois, costumava dizer que na cidade perdia o interesse pelo livro a falar dele. A única vantagem da vida da cidade era não se levantarem discussões entre eles, marido e mulher. Ou fosse pelas condições da vida ou porque ambos se tivessem feito mais prudentes e razoáveis a tal respeito, o caso é que em Moscovo não discutiam por ciúmes, coisa que tanto receara quando se tinham mudado para a cidade. A esse respeito produzira-se mesmo qualquer coisa de muito importante para os dois: o encontro entre Kitty e Vronski.
A velha princesa Maria Borisovna, madrinha de Kitty, que sempre gostara muito dela, desejou vê-la. Kitty, que em virtude do seu estado não ia a parte alguma, foi, sem embargo, visitar a respeitável senhora na companhia do pai e em sua casa encontrou-se com Vronski.
O coração acelerou-se-lhe no peito, depois corou muito, ao ver Vronski vestido à paisana e ao reconhecer aquelas suas maneiras que tão familiares lhe haviam sido. Mas foi tudo obra de segundos. Ainda o velho príncipe não acabara de falar com Vronski, que intencionalmente entabulara conversa com ele, já Kitty estava disposta a olhá-lo e a dirigir- lhe a palavra, caso fosse preciso, com a mesma naturalidade com que falava à princesa Borisovna. Aliás, fá-lo-ia de maneira que a mínima inflexão e o mais leve sorriso merecessem ser aprovados pelo marido, cuja presença invisível parecia sentir naquele momento a seu lado.
Trocou com ele algumas palavras e até sorriu serenamente quando Vronski fez ironia acerca das eleições, a que chamou o «nosso
Parlamento». (Era preciso sorrir para mostrar que compreendera o dito de espírito.) Mas logo se voltara para a princesa Maria Borisovna, não tornando a olhar para Vronski -até que ele se levantou e se despediu.
Então Kitty encarou-o, apenas porque seria falta de cortesia não olhar para uma pessoa que se despedia.
Ficou reconhecida ao pai por não ter feito referência ao encontro com Vronski, embora verificasse, pela especial ternura que teve para com ela depois da visita, durante o seu costumado passeio, que ficou contente com o seu comportamento. Também ela se sentia satisfeita consigo mesma. Nunca se julgara capaz de enterrar no fundo da alma a lembrança do antigo sentimento que Vronski lhe inspirara, e o que era certo é que não só mostrara indiferença e serenidade diante dele, como fora isso mesmo que experimentara.
Levine corou muito mais do que Kitty quando esta lhe descreveu o encontro com Vronski em casa da princesa Maria Borisovna. Foi-lhe muito difícil falar-lhe nisso e ainda mais contar-lhe os pormenores de tal encontro, uma vez que Levine nada lhe perguntava, limitando-se a olhar para ela de sobrecenho carregado.
— Tenho muita pena que não estivesses presente — disse Kitty —, ou pelo menos gostaria que me tivesses visto pelo buraco da fechadura, pois diante de ti talvez não tivesse mantido o meu sangue-frio. Vês como eu estou corada? Muito mais do que então, garanto-te.
Levine, primeiro mais corado do que ela, ouvindo taciturno o que ela lhe dizia, serenou diante do olhar sincero da mulher e fez-lhe mesmo várias perguntas que lhe permitiram justificar a sua atitude. Completamente sossegado, disse-lhe que de futuro se não comportaria da maneira tola como se comportara nas eleições e se mostraria para com Vronski de uma amabilidade perfeita.
— É tão penoso — confessou ele — recear a presença de um homem e considerá-lo quase como um inimigo!
— Não te esqueças de visitar os Boll — disse Kitty ao marido quando, às da manhã, este lhe entrou no quarto para se despedir. — Já sei que vais jantar com o pai no clube. Mas até lá, que fazes? — Vou muito simplesmente a casa do Katavassov.
— Por que vais então assim tão cedo?
— Katavassov prometeu apresentar-me a Metrov. Queria falar-lhe da minha obra. É um sábio muito célebre em Sampetersburgo.
— Ah! Já sei. É o autor daquele artigo que tu tanto gabaste, não é assim? — perguntou Kitty. — E depois? — Talvez passe pelo tribunal por causa daquela questão da minha irmã.
— E o concerto? — perguntou Kitty.
— Como queres que eu vá sozinho ao concerto?
— Pois devias ir; vão tocar essas coisas novas... que tanto te interessam. No teu lugar, não deixaria de ir.
— Em todo o caso, voltarei a casa antes do jantar — replicou Levine, consultando o relógio.
— Veste o teu redingote para poderes ir directamente a casa da condessa Boll.
— Achas absolutamente indispensável?
— Com certeza. O conde foi o primeiro a visitar-nos. Que trabalho terá isso? Chegas, sentas-te, falas cinco minutos acerca do tempo, levantas-te e vais-te embora.
— Talvez me não acredites, mas estou tão desabituado destas coisas que me custa fazê-lo. Que costume patusco, realmente! Chega uma pessoa a casa de outra, sem mais nem menos, senta-se, não tem nada que dizer, incomoda essa gente, incomoda-se a si próprio e, depois, ala! Kitty desatou a rir.
— Mas não fazias visitas quando eras solteiro? — perguntou-lhe.
— Fazia, mas sempre me custou muito, e desacostumei-me a tal ponto, dou-te a minha palavra, que prefiro ficar dois dias sem comer a ter de fazer esta visita. Envergonho-me. Receio que se ofendam e que me perguntem «que vem o senhor aqui fazer»? — Não se ofenderão. Posso garantir-te — replicou Kitty mirando-o sorridente. Pegou-lhe na mão. — Bom, adeus... Não deixes de ir, peço-te.
Depois de beijar a mão à mulher, Levine dispunha-se a sair quando esta o deteve.
— Kóstia, sabes que me restam apenas cinqüenta rublos?
— Bom, irei ao banco levantar dinheiro. De quanto precisas? — perguntou com essa expressão de descontentamento que ela tão bem lhe conhecia.
— Espera — Kitty reteve-o, segurando-o pela mão. — Precisamos de falar; estou preocupada. Tenho a impressão de que apenas gasto o indispensável, e o dinheiro voa. Com certeza não administramos bem.
— Não, não — replicou Levine, tossindo e olhando para ela de sobrancelhas franzidas.
Kitty também lhe conhecia essa maneira de tossir. Era sintoma de grande descontentamento, não com ela, mas consigo mesmo. Com efeito não estava descontente por terem gasto muito dinheiro, mas por isso lhe devia recordar que as coisas não caminhavam bem, pormenor que ele desejaria esquecer.
Mandei dizer ao Sokolov que venda o trigo e que receba adiantado o do moinho. Seja como for, teremos dinheiro.
— Mas receio que estejamos a gastar de mais.
— Não, não. Adeus, querida.
— Às vezes chego a lamentar ter dado ouvidos à mãe. Sou uma maçada para todos e estamos a gastar rios de dinheiro... Porque não ficámos nós na aldeia? — Não, não, não estou arrependido de coisa alguma desde que nos casámos...
— Falas a sério? — interrogou ela, olhando-o bem nos olhos.
Levine falara sem pensar, tão-só para tranqüilizar Kitty, mas, quando esta o fitou, e ele deu com os seus olhos sinceros cravados nele, interrogando-o, repetiu o que dissera, agora de todo o coração. «Esqueço tudo quando a vejo», pensou ele. E lembrando-se do que o esperava para breve: — Como te sentes? — perguntou-lhe, pegando-lhe nas duas mãos.
— Falta pouco?
— Tenho-me enganado tantas vezes nos meus cálculos que não quero dizer mais nada.
— Não tens medo?
— Absolutamente nenhum — replicou ela com um sorriso altivo.
— Se houver alguma coisa de novo, já sabes que estou em casa de Katavassov.
— Não haverá nada, não penses nisso. Espero-te antes de jantar. Entretanto vou dar uma volta com o pai. Passaremos por casa da Dolly...
A propósito, sabes que a situação dela está a tornar-se impossível? A desgraçada deve a todas as pessoas e não tem um centavo consigo. Falámos ontem disso com a mãe e com o Arseni (o marido da irmã
Natália) e resolvemos pedir-te que tenhas uma conversa séria com o Stiva. Com o pai não se pode falar disso. Mas se tu e o Arseni...
— Achas que ele nos dará ouvidos?
— Fala, no entanto, com o Arseni.
— Pois sim; passarei por casa deles e talvez vá ao concerto com a Natália. Bom, adeus.
No vestíbulo, Kuzma, o velho criado de Levine, que na cidade desempenhava funções de mordomo, deteve o amo.
— Voltaram ontem a ferrar o Krasavtchik, mas continua a coxear.
(Referia-se ao cavalo de tiro, que atrelavam à esquerda, e que tinham trazido da aldeia.) Que acha que devemos fazer? — perguntou ele.
Levine trouxera cavalos da aldeia, mas não tardou a reconhecer que lhe ficavam mais caros do que os cavalos de aluguer e que, além disso, mesmo com cavalos próprios, muitas vezes precisava de recorrer aos outros.
— Manda chamar o veterinário, é capaz de ter alguma pisadura.
— E quem há-de levar Catarina Alexandrovna? — perguntou Kuzma.
Nos primeiros tempos da sua estada em Moscovo, Levine não podia compreender que, para visitar alguém, a dez minutos de distância, fosse preciso mandar atrelar dois vigorosos cavalos a uma pesada caleche, percorrer um quarto de versta por ruas cobertas de neve e depois deixá-los quatro horas imóveis à porta, gastando cinco rublos ao todo. Agora, pelo contrário, achava isso perfeitamente natural.
— Aluga uma parelha de cavalos.
— Sim, senhor.
E depois de resolver com a maior facilidade um problema que na aldeia lhe teria exigido morosas reflexões, Levine saiu, deteve um trem de praÇa e mandou que seguisse para a Rua Nikitskaia, inteiramente entregue à ideia de discutir a sua obra com um sábio petersburguês, muito célebre, que se dedicava à sociologia.
Levine habituara-se depressa àquelas despesas indispensáveis, cuja insensatez deixa atônito o provinciano que se estabelece em Moscovo. Acontecia-lhe o que acontece aos bêbedos, a quem, segundo um velho ditado, só o primeiro copo é que custa. Quando trocou a primeira nota de cem rublos para pagar as librés do criado e do guarda-portão, servidores que ele considerava perfeitamente desnecessários, contra a opinião da sogra e da mulher, achou que aqueles luxos correspondiam ao salário de dois operários, trabalhando de sol a sol, da semana da Páscoa ao
Carnaval, isto é, perto de trezentos dias — e achou que a pílula custava a engolir. Já lhe pareceu menos amarga na altura de puxar da segunda nota, com a qual pagou uma conta de vinte rublos, preço de dois manjares que adquirira para uma festa de família, não sem pensar que com esse dinheiro podiam adquirir-se nove cheverts de aveia, que um punhado de homens ceifara, amarrara, crivara e ensacara com o suor do seu rosto. As notas seguintes haviam voado como passarinhos: Levine não mais perguntara a si próprio se o prazer comprado com o seu dinheiro correspondia à pena que dava a ganhar. Também esquecera o projecto que fizera de não vender o trigo a preço inferior ao corrente. O centeio, cujo preço defendera durante muito tempo, vendeu-o a cinqüenta copeques menos cada cheverts que no mês anterior. Já não via que tivesse importância o cálculo que fizera, segundo o qual com aqueles gastos se tornava impossível viver o ano inteiro sem contrair dívidas. Apenas precisava de uma coisa: de dinheiro no banco, sem querer saber de onde provinha, suficiente para o dia a dia. E até então, os seus cálculos sempre se haviam cumprido: tivera sempre dinheiro no banco. Agora, porém, esse fundo esgotara-se e já não sabia onde ir buscar mais dinheiro. Eis por que sentira, momentaneamente, um certo desgosto, ao ouvir Kitty falar-lhe em dinheiro. O certo é, contudo, que não tinha tempo para pensar nisso. Estava a lembrar-se de Katavassov e a pensar em que iria conhecer Metrov.
Durante a sua estância em Moscovo, Levine reatara amizade com o seu camarada do tempo de estudante, o professor Katavassov, a quem não tornara a ver desde que se casara. Katavassov agradava-lhe pela clareza e singeleza com que encarava a vida, coisa que Levine considerava conseqüência da pobreza do seu espírito. Por sua vez, Katavassov atribuía a incoerência das ideias de Levine à falta de disciplina da sua inteligência. E era sem dúvida em virtude destas opostas qualidades — clareza um tanto estéril num deles, riqueza indisciplinada no outro — que gostavam de se encontrar e de discutir longamente. Katavassov persuadiu Levine a ler-lhe alguns capítulos da sua obra e, tendo-os achado dignos de interesse, falou neles a Metrov, sábio eminente, de passagem em Moscovo, cujos trabalhos Levine muito apreciava. Na véspera, ao encontrar Levine numa conferência pública, Katavassov dissera-lhe que o célebre Metrov, de quem apreciara tanto um artigo, se encontrava em Moscovo. Estava muito interessado, depois do
que ele lhe dissera, na obra de Levine e no dia seguinte, às da manhã, iria a casa de Katavassov, onde esperava conhecê-lo.
— Decididamente, meu amigo, está-se a corrigir. Tenho muito prazer em vê-lo — exclamou Katavassov, recebendo Levine no seu salãozinho. — Ouvi a campainha, e pensei: «É impossível que chegue com tanta pontualidade...» Que me diz dos montenegrinos? São guerreiros de raça.
— Que aconteceu? — perguntou Levine.
Em breves palavras, Katavassov pôs Levine ao corrente das últimas notícias, e, penetrando no escritório, apresentou-lhe um senhor de estatura média, nutrido e de agradável presença. Era Metrov. A palestra versou algum tempo sobre política e os comentários das altas esferas de Sampetersburgo aos últimos acontecimentos. Metrov repetiu as palavras que haviam sido proferidas pelo imperador e por um dos ministros, a respeito disso mesmo, garantindo tê-las ouvido de fonte fidedigna. Katavassov, por sua vez, também ouvira, como coisa fidedigna, que o imperador dissera precisamente o contrário. Levine procurou uma explicação com a qual pudessem tornar-se certas tanto as primeiras como as segundas palavras e mudaram de assunto.
— O meu amigo — disse então Katavassov — está a dar a última demão a uma obra sobre economia rural. Não sou perito na matéria, mas, como naturalista, agrada-me muito que não tome a humanidade como algo estranho às leis zoológicas, antes pelo contrário, considero que depende do meio ambiente, procurando as leis do desenvolvimento da sua teoria precisamente nessa relação.
— É muito interessante — observou Metrov.
— Para dizer a verdade, principiei a escrever um livro sobre economia rural, mas, involuntariamente, ao ocupar-me do primeiro instrumente desta, o operário — disse Levine, corando —, cheguei a conclusões completamente inesperadas.
E Levine, com grande cuidado, como se tacteasse o terreno, principiou a expor os seus pontos de vista. Sabia que Metrov escrevera um artigo contra a teoria político-econômica generalizada, mas ignorava até que ponto poderia contar com o interesse dele para as suas novas opiniões, e nem sequer o podia deduzir da expressão db rosto inteligente e sereno do sábio.
— Mas em que é que, na sua opinião, o operário russo difere dos outros? — inquiriu Metrov. — Do ponto de vista que o senhor considera zoológico, ou antes no das condições materiais em que ele se encontra? Esta maneira de formular o problema vinha demonstrar a Levine
que Metrov não estava de acordo com Katavassov. No entanto, continuou a expor as suas ideias, segundo as quais o camponês russo tinha um ponto de vista peculiar completamente distinto dos demais povos da terra. E, para o demonstrar apressou-se a acrescentar que, em seu juízo, isso era devido ao facto de o povo russo estar consciente de ter sido chamado a povoar grandes extensões despovoadas no Oriente.
— É muito fácil uma pessoa enganar-se quando tira conclusões sobre a predestinação geral de um povo — objectou Metrov, interrompendo Levine. — A situação do jornaleiro dependerá sempre da sua relação com a terra e o capital.
E sem deixar que Levine acabasse de expor o seu ponto de vista, Metrov pôs-se a explicar a particularidade das suas próprias teorias. Levine não percebeu em que consistiam estas, porque nem sequer se deu ao trabalho de compreendê-las. Dava-se conta de que Metrov, à semelhança de tantos outros, apesar do artigo em que refutava a doutrina dos economistas, apenas considerava o jornaleiro russo do ponto de vista do capital, das jornas e da renda. No entanto, via-se obrigado a reconhecer que na parte oriental, o maior território da Rússia, a renda era nula e os salários tão-só serviam de mantença para nove décimas partes dos oitenta milhões que constituíam a população e que o capital ainda a! não existia, a não ser sob a forma de instrumentos primitivos. Estudava o operário apenas sob este aspecto, apesar de não estar de acordo em muitas coisas com os economistas e de possuir uma teoria própria nova sobre os salários, que expôs a Levine.
Este ouvia, de má catadura, e a princípio recalcitrava. Queria interromper Metrov, para expor a sua própria ideia, a qual, em seu entender, tornaria supérfluas explicações ulteriores. Mas não tardou a reconhecer que cada um deles encarava o problema de maneira tão diferente que nunca chegariam a entender-se, e não fez mais objecções, limitando-se a ouvir. Conquanto já lhe não interessasse de todo o que dizia Metrov, não deixava de sentir certo prazer em ouvi-lo. Lisonjeava- lhe o amor-próprio que um sábio como Metrov lhe expusesse as suas ideias com tanto calor, tantos pormenores e num à-vontade de quem fala a pessoas que conhecem a matéria. Às vezes bastava-lhe uma única alusão para se referir a toda uma faceta do problema, coisa que Levine acreditava à conta dos seus próprios méritos. Não lhe passava pela cabeça que Metrov comentasse esse assunto com outras pessoas da sua roda e que trocasse com prazer impressões sobre a matéria, ainda confusa para ele, com o primeiro que se lhe apresentasse.
— Vai fazer-se tarde — disse Katassov, consultando o relógio, de uma das vezes que Metrov acabou de expor as suas ideias. — Celebra-se hoje o cinqüentenário de Svintitch e há uma sessão especial —
acrescentou, dirigindo-se a Levine. — Piotre Ivanovitch e eu temos de assistir. Prometi ler uma comunicação sobre os trabalhos zoológicos de Svintitch. Venha connosco. Vai ser muito interessante.
— Sim, realmente, são horas — concordou Metrov. — Venha connosco e depois iremos a minha casa. Teria muito prazer em ouvir ler a sua obra.
— Ainda não está concluída,
— Sabe que assinei um memorando — disse Katavassov, que na dependência ao lado vestia a casaca.
E principiou a falar da questão universitária. A questão universitária constituía um acontecimento muito importante naquele Inverno em Moscovo. Três catedráticos velhos não tinham aceitado em Conselho a opinião dos jovens, e estes haviam apresentado um memorando independente. Segundo uns, era abominável, segundo outros, acertado e justo, e os catedráticos haviam-se cindido em dois grupos.
Uns, a cujo partido pertencia Katavassov, viam no campo contrário um erro e uma vil delação; outros, puerilidade e pouco respeito às autoridades. Embora Levine não pertencesse à Universidade, várias vezes, desde que estava em Moscovo, discutira esta questão, formando, mesmo, um juízo próprio sobre o que se passava. E quando seguiam rua além, os três a caminho dos antigos edifícios da Universidade, tomou parte na conversa que prosseguia sobre o mesmo assunto.
A sessão já principiara. Seis pessoas, a que se juntaram Katavassov e Metrov, tinham-se sentado diante de uma mesa coberta com um pano. Um deles lia qualquer coisa, com o nariz enterrado num manuscrito. Levine sentou-se ao pé de um estudante e em voz baixa perguntou-Lhe o que estavam a ler.
— A biografia — respondeu com cara de poucos amigos.
Levine ouviu maquinalmente a biografia do sábio e ficou a saber algumas particularidades curiosas sobre a sua vida. Quando o orador concluiu, o presidente agradeceu-lhe e leu uns versos que o poeta Ment compusera para comemorar aquela data, dedicando, também, a esse literato, algumas palavras de gratidão. Em seguida, Katavassov, em voz forte e rangente, pôs-se a ler a sua memória sobre os trabalhos do sábio.
Quando Katavassov terminou, Levine consultou o relógio, e, ao ver o adiantado da hora, compreendeu que não teria tempo, antes do concerto, de ler a sua obra a Metrov. Aliás, cada vez se lhe afigurava mais evidente a inutilidade de uma aproximação com o economista. Durante a conferência pensara na conversa que tinham tido. Se tanto um como
outro estavam destinados a trabalhar com bons resultados, só o poderiam fazer cada um do seu lado.
No fim da sessão dirigiu-se a Metrov, que o apresentou ao presidente. Como viesse a falar-se de política, Metrov e Levine repetiram as frases trocadas em casa de Katavassov, apenas com uma diferença: que Levine emitiu uma ou duas ideias novas que acabavam de lhe ocorrer. Depois, como a famosa dissidência entre os professores voltasse à discussão, Levine, a quem enfadava tal coisa, apresentou as suas desculpas a Metrov e saiu, dirigindo-se à casa de Lvov.
Lvov, o marido de Natália, irmã de Kitty, vivera sempre, quer nas duas capitais, quer no estrangeiro, onde fora educado e onde desempenhara funções diplomáticas.
No ano anterior abandonara a carreira, não porque tivesse tido quaisquer dissabores, pois era o homem mais dúctil do mundo, mas, muito simplesmente, para acompanhar mais de perto a educação dos seus dois filhos. Fixara residência em Moscovo, onde desempenhava funções na Corte. Apesar de uma diferença de idades assaz pronunciada e de opiniões e hábitos muito dissemelhantes, os dois cunhados haviam-se tornado verdadeiros amigos no decurso desse Inverno. Lvov estava em casa e Levine entrou sem se fazer anunciar.
Comodamente instalado numa poltrona, Lvov, de roupão e sapatos de camurça, lia com um pince-nez de vidros azuis, enquanto fumava um charuto, meio queimado já, mantido pela sua bela mão a respeitável distância do livro pousado diante dele em cima de uma estante baixa. O seu fino rosto, enxuto e jovem, a que uma cabeleira anelada e argêntea dava um ar distinto, iluminou-se com um sorriso assim que viu Levine.
— Magnífico! E eu queria mandar-te buscar a casa. Como está a Kitty? Senta-te aqui, estarás mais comodamente. — Lvov levantou se e ofereceu a Levine uma cadeira de balouço — Leste a última circular do Journal de Saint-Pétersbourg? Acho a muito boa — disse, com sotaque ligeiramente francês.
Levine contou-lhe o que ouvira de Katavassov acerca dos rumores que circulavam em Sampetersburgo e depois de falarem de política referiu-lhe que conhecera Metrov e que estivera numa conferência. A
Lvov tudo isso interessou muito.
— Invejo te essas relações com o mundo científico, tão interessante — disse, e animando se continuou em francês, seu costume, visto exprimir-se com mais facilidade nessa língua — Realmente também não dispunha de tempo. Tanto o meu serviço como as minhas ocupações com os rapazes me privam de tudo o mais e além do que, não tenho vergonha em confessá-lo, a minha instrução é muito deficiente.
— Deixa que eu não esteja de acordo com esse último ponto — observou Levine, rindo, pois achava sempre muito comovedora a modéstia do cunhado, sabendo a sincera.
— Podes crer! Agora, que me ocupo da instrução de meus filhos, é que vejo até que ponto a minha é deficiente. Para lhes dar lições vejo me obrigado não só a refrescar a memória como até a estudar. Não bastam os professores, é preciso uma espécie de vigilante geral, como acontece nas tuas terras, onde, alem dos camponeses, precisas de um capataz. Agora estou a ler isto — Lvov mostrou lhe a gramática de Buslaiev, que estava na estante baixa — É o livro por onde estuda o Micha, e parece me tão difícil Escuta aqui, vê se me explicas isto Aqui diz.
Levine procurou explicar lhe que aquilo não podia aprender-se, era necessário apreendê-lo Mas Lvov não estava de acordo.
— Deves achar me ridículo — disse ele
— Muito pelo contrário, estás a servir me de exemplo para o futuro.
— Oh! O exemplo não é de seguir.
— Não vejo isso. Nunca conheci crianças com mais perfeita instrução do que as tuas, não desejava que as minhas a tivessem melhor Lvov não pôde esconder um sorriso de satisfação.
— Apenas desejo que os meus filhos valham mais do que eu. A sua instrução esteve muito abandonada durante a nossa permanência no estrangeiro, e não podes calcular as dificuldades que encontram agora.
— Não tarda que recuperem o perdido. São muito inteligentes. O mais importante é a educação moral. E é isso que me serve de lição quando vejo os teus filhos.
— Falas-me de educação moral. Não podes imaginar quanto isso é difícil? Ainda uma dificuldade está por vencer, surge logo outra, e de novo recomeça a luta. Se não fosse o apoio da religião Lembras que já falámos sobre este assunto? Nenhum pai poderá educar os seus filhos sem o auxílio dela.
Esta conversa, que sempre interessava a Levine, foi interrompida
com a entrada da formosa Natália Alexandrovna, pronta para sair.
— Não sabia que estavas aqui — disse ela. Ao que parecia, o assunto da conversa interessava a muito menos a ela do que a Levine — E a Kitty como está? Hoje vou jantar com vocês. Ouve, Arseni — acrescentou, dirigindo se ao marido —, vais precisar do carro?
E marido e mulher discutiram acerca do que fariam naquele dia. Como Lvov tinha de receber alguém, por obrigação do seu cargo, a mulher queria assistir ao concerto e a uma reunião publica da Assembléia dos Estados do Sul, e precisavam de decidir tudo isso Levine, como pessoa da família, teve de tomar parte em todos esses planos. Decidiram, por fim, que Levine iria ao concerto e à reunião pública com Natália, depois mandaria o carro a Arseni, que ma mais tarde buscar a mulher para levá-la à casa de Kitty. E na hipótese de ainda não estar livre nessa altura, da mesma maneira mandaria a carruagem, e Levine acompanharia Natália.
— Levine estraga me. — disse Lvov à mulher — Garante me que os nossos filhos são encantadores, quando a verdade é que na minha opinião estão cheios de defeitos.
— O Arseni é muito exagerado, estou sempre a dizer-lho — atalhou Natália — Se buscamos a perfeição, nunca chegaremos a estar satisfeitos. O pai tem razão no que diz quando nos educavam a nós, exagerava se noutro sentido. Estávamos no sótão enquanto os pais viviam no º andar. Agora, peio contrario, são as crianças que ocupam o º andar e os pais que vivem no sótão. Na actualidade, os pais já não têm razão de existir, tudo deve sacrificar se aos filhos.
— E porque não, se isso nos é tão agradável? — disse Levine, sorrindo, com o seu formoso sorriso, e acariciando-lhe a mão — Quem não te conhecesse, tomar te ia por madrasta.
— Não, o exagero não está bem em caso algum — replicou Natália, serena, colocando no seu lugar a faca do marido de cortar papel.
— Pois bem, venham cá, crianças modelo — disse Lvov a dois rapazinhos muito bonitos que apareceram no limiar da porta.
Depois de cumprimentarem o tio, os pequenos aproximaram se do pai, na intenção evidente de lhe perguntar qualquer coisa Levine teria desejado tomar parte na explicação, mas Natália principiou a falar com ele e daí a pouco entrava Makotine, o colega de Lvov, com o seu trajo do paço, que também ia esperar a personagem que chegava Iniciou se uma animada discussão a respeito de Herzegovina, da princesa Korzinskaia, do conselho municipal e da morte súbita de Apraxina.
Levine esqueceu-se do recado de que Kitty o encarregara. Apenas
se lembrou já no vestíbulo.
— Espera! Kitty encarregou me de falar contigo por causa do Oblonski — disse ele, quando Lvov se deteve na escada, na altura em que acompanhava à porta a mulher e Levine.
— Sim, sim, maman quer que nós, os beaux-frères, o repreendam — comentou, corando. — Mas porque hei-de ser eu?
— Então eu me encarregarei disso — disse Natália sorrindo, que de casaco de peles pelos ombros aguardava que eles acabassem de falar.
— Bom, vamos.
No concerto iam executar duas peças novas; uma Fantasia sobre o Rei Lear da Estepe e um quarteto dedicado à memória de Bach. Levine gostaria muito de ter opinião sobre essas peças compostas num espírito moderno, e para não ser influenciado por ninguém foi encostar-se a uma coluna, depois de instalar a cunhada, decidida a ouvir o mais conscienciosamente que pudesse. Procurou não se deixar distrair pelo chefe de orquestra, de gravata branca, coisa que sempre distrai as pessoas desagradàvelmente. Tão-pouco olhou para as senhoras, cujos chapéus cheios de laços lhes tapavam hermeticamente os ouvidos, nem para todas essas personagens que, ou não se interessavam por coisa alguma ou se interessavam pelos assuntos mais diversos, inteiramente alheios à música. Evitara encontrar-se com os entendidos, bem como com os grandes palradores, e ali estava a ouvir, de olhos no chão.
Mas quanto mais ouvia o Rei Lear, tanto mais longe se sentia de poder formar uma opinião definida sobre essa obra: sem cessar, a frase musical, no momento em que devia desenvolver-se, fundia-se noutra frase, ou desvanecia-se, segundo o capricho do compositor, deixando no ouvinte, como única impressão, a de uma penosa procura de efeitos instrumentais. Os melhores passos resultavam desagradáveis e a alegria, a tristeza, o desespero, a ternura, o triunfo sucediam-se com a incoerência das impressões de um louco, para desaparecerem depois, subitamente, da mesma maneira.
Quando a execução do trecho se interrompeu bruscamente, Levine ficou surpreendido com a fadiga que aquela tensão de espírito inutilmente lhe provocara; dir-se-ia um surdo que estivesse a ver dançar e, ao ouvir os aplausos entusiastas do auditório, quisesse comparar as suas impressões às dos entendidos. As pessoas levantavam-se por todos os
lados, formavam-se grupos e Levine foi juntar-se a Pestsov, que conversava com um dos mais famosos amadores.
— É extraordinário! — clamava Pestsov, na sua profunda voz de baixo. — Olá, viva, Constantino Dimitrievitch. A passagem de uma maior riqueza de colorido, a mais escultural, digamos, é aquela em que se adivinha a aproximação de Cordélia, em que a mulher, das emig Weibliche entra em luta com a fatalidade. Não acham?
— E que tem que ver com tudo isto Cordélia? — ousou perguntar Levine, esquecido de que se tratava do Rei Lear.
— Cordélia aparece... Aqui! — exclamou Pestsov, batendo com os dedos no sedoso programa que tinha na mão e mostrava a Levine.
Só então este se recordou do título da fantasia e se deu pressa em ler os versos de Shakespeare impressos, em tradução russa, no reverso do programa.
— Sem isto é impossível acompanhar a música — insistiu Pestsov, que, abandonado pelo amador, se voltava, por falta de melhor auditório, para o mesquinho interlocutor que era para ele Levine.
Uma discussão se travou em seguida entre eles acerca dos méritos e defeitos da música wagneriana. Levine sustentava que Wagner e os seus admiradores faziam mal em invadir o terreno de outras artes; a poesia não foi feita para nos dar os traços de uma fisionomia, competência que pertence à pintura. E em apoio do seu ponto de vista, Levine citou o caso recente de um escultor que agrupara em volta da estátua de um poeta as supostas sombras da sua inspiração.
— Estas figuras parecem-se tanto ou tão pouco com sombras que se vêem obrigadas a apoiar-se a uma escada — concluiu ele, satisfeito com a frase que fizera. Mas, mal a pronunciou, pareceu-lhe lembrar-se vagamente de que a dissera já uma vez, e talvez ao próprio Pestsov. E logo se sentiu pouco à-vontade.
Pestsov, pelo contrário, era de opinião de que a arte é só uma; para que possa atingir a grandeza suprema, precisa que as suas diversas manifestações sejam reunidas num feixe único.
Levine não pôde ouvir nada do quarteto: a seu lado, Pestsov, tagarelou todo o tempo. A simplicidade afectada daquele trecho fez-lhe lembrar a falsa ingenuidade dos pintores pré-rafaelistas.
Assim que terminou o concerto, foi ao encontro da cunhada. À saída, depois de deparar com várias pessoas conhecidas e de com elas trocar impressões sobre política, música e amigos comuns, lobrigou o
O eterno feminino.
conde Boll, e a visita que se sentia obrigado a fazer ocorreu-lhe ao espírito.
— Bom, então vai e quanto antes — disse-lhe Natália, a quem ele confessou os seus remorsos. — Talvez a condessa não receba hoje. Depois vem ter comigo à reunião da minha comissão.
— A condessa recebe? — inquiriu Levine, ao penetrar no vestíbulo da residência dos Boll.
— Recebe, sim senhor, faça o favor de entrar — respondeu o guarda-portão, ajudando-o a despir a pelica sem mais considerações.
«Que maçada!», pensou Levine. «Que hei-de eu dizer? E que vim eu aqui fazer?»
Suspirou, descalçou uma das luvas, alisou a copa do chapéu e entrou no primeiro salão. Ali encontrou a condessa que dava ordens severas a um criado. Ao ver a visita, sorriu e pediu-lhe que entrasse para a salinha contígua, onde as suas duas filhas conversavam com um coronel conhecido de Levine. Depois de uma troca de cumprimentos, este sentou-se no divã com o chapéu nos joelhos.
— Sua mulher como está? Foi ao concerto? Nós não pudemos ir: a mãe tinha de assistir a um funeral.
— Sim, já soube... Que morte tão repentina! — disse Levine.
A condessa entrou, sentou-se no divã, perguntou, por sua vez, pela saúde de Kitty e pelo concerto. Levine, por seu lado, lastimou uma vez mais a morte súbita de Apraxina.
— Mas, de resto, ela nunca gozou de grande saúde.
— Esteve ontem na Ópera?
— Estive.
— A Lucca foi muito bem.
— Realmente.
E como pouco lhe importava a opinião daquela gente, Levine repetiu o que ouvira dizer mil vezes a respeito do talento da cantora, dando a condessa a impressão de o estar a ouvir. Quando lhe pareceu que dissera o bastante, calou-se, e então o coronel, que se conservara calado até aí, teve a sua oportunidade para falar da Ópera, abordando o assunto
da nova iluminação e falando da folie journée que haveria dentro de dias em casa dos Tiurine. Em seguida levantou-se ruidosamente e apresentou as suas despedidas. Levine quis seguir-lhe o exemplo, mas um relance de olhos surpresos da condessa fez-lhe compreender que ainda não era altura de partir. Voltou a sentar-se, atormentado com a triste figura que estava a fazer e cada vez mais incapaz de encontrar assunto para conversa.
— Vai à reunião da Comissão do Sul? — perguntou a condessa. — Dizem que deve ser muito interessante.
— Vou; prometi à minha belle-soeur ir buscá-la.
Novo silêncio, durante o qual as três senhoras se entreolharam.
«Agora deve ser a altura de me despedir», pensou Levine, e tornou a erguer-se. As senhoras não o detiveram mais. Apertaram-lhe a mão e pediram-lhe que transmitisse muitas lembranças à mulher.
Ao ajudá-lo a vestir a pelica, o guarda-portão pediu-lhe o endereço e inscreveu-o, com toda a solenidade, num soberbo livro encadernado.
«No fundo, estou-me nas tintas, mas, Deus do Céu, como isto é estúpido e ridículo!», pensava Levine, consolando-se com a ideia de que todos faziam a mesma coisa, e dirigiu-se à reunião pública da Comissão do Sul, onde devia encontrar-se com a cunhada, para acompanhá-la a casa.
Na reunião havia muita gente e estava lá quase toda a alta sociedade. Quando Levine chegou ainda liam a exposição geral dos trabalhos, muito interessante, segundo se dizia. Quando a leitura acabou, as pessoas reuniram-se e Levine encontrou-se com Sviajski, que o convidou, insistentemente, para visitar com ele a Sociedade de Exploração Agrícola, onde ia ler nessa noite um relatório de grande interesse. Também lá estavam Stepane Arkadievitch, que acabava de chegar das corridas, e outros conhecidos seus, com quem teve de trocar algumas palavras sobre a própria reunião, sobre uma peça que acabava de se estrear, sobre um processo que a todos apaixonava e a propósito do qual cometeu um erro que muito lastimou depois. Ao comentar a pena imposta a um estrangeiro julgado na Rússia e ao dizer que achava injusto que o expulsassem do país, Levine repetiu a frase que ouvira, na véspera, em conversa com um amigo: — Acho que expulsá-lo é a mesma coisa que castigar uma solha, atirando-a à água — disse Levine.
Depois, tarde de mais, recordou-se que aquele pensamento, que
Pândega.
expusera como próprio, pertencia a uma fábula de Kirilov e que a pessoa de cuja boca o recolhera o apanhara, por sua vez, num artigo de jornal.
Depois de acompanhar Natália a casa e de encontrar Kitty de óptima saúde, fez-se conduzir ao clube, onde chegou na altura em que já estavam todos, sócios e convidados.
Levine não voltara a pôr os pés no clube desde esses tempos em que, terminados os seus estudos, vivia em Moscovo e freqüentava a sociedade. Lembrava-se do clube e de todos os pormenores das suas instalações, mas esquecera por completo a impressão que outrora lhe causara. No entanto, sentiu-se invadido pela mesma sensação de repouso, de prazer e de bem-estar que experimentava antigamente ao freqüentá-lo, mal entrou no amplo pátio em semicírculo e se apeou do trem. E essa sensação foi crescendo à medida que subia as escadas, e depois, quando o porteiro, com a sua faixa, lhe abriu a porta, sem ruído, dobrando-se diante dele; quando viu no bengaleiro as pelicas e as galochas dos sócios, que estes, para terem menos trabalho, despiam e descalçavam mesmo ali, em vez de subirem com elas para o andar nobre; e quando ouviu a misteriosa campainha que lhe seguia os passos e, ao subir a atapetada escadaria de degraus muito baixos, contemplou a estátua que ornamentava o patamar, reconhecendo em cima o outro porteiro, mais velho agora, que lhe franqueou a porta sem precipitações, embora expedito, de olhos fitos nele. — O seu chapéu, faça favor — disse para Levine, que se esquecera de que a praxe do clube exigia deixar os chapéus na portaria. — Há muito tempo que aqui não vem. O príncipe Stepane Arkadievitch ainda não chegou.
O porteiro não só conhecia Levine mas, também, os seus amigos e parentes e declinou alguns nomes de pessoas muito chegadas a ele. Levine atravessou a primeira sala, com os seus biombos, e a sala da direita, onde se vendiam frutas e, adiantando-se a um sujeito velho que caminhava, vagaroso, entrou na sala de jantar, cheia de gente animada. Contornando as mesas, quase todos ocupadas já, ia examinando os comensais. Entre eles reconheceu alguns: uns, que conhecia apenas de vista, outros, íntimos seus. Não se via uma cara inquieta ou agitada. Dir-se-ia que todos haviam deixado na portaria, juntamente com os chapéus e as galochas, desgostos e preocupações, e achavam-se ali reunidos para gozar, paulatinamente, os bens materiais da vida. Lá estavam Sviajski, Tcherbatski e Nievedovski, o velho príncipe, Vronski e
Sérgio Ivanovitch.
— Até que enfim! — exclamou o velho príncipe, sorrindo, enquanto lhe estendia a mão por cima do ombro. — Como está a Kitty? — acrescentou, ajeitando o guardanapo numa das casas do colete.
— Está bem, jantam as três lá em casa.
— Ah! As «Aline-Nadine»! Aqui já não há lugar. Trata de arranjar pouso naquela mesa — disse o velho príncipe e, voltando-se, pegou no prato de sopa de peixe, que lhe apresentava um criado.
— Levine, aqui! — gritou uma voz jovial, a dois passos. Era Turovtsine, que estava sentado perto de um jovem oficial, diante de duas cadeiras reservadas. Depois de um dia tão sobrecarregado, a presença daquele pândego bonacheirão, por quem tivera sempre um fraco e que lhe fazia lembrar o dia do seu pedido de casamento, era-lhe particularmente agradável.
— Estão reservadas para si e para o Oblonski, que não tarda.
O oficial de olhos alegres, sempre risonhos, que se mantinha muito direito, era Gaguine. Turovtsine apresentou-o a Levine.
— O Oblonski chega sempre tarde.
— Aí vem ele.
— Acabas de chegar? — perguntou Stepane Arkadievitch, aproximando-se deles apressado. — Bons dias! Já tomaste vodka, não. Então vem cá.
Levine levantou-se e acompanhou Stepane Arkadievitch à mesa grande, onde havia vários pratos frios e diferentes espécies de vodka. Dir-se-ia que entre vinte acepipes diferentes não era difícil escolher um, mas Stepane Arkadievitch pediu um acepipe especial e não tardou que viesse servir-lho um criado de libré. Os cunhados beberam um copinho de vodka e voltaram para a mesa.
Quando comiam a sopa de peixe, trouxeram a Gaguine uma garrafa de champanhe, que este mandou servir aos quatro. Levine não se opôs e, até, encomendou outra garrafa. Tinha fome, comia e bebia com satisfação, tomando parte, com maior satisfação ainda, nas conversas alegres e simples dos seus companheiros de mesa. Baixando a voz, Gaguine contou uma das últimas anedotas de Sampetersburgo e, conquanto indecente e estúpida, era tão divertida que Levine soltou uma sonora gargalhada, chamando a atenção dos comensais das mesas vizinhas.
— É no mesmo estilo dessa outra «Isso é precisamente o que eu não posso suportar» — declarou Stepane Arkadievitch. — Conheces essa?
Mais uma garrafa! — gritou para o criado.
— Da parte de Piotre Ilitch Vinovski — disse um criado velhinho, depondo diante de Levine e do cunhado duas taças de champanhe a espumar. Oblonski pegou numa das taças e, depois de trocar olhares com um velho calvo, de bigodes ruivos, sentado noutra mesa, sorriu-lhe, com um aceno de cabeça.
— Quem é? — perguntou Levine.
— Conheceste-o em minha casa, não te lembras? Um bom rapaz! Levine imitou Stepane Arkadievitch e pegou na taça.
A anedota de Oblonski também foi muito divertida. Levine contou outra, que outrossim agradou muito. Depois falou-se de cavalos, das corridas que se realizavam naquele mesmo dia e da habilidade com que ganhara o prêmio o Atlasny, de Vronski. Levine não deu pelo tempo enquanto durou o jantar.
— Ah! Aqui estão eles! — exclamou Stepane Arkadievitch, no final da refeição, inclinando-se por cima do espaldar da cadeira e estendendo a mão a Vronski, que se aproximava acompanhado de um alto coronel da Guarda. O rosto de Vronski reflectia também a alegria geral do clube. Apoiando-se ao ombro de Stepane Arkadievitch, segredou-lhe qualquer coisa, enquanto apertava a mão de Levine, com o mesmo sorriso.
— Tenho muita satisfação em tornar a vê-lo — disse ele. — Pró-curei-o nas eleições, mas disseram-me que tinha partido.
— Sim, fui-me embora nesse mesmo dia. Agora mesmo estávamos a falar do seu cavalo, Felicito-o— disse Levine.
— O senhor também tem cavalos, não é verdade?
— Não, meu pai é que tinha, mas, por tradição, entendo alguma coisa do assunto.
— Onde jantaste? — perguntou Stepane Arkadievitch.
— Estamos na segunda mesa, atrás das colunas.
— Tem recebido muitas felicitações—disse o alto coronel. — É bonito, o segundo prêmio imperial! Quem me dera ter tanta sorte com as cartas como ele tem com os cavalos! Perco o meu tempo. Vou até à sala infernal — acrescentou, afastando-se.
— É o Iachivne — explicou Vronski a Turovtsine, e sentou-se no lugar que ficara livre junto deles.
Depois de beber a taça de champanhe que lhe ofereceram, por sua vez mandou vir uma garrafa. Ou fosse do ambiente do clube ou do muito
que bebera, o certo é que Levine falou animadamente com Vronski acerca da melhor raça de cavalos, sentindo-se muito contente por não experimentar a mínima animosidade contra ele. Disse-lhe, mesmo, entre outras coisas, que sabia, pela mulher, que tinham estado juntos em casa da princesa Maria Borisovna.
— Oh! A Maria Borisovna é um encanto! — exclamou Stepane Arkadievitch.
E a propósito contou uma anedota, que despertou o riso de todos os presentes. Vronski, sobretudo, riu com tanta satisfação que Levine se sentiu completamente reconciliado com ele. — Quê? Já acabámos? — acrescentou, levantando-se e sorrindo. — Então vamos!