Daria Alexandrovna passava o Verão com os filhos em Pokrovskoie, em casa de Kitty. A casa de campo dos Oblonski ruíra por completo e Levine e a mulher tinham convencido Dolly a passar o Verão com eles. Stepane Arkadievitch aprovara com entusiasmo a decisão. Dizia sentir muito que o seu trabalho o impedisse de passar com a família a estação calmosa, no campo, coisa que constituiria para ele a maior das felicidades. Ficara em Moscovo e de quando em quando vinha por alguns dias à aldeia. Além dos Oblonski, dos filhos e da preceptora, também lá estava a velha princesa, que entendia dever seu cuidar da filha em «estado interessante.» Varienka, a amiga de Kitty, do estrangeiro, em cumprimento da promessa que fizera de a visitar quando ela se casasse, viera passar também uma temporada em casa de Levine. Todos eram parentes e amigos da mulher. E conquanto Levine a todos estimasse, nem por isso deixava de lamentar que se perturbasse a ordem do «elemento Levine», com a invasão do «elemento Tcherbatski», que assim costumava chamar lhes no seu foro íntimo. Naquele Verão, em sua casa apenas havia uma pessoa da sua família: Sérgio Ivanovitch. Este, porém, não se parecia em nada com os Levines na sua maneira de ser, era do lado Kosnichev, de modo que o espírito dos da sua raça desaparecera por completo.
Em casa de Levine, por tanto tempo deserta, havia agora tanta gente que quase todos os quartos estavam ocupados e quase todos os dias a velha princesa, ao sentar se, contando os comensais, punha a comer numa mesinha à parte alguns dos seus netos, pois não queria treze à mesa. Kitty, azafamada com a casa, tinha grandes dificuldades em conseguir galinhas, pavões e patos para satisfazer o apetite dos hóspedes, que o ar do campo tornava devorador, quer nas crianças, quer nos adultos. Toda a família se encontrava já à mesa. Os filhos de Dolly com a sua preceptora e Varienka faziam projectos acerca do local onde apanhar cogumelos. Sérgio Ivanovitch, que gozava entre os convidados de um respeito que era quase adoração, mercê da sua inteligência e sabedoria, a todos assombrava tomando parte na tagarelice.
— Levem me a mim também. Gosto muito de apanhar cogumelos — disse, voltando se para Varienka. — Acho que é uma ocupação muito salutar.
— Dá nos muita satisfação que venha também — tornou lhe esta, corando.
Kitty e Dolly trocaram um olhar significativo. A proposta de Sérgio Ivanovitch, no sentido de ir apanhar cogumelos com Varienka, confirmava certas suspeitas de Kitty nos últimos tempos. E deu se pressa em entabular conversa com a mãe, para que não reparassem no seu olhar. Finda a refeição, Sérgio Ivanovitch sentou se com a sua xícara de café junto à janela da sala e continuou a conversa iniciada com o irmão, sem perder de vista a porta por onde as crianças tinham de sair para se dirigirem à mata. Levine sentara se no parapeito da janela, ao lado dele.
Kitty em pé, perto do marido, parecia aguardar o final da conversa, que não lhe interessava, para lhe dirigir a palavra.
— Mudaste muito desde que te casaste, e para melhor — dizia Sérgio Ivanovitch, com um sorriso, naturalmente pouco interessado na conversa. — Mas continuas fiel à tua mania de defenderes os temas mais paradoxais.
— Kátia, não é bom estares de pé — disse o marido para Kitty, aproximando dela uma cadeira e relanceando lhe um olhar significativo.
— É verdade! — afirmou Sérgio Ivanovitch. — Naturalmente são horas de os deixar — acrescentou, ao ver os pequenos que saíam a correr.
À frente de todos, Tânia, com as suas meias muito esticadas, agitando na mão uma cestinha e o chapéu de Sérgio Ivanovitch, corria ao encontro deste. Ao chegar perto dele, de olhos brilhantes, tal qual os belos olhos do pai, apresentou lhe o chapéu, fazendo um movimento para lho enfiar na cabeça, enquanto atenuava o atrevimento com um sorriso tímido e meigo.
— A Varienka está à espera — disse, enquanto com todo o cuidado lhe enfiava na cabeça o chapéu, deduzindo do sorriso dele estar disposto a consentir.
Varienka, com um vestido de percal amarelo e um lenço branco na cabeça, aguardava à porta.
— Já vou, Bárbara Andreievna — disse Sérgio Ivanovitch, acabando de beber o café e guardando no bolso â boquilha e o lenço.
— É encantadora a minha Varienka, não é verdade? — disse Kitty ao marido, assim que Sérgio Ivanovitch se levantou. Disse o de modo que aquele pudesse ouvir, que não era outra a sua intenção.
— É bonita! Que beleza tão nobre! Varienka! — chamou. — Vão à mata do moinho? Iremos lá ter com vocês.
— Esqueceste te do teu estado, Kitty — interveio a velha princesa,
entrando precipitadamente. — Não deves gritar assim.
Ao ouvir a voz de Kitty e a censura da princesa, Varienka aproximou se, rápida, nos seus passinhos ligeiros. A ligeireza dos seus movimentos e as cores que se lhe pintavam no rosto animado denunciavam um estado de espírito excepcional. Kitty sabia o que aquilo queria dizer e observou a atenta. Chamara Varienka na intenção de lhe dar mentalmente a sua bênção, em vista do facto importante que, segundo ela, teria lugar essa mesma tarde na mata.
— Varienka, sentir-me-ei muito feliz se acontecer uma coisa que eu sei — murmurou lhe ao ouvido, quando a beijou.
— Vem connosco? — perguntou Varienka a Levine, perturbada e fingindo não ter ouvido Kitty.
— Acompanhá-los-ei até à granja e ficarei ali.
— Que vais tu fazer à granja? — perguntou Kitty.
— Tenho de passar revista às novas carroças — disse Levine. — E tu, que vais fazer?
— Fico na varanda.
Na varanda estava reunido o elemento feminino. Em geral, as senhoras gostavam de sentar se ali; mas naquele dia, aliás, tinham de desempenhar se de uma tarefa concreta. Além da costura das camisinhas e das faixas, em que todas se ocupavam, iam fazer doce de frutas por um sistema que Agáfia Mikailovna desconhecia, isto é, sem lhe acrescentarem água. Kitty queria introduzir o processo usado em sua casa. Agáfia Mikailovna, até então encarregada desse mister, que entendia nada poder fazer se mal em casa dos Levines, deitara água nos morangos, certa de que não podia ser de outra maneira. Surpreendida, a despeito das instruções precisas que recebera, a acrescentar água aos morangos, de acordo com a receita dos Levines, ei-las que decidem fazer o doce de morangos em público, para provar à velha casmurra ser perfeitamente dispensável a água no doce de frutas.
Agáfia Mikailovna, muito corada, de cabelos desgrenhados, as mangas arregaçadas até aos cotovelos, deixando à mostra uns braços descarnados, fazia girar o tacho sobre um fogareiro, enquanto olhava acabrunhada para as framboesas, augurando, no fundo da sua alma, que ficassem duras. A velha princesa compreendendo que nela, a principal
conselheira da preparação do doce, se concentrava a ira da governanta, fingia se ocupada em outras coisas, indiferente ao que se passava no tacho, falando disto e daquilo. No entanto, pelo canto do olho, relanceava a vista para o fogareiro.
— Compro sempre nos saldos os vestidos para as minhas criadas — dizia, continuando a conversa interrompida. — Não acha que é altura de espumar o doce, minha querida? — acrescentou, dirigindo se a Agáfia Mikailovna. — Não, não — acorreu, retendo Kitty, que ia levantar se. — Isto não é da tua conta, e perto do fogareiro faz muito calor.
— Deixe —disse Dolly. E, erguendo se, aproximou se do lume, pondo se a passar uma colher pela calda espumante. Depois, para esvaziar a colher da calda, que se lhe pegara, principiou a bater com ela num prato coberto já de espuma amarelo avermelhada, de onde corria um suco cor de sangue. «Que regalo para os meninos à hora do chá!», pensou ela, lembrando se de que quando era pequena se admirava de que as pessoas adultas não aproveitassem o melhor: a espuma das compotas.
— O Stiva acha que é melhor dar se lhes dinheiro — prosseguiu Dolly, retomando a conversa entabulada, tão interessante, acerca do que mais convinha oferecer às criadas. — Mas...
— Dinheiro! — exclamaram ao mesmo tempo a princesa e Kitty.
— Mas de maneira nenhuma, o que elas agradecem é a atenção.
— Eu, por exemplo — acrescentou a princesa —, dei o ano passado à Matriona um vestido no gênero da popelina...
— Sim, bem me lembro, ela trazia o no dia dos seus anos.
— Tinha um lindo desenho, simples, encantador. Se ela não tivesse um, gostaria bem de ter um igual. Era bonito e barato, no gênero daquele que traz a Varienka.
— Acho que o doce está pronto — disse Dolly, levantando a calda na colher.
— Não. A calda tem de formar ponto — decretou a princesa. — Deixe o ferver um pouco mais, Agáfia Mikailovna.
— Oh, estas malditas moscas! — resmungou a velha governanta.
— Vai ficar igual à outra — acrescentou.
— Oh, que lindo! Não o espantem! — exclamou Kitty, inesperadamente, ao ver um pardal pousado na balaustrada, que debicava um pèzinho de framboesa...
— Sim, sim — disse a mãe —, mas não te aproximes do fogareiro.
— À propos de Varienka — disse Kitty em francês, como, de resto, era em francês toda a conversa sempre que não queriam que Agáfia Mikailovna as entendesse. — Fica sabendo, maman, que espero hoje uma decisão. Já sabes a que me refiro. Que bom seria!
— Viraste casamenteira, hem? Ele (referia se a Sérgio Ivanovitch) podia aspirar aos melhores partidos da Rússia. E embora já não esteja no verdor dos anos, muita menina conheço eu que se não importaria nada de lhe aceitar o coração e a aliança... Varienka é muito boa pequena, mas ele podia...
— Não, não, é impossível arranjar para qualquer deles melhor partido. Em primeiro lugar, ela é encantadora! — disse Kitty, dobrando um dos dedos.
— Que ela lhe agrada muito, é um facto — aprovou Dolly.
— Depois, ele tem uma situação que lhe permite casar com quem lhe apeteça, à parte toda e qualquer consideração de categoria e de fortuna. Do que ele precisa é de uma mulher às direitas, meiga e tranqüila...
— Oh! Quanto a isso, não há dúvida, é a tranqüilidade em pessoa — confirmou Dolly.
— E, afinal, ela gosta dele... Estou doida de contente! Assim que voltarem do passeio, saberei tudo pelos olhos deles. Que te parece, Dolly? — Não te excites assim. Não te deves excitar — disse lhe a mãe.
— Não me excito, mãezinha. Parece me que ele se vai declarar hoje mesmo.
— O que nós sentimos quando um homem nos pede em casamento! É como se um dique se rompesse entre nós — observou Dolly, com um sorriso cismador. Recordava o seu noivado com Stepane Arkadievitch.
— Diga lá, mãezinha, como foi que o pai se lhe declarou?
— Da maneira mais simples — disse a princesa, rejubilando com a reminiscência.
— Mas como foi? Já gostava do pai antes de lhe consentirem que falasse com ele? Kitty sentia uma grande satisfação em poder conversar com a mãe de igual para igual em coisas tão importantes na vida de uma mulher.
— Pois claro que gostava. Vinha nos visitar na aldeia.
— E como se resolveu tudo?
A propósito
— Da mesma maneira de sempre: com olhares e sorrisos. Julgam que descobriram alguma coisa de novo? — Com olhares e sorrisos — repetiu Dolly. — É isso mesmo. Que bem que a mãe disse! — Mas em que termos falou ele?
— E que te disse o Kóstia de especial?
— Oh, fez me uma declaração com giz!... Não foi nada banal. Mas como me parece distante já! Houve um silêncio, durante o qual o pensamento das três seguiu o mesmo caminho. Kitty lembrou se do seu último Inverno de menina solteira, do seu entusiasmo por Vronski e, graças a uma associação de ideias, da paixão contrariada de Varienka.
— Parece me — observou Kitty — que pode haver um obstáculo: o primeiro amor de Varienka. Fazia tenção de preparar o Sérgio Ivanovitch para isso mesmo. Os homens têm tantos ciúmes do nosso passado.
— Nem sempre — objectou Dolly. — Tu pensas isso por causa do teu marido. Estou convencida de que a história do Vronski ainda hoje o atormenta.
— É verdade — confirmou Kitty, pensativa.
— Que há no teu passado que o possa inquietar? — perguntou a princesa, pronta a susceptibilizar se, uma vez que via posta em causa a sua vigilância maternal. — Vronski fez te a corte, mas qual a rapariga que não tenha passado por lá?
— Não é disso que se trata — disse Kitty, corando.
— Perdão — voltou a mãe —, foste tu que me impediste que eu falasse com o Vronski. Lembras te? — Oh, mãezinha! — exclamou Kitty, numa voz perturbada.
— Nos tempos que correm já não há maneira de as manter resguardadas... As vossas relações não podiam ir mais além do que deviam. Eu mesma o teria obrigado a declarar se... Mas, pelo menos agora, minha filha, faz me o favor de te não perturbares. Sossega, peço te.
— Estou muito sossegada, mãezinha.
— Que sorte para a Kitty, Ana aparecer naquela altura — observou Dolly —, e que desgraça para ela!... Sim — continuou impressionada com a lembrança —, como os papéis se inverteram! Ana era feliz então, enquanto Kitty se julgava desgraçada... Penso nela muitas vezes...
— Que ideia é essa de pensares nessa mulher sem coração, nessa abominável criatura! — exclamou a princesa, que se não resignava a ter Levine por genro, preferindo lhe Vronski.
— Falemos noutra coisa — disse Kitty, impacientada. — Nunca penso nem quero pensar nisso... Não, não quero pensar nisso — repetiu apurando o ouvido. Eram os passos do marido, tão seus conhecidos, pela escada acima.
— Em que não queres tu pensar? — perguntou Levine, que aparecera na varanda.
Ninguém lhe respondeu e ele não repetiu a pergunta.
— Lamento vir perturbar a vossa conversa — disse, percorrendo as três com um olhar pouco satisfeito, pois percebera que não queriam continuar a conversa diante dele. Por um momento, esteve de acordo com a velha governanta que se não resignava à ideia de fazer compota sem água e se recusava de maneira geral a submeter se ao domínio dos Tcherbatski.
No entanto, aproximou se, sorrindo, de Kitty.
— Então? — perguntou lhe ele, olhando a com aquela expressão com que todos se lhe dirigiam agora.
— Nada, estou muito bem — respondeu ela, sorrindo. — E as tuas carroças? — Levam três vezes a carga de uma telega. Vamos ao encontro das crianças? Mandei atrelar.
— Não queres submeter Kitty aos solavancos de uma tartana, suponho eu — exclamou a princesa em tom de censura.
— Vamos à passo, princesa.
Levine nunca chamava à sogra maman, como costumam fazer todos os genros, coisa que desagradava à princesa. Embora a estimasse e a respeitasse, não podia tratá-la assim sem profanar a lembrança da sua falecida mãe.
— Venha connosco, maman — disse Kitty.
— Não quero presenciar essas imprudências.
— Então irei a pé. Até me fará bem — replicou Kitty, levantando se. E aproximou se do marido, travando lhe do braço.
— Sentes te bem, mas é preciso ter cuidado — tornou a princesa.
— Então essa compota, Agáfia Mikailovna? — inquiriu Levine, sorrindo à velha criada, procurando alegrá-la. — Está satisfeita com o novo método?
— Deve estar bem. Mas para nós está cozida de mais.
— Assim é melhor, Agáfia Mikailovna, porque não azeda. Como já não temos gelo, não a poderíamos conservar — disse Kitty, compreendendo a intenção do marido e procurando por sua vez apaziguar a velha. — Em compensação as suas conservas salgadas são magníficas; a mãe diz que nunca comeu melhores em parte alguma — acrescentou, sorrindo, enquanto lhe ajeitava o mantelete.
A governanta olhou para Kitty com expressão enfadada.
— Não me consolo, minha senhora. Basta vê-la com ele para me sentir contente — disse ela, e a maneira familiar de dizer «ele» emocionou Kitty.
— Venha connosco dizer nos onde há bons cogumelos.
Agáfia Mikailovna sorriu e abanou a cabeça, como que a dizer: «Gostaria de me zangar com a senhora, mas não é possível.»
— Faça como lhe digo — disse a princesa —: cubra cada tigela com uma roda de papel embebida em rum, e não precisará de gelo para impedir o bolor.
A sombra de desagrado que perpassou pelo rosto tão expressivo do marido não passara despercebida a Kitty. Por isso foi lhe muito agradável ver se a sós com ele; e assim que se adiantaram aos outros pela estrada poeirenta, toda coberta de espigas e de grãos de centeio, apoiou se amorosamente no seu braço, apertando-o contra si. Levine já esquecera a má impressão de momento para só pensar na gravidez da mulher. Era esse, aliás, de há muito para cá, o seu pensamento dominante e a presença da mulher despertava nele um sentimento novo, muito puro e muito suave, de todo isento de sensualidade. Sem nada ter que dizer, desejava ouvir lhe a voz, que tinha mudado, adquirindo, tal como o olhar, esse matiz de doçura e gravidade tão característico das pessoas que se consagram de corpo e alma a uma só e única ocupação.
— Não te irás cansar? Apóia te mais no meu braço — disse lhe ele.
— Não, gosto tanto de estar assim um bocadinho sozinha contigo. Gosto dos meus, mas, para te falar francamente, já tenho saudades dos nossos serões de Inverno, só nós os dois.
— Eram muito agradáveis, mas isto ainda é melhor — tornou lhe Levine, apertando lhe o braço.
— Sabes do que falávamos quando chegaste?
— De compotas.
— Sim, mas também da maneira como se costumam fazer declarações de amor.
— Ah! — exclamou Levine, que prestava menos atenção ao que Kitty dizia do que ao som da sua voz. Aliás, como iam entrar na mata, ele escolhia atentamente o caminho para evitar que Kitty tropeçasse.
— E também do Sérgio Ivanovitch e da Varienka — continuou ela.
— Que te parece? Notaste alguma coisa? Que achas tu? — perguntou, olhando-o bem de frente.
— Não sei bem... — replicou Levine, sorrindo. — Neste particular, nunca compreendi o Sérgio lá muito bem. Não te disse já...
— Que ele gostou de uma rapariga que morreu...
— Sim, eu ainda era criança e não conheço a história se não de ouvi-la contar. No entanto, lembro me dele muito bem nessa altura. Que rapaz encantador! De então para cá tenho observado a maneira como se comporta com as mulheres: mostra se amável, algumas agradam lhe mesmo, mas dir se á que não existem para ele como mulheres.
— É possível. Mas com Varienka... parece que há qualquer coisa...
— Talvez... no entanto é preciso conhecer o Sérgio... É um homem estranho, surpreendente. Apenas vive pelo espírito. Tem uma alma muito pura, muito elevada...
— Achas então que o casamento o diminuiria?
— Não, mas vive demasiado enfronhado na vida espiritual para poder admitir a vida real. E Varienka, bem vês, é bem a vida real.
Levine habituara se a exprimir ousadamente o seu pensamento sem lhe dar uma forma concreta; sabia que nos momentos de perfeito entendimento a mulher o compreenderia por meias palavras. E era esse o caso.
— Oh, não! Varienka pertence muito mais à vida espiritual do que à vida real. Não é como eu, e compreendo perfeitamente que uma mulher do meu gênero lhe não desperte amor.
— Nada disso. Ele gosta muito de ti, e para mim é muito consolador que tenhas conquistado a simpatia dos meus.
— Sim, é verdade que ele se mostra muito simpático comigo, mas...
— Porém não é o mesmo que com o pobre do Nicolau — concluiu Levine. — Esse gostou logo de ti, e tu pagaste lhe na mesma moeda... Por
que não confessá-lo?... Censuro me a mim próprio muitas vezes por não pensar mais nele; acabarei por esquecê-lo! Era uma natureza estranha... e terrível... Mas de que estávamos nós a falar? — continuou, depois de uma pausa.
— Então achas que não é pessoa para se enamorar? — perguntou Kitty, traduzindo em palavras suas o pensamento do marido.
— Não digo isso — respondeu Levine, sorrindo —, mas não é acessível a qualquer fraqueza... Sempre o invejei, e agora mesmo continuo a invejá-lo, apesar de me sentir tão feliz.
— Invejá-lo por ele não ser capaz de se enamorar?
— Invejo o porque ele vale mais do que eu — disse Levine, depois de um novo sorriso. — Ele não vive para si mesmo, é o dever que o guia. Por isso tem todo o direito de se sentir tranqüilo e satisfeito...
— E tu? — perguntou ela com um sorriso brincalhão e enternecido. Se a interrogassem sobre o sentido daquele sorriso, não teria sabido explicá-lo formalmente. De facto, não acreditava que, proclamando se inferior a Sérgio Ivanovitch, o marido estivesse a ser muito sincero; obedecia simplesmente à muita amizade de que tinha pelo irmão, ao embaraço que lhe causava a excessiva felicidade em que vivia e ao desejo de aperfeiçoamento que o trabalhava.
— E tu? De que estás tu descontente? — repetiu ela, sorrindo. Satisfeito por verificar que ela não acreditava no seu descontentamento, Levine, inconscientemente, na sua satisfação, procurava como que forçá-la a pedir lhe que expusesse os motivos desse descontentamento.
— Sou feliz, mas não me sinto contente comigo — disse ele.
— Como assim, visto que és feliz?
— Como hei de eu fazer te compreender?... Nada mais tenho a desejar neste mundo se não que tu não dês algum passo em falso. Então, não saltes assim! — exclamou ele, interrompendo o fio ao discurso para exprobrá-la por ter saltado de maneira demasiado brusca um ramo seco atravessado no caminho. — Mas —, prosseguiu ele — quando me comparo com outros, com meu irmão, principalmente, sinto que não valho grande coisa.
— Por quê? — teimou ela, sempre com o mesmo sorriso. — Pois tu não pensas também no próximo? Esqueces as tuas terras, as tuas explorações agrícolas, o teu livro? — Não, nada disso é sério, e de há tempos a esta parte só me dedico a isto como a uma tarefa de que estou morto por me ver livre. A
culpa é tua, de resto — declarou ele, apertando lhe o braço. — Ah, se eu pudesse gostar das minhas obrigações como gosto de ti! — Então, que me dizes tu do paizinho? — interveio Kitty. — Também o achas má pessoa por nada fazer em benefício do bem comum? — Ele? Não. Ele é bom, mas eu não tenho nem a sua simplicidade, nem a sua bondade, nem a sua clareza de espírito. Eu não faço nada e o não fazer nada atormenta me. E tudo por tua causa. Quando não te tinha a ti nem a «isso» — disse ele, relanceando os olhos ao ventre de Kitty, gesto que ela logo compreendeu muito bem —, entregava me aos meus afazeres de alma e coração. Agora, repito te, tudo isso é uma tarefa como outra qualquer. Faço as coisas como se estivesse a dar uma lição, finjo...
— Quererias tu, porventura, trocar a tua vida pela do teu irmão? Gostares apenas do teu dever e do bem comum? — Não, com certeza. Aliás, sinto me demasiado feliz para raciocinar bem... Achas então que ele se vai declarar hoje mesmo? — perguntou, depois de uma curta pausa.
— Sim e não, mas gostaria muito que ele o fizesse. Espera — Kitty baixou se para apanhar uma margarida à beira do caminho. — Anda, arranca lhe as pétalas, vamos ver se ele se declara ou não — disse, entregando lhe a flor.
— Sim, não, sim, não — dizia Levine, arrancando as delgadas pétalas brancas, uma a uma.
Kitty, porém, que seguia emocionada cada movimento dos dedos do marido, travou lhe do braço.
— Não, não tu arrancaste duas de uma só vez!
— Bom, então não conto esta pequena — concordou Levine, ponde de lado uma pètalazinha minúscula. — Aí vem a tartana, que já nos apanhou.
— Estás cansada, Kitty? — gritou a princesa.
— Nada, mãezinha.
— Se estás cansada, sobe, que os cavalos são mansos e vão a passo. Porém não valia a pena, já estavam perto; continuaram o caminho.
Varienka, muito graciosa, o lenço branco a sobressair nos cabelos pretos, rodeada das crianças, participava, alegremente, das suas
brincadeiras, e naturalmente sentia se emocionada pensando que o homem de quem gostava se lhe iria declarar. Sérgio Ivanovitch, a seu lado, não deixava de a olhar. Ia recordando as conversas agradáveis que tivera com ela e tudo o que de bom lhe tinham dito a seu respeito, compreendendo cada vez mais claramente experimentar aquele sentimento especial que outrora sentira, no tempo da sua juventude. A alegria que lhe dava a presença de Varienka foi aumentando até ao momento em que, ao depositar lhe na cesta um cogumelo, de pé delgado e grande chapéu de abas reviradas, que encontrara, a fitou nos olhos, verificando que um rubor de emoção lhe velava o rosto e havia nela como que temor e alegria. Sérgio Ivanovitch perturbou se também e sorriu lhe com um desses sorrisos que falam por si.
«Se as coisas chegaram já a este ponto», disse com os seus botões, «preciso de pensar antes de tomar uma resolução. Não quero deixar me levar como um garoto por um entusiasmo passageiro.»
— Se me dá-licença — disse ele, em voz alta — vou apanhar cogumelos por minha conta; de outra maneira ninguém apreciará os meus achados.
Afastando se, pois, da orla da mata, onde todos pisavam a sedosa erva rasteira, entre os álamos velhos, encaminhou se para o interior do bosque. Ali os troncos brancos dos álamos misturavam se aos troncos cinzentos dos olmos e negrejavam as escuras aveleiras. Andou alguns passos e ao chegar ao pé de uns arbustos cobertos de flores deteve se, certo de que ali ninguém o via. Tudo à sua volta estava em sossego. Apenas junto aos álamos, a cuja sombra se acoitava, zumbiam as moscas tal um enxame de abelhas, e de quando em quando ressoavam as vozes das crianças. De súbito ouviu se, não longe dali, a voz de contralto de Varienka chamando Gricha. Um sorriso iluminou o rosto de Sérgio Ivanovitch e, ao tomar consciência desse sorriso, abanou a cabeça em sinal de desaprovação. Depois, puxou de um cigarro e pôs se a fumar. Durante um longo espaço de tempo não conseguiu acender o fósforo, que riscava no tronco de uma bétula. A penugem macia do branco tronco pegava se ao fósforo e apagava a chama. Por fim conseguiu acender um dos fósforos e o fumo aromático do cigarro elevou se como um véu ondulante por cima do arbusto e por debaixo dos ramos pendentes da bétula. Seguindo com os olhos o fumo do cigarro, Sérgio Ivanovitch principiou a andar lentamente, reflectindo sobre a situação.
«E por que não?», pensava ele. «Não se trata de uma paixoneta, mas de uma inclinação mútua, ao que me parece, e que em nada entravaria a minha vida. A única objecção que tenho a fazer ao casamento é a minha promessa, ao perder Maria, de continuar fiel à sua memória.»
Esta objecção, Sérgio Ivanovitch bem o sentia, não tinha para ele qualquer importância; apenas comprometia, aos olhos dos outros, o papel romântico que representava. «Não, francamente, à parte isto, não vejo nenhum obstáculo e por mais que procure nada posso encontrar que comprometa o meu sentimento. Se tivesse escolhido guiado apenas pela razão, não tinha encontrado nada melhor.» Pensando em quantas raparigas e mulheres conhecia, não se lembrava de nenhuma que reunisse as qualidades que, ao reflectir friamente, desejava para a que fosse sua mulher. Varienka tinha o encanto e a louçania da juventude sem ser uma criança, e, se o amava, amava o conscientemente, como uma mulher deve amar. Eis um dos pontos. Além disso, estava longe de ser uma mulher mundana, mas, se lhe repugnava a sociedade, conhecia a e sabia mover se nela, qualidade sem a qual Sérgio Ivanovitch não podia conceber a companheira da sua vida. Finalmente era religiosa, não como uma menina, no gênero de Kitty, por exemplo — boa e religiosa por instinto —, mas porque baseava a sua vida em princípios religiosos. Inclusive, em pequeninas coisas, Sérgio Ivanovitch encontrava nela tudo quanto podia desejar para a mulher que viesse a ser sua esposa. Varienka era pobre e estava só no mundo, de sorte que não traria atrás de si uma caterva de parentes, com a sua respectiva influência na casa do marido, esse o caso de Kitty. Em tudo se sentiria obrigada para com ele, coisa que também sempre desejara para a sua futura vida conjugal. E a rapariga que reunia em si todas estas condições gostava dele, Sérgio Ivanovitch, conquanto modesto, não pudera deixar de o observar. Também ele a amava. Uma coisa se opunha: a sua idade. Na sua família, contudo, todos tinham chegado a velhos.
Sérgio Ivanovitch estava sem um cabelo branco; ninguém lhe dava quarenta anos. Demais, lembrava se que na opinião de Varienka só na Rússia se consideravam velhos os cinqüentões. Em França dizia se que um homem dessa idade estava dans la force de l’âge e a um homem de quarenta anos chamava se un jeune homme . Que importava a idade, se se sentia tão jovem de espírito como há vinte anos? Acaso não era juvenil o sentimento que experimentava agora quando, ao surgir de novo na clareira da mata, via, sob os oblíquos raios de sol, a graciosa figura de Varienka com o seu vestido amarelo? Com a cesta debaixo do braço, ei-la que passava, com o seu passinho ligeiro, ao pé do tronco de uma velha bétula. A impressão que Varienka lhe causou associou se à paisagem, que o surpreendeu, de tão bela, ao campo de aveia, que rolava as suas ondas douradas banhado pelos raios do Sol e, mais além, ao velho bosque, todo salpicado de manchas amarelas, que se desvaneciam na distância azul. O
Na força da idade Um rapaz
coração estremeceu lhe de alegria dentro do peito. Deu se conta de que estava decidido. Varienka, que se abaixava para apanhar um cogumelo, ergueu se, num movimento ágil, voltando a cabeça. Tirando da boca o cigarro, Sérgio Ivanovitch dirigiu se para ela em passo resoluto.
«Bárbara Andreievna, quando eu era rapaz, forjei um ideal de mulher a quem amaria e com quem seria feliz fazendo dela minha mulher. Vivi muitos anos e em si vim a encontrar pela primeira vez o que procurava. Amo a e peco lhe que seja minha mulher.» Sérgio Ivanovitch dizia entre dentes estas palavras quando se encontrou a poucos passos de Varienka, de joelhos, defendendo um cogumelo que Gricha queria apanhar, e chamando por Macha.
— Aqui, aqui. Há muitos pequenos — dizia, com a sua agradável voz peitoral.
Ao ver Sérgio Ivanovitch, que se aproximava, não se levantou nem mudou de posição. Tudo dizia, porém, que notara a sua aproximação e que sentia nisso grande alegria.
— Quê? Encontrou algum? — inquiriu, voltando para ele o seu rosto que sorria, sereno, emoldurado no lenço branco.
— Nenhum — respondeu Sérgio Ivanovitch. — E você? Varienka não lhe respondeu, ocupada com as crianças que a rodeavam.
— Ali está outro, perto daquele ramo — disse, indicando, a Macha, um cogumelo minúsculo cujo chapéu rosado aparecia, cortado de lado a lado, por uma haste de erva seca, debaixo da qual crescera. Varienka pôs se de pé quando Macha colheu o cogumelo, partindo o em dois. — Isto lembra me a minha infância — disse, afastando se das crianças e acercando se de Sérgio Ivanovitch.
Caminharam uns tantos passos em silêncio. Varienka via que Sérgio Ivanovitch queria falar, adivinhava o que ele lhe ia dizer e uma grande emoção se lhe apoderava da alma, uma emoção em que havia ao mesmo tempo alegria e receio. Tanto se haviam afastado que ninguém podia ouvi-los; e, contudo, ele permanecia calado. Após um silêncio ser lhe ia mais fácil abordar o que desejava do que após algumas palavras sobre cogumelos. Mas, contra sua vontade, como de improviso, Varienka disse: — Pelo que vejo, não encontrou nenhum? Na verdade, no meio do
bosque há menos cogumelos que na orla da mata.
Sérgio Ivanovitch suspirou sem responder. Desagradava lhe que Varienka tivesse falado de cogumelos. Desejaria fazê-la voltar às suas primeiras palavras sobre a infância mas, com grande surpresa sua, depois de um silêncio, achou se a articular:
— Tenho ouvido dizer que os cogumelos brancos crescem principalmente na orla dos bosques, mas não sou capaz de distinguir uns dos outros.
Alguns minutos decorreram ainda. Estavam agora completamente sós. O coração de Varienka batia precipitadamente. Sentia se corar e empalidecer alternadamente. Deixar Madame Sthal para casar com um homem como Kosnitchev, de quem se julgava quase certamente enamorada, afigurava se lhe o cúmulo da felicidade. E tudo ia decidir se agora! Temia a declaração e ainda mais o silêncio.
«Agora ou nunca», disse de si para consigo Sérgio Ivanovitch, condoendo se do olhar perturbado, da vermelhidão e dos olhos baixos de Varienka. Reconheceu mesmo que seria ofendê-la continuar calado. E lembrou precipitadamente os argumentos que tivera a favor do casamento; todavia, em vez da frase que preparara deixou escapar inopinadamente: — Que diferença há entre um cogumelo e um boleto branco? Os lábios de Varienka tremiam ao responder: — A única diferença está no pé.
Ambos sentiram que o passo fora dado: as palavras que deviam uni-los não seriam pronunciadas e a emoção violenta que os agitava aquietou se pouco a pouco.
— O pé do boleto branco faz lembrar uma barba preta mal feita — disse, tranqüilamente, Sérgio Ivanovitch.
— É isto — replicou Varienka, com um sorriso.
Depois encaminharam se involuntariamente para o local onde estavam as crianças. Confusa e ferida, Varienka experimentava, no entanto, um sentimento de alívio. Sérgio Ivanovitch tornava a recapitular mentalmente os argumentos acerca do casamento e acabava por achá-los falsos: não podia ser infiel à memória de Maria...
— Devagar, devagarinho, meninos! — gritou, em tom mal humorado, Levine ao ver as crianças precipitarem se para Kitty, soltando gritos de alegria.
Atrás das crianças apareceu Sérgio Ivanovitch e Varienka. Kitty não precisou de interrogar a amiga: a expressão serena, um pouco
envergonhada dos dois fez lhe compreender que as esperanças que alimentara não se realizavam.
— Então? — perguntou Levine, já de regresso.
— Não pegou — replicou ela, num tom e num sorriso que lhe eram assaz familiares e que muito lhe agradavam, pois lhe lembravam o tom e o sorriso do velho príncipe.
— Que queres tu dizer?
— Olha — disse, pegando na mão do marido. E levando a à boca, passou por ela os lábios fechados. — É assim que se beijam as mãos dos bispos.
— E em qual deles é que não pega? — perguntou ele, rindo.
— Nos dois. Agora vê como se deve fazer...
— Cuidado, olha os camponeses...
— Não deram por nada.