Sérgio Ivanovitch Kosnichev, querendo descansar do seu trabalho intelectual, em vez de partir para o estrangeiro, como era seu costume, foi em fins de Maio para o campo, para casa do irmão. Estava convencido de que não havia melhor vida do que a vida aldeã. Constantino Levine sentiu com isso uma grande satisfação, tanto mais quanto era certo que naquele Verão já não contava com Nicolau. Mas apesar do afecto e do respeito que tinha por Sérgio Ivanovitch, Levine não se sentia perfeitamente à vontade a viver com ele no campo. Incomodava-o e achava mesmo desagradável a maneira que ele tinha de apreciar a aldeia. Para Constantino Levine a aldeia era o local onde se vivia, isto é, onde se gozava, se sofria e se trabalhava, para Sérgio Ivanovitch, por um lado, era um local de descanso depois do trabalho, e, por outro, um saudável antídoto confia a corrupção, antídoto que tomava com prazer, reconhecendo-lhe a utilidade. Para Constantino Levine a aldeia era boa porque constituía um campo de actividades indiscutivelmente úteis, para Sérgio Ivanovitch, porque ali era possível e até indispensável não se fazer nada. Também não agradava a Levine a maneira como o irmão tratava a gente da aldeia. Sérgio Ivanovitch tinha a pretensão de conhecer e de estimar o povo. Falava amiúde com os camponeses, coisa que sabia fazer muito bem, sem fingir nem adoptar atitudes estudadas, e destas conversas extraía conclusões a favor do povo, conclusões que brandia como provas do seu pretenso conheci mento dos costumes populares. Isto não era do agrado de Levine. Para ele o povo era antes de mais nada o sócio principal de uma tarefa comum. Mostrava bem ter mamado no seio da ama o leite de uma fraterna afeição pelos camponeses, admirava lhes o vigor, a mansidão, o espírito de justiça, mas, freqüentemente, quando o interesse comum exigia outras qualidades, insurgia se contra eles, para não ver, então, senão a sua incúria, a sua falta de asseio, a sua tendência para a bebedeira, o seu gosto da mentira. Ter-se-ia sentido deveras embaraçado se lhe perguntassem se gostava ou não do povo. Como homem de sentimentos que era, por natureza pendia a amar o próximo, sem excluir os camponeses, mas alimentar por eles senti mentos especiais, isso afigurava se lhe impossível, vivia a vida deles, os seus interesses identificavam-se, por conseguinte fazia parte integrante do povo. Por outro lado, embora, como proprietário, como «árbitro de paz» e
sobretudo como conselheiro (vinham pedir lhe conselho daquelas quarenta verstas em redor) tivesse mantido relações estreitas, por longos anos, com os aldeões, ainda não tinha sobre eles uma opinião perfeitamente definida. Grande seria a sua surpresa igualmente, caso lhe perguntassem se os conhecia «Nem mais nem menos do que conheço os outros homens», teria ele, com certeza, respondido. A cada passo era lhe dado observar numerosos indivíduos, camponeses inclusivamente que lhe pareciam dignos de interesse, mas à medida que lhes ia descobrindo novos traços de carácter, os seus juízos variavam de acordo com isso mesmo. Sérgio, pelo contrário, considerava todas estas coisas num espírito de oposição preferia a vida da aldeia a um determinado gênero de existência, o povo, a uma determinada classe social. E só estudava este para poder opô-lo aos homens em geral. O seu espírito metódico concebera de uma vez para sempre uma determinada ideia da vida popular, ideia fundada em parte na experiência, mas ainda mais em comparações teóricas, e nunca, em situação alguma, esta ideia variava de forma. Essa a razão por que nas discussões entre ele e o irmão acerca do carácter, dos gostos, das particularidades do povo, era ele quem levava sempre a melhor, às suas apreciações inabaláveis opunha Constantino opiniões sujeitas constantemente a modificações. Eis por que Sérgio não tinha dificuldade alguma em surpreendê-lo em flagrante delito de contradição consigo mesmo.
Sérgio Ivanovitch considerava o irmão mais novo um belo rapaz, com o coração bem colocado (costumava dizer em francês), mas senhor de um espírito muito impressionável, que, ao abrir-se, transbordava de inconseqüências. Com a condescendência de um irmão mais velho, dignava se, por vezes, explicar lhe o verdadeiro sentido das coisas, mas discutia sem prazer com um adversário tão fácil de levar à parede.
Por seu lado, Constantino admirava a bela inteligência, a vasta cultura, a nobreza de alma do irmão e o dom que lhe cabia de dedicar-se ao bem estar geral. Mas quanto mais o tempo passava e o ia conhecendo melhor, mais freqüentemente se perguntava a si próprio se aquela atitude generosa para com a humanidade, de que ele tão privado se sentia, em vez de uma qualidade não seria um defeito. Não denunciaria ela, senão ausência de aspirações nobres e generosas, pelo menos uma certa carência dessa força vital a que se chama coração, uma certa impotência a abrir um caminho pessoal no meio de todos esses caminhos que a vida oferece aos homens? De resto, não é o coração mas a cabeça que leva a maior parte das pessoas a interessar se pelos problemas sociais só o fazem por raciocínio. Esta suposição de Levine ia se confirmando ao observar que o irmão tomava mais a peito as questões do bem comum ou da imortalidade da alma do que uma partida de xadrez ou a construção
engenhosa de qualquer máquina.
Além disso, Constantino Levine também não se sentia à vontade na aldeia quando o irmão estava presente, sobretudo porque no Verão, enquanto o absorviam por completo os trabalhos de lavoura e lhe não chegava o grande dia estival para fazer tudo que precisava, Sérgio Ivanovitch apenas pensava em descansar. Naquele ano dera folga à grande obra em que andava empenhado, mas a actividade do seu espírito era intensa de mais para que não precisasse de comunicar a alguém, sob uma forma concisa e elegante, as ideias que lhe ocorriam, e o certo é que escolhera o irmão para auditório. Eis por que, apesar da amistosa simplicidade das suas relações, Constantino Levine não conseguia deixá-lo só por muito tempo. Sérgio gostava de deitar se na relva, ao sol, para ali ficar, tostando se e falando preguiçosamente.
— Não podes imaginar — dizia ele ao irmão — o prazer que me dá este dolce far niente ucraniano. Não tenho uma única ideia dentro da cabeça esta completamente vazia.
Mas Constantino Levine aborrecia se de ficar ali sentado a ouvi-lo, principalmente receoso de que, não estando ele presente, os camponeses lançassem o adubo às terras antes de estas estarem preparadas para isso e o lançassem de qualquer maneira e que não afiassem convenientemente as relhas dos arados ingleses, para poderem dizer depois que nada valiam e que eram bem melhores as charruas antigas.
— Não te fatiga andares por aí com este calor? — perguntava-lhe Sérgio.
— Não me demoro, é só o tempo de relancear a vista ao escritório — respondia Constantino, e desaparecia campos fora.
Em princípios de Junho, Agáfia Mikailovna, a ama e governanta, ao descer à adega, com uma tigela de cogumelos que acabava de salgar, escorregou na escada e esfolou um pulso. Chamaram o médico rural, um rapaz verboso, recém saído da Universidade, que observou a doente e declarou que ela não tinha nenhuma entorse, entretendo-se a conversar com Sérgio Ivanovitch Kosnichev, diante do qual, a título de exibição das suas tendências liberais, contou todas as intrigas da província, insistindo na situação deplorável em que se encontravam, em sua opinião, as instituições provinciais. Sérgio Ivanovitch ouvia-o atentamente, formulando de quando em quando alguma pergunta, satisfeito com a
presença de um novo ouvinte, e por sua vez usou da palavra, apresentando certas observações justas e finas, respeitosamente apreciadas pelo jovem clínico, sentindo-se dai a pouco nessa disposição de espírito um pouco sobre-excitada que em geral provocava nele toda a conversa viva e brilhante Depois da partida do medico, quis ir pescar para o no. Gostava de pescar à linha e parecia envaidecer-se com o facto de apreciar um entretenimento tão estúpido.
Constantino Levine, que tinha de ir às terras onde andavam a lavrar, e aos prados, propôs-se levá-lo na sua campana até ao no.
Estava-se nesse momento do Estio em que o trigo chega ao seu apogeu, as colheitas se aproximam e já se principia a pensar nas próximas sementeiras. As espigas, já formadas, mas ainda leves e cinzentas-esverdeadas, baloiçam ao sopro do vento, a aveia, à mistura com as ervas daninhas que crescem junto, vai rompendo irregularmente nos campos tardiamente semeados, os primeiros rebentos do trigo mourisco juncam já o solo, os terrenos de pousio, com os seus torrões quase petrificados sob as patas do gado e os seus sulcos, em que não entra o ferro do arado, só em parte estão lavrados, os montes de estrume juntam o seu aroma ao das ervas dos prados, pela manhã e à hora do crepúsculo, enquanto nas terras baixas, ansiosas pela foice, os prados ribeirinhos formam vagas imensas, aqui e ali matizados de grandes manchas pretas, que são os montes de azedas arrancadas.
Era a época em que se verifica um curto descanso nos trabalhos da lavoura, antes de principiar a colheita anual, que todos os anos empenha as forças dos camponeses. Naquele Verão a colheita anunciava-se magnífica, os dias eram longos e quentes, as noites curtas e bem humedecidas pelo rocio.
Para alcançar os prados era preciso atravessar a mata, cuja vegetação luxuriante maravilhou Sérgio. Chamava a atenção do irmão, ora para uma velha tília, escura ao lado da sombra, coberta de rebentos prontos a abrir, ora para os ramos novos das outras árvores que brilhavam como esmeraldas. Constantino Levine não gostava de ouvir comentários às belezas da Natureza. As palavras, para ele, despojavam da sua formosura tudo o que via Assentindo com o que o irmão ia dizendo, pensava noutra coisa. Quando saíram da mata, atentou numa terra em pousio, onde placas de erva amarelenta alternavam, ora com leiras já cavadas ou com outras cobertas de montes de estrume e com outras ainda de todo lavradas já Pelo campo avançava uma fileira de carroças. Levine contou as e pareceu lhe que eram suficientes.
À vista dos prados principiou a pensar na ceifa e na colheita dos fenos, operação que sempre o emocionava muito. Fez estacar o cavalo.
Como a erva alta ainda estava húmida junto aos pés, Sérgio Ivanovitch, para não se molhar, pediu ao irmão que o levasse no carro até à moita de salgueiros, junto à qual se pescavam as percas. Constantino aquiesceu, lamentando ter de pisar aquela erva mole que se agarrava às patas do cavalo e às rodas do carro, deixando as sementes presas aos cubos e aos das rodas.
Enquanto Sérgio Ivanovitch se instalava debaixo dos arbustos e preparava a cana de pesca, Constantino amarrava o cavalo alguns passos mais longe e instalava-se no imenso mar verdejante que naquele momento nenhum sopro agitava nos pontos onde o no transbordava, a erva brotava da terra fertilizada e sedosa e, coberta de pólen, chegava lhe quase à cintura. Ao atingir o caminho, encontrou um velho com um olho inchado que levava uma colméia.
— Apanhaste um enxame, Fomitch?
— Hem! Constantino Dimitrievitch, já me custa tanto a guardar as meus. É a segunda vez que este me foge Felizmente os garotos apanharam-no. Como andam a lavrar nas suas terras, desatrelaram um cavalo e foram atrás dele.
— Que te parece, Fomitch, devo ceifar já ou esperar mais algum tempo? — Não sei. A mim parece-me que se deve esperar até ao dia de São Pedro. Mas o senhor costuma ceifar sempre mais cedo. Se Deus quiser, tudo há-de correr bem, a erva já está muito crescida. O gado terá mais largueza.
— E o tempo, que te parece o tempo, Fomitch?
— Isso é lá com Deus. Talvez faça bom tempo. Levine voltou para junto do irmão.
Embora não tivesse pescado nada, Sérgio não se aborrecia e parecia mesmo muito bem disposto. Levine percebeu que o irmão, excitado pela conversa com o médico, queria falar mais. Pelo contrário, ele, Levine, desejava voltar para casa disposto a dar ordens para que mandassem vir os ceifeiros no dia seguinte e decidido a resolver as dúvidas que tinha relativamente à ceifa, que tanto o preocupava.
— Bom, voltemos para casa — disse ele a Sérgio.
— Que pressa é essa? Fiquemos mais um bocado. Estás todo encharcado! Mesmo que não se pesque nada, está-se bem aqui. Esta espécie de entretenimento é boa, porque nos põe em contacto com a Natureza. Que linda está a água, parece de aço! Estas margens cobertas de vegetação fazem me sempre lembrar aquela adivinha, recordas te, em
que a erva diz à água «Vamos tremer, tremer!»
— Não conheço essa adivinha — replicou Levine, desanimado.
— A propósito — continuou Sérgio —, estava precisamente a pensar em ti: pelo que vejo, a dar ouvidos àquele médico, que me não parece nada tolo, passam-se coisas incríveis na tua região. E isso leva me a repetir-te o que já te disse fazes mal em te manteres afastado e em não assistires às reuniões do zemstvo. Se as pessoas da nossa classe se desinteressam disso, haveria uma desordem de todos os diabos! Para onde vai o nosso dinheiro? Nós é que pagamos e eles trabalham a soldo Não há escolas nem farmácias, nem enfermeiras nem parteiras, nada.
— Que queres tu que eu faça? — replicou, contrariado, Constantino Levine — Fiz o possível por me interessar por tudo isso, mas está além das minhas possibilidades.
— Ora aí está uma coisa que me custa a admitir Vejamos, quais são as causas da tua abstenção! Indiferença? Não posso acreditar Incapacidade? Ainda menos Apatia? Talvez.
— Nada disso — replicou Constantino — Convenci me, muito simplesmente, de que não conseguiria nada.
Prestava pouca atenção a Sérgio. Um ponto negro, que se agitava lá adiante, nos campos lavrados do outro lado do curso de água, chamava-lhe a atenção, não seria o administrador a cavalo? — Por quê? Por quê? — insistia Sérgio Ivanovitch — Desistes muito facilmente. Não terás amor-próprio? — Que vem aqui fazer o amor-próprio? — retorquiu Constantino, fendo pelas palavras do irmão — Se na Universidade me tivessem considerado incapaz de compreender tão bem como os meus camaradas o cálculo integral, teria apelado para o meu amor próprio. Mas, neste caso, temos de principiar por saber se este gênero de actividade exige capacidades especiais e se é um gênero de trabalho muito importante.
— Achas então que não é importante? — exclamou Sérgio, ofendido pelo facto de ouvir o irmão tratar com tanta ligeireza coisas que ele muito prezava, que ele considerava de grande importância, e além disso vexado por verificar que Constantino não prestava grande atenção às suas palavras.
— É um facto, que hei-de eu fazer? Tudo isso me deixa indiferente
— replicou Constantino, que acabava de convencer se de que o ponto preto no horizonte era, de facto, o administrador, que naquele momento dispensava os trabalhadores, pois estes recolhiam as alfaias «Já terão acabado de arar!», pensava ele.
— Isso, meu caro, não — disse Sérgio, e o seu belo rosto inteligente ensombrou se — Há limites para tudo. Compreendo perfeitamente que se deteste a prosápia e a mentira, sei muitíssimo bem que a originalidade é uma virtude. Mas o que acabas de dizer não tem sentido. Como podes tu achar que não é importante que essa gente que dizes estimar «Nunca disse semelhante coisa», pensou Constantino Levine — morra abandonada! As parteiras improvisadas matam as crianças e o povo morre na ignorância, vítima do primeiro amanuense. E quando surge uma forma de os ajudar, tu afastas-te, dizendo tudo isso não tem importância.
E Sérgio apresentou ao irmão o seguinte dilema:
— De duas uma: ou a noção do dever é coisa que tu não compreendes ou não estás disposto a sacrificar o teu repouso ou até talvez a tua vaidade...
Constantino compreendeu que, se não queria passar por egoísta, não tinha outro remédio senão submeter-se; sentia-se mortificado.
— Nem uma coisa nem outra — declarou em tom peremptório.— Mas não acho possível...
— Que dizes? Pois achas que um melhor emprego das contribuições não permitiria, por exemplo, organizar uma assistência médica séria? — Não, não creio. Esqueces, efectivamente, que a nossa província abrange uma área de quatro mil verstas quadradas e que muito freqüentemente, com os rios gelados, as tempestades de neve e as épocas de trabalho intensivo nos campos não há comunicações. Além disso, não acredito na eficácia da medicina, para te falar com franqueza.
— Estás a exagerar. Podia citar-te milhares de exemplos... E então as escolas? — Para que servem as escolas?
— Para que servem? Podes duvidar das vantagens da instrução? Se a achas útil para ti, não tens o direito de a recusar para os outros.
Constantino Levine sentiu-se levado à parede e, irritando-se, involuntariamente, explicou o motivo principal da sua indiferença para com as obras sociais.
— Talvez tudo isso esteja certo — disse ele —, mas para que me
hei-de eu afligir por causa desses centros sanitários, de cujos serviços nunca me utilizarei, ou criar escolas, para onde não mandarei os meus filhos nem para onde os próprios camponeses querem mandar os deles? Aliás, não sei se teriam vantagem nisso.
Sérgio Ivanovitch sentiu-se desconcertado por este inesperado ponto de vista, mas imediatamente elaborou um novo plano de ataque.
Calou-se por momentos, retirou a cana da água, atirou a linha para outro ponto do rio e sorrindo dirigiu-se ao irmão: — Estás enganado... O centro sanitário servir-te-ia para qualquer coisa. Acabas de chamar o médico do zemstvo para tratar Agáfia Mikailovna.
— E nem por isso ficará com a mão mais direita.
— Eis o que se está para ver... Além disso, um mujique, um trabalhador que não seja analfabeto, é-te mais útil e mais valioso.
— Não, quanto a isso, não! Pergunta a quem tu quiseres — replicou Constantino Levine, resolutamente. — Ilustrado, um mujique torna-se muito pior trabalhador. Não se lhe pode mandar arranjar os caminhos e se se manda construir uma ponte, podemos contar que roubará as pranchas.
— Mas não é disso que se trata — disse Sérgio Ivanovitch, franzindo o sobrolho. Não gostava de contradições, e sobretudo daquela maneira de saltitar de um assunto para outro, sempre com argumentos novos, sem ligação entre si. Era impossível responder a tais argumentos.
— Vejamos, estás de acordo em que a instrução é um benefício para o povo? — Estou — admitiu Levine, sem querer. Logo em seguida se deu conta de que não pensava assim, mas compreendeu num relance que o irmão se ia aproveitar da circunstância para lhe demonstrar a sua inconseqüência. Mas como iria desenvolver essa demonstração? De maneira muito mais simples do que ele imaginava.
— Dado que estás convencido disso — declarou Sérgio —, como homem honrado que és não podes deixar de simpatizar com essa obra e portanto não podes recusar-te a trabalhar em seu benefício.
— Mas se eu ainda não reconheci essa obra como boa? — objectou Constantino Levine, corando.
— Como? Mas acabas de afirmar...
— Não, não a acho nem boa nem possível.
— Como é que o podes saber, se nada fizeste para isso?
— Bem, suponhamos que a instrução do povo é um benefício —
concedeu Constantino sem a mínima convicção. — Não vejo que isso seja razão para que eu me preocupe com ela.
— Como assim?
— Bom, já que principiámos a falar neste assunto, explica-mo do ponto de vista filosófico.
— Não percebo a que vem a filosofia neste caso — replicou Sérgio Ivanovitch, e Levine sentiu-se vexado, percebendo, pelo tom do irmão, que ele o não considerava apto a falar de filosofia.
— Achas? — tornou-lhe, exaltando-se. — Sou de opinião que o interesse pessoal constitui sempre o móbil das nossas acções. Ora eu, conquanto fidalgo, não vejo nada nas novas instituições, nada que possa concorrer para o meu bem-estar. As estradas não são melhores nem podem vir a sê-lo. Aliás, os meus cavalos levam-me tão bem pelas boas como pelas más estradas. Não preciso nem de médico nem de postos sanitários. Quanto ao juiz de paz, nunca recorri aos seus serviços nem recorrerei. E as escolas, em vez de me serem úteis, só me dão prejuízos, como acabo de te demonstrar. O zemstvo não representa, por conseguinte, para mim, mais do que um imposto suplementar de dezoito copeques por desiatina e de incômodas viagens à cidade, onde me sinto obrigado a pernoitar num quarto cheio de percevejos e a ouvir toda a espécie de inépcias e de incongruências. E em tudo isto não vejo que o meu interesse pessoal esteja a ser beneficiado.
— Dá licença — interrompeu Sérgio Ivanovitch, com um sorriso.
— O nosso interesse pessoal também não estava em jogo quando fomos levados a lutar pela abolição da escravatura e nem por isso deixámos de trabalhar nesse sentido.
— Não! — interrompeu pelo seu lado. Constantino Levine, cada vez mais exaltado — A abolição da escravatura era outra coisa. Aí existia o interesse pessoal. Queríamos livrar-nos desse jugo que oprimia toda a boa gente, mas lá o ser vogal para deliberar sobre o número de latas de lixo e de canos de esgoto necessários à cidade, onde nem sequer vivo, o ser jurado para julgar um mujique que roubou um presunto e ficar seis horas a ouvir todas as tolices que dizem os defensores, os fiscais ou o presidente do tribunal, perguntando ao meu amigo Aliocha, o tontinho «Senhor acusado, reconhece-se culpado do roubo do presunto?» Que te parece?
Constantino Levine, arrastado pela sua argumentação, pôs-se a imitar o presidente do tribunal e Aliocha, o tonto. Afigurava-se-lhe que tudo estava relacionado com o objecto da discussão, mas Sérgio Ivanovitch encolheu os ombros.
— Mas afinal, onde queres tu chegar?
— A isto apenas. Sempre que se trate de direitos que me digam respeito, isto é, que digam respeito ao meu interesse pessoal, eu cá estarei para os defender com unhas e dentes. Quando éramos estudantes e a polícia nos ia revistar a casa ou nos ha a correspondência, eu estava pronto a defender os meus direitos à instrução, à liberdade. Estou pronto a discutir o serviço militar obrigatório, que atinge directamente o destino dos meus filhos, de meus irmãos e de mim próprio. Estou pronto a discutir as coisas que me afectam. Mas não sei participar da chicana que discute o emprego de quarenta mil rublos dos fundos do zemstvo, nem sentenciar o tonto do Aliocha.
Constantino Levine falava com tal ímpeto que parecia ter-se lhe rompido o dique da loquacidade Sérgio Ivanovitch sorriu-se.
— E se amanhã tiveres um processo às costas, acharás melhor ser julgado na antiga auditoria criminal? — Nunca serei processado. Não penso matar ninguém. Tudo isso, repito-te, não me serve para nada — continuou Levine, e de novo passou a falar de um assunto que nada tinha a ver com o tema em discussão — Queres saber, essas histórias do zemstvo fazem-me lembrar ramos de bétulas que nós enterrássemos no chão, como se costuma fazer pelo Pentecostes, para fingir uma dessas florestas que na Europa crescem de maneira absolutamente natural. Ora eu recuso-me a regar esses ramos e a acreditar que irão ganhar raízes e transformar-se em grandes árvores.
Embora tivesse compreendido imediatamente o que o irmão queria dizer, Sérgio nem por isso deixou de encolher os ombros, como que a mostrar a surpresa que lhe causava ver surgirem na discussão aqueles ramos de bétula.
— Isso não é argumento — observou.
Mas Constantino Levine, sentindo-se culpado por não reconhecer em si interesse pelas coisas públicas, procurou justificar a sua atitude.
— Acho que não há interesse duradouro desde que não seja fundado no interesse pessoal — continuou ele — É uma verdade geral, Filosófica, sim, fi-lo-só-fi-ca — repetiu, como para demonstrar que tinha o mesmo direito que qualquer outro de falar em filosofia.
Sérgio voltou a sorrir «Também ele», pensou com os seus botões, «arranja uma filosofia para pôr ao serviço das suas inclinações»
— Bom, deixa a filosofia em paz — disse, por fim — O principal problema da filosofia, em todos os tempos, sempre foi o da necessidade de se encontrar a relação indispensável entre o interesse pessoal e o interesse geral. Mas isso não tem nada que ver com a nossa conversa. Pelo
contrário, preciso de rectificar a tua comparação. Não enterramos no solo ramos de bétula, plantamos àrvorezinhas novas que precisam de ser tratadas com cuidado. As únicas nações com futuro, as únicas a que pode dar se o nome de históricas, são as que compreendem o valor das suas instituições e que portanto as sabem apreciar.
Transitando para um terreno — o terreno da filosofia da história — em que Constantino o não podia acompanhar, Sérgio demonstrou lhe, peremptoriamente, o erro do seu ponto de vista.
— Quanto à tua repugnância pelos negócios — concluiu ele —, terás de desculpar me se eu a debito à conta da nossa indolência russa, das nossas antigas maneiras de grandes senhores. Estou certo de que hás de acabar por reconhecer o erro em que incorres.
Constantino calava-se. Dando se conta de que estava vencido, sentia que o irmão não compreendera a sua idéia. Ter se ia explicado mal? Ou seria o irmão que o não entendera? Sem aprofundar o problema, não levantou qualquer outra objecção e não pensou noutra coisa se não no assunto em que estava empenhado. Entretanto Sérgio Ivanovitch recolhia a linha de pescar e desprendia o cavalo Ambos regressaram a casa.
O assunto em que Levine estava empenhado durante a discussão com Sérgio era o seguinte no ano anterior, na altura em que ceifava o feno, zangara-se com o administrador, e, lançando mão do seu método habitual para sossegar, pegara na gadanha, que arrancara das mãos de um ceifeiro, e pusera se a ceifar.
Tanto gostou desse trabalho, que o repetiu várias vezes, chegou a ceifar todo o campo diante da casa, e naquele ano, desde a Primavera que projectava passar dias inteiros a ceifar com os camponeses. Desde que o irmão chegara não fazia outra coisa senão pensar se deveria ou não fazê-lo. Custava lhe deixar o irmão sozinho tanto tempo, e além disso receava que ele troçasse de si. Mas quando atravessava o campo, ao recordar as sensações que experimentara nesse trabalho, quase resolveu fazê-lo. Depois da discussão com o irmão, voltou a lembrar-se da decisão que tomara.
«Preciso de exercício físico; caso contrário, azeda-se-me o carácter», pensou. E decidiu que ceifaria, ainda que isso parecesse incorrecto para com o irmão e os camponeses.
Nessa noite Constantino Levine foi ao escritório, deu as suas ordens quanto aos trabalhos e mandou procurar os ceifeiros pelas aldeias, na intenção de principiar a ceifa do prado de Kalinovo, o maior e o melhor de todos.
— Levem a minha gadanha a casa do Tito, para que ele ma afie e leve amanhã ao campo. Talvez eu vá ceifar também — disse, procurando não se perturbar.
O administrador sorriu e respondeu-lhe:
— Muito bem, patrão.
À noite, à hora do chá, Levine disse ao irmão:
— Parece que o bom tempo está firme. Amanhã começarei a ceifar.
— Gosto muito desse trabalho — comentou Sérgio Ivanovitch.
— A mim, encanta-me. Já algumas vezes tenho ceifado com os camponeses e amanhã quero ceifar todo o dia.
Sérgio Ivanovitch ergueu a cabeça, fitando Levine com curiosidade.
— Quê? Com os camponeses? Como se fosses um deles? Todo o dia?
— Sim, é muito agradável — respondeu Levine.
— Como exercício físico é excelente, mas não sei se aguentarás — disse Sérgio Ivanovitch sem qualquer ironia.
— Já o demonstrei. Ao princípio custa, mas depois uma pessoa habitua-se. Parece-me que irei até ao fim.
— Deveras? E os camponeses, como encaram eles isso? Naturalmente fazem troça das excentricidades do patrão.
— Não. Não me parece. É um trabalho ao mesmo tempo tão divertido e tão difícil, que não dá tempo para pensar.
— Mas vais comer com eles? Mandar-te ao campo Château-Lafite e pavão assado era um pouco forte.
— Virei a casa enquanto eles descansam.
Na manhã do dia seguinte, Levine levantou-se mais cedo do que o costume, mas entreteve-se a dar ordens, e quando chegou ao campo os ceifeiros já encetavam a segunda franja.
Lá do alto do cerro Levine viu a parte do campo onde o sol já não chegava: era essa precisamente que os ceifeiros tinham atacado, e as roupas de que se haviam despojado antes de se meterem ao trabalho formavam pequenos montículos pretos na terra ceifada. Não tardou a
distinguir os ceifeiros: estes em mangas de camisa, aqueles de cafetã, uns após outros, formavam uma extensa fileira, movendo as gadanhas cada um à sua maneira. Contou quarenta e dois homens.
Avançavam lentamente pela parte baixa e desigual do campo, onde havia um antigo açude. Levine reconheceu alguns deles. Lá estava o velho Ermil, com uma grande camisa branca, ceifando muito corcovado, e o jovem Vaska, que fora cocheiro em casa de Levine, que ceifava a franja de uma só vez. Também lá estava Tito, um camponês de pequena estatura e corpo delgado, mestre de Levine na arte de ceifar. A frente de todos, ceifava a grande franja sem se inclinar, como se brincasse com a gadanha.
Levine apeou-se do cavalo e amarrou-o junto ao caminho. Aproximou-se de Tito. Este, sacando de uma gadanha detrás de uma moita, entregou-lha.
— Está bem afiada, patrão. É como uma navalha de barba, corta tudo que lhe puserem diante — disse Tito, sorrindo e tirando o gorro, enquanto lhe passava a gadanha para as mãos.
Levine pegou nela e experimentou-a. Os camponeses que tinham acabado de ceifar a franja, suados e alegres, saíam ao caminho, uns atrás dos outros, e, rindo, saudavam o patrão. Todos o olhavam, mas nenhum abria a boca. Por fim um velho alto, de rosto sulcado de rugas e barba rapada, que usava um jaleco de pele de cordeiro, ao chegar ao caminho, como se não se dirigisse a Levine, disse:
— Já que o patrão pegou na gadanha, vamos a ver se não fica para trás.
Levine ouviu risos sufocados no grupo dos ceifeiros.
— Hei-de fazer por não ficar para trás — replicou ele, colocando-se na retaguarda de Tito, à espera de principiar.
— É o que veremos — disse o velho.
Tito principiou a avançar e Levine atrás dele. A erva era rasteira e Constantino Dimitrievitch, que havia muito não ceifava, sentia-se embaraçado por estarem a olhar para ele, iniciou a faina desajeitadamente, embora os seus movimentos fossem enérgicos.
— Pegou mal na gadanha, pega-lhe muito por cima. Olhem como ele tem de se agachar! — disse um dos ceifeiros.
— Apóie melhor o calcanhar — aconselhou outro.
— Não, não, lá se vai acostumando — comentou o velho. — Estás a ver, já vai melhor... Apanha muito de uma vez. Assim cansa-se mais depressa... É patrão e trabalha para si mesmo. Mas olha os bordos que ele
vai deixando! A nós era capaz de nos castigar, se fizéssemos uma coisa dessas.
A erva era agora mais macia. Levine ouvia, sem responder, e seguia Tito, procurando ceifar o melhor possível. Avançaram uns cem passos. Tito continuava sem se deter e sem o mais leve cansaço. Mas Levine tão cansado estava que receava não poder resistir.
A cada novo golpe da gadanha mais lhe faltavam as forças, e resolveu pedir a Tito que se detivesse. Mas nesse mesmo momento Tito parou e, agachando se, apanhou uma mão cheia de erva, limpou a gadanha e pôs se a afiá-la. Levine ergueu se, suspirou e voltou a cabeça. Atrás dele vinha um ceifeiro, naturalmente cansado também, pois, antes de chegar junto de Levine, deteve se para afiar a gadanha. Tito afiou a dele e depois a de Levine, e em seguida continuaram.
Na segunda volta fizeram o mesmo. Tito avançava ceifando sem parar nem mostrar cansaço. Levine ia atrás dele, procurando não se atrasar. Mas cada vez era mais dura a ceifa. Sentia não tardar muito o momento em que não teria mais forças. Entretanto Tito deteve se novamente para afiar as gadanhas.
Assim terminaram a primeira franja. Tito, de gadanha ao ombro, voltou a percorrer o sulco deixado pelos seus próprios tacões, seguido do patrão, que fazia o mesmo e pisava também o sulco dos seus próprios tacões. A Levine custara lhe bastante, mas, em compensação, concluída essa parte do trabalho, sentiu se muito satisfeito, apesar de suar em bica e as gotas lhe escorrerem pelo rosto e pelo nariz e de ter as costas completamente empapadas. Alegrava o sobretudo a certeza de que agora seria capaz de aguentar.
Só uma coisa lhe minorou a satisfação o facto de a sua franja não estar bem ceifada «Moverei menos os braços e mais o corpo todo», pensou, comparando a zona ceifada por Tito, completamente alinhada, com a sua, bastante irregular.
Levine reparou que Tito ceifara a primeira franja extraordinariamente depressa, naturalmente para experimentar o amo, e que, além disso, essa franja era muito larga. As seguintes foram mais fáceis, mas, mesmo assim, teve de fazer um grande esforço para não ficar para trás.
Não pensava em nada nem desejava nada, excepto não se atrasar e ceifar o melhor possível. Apenas ouvia o bater das gadanhas e via diante dele a figura erecta de Tito, que se afastava, o semicírculo ceifado, a erva que, ondeando, se inclinava lentamente, as flores junto ao fio da sua gadanha e mais adiante o extremo da leira onde descansariam.
Sem saber por quê, sentiu, no meio do trabalho, uma agradável sensação de frescura nos ombros ardentes e suados. Olhou para o céu enquanto afiavam as gadanhas, formara se uma nuvem baixa e pesada e caíam grandes gotas de chuva. Alguns ceifeiros puseram os cafetãs às costas, outros, como Levine, limitaram se a encolher alegremente os ombros perante a agradável frescura da chuva.
Ceifaram franja após franja. Algumas eram grandes, outras curtas, umas de erva de boa qualidade, outras de erva má. Levine perdeu a noção do tempo, não sabia se era tarde ou cedo. Na sua tarefa operara se agora uma mudança que lhe dava grande prazer. Durante o trabalho havia momentos em que se esquecia do que estava a fazer e lhe era fácil ceifar. Então a sua franja ficava tão bem ceifada como a de Tito Porém, quando se capacitava do que estava a fazer, e procurava esmerar -se, sentia a responsabilidade da tarefa e a franja saía pior.
Ao terminarem outra franja, Levine ia recomeçar de novo, mas Tito deteve se e, aproximando se do velho, disse lhe qualquer coisa em voz baixa. Ambos olharam para o sol «De que estarão eles a falar? Por que não principiaram outra franja?», pensou Levine, sem reparar que havia pelo menos quatro horas seguidas que os camponeses ceifavam e que chegara a hora do almoço.
— Vamos almoçar, patrão — disse o velho.
— Já são horas? Então vamos a isso?
Levine entregou a gadanha a Tito e na companhia dos ceifeiros, que foram buscar o pão aos seus cafetãs, encaminhou se para a sua cabana, atravessando toda a área ceifada, coberta de montes de feno ligeiramente humedecidos pela chuva. Só então compreendeu que se enganara a respeito do tempo e que a chuva ia molhar o feno ceifado.
— O feno vai ficar estragado — disse ele.
— Não faz mal, patrão, dizem que se deve ceifar com chuva e recolher o feno com sol — replicou o velho.
Levine desprendeu o cavalo e foi tomar café a casa. Sérgio Ivanovitch acabava de se levantar. Depois de tomar o café, Levine voltou para o campo sem dar tempo a que o irmão se vestisse e entrasse na sala de jantar.
Depois do almoço coube a Levine ceifar entre um velho trocista,
que o convidou a alinhar com ele, e um mujique novo, que se casara no Outono e era a primeira vez que ceifava naquele ano.
O velho, que se mantinha muito direito, ia adiante, dando grandes passadas rítmicas, com as suas pernas ligeiramente tortas. Graças a um movimento vigoroso e compassado, que não lhe custava mais que balançar os braços em marcha, como se brincasse, amontoava medas altas e uniformes. Dir-se-ia que não era ele, mas apenas a gadanha afiada que cortava a erva suculenta.
Atrás de Levine seguia o jovem Michka. O seu rosto agradável e juvenil, coroado de ervas frescas entrançadas, mostrava bem o esforço que fazia, mas quando alguém olhava para ele, sorria. Estava, sem dúvida, mais disposto a morrer do que a reconhecer que aquilo era penoso.
Levine ia entre os dois à hora de maior calor a ceifa não lhe parecia tão difícil. O suor refrescava o, enquanto o sol, que lhe queimava as espáduas, a cabeça e os braços descobertos até ao cotovelo, lhe dava mais vigor e tenacidade no trabalho. E cada vez se repetiam mais amiúde aqueles momentos em que lhe era possível não pensar no que estava a fazer. A gadanha ceifava por si. Momentos felizes esses. E mais felizes ainda aqueles em que, ao aproximar se do no até onde chegavam os regos, o velho limpava a gadanha com a erva húmida, passava a folha de aço na água fresca do no e enchendo o cantil oferecia o a Levine e dizia lhe, com um momo trocista — Quer beber um trago do meu kvas? É bom, não é?
E efectivamente Levine nunca bebera nada que se parecesse com aquela água morna onde flutuavam ervas e sabia a ferro oxidado. E logo em seguida chegava o momento do agradável e lento passeio, com a gadanha na mão, durante o qual um homem podia enxugar o suor, respirar a plenos pulmões e relancear a vista pela imensa fila de ceifeiros, bem como pelo campo e pela mata.
Quanto mais ceifava, tanto mais freqüentes eram os momentos em que Levine esquecia o que estava a fazer, durante os quais já não eram os braços que moviam a gadanha, mas esta que arrastava atrás de si todo aquele corpo consciente de si mesmo e cheio de vida. E como por artes de magia, sem pensar no trabalho, este realizava-se com perfeição e rigor, como por si mesmo. Esses eram os momentos mais felizes.
Só se tornava difícil quando era preciso interromper esse movimento inconsciente e tornar a reflectir, quando se devia ceifar nalgum cabeço ou nalgum sítio onde ficavam azedeiras por arrancar. O velho fazia o sem dificuldade. Ao chegar a qualquer desses pontos, mudava de movimento e, ora com o tacão ora com a ponta da gadanha, desfazia o montículo em poeira. E ao fazê-lo, via tudo à sua volta aqui um
talo de azedas que arrancava e comia ou oferecia ao amo, ali um ramo que afastava com a ponta da gadanha, acolá um ninho de codornizes de onde a fêmea se despedia, voando.
Tanto para Levine como para o rapaz que trabalhava atrás dele, estes movimentos eram difíceis. Ambos, assim que encontravam o movimento adequado, deixavam-se absorver pelo trabalho e sentiam se incapazes de modificar o ritmo enquanto iam olhando o que se lhes deparava diante da vista.
Levine não dava pelas horas. Se lhe tivessem perguntado há quanto tempo trabalhava, teria dito que há meia hora apenas, quando, na verdade, já chegara a hora de jantar. Ao atingirem o extremo de um rego, o velho apontou a Levine alguns rapazes e raparigas que vinham ao encontro dos ceifeiros, de pontos diferentes, tanto pelo caminho como pelo meio da alta erva, onde mal se viam, carregando pães e jarros de kvas, cobertos com guardanapos, pesados de mais para as suas mãozinhas.
— Lá vêm os garotos — disse o velho. E fazendo pala com a mão, pôs-se a observar o Sol. Depois de terem ceifado mais duas franjas, o velho deteve-se.
— Bom, patrão, vamos jantar — disse ele, resolutamente. E assim que atingiram o no, os ceifeiros dirigiram-se para os seus cafetãs, onde eram aguardados pelas crianças que traziam o jantar. Os mujiques que estavam mais longe reuniram-se junto às carroças e os que estavam mais perto debaixo de uma moita de codessos, que cobriam com montes de feno para ficarem mais frescos Levine sentou se ao pé deles, não lhe apetecia ir-se embora.
Os trabalhadores já se não sentiam embaraçados diante do patrão. Preparavam-se para comer. Alguns lavavam-se, os rapazes tomavam banho no rio, outros preparavam recantos para descansar, desatando os saquitéis do pão e destapando os jarros de kvas. O velho fez migas de pão dentro de uma tigela, esmagou-as com as costas da colher, deitou-lhes dentro água do cantil, cortou mais pão e salgou-o — depois pôs-se a rezar voltado para o oriente.
— Patrão, quer provar a minha tiurka? — perguntou ele, pondo-se de joelhos diante da tigela.
A tiurka estava tão boa que Levine desistiu de ir a casa comer. Comeu com o velho, e enquanto comia aquele repasto frugal deixou que o velho lhe contasse coisas da sua vida, que muito o interessaram, falando-lhe, por sua vez, de alguns dos seus projectos, que esperava despertassem a curiosidade do bom do mujique. Sentia-se mais perto dele do que do irmão e sem querer sorria de afecto por aquele homem. Quando o velho se pôs de novo em pé, voltou a rezar e ali mesmo se
deitou na terra, à sombra de uma moita, depois de fazer uma almofada com um pouco de erva Levine fez a mesma coisa. Apesar das moscas, moles e pesadas, e dos insectos que lhe faziam cócegas no rosto e no corpo suados, não tardou a adormecer, acordando quando o Sol já ia do outro lado das matas e dava sobre ele. O velho, que já se levantara havia um bom bocado, afiava as gadanhas dos rapazes.
Levine olhou à sua volta, sem saber onde estava, tão grande a mudança operada no campo. A enorme área ceifada brilhava de um brilho especial, novo, com as medas de feno que cheiravam sob os raios oblíquos do Sol poente. Tudo se lhe afigurava completamente novo, tanto os arbustos, com a erva ceifada em roda, junto ao rio, como este, invisível há pouco e agora tão brilhante que parecia aço, e os homens que acordavam e começavam a mover-se, a alta muralha de erva na parte do prado ainda por ceifar, os abutres por cima do espaço ceifado. Ao recobrar a consciência, Levine pôs se a calcular quanto tinham ceifado e quanto poderiam ceifar ainda.
Era muito o trabalho feito para quarenta e dois homens Já estava ceifado todo o prado grande, o qual, no tempo da servidão, exigia o trabalho de trinta homens durante dois dias Agora, só faltava terminar os extremos, pequenas zonas de erva. Mas Levine, que desejava ceifar o mais que pudesse naquele dia, contrariava-o que o Sol se pusesse tão cedo. Não se sentia nada cansado; só queria continuar a trabalhar enquanto fosse possível.
— Que achas? Temos tempo de ceifar a Machkine Vierch? — perguntou ao velho.
— Se Deus quiser, ainda que o Sol já não vá muito alto. Por que não manda distribuir vodka aos rapazes?
A hora da merenda, quando os ceifeiros tiveram outro descanso e os fumadores acenderam os cigarros, o velho disse-lhes que, se ceifassem o Machkine Vierch, teriam vodka.
— Pois por que não haveríamos de o ceifar? Vamos, Tito, mãos à obra! À noite temos tempo de comer. Avante! — ouviu-se gritar, e os ceifeiros puseram-se em movimento, ainda a mastigar o bocado de pão.
— Vamos, gente! — exclamou Tito, e deitando a correr, pôs-se à cabeça de todos.
— Corre! Corre! — dizia-lhe o velho, que o acompanhava na marcha, sem esforço algum. — Despacha-te ou corto-te.
Jovens e velhos ceifavam qual deles o mais depressa. Mas, apesar da rapidez com que o faziam, não estropiavam a erva, que caía com a mesma regularidade e precisão. A área por ceifar foi ceifada em cinco
minutos. Estavam os últimos ceifeiros ainda a terminar a sua tarefa, já os primeiros deitavam os cafetãs ao ombro e se dirigiam, atravessando o caminho, para Machkine Vierch.
O Sol já se punha por detrás das árvores quando os ceifeiros, fazendo retinir os cantis, penetraram na ribanceira, coberta de árvores, do Machkine Vierch. No centro desta a erva chegava até à cintura dos homens, suave e macia, e no meio dela, disseminadas, havia flores silvestres. Depois de um breve conciliábulo em que se discutiu se deviam ceifar a direito ou à largura do prado, Prochor Iermiline, também ceifeiro de nomeada, homem alto e moreno, pôs-se à frente de todos. Ceifou uma franja e voltou atrás. Todos então se alinharam atrás dele. Ceifaram uma das vertentes da ravina, atravessando o fundo e subindo pela outra vertente até à orla da mata. O Sol punha-se por detrás das árvores; principiava a cair o rocio da noite; só os ceifeiros que trabalhavam no alto do cerro continuavam ao sol; mas em baixo, no barranco, onde principiava a estender-se um véu de neblina, e do outro lado do monte, ceifavam à sombra fresca e húmida. O trabalho estava no apogeu.
A erva, quando a gadanha a cortava, produzia um som manso e caía, amontoando-se em grandes medas, que despediam intenso aroma. Os ceifeiros, apertados na zona em que trabalhavam, tão depressa deixavam ouvir o ruído dos cantis e o das gadanhas que davam nas arestas das pedras ao afiá-las, como os gritos alegres com que se animavam uns aos outros.
Levine continuava a ceifar, como até ali, entre o velho e o rapaz. O velho, que pusera a jaqueta de pele de cordeiro, continuava alegre, trocista e ágil nos seus movimentos. Na mata as foices apanhavam cortando-os a cada momento, grandes cogumelos enraizados na erva. Assim que dava com algum, o velho abaixava-se, apanhava-o e escondia-o debaixo do jaleco, dizendo: «Aqui está mais um presente para a minha.»
A erva húmida e tenra ceifava-se facilmente; o que custava era subir e descer as encostas íngremes da ravina. Mas o velho não dava por isso. Movendo a gadanha, dava passadas curtas com os seus pés calçados de grandes laptis, e subia devagar a rampa. Embora lhe tremesse todo o corpo e lhe escorregassem as calças por debaixo da camisa não deixava perder nem um pé de erva nem uma só vergôntea, nem um único cogumelo, dizendo as suas graças a Levine e aos moços. Levine atrás dele, cuidava que se não aguentaria nas pernas, ao trepar, com a gadanha nas unhas, uma encosta tão inclinada que seria difícil galgá-la mesmo sem ela. Mas não podia deixar de continuar. Uma força exterior parecia conduzi-lo.