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Guerra e Paz
(Volume I - Segunda parte)

Leon Tolstoi

Capítulo I

Em Outubro de 18O5 os exércitos russos ocupavam um certo número de cidades e de aldeias do arquiducado da Áustria, onde estavam chegando constantemente regimentos frescos, vindos da Rússia, grande encargo para a população, indo concentrar-se ao pé da fortaleza de Braunau. Braunau era o quartel-general do comandante-chefe. Kutuzov. A 11 de Outubro de 1805, um dos regimentos de infantaria acabado de chegar estacionava a cerca de meia milha da cidade, aguardando a visita do comandante-chefe. Embora as localidades e a paisagem nada tivessem de russo - eram pomares, muros de pedra, telhados, montanhas ao longe -, e não obstante o carácter estrangeiro da população, que olhava os soldados cheia de curiosidade, o regimento tinha exactamente o aspecto de qualquer outro regimento russo que se estivesse preparando para uma revista fosse onde fosse em plena Rússia.

Na véspera à noite, na última etapa, o regimento recebera a comunicação de que o general-chefe viria inspeccioná-lo. Embora as próprias palavras da ordem do dia tivessem parecido pouco claras ao comandante do regimento e delas se não pudesse inferir que as tropas deveriam envergar fardamento de campanha, foi resolvido, em conselho dos comandantes de batalhão, apresentar o regimento de grande uniforme, partindo do princípio de que mais vale tudo do que nada. E foi assim que os soldados, depois de uma marcha de trinta verstas, passaram a noite em claro, arranjando-se e polindo-se, enquanto os oficiais comandantes de companhia contavam os do estado-maior e homens e os repartiam. Pela manhã o regimento deixara de ser uma massa desordenada e em tropel, como na véspera, durante a última etapa, para se transformar numa massa compacta de dois mil homens em que todos sabiam o lugar que lhes competia e o que tinham a fazer e em que cada botão, cada correia, estava onde devia estar, luzindo de asseio. Nem só no exterior reinava a ordem; se o general comandante se lembrasse de espreitar por debaixo das fardas, poderia verificar que cada soldado vestia camisa lavada, e em cada uma das mochilas havia os objectos da ordem - «savão e sovela», como diziam os soldados. Apenas um pormenor causava uma certa preocupação. Era o calçado. Mais de metade do regimento tinha as botas rotas. A culpa, no entanto, não era do comandante, pois, apesar das constantes reclamações, a intendência austríaca nada fornecera do que se pedira e o regimento já caminhara mil verstas.

O general comandante era um militar já idoso, de pele sanguínea, sobrancelhas e suíças grisalhas, de sólida estatura, largo de peito e de ombros. Envergava um uniforme novo, todo flamante, bem vincado, com grandes dragonas douradas, que em vez de lhe esmagarem os ombros maciços lhos soerguiam. Dava a impressão de alguém contentíssimo de desempenhar um dos actos mais solenes da sua vida. Passeava de cá para lá diante dos cordões de tropa, um pouco trôpego no andar e as costas algo vergadas. Via-se bem que admirava o seu regimento, que estava orgulhoso dele e que lhe dera a própria alma. Apesar disso, o seu andar hesitante parecia querer dizer que além dos interesses militares o preocupavam ideias puramente mundanas, e, que não era estranho o belo sexo.

- Bom. Mikafia Mitritch - disse ele para um dos comandantes de batalhão. Este oficial deu um passo em frente sorrindo; via-se bem que ambos estavam de muito boa disposição. - Não tivemos mãos a medir esta noite. Sim, senhor, de qualquer maneira o regimento não é dos piores.., hem! O comandante de batalhão percebeu o gracejo e pôs-se a rir.

- Até no campo de manobras do czar faria figura.

- Hem?! - exclamou o comandante.

Nesta altura, na estrada que vinha da cidade, onde haviam colocado sentinelas, apareceram dois cavaleiros: um ajudante-de-campo seguido de um cossaco.

Era o estado-maior que o enviava para esclarecer o general sobre o ponto pouco claro da ordem do dia, a saber, que o general-chefe desejava encontrar o regimento exactamente no mesmo estado em que ele se apresentava durante as marchas, de capote, as armas nas gualdrapas, sem preparativos de qualquer espécie. Kutuzov recebera na véspera um membro do Conselho Superior de Guerra, chegado de Viena, que vinha propor-lhe e pedir-lhe que operasse o mais depressa possível a sua junção com os exércitos do arquiduque Fernando e de Mack, e Kutuzov, que considerava esta junção desvantajosa, entre outros argumentos favoráveis ao seu ponto de vista tinha a intenção de mostrar ao general austríaco o estado lamentável do exército que chegava da Rússia. Era por isso que ele desejava passar revista ao regimento, e, deste modo, quanto mais deplorável o estado dos homens maior a sua satisfação. Conquanto o ajudante-de-campo não fosse conhecedor de todos estes pormenores, transmitiu ao comandante do regimento o desejo expresso do general-chefe no sentido de encontrar os homens de capote e gualdrapas e acrescentou que, no caso contrário, seria grande o seu descontentamento. Ao ouvir estas palavras, o comandante baixou a cabeça, encolheu os ombros, e deixou cair os braços, num gesto de lassidão.

- Fizemo-la bonita! - exclamou. - Era o que eu lhe dizia. Mikalia Mitritch. Estamos em campanha, quer dizer de capotes às costas. Ah, meu Deus!. - acrescentou, avançando com um ar decidido. - Senhores comandantes de companhia! - gritou, na sua voz de comando. - Sargentos!... Sua Excelência demora-se? - prosseguiu, dirigindo-se ao ajudante-de-campo com um acento de respeitosa deferência para com a, pessoa a quem aludia.

- Dentro de uma hora, segundo creio.

- Teremos tempo de mudar de fardas? - Não sei, meu general...

O comandante do regimento, avançando ele próprio pelo meio das fileiras, tratou de mandar envergar os capotes. Os comandantes de companhia começaram a correr, os sargentos mexiam-se. Os capotes não estavam em muito bom estado. Instantaneamente, as fileiras, até então silenciosas e em ordem, principiaram a ondular, a debandar; ouviu-se um burburinho de vozes. Por toda a parte havia soldados que iam e vinham, atarefados, movimentos de ombros que sacudiam as mochilas, sacos que se punham à cabeça, capotes que se extraíam dos sacos ou braços que se levantavam para enfiar as mangas.

Meia hora depois tudo voltara ao estado primitivo, e de tal maneira que as fileiras negras estavam cinzentas. O comandante, no seu trôpego andar, apresentou-se diante do regimento e, a distância, percorreu-o com os olhos.

- Que vem a ser isto ainda? Que significa isto? - gritou ele, detendo-se. - Comandante da 3ª companhia!...

- Ao general o comandante da 3ª companhia! Ao general o comandante da 3ª companhia! - ouviu-se repetir nas fileiras, e um ajudante-de-campo deslocou-se para procurar o oficial, que tardava em aparecer.

Quando as vozes prestáveis gritando que o general «perguntava pela 3ª chegaram, a pouco e pouco, ao seu destino, o oficial procurado saiu das fileiras, e, embora fosse já de certa idade e pouco habituado a correr, tomou a marcha acelerada, desajeitadamente, na ponta dos pés, em direcção ao general.

Os traços do capitão exprimiam o desassossego do estudante a quem o professor pergunta uma lição que ele não estudou. O nariz vermelhusco, natural consequência de certa intemperança, cobrira-se-lhe de manchas e a boca tremia-lhe. O comandante do regimento olhava-o dos pés à cabeça enquanto ele, meio sufocado, se aproximava, encurtando o passo, pouco a pouco.

- Não tarda que mande os seus homens vestir sarafanas! Que quer isto dizer? - gritou o comandante, com o queixo saliente, apontando para as fileiras da 3ª companhia, onde se via um soldado com um capote que não era da cor da ordem, o qual se salientava no meio de todos os outros. - E você, onde é que você estava? Estamos à espera do general-chefe e você abandona o seu posto? Hem?... Eu vou-lhe ensinar a vestir os seus soldados para se apresentarem à revista!... Hem!...

O comandante da companhia, sem tirar os olhos do general, apertava cada vez mais os dois dedos contra a pala do quêpi, como se só aquele gesto o pudesse salvar.

- Então, o que tem a dizer? Quem é que na sua companhia anda mascarado de húngaro? - prosseguiu o comandante do regimento, em tom ao mesmo tempo severo e gracioso.

- Excelência...

- O quê. Excelência? Excelência! Excelência! Que quer isso dizer? Excelência. Ninguém sabe o que isso vem a ser.

- Excelência, é o Dolokov, que foi degradado... - volveu o oficial, em voz muito baixa.

- E então, foi degradado em marechal ou em soldado? Se é soldado deve vestir-se como toda a gente, de acordo com o regulamento.

- Excelência! Foi Vossa Excelência quem o autorizou para a marcha...

- Autorizei-o? Autorizei-o? Ora aí está, são todos assim, vocês, os rapazes! - exclamou o comandante do regimento, serenando um pouco. - Eu autorizei-o? Dizem-vos uma coisa, e vocês, imediatamente... - Calou-se. - Dizem-vos uma coisa e vocês... - E então? - concluiu, de novo furioso. - Queira mandar vestir os seus homens convenientemente.

E o comandante do regimento, depois de lançar um olhar ao ajudante-de-campo, prosseguiu na sua inspecção, caminhando sempre vacilante. Via-se bem que até o próprio furor lhe era agradável e que, percorrendo as fileiras, procurava ainda qualquer outro pretexto para se encolerizar. Tendo passado uma descompostura a um oficial por causa de uma gorjeira mal polida e a outro por virtude de um mau alinhamento, avançou para a 3ª companhia.

- Isto é que é posição? Onde tens o teu pé? Onde tens o teu pé? - gritou, em voz furibunda, ainda o separavam cinco homens de Dolokov, vestido com um capote azulado.

Dolokov rectificou imediatamente a posição da sua perna, na fileira, e fixou o general com os seus olhos brilhantes e escarninhos.

- Porque é que tu estás com um capote azul? Tira isso... Sargento! Dispam-no!... Cana... - Não teve tempo de acabar.

- General! Eu devo executar as ordens que me dão, mas não suportar... - disse precipitadamente Dolokov.

- Não se fala na forma!... Não se fala, não se fala!...

- Não sou obrigado a tolerar injúrias - concluiu Dolokov, em voz alta e inteligível.

Os olhos do general e os do soldado encontraram-se. O general não respondeu, contentando-se em repuxar, colérico, a bandoleira muito esticada.

- Mude de capote, se faz favor - disse ele, afastando-se.

Capítulo II

- Aí vem! - gritou nesta altura a sentinela.

O comandante do regimento, corando, correu para o seu cavalo; trémulo, pousou o pé no estribo, montou, desembainhou a espada, e, com ar radioso e decidido, abrindo a boca de lado, preparou-se para dar as vozes de comando. O regimento sacudiu-se, como um pássaro que espaneja as asas, e ficou imóvel.

- Sentido!...- gritou, numa voz vibrante, onde havia para ele, general, satisfação, para o regimento severidade e para o comandante que chegava deferência.

Uma caleche vienense, alta e azul, tirada por seis cavalos, vinha avançando, com um ligeiro ruído de ferragens, num trote rápido, ao longo da larga estrada desempedrada, que dois renques de árvores ladeavam. Atrás da caleche galopavam os oficiais às ordens e uma escolta croata. Sentado ao lado de Kutuzov vinha um general austríaco, de uniforme branco, que contrastava no meio dos uniformes negros dos oficiais russos. A caleche parou em frente das fileiras do regimento. Kutuzov e o companheiro conversavam em voz baixa, e aquele teve um vago sorriso no momento em que, no seu andar pesado, punha os pés no estribo do carro, dando a impressão de não perceber estarem ali dois mil homens que, de respiração suspensa, fitavam nele os olhos, nele e no comandante do regimento, Uma voz de comando ressoou, o regimento ondulou de novo e apresentou armas. No meio de um silêncio de morte, ouvia-se a voz débil do general-chefe. O regimento soltou um urro: «Saúde para Sua Ex.., celência.., lência.., lência.,.» E de novo tudo ficou silencioso. Kutuzov, de princípio, deixou-se estar parado enquanto o regimento desfilava; depois, ao lado do general de farda branca, a pé e seguido da comitiva, percorreu de um lado para o outro as fileiras dos soldados.

Pela maneira como o general comandante do regimento saudava com a sua espada o general-chefe, comendo-o com os olhos, sempre hirto e correcto, e pela forma como ele, inclinando-se para diante, seguia o general na sua marcha através das fileiras de soldados, só com dificuldade dominando o andar claudicante, e ainda pelo modo como se aproximava, a galope, à mínima palavra ou ao mínimo gesto do seu superior, era evidente estar cumprindo as suas obrigações de subordinado com mais satisfação ainda do que cumpria as suas obrigações de comandante. O regimento, graças à severidade e ao zelo do seu general comandante, apresentava-se em muito melhor estado do que os demais regimentos chegados na mesma altura a Braunau. Ao todo havia apenas, entre doentes e retardatários, duzentos e dezassete homens. E tudo estava em perfeito estado, salvo as botas dos soldados.

Kutuzov percorreu as fileiras, detendo-se, de tempos a tempos, para dirigir algumas palavras amáveis aos oficiais seus conhecidos da guerra da Turquia, e, por vezes, dirigia-se também aos soldados. Ao inspeccionar as botas, encolheu os ombros por mais de uma vez, apontando-as ao general austríaco, como a dizer que, se a ninguém podia censurar, nem por isso devia deixar de verificar o mau estado em que se encontrava o calçado do regimento. O comandante a todo o momento se precipitava para a frente, com receio de perder qualquer palavra do que se dizia a respeito do seu regimento. Na retaguarda de Kutuzov, a uma distância que permitia ouvir todas as palavras pronunciadas em voz baixa, seguia a comitiva, composta de vinte pessoas, que, falavam umas com as outras e por vezes até se riam. O militar que seguia na primeira fila atrás do general-chefe era um garboso ajudante-de-campo: nem mais nem menos que o príncipe Bolkonski. A seu lado marchava Nesvitski, oficial superior de alta estatura e muito gordo, de belo rosto sorridente e bom, com os olhos sempre húmidos. Nesvitski não podia deixar de se rir dos modos de um oficial de hússares morenaço que marchava ao seu lado. Este, impassível, de ar imperturbável, fitava, muito sério, as costas do comandante do regimento, copiando cada um dos seus movimentos. De cada vez que este vacilava em cima das pernas ou dobrava a espinha, ele imitava-lhe tal qual o gesto e a curvatura. Nesvitski ria e acotovelava os outros, chamando-lhes a atenção para a pantomima.

Kutuzov passava lenta e pesadamente por diante daqueles milhares de olhos como que desorbitados no esforço de o não perderem de vista. Ao chegar por alturas da 3.a companhia, o general-chefe parou bruscamente. A comitiva, que não contava com aquela paragem, não pôde evitar de colidir com ele.

- Eh. Timokine! - exclamou ele, reconhecendo o comandante do nariz vermelhusco que fora repreendido por causa do capote azul.

Teria parecido impossível que alguém pudesse tomar uma posição mais hirta que aquela que Timokine assumira quando das observações que lhe fizera o comandante do regimento, mas a verdade é, que no momento em que o general-chefe o interpelou tal era a sua rigidez na posição de sentido que, se a cena se prolongasse, lhe teria sido impossível conservar essa atitude. Por isso mesmo. Kutuzov, compreendendo a sua posição, e porque lhe não queria senão bem, seguiu adiante com um sorriso imperceptível na sua face inchada e desfigurada pela cicatriz de uma velha ferida.

- Mais um camarada de Ismail (Episódio militar russo, muito célebre, de 1790. (N, dos T.) - disse ele - Um valente militar! Estás contente com ele? - perguntou ao comandante do regimento.

O comandante do regimento, sem saber que a sua imagem se estava a reflectir no espelho do oficial de hússares que seguia atrás dele, deu um passo em frente, estremeceu e disse: - Contentíssimo. Alta Excelência! - Todos nós temos as nossas fraquezas - observou Kutuzov, sorrindo, e afastando-se. - Aquele tinha a sua predilecção por Baco.

O comandante do regimento teve receio de ser censurado por isso e não respondeu. O oficial de hússares neste momento reparou na cara do capitão do nariz vermelhusco e na rigidez com que ele apresentava o ventre na posição de sentido e imitou-o com tal flagrância que Nesvitski não pôde conter o riso. Kutuzov voltou-se. Era evidente que o oficial de hússares tinha uma mobilidade de expressão extraordinária. No mesmo instante em que Kutuzov voltava a cabeça, mimava ele uma máscara apropriada à circunstância e assumia imediatamente o ar mais sério, mais respeitoso e mais inocente deste mundo.

A 3ª companhia era a última e Kutuzov ficara pensativo, como que a procurar lembrar-se fosse do que fosse. O príncipe André, saindo da comitiva do general, aproximou-se dele e disse-lhe em francês, em voz baixa: - Permito-me dizer-lhe que me pediu lhe lembrasse o degradado Dolokov, deste regimento.

- Onde que está o Dolokov? - perguntou Kutuzov. Dolokov, que tinha enverga4do um capote cinzento de soldado, não esperou que o chamassem. A silhueta bem desenhada de um soldado louro e de olhos azuis saiu das fileiras. Aproximou-se do general-chefe e apresentou armas.

- Alguma queixa? - perguntou Kutuzov, franzindo um pouco as sobrancelhas.

- É o Dolokov - esclareceu o príncipe André.

- Ah! - exclamou Kutuzov. - Espero que a lição te sirva de emenda. Cumpre o teu dever de soldado. O imperador é clemente. E eu não te esquecerei, se o mereceres.

Os brilhantes olhos azuis fixaram-se no general-chefe com a mesma arrogância com que se tinham pousado no comandante do regimento, como se Dolokov quisesse desse modo rasgar o véu de convenções que tanto distanciava um general-chefe de um simples soldado.

- O único favor que peço. Mui Alta Excelência - disse ele, na sua voz lenta, sonora e firme - é que me seja permitido apagar a minha falta e mostrar a minha dedicação ao imperador e à Rússia.

Kutuzov fez meia volta. Houve nos seus olhos um sorriso no género daquele que por eles perpassara depois da sua entrevista com o capitão Timokine. Franziu as sobrancelhas, como se com isso quisesse significar que tudo quanto Dolokov lhe tinha dito, que tudo quanto ele próprio lhe poderia ter respondido era coisa desde há muito, muito tempo, conhecida, que tudo isso o enfadava grandemente e que não era nada disso que seria preciso dizer. Voltou costas e encaminhou-se para a caleche.

O regimento formou por companhias e dirigiu-se para os acantonamentos, não distantes de Braunau, onde devia reabastecer-se de botas e de fardamentos e descansar depois de tão duras jornadas.

- Não tem razão de queixa de mim. Prokor Ignatich? - interrogou o comandante do regimento no momento em que se avizinhou da 3ª companhia, que partia para o seu destino, e ao aproximar-se do capitão Timokine, que ia na vanguarda. Depois de uma revista tão bem sucedida, a cara do general transbordava de mal reprimida alegria. - É serviço do czar... Não pode ser de outra maneira... Às vezes, durante as inspecções, uma pessoa está um bocadinho excitada... Eu sou o primeiro a pedir desculpa, conhece-me bem... Os meus agradecimentos! - E estendeu a mão ao capitão.

- Desculpe-me, meu general, se eu ouso replicou o capitão, com o seu nariz muito vermelho, sorrindo, e mostrando deste modo que lhe faltavam dois dentes da frente, partidos, com uma coronhada, em Ismail.

- E a propósito, comunique ao Dolokov que eu me não esquecerei dele se tiver juízo. E diga-me, se faz favor, que é que ele faz, como é que ele se comporta? E...

- É muito pontual no serviço. Excelência.., mas quanto ao carácter... - redarguiu Timokine.

- Quê? Que há quanto ao carácter? - inquiriu o general.

- Há dias. Excelência... Às vezes é bem educado, bom rapaz, sensível. Outras vezes é uma verdadeira fera. Dizem que matou um judeu na Polónia, como sabe...

- Sim, sim, é verdade; mas ainda assim é preciso que a gente seja tolerante para um rapaz que caiu em desgraça. Tem muito boas relações... E também é preciso...

- Eu compreendo. Excelência - disse Timokine, com um sorriso em que se lia que compreendera o desejo do superior.

- Sim, sim.

O comandante do regimento foi em busca de Dolokov, pelo meio das fileiras, e estacou o cavalo.

- No primeiro recontro podes ganhar os teus galões - disse-lhe. Dolokov fitou-o sem dizer palavra e sem alterar o seu ar sorridente e trocista.

- Bom, agora está tudo em ordem. Um copo de aguardente a cada homem - acrescentou, de maneira a que todos o ouvissem. - A todos obrigado! Louvado seja Deus! - E, ultrapassando a companhia, aproximou-se de outra.

- Sim, apesar de tudo, é boa pessoa; é um tipo com quem a gente se entende - disse Timokine a um oficial subalterno que marchava a seu lado.

- Numa palavra, um rei de copas! - comentou este rindo. Era a alcunha do comandante do regimento entre os seus homens.

A boa disposição dos oficiais depois da revista propagou-se aos soldados. As companhias marchavam alegremente. Havia ditos nas fileiras.

- Diziam que Kutuzov era cego de um olho...

- E é... Não tem um olho.

- Não é verdade.., rapazes, vê melhor do que tu. Viu tudo, até as botas e meias...

- Ah, rapazes, quando ele me olhou para as pernas - eu disse cá comigo...

- E o outro, o austríaco, que vinha com ele? Parecia que lhe tinham despejado em cima uma lata de cal. Estava todo enfarinhado. Aposto que eles dão lustro na farda, como nós damos às espingardas.

- Eh. Fedechu!... Ouviste-o dizer quando principiava a batalha? Estavas tão perto dele. Dizem que o Bonaparte em pessoa esta em Brunov.

- Bonaparte? Que tolice! É só isso que tu sabes? Desconheces que os Prussíanos já se revoltaram? Os Austríacos estão a tratar-lhes da saúde. Quando eles acabarem, então é que principia a guerra com o Bonaparte. E aquele a dizer que o Bonaparte está em Brunov! É um imbecil, claro está! Abre-me melhor essas orelhas! - Ah, esses malditos furriéis! A 5ª, como tu estás a ver, já lá está na aldeia. A esta hora já eles estão a fazer o kacha, e nós ainda tão longe.

- Não tens um biscoito? - E ontem deste-me tabaco? Está bem, rapaz. Bom, bom. Deus seja contigo! - Se ao menos fizessem alto... Assim, ainda vamos andar mais umas cinco verstas de barriga vazia.

- Hem! Era bem melhor que os Alemães nos oferecessem carruagens. Vai ou não vai? Colossal! - Isto por aqui, rapazes, é tudo gente de pé descalço. Ao menos lá para cima eram polacos, súbditos da coroa russa, enquanto agora, rapazes, são tudo alemães.

- Os cantores à frente! - gritou o capitão.

E na vanguarda do batalhão reuniram-se, vindos de diversos lados, uns vinte homens. O tambor-mor voltou a cabeça para os cantores, e, com um aceno, entoou a lenta canção dos soldados, que começa assim: «Não é a aurora, o Sol que está a nascer...», e termina: «É, é, rapazes, é a glória que nos espera com o tio Kamenski...» Esta canção tinha sido composta na Turquia e actualmente cantavam-na na Áustria, apenas com esta pequena variante: onde estava «tio Kamenski» estava agora «tio Kutuzov».

Depois de ter entoado o último verso, com um ar marcial e fazendo um amplo gesto com a mão, o gesto de quem atira qualquer coisa para longe, o tambor, um belo soldado dos seus quarenta anos, grande e seco, envolveu num olhar severo os seus cantores, franzindo as sobrancelhas. Depois, bem certo de que todos os olhos estavam fitos nele, deu a impressão de erguer, com as duas mãos, à altura da cabeça qualquer objecto precioso e invisível, conservou-o aí alguns segundos e, de repente, foi como se o tivesse atirado para longe:

«Ai, minha casa, minha casa, Minha casa nova em folha.»

Vinte vozes entoaram o refrão e o tocador de ferrinhos, apesar do peso do equipamento, saltou para a frente do batalhão e, de costas, sempre a, andar, agitando os ombros, parecia ameaçar quem quer que fosse com o seu instrumento. Os soldados marcavam o compasso com os braços, cantando, e a sua marcha acompanhava o ritmo da canção. Lá para trás ouviu-se um rolar de rodas, um chiar de molas, um trote de cavalos. Era Kutuzov e a sua comitiva que regressavam à cidade. O general-chefe fizera um sinal indicando que os soldados podiam continuar a marchar livremente, e na sua cara, assim como na dos membros da sua comitiva, lia-se contentamento, o contentamento que lhes causava ouvir aquelas canções, ver o soldado que dançava e o aspecto jovial dos seus camaradas. Na segunda fileira, no flanco direito, por onde a caleche ultrapassou o regimento em marcha, chamava a atenção, sem dar por isso, o soldado de olhos azuis. Dolokov, que, marcial e gracioso como poucos, marchava ao ritmo da canção, olhando para toda a gente que passava com o ar de quem tem pena de que não fossem todos com ele, de que não fizessem todos parte da sua companhia. Um oficial de hússares da comitiva de Kutuzov, aquele mesmo que parodiara o comandante do regimento, deixou passar a caleche e aproximou-se de Dolokov.

Durante algum tempo, em Petersburgo, este oficial. Jerkov, fizera parte do grupo de boémios de que o Dolokov fora o chefe. Já o tinha encontrado no estrangeiro naquela situação de soldado, mas achara melhor não o conhecer. Agora, depois da conversa de Kutuzov com o ex-oficial, veio para ele com a satisfação de quem encontra um velho amigo.

- Meu querido amigo, como vais tu? - lançou, no meio do alarido das vozes, procurando acertar o passo da sua montada com o dos soldados.

- Eu? - redarguiu Dolokov friamente. - É como estás vendo. A galharda canção parecia sublinhar a alegre despreocupação das palavras de Jerkov e a deliberada frieza de Dolokov.

- Bom, e então, que tal te dás com os teus chefes? - perguntou Jerkov.

- Muito bem. É boa gente. E tu, conseguiste meter-te no estado-maior? - Estou em missão. Sou adido.

Calaram-se.

«Lá vai o falcão, lá vai.

Da minha manga direita partiu.»

dizia a canção, acordando uma involuntária sensação de coragem e bravura. A conversa dos dois teria sido muito diferente, com certeza, se não decorresse ao som daquela canção.

- Sempre é verdade que os Austríacos foram derrotados? - perguntou Dolokov.

- Quem diabo o sabe? É o que dizem.

- Tanto melhor - replicou Dolokov, seco e breve, ao ritmo da cadência.

- Aparece uma destas noites. Jogamos uma partida de faraó - disse Jerkov.

- Estás então cheio de dinheiro? - Aparece.

- Não posso. Fiz uma promessa. Não bebo nem jogo enquanto me não reintegrarem no meu posto.

- Bom, então no primeiro recontro...

- É o que vais ver, Calaram-se ambos outra vez.

- Se precisares de alguma coisa aparece no estado-maior; estou às tuas ordens... - volveu Jerkov.

Dolokov pôs-se a rir.

- É melhor não te preocupares comigo. Aquilo de que precisar não o pedirei a ninguém; eu próprio me encarregarei de o obter.

- Bom, sim, eu apenas...

- Bom, e eu também...

- Até à vista.

- Adeus.

«E bem longe e bem livre Na nossa terra natal.»

Jerkov cravou as esporas no seu cavalo; este, excitado, deu duas ou três voltas no mesmo lugar, sem saber como havia de partir. Depois, sacudiu a cabeça e largou a trote, contornando o batalhão, para se aproximar da caleche, seguindo ao ritmo do canto.

Capítulo III

De regresso da inspecção. Kutuzov, acompanhado do general austríaco, penetrou no seu gabinete, e, chamando um ajudante-de-campo, ordenou-lhe que lhe trouxessem certos papéis relativos ao estado das tropas em campanha e a correspondência emanada do arquiduque Fernando, que comandava a vanguarda.

O príncipe André Bolkonski entrou dai a pouco, com os papéis pedidos, no gabinete do general-chefe. Diante de um mapa estendido sobre a mesa sentavam-se Kutuzov e o general austríaco membro do Conselho Superior de Guerra.

- Ah!... - exclamou Kutuzov, olhando para Bolkonski, como se lhe quisesse dizer que esperasse, continuando, porém, em francês a conversa principiada, - Só tenho uma coisa a dizer, general - Kutuzov punha na sua linguagem expressões e entoações distintas, destacando nítida e lentamente cada palavra, e via-se bem que tinha prazer em ouvir-se a si próprio. - Só tenho uma coisa a dizer. Se isso não dependesse senão da minha vontade, de há muito que teriam sido satisfeitos os desejos de Sua Majestade o Imperador Francisco. De há muito que eu teria operado já a minha fusão completa com o arquiduque. E, acredite na minha palavra de honra, entregar o alto comando do exército a um general mais competente e mais hábil do que eu, coisa que não falta na Áustria, e ver-me livre de uma responsabilidade tão pesada, eis o que seria um grande alívio para mim. Mas as circunstâncias são mais fortes do que nós, general.

Kutuzov sorriu com o ar de quem quer dizer: «Você está no seu pleno direito de não acreditar em mim, e o certo é que isso me não dá o mal, pequeno cuidado, mas o que você não tem é motivo para pretender tal coisa. E aí é que está a questão.» O general austríaco não tinha cara de muito satisfeito, mas via-se obrigado a responder a Kutuzov no mesmo tom.

- Pelo contrário - volveu ele, numa voz irritada e desabrida, em perfeita contradição com as palavras lisonjeiras que pronunciava - Pelo contrário, a participação de Vossa Excelência na obra comum é altamente apreciada por Sua Majestade, mas nós somos de opinião de que os adiamentos actuais privam os gloriosos exércitos russos e o seu general-chefe dos louros que eles estão habituados a conquistar nos campos de batalha - Era evidente que esta última frase já a trazia ele preparada.

Kutuzov inclinou-se, sem deixar de sorrir.

Nesse caso, fundamentando-me, especialmente, na última carta com que me honrou Sua Alteza o Arquiduque Fernando, tenho razão para crer que as tropas austríacas sob o comando de um colaborador tão hábil como o general Mack, obtiveram urna vitória decisiva e já não têm necessidade da nossa ajuda.

O general franziu as sobrancelhas. Embora ainda não houvesse notícias seguras de uma derrota austríaca, já havia muitas indicações que confirmavam os boatos desfavoráveis postos a correr; por isso a suposição de Kutuzov de que os Austríacos estavam vitoriosos tinha mais um ar de mofa que outra coisa. Kutuzov continuava a sorrir disfarçadamente, sempre com o mesmo ar de quem diz que havia razões para crer que assim fosse. Efectivamente, a última carta que recebera do exército de Mack falava em vitória e numa situação estratégica a todos os títulos excelente.

- Deixe ver essa carta - disse Kutuzov para o príncipe André. - Queira fazer o favor de ouvir.

E Kutuzov, com o seu sorriso trocista aos cantos dos lábios, leu em alemão ao general austríaco o passo seguinte da carta do arquiduque Fernando:

Todas as nossas forças, cerca de setenta mil homens, estão já concentradas, de sorte que nós podemos atacar e esmagar o inimigo no caso de ele vir a atravessar o Lech. Visto que UIm está em nosso poder, temos a vantagem de conservar as duas margens do Danúbio, e deste modo, em qualquer altura, desde que o inimigo não atravesse o Lech, somos nós quem pode atravessar o Danúbio, lançando-nos sobre as linhas de comunicação, e voltar a atravessar o Danúbio mais abaixo; se o inimigo se lembrasse de lançar todas as suas forças contra os nossos fiéis aliados, nós não o deixaríamos realizar essa operação. Deste modo, aguardaremos, corajosamente, o momento em que o exército imperial russo esteja inteiramente preparado para encontrar, em seguida, muito facilmente, as possibilidades de dar ao inimigo o destino que ele merece.

Kutuzov, concluída que foi a leitura de toda esta fraseologia, soltou um suspiro de alívio e fitou com amabilidade e atenção o membro do Conselho Superior de Guerra.

- Mas Vossa Excelência sabe muito bem que uma das regras da prudência é prever sempre o pior - observou o general austríaco, que estava morto por acabar com aquela brincadeira e chegar aos factos.

Não pôde impedir-se de lançar um olhar ao ajudante-de-campo.

- Perdoe-me, general - interrompeu Kutuzov, voltando-se igualmente para o príncipe André.- Ouça, meu amigo, vá pedir ao Kozlovski todos os relatórios dos nossos espiões. Aqui tem duas cartas do conde de Nostitz, aqui tem a carta do arquiduque Fernando e mais isto - acrescentou, entregando-lhe diversos papéis. - Com tudo isto faça-me um memorando, uma nota, bem clara, em francês, mencionando tudo o que sabemos acerca das operações do exército austríaco. Depois, entregue tudo a Sua Excelência.

O príncipe André inclinou-se de modo a fazer compreender que tudo compreendera desde as primeiras palavras: não só o que fora dito, como também o que Kutuzov teria desejado dizer-lhe. Pegou nos papéis e, depois de uma continência circular, dirigiu-se para a sala de visitas, pisando silenciosamente o tapete.

Embora ainda se não tivesse passado muito tempo depois que André deixara a Rússia, já tinha mudado bastante. Os seus traços fisionómicos, os seus gestos, o seu andar, não conservavam já quase nada daquele ar afectado de outrora, do seu falso ar de fadiga e de indolência. Dava a impressão de um homem que não tem tempo de pensar na opinião que os outros possam ter a seu respeito, ocupado que está a fazer seja o que for que ele considera muito interessante. Parecia mais satisfeito consigo próprio e com os outros que dele se aproximavam. No seu sorriso e no seu olhar havia mais alegria e sedução.

Kutuzov, que ele fora encontrar já na Polónia, acolhera-o muito amavelmente, prometera-lhe não o esquecer, distinguira-o entre todos os demais ajudantes-de-campo, trouxera-o consigo a Viena e confiara-lhe missões muito sérias. De Viena escrevera ao seu velho camarada, o pai do príncipe André.

«O teu filho promete Vir a ser um oficial fora do vulgar, pelos serviços prestados e pela firmeza da sua pontualidade no serviço. Considero-me feliz por ter ao meu dispor um tal subordinado.» No estado-maior de Kutuzov, entre os seus camaradas e em geral no exército, o príncipe André, tal como acontecia na sociedade de Petersburgo, gozava de duas reputações absolutamente opostas. Uns - a minoria - consideravam-no um ser diferente de todos os demais, esperavam dele grandes coisas, ouviam-no, admiravam-no e imitavam-no: e com estes ele era simples e amável. Os outros - a maioria - não gostavam dele, consideravam-no um indivíduo inchado de orgulho, com um carácter frio e desagradável. Mas de tal modo André se comportava para com eles que estes o estimavam e até mesmo o temiam.

Ao penetrar na sala de visitas, depois de ter deixado o gabinete de Kutuzov, o príncipe André, com os papéis na mão, aproximou-se do seu camarada, o ajudante-de-campo de serviço. Kozlovski, que estava a ler um livro ao pé da janela.

- Então, príncipe? - perguntou Kozlovski.

- Ordem para redigir uma nota explicando a razão pela qual não avançamos.

- E porquê? André fez-lhe sinal de que também não sabia.

- Não há notícias de Mack?- perguntou Kozlovski.

- Não.

- Se fosse verdade ele ter sido derrotado já haveria notícias.

- Provavelmente - redarguiu André, dirigindo-se para a porta de serviço.

Nessa altura entrava, num repente, batendo com a porta, um general austríaco de grande estatura, de capote, um lenço preto amarrado à cabeça, e pendente do pescoço o colar de Maria Teresa: acabava, evidentemente, de chegar. O príncipe André deteve-se.

- O general-chefe. Kutuzov? - disse rapidamente o recém-chegado com um duro sotaque alemão, olhando em roda, e dirigindo-se, sem se deter, para a porta do gabinete.

- O general-chefe está ocupado - replicou Kozlovski, interceptando os passos do general desconhecido e vedando-lhe o caminho. - Quem devo anunciar? O general desconhecido mediu com um olhar de desdém Kozlovski, que era de pequena estatura, como que surpreendido de o não terem reconhecido.

- O general-chefe está ocupado - repetiu tranquilamente Kozlovski.

O general franziu as sobrancelhas e os lábios tremeram-lhe de cólera. Puxou de uma agenda, traçou apressadamente algumas palavras a lápis, rasgou a folha, entregou-a, aproximou-se da janela a passos rápidos, deixou-se cair numa cadeira e ficou-se a olhar os circunstantes, como que a dizer: «Com que direito é que me olham assim?» Em seguida ergueu a cabeça, estendeu o pescoço, como se fosse falar, e depois, como se fosse cantarolar qualquer coisa, negligente, emitiu um som estranho, que logo saiu estrangulado. A porta do gabinete abriu-se e no limiar apareceu Kutuzov. O general da cabeça amarrada, com o ar de quem procura evitar um perigo, aproximou-se de Kutuzov em largos passos rápidos das suas magras pernas, fazendo uma vénia ao general russo.

- Eis na sua frente o infeliz Mack - articulou, numa voz alterada.

Kutuzov, de pé à porta do seu gabinete, conservou durante instantes uma expressão absolutamente impassível. Depois, um vinco, como uma vaga, lhe perpassou pela máscara e as rugas da testa desapareceram -lhe; inclinou-se com deferência, fechou os olhos, deixou passar Mack adiante, sem dizer palavra, e em seguida puxou a porta.

O boato já então espalhado da derrota dos Austríacos e da rendição do exército inteiro em UIm era exacto. Meia hora depois eram enviados ajudantes-de-campo em todas as direcções anunciando que dentro em pouco também o exército russo, até aí inactivo, se iria defrontar com o inimigo.

O príncipe André era um dos raros oficiais do estado-maior a quem interessava, antes de mais nada, a marcha geral das operações militares. Ao ver Mack e tendo conhecido por miúdo os pormenores da sua derrota compreendeu que metade da campanha estava perdida, que os exércitos russos se encontravam numa situação bastante crítica e anteviu com nitidez o destino reservado às tropas e o papel que a ele próprio competiria. Sem querer, experimentou uma alegria violenta ao pensar que a presunçosa Áustria estava humilhada e que dentro de uma semana talvez lhe fosse dado tomar parte num recontro entre Russos e Franceses, o primeiro desde Suvorov para cá. Mas receava o génio de Bonaparte, capaz de vencer a bravura dos exércitos russos, e ao mesmo tempo não podia admitir que o seu herói fosse posto em xeque.

Emocionado e transtornado pelos seus pensamentos. André retirou-se para os seus aposentos na intenção de escrever ao pai a sua carta quotidiana. No corredor encontrou-se com o seu camarada Nesvitski e o jocoso Jerkov; como sempre, estavam ambos muito alegres: - Porque é que estás tão macambúzio? - perguntou Nesvitski, ao ver o rosto pálido e os olhos brilhantes do príncipe André.

- Não há grande motivo para estarmos contentes - redarguiu Bolkonski.

Na mesma altura em que os três camaradas se encontravam, cruzavam-se com eles, vindos do outro lado do corredor, o general austríaco Strauch, adido ao estado-maior de Kutuzov para efeitos de abastecimento das tropas russas, e um membro do Conselho Superior de Guerra, que chegara na véspera. O largo corredor tinha espaço suficiente para que os generais passassem livremente, apesar da presença dos três oficiais, mas Jerkov, acotovelando Nesvitski, segredou-lhe, num frouxo de riso: - Eles aí estão!... Eles aí estão!... Em linha, deixem-nos passar! Façam favor de os deixar passar! Era evidente que os generais queriam passar sem chamar a atenção para honras supérfluas. O burlesco Jerkov assumiu de súbito um ar de estúpida alegria que afectava não poder dominar.

- Excelência - disse ele em alemão, dando um passo em frente e dirigindo-se ao general austríaco .- Tenho a honra de o felicitar.

Numa vénia e desastradamente, como as crianças quando aprendem a dançar, fez deslizar um pé, depois o outro.

O general membro do Conselho Superior de Guerra mediu-o de alto a baixo com um olhar severo; mas ao reparar na gravidade daquele sorriso parvo não pôde recusar-lhe um momento de atenção. Semicerrou w olhos, atento.

- Tenho a honra de o felicitar. Chegou o general Mack, em muito bom estado, apenas com uma feridazinha aqui - acrescentou, abrindo-se em sorrisos e apontando para a sua própria testa.

O general franziu as sobrancelhas, voltou costas e continuou o seu caminho.

- Meu Deus, que ingenuidade! (Em alemão no texto russo. (N, dos T.) - exclamou, furioso, depois de ter dado alguns passos.

Nesvitski, rindo, passou o braço por detrás do príncipe André, mas este, empalidecendo ainda mais, sacudiu-o, tomando um ar descontente, e voltou-se para o lado de Jerkov. O nervosismo em que o puseram a presença de Mack e as notícias sobre a situação, além da lembrança do que aguardava o exército russo, fizeram-no explodir perante o gracejo despropositado de Jerkov: - Meu caro senhor - exclamou numa voz incisiva, com um ligeiro tremor no queixo -, se lhe dá prazer fingir de palhaço, não serei eu quem o impeça disso, mas devo adverti-lo de que se torna a ter a audácia de fazer de histrião na minha presença eu lhe ensinarei como deve comportar-se.

Nesvitski e Jerkov ficaram tão surpreendidos com estas palavras que fitaram Bolkonski sem dizer palavra, os olhos muito abertos.

- Porquê? Limitei-me a apresentar-lhe as minhas felicitações - balbuciou Jerkov.

- Eu não estou a brincar consigo, peço-lhe que se cale! - gritou-lhe Bolkonski, e, tomando o braço de Nesvitski, seguiu em frente, deixando Jerkov no meio do corredor, sem saber que responder.

- Então, que é isso? - disse Nesvitski para o sossegar.

- Quê?! - exclamou o príncipe André, detendo-se, tomado ainda de exaltação. - É preciso que compreendas que nós ou somos oficiais ao serviço do nosso czar e da pátria, que nos regozijamos com os êxitos gerais e deploramos os fracassos, ou então não passamos de simples lacaios, indiferentes à vida dos nossos amos. Quarenta mil homens massacrados e o exército dos nossos aliados dizimado, e acha que é caso para rir - acrescentou, como se esta frase em francês viesse fortalecer o seu raciocínio. Está certo num rapaz insignificante como esse indivíduo que elegeu para seu amigo, mas não em si, não em si. Só os garotos é que se divertem desta maneira- continuou em russo, pronunciando a palavra «garotos» com um sotaque francês, pois receou que Jerkov o pudesse ouvir.

Ficou um momento silencioso, como que à espera de ouvir o que o oficial replicaria. Mas este fez meia volta e saiu do corredor.

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