O príncipe Vassili não preparava de antemão os seus planos. E muito menos pensava em fazer mal às pessoas para daí extrair proveito. Era apenas um homem de sociedade bem sucedido, e que se habituara a ter êxitos. Consoante as circunstâncias, de acordo com as suas relações, diversos planos e combinações se arquitectavam constantemente na sua cabeça, sem que ele próprio se desse perfeita conta disso, e eis em que consistia, para ele, o interesse da sua existência. Não eram uma nem duas as combinações que ele constantemente tinha em mente, mas dúzias: umas apenas em esboço, outras realizadas, e havia ainda as que caíam por terra. É claro que ele não costumava dizer de si para consigo, por exemplo: «Este indivíduo é actualmente uma pessoa poderosa, há toda a vantagem em que eu conquiste a sua confiança e a sua amizade, para poder vir a tirar daí algum proveito.» Também não costumava dizer para si: «Ora aqui temos rico o Pedro, é preciso que eu o leve a casar com minha filha, para lhe pedir emprestados os quarenta mil rublos de que tenho necessidade.» Apresentava-se o indivíduo importante: instantaneamente o seu instinto lhe segredava que este homem podia ser-lhe útil, e ei-lo que se relacionava com ele e na primeira ocasião, sem que se tivesse preparado para isso, instintivamente por assim dizer, lisonjeava-o, tornava-se-lhe familiar, insinuava-lhe algumas palavras sobre as suas necessidades.
Pedro estava ao seu alcance em Moscovo; fez que ele fosse nomeado camarista da corte, o que então correspondia ao cargo de conselheiro de Estado, e insistiu para que o rapaz o acompanhasse a Petersburgo e se hospedasse em sua casa. Desprendidamente, na aparência, e ao mesmo tempo com a perfeita convicção de que assim devia agir, o príncipe Vassili fazia tudo quanto era preciso para que Pedro desposasse sua filha. Se tivesse arquitectado previamente os seus planos não lhe teria sido possível imprimir às suas maneiras um ar tão natural, nem dispor de tanta simplicidade e familiaridade nas suas relações com as pessoas de uma situação mais importante do que a sua ou com os seus inferiores. Era constantemente atraído para as pessoas mais poderosas e mais ricas do que ele, e possuía a arte pouco vulgar de aproveitar o momento favorável para delas extrair o que lhe era vantajoso.
Pedro, que, de um momento para o outro e sem contar, se tornara tão rico e conde Bezukov, depois daqueles seus últimos tempos de isolamento e despreocupação, de tal modo se sentia perseguido pelas pessoas e enfronhado em ocupações que só na cama lhe era dado encontrar-se consigo mesmo. Tinha-se visto obrigado a assinar papéis, a entrar em comunicação com repartições cuja importância não conseguia perceber muito bem, a interrogar sobre este ou aquele assunto o seu principal intendente, a visitar os seus domínios perto de Moscovo e a receber uma infinidade de pessoas que nunca tinham querido saber sequer da sua existência e que se teriam mostrado agora muito pesarosas e ofendidas caso ele, porventura, as não quisesse ver. Todas estas variadas personalidades: homens de negócios, parentes, conhecimentos, todas se mostravam, unanimemente, de uma grande amabilidade para com o moço herdeiro, todas estavam incontestável e evidentemente convencidas das suas altas qualidades. A cada passo ouvia estas palavras: «com a sua extraordinária bondade», ou então: «uma pessoa de coração tão excelente», ou: «o senhor, que tem uma tão bela alma, conde...», e outras coisas do mesmo género. E de tal maneira que, no fim de contas, principiou a acreditar’ sinceramente na sua extraordinária bondade, na sua extraordinária inteligência, tanto mais que no fundo do seu coração sempre se julgara muito bom e muito inteligente. Até mesmo as pessoas que anteriormente se tinham mostrado para com ele malévolas ou hostis agora eram todas ternura e amabilidade. A mais velha das princesas, aquela de alta estatura e cabelos lisos como os de uma boneca, que sempre se mostrara tão colérica, veio procurar Pedro depois dos funerais. De olhos baixos e muito corada, declarou-lhe que lastimava muito o que se tinha passado entre os dois e que não se sentia agora no direito de lhe pedir fosse o que fosse além da autorização, depois da desgraça que a atingira, de ficar ainda algumas semanas numa casa que tanto estimava e por que tanto se tinha sacrificado. Ao dizer estas palavras, não pôde conter-se e rompeu a soluçar. Muito comovido perante semelhante mudança numa pessoa habitualmente tão impassível como uma estátua. Pedro apertou-lhe a mão e pediu-lhe perdão, sem que ele próprio soubesse de quê. A partir desse dia, a princesa passou, a tricotar-lhe um cache-nez de riscas e tomou-se outra para ele.
- Faça isso por mim meu amigo; o certo é que ela passou muito por causa do defunto - dissera-lhe o príncipe Vassili, apresentando-lhe um papel a assinar para a princesa.
Vassili decidira lançar aquele osso à pobre princesa para ela roer, um título de crédito de trinta mil rublos. Era a maneira de evitar que lhe passasse pela cabeça dizer qualquer coisa a respeito da participação dele, príncipe Vassili, no negócio da pasta. Pedro endossou o título de crédito, e desde esse momento a princesa redobrou de atenções para com ele. As irmãs mais novas da princesa foram igualmente muito amáveis para com Pedro, especialmente a mais jovem e a mais bonita, a que tinha um sinalzinho na cara, e Pedro sentia-se muitas vezes perturbado com os sorrisos dela e a emoção que manifestava na sua presença.
A Pedro afigurava-se-lhe tão natural que toda a gente gostasse dele, ter-lhe-ia parecido tão contrário à natureza que alguém o não estimasse, que não podia deixar de acreditar na sinceridade das pessoas que o cercavam. Aliás, não tinha tempo de se interrogar a respeito da sua muita ou pouca sinceridade. Não tinha tempo para nada, sentia-se constantemente num estado de suave e alegre embriaguez. Percebia que era o centro de uma importante agitação de toda aquela gente; sentia que esperavam dele a todo o momento fosse o que fosse e que se ele não fizesse isto ou aquilo causaria com isso a aflição de muitos, privando-os do que eles esperavam, e que, se fizesse isto ou aquilo, tudo seria perfeito. Por isso fazia sempre o que esperavam dele, mas os bons resultados aguardados deixavam sempre a desejar.
Nos primeiros momentos foi o príncipe Vassili, mais do que ninguém, quem monopolizou os interesses de Pedro e a sua própria pessoa. A partir da morte do conde Bezukov, não o abandonou mais. Deu-se ares de alguém que está esmagado de trabalho, atarefado, até mais não poder, mas que, por compaixão, não pode entregar aos caprichos da sorte, abandonar aos ladrões, um adolescente indefeso, o filho do seu amigo acima de tudo, sobretudo com uma tão imensa fortuna. Durante os dias que passou em Moscovo depois do falecimento do conde convocou Pedro ou apresentou-se em casa dele para lhe prescrever o que devia fazer, tomando para isso um tom ao mesmo tempo de lassidão e de confiança que parecia dizer: «Bem sabe que estou cheio de trabalho e que é por mera caridade que eu me preocupo consigo, e além disso sabe bem que aquilo que eu lhe proponho é a única coisa viável.» - Bom, meu amigo, enfim, nós partimos amanhã - disse-lhe um dia, com os olhos semicerrados, dando-lhe pancadinhas amistosas no braço, no tom de quem dava a entender que o assunto de há muito fora decidido entre os dois e que não valia a pena falarem mais no caso. - Nós partimos amanhã, reservo-te um lugar no meu carro. Estou muito contente. Aqui todos os assuntos importantes estão arrumados. Por mim, há muito já que devia ter partido. Ah!, recebi resposta do chanceler. Tinha-a pedido para ti: foste nomeado para o corpo diplomático e és camarista da corte. Tens aberta a carreira diplomática.
Apesar do poder que sobre ele exercia o tom de lassidão e de confiança que acompanhava estas palavras. Pedro, que tanto pensava na sua carreira, teria querido fazer objecções. Mas o príncipe Vassili cortou-lhe o discurso naquele tom gorjeado de baixo que parecia excluir toda a possibilidade de o interromperem e que não costumava empregar senão nos casos em que era preciso dominar uma convicção.
- Mas, meu caro, eu tomei esta iniciativa por mim mesmo, para descanso da minha consciência e não tens nada que me agradecer. Nunca ninguém se queixou de ser querido de mais; e, depois, és livre, podes renunciar um dia a tudo isto. Tu verás, quando estiveres em Petersburgo. E já é tempo de te afastares destas horríveis recordações. - Vassili deu um suspiro. - Mas tudo está assente, meu filho. Deixa ir o meu criado no teu carro. Ah!, já me esquecia - acrescentou ainda- não sei se sabes, meu caro, que eu tinha umas contas em aberto com teu pai, por isso recebi umas pequenas rendas do domínio de Riazan e fiquei com elas: não precisas, não é verdade? Depois faremos contas.
Aquilo a que Vassili chamava umas «pequenas rendas do domínio de Riazan» eram, nada mais nada menos, que alguns milhares de rublos de rendas de servos, que metera na sua algibeira.
Em Petersburgo Pedro viu-se cercado pela mesma atmosfera de amabilidades e gentilezas que conhecera em Moscovo. Não pôde recusar o lugar, ou antes, o título, que lhe ofereciam, visto não o obrigarem a desempenhar qualquer função, e tantos foram os convites, as pessoas conhecidas, as obrigações mundanas a enfrentar, que, ainda mais do que em Moscovo, teve a impressão de estar mergulhado num nevoeiro, num turbilhão, sem que a ambicionada felicidade, que parecia aproximar-se a todo o momento, chegasse a tornar-se realidade. De entre os seus conhecidos celibatários muitos não se encontravam em Petersburgo. A Guarda estava em campanha. Dolokov tinha sido degradado. Anatole encontrava-se no exército, na província, o príncipe André, esse, fora para o estrangeiro. Eis porque Pedro não pôde passar as suas noites como antigamente gostava, nem lhe era possível aliviar, de tempos a tempos, o seu coração nas longas conversas com esse seu amigo mais velho, a quem tanto venerava. Passava todo o seu tempo em jantares, em bailes, principalmente em casa do príncipe Vassili, na companhia da gorda princesa, sua mulher, e da bela Helena.
Ana Pavlovna Scherer compartilhou, como todos os outros, da mudança de opinião da sociedade relativamente ao novo conde. Até aí. Pedro, na sua presença, tinha sempre a impressão de que o que dizia não era conveniente, carecia de tacto, não era o que se devia dizer, e os seus discursos, que a ele se lhe afiguravam sensatos quando os formulava para si próprio, tornavam-se estúpidos assim que os pronunciava em voz alta, enquanto, pelo contrário, as mais absurdas observações de Hipólito pareciam espirituosas e encantadoras. Agora tudo quanto ele dissesse, fosse o que fosse, imediatamente era considerado encantador. Se Ana Pavlovna lho não dizia. Pedro via ser isso mesmo que ela lhe queria dizer e que apenas se coibia de falar para lhe não ferir a modéstia.
No princípio do Inverno de 1805-1806. Pedro recebeu de Ana Pavlovna o habitual bilhete de convite cor-de-rosa, com o post scriptum: «Encontrará em minha casa a bela Helena, que nunca nos cansamos de ver.» Ao ler esta frase. Pedro, pela primeira vez, sentiu que entre ele e Helena se formava uma espécie de união reconhecida por todos, e esta ideia, ao mesmo tempo que o apavorava, como se lhe impusesse obrigações que ele não podia cumprir, também lhe dava um certo prazer, como que uma lisonjeira eventualidade.
O serão de Ana Pavlovna foi tal qual o primeiro, excepto na novidade com que ela brindou os seus convidados, que já não era Mortmart, mas um diplomata que chegara havia pouco de Berlim e trouxera as notícias mais frescas sobre a chegada do imperador Alexandre a Potsdam e sobre a energia com que os dois augustos amigos haviam jurado um ao outro estabelecer uma aliança indissolúvel para defender o direito contra o inimigo do género humano. Pedro foi acolhido por Ana Pavlovna com um matiz de tristeza, evidentemente alusão à perda recente que atingira o jovem, o falecimento do conde Bezukov - o certo é que toda a gente julgava dever seu mostrar a Pedro quanto sentia a morte de um pai que ele quase não chegara a conhecer uma tristeza profunda que se parecia muito com a que a sua expressão traduzia quando falava de sua augusta ama, a imperatriz Maria Feodorovna. Pedro sentiu-se extraordinariamente lisonjeado. Ana Pavlovna organizou, com a sua arte habitual, os grupos no salão. O principal, onde pontificava o príncipe Vassili e os generais, usufruía da presença do diplomata. Outro grupo se formou em volta de uma mesa de chá. Pedro teria gostado de reunir-se ao primeiro, mas Ana Pavlovna, que experimentava a, excitação de um grande general no campo de batalha quando lhe vem ao espírito uma infinidade de inspirações brilhantíssimas que não tem tempo de pôr em prática, tocou-lhe na manga assim que o viu aparecer.
- Espere, tenho cá as minhas ideias para si esta noite. - Lançou um olhar a Helena, sorrindo-lhe: - Minha boa Helena, precisa de ser caridosa para a minha pobre tia, que a adora. Vá fazer-lhe companhia dez minutos. E para que não se aborreça muito, aqui tem o querido conde, que não vai recusar, certamente, acompanhá-la.
A bela Helena foi ao encontro da tia, mas Ana Pavlovna conservou ainda Pedro ao pé dela, fingindo ter de lhe fazer umas últimas recomendações.
- Não é realmente encantadora? - disse ela para Pedro, mostrando-lhe aquela beleza de majestoso porte. - E que porte! Uma rapariga tão nova e com tamanho tacto, com uma tal perfeição de maneiras! Vem-lhe tudo do coração! Feliz do homem que a merecer! Com ela, o menos mundano dos maridos virá a ocupar, sem querer, a mais brilhante posição na sociedade! Não é verdade? Muito gostava que me dissesse a sua opinião e Ana Pavlovna pôs Pedro à vontade.
Pedro era inteiramente sincero ao concordar com Ana Pavlovna sobre a perfeição de maneiras de Helena. Se porventura lhe acontecia pensar nela era para apreciar a sua beleza e o seu extraordinário talento de conservar em sociedade uma atitude calma, silenciosa e digna..
A tia, no seu canto, acolheu os dois jovens, mas via-se bem que queria esconder a adoração que tinha por Helena e mostrar sobretudo o medo que lhe inspirava Ana Pavlovna. Interrogou a sobrinha com o olhar, como a perguntar-lhe qual a atitude que devia assumir. Ao deixá-los. Ana Pavlovna tocou de novo, ligeiramente, na manga e Pedro, dizendo-lhe: - Espero que não volte a dizer que as pessoas se aborrecem em minha casa. - Ao mesmo tempo olhava para Helena.
Esta teve esse sorriso que queria dizer não consentir fosse a quem fosse que a visse não ficar deslumbrado. A tia tossicou, engoliu a saliva e disse em francês que estava encantada de ver Helena, depois dirigiu a Pedro o mesmo cumprimento, tomando a mesma expressão. No decurso desta conversa, bem pouco interessante e com longas interrupções. Helena encarou Pedro dedicando-lhe aquele lindo sorriso sereno que tinha para toda agente. Pedro estava-lhe tão habituado, esse sorriso tinha para ele tão pouco significado, que lhe não prestou a mais pequena atenção. A tia falou então da colecção de caixas de rapé do falecido pai de Pedro, o conde Bezukov, e mostrou a sua própria caixa. Helena pediu-lhe que a deixasse ver o retrato do marido, que ornava a tampa.
- Deve ser obra de Vinesse - disse Pedro, citando o nome de um miniaturista célebre; debruçou-se sobre a mesa para pegar na caixa de rapé, sempre com o ouvido atento para o que se dizia na mesa vizinha.
Levantou-se para dar a volta à mesa, mas a tia passou-lhe directamente a caixa de rapé por detrás das costas de Helena. Esta inclinou-se para diante a fim de facilitar o movimento e voltou a cabeça, sorrindo. Vestia, como sempre que vinha a festas à noite, um vestido muito decotado, como se usava então, tanto à frente como atrás. O seu busto, cuja brancura lembrava a Pedro a alvura do mármore, estava tão perto dele que, apesar da sua má vista, podia observar-lhe perfeitamente a beleza dos ombros e do colo, e tão perto dos seus lábios que bastava inclinar-se um pouco para os aflorar. Sentia-lhe a tepidez do corpo, respirava-lhe os perfumes, ouvia-lhe o leve estalar do espartilho. E o que o atraía não era aquela beleza marmórea, que formava um todo com o vestido, mas o encanto desse corpo jovem que adivinhava por debaixo da toilette. E, desde que fizera esta descoberta, já lhe não era possível ver mais nada, pela mesma razão que já não somos capazes de aceitar um erro uma vez que o conheçamos.
«Com que então até agora ainda não tinhas reparado quanto eu era bonita?», parecia dizer-lhe Helena... «Ainda não tinhas visto que eu era uma mulher? É verdade, sou uma mulher, uma mulher que pode pertencer a qualquer, e a ti principalmente.» Era assim que o olhar dela lhe falava. E naquele momento Pedro sentiu não só que ela podia, mas que devia vir a ser sua mulher, e que não podia ser de outra maneira.
Estava tão persuadido disso como se naquele momento já se encontrassem os dois sob a coroa. Como e quando é que isso iria acontecer? Não sabia. Não podia dizer também se seria uma felicidade para ele; pressentia mesmo vagamente que podia vir a ser uma desgraça, mas sabia que tinha de ser assim.
Pedro baixou os olhos, depois voltou a erguê-los, e teria querido tornar a vê-la como uma beleza longínqua e estranha aos seus olhos, como a via todos os dias até então; mas já lhe não era possível. Não lhe era possível, como aquele que, tendo entrevisto, no meio do nevoeiro, uma erva seca das estepes, que tomou por uma árvore, depois disso não mais, quando voltar a vê-la, a tomará pelo que ela não é. Sentia-a terrivelmente próxima de si. Já tinha poder sobre ele. Entre os dois já não havia mais obstáculos além dos que aí introduzia a sua própria vontade, dele.
- Bom, deixo-o no seu cantinho. Vejo que esta aqui muito bem - disse Ana Pavlovna.
E Pedro, perguntando-se, de súbito, se não teria feito qualquer coisa de repreensível, olhou em volta de si, corando. Afigurava-se-lhe que toda a gente sabia, tão bem como ele, o que nele se estava a passar. Alguns momentos depois, ao aproximar-se do grupo principal. Ana Pavlovna disse-lhe: - Dizem que anda a embelezar a sua casa de Petersburgo.
Era verdade, com efeito. O arquitecto dissera-lhe ser isso necessário, e Pedro, sem mesmo saber porquê, tinha mandado arranjar a sua imensa casa de Petersburgo.
- Está bem, mas não se mude de casa do príncipe Basílio. É bom ter-se um amigo como o príncipe - disse ela com um sorriso para o príncipe Vassili... - Eu entendo alguma coisa disso. Não é verdade? E ainda é tão novo. Ainda precisa de conselhos. Não me leve a mal por eu usar dos meus direitos de velha.
Calou-se, como fazem sempre as mulheres quando aludem à sua própria idade, aguardando um cumprimento. «Mas, se se casar, então é diferente.» E abrangeu-os aos dois num mesmo olhar. Pedro não olhava para Helena. Mas esta continuava tremendamente próxima dele. Balbuciou qualquer coisa, corando.
De regresso a casa. Pedro levou tempo para adormecer, pensando no que lhe tinha acontecido. Que lhe tinha acontecido? Nada. Apenas percebia que aquela mulher que conhecera criança, de quem dizia, negligentemente: «Sim, é bonita» quando lhe falavam da sua beleza, que aquela mulher podia pertencer-lhe.
«Mas ela é estúpida, eu próprio já disse que ela é estúpida», dizia de si para consigo. «Portanto há qualquer coisa de baixo no sentimento que ela me inspira, qualquer coisa de proibido. Contaram-me que Anatole, o irmão, estava enamorado de Helena, e que ela própria gostava dele, que a este respeito havia uma grande história, e era por isso mesmo que tinham afastado Anatole. Seu outro irmão era o Hipólito, e o pai, o príncipe Vassili... Não, isto não está certo», concluía Pedro, e ao mesmo tempo que assim pensava, sem ir, de resto, até ao fundo do seu pensamento, surpreendia-se a sorrir e confessava a si próprio que uma outra série de raciocínios sobrenadava os primeiros, que ao mesmo tempo que cismava na nulidade de Helena pensava que ela podia vir a ser sua mulher, que a podia amar, que ela era, talvez, muito diferente, e que tudo o que ele pensava dela, tudo que se dizia dela, era mentira. E então entrevia, de novo, não uma filha qualquer do príncipe Vassili, mas a mulher senhora daquele corpo e daquele vestido. «E, então, como é que se explica que tais ideias me não tenham vindo ao espírito?» E de novo voltava a dizer para si mesmo que isso seria impossível; havia qualquer coisa de sujo, de antinatural, afigurava-se-lhe, qualquer coisa de desonesto naquele casamento. Recordava-se das frases que Helena pronunciava, dos seus olhares e das suas maneiras, e dos olhares daqueles que os viam juntos. Lembrava-se das palavras e dos olhares de Ana Pavlovna quando lhe falava da casa de Petersburgo, de mil outras alusões tanto do príncipe Vassili como de muitos outros, e sentiu-se aterrorizado ao pensar que de qualquer maneira já se havia comprometido a cumprir um acto que evidentemente não estava certo e não devia fazer. Mas no mesmo momento em que a si próprio impunha esta resolução, noutro recanto do seu coração representava-se-lhe a imagem de Helena em toda a sua esplendente beleza de mulher.
Em Novembro de 1805 o príncipe Vassili teve um serviço de inspecção a quatro províncias. Assim arranjara as coisas para poder visitar os seus domínios, então no maior abandono. De caminho tencionava passar pela cidade da guarnição de seu filho Anatole para o levar consigo a casa do príncipe Nicolau Andreitch B91konski, na esperança de conseguir casá-lo com a filha desse riquíssimo proprietário. Mas antes de partir e de pôr em prática esta sua nova intriga, desejava arrumar o caso de Pedro, que, em verdade, nesses últimos tempos passava os dias junto dele, vivendo, inclusivamente, sob o mesmo tecto, ridículo, comovido e estúpido, coisa corrente entre os namorados, na presença de Helena, sem que por isso se decidisse pela esperada declaração.
- Tudo isto está muito bem, mas é preciso que acabe! - murmurava o príncipe, uma bela manhã, soltando um fundo suspiro. Tinha de reconhecer que Pedro, que tantas obrigações lhe devia - Deus o abençoasse! - não estava a proceder bem naquele caso. «Sim, a mocidade, a frivolidade... Bom, que Deus o abençoe!», pensava, verificando com satisfação quão grande era a sua indulgência. «Mas é preciso que isto acabe. Depois de amanhã é o aniversário da Helena. Vou convidar algumas pessoas, e se ele não perceber que deve tomar uma atitude então eu me encarregarei disso. Sim, sou eu quem deve agir. O pai dele sou eu!» Pedro, mês e meio após a recepção em casa de Ana Pavlovna, e depois da noite desassossegada e de insónia que se lhe seguira, durante a qual concluíra que aquele casamento seria uma infelicidade e que o que tinha a fazer era retirar-se, continuara em casa do príncipe Vasssili, embora compreendesse, aflito, que de dia para dia, aos olhos do mundo, mais ligado parecia a Helena, que não podia voltar a sentir por ela o que sentia antes, que já não queria separar-se dela, que seria horrível, mas que teria de ligar ao dela o seu destino. Talvez ainda fosse a tempo de se retirar, mas não se passava um dia sem que o príncipe Vassili, que habitualmente não costumava receber, desse uma festa, a que Pedro se sentia na obrigação de assistir, incapaz de fazer o papel de desmancha-prazeres, desiludindo a expectativa geral.
O príncipe, nos raros momentos em que estava em casa, ao passar junto de Pedro, apertava-lhe a mão, dava-lhe a beijar distraidamente a face enrugada, escanhoada de fresco, dizendo-lhe: «Até amanhã», ou então: «Vem jantar, que é a única maneira de eu te poder ver», ou ainda: «Fico em casa exclusivamente por tua causa», e outras coisas no mesmo género. Mas, embora o príncipe, que ficara em casa exclusivamente por causa do Pedro, como dava a entender, não trocasse duas palavras com ele, este não se sentia com coragem de o desapontar. Todos os dias repetia para si mesmo as mesmas palavras: «O que é preciso, no fim de contas, é que eu a compreenda, e me capacite do que ela é. Mas quando estava eu enganado: antes ou agora? Não. Ela não é estúpida; é uma rapariga encantadora!», dizia, de si para consigo, às vezes... «Erros grosseiros não os pratica, não diz nada estúpido. Fala pouco, mas o que diz é digno, simples e decente. Sim, não se pode dizer que seja estúpida. Nunca teve complicações, nunca as terá. Por consequência não é o que se chama uma mulher má!» Por vezes, acontecia-lhe formular um raciocínio diante dela, pensar em voz alta; sempre ela lhe respondia com uma observação breve, mas a propósito, que significava isso não lhe interessar, ou com um sorriso silencioso, um piscar de olhos, operações em que mostrava, subtilmente, a sua superioridade sobre ele. Não lhe faltavam motivos para considerar pueris todos os raciocínios do mundo quando comparados ao seu próprio sorriso.
Dirigia-se-lhe sempre com um sorriso divertido, confiante, especial, em que havia alguma coisa mais do que no sorriso que lhe andava sempre nos lábios para uso de toda a gente. Pedro sabia que todos aguardavam que ele dissesse enfim alguma coisa, que transpusesse determinado limite, estava certo de que, mais tarde ou mais cedo, o transporia, mas sempre que pensava nesse terrível passo apoderava-se dele um terror incompreensível. Centenas de vezes no decurso desse mês e meio, durante o qual, de dia para dia, se ia vendo mais arrastado para esse abismo pavoroso. Pedro dissera consigo mesmo: «Que significa isto? Decisão! Quando terei eu decisão?» Queria decidir-se, mas sentia, com espanto, que no caso presente lhe faltava aquela resolução que ele não ignorava ter em si e que realmente possuía. Pedro era uma dessas criaturas somente fortes quando sentem a consciência completamente pura. E a verdade é que desde que se sentira possuído pelo desejo, desde aquele momento em que olhara para a caixa de rapé, em casa de Ana Pavlovna, a malícia inconfessada dos seus sentimentos paralisava-lhe os esforços da decisão, No dia do aniversário de Helena, o príncipe Vassili apenas convidara para cear um pequeno numero de íntimos, como dizia a princesa, isto é, parentes e amigos. Fora dado a entender a esses parentes e amigos dever decidir-se naquela noite o destino da festejada. Os convidados sentaram-se à mesa para a ceia. A princesa Kuraguine, mulher maciça, que fora bela e era muito representativa, ocupava o lugar da dona da casa. A sua direita e à sua esquerda distribuíam-se os convidados de maior respeitabilidade, um velho general, a mulher e Ana Pavlovna Scherer: na extremidade da mesa sentavam-se as pessoas menos idosas e menos importantes, além da gente da casa. Pedro e Helena estavam juntos. O príncipe Vassili não participava do repasto. Ia e vinha em volta da mesa, muito bem disposto, sentando-se agora ao pé deste, logo ao pé daquele. A todos dizia, negligentemente, qualquer palavra amável, excepto a Pedro e a Helena, cuja presença, dir-se-ia, lhe passava despercebida. Animava toda a gente. As velas davam uma luz alegre; as pratas e os cristais esplendiam, bem como os vestidos das senhoras e o ouro e a prata das dragronas; em volta da mesa giravam os criados, de cafetã vermelho; o tinir das facas, dos copos, dos pratos, misturava-se ao ruído das conversas cheias de animação. Ouvia-se, a uma das cabeceiras da mesa, um idoso camarista garantir a uma velha baronesa que sentia por ela um apaixonado amor, e ela ria; na outra cabeceira contavam-se anedotas sobre os dissabores de uma tal Maria Victorovna. Ao centro, rodeava o príncipe Vassili um grupo de auditores. Contava ele às senhoras, num tom divertido, a última sessão, a de quarta-feira, do Conselho do Império, consagrada à recepção e à leitura, por Sérgio Kuzmitch Viazmitinov, o novo general governador militar de Petersburgo, do rescrito famoso do imperador Alexandre Pavlovitch, remetido da frente de batalha, em que o soberano, dirigindo-se a essa personalidade, dizia receber de toda a parte testemunhos da devoção do povo, e que o de Petersburgo, esse lhe era particularmente agradável, e que se sentia orgulhoso de se encontrar à frente dos destinos de uma tal nação, fazendo por ser digno dessa honra. O rescrito abria com estas palavras: «Sérgio Kuzmitch! Vindos de todos os lados, chegam até mim os ecos, etc.» - Com que então não pôde ir além de «Sérgio Kuzmitch»? - inquiriu uma senhora.
- É verdade, é verdade, nem mais uma sílaba - respondeu o príncipe, rindo. - «Sérgio Kuzmitch.... Vindos de todos os lados... De todos os lados. Sérgio Kuzmitch...» O pobre Viazmitinov, decididamente, não pôde dizer mais. Várias vezes tentou recomeçar a leitura, mas assim que dizia: «Sérgio», logo rompia em soluços... Kuz.., mitch.., e mais lágrimas... Em «vindos de todos os lados» sufoca e não pode continuar. E puxa do lenço e volta a ler: «Sérgio Kuzmitch, vindos de todos os lados... », e lá surgiam de novo as lágrimas... De tal modo que teve de pedir a outro que tomasse o seu lugar.
- Kuzmitch.., vindos de todos os lados.., e mais lágrimas... - repetiu um dos convivas, rindo também.
- Não seja mau - murmurou Ana Pavlovna, ameaçando-o com o dedo, lá da outra cabeceira da mesa -, é um valente e excelente homem, o nosso bom Viazmitinoff...
Todos riam a bom rir. Ao fundo da mesa toda a gente parecia muito animada, pelos mais diversos motivos. Só Pedro e Helena continuavam calados, lado a lado, no seu lugar. Ambos tinham um sorriso radioso, em nada relacionado com Sérgio Kuzmitch, um sorriso em que se denunciavam os seus íntimos sentimentos. Conversava-se, ria-se, gracejava-se, comia-se com apetite, saboreava-se o vinho do Reno, o sauté, os sorvetes, e todos evitavam olhar para aquele par, afectando indiferença, não lhe prestando atenção. Ressaltava, porém, dos olhares que de vez em quando lhe lançavam, que a anedota relativa a Sérgio Kuzmitch, os risos, o repasto, tudo era fingimento, e que a atenção de toda a gente apenas estava concentrada num ponto, no par Pedro e Helena. O príncipe Vassili, enquanto ia macaqueando as choraminguices de Sérgio Kuzmitch, envolvia a filha num olhar e, ao engasgar-se, no seu rosto lia-se claramente: «Sim, sim, tudo vai bem: hoje vai decidir-se tudo.» Ana Pavlovna ameaçava-o amistosamente por causa do nosso bom Viazmitinoff, e nos seus olhos, que dardejavam sobre Pedro furtivos olhares, lia Vassili votos de felicidade para o futuro genro e a filha. A velha princesa, enquanto oferecia vinho à vizinha, suspirava, olhando a filha com irritação, e os seu suspiros queriam dizer: «Sim, sim, minha querida, a nós nada nos resta que beber vinho doce; agora é a vez de a mocidade se mostrar feliz.» - «Oh, que estúpidas coisas eu estou para aqui a dizer! Como se isto me pudesse interessar», pensava um diplomata ao olhar para a radiosa face dos namorados. «Aquilo, sim, é a verdadeira felicidade!» No meio da vulgaridade de todas aquelas preocupações mesquinhas e artificiais vinham subitamente à luz os sentimentos elementares de dois jovens belos e saudáveis, atraídos um para o outro. Estes sentimentos puramente humanos abafavam todos os demais, pairando acima de toda aquela tagarelice convencional. Os gracejos perdiam o sal, as novidades o interesse, toda a animação parecia factícia. Não só os convidados, mas até os próprios lacaios que serviam à mesa pareciam sob a mesma influência, esquecendo os preceitos da etiqueta, a olhar para a bela Helena e o seu rosto resplandecente e para a grossa e rubicunda fisionomia de Pedro, onde ao mesmo tempo havia inquietação e alegria. Inclusivamente, dir-se-ia que a luz das velas estava ali para iluminar apenas aquelas duas venturosas criaturas.
Pedro percebia ser o ponto de mira de toda a gente e isso dava-lhe ao mesmo tempo satisfação e embaraço. Estava com o ar de um homem concentrado a fazer qualquer coisa. Nada via com nitidez, não compreendia nem ouvia ninguém. Apenas, por momentos, de improviso, pedaços de impressões ou de pensamentos vindos do real lhe atravessavam o espírito.
«Ora aí está o que eu esperava! », dizia ele de si para consigo... «E como é que isto aconteceu? E tão depressa? Vejo agora que não é só por ela, mas por todos eles, que tudo isto, inevitavelmente, tem de se dar. Todos tão claramente esperam isto, estão todos tão convencidos de que isto tem de acontecer, que eu não posso, que eu realmente não os posso desiludir. Como é que se irão passar as coisas? Não sei. Mas a verdade é que isto se vai dar, isto vai-se dar com certeza!» E estas reflexões perpassavam pelo espírito de Pedro enquanto fitava os belos ombros resplandecentes ali tão perto de si.
De súbito sentia-se tomado de uma espécie de vergonha. Incomodava-o a ideia de monopolizar a atenção de toda a gente, de aos olhos dos outros se apresentar como um rapaz feliz, de, com a sua cara feia, ser uma espécie de Paris conquistador da bela Helena. «Mas é provável que seja sempre assim e que assim tenha de ser», consolava-se a si próprio... «De resto, que fiz eu para que assim seja? Quando é que isto principiou? Vim de Moscovo com o príncipe Vassili. Então ainda nada havia. E, depois, teria eu qualquer motivo para me não hospedar em casa dele? Em seguida joguei as cartas com ela, apanhei-lhe o saquinho, passeámos os dois de carruagem. Quando principiou isto então? Quando é que isto aconteceu?» E ei-lo agora sentado ao lado dela como noivo; escuta-a, vê-a, sente-lhe a presença, respira-lhe o hálito, espia-lhe os movimentos, admira-lhe a beleza. De súbito afigura-se-lhe que não é ela, mas ele, que quem é de uma beleza extraordinária é ele e é essa a razão por que o estão a olhar e, feliz com aquela geral admiração, arqueia o peito, ergue a cabeça, todo ele respira a alegria de tamanha felicidade. Uma voz, a voz de alguém que ele conhece, ressoa e repete-lhe a mesma coisa muitas vezes; mas tão absorto está que não compreende o que lhe dizem.
- Estou a perguntar-te se recebeste uma carta de Bolkonski - repetiu pela terceira vez o príncipe Vassili - Que distraído és, meu rapaz! O príncipe sorri, e Pedro vê que todos os demais lhe sorriem, a ele e a Helena. «Afinal, visto que vocês estão todos ao corrente», dizia Pedro para si próprio. «Que importa, se é a verdade?» E ele próprio sorri, com o seu suave sorriso infantil, e Helena sorri também.
- Não recebeste uma carta? De Olmütz? - voltou mais uma vez o príncipe, que parecia necessitar dessa informação para resolver um problema.
«Como é que há alguém capaz de falar e de preocupar-se com semelhantes tolices?», disse Pedro de si para consigo. - Sim, de Olmütz - replicou num suspiro.
Depois da ceia. Pedro, na esteira dos demais, conduziu o seu par ao salão. Os convidados principiaram a dispersar, e alguns deles partiram sem dizerem adeus a Helena. Como se não quisessem distraí-la das suas graves ocupações, alguns aproximaram-se dela um momento e despediram-se proibindo-a de os acompanhar. O diplomata, ao sair do salão, ia calado e aflito. Representava-se-lhe toda a futilidade da sua carreira ao pé da ventura de Pedro. O velho general rouquejou algumas palavras coléricas para a mulher, que lhe perguntava como se sentia ele da perna. «Eh, velha tonta!», pensava, «olha para a Helena Vassilievna, aquela, aos cinquenta anos, ainda há-de ser uma beleza de mulher! » - Creio que posso tomar a liberdade de os felicitar - murmurou Ana Pavlovna, dirigindo-se à princesa-mãe, e abraçando-a efusivamente. - Se não fosse a minha enxaqueca, ficava mais um bocadinho.
A princesa não respondeu; estava a invejar a felicidade da filha.
Pedro, enquanto reconduziam os convidados, ficou por muito tempo só com Helena no salão pequeno. Naquele último mês várias vezes ficara sozinho com ela, mas nunca lhe falara de amor. Agora sentia isso indispensável, e não era capaz de se decidir a dar esse último passo. Tinha vergonha; afigurava-se-lhe ocupar, junto de Helena, um lugar que pertencia a outro. «Esta felicidade não é para ti», dizia-lhe uma voz íntima. «É urna felicidade para quem não tem o que tu tens em ti.» Mas era preciso dizer alguma coisa, e Pedro falou. Perguntou-lhe se ela tinha gostado da noite. Como sempre. Helena respondeu-lhe, com a sua habitual candura, que o dia do seu aniversário era sempre, para ela, o mais agradável do ano.
Ficaram ainda alguns parentes chegados. Estavam no grande salão. O príncipe Vassili aproximou-se de Pedro, no seu passo indolente. Pedro levantou-se e disse que era tarde. O príncipe lançou-lhe um olhar interrogativo, severo, como se o que ele acabava de dizer fosse tão estranho que melhor seria não o ter ouvido. Mas imediatamente esse ar severo se dissipou e o príncipe apertou-lhe a mão, obrigou-o a sentar-se, sorriu-lhe amavelmente.
- Então. Helena? - disse ele para a filha, nesse tom habitual de agradável ternura que os pais costumam adoptar para com os filhos amimados desde crianças e que o príncipe Vassili só imitando os outros pais conseguira reproduzir.
E voltou-se de novo para Pedro.
- «Sérgio Kuzmitch, vindos de todos os lados... » - recitou, desabotoando a parte alta do colete.
Pedro sorriu, mas o seu sorriso dizia claramente que compreendia não ser a anedota de Sérgio Kuzmitch que naquele mo- mento interessava o príncipe, e o próprio príncipe compreendeu que Pedro se não enganava. De súbito, rosnou qualquer coisa e saiu. Pedro percebeu que o príncipe estava comovido. A emoção desse homem mundano perturbou-o; fitou Helena, que também parecia emocionada, e lhe disse com o olhar: «Então, a culpa é sua!» «É preciso, é indispensável que eu dê este passo, mas não posso, não posso», pensava Pedro, e de novo se pós a falar de coisas sem importância, de Sérgio Kuzmitch, perguntando em que é que consistia, afinal, a anedota que ele não tinha percebido. Helena respondeu-lhe sorrindo que também ela lhe não sabia explicar.
Quando o príncipe Vassili penetrou no grande salão, a princesa falava de Pedro com uma senhora de idade.
- Evidentemente, é um brilhante partido, mas a felicidade, minha querida...
- Os casamentos no Céu se fazem - replicava a senhora de idade.
O príncipe, como se não tivesse ouvido a conversa, encaminhou-se para o recanto mais afastado e sentou-se num divã. Fechou os olhos, parecia dormitar. A cabeça principiou a pender-lhe para diante, mas subitamente despertou.
- Aline - disse para a mulher -, vai ver o que eles estão a fazer.
A princesa encaminhou-se para a porta, estendeu a cabeça com o ar mais indiferente deste mundo e espreitou para dentro do pequeno salão. Pedro e Helena ainda lá estavam e conversavam.
- A mesma coisa - disse ela para o marido.
O príncipe Vassili franziu as sobrancelhas, fez um ricto com a boca, pelas faces perpassou-lhe um movimento nervoso, enquanto assumia um ar contrariado e duro, muito seu; sacudiu-se, levantou-se, atirou a cabeça para trás, e num passo decidido, passando diante das senhoras, penetrou no pequeno salão. Dirigiu-se a Pedro, num passo rápido, afivelando uma máscara prazenteira. No seu rosto havia uma expressão tão particularmente solene que Pedro se ergueu, assustado, assim que o viu.
- Louvado seja Deus! - exclamou o príncipe. - Minha mulher contou-me tudo! - e com um dos braços enlaçou Pedro e com o outro a filha. - Helena, minha querida filha! Sinto-me muito, muito feliz. - A voz tremia-lhe de emoção.- Fui muito amigo de teu pai.., e ela será para ti uma excelente esposa.. Que Deus vos abençoe!...
Beijou a filha e depois Pedro, exalando o seu mau hálito. Corriam-lhe pelo rosto lágrimas sinceras.
- Princesa, venha cá! - gritou.
A princesa assomou à porta, toda lavada em lágrimas também. A senhora idosa também enxugava os olhos com o lencinho. Ambas abraçaram Pedro, e ele, pelo seu lado, e por várias vezes, beijou a mão da bela Helena. Pouco depois, voltaram a deixá-los sós de novo.
«Tudo isto tinha de ser assim mesmo, e não podia ser de outra maneira», dizia Pedro consigo; «não vale a pena, por isso mesmo, que uma pessoa se pergunte se está bem ou mal. Está bem, visto ser um caso arrumado e terem deixado de persistir as dúvidas angustiosas que existiam.» Segurava na sua, sem dizer nada, a mão da noiva e tinha os olhos fitos no seu belo colo, que arfava, lentamente.
- Helena - disse de chofre, e calou-se.
«É costume dizer qualquer coisa especial num caso destes», pensou; mas não foi capaz de se lembrar com precisão o que se costumava dizer em tais circunstâncias. Olhou-a bem de frente. Helena aproximou-se dele. Corou.
- Ah, tire, tire.., sim, isso - disse ela, apontando-lhe para as lunetas.
Pedro tirou as lunetas, e nos seus olhos, além do olhar estranho que têm as pupilas das pessoas habituadas a lentes, houve uma expressão assustada e interrogativa. Quis inclinar-se para lhe beijar a mão, mas ela, graças a um movimento rápido e quase brutal, fez com que os lábios de Pedro, de passagem, encontrassem os dela. E a sua fisionomia completamente transformada, quase cínica, impressionou Pedro desagradavelmente.
«Agora é tarde, tudo acabou, e, de resto, eu gosto dela», disse ele de si para consigo.
- Amo-a! - murmurou, lembrando-se do que era conveniente dizer-se em casos tais; mas as suas palavras ressoaram tão infelizes que ele se sentiu envergonhado.
Seis semanas depois estava casado, e era o feliz possuidor, como diziam, de uma bela mulher e muitos milhões, e foi instalar-se no grande e belo palácio, todo arranjado de novo, dos condes Bezukov em Petersburgo.