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Guerra e Paz
(volume ii - Primeira parte)

Leon Tolstoi

Capítulo I

- Os princípios de 1806. Nicolau Rostov veio a casa em gozo de licença. Denissov também regressava a Voroneje e Rostov conseguira persuadi-lo a acompanhá-lo até Moscovo e a hospedar-se em casa dos seus. Na antepenúltima muda, para festejar o encontro com o seu camarada. Rostov despejara duas ou três garrafas na companhia do amigo. As portas da capital, apesar dos barrancos da estrada, estendido ao comprido no fundo do trenó de posta. Denissov continuava a dormir, enquanto Rostov, à medida que se aproximava do seu destino, se mostrava mais e mais impaciente.

«Estaremos lá não tarda nada! Estaremos lá não tarda nada! Oh, estas ruas insuportáveis, estas lojas, estes calatch (Pão que é uma especialidade de Moscovo. (N, dos T.), estes revérberos, estes izvochtchiks (Carro de praça, (N, dos T.)» ia ele dizendo para consigo mesmo quando, nas barreiras, lhe verificaram a licença e entraram finalmente em Moscovo.

- Denissov, cá estamos! Ainda dormes? - gritou, lançando instintivamente o corpo para avante, como se assim esperasse acelerar a marcha do trenó.

Denissov não respondeu.

- Olha a encruzilhada onde costuma estar Zakar, o cocheiro: e lá está ele, o Zakar, sempre com o mesmo cavalo. E aqui está a lojinha onde nós costumávamos comprar o prianiki! (Guloseima feita de amêndoas. (N, dos T.) Avia-te! Hem! - Qual é a casa? - perguntou o postilhão.

- Lá adiante, ao fundo, a grande, não vês? Aquela é que é a nossa casa! Denissov! Estamos a chegar.

Denissov ergueu o pescoço, tossicou e não disse palavra. - Dimitri - gritou Rostov para o lacaio sentado ao lado do postilhão - Há luz na nossa casa? - Sim, senhor, está iluminado o gabinete do papa.

- Ainda não teria ido para, a cama? Hem! Que te parece? Olha o que te digo, não te esqueças de tirar já da mala a minha nova samarra húngara - acrescentou, cofiando o bigodinho novo. - Avia-te, anda, mais depressa! - gritou para o postilhão. - Eh!, acordas ou não. Vássia? - disse, sacudindo Denissov, que voltara a adormecer. - Vamos, francamente! Tens três rublos para vodka, francamente! - prosseguia, e já poucas casas o separavam da sua. Afigurava-se-lhe que os cavalos não saíam do mesmo sítio. Finalmente, o trenó voltou à direita, em direcção à entrada. Rostov viu a cornija tão sua conhecida, com o seu gesso esborcinado, os degraus da entrada, o marco do passeio. Saltou do trenó em andamento e correu para a porta. A casa lá estava, imóvel, pouco hospitaleira, como que absolutamente alheia àquele que acabava de chegar. No vestíbulo ninguém. Ah! Deus meti, terá acontecido alguma, coisa?», pensou Rostov. Deteve-se alguns instantes, o coração apertado, e logo continuou a correr através do corredor e das escadas tão suas conhecidas, de degraus irregulares. Lá estava o mesmo puxador na porta, cuja sordidez irritava a condessa. Continuava a abrir-se corri a mesma facilidade de outros tempos. Na antecâmara estava uma candeia acesa. O velho Mikailo dormia deitado em cima de uma arca. Prokofi, o lacaio, tão forte que era capaz de erguer um carro pelo rodado traseiro, estava a entrançar orlas de laptis (Calças dos mujiques. (N, dos T.). Voltou-se quando a porta se abriu e imediatamente o seu, ar sonolento e indiferente se converteu em susto, num susto a que vinha misturar-se uma certa alegria, - Ah! Deus do Céu! O condezinho! - exclamou, ao reconhecer o menino. - Que aconteceu? Meu querido menino! - E Prokofi, todo trémulo, precipitou-se para a porta do salão, naturalmente para anunciar o acontecimento, mas, reflectindo, voltou atrás e deixou-se cair contra o ombro do seu amo.

- Está tudo bem? - perguntou Rostov, soltando os braços, - Graças a Deus! Está tudo bem! Acabaram agora mesmo de jantar. Deixa-me olhar-te. Excelência! - Está tudo mesmo bem? - Está, está, graças a Deus! Rostov, que se esquecera por completo de Denissov, sem querer que ninguém o anunciasse, atirou a peliça, e em bicos de pés correu para o salão grande, às escuras. Tudo estava como dantes: as mesmas mesas de jogo, os mesmos lustres enfiados nas mesmas camisas. O jovem já fora pressentido em casa, e mal entrara no salão uma porta lateral abrira-se e a família rompeu com fragor, caindo sobre ele aos abraços e aos beijos. Depois, por outras portas, veio chegando mais gente; e houve abraços, beijos, exclamações, lágrimas de alegria. Rostov não era capaz de saber quem era o pai, quem era Natacha, quem era Pétia. Todos gritavam, falavam e o abraçavam ao mesmo tempo. Só uma pessoa faltava: a mãe. Rostov deu por isso.

- Eu não sabia... Nikoluehka.., meu querido! - Aí está ele.., o nosso.., o meu amigo Kólia... Como estás mudado! Luz! Sirvam o chá! - Dá cá um beijo! - E a mim também, queridinho! Sónia. Natacha. Pétia. Ana Mikailovna. Vera, o velho conde, o apertavam contra o peito. Os criados, as criadas de quarto, que enchiam o salão, todos falavam ao mesmo tempo, soltando exclamações.

Pétia dependurava-se-lhe nas pernas.

- E eu! - clamava ele.

Natacha beijocava-o, depois puxava-o para si, beijava-o por toda a cara, agarrava-se-lhe às abas do dólman, dava cabriolas e despedia gritos agudos.

Só se viam lágrimas de alegria, olhares cheios de ternura; só se ouviam beijos.

Sónia, vermelha como kumatch (Tecido vermelho de camisas. (N, dos. T.), enfiara-lhe o braço, e toda ela era- plenitude, uma plenitude que lhe subia aos olhos felizes, sempre à procura dos de Rostov. Já fizera dezasseis anos e era muito bonita, sobretudo naquele momento em que a alegria se lhe estampava no rosto. Olhava para Rostov e não podia apartar dele os olhos, toda sorridente, como que sufocada de felicidade. Rostov estava-lhe muito reconhecido, mas não deixava de esperar e de procurar fosse quem fosse. A velha condessa ainda não aparecera. E eis que se ouvem passos junto à porta. Eram tão rápidos que não acreditava que pudessem ser de sua mãe.

Mas era, era ela, era ela com um vestido novo que ele nunca lhe vira, um vestido que mandara fazer na sua ausência. Todo, se afastaram, e Rostov correu para ela. Uma vez um ao pé do outro, a mãe deixou-se cair contra o peito do filho, rompendo em soluços. Sem forças para levantar a cabeça, escondia a cara nos frios alamares do dólman.

Denissov, de que ninguém ainda se apercebera, entrara e detivera-se a olhar para toda aquela gente, esfregando os olhos.

- Vassili Denissov, um amigo do Nicolau! - exclamou, apresentando-se ao conde, que o interrogava com os olhos.

- Bem-vindo seja! Bem sei, bem sei! - disse o conde, apertando Denissov nos seus braços e dando-lhe um beijo. - O Nikoluchka avisou-me... Natacha. Vera, cá está ele, é o Denissov.

As mesmas caras juvenis, felizes e cheias de vida precipitaram-se sobre a hirsuta figura de Denissov, rodeando-o.

- Meu querido Denissov! - exclamou Natacha, que, não podendo refrear o seu entusiasmo, foi para ele, pegou-lhe nos braços e pôs-se a beijá-lo. Toda a gente se sentiu embaraçada com aquela atitude de Natacha. O próprio Denissov corou, mas, sorrindo, tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios.

Conduziram Denissov ao aposento preparado para ele, e toda a família Rostov se reuniu no quarto do divã à volta de Nikoluchka.

A velha condessa, sem abandonar a mão do filho, que a cada momento levava aos lábios, sentou-se a seu lado. Os demais, to- dos em volta, bebiam-lhe cada um dos seus gestos, cada uma das suas palavras, cada um dos seus olhares, não deixando de o fixar com olhos amorosos e extasiados. O irmão e as irmãs debatiam-se, roubando-se mutuamente os lugares mais próximos, e lutavam uns com os outros para lhe apresentarem a xícara de chá, o lenço, o cachimbo.

Rostov sentia-se muito feliz com todas estas demonstrações de afecto; mas os primeiros momentos após o seu regresso haviam-no tornado tão feliz que a alegria que sentia agora era pouca coisa e continuava à espera, esperava sempre, uma felicidade maior.

No dia seguinte os viajantes, fatigados da viagem, não se levantaram antes das dez horas.

No quarto contíguo ao deles viam-se, a monte, os sabres, as m,)chilas, as cartucheiras, as malas abertas, as botas enlameadas. Dois pares de botas, com as respectivas esporas, depois de engraxadas, acabavam de ser alinhadas junto à parede. Criados traziam bacias de mãos, água quente para a barba e roupas limpas. Havia no ambiente um cheiro a tabaco e a utensílios militares.

- Eh! Grichka, o meu cachimbo! - gritou Vassili Denissov com voz rouca.- Rostov, levanta-te! Rostov, esfregando os olhos pegados pelo sono, ergueu a cabeça hirsuta da macia almofada.

- Que aconteceu? Já é tarde? - É. Já deram dez horas - respondeu a voz de Natacha, e no quarto contíguo ouviu-se um roçagar de vestidos engomados, um segredar e risos de raparigas; através da porta entreaberta surgiu qualquer coisa azul, fitas, cabelos pretos e caras joviais. Eram Natacha. Sónia e Pétia, que vinham espreitar para ver se ele estaria levantado.

- Nikolenka, a pé! - ouviu-se da porta a voz de Natacha.

- É já! Entretanto. Pétia, que no quarto contíguo descobrira os sabres e se apropriara de um deles, cheio daquele entusiasmo tão próprio dos rapazes mais novos diante do aparato bélico de um irmão mais velho, esquecendo-se de que não era decente para as irmãs ver homens em trajos menores, abriu a porta.

- É o teu sabre? - gritou.

As meninas deram um salto à retaguarda. Denissov, assustado, tratou de esconder as pernas debaixo da colcha, lançando um olhar aflito ao camarada. A porta deixou passar Pétia, depois voltou a fechar-se. Atrás dela ouviam-se risos.

- Nikolenka, veste o teu roupão - disse Natacha.

- É o teu sabre? - repetiu Pétia. - Ou é o seu? - acrescentou, com profunda veneração, dirigindo-se à espessa bigodeira preta de Denissov.

Rostov calçou-se à pressa, enfiou um roupão e apareceu à porta. Natacha já tinha enfiado uma das botas de esporas e tratava de se introduzir dentro da outra. Sónia girava sobre os tacões, fazia inchar o balão da saia e ia acocorar-se naquele momento. Estavam ambas de azul e com os vestidos do mesmo feitio, que eram novos, muito rosadas, frescas e risonhas. Sónia fugiu, e Natacha, enfiando o braço no do irmão, levou-o para o quarto do divã, onde se puseram a tagarelar. Ainda não tinham tido tempo de perguntar um ao outro essas mil pequenas coisas que só a eles interessavam. Natacha ria a cada palavra que trocavam, não porque fosse para rir o que diziam, mas apenas por se sentir alegre e lhe não ser possível reprimir essa transbordante alegria, - Ah! Que bom que é! - dizia ela a cada momento. Rostov, graças àqueles calorosos eflúvios de ternura, sentia pela primeira vez de há um ano para cá desabrochar-se-lhe no coração e na cara aquele riso infantil que o abandonara por completo desde que saíra de casa.

- Agora, ouve - dizia ela -, agora és um verdadeiro homem, não é assim? Nem sabes como eu estou contente por seres meu irmão. - Puxou-lhe pelos bigodes. - Ah! Como eu gostava de vos conhecer bem a vocês, homens. Diz-me cá, parecem-se connosco? Hem? - Porque é que a Sónia se esgueirou? - perguntou Rostov.

- Oh! Há muito que dizer a esse respeito. E, conta-me lá, como é que a vais tratar? Vais tratá-la por tu ou por senhora? - É como calhar.

- Não a trates por tu, peço-te, depois te direi porquê.

- Mas porquê? - Bom, vou dizer-te porquê. Tu sabes que a Sónia é minha amiga, uma amiga por quem eu seria capaz de queimar um braço. Olha, queres ver? Natacha arregaçou a manga de musselina e mostrou, debaixo do braço delgado, magricela e mole, junto ao ombro, num ponto ordinariamente escondido pelos próprios vestidos de baile, um sinal vermelho.

- Fui eu que me queimei para lhe provar a minha amizade. Aqueci uma régua no fogão e cheguei-a aqui.

Sentado num divã cheio de almofadas na antiga sala de estudo, diante de si os olhos extraordinariamente animados de Natacha. Rostov sentia-se de novo mergulhado naquele mundo familiar da sua infância, que a ninguém mais podia interessar senão a ele próprio, mas que lhe proporcionava os melhores prazeres da sua existência, e a aventura do braço queimado com a régua em brasa não lhe pareceu uma coisa insignificante; compreendia-a sem se surpreender.

- É só isso? - perguntou ele.

- Ah, somos tão amigas, tão amigas! A história da régua é uma estupidez... Mas somos amigas para toda a vida. Ela, quando gosta de alguém, é para toda a vida. Eu cá não sou assim; esquecer-me-ia depressa.

- E então de que se trata? - Pois bem, é que ela gosta de mim e também de ti. Natacha ficou de repente toda corada.

- Sim, lembras-te, antes da partida... Sim, ela disse que mesmo que tu esquecesses tudo... «Hei-de sempre gostar dele, mas quero que ele se sinta livre...» Não é verdade que isto é lindo, que isto é nobre? Sim, sim, não é lindo? Não é nobre? Responde! - exclamou Natacha, com um tom de voz tão grave e tão comovido que se via perfeitamente já ter chorado mais do que uma vez ao pensar nisso.

Rostov ficou pensativo.

- Eu nunca quebrarei a minha palavra – declarou. - Aliás, a Sónia é tão maravilhosa que era preciso eu ser um imbecil para me negar à felicidade com ela.

- Não, não - tornou Natacha com vivacidade. - Já conversámos as duas sobre o assunto. Tínhamos a certeza de havias de falar assim. Mas não pode ser, porque, é preciso compreendas, se tu te considerares ligado pela tua palavra, pode julgar-se que ela o fez de propósito. E tu acabarias por casar, com ela por obrigação, o que não pode ser.

Rostov apercebeu-se de que tudo aquilo era muito sensato. Desde que a vira, na véspera, que Sónia o impressionara pela gentileza. Há pouco, embora a tivesse visto apenas de relance, ainda lhe parecera melhor. Era uma encantadora mocinha de dezasseis anos, que, evidentemente, o amava com paixão, disso não podia duvidar um só momento. Porque é que a não desposava agora? Ah! Eram tantos os seus motivos de alegria e tantas as coisas que o preocupavam! Sim - reflectia Rostov -, elas têm razão. É preciso que eu continue livre.

- Bom, então, óptimo, havemos de voltar a falar no assunto. Ah! Que contente eu me sinto por tornar a ver-te! E olha lá – acrescentou -, tu não atraiçoaste o Bóris? - Que Patetice é essa?! - exclamou Natacha, rindo. - Não penso nele nem em ninguém, nem quero mesmo pensar seja em quem for.

- Quê? Tu não pensas em ninguém? Então em que pensas? - Eu? - respondeu Natacha com um sorriso pleno de felicidade. - Viste o Duport? - Não.

- O célebre Duport, o bailarino, nunca o viste? Então é inútil; não podes compreender. Eu, eu sou assim.

Natacha, arredondando os braços, pegou na saia, à imitação das bailarinas, deu alguns passos correndo, voltou-se, fez uma pirueta, juntou os pés, batendo um no outro, e ergueu-se em pontas.

- Hem! Olha para isto! Seguro-me. Vês? - disse ela. Mas não conseguia aguentar-se na ponta dos pés. - Aqui tens o que eu quero ser! Nunca me casarei, e hei-de vir a ser bailarina. Mas não digas a ninguém.

Rostov teve um ataque de riso tão forte e tão sincero que Denissov, no quarto contíguo, sentiu ciúmes daquele riso; Natacha, sem se poder conter, desatou a rir também.

- Não é verdade que é lindo? - repetia ela a cada momento.

- É, mas então já não queres casar com o Bóris? Natacha ficou toda escarlate.

- Não quero casar com ninguém. E hei-de dizer-lho a ele mesmo assim que o vir.

- Não pode ser.

- E, depois, tudo isto são patetices - prosseguiu ela. - E Denissov, que tal? É simpático? - Muito, muito simpático.

- Bom, adeus, vai-te arranjar. E, ouve lá, mete medo, o Denissov? - Porque é que ele havia de meter medo? Não, o Vaska é bom rapaz.

- Como é que tu lhe chamas? Vaska?... Tem graça. Então é simpático? - Claro que é.

- Então não te demores para o chá. Tomamo-lo juntos.

Natacha voltou a erguer-se em pontas e atravessou o quarto à maneira das bailarinas, sorrindo como só o fazem as rapariguinhas de quinze anos. Rostov, ao dar com Sénia no salão, ficou muito corado. Não sabia que atitude tomar diante dela. Na véspera tinham-se beijado, nas primeiras efusões do regresso, mas agora compreendia que isso não podia ser. Sentia sobre ele os olhares interrogadores de toda a gente, da mãe e das irmãs em particular, sempre à espera de ver o que ele faria. Beijou-lhe a mão e não a tratou por tu. Encontrando-se, porém, os olhos de ambos diziam tu e atiravam beijos um ao outro. O olhar de Sónia pedia-lhe perdão de haver ousado lembrar-lhe, por intermédio de Natacha, a promessa dele e agradecia-lhe o amor que lhe tinha. O dele, por sua vez, agradecia-lhe o ela ter-lhe restituído a sua palavra e protestava, firme, que de uma maneira ou de outra nunca deixaria de a amar, pois lhe não era possível viver sem gostar dela.

- Em todo o caso, e curioso - disse Vera, aproveitando um momento em que toda a gente estava calada -, é curioso que a Sónia e o Nikolenka agora não se tratem por tu; parecem dois estranhos.

A observação era acertada, como em geral acontecia a tudo quanto ela dizia, mas, como sempre, igualmente, um grande embaraço se apoderou de toda a gente, e não só de Sónia, de Nicolau e de Natacha, como até da própria condessa, que não via com bons olhos aqueles amores do filho. Semelhante inclinação podia fazê-lo perder algum brilhante partido. E ela também corou como qualquer rapariguinha. Denissov, com grande espanto de Rostov, de farda nova, penteado e perfumado, entrou na sala com a mesma elegância que costumava ter no campo de batalha, e junto das senhoras comportou-se como um verdadeiro mundano, o que não deixou de surpreender o amigo.

Capítulo II

No seu regresso a Moscovo. Nicolau Rostov fora recebido pela família como o melhor dos filhos, um herói, o incomparável Nikoluchka; pelos seus outros parentes, como um rapaz encantador, distinto e bem educado; pelos seus conhecidos, como um belo tenente de hússares, um excelente dançarino e um dos melhores partidos da capital.

Toda Moscovo conhecia os Rostov. Naquele ano, o velho conde estava próspero, visto haver renovado as hipotecas sobre os seus domínios. Eis porque Nikoluchka dispunha de um trotador, usava calções de montar à última moda e botas altas como ainda mais ninguém usava em Moscovo, de biqueira aguçada, e esporas de prata. Levava uma rica vida. Regressando a casa. Rostov experimentava a impressão agradável de quem se readapta, após um longo intervalo, a antigos hábitos de existência. Tinha a sensação de que crescera e de que era agora um homem completo. As suas aventuras de criança, o seu desespero na altura em que fizera exame de catequese e em que ficara reprovado, os seus pedidos de dinheiro ao cocheiro Gavrilo, os beijos trocados com Sónia às escondidas, tudo isso lhe vinha à lembrança como criancices de que estava muito longe. Agora era tenente de hússares, vestia um dólman agaloado a prata com a cruz de S. Jorge de soldado e adestrava o seu trotador para as corridas na companhia de amadores hípicos conhecidos reputados e respeitáveis. Conhecera uma senhora com quem passava as noites. Dirigia a mazurca nos bailes dos Arkarov, falava da guerra com o marechal-de-campo Kamenski, frequentava o clube inglês e tratava por tu um coronel quarentão a quem Denissov o apresentara.

A sua paixão pelo imperador enfraquecera um pouco desde que estava em Moscovo. Nunca o via, nem tinha ocasião para isso; mas, por vezes, falava dele, dizia quanto o estimava, dando a entender que falando assim calava alguma coisa e que nos seus sentimentos havia uma parte de mistério que o comum dos mortais não podia entender. No fundo do seu coração compartilhava da adoração geral da cidade por Alexandre Pavlovitch, a quem chamavam então correntemente «um anjo de carne e osso».

Durante a sua estada em Moscovo, enquanto não regressou ao regimento. Rostov antes se afastou de Soma do que dela se aproximou. Ela era muito bonita, muito gentil, e, claro, amava-o apaixonadamente; mas ele atravessava então aquele período da juventude em que o homem parece ter tanta coisa a fazer que lhe falta tempo para se ocupar de ninharias, com que receia prender-se, e estima antes de mais nada a liberdade, que lhe é indispensável para tudo o mais. Quando pensava em Sónia durante essa estada em Moscovo dizia consigo mesmo: «Sim! Há muitas, muitas mais como ela, que eu ainda não conheço. Tenho tempo de pensar em amores quando me der na real gana, agora não, agora tenho mais em que pensar.» Alem disso, afigurava-se-lhe humilhante para o homem que então era comprazer-se no convívio de mulheres. Frequentava os bailes e as reuniões femininas sempre com o ar de quem está contrariado. As corridas e as visitas «a casa dela», isso era outra coisa: isso ficava bem a um verdadeiro hússar.

No princípio de Março, o velho conde Ilia Andreitch Rostov andou muito ocupado com a organização de um banquete no clube inglês em honra do príncipe Bagration.

O conde, de roupão, ia e vinha ao longo dos salões, dando as suas ordens ao ecónomo do clube e ao famoso Feoktiste, cozinheiro-chefe, acerca dos espargos, dos pepinos frescos, dos morangos, das viandas e do peixe para o banquete. O conde era membro e presidente do clube desde a sua fundação. Tinham-lhe confiado a missão de organizar o banquete em honra de Bagration, pois ninguém sabia como ele, à grande e generosamente, preparar uma festa de gala, e poucos eram os que podiam e estavam dispostos - esse o seu caso - a puxar do seu dinheiro se viesse a faltar alguma coisa. O cozinheiro e o ecónomo do clube ouviam, satisfeitos, as instruções do conde, pois estavam cientes de que com ele, melhor do que com qualquer outro, muito teriam a, ganhar com um repasto de alguns milhares de rublos.

- E, presta atenção, é preciso cristas-de-galo, sim, cristas-de-galo na sopa de tartaruga, sabias? - Entradas, três, não é verdade? - perguntou o cozinheiro.

O conde concentrou-se.

- Sim, nada menos... Urna maionese.., uma... - contou pelos dedos.

- Então temos de mandar vir esturjões grandes? - perguntou o ecónomo.

- É claro, não pode deixar de ser e temos de lhes pegar, mesmo que eles não baixem o preço. Ah, valha-nos Deus, ia-me esquecendo... Ainda precisamos de outra entrada. Ah! Santo Deus! - Apertou a cabeça entre as mãos. - E quem vai fornecer as flores? Mitenka! Eh! Mitenka! A galope. Mitenka, vai ao meu domínio de Podrnoskovni - disse para o intendente, que acorrera ao chamamento -, corre, depressa, e diz ao jardineiro Maksimka que trate de mandar arranjar imediatamente trabalhadores porque quero aqui todas as flores das estufas devidamente acondicionadas em feltro. Sexta-feira preciso aqui de duzentos vasos de flores.

Depois de ter dado ainda instruções diversas, preparava-se para descansar um pouco junto da condessa quando se lembrou de um pormenor necessário; voltou atrás, chamou o cozinheiro e o ecónomo, e pôs-se de novo a dar ordens. A porta ouviu-se um passo ligeiro, um tilintar de esporas, e o jovem conde entrou, bem posto, bonito e fresco, com o seu bigodinho novo. Via-se que a vida ociosa e tranquila de Moscovo lhe restabelecera as boas cores.

- Ah, meu rapaz, é de perder a cabeça - disse o velho, sorrindo, um pouco envergonhado por ver-se surpreendido pelo filho em tais transes. - Ajuda-me, ao menos! Agora precisamos de cantores. Músicos já eu tenho, mas não seria bom arranjarem-se ciganos? Vocês, militares, vocês morrem por isso.

- Realmente, meu pai, não creio que o Bagration, quando fazia os preparativos da batalha de Schöngraben, tivesse menos preocupações que o pai neste momento - disse o filho sorrindo também.

O velho conde fingiu-se zangado.

- Bom, já que tanto falas, faz alguma coisa em meu lugar.

E voltou-se para o cozinheiro, que, observador e malicioso, com uma respeitosa bonomia, olhava para o pai e para o filho.

- Vês como é a juventude. Feoktiste? - disse ele - Está sempre a fazer troça de nós, dos velhos.

- Pois claro. Excelência. Lá comerem um bom jantar sabem eles, o que não estão é para se incomodarem com os preparativos.

- É isso mesmo, é isso mesmo! - exclamou o conde, pegando nas duas mãos do filho, muito alegre. - Ora aqui tens já com que te entreter. Mete-te imediatamente no trenó de dois cavalos e vai a casa do Bezukov dizer-lhe que o conde Ilia Andreitch te manda pedir-lhe morangos e ananases frescos. Escusas de procurar noutra parte. Se ele não estiver em casa, vai ter com as princesas e depois dirige-te ao Razguliai: o cocheiro Itatka sabe onde é. Aí encontrarás o cigano Iliuchka, sabes?, aquele que dançou em casa do conde Orlov, lembras-te?, de casaco branco, e traz-mo cá.

- E quer que eu traga também as bailarinas? - perguntou Nicolau, rindo - Eh! Eh! Nesse momento, em passos surdos, com o ar apressado, preocupado, e com a expressão de devota que nunca a abandonava, entrou Ana Mikailovna. Embora habituada a encontrar todos os dias o conde de roupão, este mostrava-se sempre muito embaraçado e pedia-lhe muita desculpa de assim estar vestido.

- Não tem importância, conde, meu bom amigo - disse ela, conservando os olhos modestamente no chão - Eu irei a casa de Bezukov. O Pedro acaba de chegar, e estou certa de que porá todas as suas estufas à nossa disposição. E eu preciso muito de lhe falar. Mandou-me urna carta do Bóris. Graças a Deus, está finalmente em serviço no estado-maior.

O conde mostrou-se contentíssimo de que Ana Mikailovna se encarregasse de urna parte das suas tarefas e mandou atrelar para ela o trenó pequeno.

- Diga ao Bezukov que está convidado. Vou inscrevê-lo. E como vão agora as coisas com a mulher? - perguntou.

Ana Mikailovna rebolou os olhos e na sua expressão pintou-se um fundo desgosto.

- Ai, meu amigo, que infeliz que ele é - suspirou. - Se é verdade o que se diz, que horror! Quem é que havia de imaginar, quando todos estávamos tão contentes com a sua felicidade! E que boa alma, que alma celeste a desse moço Bezukov! Lastimo-o de todo o coração e hei-de fazer tudo o que depender de mim para o consolar.

- Mas que aconteceu? - perguntaram, ao mesmo tempo, pai e filho.

Ana Mikailovna despediu um profundo suspiro.

- Diz-se que Dolokov, o filho de Maria Ivanovna - articulou ela, em tom misterioso - a comprometeu aos olhos de todos. O Pedro tinha-o acolhido, convidara-o para a sua casa de Petersburgo e... Chega ela, e aí ternos aquele valdevinos a fazer-lhe a corte. - Exprimindo-se deste modo tinha a intenção de lamentar Pedro, mas certas entoações e meios sorrisos deixavam antes adivinhar simpatia por «aquele valdevinos», como ela dizia. - Dizem que o Pedro está muito abatido.

- Isso não o impedirá de vir ao clube: até é uma distracção. Vai haver urna festa de arromba.

No dia seguinte, 3 de Março, às duas horas da tarde, duzentos e cinquenta membros do clube inglês e cinquenta convidados prestavam as honras da mesa a um hóspede ilustre, o herói da campanha da Áustria, o príncipe Bagration. Ao conhecer as primeiras notícias sobre a batalha de Austerlitz. Moscovo ficara como que fulminada de espanto. Nessa época estava toda a gente tão acostumada na Rússia a que o país saísse sempre vitorioso que quando circulou a notícia da derrota uns limitaram-se a negar que fosse verdade, enquanto outros procuravam em razões extraordinárias a explicação de um acontecimento tão estranho. No clube inglês, ponto de reunião de tudo quanto havia de melhor, toda a gente bem informada e de opinião respeitável acordara, em Dezembro, na altura em que principiaram a correr as más novas, em não falar nem da guerra nem da última batalha. As pessoas cuja opinião era de ouvir, o conde Rostoptchine, o príncipe Iuri Vladimirovitch Dolgoruki. Valuiev, o conde Markov, o príncipe Viazemski, não apareceram no clube. Passaram a reunir-se em suas próprias casas, em pequenas rodas íntimas, e os moscovitas que se guiavam pela opinião alheia, como acontecia, por exemplo, a Ilia Andreitch Rostov, viram-se privados durante algum tempo de guias e de formar uma opinião definitiva sobre a guerra. Suspeitavam do pouco optimismo das notícias, mas pensavam ser difícil discuti-las e que o melhor seria calarem-se. Alguns dias mais tarde, no entanto, como membros de um júri que abre a porta da sala das deliberações, as ilustres personagens cuja opinião era de ouvir no clube voltaram a aparecer, e então falou-se da guerra clara e francamente. Procuraram-se as causas deste acontecimento inacreditável, inaudito, impossível: uma derrota russa. Tudo se tomou claro e por toda a parte em Moscovo passaram a ouvir-se as mesmas considerações. Entre as causas apontadas figuravam a perfídia dos Austríacos, o mau abastecimento das tropas, a traição do polaco Przebyszevsky e do francês Langeron, a incapacidade de Kutuzov, e - acrescentava-se em voz baixa - a juventude e a inexperiência do czar, além da sua confiança em pessoas nulas e mal intencionadas. Mas era certo que as tropas, as tropas russas propriamente ditas, essas tinham sido extraordinárias e haviam praticado verdadeiros prodígios de heroísmo. Os soldados, os oficiais, os generais, todos eram heróis. Mas o herói dos heróis era o príncipe Bagration, que se distinguira sobretudo no recontro de Schöngraben e na retirada de Austerlitz, em que fora o único que conseguira retirar a sua coluna em perfeita ordem e resistir durante o dia inteiro a um inimigo duas vezes superior em número. Além do mais, o que concorria para que Bagration gozasse em Moscovo da fama de herói era o facto de ele não ter aí relações pessoais e de ser estranho ao meio. Na pessoa do príncipe prestava-se homenagem merecida ao guerreiro, ao simples soldado russo, estranho às recomendações e às intrigas. Aliás o seu nome era inseparável do de Suvorov, em virtude das recordações da campanha de Itália. E depois, tributando-lhe esta homenagem, mais se acentuava, em relação a Kutuzov, o descontentamento que contra ele lavrava e a censura de que era vítima.

- Se Bagration não existisse era preciso inventá-lo - dizia o belo espírito que era Chinchine, parodiando o dito de Voltaire. Ninguém falava de Kutuzov, que alguns injuriavam mesmo em voz baixa, chamando-lhe catavento e velho sátiro.

Toda Moscovo repetia as palavras do príncipe Dolgorukov: «Tanta vez o cântaro vai à fonte que lá fica...» E os Moscovitas procuravam consolar-se do desastre evocando as vitórias passadas. Também se repetia o que costumava dizer Rostoptchine: que o soldado francês precisa de ser levado para a batalha com frases pomposas, que o alemão é sensível aos raciocínios lógicos, e é preciso dizer-se-lhe ser mais perigoso fugir que marchar em frente, mas que o russo, esse, mais não carece do que ser contido e só precisa que lhe digam: «Calma!» Por todo o lado se citavam novos pormenores da bravura revelada em Austerlitz pelos soldados e oficiais russos. Um deles salvara uma bandeira, outro ma- tara cinco franceses, e tal outro, sozinho, fizera fogo com cinco canhões. As pessoas que o não conheciam contavam que Berg, ferido no braço direito, pegara na espada com a mão esquerda e carregara sobre o inimigo. De Bolkonski não se dizia palavra, e apenas os seus íntimos lamentavam que ele tivesse morrido tão novo, deixando a mulher em vésperas de parto junto do seu originalíssimo pai.

Capítulo III

No dia 3 de Março todas as salas do clube inglês estavam cheias do rumor das conversas, e tanto os sócios como os seus convidados, tal qual um enxame de abelhas na Primavera, iam e vinham, sentavam-se ou levantavam-se, agrupavam-se ou isolavam-se, uns de uniforme, outros de fraque, alguns mesmo de cabeleira empoada e de cafetã russo. Junto das portas, espiando, atentamente, os mais pequenos gestos dos presentes, prontos a oferecer-lhes os seus serviços, viam-se os lacaios, de libré, cabeleiras postiças, meias de seda e escarpins. A maioria dos convidados compunha-se de personagens idosas e respeitáveis, de largos e resolutos traços, grossos dedos, vozes e gestos opiniáticos. Sentadas nos seus lugares reservados, formavam suas rodas habituais. A minoria compreendia os hóspedes de passagem, principalmente moços, a cujo número pertenciam Denissov. Rostov e Dolokov, o último dos quais retomara os galões de oficial do regimento Semionovski. Na expressão destes jovens, especialmente dos militares, havia um matiz de deferência assaz desdenhosa para com os velhos. Pareciam dizer-lhes: «Não nos recusamos a manifestar-vos respeito e consideração, mas ficai sabendo que o futuro é nosso,» Nesvitski estava presente, na sua qualidade de velho sócio do clube. Pedro, que por ordem da mulher deixara crescer os cabelos, já não usava lunetas e se vestia à moda, passeava pelos salões com um ar sombrio e triste. Ali, como de resto em toda a parte, cercava-o uma multidão que dobrava a cerviz diante da sua riqueza, enquanto ele, habituado a reinar, a todos tratava com uma menosprezadora indiferença.

Pela idade devia estar junto dos jovens, mas pela fortuna fazia parte da roda dos velhos, das pessoas respeitáveis. Por isso ia passando alternadamente do grupo de uns para o dos outros. Os velhos mais em destaque formavam o centro dos grupos de que se aproximavam com respeito os próprios desconhecidos desejosos de ouvir falar as personalidades importantes. As rodas mais numerosas eram à volta do conde Rostoptchine, de Voluiev e de Narichkine. Rostoptchine contava que os Russos haviam sido espezinhados pelos Austríacos em debandada e se tinham visto obrigados a abrir caminho à baioneta pelo meio deles.

Valuiev contava, confidencialmente, que Uvarov não fora enviado a Petersburgo senão para conhecer a opinião dos Moscovitas sobre Austerlitz.

Num terceiro grupo. Narichkine falava do conselho de guerra em que Suvorov se pusera a cantar de galo perante as inépcias dos generais austríacos. Chinchine, que estava presente, tratou de fazer espírito, dizendo que Kutuzov nem sequer tivera habilidade para aprender com Suvorov a arte pouco complicada do rococó. Mas os velhos fulminaram com o olhar o gracejador de mau gosto, dando-lhe a entender que naquele recinto e àquela hora não era decente falar daquele modo de Kutuzov.

O conde Ilia Andreitch Rostov, preocupado, de botas moles, ia, num passo rápido, da sala de jantar ao salão, cumprimentando à pressa, e com igual familiaridade, as personalidades importantes e as de pouca monta, todas suas conhecidas, ao mesmo tempo que procurava, de quando em quando, com o olhar, o seu belo rapagão. Fitava-o jovial e piscava-lhe o olho amistosamente.

O jovem Rostov estava à janela com Dolokov; tinha-o conhecido havia pouco e parecia muito interessado nesse conhecimento. O velho conde aproximou-se e apertou-lhe a mão.

- Dá-me o prazer de passar lá por casa, visto que és íntimo do meu rapagão... Estiveram lá ambos, foram ambos heróis... Olha, o Vassili Ignatitch... Viva, meu velho - disse ele para um ancião que passava; mas não teve tempo de acabar o cumprimento: houve um tumulto geral, e um lacaio apareceu, dizendo, fora de si: - Esta a chegar! Ouviram-se toques de campainha. Os membros da direcção do clube acorreram; os convidados, distribuídos pelas diversas salas, como centeio revolvido à pá, vieram juntar-se todos no mesmo sítio, ficando estacionados no salão nobre mesmo junto da porta.

Bagration surgiu no limiar do vestíbulo, de cabeça descoberta e sem a espada, que deixara, segundo o regulamento do clube, no bengaleiro. Não trazia a barretina debruada de pele de astracã e o chicote em bandoleira, como Rostov o vira na véspera de Austerlitz, mas vestia um uniforme novo, cingido, e ostentava as condecorações russas e estrangeiras e a cruz de S. Jorge do lado esquerdo do peito. Via-se perfeitamente que mandara cortar o cabelo e aparar as suíças de propósito para a recepção, e isso alterava-lhe desvantajosamente a fisionomia. Tinha um ai endomingado, o que, mercê dos seus traços másculos e duros, lhe dava um todo algo cómico. Beklechov e Fédor Petrovitch Uvarov, que tinham chegado ao mesmo tempo que ele, detiveram-se junto da porta para deixar passar aquele ilustre visitante. Bagration sentiu-se embaraçado com a polidez que lhe manifestaram; houve uma suspensão geral, e por fim decidiu-se a passar. Caminhava, sem saber que rumo dar aos braços, embaraçado e tímido, ao longo do parquet do salão nobre. Com certeza estava muito mais à vontade quando, em Shöngraben, debaixo de uma chuva de balas, avançava pelos campos lavrados à frente do regimento de Kursk. Os membros mais destacados do clube acolheram-no junto da primeira porta, manifestando-lhe, nalgumas breves palavras, a alegria que sentiam por tornar a ver um hóspede tão querido, e, sem aguardar qualquer resposta, tomaram conta dele e conduziram-no ao salão. Foi quase impossível entrar aí, tanta a gente que se comprimia, tentando ver, por cima dos ombros dos que estavam à frente, a figura de Bagration, como se se tratasse de um animal exótico. O conde Ilia Andreitch, rindo, gritava em voz forte: - Deixem passar, meus senhores, deixem passar- e, empurrando os que estavam ao seu alcance, introduziu o convidado no salão, indicando-lhe o divã central. As personagens graúdas, sócios em evidência do clube, cercaram o recém-chegado. Ilia Andreitch, abrindo de novo caminho através da turba-multa, voltou a atravessar o salão, e na companhia de um sócio do clube reapareceu daí a pouco, com uma grande salva de prata, que apresentou a Bagration. Na salva havia uma composição em verso composta e impressa em honra do herói. Bagration, ao ver a salva, lançou à volta de si um olhar aflito, como que implorando protecção. Mas todos os olhares lhe pediam que se resignasse. Quando viu que nada podia fazer, pagou com ambas as mãos, num gesto enérgico, na salva de prata, fitando, furioso, o conde, que a trouxera. Alguém, delicadamente, tomou-lhe a salva das mãos, pois de outra maneira era muito capaz de a manter assim pela noite adiante e era até pessoa para se sentar à mesa com ela.

Chamaram-lhe a atenção para a composição em verso. «Está bem!, eu já a leio», parecia dizer Bagration. Depois, fitando no papel os olhos fatigados, principiou a ler com um ar concentrado c, sério. Então o autor dos versos pegou no papel e deu começo leitura. Bagration ouvia, a cabeça descaída sobre o peito.

Sê tu a glória do século de Alexandre E o guardião de Tito no seu trono; Sê terrível na guerra e na paz homem de bem Rifeu na tua pátria e César no combate.

Napoleão, no apogeu da sua glória, Aprende à sua custa a temer Bagration E a não ousar outra vez provocar os russos Alcides...

(Peça declamatória do gosto da época. (N, dos T.)

Mal acabara de ler estes poucos versos quando o chefe de mesa gritou, numa voz atroadora: - O jantar está servido! - A porta abriu-se, e na sala de jantar romperam os acordes da polaca: «Troves da vitória retumbai, alegra-te, russo valoroso!» (Coro de um canto oficial russo (N, dos T.) O conde Ilia, o olhar colérico fito no autor dos versos, que prosseguia na sua leitura, inclinou-se profundamente diante de Bagration. Toda a gente se ergueu, fazendo votos para que o jantar fosse melhor do que a poesia, e, com Bagration à frente, deu entrada na sala do banquete. Convidaram o herói a sentar-se no lugar de honra, entre dois Alexandres. Beklechov e Narichkine, alusão ao nome do imperador. Os trezentos convivas tomaram lugar à mesa consoante a sua classe e as suas prerrogativas, os mais nobres mais perto do conviva homenageado: coisa facilmente compreensível, aliás, pois a água corre sempre para onde o solo é mais baixo.

Antes de se dar começo ao banquete. Ilia Andreitch apresentou o filho ao príncipe. Este reconheceu-o e disse algumas palavras inconsequentes e embaraçadas, como todas, de resto, que veio a pronunciar naquela noite. O conde relanceava um olhar entre alegre e orgulhoso a todos os presentes enquanto durou essa breve conversa.

Nicolau Rostov, bem como Denissov e o seu novo amigo, sentaram-se juntos, quase a meio da mesa. Diante deles estava Pedro, ao lado do príncipe Nesvitski. O conde Ilia Andreitch sentava-se em frente de Bagration, junto de outros magnates do clube, que faziam as honras da casa como representantes da cordial hospitalidade moscovita.

O conde não tinha perdido o seu tempo. O repasto por ele organizado, vitualhas magras e gordas, era sumptuoso. Antes de tudo terminado não pôde deixar de manifestar grandes inquietações. Trocava olhares de entendimento com o chefe de mesa, dava ordens em voz baixa aos lacaios, e não sem emoção ia aguardando o aparecimento de cada prato, aliás todos muito do seu conhecimento. Tudo correu às mil maravilhas. Aquando da chegada do segundo prato, ao entrar na sala um gigantesco esturjão ao vê-lo. Ilia Andreitch corou, jubiloso e confuso -, os lacaios principiaram a fazer saltar as rolhas das garrafas de champanhe. Depois do peixe, que não deixou de causar sensação, o conde trocou um olhar com os membros do clube: «Vai haver muitos brindes, era talvez oportuno principiar», segredou-lhes ele, e levantou-se, de copo na mão. Todos se calaram, muito atentos ao que ele ia dizer.

- A saúde do nosso soberano, o imperador! - exclamou, com os seus bons olhos orvalhados de lágrimas de alegria e triunfo. Nesse mesmo instante ouviu-se entoar: «Trovões da vitória retumbai.» Toda a gente se levantou gritando «Hurra!», e Bagration gritou «Hurra!» com a voz do campo de batalha de Schöngraben. Por entre as trezentas vozes ouviu-se distintamente a voz entusiasta do jovem Rostov. Mal podia suster as lágrimas. «A saúde do imperador», gritou, «Hurra!». Depois de ter bebido de um trago, quebrou a taça no chão. Muitos outros lhe seguiram o exemplo. E as aclamações prolongaram-se por muito tempo. Quando se restabeleceu o silêncio, os lacaios apanharam os cristais partidos e toda a gente tomou a sentar-se, satisfeita com a manifestação. Ilia Andreitch levantou-se ainda uma vez, lançou um golpe de vista ao apontamento que tinha ao lado do prato, e em seguida pronunciou um brinde em honra do herói da última campanha, o príncipe Piotre Ivanovitch Bagration, e mais uma vez os seus olhos azuis se humedeceram de lágrimas.

«Hurra! » gritaram de novo os trezentos convivas, e, em vez da orquestra, cantores executaram uma cantata composta por Paulo Ivanovitch Kutuzov:

Para os Russos não há obstáculos, A garantia da vitória está na coragem.

Nós temos os nossos Bagrations, E os inimigos cair-nos-ão aos pés.

Mal os cantores se calaram, novos brindes se ouviram, e Ilia Andreitch mais comovido ficou, e as taças continuaram a partir-se, e os gritos foram cada vez mais vibrantes. Bebeu-se à saúde de Beklechov, de Narichkine, de Uvarov, de Dolgorukov, de Apraksine, de Valuiev, à saúde da direcção do clube, do seu administrador, de todos os seus membros e de todos os seus convidados, e, por fim, muito em particular, ao organizador do banquete, o conde Ilia Andreitch. Ao ouvir este último brinde, o conde puxou do lenço, e, nele escondendo a cara, rompeu em soluços.

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