PortalSaoFrancisco.com.br

Guerra e Paz
(volume ii - quarta parte)

Leon Tolstoi

Capítulo I

A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que se sentisse útil e em que tivesse o sentimento de que cumpria um dever, embora inactivo, nesse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atractivo do serviço militar.

Nicolau Rostov desde 1807 que lhe saboreava as delícias no regimento de Pavlogrado, onde continuava incorporado no esquadrão cujo comando lhe fora transmitido por Denissov.

Rostov transformara-se num belo rapaz, de maneiras rudes. Os seus conhecidos de Moscovo tê-lo-iam achado com «mau ar». A verdade, porém, é que os seus camaradas, os seus subordinados e até os seus superiores o estimavam e respeitavam, e por isso mesmo a vida militar lhe sorria. Nos últimos tempos, quer dizer em 1809, nas cartas que recebia de casa havia frequentes queixas da mãe acerca do estado financeiro da família, de facto assaz precário, acrescentando a condessa que principiava a ser tempo de ele voltar, para consolo e alegria dos seus velhos pais.

Ao ler estas cartas. Nicolau receava que o quisessem tirar do meio em que ele, alheado de todas as preocupações, vivia tranquilo e ditoso. Pressentia que mais tarde ou mais cedo se veria obrigado a entrar de novo na engrenagem da vida, com todas as suas trapalhadas, as contas com os administradores, as discussões, as intrigas, as relações, a sociedade, o caso de Sónia e as promessas que lhe fizera. Tudo isto se lhe apresentava terrivelmente difícil e confuso, e então respondia à mãe, em cartas frias e clássicas, que principiavam sempre: «Minha querida mãe», terminando pela fórmula: «Seu filho muito obediente» e em que nada dizia quanto ao regresso a casa. Em 1810 uma carta dos pais veio informá-lo do noivado de Natacha com Bolkonski, acrescentando que o casamento se não realizaria senão daí a um ano, em virtude da oposição do velho príncipe. Esta notícia entristeceu e mortificou um pouco Nicolau. Em primeiro lugar tinha pena de ver afastar de casa Natacha, a irmã querida, e depois, do seu ponto de vista de hússar, lamentava não ter estado presente para fazer compreender a Bolkonski que não era honra tão grande quanto ele supunha a aliança que lhe oferecia, e que, se era verdade ele gostar da irmã, eis o bastante para dispensar a autorização do louco do seu pai. Pensou, por momentos, pedir uma licença para falar com Natacha antes do casamento, mas aproximava-se a época das manobras e, ao lembrar-se de Sónia e das complicações que o aguardavam, resolveu adiar o projecto. Entretanto, na Primavera desse mesmo ano recebeu urna carta da mãe, escrita às escondidas do conde, e esta carta decidiu-o a partir. Dizia-lhe ela que se ele se não resolvesse a tomar conta dos negócios da família todo o património acabaria vendido em hasta pública e eles todos reduzidos à miséria. O conde era um fraco, confiava de mais em Mitenka, era muito bom e toda a gente o enganava e as coisas iam sempre de mal a pior. «Por Deus te peço que venhas imediatamente se queres por cobro à desgraçada situação de toda a nossa família.» Esta carta impressionou muito Nicolau, que era dotado desse bom senso dos medíocres que lhes indica sempre o que mais convém fazer.

Se quisesse abalar desde logo teria de pedir baixa ou então uma licença. Não sabia lá muito bem porque fazê-lo, mas, depois de dormir a sesta, deu ordem para lhe selarem Março, o cavalo pigarço, garanhão fogoso que não montava havia muito, e ao voltar para casa com o animal coberto de espuma participou a Lavruchka (o criado que herdara de Denissov) e aos camaradas reunidos para a noite que pedira uma licença para voltar a ver os pais. Custava-lhe partir sem ter sido informado pelo estado-maior, coisa para ele de alta importância, se iria ser promovido a capitão e se lhe seria concedida a cruz de Sant’Ana por causa das últimas manobras. Também lhe custava partir sem ter vendido ao conde Golukovski a troika de cavalos pigarços que aquele fidalgo polaco regateara com ele e que apostara vender-lhe por dois mil rublos. Igualmente lhe parecia impossível não assistir ao baile que os hússares promoviam em honra de Madame Psazdetzka para arreliar os ulanos, que estavam a organizar outro em honra de Madame Borzovska. Apesar de tudo, sabia que tinha de abandonar aquele meio tão franco e tão simpático, para o trocar por outro onde o não aguardavam senão tolices e complicações. Oito dias depois chegava a concessão da licença. Os hússares seus camaradas, não só os do regimento, mas de toda a brigada, ofereceram-lhe um jantar, a quinze rublos por cabeça, com duas orquestras e dois grupos de cantores. Rostov dançou a trepak (A trepak é uma dança de camponeses, em que o dançarino se mantêm de cócoras e lança alternadamente as pernas para diante. (N, dos T.) com o major Bassov; os oficiais, qual deles o mais bêbado, balançaram-no, apertaram-no nos braços e deixaram-no cair. Os soldados do 3.O esquadrão, por sua vez, também o balançaram, gritando: «Hurra!» Por fim meteram Rostov no trenó e levaram-no até à primeira muda.

Durante a primeira metade do caminho, isto é, de Krementchug a Kiev, como é costume, todos os pensamentos de Rostov foram para os lugares que acabava de deixar, para o seu esquadrão. Mas, uma vez percorrida esta parte do trajecto, começou a esquecer-se dos cavalos pigarços, do ferrador Dojoveika, e pôs-se a pensar, apreensivo, sobre o que iria encontrar em Otradnoie. Quanto mais se aproximava mais intensamente pensava na casa. Dir-se-ia que nele os sentimentos morais obedeciam à lei da queda dos corpos. Na última muda antes de Otradnoie deu três rublos de gorjeta ao postilhão e foi como um verdadeiro garoto que trepou, sem fôlego, os degraus de sua casa.

Depois das efusões do primeiro instante, apoderou-se dele essa sensação estranha de desapontamento que faz dizer, quando alguém não encontra o que procura: «Tudo está na mesma. Para que tive eu tanta pressa?» Mas, pouco a pouco, acabou por se habituar ao antigo ambiente da casa. Os pais, as mesmas pessoas, apenas haviam envelhecido um pouco. O que neles havia de novo era uma espécie de inquietação, por vezes uma como que desinteligência, que outrora não existia, originada, assim em breve o reconheceu, pela má situação financeira. Sónia já andava perto dos vinte anos. Mais bela não podia estar, tanto dera agora do que prometera antes, e isso bastava. Tudo nela falava de amor e felicidade desde que Nicolau chegara, e o certo é que a fiel e inabalável dedicação daquela rapariga o enchia de orgulho. Pétia e Natacha eis quem mais o surpreendia. Pétia estava um rapagão de treze anos, inteligente, bem disposto e travesso, cuja voz principiava a engrossar. Quanto a Natacha, por muito tempo a olhou admirado e sorrindo: - Já não és a mesma! - exclamou.

- Quê? Estou mais feia? - Pelo contrário, olhem para o seu ar importante! Uma princesa! - murmurou ele.

- Sim, sim - replicou Natacha, muito contente.

E pôs-se a contar-lhe os seus amores com o príncipe André, a chegada deste a Otradnoie, e mostrou-lhe a última carta que dele recebera.

- Estás contente? - perguntou ela. - Por mim, estou tranquila e sinto-me feliz.

- Muito contente - replicou Nicolau. - É um homem encantador. E estás realmente apaixonada? - Muito - exclamou ela. - Gostei do Bóris, do meu professor, de Denissov, mas agora é outra coisa. Sinto-me tranquila, estou em terreno sólido. Sei que não há pessoa melhor do que ele e sinto-me agora tão sossegada, tão feliz! Não, não é como antigamente...

Nicolau disse a Natacha quanto achava desagradável aquele compasso de espera de um ano, mas Natacha replicou-lhe, com certa irritação, demonstrando-lhe não poder ser de outra maneira, e que não seria bom entrar na sua nova família contra a vontade do sogro, e que ela própria, de resto, assim o quisera. - Nada percebes, absolutamente nada - concluiu.

Nicolau, concordando com a irmã, calou-se. As vezes, olhando-a a furto, estranhava-a. A atitude de Natacha não era de modo algum a de uma noiva apaixonada longe do noivo. Mostrava-se serena, alegre e sempre igual, exactamente como outrora. E isto surpreendia-o; olhava aquele noivado com uma ponta de desconfiança. Não acreditava, de facto, que o futuro da irmã estivesse definitivamente estabelecido, tanto mais quanto era certo nunca ter visto juntos os dois noivos. Parecia-lhe que qualquer coisa faltava àquele projecto de casamento. «Que significa este compasso de espera? Porque não se celebrou o pedido de casamento?», perguntava a si próprio. E um dia em que conversava com a mãe pôde verificar, com surpresa e quase satisfação, que também ela, lá no fundo do»seu coração, confiava pouco naquela aliança.

- Olha o que ele diz - disse para o filho mostrando-lhe uma carta do príncipe André, com aquele tom de hostilidade secreta que há em todas as mães quando se trata do futuro conjugal de suas filhas - olha o que ele escreve: que não poderá vir antes de Dezembro. Que o prende longe daqui? Naturalmente está doente. Tem muito pouca saúde. Nada digas a Natacha. Embora pareça alegre, realmente não o está. São os últimos dias da sua vida de rapariga, e eu sei bem o que lhe vai no coração de cada vez que recebe uma carta. Aliás, quem sabe? Talvez tudo acabe bem - concluía de cada vez que falava no caso. - É uma excelente pessoa.

Capítulo II

Nos primeiros tempos Nicolau parecia preocupado e triste. Atormentava-o a ideia de ver-se envolvido naquelas estúpidas histórias de interesses por causa das quais a mãe o mandara regressar a casa. Para se ver livre quanto mais depressa melhor de um tal fardo, três dias depois da sua chegada, furioso e sem dizer aonde ia, de má catadura, encaminhou-se para o pavilhão de Mitenka a fim de lhe pedir contas de tudo. Que vinham a ser essas contas de tudo. Nicolau sabia-o menos que o próprio Mitenka, aterrorizado e surpreso com a sua visita. As contas e as explicações de Mitenka não foram longas. Os estarostes, o ajudante e o estaroste do distrito, que aguardavam no vestíbulo, ouviram, assustados, mas não sem satisfação, a voz do jovem conde, primeiro surda, depois cada vez mais alta, e por fim as palavras injuriosas com que o verberou.

«Bandido! Ingrato!... Mato-te como se mata um cachorro... Não estás a tratar com meu pai... Ladrão!...» Depois, essas mesmas criaturas, não com menos susto e também não menor contentamento, viram o jovem conde, muito encarnado, os olhos injectados, arrastar Mitenka pelo pescoço e, com grande destreza, aplicar-lhe um pontapé por cada palavra que ia dizendo.

«No olho da rua! Que eu nunca mais te torne a ver aqui, malandro! » Mitenka precipitou-se pela escada abaixo e desapareceu no meio de um maciço da mata. Aquele maciço era o refúgio de todos os culpados de Otradnoie. O próprio Mitenka, quando voltava bêbado da cidade, aí costumava ocultar-se, e muitos outros, que por sua vez tinham de esconder-se de Mitenka, lá procuravam asilo.

A mulher do intendente e as cunhadas, assustadas, assomaram à porta do quarto onde cantava um samovar reluzente e em que se via a cama alta de Mitenka, com a sua colcha de trapos.

O jovem conde, sufocado, passou junto delas sem lhes prestar atenção, e num passo resoluto entrou em casa.

A condessa, a quem as criadas vieram contar imediatamente o que se passara no pavilhão, por um lado, tranquilizou- se, dizendo de si para consigo que desta vez as coisas iam entrar no bom caminho, mas, por outro, inquietou-a o estado em que esta cena deixara o filho. Várias vezes se aproximou, na ponta dos pés, da porta do quarto onde Nicolau ia fumando cachimbo sobre cachimbo.

No dia seguinte o velho conde chamou Nicolau de parte e advertiu-o, com um sorriso embaraçado: - Sempre te digo que te exaltaste em vão. Mitenka contou-me tudo.

«Eu já sabia», disse Nicolau com os seus botões, «que nada conseguia perceber do que se passa nesta casa de doidos.» - Zangaste-te por ele não ter escriturado aqueles setecentos rublos, mas estavam na outra página, que tu não viste.

- Meu pai, ele é um canalha, um ladrão, tenho a certeza. E o que eu fiz foi bem feito. Mas, se assim quer, nada mais lhe direi.

- Não, meu amigo... - O conde estava um pouco perturbado. Sabia que administrara mal a fortuna da mulher e que aos olhos dos filhos era culpado, mas não via maneira de remediar o seu erro. - Peço-te que te ocupes de tudo, estou velho e...

- Perdoe, pai, se fui desagradável, mas ainda sei menos que o pai de tudo isto.

«Diabos levem estes camponeses, estas contas, estas verbas inscritas na outra página», dizia de si para consigo. «Em tempo ainda cheguei a compreender o que era um paroli de seis vazas, mas do que eles dizem nada percebo.» E daí para o futuro não voltou a tocar naqueles assuntos. No entanto, certo dia a condessa mandou-o chamar e disse-lhe que tinha em seu poder uma letra assinada por Ana Mikailovna, no valor de dois mil rublos, e gostava de saber que destino entendia ele dever dar-lhe.

- Pois aqui tem o que penso - replicou Nicolau. - Diz a mãe que depende de mim. Não gosto nem de Ana Mikailovna nem de Bóris, mas foram nossos amigos e são pobres. Aqui tem o que devemos fazer! - E rasgou a letra. A mãe principiou a chorar de alegria. A partir de então, o jovem Rostov, sem se preocupar com os assuntos administrativos da família, apaixonou-se por um divertimento novo para ele, a caça, divertimento que em casa do velho conde era tido em grande conta.

Capítulo III

Os primeiros gelos matinais apareceram, e as terras, alagadas pelas chuvas de Outono, ficaram endurecidas pela geada. Os trigos outonais principiavam, a deitar tufos e o seu verde-vivo destacava-se das manchas amarelas do restolho das ceifas anteriores, pisado pelo gado e entrecortado pelas franjas avermelhadas do trigo sarraceno. As copas das árvores, que em fins de Agosto ainda formavam ilhas de verdura no meio dos campos negros novamente lavrados e dos restolhos, eram agora ilhas de ouro ou então de um vermelho-vivo por entre o trigo novo verde-claro. As lebres cobriam-se de pêlo, as raposas novas principiavam a dispersar e os lobitos deitavam corpos maiores que os dos cães. Era a melhor época para a caça. A matilha do jovem e fogoso caçador Rostov não só ainda estava magra, mas em tal estado que foi decidido no conselho geral dos caçadores que se dessem aos cães três dias de repouso e que não principiassem a caçar antes de 16 de Setembro, iniciando a batida pela mata onde fora vista uma ninhada de lobinhos por ora intacta.

Eis a situação a 14 de Setembro. Durante aquele dia os caçadores permaneceram em casa; havia gelo e frio, mas lá para o fim da tarde o tempo melhorou e principiou a degelar. No dia seguinte, quando o jovem Rostov assomou, pela manhã, de roupão, à janela do seu quarto viu que estava uma manhã de caça como outra melhor não havia. O céu parecia fundir-se e, sem vento, deixar-se cair sobre a terra. O único movimento que se percebia na atmosfera era a precipitação, de cima para baixo, das microscópicas partículas do opaco nevoeiro. Gotas transparentes que caíam sobre as folhas recém-tombadas pendiam dos ramos nus das árvores da mata. Na horta a terra negra molhada e brilhante, como sementes de papoula, confundia-se a certa distância com o lençol embaciado e húmido da neblina. Nicolau veio até à escada encharcada, coberta de lama: tinha nas narinas o aroma lânguido das florestas à mistura com o cheiro dos cães. Milka, a cadela preta malhada, de largas ancas, com grandes olhos negros à flor da testa, levantou-se mal viu o dono, espreguiçou-se, voltou a deitar-se como uma lebre e depois, de chofre, deu um pulo e veio lamber-lhe a cara e os bigodes. Outro cão, um galgo, ao vê-lo, correu de um maciço de flores, onde estava deitado, precipitou-se para a escada, e, alçando a cauda, começou a roçar-se pelas pernas de Nicolau.

«Oh! Oh!», ouviu-se naquela altura. Era o grito inimitável dos caçadores em que a voz de baixo, mais profunda, se une à mais aguda, de tenor, e o monteiro Danilo surgiu, vindo de um dos ângulos da casa. Era um caçador de cabeça branca, com o rosto sulcado de rugas e cabelos aparados em forma de ferradura, à moda da Ucrânia. De chibata dobrada na mão, havia nele aquele ar importante e de supremo desdém peculiar aos caçadores. Ao chegar junto do amo tirou o gorro circassiano e lançou-lhe um olhar altivo. Nesse olhar, um pouco desdenhoso, nada havia porém de ofensivo. Nicolau pôde ver que aquele homem, que desprezava toda a gente e se considerava mais do que ninguém, era afinal o seu homem de confiança, o seu caçador.

- Danilo! - exclamou, impressionado por aquele tempo ideal, pelos cães, pelo monteiro, como que trespassado por aquele frémito irresistível que tudo faz esquecer aos caçadores e em que há seja o que for da emoção de um namorado diante da mulher amada.

- Que deseja. Excelência? - perguntou Danilo, numa voz grossa, que fazia lembrar a de um primeiro-diácono, uma voz rouca de tanto gritar aos cães. Dois olhos negros, brilhantes, olharam de soslaio o amo, que continuava calado. «Então, parece que não te aguentas!», pareciam dizer aqueles olhos.

- Lindo dia, não é verdade? Que dirias tu a urna caçada? - murmurou Nicolau, coçando Milka atrás das orelhas.

Danilo piscou os olhos sem responder.

- Mal amanheceu mandei o Uvarka ver o que havia - voltou o monteiro, na sua voz de baixo, após alguns instantes de silêncio. - Disse-me que passaram para a reserva de Otradnoie. Ouviu-os uivar. (Queria isto dizer que a loba, que sabiam ambos andar por ali, passara com a sua ninhada para a floresta de Otradnoie, reserva de caça aproximadamente a duas verstas da propriedade.) - Então temos de ir já? - voltou Nicolau.- Venham cá, tu e o Uvarka.

- Às suas ordens! - Espera. Não dês ainda de comer aos cães.

- Bom.

Cinco minutos depois. Danilo e Uvarka chegaram ao grande gabinete de Nicolau. Daizilo era de pequena estatura, mas ali, dentro de uma sala, dava a impressão de um cavalo ou de um urso num parquet, no meio de móveis ou por entre objectos de uso diário. E ele próprio se dava conta disso mesmo, e por isso, como de costume, não passava do limiar da porta, fazendo esforços para falar em voz baixa, por em nada mexer, receoso de quebrar alguma coisa nos aposentos do amo e procurando despachar o mais depressa que podia tudo quanto tinha a dizer, pressuroso de voltar ao ar livre e sair de sob aquele tecto para de novo se sentir debaixo da curva do firmamento.

Concluídas que foram as perguntas e depois que Danilo lhe garantiu que os cães não corriam qualquer risco - ele próprio não desejava outra coisa senão ver-se a caçar -. Nicolau deu ordem para selarem os cavalos. Quando porém Danilo saía, entrava Natacha, numa carreira, ainda por pentear e vestir, embrulhada no xale da criada. Com ela vinha Pétia.

- Vais à caça? - disse ela. - Bem me queria parecer. A Sónia dizia que não, mas eu sei muito bem que com um dia destes não deixarias de sair.

- Sim, é verdade - replicou Nicolau de má catadura, pois desde que se propusera uma caçada a valer não queria ter consigo nem Natacha nem Pétia, que só podiam embaraçá-lo. - Mas só aos lobos. E isso para ti não é divertido.

- Estas enganado. É do que mais gosto - replicou Natacha. - Oh!, que mau, resolveu ir a caça, mandou selar os cavalos e nada nos disse.

- Para os Russos não há obstáculos! - exclamou Pétia. - Mas tu não podes ir, foi a mãe quem o disse - tornou Nicolau, dirigindo-se a Natacha.

- Pois irei, sem dúvida alguma - tornou esta, peremptória. - Danilo, manda selar os cavalos e diz a Mikailo que traga o meu casal de galgos - acrescentou, dirigindo-se ao monteiro.

Assim como parecia a Danilo inconveniente e penoso estar numa sala, tratar com uma senhora também se lhe afigurava impossível. Baixou os olhos, e, como se aquilo não fosse com ele, deu-se pressa em sair, pondo o maior cuidado em não tocar em Natacha com qualquer movimento brusco.

Capítulo IV

O velho conde, que sempre mantivera um excelente grupo de caça, cuja direcção agora confiara ao filho, naquele dia, 15 de Setembro, estava muitíssimo bem disposto e preparava-se também para tomar parte na caçada.

Uma hora depois todos os caçadores estavam reunidos junto da escadaria principal. Nicolau, sério e preocupado, o que significava não ter tempo para atentar em ninharias, passou por Natacha e Pétia sem prestar atenção ao que eles diziam. Examinou todos os preparativos da caçada, deu ordem para que uma das matilhas, com os seus respectivos batedores, fosse na frente, montou o seu alazão do Don, e, depois de ter assobiado à sua própria matilha, atravessou a sebe e dirigiu-se aos campos que levavam à floresta de Otradnoie. O cavalo do velho conde, um alazão pequenino, de grandes crinas brancas, chamado Viflianka, era levado pela arreata por um estribeiro. O conde iria de carro para o lugar que lhe fora indicado.

Contavam-se ao todo cinquenta e quatro cães, conduzidos por seis monteiros ou guardas de canil. Além dos amos havia oito caçadores, com mais de quarenta galgos, de tal sorte que, no conjunto, para a caçada contavam-se cerca de cento e trinta cães e vinte caçadores montados.

Cada galgo conhecia bem o seu dono e dava pelo seu nome. Por sua vez, cada caçador sabia o que tinha a fazer e tinha um conhecimento preciso do seu posto e do papel que lhe cabia. Assim que atravessaram a sebe da floresta, todos, sem fazer ruído, sem pronunciar uma palavra, alinharam-se, simétrica e tranquilamente, pelos caminhos e pelos campos que levavam à mata de Otradnoie.

Os cavalos avançavam campos fora como por um tapete macio, patinhando por vezes nos charcos ao atravessarem os caminhos. A neblina continuava a descer sobre a terra, vagarosa e imperceptivelmente, fundindo-se com as coisas. De tempo a tempo ouvia-se quer o assobio de um caçador, quer o relincho de um cavalo, quer o estalido de um chicote ou o ganir de um cão chamado à ordem.

Já teriam andado uma versta quando emergiram do nevoeiro, ao encontro dos caçadores, mais cinco cavaleiros com os seus respectivos cães. À frente deles trotava um velho de agradável aspecto, fresca tez e fartos bigodes brancos.

- Bons dias, tio - disse Nicolau, quando o velho se aproximou dele.

- Muito bem, vamos a isto.., já desconfiava - disse o tio, parente afastado dos Rostov, não muito rico e seu vizinho -, já desconfiava que não te ias ficar, e fizeste bem. - «Muito bem, vamos a isto», era a sua expressão favorita. - Toma já conta da mata; o meu Guirtchik disse-me que os Ilaguine estão em Korniki com os seus homens. Vão-te roubar o rasto dos lobos; muito bem, vamos a isto! - Pois vamos. Será preciso reunir as matilhas? - perguntou Nicolau. - Que acha? Reuniram os cães numa só matilha e o tio lá foi ao lado de Nicolau. Natacha, enrolada no lenço donde emergia o rosto em que os olhos brilhavam, muito animados, aproximou-se deles a trote, seguida do Pétia, do seu caçador e do estribeiro Mikailo, encarregado pela velha ama de tomar conta dela. Pétia ria sem saber de quê, fustigando e excitando o cavalo. Natacha, segura e elegante, montava o seu Arabtchik e dirigia-o com mão firme e sem esforço.

O tio olhou, descontente, para Natacha e Pétia. Não lhe agradavam brincadeiras na caça, para ele coisa séria.

- Bons dias, bons dias, mas tenham cuidado, não pisem os cães - replicou o velho severamente.

- Nikolenka, olha o Trunila, que lindo cão! Conheceu-me! exclamou Natacha, apontando o seu cão de caça predilecto, «Em primeiro lugar. Trunila não é um cão como outro qualquer, é um cão de caça», disse Nicolau de si para consigo, fitando irmã com severidade, na esperança de lhe fazer compreender distância que os separava naquela altura. Natacha percebeu.

- Tio, não tenha medo que a gente os vá atrapalhar - disse-lhe ela. - Prometemos-lhe não sair do nosso posto.

- Muito bem, condessinha - volveu-lhe o tio. - Mas cuidado, não vão cair do cavalo, senão então, muito bem, vamos a isto!, nunca mais nos entendemos.

A tapada de Otradnoie já se via a umas cem sagenas e os caçadores principiavam a chegar. Rostov, que conseguira assentar definitivamente com o tio o local donde deviam ser largados os cães, e após ter indicado a Natacha o lugar em que ela fica- ria e por onde não podia passar animal algum, dirigiu-se para o mato, do outro lado da ravina.

- Tem cuidado, sobrinho, vais defrontar-te com um lobo velho. - disse o tio - Cautela, não vá ele fugir-te.

- É isso que se vai ver - retorquiu Rostov. - Karai (Nome que designa a cor: baio-escuro. (N, dos T.), aqui! - gritou ele, para responder às palavras do tio. Era um velho cão, muito feio, de pêlo ruço, afamado por atacar sozinho as velhas lobas. Toda a gente ocupou os seus postos. O velho conde, que bem conhecia a paixão do filho pela caça, dava-se pressa para não chegar atrasado, e ainda os caçadores não tinham ocupado os seus lugares já Ilia Andreitch, muito corado e folgazão, as bochechas trémulas, desembocava no meio dos trigais verdes, ao trote dos seus cavalos, nas imediações do posto que lhe fora designado. Desabotoando a peliça e tomando conta dos seus apetrechos de caça, montou o Viflianka, bom animal, bem tratado, luzidio e sossegado, que também principiava a envelhecer. A carruagem que o trouxera partia de regresso. Conquanto não fosse caçador de fibra, o certo é que conhecia a fundo as leis da caça. Foi colocar-se na clareira da floresta, colheu as rédeas, e depois de bem sentado na sela e em forma, sorrindo, olhou em roda.

Junto dele estava o seu criado de quarto. Simeão Tchekmar, velho cavaleiro, que principiava a ficar pesado. Tchekmar trazia trela três molossos vigorosos, mas gordos de mais, como acontecia ao cavalo e ao cavaleiro. Dois outros cães, animais inteligentes, sem trela, deitaram-se ali ao lado. A uns cem passos, na clareira do bosque, postava-se outro estribeiro do conde, um tal Mitka, calção temerário e apaixonado caçador. O conde, de acordo com as velhas usanças, antes da caçada bebeu um golo de vodka num copo de prata e trincou qualquer coisa regada com meia garrafa do seu bordéus favorito.

Ilia Andreitch, depois da caminhada e do vinho que bebera, corara um pouco. Os olhos, húmidos, tinham uma cintilação especial, e, encavalitado no selim, todo embrulhado na peliça, dir-se-ia uma criança que levam a passear.

Tchekmar, magro e de faces cavadas, cumprida que foi a sua tarefa, fitou o amo, a quem servia com a maior fidelidade havia mais de trinta anos, e, sentindo-o muito bem disposto, resolveu entabular com ele uma aprazível cavaqueira. Entretanto alguém se aproximou, circunspecto - via-se bem que assim o tinham instruído -, vindo do lado da floresta, e parou por trás do conde. Era um velho de barba branca, de casaco de mulher e gorro alto: nem mais nem menos que o bufão a quem chamavam Nastásia Ivanovna, nome de mulher.

- Olá. Nastásia Ivanovna! - exclamou o conde, em voz baixa, piscando o olho -, cautela, não espantes as feras, senão tens de te haver com o Danilo! - Ora essa! Já tenho barba na cara! - replicou Nastásia Ivanovna.

- Chiu! Cala-te... - sussurrou o conde, e voltando-se para Simeão - Viste a Natália Ilinitchna? - disse-lhe. - Onde está ela? - Com o Piotre Ilitch, à saída dos matagais de Jarov - replicou Simeão, sorrindo. - Também as senhoras querem meter o nariz...

- E se tu visses. Simeão, como ela monta a cavalo... - disse o conde. - Não fica atrás de qualquer homem! - Estou pasmado. De nada tem medo, e que ligeira! - E o Nikolenka? Onde está? Para os lados do barranco de Liadov, não é verdade? - perguntou o conde, sempre em voz baixa.

- Isso mesmo. Sim, senhor, ele sabe muito bem onde é que se há-de colocar. E aquilo é que é saber montar! No outro dia Danilo e eu ficámos pasmados - disse Simeão, que sabia muito bem como agradar ao amo.

- Monta bem, não é verdade? E que porte a cavalo, hem! - É uma estampa! Ainda há tempo, quando andava à caça nos matagais de Zarvazino e levantou um raposo, era vê-lo saltar, metia medo! O cavalo vale bem mil rublos, mas o cavaleiro não há dinheiro que o pague. Não há para aí outro menino assim! - Não há... - murmurou o conde, que parecia lamentar que Simeão tivesse acabado tão cedo o seu discurso. - Não há outro... - repetiu ele, afastando as abas da peliça para tirar a caixa do rapé.

- Há dias, quando ia a sair da missa, todo janota. Mikail Sidoritch... - Simeão não concluiu a frase, pois ouvira distintamente o latir de dois ou três cães. Pôs-se à escuta, inclinando a cabeça, e acenou ao amo em silêncio, para que este se calasse. - Vão atrás das feras... - murmurou. - Devem ter acabado de chegar ao barranco de Liadov.

O conde, ainda com um vago sorriso, olhava à distância, na sua frente, a mão em pala diante dos olhos e a caixa de rapé fechada, sem se lembrar de tomar a pitada. Depois do latido dos cães ouviu-se o grito: «Lobo», que soltava a voz de Danilo, cava como a duma trombeta. Toda a matilha veio juntar-se aos dois ou três primeiros cães e ouviu-se o alarido sonoro e prolongado do latido dos galgos, peculiar quando no encalço de um lobo. Os monteiros já não açulavam os cães e apenas gritavam: «A boca!», e sobre todas as demais vozes ouvia-se a de Danilo, ora grave, ora aguda e penetrante. Parecia encher toda a floresta e prolongar-se na distância.

Depois de algum tempo à escuta, calados, o conde e o estribeiro perceberam que os cães se tinham dividido em duas matilhas: a primeira, a mais numerosa, que ladrava com toda a força e se ia afastando a pouco e pouco, e a outra, que corria ao longo da mata, para os lados do conde, e era daí que se ouviam os «A boca!» de Danilo. O latir das duas matilhas misturava-se, cascalhava e ia-se afastando.

Simeão soltou um suspiro e agachou-se para ajeitar a trela em que um cachorro se havia enredado. Também o conde suspirou, e ao dar pela caixa de rapé na mão abriu-a e tirou uma pitada. «Para trás!», gritou Simeão a um dos cães que aparecera na clareira da floresta. O conde estremeceu e deixou cair a caixa do rapé. Nastásia Ivanovna desmontou e foi apanhar a caixa.

O conde e Simeão olhavam para ele. De súbito, como costuma acontecer, a vozearia aproximou-se: dir-se-ia que estavam mesmo ali o latir dos cães e a voz potente de Danilo, O conde virou-se e viu à sua direita Mitka a olhar para ele, com os olhos fora das órbitas, enquanto, de barrete na mão, lhe apontava alguma coisa lá adiante, do outro lado.

- Atenção! - gritou numa voz que, por muito tempo retida, parecia explodir, como um trovão, e pôs-se a galopar, atrás dos cães, na direcção do conde.

O conde e Simeão saíram da clareira e viram à sua direita o lobo, que, num curto galope, se dirigia para a orla do bosque que eles acabavam de deixar. Os cães, que ladravam raivosos, libertando-se da trela, lançaram-se sobre a fera mesmo sob as patas dos cavalos.

O lobo parou a custo, como se tivesse qualquer coisa no cachaço, voltou a grande cabeça para os cães e em dois ou três pulos desapareceu na orla da mata, agitando a cauda. No mesmo momento, da orla oposta, com um latido que parecia um lamento, surgiram primeiro um, depois dois, em seguida três cães, por fim a matilha inteira, todos correndo em direcção ao local por onde o lobo acabara de passar. Daí a pouco, por entre as aveleiras, surgiu o alazão de Danilo coberto de espuma. Sobre a sua larga garupa, numa bola, todo inclinado para diante, vinha ele, sem barrete, os cabelos brancos, esguedelhados, caindo-lhe para a cara, muito vermelha e coberta de suor.

- A boca! A boca! – gritava quando viu o conde, no seu olhar havia rancor.

- Arr... - vociferou, brandindo o látego, ameaçador. - Espantaram o lobo... Isto é que são caçadores! - E, como se reconhecesse que o conde, assustado e confuso, não merecia que lhe dissessem mais nada, fustigou o flanco do alazão, coberto de suor, vibrando-lhe os golpes que apetecia para o amo, e despediu na peugada dos cães. O conde, atordoado com tudo aquilo, voltou-se, tentando sorrir, como que a implorar a indulgência de Simeão. Este porém, que se afastava, contornava os matagais, para obrigar o lobo a sair do seu reduto. Os cães, por ambos os lados, continuavam a perseguir a fera, mas esta deslizara por entre os arbustos e nenhum caçador a pôde alcançar.

Capítulo V

Entretanto. Nicolau Rostov lá estava no seu posto esperando a fera. Consoante se distanciava ou se aproximava a matilha, conforme o latir dos cães, muito seu conhecido, e a voz dos monteiros, mais perto ou mais longe, ia acompanhando tudo quanto se passava na floresta. Sabia haver ali lobos velhos e crias novas, e também que as matilhas se tinham cindido em duas e que algures haviam desalojado uma fera e que a perseguição redundara em fracasso. A todo o momento esperava ver surgir um lobo na sua frente. Mil conjecturas lhe atravessavam o espírito acerca da direcção que o animal tomaria e a maneira de o atacar. A esperança nele alternava com o desalento. Por várias vezes implorara a Deus que lhe mandasse o lobo direito a ele. Rezava com um arrebatamento um pouco pueril, como acontece quando qualquer causa insignificante provoca uma violenta emoção. «Que Te custava fazeres isso por mim?», dizia ele. «Sei que És poderoso e que é talvez pecado pedir- Te uma coisa destas, mas rogo- Te, faz com que um lobo velho me apareça e que, diante de meu tio, que está ali a espreitar-nos. Karai lhe ferre os dentes no cachaço.» Milhares de vezes naquela meia hora Rostov percorreu de olhar obstinado, tenso, inquieto, a clareira do bosque, com os seus dois carvalhos de folhas ralas emergindo de um emaranhado de faias, o seu barranco de paredes abruptas e o barrete do tio, que mal se via por cima das moitas, à direita.

«Não, não vou ter essa sorte!», exclamava ele. «E isso que custava? Mas não terei essa sorte! É o que sempre me acontece em tudo, nas cartas, na guerra, só tenho azar!» Austerlitz e Dolokov perpassaram-lhe sucessivamente, com toda a nitidez, diante dos olhos. «Que ao menos uma vez na vida, uma só, me seja dado matar um lobo velho. Nada mais peço!», pensava, enquanto apurava o ouvido e perscrutava à direita e à esquerda, não lhe escapasse o mais pequeno rumor da perseguição.

De novo voltou a olhar para a direita e pareceu-lhe ver qualquer coisa correndo na sua direcção, através do campo deserto. «Não, não pode ser!», murmurou entre dentes, soltando um suspiro de satisfação, como um homem que vê finalmente realizar-se um sonho muito antigo. Ia cumprir-se um dos seus grandes desejos, e simplesmente, sem alarido, sem ostentação, sem qualquer circunstância particular. Não podia acreditar no que os olhos lhe mostravam, e por momentos essa dúvida manteve-se. Um lobo avançava diante dele, galgando pesadamente o barranco que lhe cortava o caminho. Era um animal já idoso, de lombo esbranquiçado, a barriga ruça e magra. Corria sem grande pressa, persuadido naturalmente de que ninguém o via. Rostov, a respiração suspensa, olhou para os cães. Uns estavam deitados, outros de pé, mas não tinham visto o lobo e não davam por coisa alguma. O velho Karai, de cabeça entre as pernas, caçava as pulgas, arreganhando os dentes amarelentos e, ferrando-os, irado, nas patas traseiras.

«A boca! A boca!», incitou Rostov, em voz baixa, estendendo os lábios. Os cães estremeceram e de um salto ficaram de orelhas espetadas. Karai deixou de mordiscar as patas, levantou-se, de orelhas espetadas também, e pôs-se a agitar a cauda, de que pendiam tufos de pêlo.

«Solto-os ou não?», perguntava Nicolau a si próprio, enquanto o lobo continuava a avançar para ele, afastando-se da floresta. De súbito houve uma mudança no aspecto da fera: parecia inquieto ao ver, coisa provavelmente nova para ele, olhos humanos fitos na sua corpulência, e, com a cabeça ligeiramente voltada para o caçador, estacou. «Que hei-de eu fazer: continuar a andar ou voltar para trás? Tanto faz! Adiante!», parecia dizer de si para consigo, e prosseguiu em frente, sem voltar a olhar para trás, em pulos suaves, espaçados, caprichosos, mas firmes.

«A boca! A boca!...», gritou Nicolau numa voz que não era a sua. E, de rompante, o seu bom cavalo lançou-se barranco abaixo, galgando os charcos, para ir cortar a retirada ao lobo. Mais rápidos ainda do que ele, os cães ultrapassaram-no. Nicolau não ouvia os seus próprios gritos, não se apercebia dos saltos que dava, não via os cães nem o terreno por onde galopava: só via o lobo, que, cada vez mais veloz, galgava os charcos sem mudar de direcção. Milka, a cadela preta, de larga anca, foi a primeira a aparecer nas imediações da fera e não tardou a seu lado. Cada vez se aproximava mais e mais... E eis que a apanha. Mas o lobo olhou-a de soslaio, e Milka, em vez de forçar a carreira, como era seu costume, alçou o rabo e apoiou-se nas patas dianteiras. «A boca! A boca!», gritava Nicolau.

O ruço Liubime surgiu na retaguarda de Milka, lançou-se a sete pernas sobre o lobo e ferrou-lhe os dentes nas patas tra- seiras. No mesmo instante, contudo, assustado, deu um salto para o outro lado. O lobo acocorou-se, rangendo os dentes e, erguendo-se de novo, de novo se lançou numa carreira, ganhando avanço, seguido, coisa de uma archina de distância, por toda a matilha, que o não podia apanhar.

«Escapa desta! Não, não pode ser!», disse Nicolau com os seus botões, e continuava a gritar em voz já rouca: «A boca! A boca!...», procurando com os olhos o seu velho cão, toda a sua esperança. Karai, com todas as suas forças de velho, puxando quanto podia pelo corpo, os olhos cravados na fera, corria, pesadamente, a seu lado, tentando cortar-lhe o passo. No entanto, a agilidade do lobo e a relativa lentidão do galgo indicavam claramente que os prognósticos do resultado seriam favoráveis ao lobo.

Nicolau estava a ver, diante dele, a pequena distância, a mata onde certamente o lobo iria embrenhar-se. Foi então que na sua frente surgiu um caçador e os seus cães, vindos ao seu encontro. Ainda havia uma esperança. Um cachorro, castanho-ruço, de longo corpo, desconhecido dele, e proveniente de uma matilha estranha, lançou-se sobre o lobo e quase o deitou a terra. Mas a fera, mais célere do que seria de esperar, soergueu-se e voltou-se, de dentes arreganhados, contra o cão, o qual, coberto de sangue, o flanco trucidado, mergulhou, de focinho na terra, despedindo uivos desesperados.

«Karaiuchka! Pobrezinho!...», murmurava Nicolau, quase a chorar.

O velho cão, as coxas cheias de tufos de pêlos a dar a dar, aproveitando a vantagem do que acontecera, já estava a uns cinco passos do lobo, pronto a cortar-lhe o passo. Como se pressentisse o perigo, a fera olhou de soslaio para Karai, colou a cauda ao ventre e forçou a marcha. Nessa altura Nicolau deu-se conta de que alguma coisa se estava a passar entre a fera e o cão. Num abrir e fechar de olhos. Karai caíra em cima do adversário e os dois foram rolar de cabeça num tremedal que se lhes abria adiante.

Foi para Nicolau um dos mais felizes momentos da sua vida aquele em que viu os dois animais chafurdando no barranco, o lombo grisalho do lobo a emergir da água, as patas traseiras entesadas, o focinho, de orelhas estiradas, que Karai abocanhava, aterrado e arquejante. Já se agarrava ao arção da sela, pronto a desmontar e acabar com o lobo, quando, de súbito, do meio da matilha, que acorrera, o focinho da fera se soergueu e as suas patas dianteiras surgiram no rebordo do barranco. O lobo arreganhou os dentes - Karai já lhe largara o cachaço -, ergueu-se, sobre as patas traseiras, fora do charco e depois, com o rabo entre as pernas, de novo liberto dos cães, ei-lo que dá às de vila-diogo. Por sua vez. Karai, o pêlo todo eriçado, contuso e ferido provavelmente, saiu também do fosso.

- Meu Deus! Que hei-de fazer? - exclamou Nicolau, desesperado.

O monteiro do tio surgiu a galopar, vindo de outro lado, para cortar o passo ao lobo, e de novo a fera se viu cercada pelos cães.

Nicolau, o seu estribeiro, o tio e o monteiro deste andavam à roda da matilha gritando «A boca!», prontos a desmontar de cada vez que o lobo assentava os quartos traseiros no solo, para de novo voltarem à perseguição assim que ele se refazia e tentava alcançar o matagal, onde estava o seu porto de salvamento.

Desde o principio da perseguição que Danilo ouvira os gritos dos caçadores e saíra da clareira. Vira o Karai enrolado com o lobo, e detivera a montada quando julgara tudo terminado. Mas como os caçadores não desmontavam, e o lobo, liberto dos seus inimigos, se preparava para fugir, ei-lo que lança o seu alazão, não contra a fera, mas em frente, na direcção da floresta, para assim, à imitação do que fizera Karai, lhe cortar a retirada. Graças a esta manobra caía a galope sobre o lobo no mesmo instante em que, pela segunda vez, os cães do tio o imobilizavam. Danilo galopava sem gritos, uma faca desembainhada ria mão esquerda, fustigando, rápido, os flancos tensos do cavalo.

Nicolau não vira nem ouvira nada de Danilo até ao momento em que o cavalo deste, arquejante, passou diante dele e em que sentiu como que a queda de um corpo e logo viu o monteiro, no meio dos cães, atacando o lobo pela retaguarda e tentando apanhá-lo pelas orelhas. Tomou-se evidente então, tanto para os cães como para os caçadores e para o próprio lobo, ser chegado o fim.

Assustada, de orelhas encolhidas, a fera tentou ainda soerguer-se, mas os cães assaltaram-na por todos os lados. Danilo, levantando-se, deu um passo a tropeçar e, com todo o peso do corpo, como se se deixasse cair na cama, precipitou-se sobre o animal, agarrando-o pelas orelhas. Nicolau quis atravessá-lo com a faca, mas Danilo murmurou-lhe: - Não é preciso, vamos amarrá-lo vivo. - E, mudando de posição, assentou um pé no pescoço da fera. Introduziram-lhe uma estaca nas goelas, amarraram-lhe uma corda, como se lhe atassem um baraço, laçaram-lhe as patas e Danilo, por duas ou três vezes, virou-o de um lado para o outro.

De parecer sorridente, embora cansados, os caçadores carregaram o lobo vivo no dorso de um cavalo, que relinchava, assustado, e, entre os latidos da matilha, puseram-se a caminho do local onde fora combinado reunirem-se. Uns a pé, outros a cavalo, toda a gente veio ver a fera que, com a sua cabeçorra tombada e uma estaca atravessada nas goelas, olhava com os grandes olhos vítreos a turbamulta de cães e de homens que a rodeava. Quando alguém lhe tocava, um frémito lhe agitava os membros amarrados, e havia nela ao mesmo tempo qualquer coisa de simples e de selvagem. Também o conde Ilia Andreitch lhe quis tocar.

- Ena! Que grande lobo! É velho, não é? - perguntou a Danilo, de pé junto da fera.

- É, sim. Excelência - replicou este, desbarretando-se, ligeiro.

O conde lembrou-se do lobo que deixara fugir e da imprecação de Danilo.

- Estavas muito zangado comigo, hem, rapaz! - segredou-lhe.

Danilo não respondeu; limitou-se a sorrir timidamente, com um sorriso infantil, doce e agradável.

voltar 123avançar