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Guerra e Paz
(volume ii - Quinta parte)

Leon Tolstoi

Capítulo I

Depois dos esponsais do príncipe André e de Natacha. Pedro, sem qualquer causa aparente, sentiu de súbito ser-lhe impossível continuar a vida que levava. Apesar da sua firme convicção nas verdades que lhe havia revelado o Benfeitor e da alegria que lhe provocava o trabalho de regeneração interior a que se entregara com tanto entusiasmo, depois do noivado do príncipe André, e sobretudo depois da morte de Osip Alexeievitch, de que tivera conhecimento quase na mesma altura, a vida para ele perdera por completo todo o seu encanto. Nada mais lhe ficou, por assim dizer, que o esqueleto da vida: a casa, a mulher, cada vez mais esplendorosa e gozando então das boas graças de uma personagem muito importante, as suas relações mundanas com todo Petersburgo e as funções que desempenhava, com o seu cortejo de indigestas formalidades. A vida que levava inspirou-lhe de súbito profundo horror. Deixou de escrever o diário, evitou a companhia dos irmãos mações, principiou a frequentar de novo o clube, voltou a beber, e muito, e passou a acamaradar outra vez com o grupo dos celibatários. A vida a que se entregou era de tal ordem que a condessa Helena Vassilievna se sentiu na obrigação de o repreender severamente. Pedro achou que ela tinha razão e abalou para Moscovo, disposto a não comprometer mais a mulher.

Quando entrou no seu imenso palácio, com as princesas, que mais pareciam múmias, e os seus numerosos criados, quando viu, ao atravessar a cidade, a capela da Virgem 1verskaia, com os seus inumeráveis círios acesos diante de ícones de molduras douradas, e pôs os olhos na Praça do Kremlin, com a sua neve quase imaculada, quando tomou a ver os cocheiros e as vetustas casas de Sivtsev Vrajek (Uma rua de Moscovo. (N, dos T.), os velhos moscovitas, que nada desejavam e lá iam acabando tranquilamente os seus dias, as senhoras, os bailes e o clube inglês, foi como se se sentisse em sua própria casa, num verdadeiro porto de abrigo. Moscovo era para ele como um velho roupão, confortável, quentinho, a que estivesse habituado, embora um tanto sujo.

Toda a sociedade moscovita, a principiar nos velhos e a acabar nos mais novos, acolheu Pedro como um hóspede de há muito esperado, cujo lugar estivera devoluto sempre preparado para o receber. O conde era para essa gente o mais encantador, o melhor, o mais inteligente, o mais alegre, o mais generoso dos originais, o tipo por excelência do fidalgo russo à moda antiga, distraído e generoso. De tão abertas para todos, andava sempre de algibeiras vazias. Estava sempre pronto a auxiliar espectáculos de caridade, a adquirir quadros e estátuas sem mérito, a ajudar sociedades de beneficência, ciganas, escolas, subscrições para jantares, orgias, irmãos maçónicos, colectas de igreja, publicações de obras, e, se não fossem dois ou três amigos que lhe pediam emprestadas grossas maquias e o haviam posto praticamente sob tutela, acabaria por distribuir tudo quanto tinha. No clube não havia jantar ou recepção a que ele não comparecesse. Assim que se afundava no seu lugar habitual no divã, após ter ingerido duas ou três garrafas Château-Margaux, formava-se uma roda em tomo dele e principiavam as discussões, as pilhérias, as anedotas. Se alguém se irritava. Pedro, com o seu bom sorriso e uma palavra cordata dita a tempo, restabelecia a boa disposição. As lojas maçónicas, se ele não estava, eram enfadonhas e tristes.

Quando, depois de uma ceia de solteirões, acedendo ao desejo dos convivas joviais. Pedro se levantava, com o seu bom e doce sorriso, disposto a acompanhá-los, gritos de vitória e satisfação prorrompiam de entre os mais jovens. Nos bailes, se faltava um par, lá estava ele para dançar. Agradava às senhoras e às meninas, visto que, sem cortejar nenhuma, se mostrava indistintamente amável com todas, sobretudo depois da ceia. «É encantador, não tem sexo», diziam dele.

Pedro fazia parte do número desses camaristas na inactividade, às centenas em Moscovo, que terminam os seus dias na maior tranquilidade.

Grande indignação teria sido a sua, se sete anos antes, ao desembarcar, de regresso do estrangeiro, alguém lhe houvesse dito que nada tinha nem a procurar nem a imaginar, pois o seu caminho de há muito estava traçado para sempre e que fizesse ele o que fizesse viria a ser o que haviam sido todos os outros na mesma situação do que ele! Pois não desejara, de todo o seu coração, implantar a república na Rússia ou ser um Napoleão ou um filósofo, ou o estratego que venceria o imperador? Não fora ele quem julgara possível a regeneração do género humano e apaixonadamente a desejava, contando chegar ao mais alto grau de aperfeiçoamento moral? Não fora ele quem fundara escolas e hospitais e dera liberdade aos seus servos? E em vez de tudo isso, que era ele afinal? O marido rico de uma mulher infiel, um camarista reformado, o bom copo e o bom garfo que, à vontade depois de um bom jantar, se põe comedidamente a criticar o governo. E ali estava o membro do clube inglês de Moscovo e ai-jesus da sociedade moscovita. Durante muito tempo custou-lhe a acreditar que era isso mesmo, o tipo do camarista moscovita na inactividade, essa personagem a quem tão profundamente desprezava sete anos antes.

Por vezes consolava-se dizendo ser apenas momentânea a vida que levava, mas logo o aterrorizava a ideia de que muitos como ele também se haviam dado momentaneamente a tal vida, àquela existência de clube ainda com todos os cabelos na cabeça e todos os dentes na boca, tendo chegado ao fim carecas e desdentados.

Nas suas horas de orgulho, quando se punha a reflectir no que era, dizia de si para consigo não se parecer em coisa alguma com esses tais camaristas a quem outrora desprezara, com essas criaturas vulgares e estúpidas, contentes e satisfeitas consigo próprias. «Eu, pelo contrário, actualmente, não me sinto satisfeito com coisa alguma, continuo a desejar fazer seja o que for para bem da humanidade», pensava então. «Mas, quem sabe? Também eles, actualmente meus companheiros, se atormentaram assim, procurando como eu um novo caminho na vida e, tal como eu, vítimas da força das circunstâncias, do meio, do nascimento, escravos desta tirania dos elementos contra a qual o homem nada pode, todos eles se viram arrastados para a situação em que eu próprio estou», dizia de si para consigo nas horas de modéstia. E ei-lo que depois de alguns meses de Moscovo, em vez de os desprezar, pusera-se a amá-los, a estimá-los e a lamentá-los, como se eles fossem ele próprio, esses seus pobres companheiros de infortúnio.

Já o não assaltavam, como antigamente, momentos de desespero, desgosto e hipocondria. A doença, que antes se lhe manifestava por violentos acessos, fora recalcada para o seu íntimo, sem por isso deixar de o atormentar. «Para quê? Porquê? Que drama se representa no mundo?», perguntava-se a si próprio, angustiado, muitas vezes ao dia, procurando, debalde, compreender o sentido dos fenómenos da vida. Sabendo, porém, que as suas interrogações ficariam sem resposta, dava-se pressa em desviar delas o pensamento. Pegava num livro, ia até ao clube ou punha-se a tagarelar com Apolo Nikolaievitch sobre os escândalos da cidade.

«Helena Vassilievna, que nunca amou nada além do seu belo corpo e é uma das mais estúpidas mulheres à face da Terra», repetia Pedro com os seus botões, «aos olhos do mundo é como que o supra-sumo do espírito e da inteligência, e toda a gente se prosterna diante dela. Napoleão Bonaparte, enquanto foi um grande homem todos os desprezaram, e agora, que não passa de um desprezível comediante, até o imperador Francisco lhe ‘oferece a filha por concubina. Os Espanhóis rendem graças a Deus, por intermédio do clero católico, por lhes haver concedido derrotarem os Franceses no dia 14 de Junho e os Franceses fazem outro tanto, por intermédio do mesmo clero, por no mesmo dia 14 de Junho igualmente terem vencido os Espanhóis (Alusão ao cerco do Convento de Santa Cruz, pelo marechal Ney, em Junho de 1810. (N, dos T.). Os meus irmãos pedreiros-livres juram, pelo sangue das suas veias, estarem prontos a tudo sacrificar por amor do próximo, e não se dignam dar um rublo sequer no peditório para os pobres. E intrigam, tomando o partido da Astreia contra o dos Buscadores do Maná, prestando-se a todas as baixezas para conseguirem o verdadeiro ‘tapete’ escocês e uma acta que ninguém percebe, nem mesmo aquele que a redigiu, nada significando, nem tendo qualquer préstimo. Todos nós professamos a lei cristã, que manda perdoar as injúrias e amar o próximo, e em nome desta lei erigimos em Moscovo quarenta vezes quarenta igrejas (Antigo hábito eslavo de contar por quarenta. (N, dos T.), embora ainda ontem açoitássemos de morte um desgraçado desertor a quem o ministro desta mesma lei de amor e perdão, o sacerdote, deu a cruz a beijar antes do suplício.» Assim meditava Pedro, e esta geral hipocrisia, aceita por todos, apesar do hábito que dela tinha, todos os dias o revoltava como se fosse um caso novo.

«Sinto-as, vejo-as por todo o lado, esta hipocrisia e esta cegueira», prosseguia ele ainda, «mas onde arranjar palavras para explicar-lhes tudo quanto tenho a dizer-lhes? Sempre que o tentei, pude verificar que lá no fundo eram todos da minha opinião, mas que se negavam a reconhecer o facto. É possível que assim tenha de ser! Mas eu, que destino será o meu?...» Pedro gozava deste triste privilégio, frequente em muitos homens, mas especialmente nos Russos, graças ao qual, embora acreditem na verdade e no bem, com tanta clareza vêem o mal e a mentira dos humanos que lhes faltam forças para os combater a fundo. A seus olhos, todos os domínios da actividade humana estavam imbuídos do mal e da mentira. Fizesse o que fizesse, tentasse o que tentasse, sempre se sentia repelido por esta mentira perpétua: todas as vias da actividade humana se lhe fechavam. E no entanto era preciso viver, algo tinha de fazer, apesar de tudo. Deixar-se esmagar sob o peso destes problemas insolúveis, eis o que se lhe afigurava horrível, e por isso mesmo, quanto mais não fosse para esquecê-los, entregava-se ao que quer que houvesse a fazer. Frequentava todas as sociedades, bebia muito, coleccionava quadros, erigia castelos no ar e lia, lia principalmente.

Lia, lia tudo o que lhe vinha à mão, e de tal maneira que até mesmo à noite, quando o criado o ajudava a despir, continuava a ler. Finda a leitura, vinha o sono, e, findo o sono, era a conversa dos salões e do clube, da conversa passando às orgias e às mulheres, e, das orgias, voltando outra vez à conversa, à leitura e ao vinho. Beber tornara-se para ele uma necessidade ao mesmo tempo física e moral. Não obstante a opinião dos médicos, que o advertiam de quanto o vinho lhe era prejudicial devido à sua corpulência, continuava a beber furiosamente. Não se sentia bem senão quando, quase inconsciente, depois de despejar uma boa dose de copos de vinho, sentia então por todo o corpo uma agradável sensação de calor, e todo ele era ternura para com o semelhante e tendência para abordar todos os problemas sem ir ao fundo de nenhum.

Só depois de haver despejado uma ou duas garrafas percebia vagamente que aquele nó tão terrível e complicado da existência, nó que o enchia de horror, era afinal menos medonho do que ele imaginava. Com a cabeça a zumbir, falando, ouvindo as conversas alheias ou lendo após as refeições, a seu lado lá estava sempre aquele nó que era preciso cortar. Apenas sob a acção do vinho, porém, dizia de si para consigo: «Não é nada. Hei-de desatá-lo... Sim, tenho uma explicação ao meu alcance. Por agora falta-me tempo. Depois pensarei nisso.» Este «depois», contudo, nunca chegava.

Pela manhã, ainda em jejum, os mesmos problemas lhe apareciam tão insolúveis e terríveis como sempre, e ei-lo que se dava pressa, então, de pegar num livro, e, se alguém o vinha visitar, ficava encantado.

Às vezes lembrava-se de ter ouvido contar que os soldados na guerra, nas linhas avançadas, sob o fogo do inimigo, quando ociosos, procuravam uma ocupação qualquer para mais facilmente esquecerem o perigo. A seus olhos os homens sempre procediam como esses soldados, na esperança de se esquecerem da vida, e davam-se à ambição, ao jogo, elaboravam leis, entretinham-se com mulheres, divertiam-se, criavam cavalos, dedicavam-se à política, ou à caça, ou ao vinho, ou aos negócios públicos. <Em conclusão, nada há desprezível, nada há importante, tudo é indiferente», pensava Pedro, «desde que uma pessoa saiba subtrair-se a essa, realidade da vida, desde que uma pessoa se não veja frente a frente com a vida, esta terrível vida!»

Capítulo II

No princípio do Inverno o príncipe Nicolau Andreievitch Bolkonski veio instalar-se com a filha em Moscovo. Graças ao seu passado, à sua inteligência e à sua originalidade, mercê sobretudo de um amortecimento, naquela altura, do entusiasmo que o reinado do imperador Alexandre provocou e também do renascimento dos sentimentos antifranceses e patrióticos que então reinava nos espíritos, logo ele se tomou para os Moscovitas o objecto de um respeito muito particular e o fulcro da oposição ao Governo.

O príncipe envelhecera muito naquele ano. Já dava indiscutíveis indícios de senilidade: ficava-se a dormir intempestivamente, esquecia acontecimentos recentíssimos, recordando-se, em compensação, dos factos mais remotos e aceitava com uma infantil vaidade o papel de chefe da oposição moscovita. Apesar disto, quando, especialmente nas recepções, aparecia à hora do chá, de peliça curta e cabeleira empoada, e alguém o provocava, dando-se a contar, entrecortadamente, como sempre, anedotas de antanho, e formulando sobre o tempo presente juízos incisivos, em geral o sentimento de respeito que então provocava entre os seus convidados aquele velho palácio, com os seus grandes tremós, o seu mobiliário anterior à Revolução, os seus lacaios de cabeleira empoada e aquele velho do século passado, de modos bruscos mas inteligente, com uma filha tímida e uma francesa bonita, que o veneravam, representava para as visitas um espectáculo cheio de encanto. O que todos ignoravam, porém, é que, para além das duas ou três horas em que viam os donos da casa, havia vinte e duas de uma vida íntima e secreta. Nos últimos tempos, em Moscovo essa vida tornara-se extremamente penosa para a princesa Maria. Faltavam-lhe as suas maiores alegrias: as longas conversas com os Homens de Deus e a solidão que em Lissia Gori a reconfortava de todos os seus desgostos. E em contrapartida não lhe era dado gozar de qualquer das vantagens e distracções da vida da capital. Não frequentava a sociedade; toda a gente sabia que o pai a não deixava sair sozinha e que ele, em virtude da precária saúde, a não podia acompanhar. Bis porque a não convidavam para jantares ou recepções. Perdera toda a esperança de casar. A frieza e o azedume com que o pai desde logo acolhia, para depois afastar, todos os rapazes em situação de a pedirem em casamento que porventura se atreviam a frequentar-lhe a casa eram do conhecimento público. Tão-pouco tinha amigas. Desde que chegara a Moscovo perdera todas as ilusões sobre a conduta de duas pessoas a quem consagrara uma grande afeição. Mademoiselle Bourienne, com quem já não podia ser inteiramente franca, era-lhe agora abertamente desagradável, e Maria tinha razões para a manter afastada. Júlia, que vivia em Moscovo, e com quem se carteara cinco anos, tornara-se-lhe uma estranha mal tivera oportunidade de privar directamente com ela. Esta sua amiga, que depois da morte dos irmãos se convertera numa das mais ricas herdeiras de Moscovo, dera-se de corpo e alma ao turbilhão dos prazeres mundanos. Andava sempre rodeada de uma chusma de rapazes que, assim ela pensava, de um momento para o outro se tinham posto a apreciar-lhe os méritos. Chegara àquele período da vida das meninas de sociedade já maduras em que estas sentem ser o momento de aproveitar a última oportunidade, caso contrário nunca mais encontrarão marido. A princesa Maria, com um melancólico sorriso, todas as quintas-feiras se lembrava de que já a ninguém tinha que escrever, visto Júlia, essa Júlia cuja presença lhe não dava já qualquer alegria, viver a dois passos e todas as semanas se encontrarem. Tal qual esse velho emigrado que não quisera casar com a senhora em casa de quem passara todos os seus serões durante anos, ei-la que lamentava agora estar Júlia tão perto dela, privando-a assim de lhe escrever. Em Moscovo ninguém mais tinha com quem falar e a quem confiar as suas tristezas, e agora muitas preocupações novas a torturavam. A data do regresso do príncipe André aproximava-se e o seu casamento também, e o certo é que ela não só se não desempenhara da missão de que ele a encarregara junto do pai, preparando-o para isso, como essa missão se lhe afigurava inútil: bastava ouvir o nome dos Rostov para o velho príncipe perder as estribeiras; aliás estava sempre de má catadura. As demais preocupações que a afligiam viera juntar-se nestes últimos tempos as das lições que dava ao sobrinho, de seis anos. Verificara com terror no decurso destas lições dar mostras de uma irritabilidade muito semelhante à do seu velho pai. Por mais que a si própria dissesse que não devia exasperar-se, sempre que pegava no alfabeto francês para dar lição ao sobrinho, tão apressada se mostrava em iniciá-lo em tudo que ela própria sabia que à mais pequena desatenção da criança, de antemão receosa de encolerizar a tia, ficava nervosa, impacientava-se, exaltava-se, levantava a voz, chegando a dar-lhe beliscões e a mandá-la de castigo para o canto da casa. Depois de a castigar, chorava, acusando-se a si própria de ser má, e Nikoluchka, choroso também, lá vinha do seu canto, sem autorização, e aproximando-se da tia, num gesto carinhoso, puxava-lhe as mãos da cara húmida de lágrimas, consolando-a. O que mais a afligia no entanto era o carácter irascível do pai, que a tomara de ponta e cada vez estava mais duro para com ela. Se ele se lembrasse de a mandar passar a noite de joelhos, se lhe batesse, se a obrigasse a acarretar lenha ou água, nunca lhe teria passado pela cabeça considerar isto qualquer coisa de penoso; mas aquele verdugo, cruel sobretudo por muito lhe querer, e essa era a razão por que a atormentava a ela e se atormentava a si próprio, de propósito, não só a ofendia e humilhava, mas a todo o momento lhe queria mostrar como em tudo e por tudo procedia mal. Nos últimos tempos um facto novo surgira que ainda mais penalizara a princesa Maria: as atenções que ele tributava a Mademoiselle Bourienne. Desde que soubera da inclinação do filho, metera-se-lhe na cabeça a tola mania de casar com Mademoiselle Bourienne caso André teimasse na sua ideia. Parecia sorrir-lhe esta perspectiva e naqueles últimos tempos, apenas para a humilhar - assim pensava Maria - dava-se ao capricho de se mostrar particularmente atencioso para com a francesa e irritado para com a filha, como se estivesse enamorado daquela.

Um dia, em Moscovo, diante de Maria, que bem vira tê-lo ele feito de propósito, o velho príncipe beijou a mão de Mademoiselle Bourienne, e, puxando-a para si, abraçou-a com certa intimidade. A princesa Maria, muito corada, saiu da sala. Daí a pouco. Mademoiselle Bourienne veio ter com ela, muito sorridente, e pôs-se a contar-lhe qualquer coisa alegre com voz insinuante. Maria enxugou as lágrimas que lhe humedeciam o rosto, aproximou-se dela em passo resoluto e sem se dar conta do que fazia, num acesso de cólera, gritou-lhe: «É feio, é baixo, é inumano tirar partido da fraqueza... » E sem concluir a frase: «Saia, saia daqui», acrescentou, já em soluços.

No dia seguinte o príncipe não lhe dirigiu a palavra, e ao jantar Maria notou que ele dera ordem ao criado para servir Mademoiselle Bourienne em primeiro lugar. No fim da refeição, quando o lacaio, conforme o costume, servia o café principiando pela princesa, o príncipe, num súbito ataque de ira, atirou a bengala à cabeça do criado e imediatamente lhe deu ordem para que se alistasse como soldado.

- Não ouviste?... Disse-o duas vezes... Não ouviste? É a primeira pessoa da casa. É a minha melhor amiga! - vociferou ele - E tu - acrescentou, iracundo, dirigindo-se à filha pela primeira vez desde a véspera -, se te atreveres, se ousares outra vez, como ontem.., esqueceres-te diante dela, eu te ensinarei quem é aqui o dono da casa. Fora, que eu te não volte a ver. Pede-lhe perdão.

A princesa Maria pediu perdão a Mademoiselle Bourienne e ao pai, em seu nome e no do lacaio Filipe, que lhe rogara intercedesse por ele.

Em tais momentos Maria sentia na alma um sentimento a que poderia dar-se o nome de orgulho do sacrifício. Logo em seguida, porém, aquele pai, a quem ela censurava, punha-se à procura das lunetas, às apalpadelas, sem ver, esquecendo coisas que acabavam de suceder, ou as débeis pernas lhe faziam dar um passo em falso, e ele voltava a cabeça para ver se alguém dera por isso ou, coisa bem pior ainda, quando não havia convidados ficava-se a dormir sentado à mesa, o guardanapo caído, enquanto a cabeça trémula lhe pendia para o prato... «Tão velho e fraco e eu atrevo-me a censurá-lo!», pensava a princesa, horrorizada consigo própria.

Capítulo III

Em 1810 vivia em Moscovo um médico francês que gozava de grande voga. Era alto, elegante, amável, como todos os franceses e, segundo se dizia em Moscovo, de extraordinário talento. Chamava-se Métivier. Na alta sociedade recebiam-no mais como amigo que propriamente como médico.

O príncipe Nicolau Andreievitch, que ria da medicina, aconselhado por Mademoiselle Bourienne, chamara-o nesses últimos tempos e acostumara-se a ele. Métivier visitava o príncipe duas vezes por semana.

No dia de S. Nicolau, festa onomástica do velho, todo Moscovo se apresentou em sua casa, mas ele deu ordem para não, receberem ninguém, salvo as pessoas íntimas, cuja lista confiara a Maria e a quem esta convidou para jantar.

Métivier, que viera pela manhã apresentar as suas felicitações, julgou conveniente, na sua qualidade de médico, forçar as ordens dadas, segundo disse à princesa Maria, e entrou para ver o príncipe. Aconteceu precisamente que nessa manhã o velho príncipe se achava num dos seus dias de má disposição. Começara o dia de um lado para o outro repreendendo toda a gente e fingindo não perceber o que lhe diziam e não ser compreendido pelos outros. Por de mais conhecia Maria este estado de espírito em que o pai se mostrava de uma irascibilidade concentrada e aparentemente serena, e que, geralmente, terminava num ataque de fúria. Toda a manhã se sentira por isso como diante do cano de uma espingarda carregada, sempre à espera do tiro inevitável. Tudo correra bem até ao momento da chegada do médico. Depois de o ter acompanhado, foi sentar-se, com um livro, no salão, junto da porta donde poderia ouvir o que se passava no gabinete.

De princípio apenas lhe chegou aos ouvidos a voz de Métivier, depois ouviu a voz do pai e por fim as de ambos, que falavam ao mesmo tempo. Subitamente a porta abriu-se de par em par, surgindo no limiar a alta estatura do médico, com a sua carapinha preta e a cara espantada, e logo atrás o príncipe, de barrete de dormir e roupão, a máscara descomposta e os olhos fora das órbitas.

- Não compreendes? - gritava-lhe ele, - Mas eu compreendo perfeitamente! Espião francês, lacaio de Bonaparte, espião, fora daqui! Fora daqui, fora daqui!... - E fechou-lhe a porta nas costas. Métivier, encolhendo os ombros, aproximou-se de Mademoiselle Bourienne, que acorrera, vinda da sala contígua, ao ouvir a gritaria.

- O príncipe não está muito bem de saúde. Está bilioso e delira. Mas sosseguem, ou volto amanhã - disse, pondo um dedo nos lábios, a pedir silêncio, saindo apressadamente.

Por detrás da porta ouviram-se os chinelos de quarto do príncipe e exclamações: «Espiões! Traidores! Traidores por toda a parte! Já não 1)ode uma pessoa estar sossegada em sua casa!» Depois da saída de Métivier, o velho príncipe chamou a filha e sobre ela despejou toda a sua indignação. Era Maria quem tinha a culpa de aquele espião haver entrado em sua casa. Pois não fizera ele uma lista e não dera ordem para não deixarem entrar quem nela não figurasse? Porque tinham então aberto a porta àquele miserável? A culpa era dela. Por sua causa não podia ter um minuto de repouso, não podia morrer tranquilo - disse-lhe ele.

- Sim, minha menina, temos de nos separar, temos de nos separar! Fica sabendo, sim, fica sabendo! Já não posso mais - prosseguiu ele, dando um passo para a porta. E receoso, naturalmente, de que ela não tomasse a sério as suas palavras, voltou atrás e acrescentou, procurando manter a serenidade: - E não julgues que te digo isto num momento de exaltação. Estou sereno, tenho pensado muito e a minha última palavra é esta: separemo-nos. Arranje onde ficar!... - Não se conteve todavia por muito tempo e numa exaltação, só possível talvez no homem que muito ama, ergueu os punhos ameaçadores para a filha, ele próprio presa de um grande sofrimento, gritando: - Ainda se houvesse um imbecil que casasse com ela! - Em seguida bateu com a porta, mandou chamar Mademoiselle Bourienne ao seu gabinete e sossegou.

As duas horas chegaram as seis pessoas convidadas para jantar: o célebre conde Rostoptchirie, o príncipe Lopukhine, com o sobrinho, o general Tchatrov, velho camarada do príncipe, e, entre os jovens, Pedro e Bóris Drubetskoi. Todos o aguardaram no salão.

Bóris, havia pouco chegado a Moscovo em gozo de licença, desejara ser apresentado ao príncipe Nicolau Andreievitch e tão bem soubera conquistar-lhe as graças que este abrira uma excepção a seu favor, visto não receber jovens solteiros.

O palácio do príncipe não estava classificado entre as casas consideradas «da sociedade»: frequentava-o uma pequena roda, de que pouco se falava; contudo ser nele admitido constituía uma honra. Eis o que Bóris pudera perceber oito dias antes, quando, na sua presença, o conde Rostoptchine respondera ao general-governador, que o convidava para o jantar no dia de S. Nicolau, não poder aceitar o convite: - Nesse dia vou, sempre venerar as relíquias do príncipe Nicolau Andreievitch.

- Ah, sim, é verdade - respondera o general - E ele como vai? O pequeno grupo reunido antes do jantar no salão à moda antiga, com o seu velho mobiliário, dava a impressão de um conselho solene de juizes convocado para tomar uma deliberação. Mantinha-se calado, e quando alguém falava era em voz baixa.

O príncipe Nicolau Andreievitch estava grave e silencioso. A princesa Maria parecia mais tímida e doce do que nunca. Raramente os convidados lhe dirigiam a palavra, certos de que lhe não interessava o que estavam dizendo. Quem conduzia a conversa era o conde Rostoptchine, que falava dos últimos acontecimentos políticos e das novidades da capital. Tanto Lopukhine como o velho general poucas vezes abriram a boca.

O príncipe Nicolau Andreievitch ouvia, como um juiz supremo ouve a informação que lhe prestam, limitando-se a mostrar com o silêncio ou algumas breves palavras tomar nota do que lhe diziam. Tal era o tom da conversa, que logo se percebia ninguém aprovar o que estava acontecendo nos meios políticos.

O que se dizia dos acontecimentos confirmava plenamente irem as coisas de mal a pior. No entanto, algo era de notar no que cada um dizia ou no que cada um opinava: que o narrador se interrompia ou se via interrompido sempre que se aproximava daquele ponto em que a personalidade do imperador poderia estar em causa.

Durante o jantar falou-se das últimas novidades políticas: da ocupação pelo imperador dos Franceses do grão-ducado de Oldemburgo e da nota russa, muito hostil à França, endereçada a todas as cortes da Europa.

- Bonaparte procede para com a Europa como um pirata na ponte de um navio conquistado - disse o conde Rostoptchine, repetindo uma frase que lhe andava na boca de há tempo àquela parte. - O que me surpreende é a apatia ou a cegueira dos reis. Agora é o papa quem está em jogo, e Bonaparte, que perdeu a vergonha, parece disposto a derrubar o chefe supremo da Igreja, e toda a gente fica calada! Só o nosso imperador protestou contra a ocupação do grão-ducado de Oldemburgo. E ainda isso... Rostoptchine calou-se, sentindo que chegara ao extremo limite onde todos os juízos eram suspensos.

- Ofereceram-lhe outras possessões em troca do ducado de Oldemburgo - interveio o príncipe Nicolau Andreievitch. - Procede para com os duques como eu para com os meus mujiques quando transportei os meus camponeses de Lissia Gori para Bogutcharovo e os meus domínios de Riazan.

- O duque de Oldemburgo enfrenta a desgraça com uma força de ânimo e uma resignação admiráveis - disse Bóris, tomando parte na conversa em tom respeitoso.

Falava desta maneira porque no momento de deixar Petersburgo tivera a honra de ser apresentado ao duque. Nicolau Andreievitch fitou o mancebo como se fosse sua intenção responder-lhe, mudando de parecer por julgá-lo, talvez, novo de mais.

- Li o nosso protesto a propósito deste caso e fiquei surpreendido com a deplorável redacção dessa nota - comentou Rostopchine, no tom indiferente de quem fala dum assunto muito do seu conhecimento.

Pedro olhou para ele com uma surpresa ingénua, sem compreender porque o preocupava tanto aquela má redacção.

- O estilo que importa, conde - observou ele -, desde que o fundo seja enérgico? - Parece-me, meu caro, que os nossos quinhentos mil homens nas fileiras deveriam inspirar-nos um bom estilo - disse Rostoptchine.

Pedro compreendeu então porque o inquietava, ao conde, a redacção da nota.

- Parece-me que escribas não faltam agora - voltou o velho príncipe. - Lá em Petersburgo não fazem senão escrever, e não apenas notas, volumes inteiros cheios de novas leis. O meu Andriucha, só à sua parte, compôs um livro de leis para a Rússia. Hoje em dia passa-se a vida a escrever! - acrescentou, com um sorriso forçado.

A conversa cessou por um momento. O velho general chamou a atenção, tossicando.

- Ouviram falar do que aconteceu na parada de Petersburgo? Aquele comportamento do novo embaixador de França! - Ah, sim, contaram-me: deu uma resposta inconveniente a Sua Majestade.

- Sua Majestade chamara-lhe a atenção para a divisão de granadeiros e o seu desfile em passo de parada - prosseguiu o general - e, ao que parece, o embaixador não só lhe não prestou a mínima atenção como se permitiu mesmo dizer-lhe que no seu país, em França, ninguém se preocupava com bagatelas daquela espécie. O imperador não se dignou responder e na parada seguinte, segundo se diz, nem uma só vez lhe dirigiu a palavra.

Toda a gente se conservou calada. Como o facto se referia ao imperador, não era possível fazer qualquer comentário.

- Insolentes! - exclamou o príncipe. - Conhecem o Métivier? Pu-lo na rua esta manhã. Apareceu aí, deixaram-no entrar, embora eu tivesse dado ordens para não permitirem a entrada fosse a quem fosse - acrescentou, lançando um olhar irritado à filha. E pôs-se a contar o que se passara entre ele e o francês, e as razões que o levavam a acreditar tratar-se de um espião. Embora as suas razões fossem praticamente improcedentes e muito pouco claras, ninguém fez qualquer objecção.

Depois do assado foi servido o champanhe. Os convidados ergueram-se para felicitar o velho príncipe. Maria também se aproximou.

O príncipe olhou-a com frialdade e dureza enquanto lhe oferecia a rugosa cara barbeada de fresco. Maria compreendeu que a conversa dessa manhã não estava esquecida e que a resolução do pai se mantinha inabalável; só a presença dos convidados o retinha.

Quando passaram ao salão para tomar o café, os velhos sentaram-se todos juntos.

O príncipe Nicolau Andreievitch animou-se um pouco mais e expôs o que pensava a respeito da guerra futura.

Disse que as guerras com Bonaparte não teriam êxito enquanto os Russos se obstinassem em procurar aliar-se aos Alemães e interviessem nos assuntos europeus, e a isso se viam arrastados pela paz de Tilsitt. - Os Russos não deviam intervir nem contra a Áustria nem a seu favor. A nossa política está toda no Oriente, e, no que diz respeito a Bonaparte, só temos uma coisa a fazer: armar a nossa fronteira e mostrarmo-nos firmes. Eis a maneira de ele nunca mais transpor a nossa fronteira, como aconteceu em 1807.

- E como poderíamos lutar contra os Franceses, príncipe? - interrogou então o conde Rostoptchine - Poderemos acaso armar-nos contra nossos amos e deuses? Ponde os olhos na nossa juventude, olhai para as senhoras da nossa sociedade. Os nossos deuses são os Franceses, o nosso éden é Paris - prosseguiu mais alto, naturalmente para que todos o ouvissem - Modas francesas, ideias francesas, sentimentos franceses, tudo é francês! Pôs na rua o Métivier, por ser francês e canalha, mas as nossas belas damas rojam-se-lhe aos pés. Ainda ontem estive numa recepção: das cinco senhoras presentes, três eram católicas e bordavam ao domingo, com autorização especial do papa. Pois estavam quase nuas como se fossem tabuletas de um balneário, com sua licença. Ah!, príncipe, quando ponho os olhos na nossa juventude, vêm-me ganas de ir buscar o bastão de Pedro, o Grande, ao museu e de lhe dar uma sova à russa. Talvez assim lhe passasse a maluqueira! - Fez-se silêncio. O velho príncipe olhava Rostoptchine, aprovando com a cabeça, o rosto iluminado por um sorriso.

- Bom, adeus, excelência. Muita saúde! - acrescentou Rostoptchine, erguendo-se e estendendo a mão ao príncipe, com a brusquidão que lhe era peculiar.

- Adeus, meu caro. E o teu gussli (Espécie de saltério. (N, dos T.)? Sempre gostei muito de o ouvir - disse o velho príncipe, retendo entre as suas as mãos de Rostoptchine, enquanto lhe dava a cara a beijar. Seguindo o exemplo de Rostoptchine, os demais ergueram-se também.

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