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Guerra e Paz
(volume ii - Terceira parte)

Leon Tolstoi

Capítulo I

Em 1808, o imperador Alexandre dirigiu-se a Erfurth para de novo se encontrar com Napoleão, e na alta sociedade de Petersburgo muito se falou dos esplendores dessa entrevista solene.

Em 1809, as relações entre os dois «soberanos do mundo», como então se lhes chamava, haviam-se tornado tão íntimas que quando, nesse ano, o imperador francês declarou guerra à Áustria, um corpo de exército russo atravessou a fronteira a fim de cooperar com o seu ex-inimigo Bonaparte contra o seu ex-aliado o imperador da Áustria, e até nas altas esferas se falou do casamento de Napoleão com uma das irmãs de Alexandre. E à margem das combinações políticas exteriores, a sociedade russa do tempo dava mostras de uma preocupação particularmente viva em face das transformações que se operavam então em todos os sectores da administração do Estado.

Entretanto, a vida, a existência quotidiana, com os seus interesses materiais - a saúde, a doença, o trabalho, o descanso -, com as suas preocupações intelectuais e quejandas - a ciência, a poesia, a música, o amor, a amizade, o ódio, as paixões, o mal -, continuava, como anteriormente, alheia às alianças políticas novas e a todas as novas reformas em projecto.

O príncipe André passou consecutivamente dois anos no campo. Todas as iniciativas que Pedro procurara pôr em prática nos seus domínios, e que haviam resultado infrutíferas, pois passava a vida a mudar de ideias, realizou-as o príncipe André sem disso se vangloriar e sem grande dificuldade.

Era dotado no mais alto grau dessa tenacidade prática que tanta falta fazia a Pedro. Realizava fosse o que fosse sem bulha nem esforço.

Os trezentos servos de um dos seus domínios foram inscritos no número dos trabalhadores de condição livre, e foi este um dos primeiros actos do género praticados em toda a Rússia. Em outros dos seus domínios o trabalho forçado foi substituído pelo foro. Em Bogritcharov o instalara, à sua custa, uma parteira, e um padre, pago por ele, ensinava a ler os filhos dos camponeses e os criados.

Parte do tempo passava-o o príncipe em Lissia Gori, ria companhia do pai e do filho, então ainda ao cuidado das criadas, e a outra parte decorria para ele no seu «eremitério» de Bogutcharovo, como lhe chamava o velho príncipe. Apesar da indiferença que costumava exibir diante de Pedro por tudo quanto se passava no mundo, seguia atentamente os acontecimentos, recebendo muitos livros, e com grande espanto observava que as pessoas, recém-chegadas de Petersburgo - o centro da vida do país -, que porventura os visitavam, quer a ele, quer ao pai, sabiam muito menos de política interna e externa que ele próprio, que nunca deixava a sua aldeia.

Além de cuidar da administração dos seus domínios e de se dar às mais variadas leituras de ordem geral. André por essa época ocupava-se especialmente do exame crítico das últimas duas infelizes campanhas russas, ao mesmo tempo que se dava à elaboração de rim projecto de reforma dos códigos e regulamentos militares do país.

Na Primavera de 1809 foi de visita aos domínios de Riazan, propriedade de seu filho, de quem era tutor.

Estendido na sua caleça, aos raios já quentes de um sol primaveril, ei-lo que contempla a relva tenra, as primeiras folhas das bétulas e as primeiras nuvens brancas da Primavera correndo pejo azul vivo do céu. Em nada pensava, e ia olhando, alegre e vago, ora para a direita ora para a esquerda do caminho, Ficaram-lhe para trás o rio e o barco em que no ano anterior palestrara longamente com Pedro. E também um povoado sujo, cerrados, trigo de Inverno ainda verde. Depois desceu à ponte, onde ainda se viam, vestígios de neve, galgou uma ladeira argilosa, percorreu campos de restolho e brejos de onde em onde com os seus tufos verdes e penetrou numa mata de bétulas que bordejava os dois lados estrada. No meio da mata quase fazia calor, não soprava s mínima aragem. As bétulas, salpicadas de folhas verdes e viscosas, estavam imóveis, e de sob o tapete de folhas secas do ano anterior rompiam, verdejantes, soerguendo-o, as primeiras ervas, semeadas de flores violetas. Pinheiros baixos esparsos pejo meio dos vidoeiros, com a sua perpétua e sombra verdura, evocavam desagradavelmente o Inverno que findara. Os cavalos assustaram-se ao entrar na mata e daí a pouco estavam cobertos de suor.

Piotre, o lacaio, disse qualquer coisa ao cocheiro, que lhe respondeu afirmativamente. Logo se viu, porém, que o assentimento do cocheiro lhe não bastava. Voltou-se na almofada para o amo.

- Veja Vossa Excelência que bem que se respira! - disse, sorrindo com deferência, - O quê? - Que bem que se respira. Excelência.

«Que é que ele, quer dizer?» -, pensou André. «Ah!, sim, já sei, está a referir-se à Primavera,» E circunvagando o olhar: «Que verde que tudo está.., e tão depressa! As bétulas, as cerejeiras, os álamos, já, principiaram... E os carvalhos não se vêem. Ah!, ali está um.» No extremo do caminho avultava um carvalho. Provavelmente dez vezes mais velho que as bétulas da mala, era dez vezes mais grosso e erguia-se dez vezes mais alto. Era tiro carvalho enorme, uma árvore de duas braças de tronco, com ramos certamente de tia muito lascados e a casca rachada com grandes cicatrizes. Com os seus braços e os seus dedos tortuosos e estirados, desairosos e sem simetria, dir-se-ia, rio meio das bétulas novinhas todos sorridentes, um, velho monstro intratável e desdenhoso. Só os pinheiros esparsos pela floresta, com a sua verdura morta e perpétua, os pinheiros e aquele carvalho teimavam em mostrar-se insensíveis aos encantos da Primavera, recusando-se a dar pele, sol que brilhava e pela Primavera que chegava.

«Primavera, amor, felicidade!», parecia proclamar o velho carvalho. «Será possível não estardes ainda desiludidos com todas estas néscias e absurdas miragens? Sempre, a mesma coisa, sempre as mesmas ficções! Não há Primavera, nem sol, nem felicidade! Olhai, vede estes pobres pinheiros como mortos, para ali esmagados, sempre sós, e volvei os olhos para mim, que também continuo a estender os meus dedos retalhados e esmigalhados, onde quer que rompam, do meu dorso, dos meus flancos, e para .aqui estou, como eles me querem, e não creio nas vossas esperanças nem nas vossas mentiras!» O príncipe André, ao atravessar a floresta, mais de urna vez se voltou para este como à espera de o ver dirigir-lhe qualquer aceno amistoso. Mesmo à sombra dele havia relva, flores, embora a velha arvore, macambúzia, imóvel, continuasse monstruosamente carrancuda no meio da vida em tomo.

«Sim, este carvalho tem razão, toda a razão», pensava o príncipe André, «As ilusões são boas para os outros, para os que são novos; para nós, que conhecemos a vida, tudo acabou!» E toda uma onda de novos pensamentos desesperados, em que para ele havia contudo um certo encanto, embora triste, se lhe levantou na alma à vista daquele carvalho. No decurso desse dia veio a reflectir de novo na sua própria existência, acabando por chegar, como sempre, a esta desencantada, se bem que apaziguadora, conclusão: que nada devia tentar na vida, limitando-se a acabar os seus dias sem praticar o mal, sem se atormentar e sem desejar fosse o que fosse.

Capítulo II

Em virtude de certas questões de tutela sobre o domínio de Riazan. André teve necessidade de se avistar com o marechal da nobreza do distrito, nem mais nem menos o conde Ilia Andreievitch Rostov. Em meados de Maio apresentou-se em sua casa. Entrara-se já no período tépido da Primavera. As florestas já estavam vestidas de folhagem. Havia poeira e fazia calor, e quando se passava junto de um curso de água já apetecia mergulhar na corrente.

André, triste, preocupado com as mil coisas que tinha de tratar com o marechal, atravessou as áleas do parque da casa Rostov em Otradnoie. A direita pareceu-lhe ouvir nos maciços de verdura alegres vozes femininas, e dai a pouco viu um bando de raparigas que se atravessava diante da cabeça. A frente delas salientava-se uma mocinha trigueira, de olhos negros, muito esbelta, extraordinariamente esbelta, com um vestidinho de algodão amarelo, na cabeça um lenço branco, por debaixo do qual lhe esvoaçavam os caracóis soltos do cabelo. Gritou qualquer coisa, mas, ao ver que se tratava de alguém desconhecido, tomou a desaparecer no maciço donde emergira, rompendo a rir, sem olhar para trás.

De súbito o príncipe André sentiu uma impressão penosa. O tempo estava tão belo, o sol tão vivo, havia tanta alegria na natureza, e aquela rapariguinha sem conhecer nem querer conhecer nada fora dela, satisfeita e feliz com a sua própria existência, o sua existência tola, sem dúvida, mas despreocupada e alegre. «Donde lhe virá tanta alegria? Em que pensará ela? Com certeza não nos regulamentos militares e na organização dos camponeses de Riazan. Em que pensará então? Que a fará feliz?», eis o que o príncipe André não podia deixar de perguntar a si mesmo, cheio de curiosidade.

O conde Ilia Andreievitch levava em Otradnoie, no ano da graça de 18O9, a mesma vida de sempre, isto é, recebia em sua casa quase toda a província, sempre pronto a oferecer aos convidados caçadas, espectáculos, jantares, concertos. Quem quer que aparecesse de novo encantava-o; por isso acolheu André com grande alegria e quase à força obrigou-o a passar a noite em sua casa.

No decurso de um bem fastidioso dia, durante o qual se vira monopolizado pelo seu velho anfitrião e os convidados deste mais em evidência - estava-se em vésperas de uma rija festa e a casa cheia -. Bolkonski por várias vezes relanceou os olhos a Natacha, risonha e jovial no meio dos rapazes e das raparigas, e sempre que para ela olhou pôs a si mesmo esta pergunta: «Em que pensará ela? Donde lhe virá tanta alegria?» À noite, sozinho num local onde vinha pela primeira vez, muito lhe custou a adormecer. Pôs-se a ler, depois apagou a vela, daí a pouco tomou a acendê-la. No quarto, com as portadas fechadas por dentro, fazia calor. E sentia-se furioso com o imbecil do velho - que assim tratava Rostov - por ter querido retê-lo em sua casa, persuadindo-o de que não conseguira ainda os papéis necessários da cidade. E consigo próprio também por ter ficado. Levantou-se e aproximou-se da janela para abri-la. Mal entreabrira as portadas, logo o luar, como se há muito aguardasse aquele sinal, lhe entrou pelo quarto dentro. Abriu a janela de par em par. A noite estava fresca, calma e luminosa. Precisamente defronte da sacada encontrava-se um fileira de árvores podadas, de um dos lados muito negras, e do outro banhadas por uma claridade de prata. A seus pés entrevia-se um tapete de plantas carnudas e húmidas. As folhas frisadas e os caules escorriam luz. Mais para além, para lá das árvores escuras, lobrigava-se uma espécie de telhado, que cintilava, coberto de orvalho; mais para a direita uma grande árvore esguedelhada, com o tronco e os ramos de um branco vivo, e no alto a Lua quase cheia, num céu de Primavera por assim dizer sem estrelas. André encostou-se ao parapeito da janela e abandonou os olhos à contemplação do firmamento.

O quarto do príncipe ficava num andar intermédio. Por cima havia outros quartos igualmente habitados, e também ali se não dormia. Ouviam-se vozes de mulher.

- Sim, só mais uma vez - murmurava uma dessas vozes, que André imediatamente reconheceu.

- Mas quando te dispões a dormir? - replicava outra dessas vozes.

- Não, não vou dormir, não quero dormir, não posso, que hei-de eu fazer? Espera só um pouco mais...

As duas vozes femininas trautearam uma espécie de frase musical, por certo remate de qualquer melodia conhecida.

- Oh, que bonito! Bom, agora vamos dormir. Acabou-se.

- Dorme tu, se queres, eu não posso - voltou a primeira voz.

A que falara aproximara-se da janela e até certamente se debruçara, pois sentia-se-lhe o ruge-ruge do vestido e o ofegar da respiração. Tudo estava em silêncio e como que estático a Lua, o luar, as sombras. O príncipe André procurava não se mexer, para não denunciar a sua presença indiscreta.

- Sónia. Sónia - voltou a primeira voz. - Como queres; que uma pessoa durma? Vem ver, que lindo! Oh, que lindo! Acorda. Sónia. - E esta voz dir-se-ia repassada de lágrimas. - Nunca na minha vida vi noite tão linda! Na resposta de Sónia houve qualquer coisa de impaciente.

- Mas vem ver, só um bocadinho, que linda Lua!... Oh, que lindo! Anda, ver! Querida, minha queridinha, vem ver! Achas que irão? Basta uma pessoa pôr-se de joelhos, assim, e agarrar o,, joelhos, agarrar-se muito. Depois, aí vou eu pelos ares fora, a voar! Olha, assim! - Então? Deixa-te disso! És capaz de cair! Ouviu-se, como que uma luta e a voz descontente de Sónia, que dizia: «São quase duas horas!» - Oh, estragas tudo. Vai-te embora, vai-te.

Tudo recaiu no silêncio, mas André sentia que alguém, continuava à janela, graças aos ligeiros sussurros, aos breves suspiros que lhe chegavam aos ouvidos.

- Meu Deus! Meu Deus! Que quererá dizer tudo isto? - exclamou a voz de súbito. - Já que é preciso dormir, vamos dormir. - E fechou a janela.

«E a minha existência que lhe importa!», pensava André ao escutar aquelas vozes e, sem saber porquê, receoso e ao mesmo tempo como que esperançado de ele próprio estar envolvido naquelas palavras. «Outra vez ela! Parece de propósito!» De repente ergueu-se no fundo da sua alma uma tal confusão de pensamentos e de esperanças pueris, perfeito contraste com toda a sua existência, que André, incapaz de explicar a si próprio claramente o que nele se estava a passar, adormeceu quase de chofre.

Capítulo III

No dia seguinte pela manhã, depois de se despedir do conde e sem aguardar que as senhoras estivessem visíveis, abalou.

Eram já princípios de Junho quando André, no decurso da sua jornada de regresso, voltou a atravessar aquela mata de bétulas onde um carvalho todo contorcido lhe fizera uma impressão tão curiosa e memorável. O tilintar das campainhas dos cavalos da, carruagem ainda era mais surdo que mês e meio antes: tudo eram sombras e mato bravo. Os pinheiros novos esparsos pela floresta não prejudicavam já a beleza do conjunto e, harmónicos com o ambiente, os seus botões de feltro haviam-se coberto de uma macia verdura.

O dia estivera, quente. Algures preparava-se uma tormenta, mas apenas uma pequenina nuvem borrifara a poeira do caminho e as folhas inchadas de seiva. O lado esquerdo da floresta estava ria penumbra; o direito, orvalhado e todo lustroso, brilhava ao sol, ligeiramente agitado pelo vento. Tudo estava em flor. Aqui e ali ouviam-se os rouxinóis soltar os seus trinados e garganteios.

«Sim, foi nesta floresta que eu vi aquele carvalho que tantas afinidades tinha comigo», dizia de si para consigo André. «Onde estará ele agora?» E olhava à esquerda do caminho, sem saber onde encontrá-lo, sem o reconhecer. De súbito, maravilhado, encontrou a árvore. O velho carvalho, transfigurado, distendia-se, como um zimbório de luxuriante e sombria verdura, e parecia crescer, quase imóvel, sob os raios do sol-poente. Dos seus membros contorcidos, das suas escaras, das suas antigas dúvidas, das suas velhas dores, nem sinal. Folhinhas novas, túmidas de seiva, rompiam-lhe directamente da casca dura e centenária, e de tal sorte que custava a crer que aquele ancião fosse seu progenitor. «Sim, é realmente o mesmo carvalho», pensou André, e de súbito sentiu-se inundado de um obscuro sentimento de alegria e renovo primaveril. Todos os melhores instantes da sua existência passada lhe acorreram à memória, de repente e ao mesmo tempo. E Austerlitz, com o seu céu profundo, e a máscara da sua mulher morta com a expressão de censura, e Pedro, no barco, e a rapariguinha embriagada pelo esplendor da noite, daquela mesma noite, e a magnificência do luar, tudo isto, de um só golpe, se lhe figurou real na imaginação.

«Não, a vida não acabou aos trinta e um anos», concluiu, firme e definitivo. «E não basta que eu veja claro em mim, é, preciso que todos vejam igualmente claro em si próprios. E Pedro e esta rapariguinha que queria voar pelos céus fora. É preciso que todos eles me conheçam, que a minha vida não decorra só para mim, que não seja tão independente que não se reflicta na sua e a deles na minha e que todos eles, em sua vida, se confundam comigo.» De regresso da viagem. André decidiu ir a Petersburgo no Outono e, para justificar essa resolução, deu-se ao trabalho de coleccionar várias razões. Toda uma série de deduções, qual delas a mais lógica, capazes de justificar esta viagem, e inclusivamente um vago projecto de retomar as suas funções na corte, acorreram ao seu encontro. Agora nem sequer podia compreender como pudera pôr em dúvida a necessidade de se consagrar a uma vida activa, tal qual como há um mês lhe não pudera vir ao espírito a ideia de abandonar o campo. Afigurava-se-lhe claramente que toda a experiência da vida que lhe fora dado adquirir se perderia sem vantagem para quem quer que fosse; não passaria de um puro contra-senso, caso ele lhe não desse a acção por finalidade e ele próprio se não decidisse a tomar parte nela. Era-lhe mesmo impossível imaginar como é que até aí, levado por deduções tão lógicas como as actuais, embora igual- mente pobres, se lhe tinha representado como certo que seria rebaixar-se, depois de tão duras lições da vida, acreditar ainda na possibilidade de ser útil, na possibilidade do amor e da ventura. A lógica agora sugeria-lhe coisa completamente diferente. De volta da sua viagem, começou a aborrecer o campo, as ocupações que até ai o entretinham já lhe não interessavam. Muitas vezes, sentado no seu gabinete, solitário, levantava-se, aproximava-se de um espelho e punha-se a mirar longamente os traços que lhe vincavam o rosto. Depois afastava os olhos do espelho e pousava-os no retrato de Lisa, sua falecida mulher, que, com os seus caracóis apanhados a moda grega, docemente lhe sorria, na moldura dourada. Já lhe não dirigia as terríveis censuras de outrora, olhava-o alegremente, simplesmente, com um ar curioso. E André, as mãos atrás das costas, passeava no seu gabinete de um lado para o outro, por muito tempo, ora preocupado, ora sorridente, deixando que o espírito lhe errasse por mil pensa- mentos extravagantes que as palavras não poderiam exprimir, secretos como se fossem criminosos, em que se associavam Pedro, a glória, a rapariguinha da janela, o carvalho, a beleza feminina, o amor, pensamentos que haviam transformado toda a sua existência. E se nesses instantes alguém o procurava, mostrava-se particularmente seco, severo, cortante, de uma rígida lógica.

«Meu amigo», sucedia, às vezes, dizer Maria inocentemente, penetrando no gabinete a uma hora dessas, «hoje não podemos sair com Nikoluchka. Está muito frio.» «Se estivesse calor», replicava ele em tom seco, «eram capazes de o deixar sair em camisa, mas, como está frio, basta que lhe vistam qualquer coisa quente, já que os fatos quentes não foram feitos senão para isso. É o que é preciso concluir quando se verifica estar frio e não tomar a resolução de o deixar em casa, quando a verdade é que uma criança precisa de respirar ar puro». André afectava uma tal lógica como para se castigar a si próprio desse trabalho ilógico e inconfessado a operar-se dentro de si próprio.

Maria, então, dizia de si para consigo que a reflexão faz dos homens criaturas secas.

Capítulo IV

O príncipe André chegou a Petersburgo em Agosto de 1809. Estava-se no apogeu da glória do moço Speranski e era a altura em que ele mostrava mais energia na realização das suas reformas. Foi nesse mês de Agosto que o imperador, ao passear de carruagem, tivera um acidente, magoara um pé, e ficara três semanas fechado em Peterof, todos os dias em contacto com Speranski. Nessa época se elaboraram não só os dois célebres ucasses, que tão grande celeuma levantaram, sobre a ordenação da hierarquia na corte e a criação dos exames para a colegiada de assessores e conselheiros de Estado, mas também uma verdadeira constituição destinada a revolucionar o regime judiciário, administrativo e financeiro vigentes, desde o conselho do império até às autoridades dos volostes (Divisão territorial equivalente à província. (N, dos T.). Foi então que se realizaram e tomaram vulto os vagos sonhos liberais que o imperador Alexandre alimentava ao subir ao trono e que já tentara aplicar com o auxílio dos seus colaboradores, os Czartoriski, os Novossiltsov, os Kotchubei e os Strogonov, a quem, por graça, costumavam chamar a sua comissão de salvação pública.

Agora Speranski substituíra-os a todos nos negócios civis e Araktcheiev ocupava-se das questões militares. O príncipe André, pouco depois da sua chegada, e, na sua qualidade de camarista, apareceu na corte e nas audiências privadas do imperador. Este, que por duas vezes o encontrara no seu caminho, não se dignara, honrá-lo com unia, única palavra. Pensava André ser antipático ao imperador e que a sua cara e toda a sua pessoa lhe eram desagradáveis. O olhar seco e distante que Alexandre lhe lançou ainda veio confirmar mais tal suposição. Os cortesãos explicaram-lhe esta frieza atribuindo-a ao facto de Sua Majestade ter ficado descontente por ele- desde 1805, não ter voltado a prestar serviço no exército.

«Bem sei que não está nas nossas mãos regermos as nossas simpatias e as nossas antipatias», dizia André com os seus botões, «por isso, o melhor que eu tenho a fazer é não pensar apresentar ao imperador a minha memória sobre o novo código militar. A ideia acabará por seguir o seu destino sozinha.» Expôs as suas ideias a um velho marechal amigo do pai. Este, que lhe marcara uma data para o receber, acolheu-o amavelmente e prometeu-lhe falar ao imperador. Alguns dias depois participara-lhe que devia apresentar-se ao ministro da Guerra, o conde. Araktcheiev

As nove horas da manhã do dia aprazado o príncipe André apresentou-se na sala de espera do conde Araktcheiev.

Não o conhecia pessoalmente e nunca o vira mesmo, mas o que dele sabia não o predispunha muito a seu favor.

«É ministro da Guerra, é homem de confiança do imperador; ninguém, portanto, pode intervir nos assuntos que lhe dizem respeito. Confiaram-lhe o exame do meu memorial porque só ele pode pô-lo em vigor», pensava André, enquanto esperava ser recebido, no meio de várias personalidades, mais ou menos importantes, na sala de espera de Araktcheiev.

No desempenho das suas funções, principalmente enquanto fora ajudante-de-campo. André passara por muitas antecâmaras de altas personagens e estava habituado a distinguir as suas características próprias. A do conde Araktcheiev era inconfundível. As pessoas de somenos importância que aguardavam a sua, vez mostravam confusão e humildade; as de mais categoria traíam geralmente um certo embaraço, oculto sob uma falsa despreocupação, uma espécie de zombaria de si próprias, da sua própria situação e da personalidade diante de quem iam comparecer. Havia ainda os que andavam na sala para cá e para lá, preocupados, e os que riam, cochichando. André percebia que falavam da pessoa do ministro, ratando-o pela alcunha de Sila Andreitch, e pronunciando as palavras «ele vai tratar-te da saúde». Um general, personalidade importante, visivelmente vexado por ser obrigado a esperar tanto tempo, estava de pernas cruzadas e sorria para si mesmo.

Logo, porém, que a porta se abriu, em todas as caras instantaneamente transpareceu o sentimento do medo. André pediu ao funcionário de serviço que o anunciasse segunda vez, mas - ele fitou-o com ar zombeteiro dizendo-lhe que esperasse a sua vez. Depois de algumas das personagens presentes haverem sido introduzidas no gabinete do ministro e de novo reconduzidas por um ajudante-de-campo, fizeram passar pela porta temerosa um oficial cuja humilde e assustada aparência chamara a atenção de André. A audiência deste oficial foi morosa. Ouviu-se, de súbito, atrás da porta, o fragor de uma voz irritada e lá de dentro saiu, muito pálido, de lábios trémulos, o pobre oficial, que atravessou a sala de espera apertando a cabeça nas mãos.

Chegou em seguida a vez do príncipe André e o funcionário de serviço segredou-lhe: «A direita, ao pé da janela.» André penetrou num gabinete muito simples e asseado e viu, sentado a uma mesa, um homem dos seus quarenta anos, de longo busto, em cima do qual urna cabeça, também muito longa, de cabelos curtos, grossas rugas, sobrancelhas espessas sobrepujando uns olhos apagados verde- acastanhados e um nariz vermelho proeminente. Araktcheiev voltou a cabeça para ele sem o fitar.

- Que pretende? - perguntou.

- Nada pretendo. Excelência - replicou André com a maior tranquilidade.

Os olhos de Araktcheiev voltaram-se para ele.

- Tenha a bondade de se sentar, príncipe Bolkonski.

- Nada pretendo, mas o imperador dignou-se transmitir a Vossa Excelência a nota que eu apresentei...

- Deixe dizer-lhe, meu caro senhor, que li a sua memória - interrompeu Araktcheiev. Eram as primeiras palavras amáveis que pronunciava, e imediatamente se pôs a olhar para outro lado e a afectar um tom cada vez mais indiferente e desdenhoso. - O senhor propõe novas leis militares? Há muitas leis, leis antigas, e muito pouca gente que as aplique. Hoje em dia todos têm a mania de fazer leis. É mais fácil escrever do que agir.

- Eu vim aqui, por desejo do imperador, saber de Vossa Excelência qual o destino que pensa dar ao meu memorial - disse André polidamente.

- Anotei a minha opinião no próprio memorial e transmiti-o à comissão. Por mim não o aprovo - disse Araktcheiev erguendo-se e pegando num papel que estava em cima da mesa. - Aqui tem! - E estendeu-lhe o papel.

Atravessado, escrito a lápis, sem maiúsculas, sem ortografia, sem pontuação, liam-se as seguintes linhas: «Elaborado com pouca seriedade, visto ser copiado pelo Código Militar francês, difere sem motivo do regulamento militar em vigor.» - E a que comissão foi transmitido? - inquiriu André. - A comissão do Código Militar, e propus o nome de Vossa Mercê para fazer parte dela. Mas sem honorários.

Um sorriso perpassou pelos lábios de André.

- Mas eu não pretendo tal cargo...

- Como membro sem honorários - repetiu Araktcheiev. - Boa tarde. Eh! A pessoa que se segue. Quem é que está aí ainda? gritou, fazendo uma vénia ao príncipe André.

Capítulo V

Enquanto aguardava a nomeação para membro da comissão do Código Militar, o príncipe André voltou a relacionar-se com antigos conhecimentos, principalmente com as pessoas que ele sabia muito poderosas e em condições de lhe poderem vir a ser úteis. Uma curiosidade inquieta e irresistível, muito semelhante àquela que experimentara nas vésperas das batalhas, arrastava-o agora, que estava na capital, para essas altas esferas em que se prepara o futuro e se decide do destino de milhões de homens. Ia percebendo, através da irritação dos antigos, a curiosidade dos não iniciados, a reserva dos demais, a agitação e a inquietação de todos e a profusão de juntas e de comissões, das quais o número de membros crescia hora a hora, que naquele ano de 1809 se preparava em Petersburgo uma imensa batalha civil cujo generalíssimo era essa personagem misteriosa, desconhecida para ele e que a seus olhos avultava sob a sedução de um génio: Speranski.

E este movimento reformador, que ele muito vagamente conhecia, e Speranski, o seu animador, começaram a interessá-lo tão apaixonadamente que não tardou a relegar para segundo plano das suas preocupações o destino do Código Militar.

André estava na melhor das disposições para ser bem acolhido em todas as altas esferas da sociedade petersburguesa de então. O partido dos reformadores procurava cativá-lo e testemunhava-lhe simpatia, primeiro porque ele gozava da fama de homem muito inteligente e de vasta cultura, e em segundo lugar porque conquistara já, emancipando os camponeses, reputação de espírito liberal. O partido dos velhos descontentes, contrário às reformas, mostrava interesse por ele supondo-o adepto das ideias do pai. As mulheres, ou, como quem diz, a sociedade, festejavam-no como um futuro marido rico e titular e uma figura nova, aureolada da aventura romanesca de haver passado por morto e de ter perdido a esposa em circunstâncias trágicas. Além disso, a opinião unânime de todos quantos outrora o haviam conhecido era de que ele mudara muito, e com vantagem, naqueles cinco anos, que se lhe robustecera e suavizara o carácter, que perdera os ares afectados de antigamente, o orgulho e o espírito cáustico, e que ganhara a serenidade que só o tempo vai dando aos homens. Falavam dele, interessavam-se por ele e toda a gente o procurava.

No dia seguinte ao da sua visita a Araktcheiev, foi a uma soirée a casa do conde Kotchubei, a quem contou o que se passara na entrevista com Sila Andreitch. Kotchubei assim se referia a Araktcheiev, empregando a alcunha com essa mesma vaga ironia que André tivera ocasião de observar na antecâmara do ministro da Guerra.

- Meu caro, mesmo no seu caso, não poderá deixar de precisar de Mickail Mikailovitch. É o grande obreiro. Eu falarei com ele. Prometeu-me vir aqui esta noite...

- Mas que tem Speranski com os regulamentos militares? - perguntou André.

Kotchubei abanou a cabeça, sorrindo, como que surpreendido com a ingenuidade de Bolkonski.

- Falámos de si há dias - prosseguiu ele - dos seus trabalhadores livres...

- Ah!, foi então o senhor, príncipe, que emancipou os seus camponeses? - perguntou um velho da época de Catarina, voltando-se para Bolkonski com um ar desdenhoso.

- Era um pequeno domínio que não dava rendimento algum - replicou este, para não irritar inutilmente o velho e assim atenuar a importância do seu acto.

- Tem medo de estar atrasado - continuou o ancião, lançando um olhar a Kotchubei. - Há uma coisa que eu pergunto: quem há-de trabalhar a terra se se der a liberdade aos servos? Fazer leis é fácil, mas governar é bem mais difícil. É o mesmo que vai acontecer agora. Diga-me, conde, quem virá a ser chefe de administração se toda a gente tem de ser submetida a um exame? - Aqueles que forem aprovados nesse exame, suponho eu - replicou Kotchubei, cruzando as pernas e circunvagando os olhos pela sala.

- Assim, por exemplo, eu tenho nos meus escritórios um tal Prianitelinikov: é um homem excelente, um homem precioso, mas já fez sessenta anos. Irá ele apresentar-se a exame? - Sim, é de facto difícil, tanto mais que a instrução está muito pouco espalhada, mas...

O conde Kotchubei não concluiu a frase. Levantou-se e, pegando no braço de André, encaminhou-se em direcção a alguém que acabava de chegar: um grande homem louro, calvo, dos seus quarenta anos, alta testa, rosto comprido, estranho, e de uma brancura extraordinária. Vestia um fraque azul, trazia uma condecoração ao pescoço e um crachá no lado esquerdo do peito. Era Speranski. O príncipe André reconheceu-o imediatamente e sentiu uma emoção interior, como é costume nos momentos cruciais da existência. Seria respeito, seria inveja, seria curiosidade? Ignorava-o.

A figura de Speranski era de um tipo original que o fazia sobressair no meio de todas as demais. Nunca, em qualquer das pessoas que André conhecia, surpreendera urna calma semelhante e uma tal segurança associadas a tanto embaraço e a tanto acanhamento nos gestos. Em ninguém encontrara um olhar ao mesmo tempo tão enérgico e tão suave nuns olhos - assim semicerrados e como que repassados de água, tanta firmeza num sorriso insignificante, uma voz, tão débil, tão igual, tão calma e sobretudo uma tal brancura fina num rosto e principalmente numas mãos, excessivamente gordas e meigas, embora grandes. Tal brancura e tal suavidade de pele nunca André pudera observá-las senão nos soldados com muito tempo de hospital. Eis Speranski, o secretário de Estado, o referendário do imperador, seu companheiro em Erfurth, onde, por mais do que uma vez, se encontrara com Napoleão.

O olhar de Speranski não ia de uma pessoa para outra como acontece involuntariamente quando alguém é introduzido numa sociedade numerosa. Também não se dava pressa em falar. Sua voz era serena, sentia-se nela a certeza de quem sabe Que é escutado e não olhava senão para a pessoa com quem conversava.

André observava com atenção particular todas as palavras e todos os gestos de Speranski. Como é vulgar nas pessoas habituadas a julgar severamente o próximo, quando se tratava de alguém de reputação, tendia sempre a encontrar nesse alguém uma súmula de todas as perfeições humanas.

Speranski afirmou a Kotchubei que lamentava muito não ter podido chegar mais cedo, mas estivera retido no palácio. Não disse ter sido o imperador quem o retivera. E André notou esta afectação de modéstia. Quando Kotchubei lhe apresentou o príncipe André. Speranski dirigiu lentamente os olhares para ele, sempre com o mesmo sorriso, e olhou-o silenciosamente.

- Tenho muito prazer em conhecê-lo. Ouvi falar de si, como, aliás, toda a gente - disse ele.

Kotchubei aludiu em poucas palavras ao acolhimento que Araktcheiev fizera a Bolkonski. O sorriso de Speranski acentuou-se.

- O presidente da comissão do Código Militar é amigo meu, o Sr. Magnitski - observou, articulando claramente cada silaba e cada palavra -, se quiser posso proporcionar-lhe uma conferência com ele. - Calou-se para sublinhar a pausa do parágrafo. - Espero que vá encontrar simpatia junto dele e o desejo de fazer tudo que seja razoável.

Imediatamente se formou uma roda em volta de Speranski, e o ancião que falara de um tal Prianitchnikov também se permitiu dirigir-lhe uma pergunta.

André, sem tornar parte na conversa, observava todos os movimentos daquele homem, ainda ontem um obscuro seminarista, e em cujas mãos brancas e gordas estava agora o destino da Rússia. Impressionou-o a serenidade extraordinária e o ar desdenhoso na resposta de Speranski ao velho. Dir-se-ia deixar cair de inacessíveis alturas a palavra condescendente. Tendo o velho elevado um pouco a voz, sorriu e disse que não era juiz das vantagens ou dos inconvenientes das decisões que o imperador tinha por bem tomar.

Depois de participar por algum tempo na conversa geral Speranski levantou-se e, aproximando-se do príncipe André, levou-o consigo para o outro extremo da sala.

Era evidente que julgava necessário parecer interessar-se por Bolkonski.

- Não tive tempo de falar consigo, príncipe, no meio da animada conversa a que me obrigou aquele venerando ancião - disse-lhe, sorrindo, com uma certa discrição desdenhosa, querendo demonstrar com isso ambos saberem muitíssimo bem a que ponto eram nulas as pessoas com quem ele acabava de conversar. E esta atitude não deixou de lisonjear André. - Conheço-o há muito, primeiro graças à sua conduta para com os camponeses, exemplo que nós gostaríamos de ver seguido por muitos outros proprietários, e em segundo lugar porque o príncipe é o único dos camaristas que não se julgou atingido pelo novo ucasse relativo às categorias da corte, que tanta discussão e tantas recriminações provocou.

- Sim - replicou André. - Meu pai não quis que eu beneficiasse desse direito. Principiei o meu serviço pelos graus inferiores.

- Seu pai, embora homem de outro tempo, está realmente muito acima dos nossos contemporâneos, que tanto criticam uma medida em que se procura simplesmente estabelecer a justiça nas suas bases naturais.

- No entanto, parece-me que essas críticas não deixam de ter o seu fundamento... - disse André, que diligenciava combater em si próprio a influência de Speranski, de que se apercebia crescente.

Desagradava-lhe aprová-lo em tudo: desejava refutá-lo. O certo é, porém, que, embora de costume se exprimisse com fluência e clareza, naquele momento, ao falar com o homem de Estado, sentia certo embaraço. Aquela personalidade, que o levara a tantas observações, prendia-lhe demasiadamente a atenção.

- Quer dizer que na maior parte dos casos essas críticas não têm talvez por fundamento senão o amor-próprio ferido - objectou, tranquilamente. Speranski.

- Ou então, em parte também, os interesses do Estado - volveu o príncipe André.

- Como assim?... - inquiriu Speranski, baixando os olhos.

- Eu sou partidário de Montesquieu - respondeu André. - E a sua máxima de que o princípio das monarquias é a honra parece-me incontestável. Certos direitos e privilégios da nobreza parecem-me meios de manter este sentimento.

O sorriso desapareceu do branco rosto de Speranski e a sua fisionomia só ganhou com isso. Seguramente, a máxima citada por André parecera-lhe digna de interesse.

- Se encara a questão por esse ponto de vista - principiou ele, exprimindo-se em francês com dificuldade visível e pondo ainda mais morosidade na dicção que quando falava russo, mas com muita serenidade.

Exprimiu a opinião segundo a qual a honra não pode ser mantida por privilégios prejudiciais ao bom andamento dos negócios públicos, de que a honra ou é a noção puramente negativa da abstenção de actos censuráveis ou um certo estimulante capaz de nos levar a conquistar a aprovação ou as recompensas em que esta se traduz. As suas deduções eram concisas, simples e claras.

- A instituição que encorajasse a honra como fonte de emulação seria a todos os títulos semelhante à Legião de Honra do grande imperador Napoleão, que, em vez de prejudicar, concorre para o bom andamento dos serviços, sem que seja por isso privilégio de casta ou de corte.

- De acordo, mas não há que negar que os privilégios da corte atingem o mesmo objectivo - contraveio André. - Todos os privilegiados se consideram na obrigação de manter dignamente a sua categoria.

- No entanto, pelo que vejo, não quis tirar partido desse benefício - observou Speranski, rematando deste modo com uma palavra amável um debate que principiava a embaraçar o interlocutor. - Queira dar-me a honra de me procurar na próxima quarta-feira - acrescentou. - Entretanto terei falado com Magnitski e já poderei dizer alguma coisa que lhe interesse, além do prazer que me dará conversar mais longamente consigo.

Saudou, de olhos baixos, e, à francesa, sem se despedir, saiu, procurando não ser notado.

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