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Senhores e Servos

Leon Tolstoi

I

Corria a década de -. Na manhã seguinte ao dia de Natal, Vassílii Andréitch Brokhunov, negociante da segunda corporação, não podia se ausentar da paróquia, precisava estar na igreja — da qual era o tesoureiro eleito e ainda receber em casa os parentes e amigos— Mas, tão depressa a última das visitas se despediu, Vassílii Andréitch começou a se preparar para sair: necessitava entrar em entendimentos com um proprietário das redondezas para concluir a compra de uma floresta que, há muito tempo, tinha em vista. O assunto requeria urgência, pois Vassílii Andréitch temia ser prejudicado naquela ótima transação pelos negociantes da cidade vizinha. O jovem proprietário pedia dez mil rublos pela floresta, só porque Vassílii Andréitch lhe havia oferecido sete mil. Acontece que esses sete mil representavam, na verdade, apenas um terço do total das terras.

Vassílii Andréitch procurara, manhosamente, retardar a aquisição na esperança de um abatimento tio preço, pois contava a seu favor a combinação feita entre lis negociantes do distrito pela qual nenhum subiria o valor das florestas situadas perto da dos vizinhos, e aquela estava justamente na sua região. Mas, tendo chegado ao seu conhecimento que compradores de matas da capital da província projetavam comprar a floresta de Goriatchkino, decidiu apressar o remate do negócio.

Com tal propósito, mal a festa terminara, abriu o cofre e retirou mil e setecentos rublos. Tirou O”n-a mil e trezentos da caixa da igreja, que ficava sob a sua guarda, para perfazer três mil rublos, cuidadosamente recontou o dinheiro, enfiou-o na carteira e se preparou para partir.

Nikita, o único criado de Vassílii Andréitch que não estava bêbado naquele dia, correu a atrelar o trenó. Nikita cumpria a promessa, que a si mesmo fizera, de nunca mais beber desde a ocasião, uns dois meses antes, em que havia vendido as botas e roupas novas para gastar o apurado no vício. E bem que ele fora tentado, naqueles dias de festa, pela vodca que caía no fundo dos copos com um ruído que se assemelhava a um apelo.

Nikita era camponês, tinha cinqüenta anos e nascera numa aldeia próxima. Passara a maior parte da vida trabalhando em casas e terras alheias, o que levara a dizerem dele “que não era um proprietário”. Desfrutava geral estima, tanto pela sua natural bondade e jovial temperamento, como pelo entusiasmo e energia que dedicava ao trabalho,

mas infelizmente não parava muito no mesmo lugar porque duas vezes por ano, e às vezes mais até, deixava-se dominar inteiramente pelo álcool. Nessas ocasiões, não só se despojava de tudo o que possuísse para saciar o vício, como se tornava brigão e desordeiro. Vassílii Andréitch mesmo já fora obrigado a despedi-lo por mais de uma vez, chamando-o novamente por vários motivos: sua honestidade, sua bondade para com os animais, e principalmente — por que não dizer? — por suas humildes pretensões relativas ao salário. Vassílii Andréitch pagava a Nikita não oitenta rublos, ordenado normal de um trabalhador como ele, mas somente a metade, e assim mesmo em pequenas parcelas e muito mais vezes em mercadorias que o armazém de Vassílii Andréitch lhe vendia por preços exorbitantes.

Marfa, mulher de Nikita, que no seu tempo de moça fora muito bonita, era criatura afeita ao trabalho, esperta e habilidosa, e vivia em companhia de um filho adolescente e duas filhas. Não insistia com o marido para morar com a família porque, se fazia de Nikita o que bem queria quando ele estava sóbrio, tinha-lhe um medo pânico se o via embriagado. Certo dia, ele tomou uma bebedeira em casa e, provavelmente aproveitando a oportunidade para se vingar da submissão doméstica, arrebentou o baú da mulher, tirou todas as roupas e bugigangas que lá encontrou e, a machadadas, picou-as em mil pedaços.

Sem nunca protestar, Nikita entregava à mulher todo o dinheiro que ganhava. Foi exatamente o que aconteceu dois dias antes da festa. Maria foi ao armazém de Vassílii Andréitch, comprou farinha, chá, açúcar, meia garrafa de vodca, três rublos no total, e ainda levou cinco rublos em moedas. E agradeceu a Vassílii Andréitch como se ele tivesse lhe prestado um grande favor, quando, sem exagero, passara a perna nela em, pelo menos, uns vinte rublos.

— Nós não temos nenhum contrato, não é mesmo? dizia Vassílii Andréitch a Nikita. — Sempre que precisar de alguma coisa, venha cá ao armazém. Depois acertaremos as contas. Em minha casa não é como nas outras. Você nunca ouvira: “Agora, não. Vamos primeiro liquidar as contas atrasadas. Temos que descontar isso e aquilo...” Não, Nikita.

Quem trabalha para mim tem toda a minha proteção.

Falava com a veemência de quem, sinceramente, se achava o benfeitor de Nikita. muitos eram os que dependiam do seu dinheiro, a começar por Nikita, e a força de persuasão que empregava era tamanha que acabou por se convencer de que, realmente, não explorava os empregados, mas, muito pelo contrário, os cumulava de benefícios.

— É claro, Vassílii Andréitch. Não é por outra coisa que dou duro no trabalho. Como se trabalhasse para meu próprio pai. É claro que sei.

Intimamente Nikita estava certo de que era enganado, mas sabia ao mesmo tempo que não podia largar o emprego enquanto não arrumasse trabalho em outro lugar e assim se sujeitava a aceitar, sem discutir, o que lhe dava Vassílii Andréitch.

Agora, recebida a ordem de preparar o trenó, Nikita, jovial e diligente como sempre, se dirigiu para a cocheira, com aquele passo firme e rápido que lhe era peculiar, embora andasse com os pés para dentro como os gansos. Tirou de um gancho as pesadas rédeas enfeitadas de borlas e, fazendo retinir os metais do freio, foi para a baia onde se encontrava o cavalo que o amo mandara atrelar.

— Como é? está muito aborrecido, meu velho? — disse em resposta ao relincho com que o Baio o recebeu. Era um animal de médio porte, bem-conformado, ancas arredondadas, e, naquela hora, estava sozinho na cocheira.

— Vamos, companheiro! Não tenha pressa. Primeiro tem de beber a sua agüinha... como se falasse com... Falava com o cavalo exatamente uma pessoa. com a aba do capote limpou cuidadosamente o lombo luzidio do animal, um lombo roliço cortado ao meio por uma risca pelada, enfiou-lhe o cabresto na cabeça, ajeitando as orelhas e a crina, e levou-o ao bebedouro.

Assim que deixou a cocheira atapetada de esterco, o Baio manifestou sua satisfação saltando e fingindo querer pregar um par de coices em Nikita, que o acompanhava correndo até o poço.

— Está querendo brincar comigo, não é, seu patife! — disse alegremente Nikita, que sabia com que prudência o Baio atirava a pata traseira, procurando apenas roçar a aba sebenta do capote, costume engraçado do cavalo, que muito o divertia.

O cavalo bebeu a água gelada, relinchou fracamente sacudindo os beiços grossos e ainda molhados, dos quais; deixou cair algumas gotas transparentes dentro do tanque. Depois, ficou imóvel por um instante, como mergulhado em seus pensamentos, para de súbito, bufar estrondosamente.

— Se não quer beber mais, não é preciso fazer tanto barulho, rapaz! Mas não me venha depois pedir mais... disse Nikita com a maior severidade, depois do que levou o Baio para o alpendre, puxando-o pelo cabresto, enquanto o animal alegremente enchia o pátio com os seus barulhos.

Todos os criados estavam ausentes. Havia no Pátio apenas um estranho: O marido da cozinheira, que viera para as festas.

— Meu querido, a que trenó devo atrelar o Baio? Ao grande ou ao

pequeno?

— Vai perguntar ao amo. — pediu-lhe Nikita.

O marido da cozinheira entrou na casa principal da herdade, de sólida construção, e logo voltou trazendo a ordem de atrelar o cavalo ao trenó menor. Nikita acabou de arrear o animal e arrastou-o para o galpão onde se guardavam os trenós.

— Então vamos no menor, meu amigo — murmurou Nikita, metendo entre os varais o inteligente animal, que fingia o tempo todo querer morder as rédeas.

Quando tudo estava pronto, só faltando este pediu um pouco de palha e a manta de pano de saco ao marido da cozinheira que fosse buscar.

— A coisa marcha bem! Não precisa se arrepiar tanto —disse Nikita acomodando no trenó a palha de aveia recém-batida, que acabava de lhe ser trazida. — Agora é só estender a manta... Assim, assim... Vamos ficar otimamente instalados — e ajeitou a serapilheira em cima da palha acamada no assento. — Pronto! Tudo a preceito, meu amigo. Muito obrigado! — agradeceu ao marido da cozinheira.

— O trabalho a dois vai mais depressa.

E Nikita subiu ao trenó, após ter desembaraçado as rédeas de couro que terminavam numa argola, e tocou o animal, que ansiava por trotar, para o portão principal, através do pátio coberto de esterco gelado.

— Tio Nikita! Tiozinho! — gritou com voz esganiçada um garotinho de sete anos, enfiado numa peliça preta, gorro de pele e botinhas novas de couro branco, que saíra da casa correndo. — Quer me levar? — e abotoava apressadamente a peliça curta.

— Corra, meu anjinho — respondeu-lhe Nikita.

Estacou o cavalo e ajudou o filho do patrão a subir no trenó. O rostinho pálido e magro do menino se iluminou de alegria. Eram mais de duas horas e fazia muito frio, pelo menos uns dez graus abaixo de zero. Metade do céu estava coberta por uma nuvem baixa e escura. No pátio, o ar estava calmo, mas lá fora o vento soprava, áspero, varrendo a neve amontoada no telhado do galpão vizinho e formando redemoinhos junto à casa de banhos.

Assim que Nikita transpôs o portão e parou o trenó diante da escada da entrada, Vassílii Andréitch saiu do vestíbulo, fazendo estalar, com as botas de couro forradas de feltro, o gelo que se acumulara nos degraus. Trazia um cigarro na boca e vinha muito agasalhado numa peliça de carneiro, ajustada por um cinto muito largo. Parou para

saborear uma última tragada e jogou a ponta do cigarro, esmagando-a com o pé. Com a fumaça saindo ainda através do bigode, examinou o cavalo com o rabo do olho enquanto levantava a gola da peliça para defender as faces vermelhas e escanhoadas do frio.

— Vejam só este pândego! Está como quer — exclamou ao dar com o filho no trenó.

A vodca bebida com os amigos excitara Vassílii Andréitch e ele se sentia mais satisfeito que de costume e muito orgulhoso dos bens e do seu poderio. A presença do filho, a quem na intimidade chamava sempre de “meu herdeiro”, provocou-lhe naquele momento um imenso prazer, e contemplava-o com os olhos meio fechados e com um sorriso que mostrava os dentes grandes.

Uma mulher grávida, magra e lívida , com a cabeça e os ombros embrulhados num xale de lã que não deixava ver senão os olhos, apareceu na porta. Era a esposa de Vassílii Andréitch, Timidamente avançou e aconselhou num fio de voz:

— Achava melhor que você fosse com Nikita.

A recomendação evidentemente aborreceu Vassílii Andréitch, que deu uma cusparada para o lado, franziu o rosto e não respondeu.

— Vai levar dinheiro consigo?— prosseguiu a mulher no mesmo tom choroso. — É bom se precaver. Olhe que o tempo tende a ficar pior.

— Para que guia? Pensa, por acaso, que eu não conheço o caminho? — retrucou ele, separando bem as sílabas, que era o seu jeito característico de falar com vendedores ou compradores.

— Pelo amor de Deus, leve Nikita. É um favor que me faz — insistiu ela, puxando o xale mais para os ombros.

— Você é pior do que sarna! Como posso levá-la comigo?

— Que está dizendo, vassílii Andréitch? Eu estou as suas ordens — declarou Nikita, radiante. — Só é Preciso que alguém cuide dos cavalos na minha ausência... acrescentou, virando-se para a patroa.

— Fique descansado, meu amigo. Vou mandar Semion cuidar deles — respondeu ela.

— Então, vou ou não vou, Vassílii Andréitch?

— Faça-se o gosto da patroa! Mas vai vestir qualquer coisa mais quente se quer mesmo vir comigo — disse vassílii Andréitch, sorrindo e mostrando, com uma especial olhadela, a sebenta peliça de Nikita, de abas muito gastas, com um rasgão nas costas e toda descosida debaixo dos braços, provas evidentes da sua antiguidade e dos maus-tratos que

sofrera.

— Olá, meu santo! Dê uma mãozinha aqui! É só segurar o cavalo! — gritou Nikita para os lados do pátio, onde estava o marido da cozinheira.

— Deixe que eu seguro! — exclamou o menino com sua voz esganiçada. E, tirando dos bolsos as mãozinhas vermelhas de frio, pegou as rédeas geladas.

— Olhe lá! Não leve muito tempo a se embonecar, ouviu? — troçou Vassílii Andréitch.

— Vou num pé, volto no outro, Vassílii Andréitch, meu paizinho! — garantiu Nikita correndo para a isbá reservada aos criados.

— Arimuchka, minha adorada, me dê depressa o meu cafetã que está secando ao lado do fogão. Vou viajar com o patrão — anunciou Nikita, embarafustando pela isbá adentro e pegando o cinto que estava pendurado num prego.

A cozinheira, que estava preparando o samovar, de pois de ter tirado uma soneca após o jantar, recebeu alegremente Nikita e, contaminada pela pressa dele, apanhou, rápida, o surradíssimo cafetã que pusera a secar e pôs-se a desamassá-lo e a sacudi-lo.

— Agora, vai ficar à vontade com seu marido! — disse Nikita para ela.

Quando se encontrava a sós com quem quer que fosse, sempre achava uma coisa agradável para dizer. Tal era o bom Nikita.

E, tendo posto o cinto muito estreito e torcido na cintura, por cima da peliça, apertou-o valentemente como se quisesse que a barriga ficasse ainda mais Murcha do que naturalmente era.

— Assim é que vai bem! — disse, não à cozinheira, mas ao cinto, cujas pontas enfiou para dentro. — Não desamarrará nunca!

Levantou e abaixou os ombros para ter a certeza de que seus braços estavam com os movimentos livres, envergou o cafetã, esticando as costas também para verificar a liberdade de ação, e pegou nas malfeitas luvas de lã que estavam na prateleira.

— Pronto! Estou em forma!

— Você devia mudar as botas, Nikita Stepánitch — sugeriu a cozinheira. — As que você calça estão muito estragadas.

Nikita parou como se se lembrasse de alguma coisa:

— Tem razão... Não seria nada mau... Mas vou com estas mesmo.

Afinal, não iremos muito longe. — E saiu em disparada.

— Não irá sentir frio, meu amigo Nikita? — perguntou a patroa, quando ele chegou perto do trenó.

— Acho que não. Isto aqui esquenta muito! — respondeu, levantando a palha para cobrir os pés, e metendo por baixo dela o chicote, do qual o Baio, como bom cavalo que era, não precisava.

Vassílii Andréitch já estava acomodado no trenó. Suas largas costas, agasalhadas com duas peliças, tomavam todo o curvo encosto do assento traseiro. Nikita saltou para o trenó em movimento e se ajeitou o melhor que pôde na parte dianteira, com uma perna para fora.

Com os patins rangendo levemente, o trenó foi levado pelo robusto cavalo e, em breve, alcançou a estrada coberta por uma camada de neve endurecida.

— Que diabo você está fazendo aí? Dê-me o chicote, Nikita! — exclamou Vassílii Andréitch, visivelmente admirando o seu herdeiro, que encontrara meios de se agarrar na parte de trás do trenó. — Saia já daí, menino! Volte para casa logo! Quer enlouquecer sua mãe?

O garoto pulou para o chão. O Baio deu um espirro e acelerou a marcha, passando da andadura ao trote.

Kresti, a aldeia onde morava Vassílii Andréitch, não tinha mais que seis casas. Quando o trenó passou pela última, que era a do ferreiro, repararam que o vento era mais impetuoso do que a princípio julgaram.

A estrada quase desaparecia sob a neve.

As marcas dos patins eram apagadas pelo vento e não se podia distinguir a estrada, se não por ficar mais alta do que a planície que cortava, Não se divisava a linha do horizonte — turbilhões de neve redemoinhavam pelos campos ocultando tudo. Até a floresta de Teliátino, que em geral se via tão bem, mal se deixava antever, por um instante, como uma mancha escura através da alva cortina de neve. Soprando da esquerda, o vento obstinadamente jogava para a direita a crina do Baio e a sua farta cauda, que terminava num grosso nó. A grande gola do cafetã de Nikita colava-se-lhe ao nariz e a uma das faces.

— A neve está danada e impede-o de mostrar o seu valor — observou Vassílii Andréitch, orgulhoso do cavalo que tinha. — Fui uma vez com ele a Pachutino e fique sabendo que em meia hora me pôs lá.

— O que está dizendo? — perguntou Nikita, que não ouvira direito por causa da gola.

— Estou dizendo que o cavalo me levou a Pachutino em meia hora — berrou Vassílii Andréitch.

— Ninguém nega que é um ótimo cavalo — opinou Nikita.

Durante um momento não trocaram palavras. Mas Vassílii estava com vontade de falar e perguntou em voz bem alta:

— Você ainda pretende comprar um cavalo na primavera?

— Não tenho outro remédio — respondeu Nikita abaixando a gola do cafetã e se inclinando para o amo. — Meu rapaz já está quase um homem e é preciso que comece a trabalhar no campo.

— Se é assim, por que não compra o meu pangaré? Eu o venderei barato! — gritou Vassílii Andréitch, animado com o provável comprador e já pronto, como sempre que entabulava negócios de animais, a lesar o mais que fosse possível, pois, sendo o seu negócio favorito, sentia que nele as suas faculdades intelectuais mais se avivavam.

— Talvez fosse melhor o senhor me dar quinze rublos para eu comprar um na feira de cavalos — defendeu-se Nikita, sabendo claramente que Vassílii queria lhe impingir o pangaré, que valia na melhor das hipóteses uns sete rublos, mas que o amo avaliaria em vinte e cinco, a fim de não lhe pagar, depois do ajuste, nem um mísero copeque durante uns seis meses.

— É um cavalo de primeira. Você fará um negócio da China! Eu digo de consciência limpa! Brekhunov nunca prejudicou ninguém. Não sou como os outros, palavra de honra! Eu até prefiro perder dinheiro a prejudicar alguém! gritou com aquele seu jeito de lidar com compradores e vendedores. — Eu reafirmo: é um cavalo de primeira!

— Sim, é verdade — suspirou Nikita, e, vendo que o amo se calava, soltou a gola, que o vento logo empurrou contra a face e a orelha.

Em silêncio viajaram mais meia hora. Nikita sentia o gélido vento entrar pelas mangas do agasalho. Encolhido, respirava com a boca colada à;ola que a tapava, mas não sentia frio no corpo.

— O que é que você acha? Vamos direto ou passamos em Karamichevo? — perguntou o amo.

A estrada que levava a Karamichevo era melhor e mais movimentada porém mais longa. A outra, embora mais curta, era muito má e os marcos ou eram raros ou se achavam cobertos pela neve.

Nikita refletiu um pouco. Depois, resolveu:

— Por Karamichevo é mais longe, mas a estrada é mais segura.

— Concordo, mas se seguirmos em frente só precisamos atravessar a ravina e não há perigo de errar, pois a floresta fica logo

depois —disse Vassílii Andréitch, desejoso de tomar o caminho mais curto.

— Como o senhor quiser — respondeu Nikita, tornando a suspender a gola.

E foi o que fez Vassílii Andréitch. Percorridos uns quinhentos metros, tomou à esquerda, num ponto onde um galho de carvalho, com as suas últimas folhas secas, se agitava ao vento.

A partir dali, o vento Passou a vir de frente, e não tardou a nevar. Vassílii ia guiando o trenó; enchia as bochechas de ar e soprava os bigodes. Nikita cochilava.

Mais de dez minutos se escoaram em silêncio. De repente, Vassílii Andréitch rompeu-o com poucas palavras. Nikita abriu os olhos: — Que é que há?

O amo não respondeu. Preocupado, curvava-se, olhava para a frente e para trás. o cavalo ia a passo, o pêlo, molhado de suor, empastava-se no pescoço e nas Pernas.

— Que é que há? Que é que há? — repetiu Nikita.

— Que é que há? Que é que há? — arremedou Vassílii Andréitch, visivelmente agastado. — Há que não vejo mais os marcos e certamente estamos perdidos!

— Vamos com calma. Vou dar uma olhada na estrada — e Nikita saltou do trenó, tirou o chicote de sob a palha e caminhou para a esquerda do lado em que estivera sentado.

A neve não estava muito espessa, de maneira que pôde avançar sem dificuldade. Mesmo assim, em certos pontos, enterrou as pernas até os joelhos e não demorou a ficar com as botas cheias de neve. Nikita sondava o solo com os pés e com o cabo do chicote, porém, não conseguiu encontrar a estrada.

— Como é? — interrogou-o Vassílii Andréitch, quando Nikita voltou para junto do trenó. o lado.

— Do lado de cá não encontrei. Vamos ver do outro.

— Repare naquela mancha escura lã na frente. É bom ver o que é — disse o amo em tom de ordem.

Nikita caminhou na direção indicada e chegou perto da mancha escura. Tratava-se de um campo que fora lavrado no outono e cuja terra, espalhada pelo vento, escurecia a neve numa grande extensão. Após ter

procurado a estrada pelo lado direito, Nikita sacudiu-se para fazer cair a neve que o salpicava, deu umas patadas para tirar das botas a neve que a elas se apegara, e subiu no trenó.

— A estrada fica à direita — decidiu ele. Nós recebíamos o vento pela esquerda e agora ele está vindo de frente. Temos, portanto, de virar para a direita.

Vassílii Andréitch não discutiu, e tocou para a direita. Mas nem um sinal da estrada. Continuaram avançando, o vento não diminuíra, nem a neve parara de tombar.

— Estou achando que nos perdemos, Vassílii Andréitch — disse, de repente, Nikita, como se estivesse muito satisfeito com o caso. E imediatamente ajuntou, apontando para umas manchas escuras que emergiam da neve: — Que troço é aquele?

Vassílii Andréitch estacou o Baio, que já estava completamente molhado de suor e cujos flancos palpitavam ao ritmo da ofegante respiração. E perguntou:

— Que é que acha?

— Acho que estamos nos campos de Zakharov, sem tirar, nem pôr.

É no que dá a gente abandonar a estrada!

— É mentira sua!

— Não, não estou mentindo, Vassílii Andréitch. E a pura verdade.

o barulho do trenó estava dizendo. Acaba mos de atravessar um campo de batatas. Quer prova melhor do que aquele monte de folhas e aquelas hastes que saem da neve? Sim, estamos na fazenda de Zakharov.

— Não me faltava mais nada! — berrou Vassílii Andréitch. — E que iremos fazer?

— Ora, ora, meu senhor, vamos seguir direitinho em frente e acabaremos por chegar a algum lugar. Pode ser à sede da fazenda ou à casa do capataz.

Mais uma vez Vassílii obedeceu. Avançaram durante bastante tempo, ora atravessando planícies sem vegetação, e onde os patins do trenó rangiam sobre torrões de terra congelada, ora cortando os campos de cereais semeados, uns no outono, outros na primavera, e cujas hastes secas emergiam da neve e se agitavam ao sopro do vento, ora afundando na neve espessa que, na sua alvura uniforme, tudo tornava sem feitio.

A neve caía do alto, e por vezes o vento a levantava do chão em turbilhões. O Baio mostrava-se extremamente fatigado, o pêlo, ensopado de suor, encrespava-se de gelo, e já só caminhava a passo. Súbito, pisou

em falso e caiu numa vala ou barranco. Vassílii Andréitch tentou retê-lo, mas Nikita gritou:

— Não puxe o freio! Dê mais rédea! Upa! Upa! Meu queridinho! — e, saltando do trenó, enterrou-se, por sua vez, na neve.

O animal reanimou-se e, num arranco, conseguiu se firmar num lugar endurecido pelo gelo. Tinham, naturalmente, caído num fosso.

— Onde estamos agora? — perguntou Vassílii Andréitch.

— Logo o saberemos — teve como resposta. — Vamos tocando para diante e teremos que chegar a algum lugar.

— Aquilo lá não será a floresta de Goriatchkino? — indagou. o amo, apontando para uma massa escura que a nevasca deixava entrever.

— Vamos para lá e veremos se é a floresta ou não respondeu Nikita.

Notara ele que o vento trazia daquele lado folhas secas de pereira e deduzira que não podia ser uma floresta e sim um lugar habitado, mas não quis afirmar nada.

II

Não haviam andado mais que trinta metros, quando distinguiram silhuetas negras de árvores e ouviram uma espécie de queixume. Nikita acertara. Não era uma floresta, mas um renque de pereiras, as quais tinham umas últimas folhas secas, Era claro que haviam sido plantadas ao longo de uma vala e perto de uma fazenda.

Tendo chegado até elas, que batidas pelo vento soltavam aquele gemido, o cavalo empinou de repente, subiu um barranco e tomou para a esquerda. Tinham encontrado a estrada.

— Cá está ela — disse Nikita. — Mas não sabemos onde.

Sem vacilar, o Baio foi pela estrada coberta de neve e não tinham percorrido mais que cinqüenta metros quando depararam com um celeiro, cujo telhado desaparecia sob densa capa de neve. Contornaram-no e se viram de novo fustigados de frente pelo vento e diante de um vasto monte de neve.

Era difícil ver a ruazinha estreita que se abria entre duas casas. O vento é que formara aquele monte de neve bem no meio da estrada e era preciso vencê-lo. Conseguiram transpor o obstáculo e enveredaram pela

ruela, Perto de uma das últimas casas, peças de roupas congeladas pendiam de uma corda e eram agitadas furiosamente pelo vento — uma camisa branca, outra vermelha, ceroulas, meias grossas e uma saia. A camisa branca, então, parecia frenética, acenando com os braços vazios.

— Que grande preguiçosa! Nem para um dia de festas passou a sua roupa! — condenou Nikita, mas logo acrescentou: — Mas quem sabe? Talvez a mulherzinha esteja doente.

III

A entrada da aldeia ainda ventava e a estrada estava tomada pela neve, mas, à medida que avançavam, sentiam a temperatura mais suave e certo calor e alegria. Um cão latiu num quintal e uma mulher, que corria Com o casaco puxado sobre a cabeça, parou à porta da isbá, para ver os desconhecidos. Do centro da aldeia vinha um coro de moças.

Viram que a neve era menos abundante ali e que o frio e o vento não se mostravam tão fortes.

— Estamos em Grichkino! — exclamou Vassílii Andréitch.

— Estamos sim — concordou Nikita.

De fato, estavam em Grichkino. Depois de terem se desviado para a esquerda, cerca de dez quilômetros, constatavam que ainda assim haviam se aproximado do término da viagem, pois Grichkino não distava de Goriatchkino mais de cinco quilômetros.

No meio da aldeia, encontraram um homem muito alto, que ia pelo meio da rua, conduzindo um cavalo.

— Quem vem lá? — gritou ele, parando. Mas, reconhecendo imediatamente Vassílii Andréitch, segurou um dos varais e, tateando, chegou-se e se sentou numa borda do trenó.

Era Issai, camponês muito conhecido de Vassílii Andréitch e famoso em todo o distrito como ladrão de cavalos. — Então, Vassílii Andréitch, que é que veio fazer cá por estas paragens? — perguntou, e Nikita sentiu bem o hálito impregnado de vodca.

— Vamos a Goriatchkino.

— Ali, tem muita graça! Como é que vieram parar aqui? Deviam ter tomado a estrada de Malakhovo.

— Nem tudo dá certo na vida! Que se há de fazer? respondeu

Vassílii Andréitch, freando o Baio.

— Bom cavalo — tornou Issai examinando o animal e, num gesto habitual, apertando o nó da cauda, que se afrouxara na caminhada. — E vão passar a noite aqui?

— Não, meu velho, Temos que prosseguir viagem.

— Se é preciso, não digo nada. Mas quem é o companheiro? Oh, nem mais nem menos que Nikita Stepánitch!

— Ora, quem havia de ser? — respondeu Nikita. — E só rogo a Deus que não nos percamos outra vez!

— Não veio como. Dêem meia-volta e sigam em frente. No fim da aldeia continuem sempre em frente. Quando chegarem à estrada, então, dobrem para a direita.

— Mas onde devemos dobrar certo? — indagou Nikita.

— A certa altura encontrarão umas moitas. Defronte delas está o marco. É um velho galho de carvalho. Não há como errar.

Vassílii Andréitch instigou o Baio, fez a meia-volta e se foram em frente.

— É possível que tenham de pernoitar aqui! — gritou-lhes Issai.

Mas Vassílii Andréitch não lhe deu resposta. Apressou mais o cavalo, achando fácil vencer cinco quilômetros, dois dos quais na floresta e os restantes numa estrada plana, tanto mais que o vento amainara e a neve cessara de cair. Seguiram em sentido inverso à rua que já haviam percorrido, pintalgada de estrume fresco, e a camisa branca estava agora presa por uma manga só, passaram pelas gemedoras pereiras e se encontraram, outra vez, em campo aberto. O vento voltara a soprar fortemente e a neve já estava tão alta que a estrada desaparecera, engolindo os marcos quase até a ponta, o que tornava difícil distingui-los.

Vassílii Andréitch apertava os olhos, inclinava a cabeça, ora para a direita, ora para a esquerda, tentando divisar os marcos, mas afinal deixou que o Baio os levasse, mais confiante no instinto dele do que nos seus próprios olhos.

E, realmente, o animal não se enganava, e avançava, umas vezes mais pela direita, outras vezes mais pela esquerda, mas sempre obedecendo às sinuosidades da estrada, experimentando se o solo estava firme sob as suas patas. E tão bem se portava o Baio que, a despeito da impetuosidade do vento e da neve, que voltara a cair em abundância, uma que outra vez conseguiram distinguir um marco à direita ou à esquerda.

Decorridos uns dez minutos, perceberam em frente deles uma massa escura que se aproximava através da densa cortina de neve, que o vento impelia obliquamente. Eram viajantes que seguiam o mesmo caminho. Depressa o Baio os alcançou, chegando a bater com a pata na parte traseira do trenó.

— Eh! Eh! Cuidado! Mais para o lado! — gritavam os passageiros do outro trenó.

Vassílii Andréitch emparelhou com o veículo e viu que conduzia três homens e uma mulher. Certamente voltavam para casa depois da festa na aldeia. Um dos camponeses fustigava com um galho seco a garupa do pequeno cavalo salpicado de neve. Os outros dois berravam qualquer coisa, acenando com os braços, e a mulher ia muito encolhida dentro do agasalho coberto de neve, imóvel, no fundo do trenó.

— De onde são vocês? — perguntou Vassílii Andréitch.

— A... a... a...

— Estou perguntando: de onde vocês são?

— A... a... a... — berrava com todos os pulmões um dos camponeses, sem que fosse possível entender o que dizia.

— Depressa! Eles querem passar na nossa frente! Não deixemos — berrava o outro camponês com o máximo das suas forças e batendo furiosamente no pobre cavalinho.

— Estão voltando da festa, não é?

— Mais depressa, Siomka! Bata com força! Toque para frente!

Os trenós se chocaram, estiveram quase parando, enganchados, mas se separaram, e o de Vassílii Andréitch passou à dianteira.

O cavalinho, peludo, barrigudo, coberto de neve, empenhava suas derradeiras energias, ofegando penosamente.

Em vão se esforçava para escapar às pancadas que levava e corria o quanto podia, enterrando as pernas curtas na neve profunda e atirando- a para trás. Quando os trenós se emparelharam, durante alguns segundos, Nikita sentira, na altura do ombro, o focinho do cavalinho, que tinha o beiço inferior entrado como o dos peixes, com as narinas dilatadas e as orelhas murchas de pavor. Mas, logo, ficara para trás.

— Veja só o que o vinho faz! — comentou Nikita. Vão rebentar o cavalinho, coitado! São uns verdadeiros selvagens!

Ainda se ouviu, durante alguns momentos, o resfolegar do animal e a gritaria dos ébrios. Mas foram diminuindo, diminuindo, até que não se ouvia mais que o assobiar do vento e o ranger dos patins.

O encontro alegrara Vassílii Andréitch, aumentara a confiança em si mesmo e, já sem se importar com os marcos da estrada, deixou tudo ao instinto do Baio, forçando-o a andar mais depressa.

Nikita nada podia fazer. E, como de costume, sempre que se via relegado a um segundo plano, cochilava, procurando descansar um pouco. Repentinamente, o cavalo estacou e quase Nikita era jogado fora do trenó.

— Estamos perdidos outra vez! — exclamou Vassílii Andréitch.

— Não diga!

— Digo. Não vejo mais os marcos. Na certa nós nos afastamos da estrada novamente,

— Então é preciso procurá-la outra vez — respondeu simplesmente Nikita.

E se erguendo, como da vez anterior, pôs-se a caminhar na neve com seu andar lépido, os pés virados para dentro. Vasculhou as redondezas atentamente, ora desaparecendo na bruma, ora reaparecendo de chofre para de novo sumir... Afinal, voltou ao trenó.

— Por aqui perto posso garantir que a estrada não passa. Talvez fique um pouco mais adiante — disse, subindo no veículo.

Escurecia. A nevasca não crescera de intensidade, mas também não abrandara.

— Se ao menos pudéssemos ouvir aqueles camponeses — lamentou Vassílii Andréitch.

— Eles não nos alcançaram mais. O cavalinho não ajudou. Mas talvez tenhamos nos afastado bastante da estrada. Ou quem sabe se eles também se extraviaram?

— Que rumo tomaremos agora? — indagou o amo.

— Vamos deixar o Baio agir por sua conta. Tenho certeza que nos livrará desta esparrela. Passe-me as rédeas.

Com a maior satisfação, Vassílii Andréitch passou-as para as mãos de Nikita, pois começava a sentir as suas muito frias, não obstante as grossas luvas de lã. Nikita contentou-se em segurá-las, permitindo que seu cavalo favorito as guiasse com a sua inteligência. E não demorou que o pobre animal, empinando uma orelha e depois a outra, desse umas voltas e depois arrancasse.

— Esse bicho só falta falar! — exclamou Nikita. Veja como é sabido. Vamos! Vamos! Muito bem!

O vento, agora, vinha pelas costas e minorava a sensação de frio.

— Animal inteligente está aqui! — exultava Nikita. O pequeno quirguiz é forte, mas estúpido como ele só! O Baio não! É outra coisa... Preste atenção nas orelhas dele. Não precisa de telégrafo. Ouve tudo quanto se passa em volta num raio de um quilômetro.

Dito e feito. Não havia passado meia hora e eis que divisaram, bem diante do nariz, qualquer coisa escura — uma floresta ou uma aldeia — e à direita os marcos da estrada.

— Com a breca, estamos outra vez em Grichkino! bradou Vassílii Andréitch.

Pura verdade. À esquerda surgira o mesmo celeiro com o telhado coberto de neve e, mais além, a corda com as roupas dependuradas — as camisas e as ceroulas batidas desesperadamente pela ventania.

Enveredaram pela conhecida ruazinha e novamente a atmosfera era suave, mais quente e mais alegre. Mais uma vez passaram na ruela pintalgada de estrume fresco, tornaram a ouvir as vozes, os cantos, os latidos dos cães. A noite descia e nas isbás iam acendendo as luzes.

Vassílii Andréitch mandou parar o trenó diante da entrada. Encaminharam-se para uma janela iluminada de um casarão de tijolos, e a claridade que vinha de lá fazia cintilar os flocos de neve ao cair. Nikita bateu no vidro com o cabo do chicote.

— Quem é? — perguntou alguém lá dentro

— São os Brekhunov de Kresti, meu bom senhor. Faça o favor de abrir a porta — respondeu Nikita.

vi-se da janela e, no fim de dois minutos, Ou

Afastaram o na porta da rua. ram o complicado barulho - Em seguida, houve o ranger do ferrolho de um cadeado, escorando a porta externa, que o vento teimava em fechar, e apareceu um velho camponês de avantajada estatura e barba grisalha, com uma camisa branca e unia curta peliça atirada rios Ofribros, acompanhado de um moço de camisa vermelha e botas de couro.

— Você é mesmo Vassílii Andréitch? — perguntou o velho.

— Sim, em carne e osso. imagine que nos perdemos!

Andréitch. — Pretendíamos ir a Goriatchkino e viemos parar aqui.

— explicava Vassílii. Tentamos outra vez e novamente voltamos sem querer!

— Vejam só! riu o velho, e, virando-se para o rapaz de camisa vermelha, ordenou: — Potruchka, abra o portão dos carros.

— Num instante — respondeu o moço alegremente, e saiu em disparada. — meu amigo

— Mas nós não vamos pernoitar aqui, declarou Vassílii Andréitch.

— Mas onde vão se meter? Está muito escuro. É melhor que fiquem!

— Bem quisera eu. Mas temos que prosseguir viagem. É impossível ficar, sabe? Negócios.

— Ao menos entrem para se aquecer um pouco. Chegaram exatamente na hora do sarnovar.

— Eu aceito sim —, respondeu Vassílii Andréitch. — A noite não vai ficar mais escura do que está e quando vier a lua, enxergaremos melhor o caminho. O que acha você, Nikita, se entrarmos para esquentar os ossos?

— Como não? É coisa que não se recusa — replicou Nikita, que sentia todo o corpo enregelado.

Vassílii Andréitch entrou. Petruchka abrira o portão e Nikita conduziu o trenó para o pátio, metendo o Baio no galpão, cujo piso estava coberto de estrume. As galinhas e o galo, que ia se achavam empoleirados, não gostaram da invasão e se puseram a cacarejar e a se remexer. Assustadas, as ovelhas corriam de um lado para o outro, batendo ruidosamente com os cascos no chão gelado. o cachorro recebeu Os intrusos com latidos de medo e de raiva.

Nikita gastou palavras com todos os animais — Pediu desculpas às galinhas, jurando não as incomodar, ralhou com as ovelhas por se amedrontarem sem motivo; e, enquanto amarrava o Baio, não parou de pedir ao cachorro que se mantivesse calmo.

— Aqui estou como quero — disse, sacudindo a neve que se acumulara na roupa. E virando-se para o cachorro:

— Você sabe latir, hem! Mas chega, meu parvo! Já passou da conta. Não somos ladrões, não. Está se cansando à toa.

— Estes são Os três conselheiros da casa, conforme está na história — disse o moço, arrastando para dentro do galpão o trenó que ficara de fora.

— Que conselheiros? — quis saber Nikita.

— É o que vem escrito no livro de Paulsen — explicou o outro com um sorriso. — o ladrão chega, de mansinho, perto da casa e o cão

ladra; isso quer dizer: não fique aí como um bobo, preste atenção. O galo canta e é como quem diz: levante-se. O gato se lava; isso significa: teremos visita, prepare tudo para recebê-la bem.

Petruchka sabia ler e escrever e conhecia quase de cor o livro de Paulsen, o único que possuía. E quando abusava um pouco do copo, como acontecia naquele dia, gostava de citar certas frases dele, que lhe pareciam ajustadas às circunstâncias.

— Sim, meu rapaz. É isso mesmo — concordou Nikita.

— Acho que está com muito frio, não está, tiozinho? — tornou Petruchka.

— Sim. Estou gelado.

Atravessaram o pátio e entraram em casa.

IV

Vassílii Andréitch parara numa das casas mais ricas da aldeia. Aquela família possuía cinco jeiras de terra cultiva das e ainda arrendava algumas. Tinha seis cavalos na estrebaria, três vacas, duas novilhas e umas vinte ovelhas.

Compunha-se de vinte e duas pessoas: quatro filhos casados, seis netos, dos quais Petruchka era o único casado, dois bisnetos, três órfãos e quatro noras com os seus filhos.

Era uma dessas raras famílias aldeãs que não se desagregara e que, por tal razão, não efetuara a partilha de seus bens; porém a discórdia já surgira entre as mulheres, como é do costume, e ia surdamente se agravando, de sorte que seria inevitável uma próxima partilha. Dois dos filhos trabalhavam em Moscou como carregadores de água e um terceiro era soldado. Naquela ocasião viviam em casa: o velho, a mulher, o primogênito, que viera de Moscou para a festa da aldeia, o segundo filho, que administrava a propriedade, todas as mulheres e seus filhos e ainda um vizinho e compadre, que ali estava hospedado.

Sobre a mesa pendia uni lampião que aclarava cruamente a louça do chá e uma garrafa de vodca, pratos de salgados e bolos e estendia a luz às paredes de tijolos e o canto devoto, onde estavam os ícones.

Trazendo no corpo só a peliça negra, Vassílii Andréitch ocupava na mesa o lugar de honra. Mordendo o bigode, ainda com traços de neve, repassava os olhos saltados e frios de gavião pelas paredes e pelas

pessoas. Além dele, encontravam-se na mesa o velho de barbas grisalhas, e que era completamente calvo, com uma camisa de linho branco tecido em casa, o primogênito vindo de Moscou, homem de robusta compleição, vestindo uma camisa de algodão fino, o filho que dirigia a propriedade, também espadaúdo, e o vizinho, um camponês magro e ruivo.

Comidos e bebidos, os homens se dispuseram a saborear o chá. O samovar fervia ruidosamente. junto ao fogão, dormiam crianças, e, num banco encostado à parede, uma mulher embalava um berço com o pé. A dona da casa, com o rosto todo cortado pelas rugas da velhice e que lhe marcavam até mesmo os lábios, atendia polidamente o visitante. E, no momento em que Nikita entrou na sala, estava ela enchendo um grande copo de vodca, que ofereceu a Vassílii Andréitch com as seguintes palavras:

— Não recuse, Vassílii Andréitch, Beba à nossa saúde.

Ao ver o líquido claro e sentindo-lhe o cheiro, Nikita, que morria de frio e cansaço, ficou profundamente perturbado. Seu rosto contraiu-se. Sacudiu o gorro e o cafetã e, como se não houvesse ninguém na sala, virou-se para o lado dos ícones, persignando-se três vezes. Só, então, deu atenção aos que estavam na mesa. Cumprimentou primeiramente o velho, depois os convivas e, por último, as mulheres que se achavam junto ao fogão. E, após desejar um geral

“Boas Festas”, pôs-se a tirar o cafetã sem olhar para a mesa.

— Deve estar roxo de frio, tiozinho! — comentou o primogênito, vendo que as sobrancelhas e as barbas de Nikita estavam salpicadas de neve.

Despido o cafetã, Nikita sacudiu-o mais uma vez, pendurou-o num prego perto do fogão e se encaminhou para a mesa. Foi um momento difícil para ele: por um triz não pega o copo para emborcar de uma talagada o líquido claro e cheiroso. Mas deitou um olhar a Vassílii Andréitch, lembrou-se da promessa que fizera, das botas novas que vendera para beber, do filho a quem prometera comprar um cavalo logo que chegasse a primavera e, com um longo suspiro, resignou-se a ficar com a goela seca.

— Muito obrigado. Não bebo — disse, franzindo as sobrancelhas.

E foi se sentar num banco perto da janela.

— Mas por quê? — interrogou o primogênito.

— Porque não bebo, nada mais — respondeu sem levantar os olhos. E começou a cofiar as barbas e os ralos bigodes, livrando-os dos pedacinhos de gelo que se haviam acumulado neles.

— A bebida não faz bem a ele — esclareceu Vassílii Andréitch, mordendo um bolo e pegando no copo para mais uma golada de vodca.

— Se é assim, tomará chá — disse a boa dona da casa.

— Você deve estar gelado, criatura. — E virou-se para as mulheres: — Como é? Que esperam para nos passar o samovar?

— O chá já está pronto — respondeu uma das noras, que, limpando com um pano o samovar fumegante, levantou-o a custo e colocou-o pesadamente em cima da mesa.

Vassílii Andréitch começou a relatar como haviam se perdido e dado, por duas vezes, com os costados ali. Pormenorizou tudo quanto acontecera na procura do rumo certo e enfatizou o encontro com o trenó carregado de camponeses bêbados. O velho se impressionou muito com o extravio, explicou onde e por que acontecera, esclareceu quem eram os indivíduos embriagados e para que lugar deviam ter ido.

— Para se ir a Moltchanovka é muito simples. Nem uma criança se engana no caminho. Basta virar quando se chega ao primeiro bosque.

— Mas o certo é que se enganaram — ponderou o vizinho.

— Não será melhor dormir aqui? Resolvam. Num instantinho arrumaremos camas — disse a velha.

— Sim, será muito melhor. Amanhã, bem cedinho, continuariam a viagem — apoiou o velho.

— Impossível, meu caro. Tenho negócios Urgentes retrucou Vassílii Andréitch. — Aquilo que a gente pode perder numa hora, às vezes nem em um ano pode recuperar acrescentou, ao se lembrar da floresta e dos negociantes que não trepidariam em lhe dar uma rasteira. E, voltando-se para Nikita: — Havemos de chegar lá, não é mesmo?

Nikita não respondeu logo, fingindo estar entretido com as barbas e os bigodes, mas, por fim, murmurou em tom aborrecido:

— Desde que não nos percamos outra vez...

Estava chateado porque sentia uma grande vontade de beber vodca. O chá poderia atenuá-la, mas ainda não lhe haviam oferecido.

— É preciso somente ficar atento à curva. Depois não haverá como errar. A floresta fica logo adiante.

— O senhor é quem sabe, Vassílii Andréitch. Por mim, estou pronto — disse Nikita, recebendo o copo de chá, que finalmente lhe estendiam.

— Pois está feito. Bebamos o chá e depois vamos em frente!

Nikita nada disse. Contentou-se em balançar a cabeça, derramar o chá num pires e esfregar as rudes mãos endurecidas no vapor que se desprendia, para aquecê-las. Depois, levando à boca um torrãozinho de açúcar, saudou o velho e a velha dizendo:

— À sua saúde! — e ingeriu duma vez o chá quase fervendo.

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