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Diário Íntimo

Lima Barreto

1900

2 de julho

Quando comecei a escrever este, uma “esperança” pousou.

CAPITULO 1

A antipatia do Largo de São Francisco fica mais acentuada nas primeiras horas da manhã, dos dias de verão. O Sol o cobre inteiramente e se espadana por ele todo com a violência de um flagelo. Pelo ar, a poeira forma uma película vítrea que fulgura ao olhar, e do solo, com o revérbero, sobe um bafio de forja que oprime os transeuntes. Não há por toda a praça uma nesga de sombra, e as pessoas que saltam dos bondes, caminham apressadamente para a doçura amiga da Rua do Ouvidor. Vão angustiadas, e opressas, parecendo tangidas por ocultos carrascos impiedosos. Os negros chapéus-de-sol dos homens e as pintalgadas sombrinhas das senhoras, ao balanço da marcha, sobem e descem como se flutuassem ao sabor das ondulações de um curso d’água. São como flores, grandes flores, nenúfares e ninféias, estranhas e caprichosas, que recurvassem as imensas pétalas ao Sol causticante das nove horas da manhã. A superfície lisa da fachada da Politécnica é o espelho, onde se refletem e concentram os raios do sol que quer o Largo vazio; e o trânsito se faz para e da Rua do Ouvidor, segundo dois recurvados filetes que terminam num e noutro lado daquela fachada. À violência do Sol nada resiste. O granito da portaria da igreja de São Francisco parece estalar. Os tílburis em fileira ao centro da praça rebrilham como ágatas e as suas pilecas, a aquele calor, dormem resignadamente. De quando em quando, por entre a fileira dos tílburis, um rapazola atravessa e lépido sobe as escadas da Escola Politécnica. São os únicos transeuntes que se lançam pela praça corajosamente. As aulas começam às dez horas e eles vêm vindo meia hora antes, em pleno suplício. No começo do ano é bom de ver o pátio central por essa hora. Os novos e os velhos, os crônicos e os distintos, encontram-se e põem-se a esgrimir espiritualmente, procurando cada qual dizer as mais maravilhosas coisas. Alunos há que só aparecem na Escola durante o primeiro mês; depois, vão-se e só voltam pelo começo do ano seguinte, para conversar, discutir e “trepar”. “Trepar” é um dos prazeres mais estimados entre os rapazes. Guarda-se, até, a tradição dos bons “trepadores”.

— Você não conheceu o Bolsel, Costa? — Como não? Muito! — Que trepador, hein? — Chi! Era feroz.

E os novatos arregalam muito os olhos e ficam em segredo desejando mais aquela glória do que os prêmios burocráticos que o regulamento promete.

“Trepar” é uma variante da maledicência nacional; mas enquanto esta, em geral, traduza sempre uma pontinha de ódio latente, a “trepação” se faz sem razão e sem causa. É um prazer, uma ginástica intelectual, uma satisfação do espírito, unicamente exigida pelo feitio mental dos rapazes e nunca provocada por qualquer ato da vítima. “Trepa-se” à toa, nos amigos, nos inimigos, nos indiferentes, nos vivos e nos mortos, em tudo e em todos.

Nos primeiros dias do ano letivo é que a trepação recrudesce. As reprovações, as desilusões nos exames e, sobretudo, a inocente vaidade dos antigos, em aparecer sobre-humanos aos novos, desenvolvem o humor agressivo dos rapazes.

— Que tal o visconde, hein? — ? ? — Vai publicar uma nova edição da Geodésia...

— É certo? — É; mas tirou aquele pedacinho — “em terras como a nossa onde não há palmeiras”...

— Em compensação, indaga um outro, continuará a aconselhar que os burros não podem carregar os instrumentos de precisão, pois lhes falta delicadeza para isso? A roda ri-se muito e um outro conta que o Santiago, o lente de Canais, não se “aperta”. Começa em Canais, continua por Cinemática, põe Geodésia, mistura Máquinas e acaba em Canais. É um gênio! De repente, a trepação, que ia viva, descamba para a ópera italiana. A conversa se generaliza e todos se possuem de paixão. Não há que admirar: a ópera lírica é a mais alta expressão da estesia dos nossos estudantes; no meio do ano, pela quadra própria, ela os absorve completamente. Fora da ópera, mesmo na música, para a sensibilidade deles não há arte...

Há ocasiões, porém, que a conversa passa da “trepação” e do “lírico”, para as questões de metafísica matemática. Toda a gente é iniciada nela. Há questões gerais que acirram as inteligências de todos; outras há, contudo, que só interessam os alunos de um dado ano e de uma certa cadeira. A questão se “du” pode ser substituído por “su” pertence à cadeira de Mecânica, mas os problemas das geometrias agita toda a Escola. Os paradoxais (sempre os há entre rapazes) deixam se arrastar pelo vôo doirado da segunda verdade; e gostam de levar, à candura dos positivistas, dúvidas sobre a existência de uma única geometria. Discutem a questão do espaço, uma forma subjetiva da nossa intuição, independente de toda e qualquer experiência, misturam a convenção dos postulados; e, com um esforço de filosofar risível, concluem que é uma ciência apriorística, e o mundo bastante plástico, para se curvar a qualquer uma e a todas que se queira inventar.

Os positivistas são inflexíveis. Contrapõem, à dialética dos metafísicos, algumas fórmulas esotéricas da doutrina, e declamam contra a anarquia mental e os sofistas anti-sociais. Há porém os euclidianos ortodoxos, positivistas ou não, que, por vezes, se opõem com vantagem aos paradoxais impetuosos.

Quando se contempla — iluminados pelo Sol vitorioso de março, que esbraseia as telhas do edifício e vem dar, aos descorados arbustos do jardinzito do pátio, um beijo escaldante de vida — quando se contempla aquela porção de rapazes, cujas inteligências moças ainda, no indivíduo e na raça, agitam-se tumultuáriamente ao influxo da filosofia européia, surge-nos aquela quadra espiritual da Europa pelo XII século, quando chegou às suas universidades a Enciclopédia de Aristóteles traduzida. As palavras com que Taine nos dá esse quadro remoto, poderiam ser empregadas para descrever este contemporâneo. É com a mesma sofreguidão, é com a mesma teima sombria, é com o mesmo tropel bárbaro que aqueles moços invadem, tomam de assalto, e varam as muralhas das difíceis abstrações e das fugitivas filigranas da metafísica européia. Talvez, como no XII século, daquele trabalho encarniçado, nenhuma idéia nova se venha juntar ao patrimônio humano.

Será, quiçá, um obscuro trabalho de disciplina mental, a que a raça infante se impõe para aproveitar quando adulta.

No começo desse ano, pelo meado de março, ainda funcionavam algumas mesas de exames; as aulas, contudo, já estavam abertas e seguiam o trilho do horário. Como no início dos anos anteriores, os bancos do pátio estiveram povoados até às dez horas, tempo em que a maioria retirara-se para assistir as preleções. Um grupo pequeno ficara. Conheciam já a matéria das primeiras aulas — para que ir? Fernando Amoreira, que estava em estado de graça — como ele dizia — durante a manhã toda, continuava a expandir a sua verve. Sob o olhar desdenhoso de Osvaldo Litichart de Guimarães, rapaz do Norte, que na prosápia contava como antecedente um general holandês do tempo da ocupação, Fernando Amoreira discorria desembaraçadamente, de pé, com a mão esquerda no bolso da calça e a direita agitando o cigarro aceso. Osvaldo quase não sorria, a roda, porém, ria-se a bom rir das coisas do Fernando. O seu temperamento singular fazia as delícias dos colegas. Nada o alterava, nem mesmo as reprovações. Ria-se sempre dos acontecimentos e imaginava uma teoria risonha para justificá-los. Ninguém como ele seguia as nuances de uma idéia, ninguém como ele buscava com tanto afinco a contradição entre duas opiniões respeitáveis; por isso, quando lhe caiu em mãos aquele sutil livro de Poincaré, La Science et l’Hypothése, todo ele vibrou satisfeito, ébrio de contentamento — podia duvidar também da geometria! Era um espírito livre e solto, desapegado de todas as certezas, inclusive a científica. Para nós, era uma espécie de Chamfort, de Rivarol; para outros, um palhaço com uma graça difícil e meditada. Seu prazer era conversar. Vivia a palestrar, durante o dia, nos corredores da Escola; à tarde, nos cafés.

— Hoje, tive uma idéia.

— Qual foi, Fernando? Se as coisas continuam nesse caminho, respondeu ele indiretamente, dentro de dois séculos o estudo da geometria terá alguma coisa de parecido com a compra de fitas.

Como? — Eu explico. Você quer comprar fitas e vai à casa de armarinho. O caixeiro pergunta: “De que quer, de seda, de gorgorão, ou...?” Você responde: “De chamalote”. “De que cor?” “Azul”, responderá você. Dentro de dois séculos, o pai leva o filho ao professor de geometria. Este pergunta a aquele: “Que espécie de geometria quer que eu ensine? A euclidiana, a russa, a de Riemann...?” O pai pensa um pouco e diz: “A melhor”. “Todas são boas”, retruca o professor, “pois todas são certas”. “Então ensine ao menino a russa, deve ser mais esquisita”. Eis aí.

Houve um sorriso fino no grupo. O Fernando, muito contente, tirou uma longa fumaça do cigarro, andou até ao gradil e olhou a praça em frente e exclamou: — Lá vem o Brandão, o Spinosa...

— O príncipe negro, fêz um.

O riso, provocado pela última pilhéria do Fernando, não se interrompera de todo e recrudesceu a aquele epigrama do Sodré. Litichart, que até ali estivera calado, resolveu-se a falar.

— Porque vocês não gostam do Tito? — Não, eu gosto muito dele. É inteligente, honesto, respondeu o Fernando.

— Com franqueza, acho-o muito orgulhoso, respondeu o Sodré, que lançara o epigrama.

— Que tem isso, Sodré? O seu orgulho é a força motriz de sua máquina viva... É a sua arma de defesa contra o mundo que lhe é hostil... É o escudo que o defende... É o impulso que o fará ir para frente e para cima...

Osvaldo dissera aquelas palavras ardentemente, sem refletir, e nelas acentuara tanta paixão, que parecia que se defendia e não ao amigo.

— Mas podemos levar a vida pelos meios comuns.

— Qual, Sodré, depende de onde se parta, quer se ir e onde se quer chegar.

— O orgulho é um pendor egoísta, sentenciou um positivista. O aperfeiçoamento moral tem por fim reprimir os nossos pendores egoístas.

Tito Brandão entrava. Cortejou polidamente a todos, sentou-se e o Fernando ex aperto lhe indagou: — Como se deve levar a vida, Brandão? — Como quem quer subir aos céus... A vida é uma escalada de Titã.

* * *

1903

Um Diário Extravagante

Eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto. Tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro, escreverei a História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade.

* * *

Nasci em segunda-feira, 13-5-81.

* * *

O meu decálogo: 1 — Não ser mais aluno da Escola Politécnica.

2 — Não beber excesso de coisa alguma.

3 — E...

* * *

Dia 12 de junho de 1903.

Acordei-me da enxerga em que durmo e difícil foi recordar-me que há três dias não comia carne. Li jornais e lá fui para a sala dar as aulas, cujo pagamento tem sido para mim sempre uma hipótese. Tomei café. Escrevi o memorial para o Serrado. Não o achou bom e eu sou da opinião dele.

Continuo a pensar onde devo comer. Há chance de ser com o Ferraz. Ah! Santo Deus, se depois disso não vier um futuro de glória, de que me serve viver? Se, depois de percorrido esse martirológio, eu não puder ser mais alguma coisa do que o idiota Rocha Faria — antes morrer.

E os dez mil-réis! Idiota.

Noite. Ainda não jantei. Às seis horas, com um tostão, comi uma empada. Que delícia! Ah! se o futuro...

E os dez mil-réis do tal visconde! Idiota.

Os protetores são os piores tiranos.

* * *

Dia 12.

Na eleição. Que bobo é o Everardo; pois não é que ele deixou perceber que exigia do diretório aquele ofício, para disfarçar a sua nula influência junto aos estudantes.

E o Ribeiro? Presidente! Hein? Quem o diria! E o Carneiro? Distinguiu-se: nem votou.

Todos que somos apegados àquilo e eu... que besta sou! Enfim, o Orlando inda o é maior. Bem, está dito.

* * *

Ainda e sempre: sem dinheiro.

Moses furibundo, Justo idem. Levi no centro trabalha para paz. Ribeiro furioso. Tudo em guerra!

* * *

O meu concurso. Lá o fiz. Fui de prova em prova num crescendo medonho... como eu sei, hein! E o nomeado foi o Milanes! Com certeza, o bom-bocado não é para quem o faz e sim para quem o come.

* * *

O Moses diz que os auxílios dos outros são platônicos.

* * *

Aflar — ação do vento contra as folhas — José de Alencar. Palejar — empregado por esse mesmo escritor no sentido da luz a lançar reflexos ou ondulações, tornando uma fronte pálida. Exale, adjetivo, do mesmo autor. Gárceo — de garça, à laia de garça — perfil gárceo José de Alencar. Elance — eflúvio — elance de ternura. Rubescência — gradação da cor que se vai ascendendo às faces até chegar rubor.

* * *

O Sol ia alto e, pelas encostas do serro, o verde, sob aquela luz, variava de tons; aqui, esmeralda; ali, musgo; e todos, num coro, se confundiam num só, multivirescendo, irisado de azul.

* * *

Sem data

“No esforço voluntário, a reflexão interior se apercebe de um ‘eu’ que quer e de um ‘não-eu’ que resiste.” Maine de Biran.

Curso de filosofia feito por Afonso Henriques de Lima Barreto para Afonso Henriques de Lima Barreto, segundo artigos da Grande Encyclopédie Française du Siécle XIXéme, outros dicionários e livros fáceis de se obter.

O curso será feito segundo a história do pensamento filosófico, devendo cada época ser representada pela opinião dos seus mais notáveis filósofos. Na passagem de uma época para outra, constituirá o grande objetivo do curso estabelecer a ligação dos dois pensamentos, as suas modificações e o que se eliminou de um e porque essa eliminação foi feita, assim como as reações da ciência e da arte. Dessa maneira, o curso será dividido em quatro partes:

1) Filosofia em geral

Modo antigo de entendê-la e modo moderno de encará-la. Definição. Divisões. Lógica. Metafísica. Teodicéia. Filosofias particulares das ciências e das artes. O lugar que lhes compete. Fim da filosofia. Utilidade (2 lições).

2) Filosofia antiga

a) Filosofia grega (3 lições); b) Filosofia alexandrina (2 lições); c) Filosofia romana (2 lições); d) Pensamento antigo.

3) Filosofia na Idade Média

Filosofia árabe. Escolástica.

Pensamento medievo (4 lições).

4) Filosofia moderna

Escolas Filosofias (5 lições).

5) Filosofia contemporânea

Sociologia. Estudo de raças. Teorias (4 lições).

Pensamento atual (1 lição).

6) Filosofia chinesa (1 lição).

7) Filosofia hindu (1 lição).

8) Religiões

Crenças religiosas. Animismo. Fetichismo.

Politeísmo e monoteísmo.

Panteísmo e materialismo (3 lições)

Programa 1a Parte

objeto da Filosofia (I e II). III — Método. IV -Definição e divisões. Psicologia. Lógica. Teodicéia. Moral. Metafísica e Estética. Modos de encará-la; contribuições diversas do socialismo (estudos sociais), donde modificação de sua significação primitiva.

O resto se fará pelo programa do antigo Colégio Pedro II (está no Paul Janet).

I — A filosofia tem por fim explicar até nos seus últimos fundamentos a existência do mundo, devendo formar um conjunto de nossos conhecimentos particulares a convergir para uma concepção do mundo, do homem e da vida, que satisfaça às necessidades do entendimento e às exigências do espirito humano. Deve ser uma espécie de ciência geral, destinada a constituir, isenta de contradições, um edifício construído com os conhecimentos gerais desvendados pelas ciências particulares.

O seu fim é, portanto, organizar um conhecimento, uma disciplina em métodos seus, teorias organizadas e um plano geral, sendo, pois, arbitrário qualificar de filosóficos os modos de atividade intelectual que consistem em pontos de vista espontâneos, em reflexões sem técnica e sem método, em representações místicas e em crenças. Essas organizações, essa espécie de atividade mental, só pode entrar na verdadeira filosofia como dados, como meros auxiliares, talvez mesmo como fatos, a examinar à luz do critério filosófico. A filosofia é essencialmente uma teoria intelectual organizada. (Artigo Filosofia, da Grande Encyclopédie).

II — Cada órgão de conhecimentos tem um objeto nitidamente marcado pela realidade, pelo fato científico a estudar, e bastante poderoso para esgotar a noção dele. As ciências, portanto, entre si, dividem os objetos primitivamente ou capazes de ser concebidos primitivamente; contudo, sem sair do domínio da ciência, nota-se que o mesmo objeto, que o mesmo fato, que a mesma idéia podem ser examinados de várias maneiras, recebendo explorações diferentes, todas aceitáveis e necessárias. O espaço, por exemplo, é o lugar ideal em que se passam os fenômenos geométricos e mecânicos, para o geômetra; pode ser também — uma idéia sempre presente ao nosso espírito; pode ser ainda — a condição para que possa existir a faculdade de perceber. De maneira que, por tão vários modos de encará-lo, vai fazer parte de disciplinas intelectuais diversas. Seria ocioso mostrar o fato da cor ter significações diversas para o físico, para o químico e para o biólogo, e exemplos seriam não fáceis de encontrar, mas inúteis para a certeza. O que define uma ciência não é o objeto que ela considera, é o ponto de vista em que ela o considera. Se se propõe definir uma ciência pelo seu objeto, é preciso dizer-se que esse objeto não é tal qual existe nas coisas, mas tal qual ele é para a ciência. A ciência vem a ser, portanto, um ponto de vista sobre as coisas. Segue-se, daí, que, sendo as ciências extensivas sobre as coisas, a filosofia a bom título pode constituir um conhecimento, constituindo como que um resíduo, que se vai alterando sem cessar, para se perder finalmente no sistema de ciências. A unidade relativa das ciências, a conexão entre a inteligência e as coisas, a natureza dos princípios científicos, a validade deles, a legitimidade e ilegitimidade das interrogações ‘que se apõem às ciências, e que, às vezes, são postas por elas mesmas, nem respondendo à solução, constituem o objeto da filosofia, donde partirá uma concepção rígida das coisas e da vida, e da sua harmonia geral.

É mais ou menos o artigo de Victor Delbos.

III — O método filosófico, isto é, o processo de que a filosofia se serve para chegar ao pleno conhecimento do objeto de seus estudos, não se distingue absolutamente dos métodos empregados nas demais ciências. Usa da abstração, da determinação, da síntese e da análise, da indução e da dedução. Mas, sendo assim, o seu método possui caracteres específicos, tanto mais que o filósofo sabe que, além de tais processos de chegar à verdade, a inteligência possui outros que o cientista não admite nem emprega, o sentimento, a intuição.

Portanto, fora das teorias a estudar, seria difícil caracterizar perfeitamente o método da filosofia; só no estudo de suas doutrinas pode-se completamente compreendê-lo

1904

Janeiro

Dolorosa vida a minha! Empreguei-me há 6 meses e vou exercendo as minhas funções. Minha casa ainda é aquela dolorosa geena pra minh’alma. É um mosaico tétrico de dor e de tolice.

Meu pai, ambulante, leva a vida imerso na sua insânia. Meu irmão, C..., furta livros e pequenos objetos para vender. Oh! Meu Deus! Que fatal inclinação desse menino! Como me tem sido difícil reprimir a explosão. Seja tudo que Deus quiser! A Prisciliana e filhos, aquilo de sempre. Sem a distinção da cultura nossa, sem o refinamento que já conhecíamos, veio em parte talvez prender o desenvolvimento superior dos meus. Só eu escapo!

* * *

  	Orçamento
Ordenado 		184
Doutor Araújo	40
_____________
224
Despesas:
Casa			120
Venda			 80
Médico		 10
M. de Oliveira	  4
Café			  3
_____________
217
Orçamento definitivo:
Eu			200$000
Papai			140$000
Carlindo		 20$000
_____________
340$000
Despesas		120$000
Armazém		100$000
_____________
220$000

Sem data

Dom João VI no Brasil

Estado geral do Brasil nos começos do século XIX.

Causas que obrigaram Dom João VI a partir para o Brasil.

Desembarque. A cidade do Rio de Janeiro. Seu governo. Seus habitantes. Ruas e praças. Fisionômica.

Em relação aos destinos do Brasil, medidas tomadas logo pelo Regente.

Escolas superiores. A colônia artística. A cultura musical. José Maurício.

Criações políticas. Secretarias de Estado. Ministros. Construções. Criações de novas capitanias. Regime das minas.

Revoluções e guerra. A sedição de 1817 em Pernambuco. Expedição de Caiena.

Modificações na vida comum. Aumento de esplendor. Teatros. Festas religiosas. Trajes. Arrabaldes. Vilegiaturas. Santa Cruz, Ilha do Governador, São Domingos. Caráter da edificação. Antes e pós Dom João VI. Monumentos deixados. Quinta da Boa Vista. Transformação. Museu Nacional. Relações com o vice-reinado de Buenos Aires. A família real. Os fidalgos, seu caráter. P. R.

A escravatura. Leis relativas. Aumento progressivo. Relações entre senhores e escravos. Tronco. Bacalhau. Cantos de senzala. Caráter dos negros. Mulatos. O banzo. Viajantes estrangeiros. Capacidade dessa gente pra civilizar-se. Modo de proceder do rei.

Sem data

No curso da vida e das leituras

* * *

... pôr mão no sagrado das vontades e dos corações — Castelo Branco, Paço de Ninães.

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Vezar-se. Vezou-se a luzir. Idem. Resquícios (da almofada) — restos ou frestas.

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abra em páginas. Castelo Branco.

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No tempo da “bolsa” um oficial entrara no quartel-general num luxuoso carro com cavalos. Do cabo.

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“Toute idée fausse est dangereuse. On croit que les rêveurs ne font point de mal, on se trompe, ils en font beaucoup. Les utopies les plus inoffensives en apparence exercent réellement une action nuisible. Elles tendent à l’inspirer le dégoüt de la réalité”.

Anatole France, Le Lys Rouge.

Podemos muito bem explicar assim a constante irritabilidade dos neófitos e adeptos de utopias e reformas sociais. Vêde Barbosa Lima, a quem eu creio sincero, entre nós, pois que todas as reformas da atualidade, no nosso meio, se vão polarizando no positivismo religioso.

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28 de outubro.

O Barbosa Lima descompôs o Medeiros; não há negar que o Medeiros é vil como uma serpente, mas o Barbosa tem sido de uma felicidade pasmosa, tendo sempre como adversário fofos 1iteratos (no mau sentido!), que não podem arrancar-lhe aquela máscara de matemático e de filósofo.

É um péssimo espírito esse Barbosa Lima, utópico, granítico, recheado de positivismo, cheio de idéias sentimentais, mas no fundo cruel e covarde moral. É uma das mais belas flores do bacharelismo do Exército, bacharelismo cheio de espírito de casta de fofa ciência. Convém debilita-lo.

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O Corinto e o Gil perguntaram-me se lia revistas e escrevia paródias! Bem idiotas! Que dois!

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A ninguém insultes; fala sempre a verdade e, quando a pronunciares, cuida em agradar.

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Sem data

Estrada de rodagem construída pelo coronel Joaquim Ribeiro da Silva Peixoto, direto, da colônia de Itapura, para ligação da mesma e Avanhandava ou Uberaba.

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Sem data

David C..., baiano, homem insinuante; vivo; de escrúpulos reduzidos, honestidade relativa. Intermediário de agiotas. Agenciador de casas de jogo. De qualquer modo generoso. Poucas letras. Pelas mãos, no seu dizer, tem passado a flor da literatura e da ciência pátria. Tísico. Moreno pálido. Meão de altura. Olhos vivos e grandes, inquietos. Meio calvo. Bigode farto. Arcadas superciliares fundas. Sobrancelhas espessas. Vagamente mulato. Sem família.

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Máximo Kovéski, russo ou polaco, doutor à última hora. Atrapalhado na colocação de sua tradução em fascículos do romance do autor turquestânico Ralgoff. Vendeu um exemplar ao ministro russo.

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Há uma peça de Calderón de la Barca intitulada: Tudo é mentira e tudo é verdade.

Ver filosofia do trem.

Castor e Pólux — São Cosme e Damião — Dois-Dois.

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Quando eu fui amanuense da Secretaria da Guerra, pintou-se (em 904) a secretaria e dependência; pois bem, o encarregado de fiscalizar isso, essa pintura e ligeiros retoques na escada e no calçamento da entrada, era um capitão do Exército, doutor em ciências físicas e matemáticas etc. etc.

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Sem data

Durante o meu primeiro ano de amanuense da Secretaria da Guerra, foi reclamada a baixa de quatro soldados que eram peruano, italiano, oriental e português.

Eram freqüentes os decretos declarando sem efeito as promoções de alferes a tenente, por não existirem no Exército oficiais com aqueles nomes.

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Exmo Sr Marechal etc.

pedir a V. Exa se digneis (beleza) R.Cl. Teles Pires

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Hoje, o caso mais curioso foi o coronel P... É um tipo de militar sul-americano. Fanfarrão, sem ser valente, nem generoso. Ignorante. Jogador. Sempre indo atrás do ministro para arranjar um adiantamento. Aconteceu que o tal que falei que vi a passear com a mulher em São Francisco é um estradeiro, e o P... o teme, pois a mulher com quem ele casou é sua parente e tem a receber algum dinheiro do pai, que morreu.

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6 de novembro.

Hoje (6 de novembro) fui à ilha, pagar dívidas de papai (490); paguei-as uma a uma; entretanto, na volta, estava triste; na estação de São Francisco (vim pela Penha), ao embarcar, me invadiu tão grande melancolia, que resolvi descer à cidade. Que seria? Foi o vinho? Sim, porque tenho observado que o vinho em pequenas doses causa-me melancolia; mas não era o sentimento; era outro, um vazio n’alma, um travo amargo na boca, um escárnio interior. Que seria? Entretanto, eu o quero atribuir ao seguinte: Na estação, passeava como que me desafiando o C. J. (puto, ladrão e burro) com a esposa ao lado. O idiota tocou-me na tecla sensível, não há negá-lo. Ele dizia com certeza: — Vê, “seu” negro, você me pode vencer nos concursos, mas nas mulheres, não. Poderás arranjar uma, mesmo branca como a minha, mas não desse talhe aristocrático.

Suportei o desafio e mirei-lhe a mulher de alto a baixo e, dentro de alguns anos, espero encontrar-me com ela em alguma casa de alugar cômodos por hora.

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Sem data.

Contou-me o Conceição que, a convite de uma preta de fortuna, ia tocar por setembro em casa dela. Era a festa de Cosme e Damião, por ela denominada — “Dois Dois”.

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Hoje observei uma mulata que parecia amigada a um português; viajavam no bonde separados.

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Tomei um alvitre: quando no bonde entregar uma nota, devo olhar o número.

Dez minutos depois! Entretanto, recordei-me, se passa a nota adiante, e eu com ares de vencedor digo-lhe o número, que rata se ele a não tem.

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Sem data

O doutor Lund viveu na Lagoa Santa de 1835 a 1880.

Lund descobriu fósseis em cavernas calcárias nas proximidades da vila de Curvelo.

Quanto a isso, convém ler o artigo da Revista Brasileira. Secretário de Lund, Warnung.

* * *

Um leitor de Balzac. Era um meio velho, que encontrava sempre com um volume da Comédia Humana. (Conto).

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O primeiro de Voluntários da Pátria saiu do Rio de Janeiro, comandado pelo coronel Pinheiro Guimarães.

É preciso saber se esse batalhão foi para Corrientes ou para o Rio Grande do Sul, quando foi o cerco de Uruguaiana.

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Sem data.

Durante as mazorcas de novembro de 1904, eu vi a seguinte e curiosa coisa: um grupo de agentes fazia parar os cidadãos e os revistava.

O governo diz que os oposicionistas à vacina, com armas na mão, são vagabundos, gatunos, assassinos, entretanto ele se esquece que o fundo dos seus batalhões, dos seus secretas e inspetores, que mantêm a opinião dele, é da mesma gente.

Essa mazorca teve grandes vantagens: 1) demonstrar que o Rio de Janeiro pode ter opinião e defendê-la com armas na mão; 2) diminuir um pouco o fetichismo da farda; 3) desmoralizar a Escola Militar.

Pela vez primeira, eu vi entre nós não se ter medo de homem fardado. O povo, como os astecas ao tempo de Cortez, se convenceu de que eles também eram mortais.

O Argolo, parece, queria nesse movimento resgatar a pouca bravura que teve em 9 de fevereiro.

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Quando eu fui amanuense da Secretaria da Guerra, havia um tal B... coronel ou coisa que valha, que era um tipo curioso de idiota. Ignorante até à ortografia; jactancioso. A coragem dele e sua vibração pessoal só surgem quando veste a farda. É conveniente mesmo escrever alguma coisa a esse respeito.

O Exército, ou antes, os oficiais generais de mar e terra escaparam, pelas mazorcas de novembro, de serem tomados de terror pânico.

Gente habituada à guerra, e familiarizada com seus instrumentos, tomou como sendo canhão, em Porto Artur (Saúde), um tubo de poste telefônico quebrado e assestado. Bombas eram inofensivas peças de madeira, envolvidas pacificamente em fio de ferro. Almas doutro mundo!

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Profecia. Dos militares mais ou menos envolvidos nas mazorcas, nenhum sofrerá pena; dos civis, alguns se suicidarão na prisão.

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É notório que aos governos da República do Brasil faltam duas qualidades essenciais a governos: majestade e dignidade. Vimos durante a mazorca um ministro, o da Guerra, e um general, o Piragibe, darem ordens de simples inspetores em altas vozes e das sacadas de duas Secretarias de Estado.

Eis a narrativa do que se fez no sítio de 1904. A polícia arrepanhava a torto e a direito pessoas que encontrava na rua. Recolhia-as às delegacias, depois juntavam na Polícia Central. Aí, violentamente, humilhantemente, arrebatava-lhes os cós das calças e as empurrava num grande pátio. Juntadas que fossem algumas dezenas, remetia-as à ilha das Cobras, onde eram surradas desapiedadamente. Eis o que foi o terror do Alves; o do Floriano foi vermelho; o do Prudente, branco, e o Alves, incolor, ou antes, de tronco e bacalhau.

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Sinal dos tempos. Na quinta-feira (10 de novembro), eu vi o Argolo risonho, sorridente, apresentar ao repórter a esposa, de que vinha acompanhado.

No 19, pleno estado de sítio, vi o mesmo Argolo não corresponder, a dois passos de distância, o cumprimento do mesmo repórter.

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Este caderno esteve prudentemente escondido trinta dias. Não fui ameaçado, mas temo sobremodo os governos do Brasil.

Trinta dias depois, o sítio é a mesma coisa. Toda a violência do governo se demonstra na ilha das Cobras. Inocentes vagabundos são aí recolhidos, surrados e mandados para o Acre.

Um progresso! Até aqui se fazia isso sem ser preciso estado de sítio; o Brasil já estava habituado a essa história. Durante quatrocentos anos não se fez outra coisa pelo Brasil. Creio que se modificará o nome: estado de sítio passará a ser estado de fazenda.

De sítio para fazenda, há sempre um aumento, pelo menos no número de escravos.

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22 de novembro.

Hoje acabo de ir cumprimentar o Argolo, marechal e ministro da Guerra. É um tipo simples. Sem olhar e sem fisionomia. Recebeu-nos num pequeno gabinete. Ouviu algumas palavras do barão e disse outras. Apertou-nos a mão um a um. Se pela sua fisionomia nada se lhe pode descobrir de elevado ou de mau, pelo seu aperto de mão também. É um aperto de mão burguês, indiferente. Não tem o forte sacolejo de um violento, nem a frieza de um astuto. Aperta mão como um funcionário bom e probo, e às vezes tolerante, que ele é. Houve depois recepção de oficiais e funcionários. Uma mó de gente em brilhantes e garridos (alguns) uniformes desfiou aos meus olhos. De todos os corpos de honorários, uniformes eu vi. Os oficiais generais repletos de bordados lembram alguma coisa dos uniformes vistosos de corporações científicas, artísticas e palacianas. Sobre o dolmã preto bordam filigranas caprichosas, e as platinas franjadas descaem sobre os ombros negligentemente. Esses uniformes brilhantes bem demonstram que são de generais de paz; quem conhece os discretos uniformes dos generais da revolução, e mesmo o clássico de Napoleão, fica abismado com o brilho dos nossos. A farda negra do Corpo de Saúde e dos honorários misturava-se sem se dissolver nos vermelhos das outras armas, e, como pontos de fraca saturação, apareciam as fardas dúbias dos oficiais do Estado-Maior. Havia cerca de seiscentos oficiais e suponho que quatrocentos houvessem deixado de comparecer; dá um total de mil, que, na proporção média de um para quinze soldados, à vista da variedade de postos, calcular-se-ia oficialidade de uma força de quinze mil. Eis aí como a matemática erra, ou antes, como, para aquém da linha equinocial, variam as coisas mais firmemente assentadas na Europa, porquanto, no Brasil, a proporção de oficiais, entremeando generais, etc., não é de um para quinze, mas sim, de um para dois, que é a da guarnição da cidade do Rio de Janeiro.

Esses oito dias, depois da mazorca do Lauro (15) gorado, têm sido de um aspecto encantador. O poltrão do Cardoso de Castro, a humílima autoridade que recebeu o deputado Varela, é agora das mais enérgicas, e o símplice Rodrigues Alves, grave conselheiro, secundária figura do Império, é estrênuo defensor da República.

Rui, o letrado beneditino das coisas de gramática, artificiosamente artista e estilista, aconselha pelos jornais condutas ao governo. Há dias, ele, no auge da retórica, perpetrou uma extraordinária mentira. Referindo-se ao dia 14, que fora cheio de apreensões, de revoltas e levantes, e à nota trazida a 15, da vitória da “legalidade”, disse assim, da manhã de 15: “fresca, azulada e radiante”, quando toda a gente sabe que essa manhã foi chuvosa, ventosa e hedionda.

Eis até onde leva a retórica; e depois...

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Sem data.

Eu tinha um colega na secretaria que, em face a mim, desperta-me um estranho sentimento. Era uma espécie de repulsa misturada com enjôo que eu sentia quando ele vinha conversar comigo. Não sei a que atribuir isso. Penso que seja pela sua completa linfacidade; pela sua estupidez. Entretanto, bem analisando, eu tenho conhecimentos que são dessa espécie de gente, pelos quais, entretanto, eu não sinto esse sentimento.

Em mim, eu já agora tenho observado, há uma série chocante de incongruência de sentimentos desacordes, de misteriosas repulsas.

Não sei! Não sei! O futuro elucidará.

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Os oficiais do Exército do Brasil dividem com Deus a omnisciência e com o Papa a infalibilidade.

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26 de dezembro.

Hoje, comigo, deu-se um caso que, por repetido, mereceu-me reparo. Ia eu pelo corredor afora, daqui do Ministério, e um soldado dirigiu-se a mim, inquirindo-me se era contínuo. Ora, sendo a terceira vez, a coisa feriu-me um tanto a vaidade, e foi preciso tomar-me de muito sangue frio para que não desmentisse com azedume. Eles, variada gente simples, insistem em tomar-me como tal, e nisso creio ver um formal desmentido ao professor Broca (de memória). Parece-me que esse homem afirma que a educação embeleza, dá, enfim, outro ar à fisionomia.

Porque então essa gente continua a me querer contínuo, porque? Porque... o que é verdade na raça branca, não é extensivo ao resto; eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser sempre tomado por contínuo. Entretanto, não me agasto, minha vida será sempre cheia desse desgosto e ele far-me-á grande.

Era de perguntar se o Argolo, vestido assim como eu ando, não seria tomado por contínuo; seria, mas quem o tomasse teria razão, mesmo porque ele é branco.

Quando me julgo — nada valho; quando me comparo, sou grande.

Enorme consolo.

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27 de dezembro.

Hoje, no trem, vim com o Apocalipse. É um sujeito magro, esgrouviado, sempre com a barba por fazer. As calças sujas e curtas dão o talhe exato de suas pernas, que são finas, parecendo somente de ossos. O curioso é que o Apocalipse, de fisionomia de símio velho domesticado, bondoso, etc. etc., tem três filhos: um está na Escola do Realengo; outro no ginásio, e o outro, no mosteiro de São Bento.

Praticante da Secretaria da Polícia, vivendo de um ordenado exíguo e fornecendo aos seus filhos essa educação exagerada, ele criará ou aduladores vis, ou desgraçados descontentes. Entretanto, ele me dizia isso com grande satisfação: “Três filhos doutores! Que honra, que nobreza!” O dia continuou morno, sem atrativo nem novidade. A secretaria, em geral tão pitoresca para despertar reflexões, esteve de uma pobreza franciscana. O ministro esteve ausente. Tenho reparado que, o ministro presente, vive o edifício. Não sei donde lhe vem isso, mas é verdade que verifico. O Lopes, médium “curador”, convidou-me a ir assistir os serões musicais na casa dele. A filha toca piano, e dizem que bem; há uma outra vizinha que executa ao violino, e a elas acompanhará dona Maria José de Brito, primeiro prêmio de flauta do Instituto. Ansioso espero a coisa, tanto mais que me será deveras novo ouvir uma moça tocar flauta.

Oh! Que dia! Infame, não vale dois caracóis!

Sem data.

Na secretaria, eu tive um companheiro primeiro oficial, o M... T... C..., que era dos poucos que lá havia tendo algum destaque. Ele era duma avareza excepcional e duma estupidez de carneiro. Habituado há quarenta anos a escriturar o protocolo, era incapaz de fazer outra qualquer coisa. Pelas relações da família da mulher, veio a ele alguns cobres que junto à avareza dele davam com que ele manter um filho no Colégio Paula Freitas, uma filha no Instituto de Música. Não comprando os jornais, filava-os dos outros, e isso lhe valia as maiores “molecagens”. Às vezes, ao ele aparecer, um relatava ao outro um caso extravagante, vindo em tal jornal, e, zás, corria a procurar o jornal mencionado. Outras vezes, muito antes de ele chegar, colavam em jornais velhos datas dos novos e ele os lia tal qual como se fossem do dia. A sua estupidez muito concorria para isso e ele leu em 1903 ou 4 um jornal do tempo da Revolta de 93. Ao acabar se lhe perguntou: “Que tal as notícias?” Então, respondeu: — Poucas novidades, mas que havia um romance da Revolta muito bom.

A sua avareza era tal que ele procurava de mesa em mesa jornais e os juntava para vender aos quilos. Homem feliz. Hei de me aproximar dele para observá-lo no interior.

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Dezembro.

Doutor Laranjinha. Médico. Bebedor de parati.

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O secretário do ministro, por cuja influência eu fui nomeado, tomou-se de aborrecimento mortal por mim.

É o que não explico e para motivar o que eu procuro razão. Hoje, encontrei-me com ele no gabinete do diretor e ele nem sequer olhou-me.

Porque foi, meu Deus? Talvez a falta de um cartão de pêsames, que não lhe mandei por morte do irmão dele.

Só sé isso...

Se o nariz de Cleópatra etc.

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Sem data.

Tito Brandão da Silva nascera no Rio de Janeiro, de uma dessas famílias da pequena burguesia carioca. Sua mãe “criara-se” na casa dos Brandões, como eram conhecidos na Rua de São Pedro, onde moravam. Vindos de Inhomirim, pelos primeiros anos da Independência, o capitão de milícias José Manuel Brandão, com seus filhos e escravos mais chegados, estabelecera-se na corte, tomando parte ativa na agitação do primeiro reinado. Com a retirada de Pedro I, recolheu-se à vida privada, entretendo as longas horas, passadas nas sombrias salas do seu casarão da Rua de São Pedro, com a leitura dos clássicos latinos e dos poetas portugueses. Morrera de desgosto. Seu filho José Luís, oficial de engenharia, com curso da Academia Militar, batalhando no Rio Grande do Sul, foi ferido em Ponche Verde e veio a falecer em conseqüência de ferimentos. Os seus filhos restantes, ainda adolescentes, sob a vigilância da irmã mais velha, dona Rosa, continuaram no sobrado solarengo. O mais velho dos dois, Heliodoro, cursando a Escola Médico-Cirúrgica, e o outro, a de Belas Artes, freqüentava a aula de arquitetura. Heliodoro alcançou uma grande fama de cirurgião e seu irmão, embora estimado e considerado pelos colegas, nada fizera, morrendo em avançada idade, cheio de misantropia e professando um amargo nirvanismo desesperador. Murmurava-se que Clara, mãe de Tito, era filha deste Brandão, César. De fato, sua mãe Engrácia, uma cria da casa, nascida e libertada por ocasião da vinda de Inhomirim, era provida da precisa beleza para interessar o seu jovem senhor, tanto mais que isso estava nos costumes do tempo, quase sem prostituição pública e de aventuras amorosas difíceis. A ternura de dona Rosa encaminhou-se toda para essa e outras raparigas e rapazes, nascidos em casa, em cujas veias corria uma forte dose do seu sangue; e, à indiferença, mais ou menos formalística, dos irmãos, com eles, ela sempre opôs um cuidado, uma atmosfera carinhosa quase maternal. Era médico, botica, roupas, colégio... tudo ela dava àqueles seus sobrinhos inconfessados.

Clara freqüentara o colégio e tivera a educação comum das moças do seu tempo. Era essa a origem da mãe de Tito; a de seu pai, Miguel da Costa, não era menos complicada, embora mais obscura. Nascera ele da mancebia de uma “cabrocha” com um português, minhoto tenaz e paciente, estucador de ofício, que chegou à fortuna pelas suas qualidades de caráter. Miguel herdara essas qualidades do pai; assim é que, aos quatorze anos, quando ele abandonou sua mãe (estava nos costumes do tempo), pôs-se em campo com decisão e, em breve, fez-se um operário litógrafo estimado e respeitado. Perdendo sua mãe, o foco concentrador de sua mãe, não se entregou absolutamente à ociosidade dissolvente habitual nos de sua classe. Adquiriu uma pequena instrução, mas segura, com a qual, pelos vinte e cinco anos, protegido por uma influência do tempo, pôde exercer um emprego público numa repartição que se fundou. Casou-se por essa época. Os primeiros anos foram difíceis. O seu primeiro filho, Jônatas, de um natural selvagem e independente, criou-se quase à toa pelo arrabalde em que moravam. Aos doze anos, era um rapagão nédio, “desembolado”, forte, valente, que já metia medo com a sua destra capoeiragem aos mais velhos de sua vizinhança. Era uma perdição, como dizia uma preta velha dos arredores. O segundo, porém, seis anos mais moço que esse, nascera em horas melhores. O velho César, ao morrer, deixara à Clara obra de sessenta contos, restos da fortuna que o velho Brandão trouxe de Inhomirim, e que o excêntrico César, pela sua longevidade, fora recolhendo. Clara não gozou muito da herança. Um ano depois morreu. Senhor de um tal pecúlio, com três filhos apenas, Jônatas, Tito e Clara, o antigo litógrafo tratou de consubstanciar seu sonho: formar um filho. Mandou Tito ao colégio, seguiu os seus estudos, animou-o, mas não pôde vê-lo formado, pois, quando o filho acabava os preparatórios, morreu do fígado, muito moço ainda.

Tinha dezenove anos, Tito, e seu irmão, Jônatas, intermitentemente empregado nisso e naquilo, ficou como tutor, tutor singular que obedecia e respeitava a seu irmão tutelado.

Cuidados com os irmãos, abnegação pelo futuro deles, afastara de dona Rosa os do casamento. O ímpeto do tempo e do seu sangue desviara-a na ternura e no carinho com irmãos rapazes, esquisitos, caprichosos e desiguais. Envelhecera animando-os, alentando-os, e se sua ação fora útil ao desenvolvimento [ ]

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Sem data.

Um escritor, um literato, apresenta ao público, ou dá publicidade a uma obra; até que ponto um crítico tem o direito de, a pretexto de crítica, injuria-lo? Um crítico não tem absolutamente direito de injuriar o escritor a quem julgar.

Não se pode compreender no nosso tempo, em que as coisas do pensamento são mostradas como as mais meritórias, que um cidadão mereça injúrias, só porque publicou um livro. Seja o livro bom ou mau. Os maus livros fazem os bons, e um crítico sagaz não deve ignorar tão fecundo princípio. Ao olhar do sábio, o vício e a virtude são uma mesma coisa, e ambos necessários à harmonia final da vida; ao olhar do crítico filósofo, os bons e maus livros se completam e são indispensáveis à formação de uma literatura.

Se o crítico tem razões particulares para não gostar do autor, cabe-lhe unicamente o direito de fazer, com a máxima serenidade, sob o ponto de vista literário, a crítica do livro.

Dizem que o amor faz grandes obras. O ódio também poderá faze-las; mas, para isso, como no caso do amor, é preciso conter-se.

No domínio do pensamento, as paradas de sentimento são extraordinariamente fecundas.

Em geral, ao começar, o temperamento literário é delicado, é fraco, é semi-feminino, diga-se, e ninguém poderá prever sob que aspecto, sob que forma, a injúria vai reagir nele.

Balzac, Lord Rhoone, se houvesse sido injuriado, chegaria a ser o Honoré de Balzac do Père Goriot? Em resumo, se o crítico ama as coisas do pensamento, e sobretudo estas, deve ter sempre em mira a sua prosperidade; e, creio, a injúria não é o melhor meio para obtê-la.

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“La muse, si revêche qu’elle soit, donne moins de chagrins que la femme. Je ne peux accorder l’une avec l’autre”. Flaubert a George Sand.

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“There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy”.

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Clara dos Anjos, mulher, mulata, 23 anos. Tenente Frutuoso, do Exército, positivista, etc., noivo de Carlota Sá Bandeira.

Guedes (Camilo da Costa), português, interessado; mais tarde, enriquece, parte pra Europa, onde fica, doando alguma coisa à Clara, sua amiga, com quem tem uma filha (Visconde mais tarde de qualquer coisa).

A gente Sá Bandeira, família de pequeno empregado, da relação de Clara, de quem o pai era padrinho.

Edmundo Neves, raisonneur, boas opiniões, apresentado ao Frutuoso. Edmundo Neves é de Minas, placidamente desliza pela vida como empregado dos Telégrafos, ligara-se de amizade com Armando Sá Bandeira, poeta de jornais pequenos e empregado da estrada de ferro.

A velha Cipriana de Sá Bandeira.

David Carvalho casa-se mais tarde com Clara, a quem vem a conhecer na festa dos Cardosos, na Penha, por ocasião do São João. David, sem ofício certo, é tudo, mais ainda jogador, bêbedo, etc. Dá cabo dos 50 contos de Clara.

Clara enviuva e amiga-se com José Portilho, pedreiro, 50 anos, e, quando sua filha Iracema foge com um cabo de polícia, queixa a esta, relutâncias encontradas, e afinal, abandona-a amigada com este, e prostituição dela e morte na Misericórdia.

José Portilho, envelhecido, não podendo trabalhar; Clara lava e engoma para sustentá-lo, e no terreiro da estalagem em que moram ela canta uma trova qualquer em um belo dia de sol.

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