A Benedito de Souza meu compadre e meu amigo
BREVE NOTÍCIA
"Mon coeur profond ressemble à ces voútes d'église Où le moindre bruit s'enfle en une immense voix." (Vers d'un philosophe. Guyau.)
Quando comecei a publicar, na Floreal, uma pequena revista que editei, pelos fins de 1907, as Recordações de meu amigo, Isaías Caminha, escrivão da Coletoria Federal de Caxambí, Estado do Espírito Santo, publiquei-as com um pequeno prefácio do autor. Mais tarde, graças ao encorajamento que mereceu a modesta obra do escrivão, tratei de publicá-la em volume.
O meu amigo e camarada Antônio Noronha Santos, indo à Europa, ofereceu-se para arranjar, em Portugal, um editor.
João Pereira Barreto recomendou-me aos Senhores A. M. Teixeira & Cia, livreiros em Lisboa, com a Livraria Clássica de lá; e elas foram impressas sob as vistas dedicadas do Senhor Albino Forjaz de Sampaio, a quem muito devem, em correção, as Recoroações.
A todos três, não posso, em nome do meu querido Isaías, deixar de agradecer-lhes mais uma vez o serviço que prestaram à obra.
Eu, porém, como tinha plena autorização do autor, por ocasião de mandar o manuscrito para o prelo, suprimi o prefácio, a donnée, que agora epigrafa estas linhas, e algumas coisas mais.
O meu intuito era lançar o livro do meu amigo, sem escoras ou pára-balas.
Assim foi. Hoje, porém, que faço uma segunda edição dele, restabeleço o original tal e qual o Caminha me enviou, pois não havia motivo para supressão de tanta coisa interessante que muito concorre para a boa compreensão do livro.
E faço isso, porque julgo que foram elas um tanto que levaram aquele espírito firme e independente, aquele sagaz crítico, com o seu nobre amor pelos grandes ideais nas letras, que se chamou José Veríssimo, a dizer na sua Revista Literária, às segundas-feiras, no Jornal do Comércio, de 9 de dezembro de 1907, o seguinte, a respeito do que lhe pareceu uma novela:
"Ai de mim, se fosse a 'revistar' aqui quanta revistinha por aí aparece com presunção de literária, artística e científica.
Não teria mãos a medir e descontentaria a quase todos; pois a máxima parte delas me parecem sem o menor valor, por qualquer lado que as encaremos. Abro uma justa exceção, que não desejo fique como precedente, para uma magra brochurazinha que com o nome esperançoso de Floreal veio ultimamente a público, e onde li um artigo "Spencerismo e Anarquia", do Senhor M. Ribeiro de Almeida, e o começo de uma novela Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pelo Senhor Lima Barreto, nos quais creio descobrir alguma cousa. E escritos com uma simplicidade e sobriedade, e já tal qual sentimento de estilo que corroboram essa impressão."
Como vêem, José Veríssimo disse estas palavras, logo ao aparecerem os primeiros capítulos; e, pensando serem verdadeiras as razões que expus, restabeleço o manuscrito, como me foi confiado, passando a transcrever o prefácio inteiramente como saiu na inditosa Floreal.
Ei-lo:
"Eu me lembrei de escrever estas recordações, há dois anos, quando, um dia, por acaso, agarrei um fascículo de uma revista nacional, esquecida sobre o sofá de minha sala humilde, pelo promotor público da comarca.
Nela um dos seus colaboradores fazia multiplicadas considerações desfavoráveis à natureza da inteligência das pessoas do meu nascimento, notando a sua brilhante pujança nas primeiras idades, desmentida mais tarde, na madureza, com a fraqueza dos produtos, quando os havia, ou em regra geral, pela ausência deles.
Li-o a primeira vez com ódio, tive desejos de rasgar as páginas e escrever algumas verrinas contra o autor.
Considerei melhor e vi que verrinas nada adiantam, não destroem; se, acaso, conseguem afugentar, magoar o adversário, os argumentos deste ficam vivos, de pé.
O melhor, pensei, seria opor argumentos a argumentos, pois se uns não destruíssem os outros, ficariam ambos face a face, à mão de adeptos de um e de outro partido.
Com essa reflexão, que me animo a chamar de bom conselho e excelente inteligência, vieram-me recordações de minha vida, de toda ela, do meu nascimento, infância, puerícia e mocidade.
Mentalmente comparei os meus extraordinários inícios nos mistérios das letras e das ciências e os prognósticos dos meus professores de então, com este meu triste e bastardo fim de escrivão de coletoria de uma localidade esquecida.
Por instantes, dei razão ao autor do escrito.
Cheio de melancolia, daquela melancolia nativa que me ensombra nas horas de alegria e mais me deprime nas de desalento, acendi nervosamente um cigarro, fui à janela, olhei um momento o rio a correr e me pus a analisar detidamente os fatos de meu passado, que me acabavam de passar pelos olhos.
Verifiquei, que, até ao curso secundário as minhas manifestações, quaisquer, de inteligência e trabalho, de desejos e ambições, tinham sido recebidas, senão com aplauso ou aprovação, ao menos como coisa justa e do meu direito; e que daí por diante, dês que me dispus a tomar na vida o lugar que parecia ser de meu dever ocupar, não sei que hostilidade encontrei, não sei que estúpida má vontade me veio ao encontro, que me fui abatendo, decaindo de mim mesmo, sentindo fugir-me toda aquela soma de idéias e crenças que me alentaram na minha adolescência e puerícia.
Cri-me fora de minha sociedade, fora do agrupamento a que tacitamente eu concedia alguma coisa e que em troca me dava também alguma coisa.
Não sei bem o que cri; mas achei tão cerrado o cipoal, tão intrincada a trama contra a qual me fui debater, que a representação da minha personalidade na minha consciência, se fez outra, ou antes esfacelou-se a que tinha construído.
Fiquei como um grande paquete moderno cujos tubos da caldeira se houvessem rompido e deixado fugir o vapor que movia suas máquinas.
E foram tantos os casos dos quais essa minha conclusão ressaltava, que resolvi narrar trechos de minha vida, sem reservas nem perífrases, para de algum modo mostrar ao tal autor do artigo, que, sendo verdadeiras as suas observações, a sentença geral que tirava, não estava em nós, na nossa carne e nosso sangue, mas fora de nós, na sociedade que nos cercava, as causas de tão feios fins de tão belos começos.
Com isso, não foi minha tenção fazer obra d'arte, romance, embora aquele Taine que, certa vez, o doutor Graciliano, o promotor público, me deu a ler, dissesse que a obra d'arte tem por fim dizer aquilo que os simples fatos não dizem.
Não é meu propósito também fazer uma obra de ódio; de revolta enfim; mas uma defesa a acusações deduzidas superficialmente de aparências cuja essência explicadora, as mais das vezes, está na sociedade e não no indivíduo desprovido de tudo, de família, de afetos, de simpatias, de fortuna, isolado contra inimigos que o rodeiam, armados da velocidade da bala e da insídia do veneno.
Perdoem-me os leitores a pobreza da minha narração.
Não sou propriamente um literato, não me inscrevi nos registros da Livraria Garnier, do Rio, nunca vesti casaca e os grandes jornais da Capital ainda não me aclamaram como tal - o que de sobra, me parece, são motivos bastante sérios, para desculparem a minha falta de estilo e capacidade literária.
Caxambí, Espírito Santo, 12 de julho de 1905.
Isaías Caminha
Escrivão da Coletoria.
* * *
Afora as coisas da "Garnier", e da "casaca" e dos "jornais", que são preconceitos provincianos, o prefácio, penso eu, consolida a obra e a explica, como os leitores irão ver.
Disse bem preconceitos, porque, após dez anos, tantos são os que vão da composição das Recordações aos dias que correm, o meu amigo perdeu muito da sua amargura, tem passeado pelo Rio com belas fatiotas, já foi ao Municipal, freqüenta as casas de chá; e, segundo me escreveu, vai deixar de ser representante do Espírito Santo, na Assembléia Estadual, para ser, na próxima legislatura, deputado federal. Ele não se incomoda mais com o livro; tomou outro rumo. Hei de vê-lo em breve entre as encantadoras, fazendo o tal footing domingueiro, no Flamengo, e figurando nas notícias elegantes dos jornais. Isaías deixou de ser escrivão. Enviuvou sem filhos, enriqueceu e será deputado. Basta.
Deus escreve direito por linhas tortas, dizem. Será mesmo isso ou será de lamentar que a felicidade vulgar tenha afogado, asfixiado um espírito tão singular? Quem sabe lá?
Para mim, no entanto, sem acreditar na intervenção de nenhuma Dejanira, sou de opinião que ele está vestindo a túnica de Néssus da Sociedade.
Todos os Santos, 31 de dezembro de 1916.
LIMA BARRETO.
A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de inteligência. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em começo, na minha primeira infância, estimulou-me pela obscuridade de suas exortações. Eu não tinha ainda entrado para o colégio, quando uma vez me disse: Você sabe que nasceu quando Napoleão ganhou a Batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: Quem era Napoleão? Um grande homem, um grande general... E não disse mais nada. Encostou-se à cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me sem entrar na significação de suas palavras; contudo, a entonação de voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!...
O espetáculo de saber do meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um deslumbramento.
Pareceu-me então que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembaraço de linguagem, a sua capacidade de ler línguas diversas e compreendê-las, constituíam, não só uma razão de ser de felicidade, de abundância e riqueza, mas também um título para o superior respeito dos homens e para a superior consideração de toda a gente.
Sabendo, ficávamos de alguma maneira sagrados, deificados... Se minha mãe me aparecia triste e humilde - pensava eu naquele tempo - era porque não sabia, como meu pai, dizer os nomes das estrelas do céu e explicar a natureza da chuva...
Foi com estes sentimentos que entrei para o curso primário. Dediquei-me açodadamente ao estudo. Brilhei, e com o tempo foram-se desdobrando as minhas primitivas noções sobre o saber.
Acentuaram-se-me tendências; pus-me a colimar glórias extraordinárias, sem lhes avaliar ao certo a significação e a utilidade. Houve na minha alma um tumultuar de desejos, de aspirações indefinidas. Para mim era como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir...
Eu ouvia uma tentadora sibila falar-me, a toda a hora e a todo instante, na minha glória futura. Agia desordenadamente e sentia a incoerência dos meus atos, mas esperava que o preenchimento final do meu destino me explicasse cabalmente. Veio-me a pose a necessidade de ser diferente. Relaxei-me no vestuário e era preciso que minha mãe me repreendesse para que eu fosse mais zeloso. Fugia aos brinquedos, evitava os grandes grupos, punha-me só com um ou dois, à parte, no recreio do colégio; lá vinha um dia, porém, que brincava doidamente, apaixonadamente. Causava com isso espanto aos camaradas: Oh! Isaías brincando! Vai chover...
A minha energia no estudo não diminuiu com os anos, como era de esperar; cresceu sempre progressivamente. A professora admirou-me e começou a simpatizar comigo. De si para si (suspeito eu hoje), ela imaginou que lhe passava pelas mãos um gênio. Correspondi-lhe à afeição com tanta força d’alma, que tive ciúmes dela, dos seus olhos azuis e dos seus cabelos castanhos, quando se casou. Tinha eu então dois anos de escola e doze de idade. Daí a um ano, saí do colégio, dando-me ela como recordação, um exemplar do "Poder da Vontade", luxuosamente encadernado, com uma dedicatória afetuosa e lisonjeira. Foi o meu livro de cabeceira. Li-o sempre com mão diurna e noturna, durante o meu curso secundário, de cujos professores, poucas recordações importantes conservo hoje. Eram banais! Nenhum deles tinha os olhos azuis de D. Ester, tão meigos e transcendentais que pareciam ler o meu destino, beijando as páginas em que estava escrito!...
Quando acabei o curso do Liceu, tinha uma boa reputação de estudante, quatro aprovações plenas, uma distinção e muitas sabatinas ótimas. Demorei-me na minha cidade natal ainda dois anos, dois anos que passei fora de mim, excitado pelas notas ótimas e pelos prognósticos da minha professora, a quem sempre visitava e ouvia. Todas as manhãs, ao acordar-me, ainda com o espírito acariciado pelos nevoentos sonhos de bom agouro, a sibila me dizia ao ouvido: Vai, Isaías! vai!... Isto aqui não te basta... Vai para o Rio! Então, durante horas, através das minhas ocupações quotidianas, punha-me a medir as dificuldades, a considerar que o Rio era uma cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de egoísmo, onde eu não tinha conhecimentos, relações, protetores que me pudessem valer...
Que faria lá, só, a contar com as minhas próprias forças? Nada... Havia de ser como uma palha no redemoinho da vida - levado daqui, tocado para ali, afinal engolido no sorvedouro... ladrão... bêbado... tísico e quem sabe mais? Hesitava. De manhã, a minha resolução era quase inabalável, mas, já à tarde, eu me acobardava diante dos perigos que antevia.
Um dia, porém, li no "Diário de * * *" que o Felício, meu antigo condiscípulo, se formara em Farmácia, tendo recebido por isso uma estrondosa, dizia o "Diário", manifestação dos seus colegas.
Ora Felício! pensei de mim para mim. O Felício! Tão burro! Tinha vitórias no Rio! Por que não as havia eu de ter também - eu que lhe ensinara, na aula de português, de uma vez para sempre, diferença entre o adjunto atributivo e o adverbial? Por quê!? Li essa notícia na sexta-feira. Durante o sábado, tudo enfileirei no meu espírito, as vantagens e as desvantagens de uma partida. Hoje, já não me recordo bem das fases dessa batalha; porém uma circunstância me ocorre das que me demoveram a partir. Na tarde de sábado, saí pela estrada fora. Fazia mau tempo. Uma chuva intermitente caía desde dois dias.
Saí sem destino, a esmo, melancolicamente aproveitando a estiada.
Passava por um largo descampado e olhei o céu. Pardas nuvens cinzentas galopavam, e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada nelas. A mancha aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se; por fim, um bando de patos negros passou por sobre a minha cabeça, bifurcado em dois ramos, divergentes de um pato que voara na frente, a formar um V. Era a inicial de "Vai". Tomei isso como sinal animador, como bom augúrio do meu propósito audacioso. No domingo, de manhã, disse de um só jato à minha mãe: - Amanhã, mamãe, vou para o Rio.
Minha mãe nada respondeu, limitou-se a olhar-me enigmaticamente, sem aprovação nem reprovação; mas, minha tia, que costurava em uma ponta de mesa, ergueu um tanto a cabeça, descansou a costura no colo e falou persuasiva: - Veja lá o que vai fazer, rapaz! Acho que você deve aconselhar-se com o Valentim! - Ora qual! fiz eu com enfado. Para que Valentim? Não sou eu rapaz ilustrado? Não tenho todo o curso de preparatórios? Para que conselhos? - Mas olhe, Isaías! você é muito criança... Não têm prática... O Valentim conhece mais a vida do que você. Tanto mais que já esteve no Rio...
Minha tia, irmã mais velha de minha mãe, não tinha acabado de dizer a última palavra, quando o Valentim entrou envolvido num comprido capote de baeta.
Descansou alguns pacotes de jornais manchados de selos e carimbos; tirou o boné com o emblema do Correio e pediu café.
- Você veio a propósito, Valentim. Isaías quer ir para o Rio e eu acabo de recomendar que se aconselhasse com você.
- Quando você pretende ir, Isaías? indagou meu tio, sem surpresa e imediatamente: - Amanhã, disse eu cheio de resolução.
Ele nada mais disse. Calamo-nos e minha tia saiu da sala, levando o capote molhado e logo depois voltou, trazendo o café.
- Quer parati, Valentim? - Quero.
Revolvendo lentamente o açúcar no fundo da xícara, meu tio continuou ainda calado por muito tempo. Tomou um gole de café, depois um outro de aguardente, esteve com o cálice suspenso alguns instantes, descansou-o na mesa automaticamente e, aos poucos, a sua fisionomia de largos traços de ousadia, foi revelando um grande trabalho de concentração interior. Minha mãe nada dissera até aí.
Num dado momento, pretextando qualquer coisa, levantou-se e foi aos fundos da casa. Ao sair fez a minha tia uma insignificante pergunta sobre o arranjo doméstico, sem aludir à minha resolução e sem despertar meu tio da cisma profunda em que se engolfara.
Ansioso, deixei-me ficar à espera de uma resposta dele, notando-lhe as menores contrações do rosto e decifrando os mais tênues lampejos de seu olhar. Houve um segundo que ele me pareceu ter suspendido todo o movimento exterior de sua pessoa. A respiração como que parara, tinha o cenho carregado, as rugas da testa larga e quadrada fixadas, como se tivessem sido vazadas em bronze, e os olhos imóveis, orientados para uma fresta da mesa, brilhantes, extraordinariamente brilhantes e salientes, como que a saltar das órbitas, para farejar o rasto provável da minha vida na intrincada floresta dos acontecimentos. Gostava dele. Era um homem leal, valoroso, de pouca instrução, mas de coração aberto e generoso. Contavam-lhe façanhas, bravatas portentosas, levadas ao cabo, pelos tempos em que fora, nas eleições, esteio do partido liberal. Pelas portas das vendas, quando passava, cavalgando o seu simpático cavalo magro, com um saco de cartas à garupa, murmuravam: "Que songa-monga! Já liquidou dois..." Eu sabia do caso, estava mesmo convencido de sua exatidão; entretando, apesar das minhas precoces exigências de moral inflexível, não me envergonhava de estimá-lo, amava-o até, sem mescla de terror, já pela decisão de seu caráter, já pelo apoio certo que nos dera, a mim e a minha mãe, quando veio a morrer meu pai, vigário da freguesia de * * * . Animara a continuar meus estudos, fizera sacrifícios para me dar vestuário e livros, desenvolvendo assim uma atividade acima dos seus recursos e forças.
Durante os dois anos que passei, depois de ter concluído humanidades, o seu caráter atrevido conseguia de quando em quando arranjar-me um ou outro trabalho. Desse modo, eu ia vivendo uma doce e medíocre vida roceira, sempre perturbada, porém, pelo estonteante propósito de me largar para o Rio. Vai Isaías! Vai! Meu tio ergueu a cabeça, pousou o olhar demoradamente sobre mim e disse: - Fazes bem! Acabou de tomar o café, pediu o capote e convidou-me: - Vem comigo. Vamos ao coronel... Quero pedir-lhe que te recomende ao dr. Castro, deputado.
Minha tia trouxe o capote, e quando íamos saindo apareceu também minha mãe, recomendando: - Agasalha-te bem, Isaías! Levas o chapéu de chuva? - Sim, senhora, respondi.
Durante quarenta minutos, patinhamos na lama do caminho, até à casa do Coronel Belmiro. Mal tínhamos empurrado a porteira que dava para a estrada, o vulto grande do fazendeiro assomou no portal da casa, redondo, num longo capote e coberto de um largo chapéu de feltro preto. Aproximamo-nos...
- Oh! Valentim! fez preguiçosamente o Coronel. Você traz cartas? Devem ser do Trajano, conhece? Sócio do Martins, da rua dos Pescadores...
- Não senhor, interrompeu meu tio.
- Ah! É seu sobrinho... Nem o conheci... Como vai, menino? Não esperou minha resposta; continuou logo em seguida: - Então, quando vai para o Rio? Não fique aqui... Vá... Olhe, o senhor conhece o Azevedo? - É disso mesmo que vínhamos tratar. Isaías quer ir para o Rio e eu vinha pedir a V. S...
- O quê? interrompeu assustado o coronel.
- Eu queria que, V. S., Sr. Coronel, gaguejou o tio Valentim, recomendasse o rapaz ao doutor Castro.
O coronel esteve a pensar. Mirou-me de alto a baixo, finalmente falou: - Você tem direito, seu Valentim... É... Você trabalhou pelo Castro... Aqui para nós: se ele está eleito, deve-o a mim e aos defuntos, e você que desenterrou alguns. Riu-se muito, cheio de satisfação por ter repetido tão velha pilhéria e perguntou amavelmente em seguida: - O que é que você quer que lhe peça? - V. S. podia dizer na carta que o Isaías ia ao Rio estudar, tendo já todos os preparatórios, e precisava, por ser pobre, que o Dr. lhe arranjasse um emprego.
O Coronel não se deteve, fez-nos sentar, mandou vir café e foi a um compartimento junto escrever a missiva.
Não se demorou muito; as suas noções gramaticais não eram suficientemente fortes para retardar a redação de uma carta. Demoramo-nos ainda um pouco e, quando nos despedíamos, o Coronel abraçou-me, dizendo: - Faz bem, menino. Vá, trabalhe, estude, que isto aqui é uma terra à-toa com licença da palavra, de m... O Castro deve fazer alguma coisa por você. Ele foi assim também... O pai, você o conheceu, seu Valentim? - Sim, Coronel, disse meu tio.
- ...era muito pobre, muito mesmo... O Hermenegildo, o Castro, quis estudar. Nós... nós não, eu principalmente que era presidente, arranjei-lhe uma subvenção da Câmara... E foi assim. Hoje, acrescentou o Coronel imediatamente, não é preciso, o Rio é muito grande, há muitos recursos... Vá, menino! Não chovia mais. As nuvens tinham corrido de um lado do horizonte, deixando ver uma nesga de céu azul.
Um pouco de sol banhava aquelas colinas tristes e fatigadas por entre as quais caminhávamos.
As cigarras puseram-se a estridular e vim vindo, de cabeça baixa, sem apreensões, cheio de esperanças, exuberante de alegrias.
A minha situação no Rio estava garantida. Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim dos quais seria doutor! Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor... Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda a gente. Seguro do respeito à minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora. Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar, dizer bem alto os pensamentos que se estorciam no meu cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida, oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha poderes e alcances múltiplos, vários, polifórmicos... Era um pallium, era alguma coisa como clâmide sagrada, tecida com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se quebravam. De posse dela, as gotas de chuva afastar-se-iam transidas do meu corpo, não se animariam a tocar-me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor dos raios solares escolheria os mais meigos para me aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis, com o comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado, de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado e grosso, como um sapo antes de ferir a martelada à beira do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor, como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
Estávamos quase a chegar...
Pelo caminho, viemos, os dois, calados. Eu todo entregue às minhas reflexões, que meu tio, uma vez ou outra, veio perturbar com uma pergunta qualquer. Era sem vontade de continuar a conversa que eu respondia; depois da terceira tentativa para entabulá-la, não insistiu mais. O sol fugia aos poucos, as cigarras deixaram de cantar e quando chegamos a casa, a chuva caiu novamente.
Almocei, saí até à cidade próxima para fazer as minhas despedidas, jantei e, sempre, aquela visão doutoral que não me deixava. Uma face dela me aparecia, depois outra mais brilhante; esta provocava uma consideração, aquela mais uma propriedade da carta onipotente. De noite, no teto da minha sala baixa, pelos portais, eu via escrito pela luz do lampião de petróleo - Doutor! Doutor! Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios esse título dava! Pus-me a considerar que isso deveria ser antigo... Newton, César, Platão e Miguel Ângelo deviam ter sido doutores! Foram os primeiros legisladores que deram à carta esse prestígio extraterrestre... Naturalmente, teriam escrito nos seus códigos: tudo o que há no mundo é propriedade do doutor, e se de alguma coisa outros homens gozam, devem-no à generosidade do doutor. Era uma outra casta, para qual eu entraria, e desde que penetrasse nela, seria de osso, sangue e carne diferente dos outros - tudo isso de uma qualidade transcendente, fora das leis gerais do Universo e acima das fatalidades da vida comum.
- Levas toda a roupa, Isaías? veio interromper minha mãe.
- A que houver, mamãe.
Eu estava deitado num velho sofá amplo. Lá fora, a chuva caía com redobrado rigor e ventava fortemente. A nossa casa frágil parecia que, de um momento para outro, ia ser arrasada. Minha mãe ia e vinha de um quarto próximo; removia baús, arcas; cosia, futicava. Eu devaneava e ia-lhe vendo o perfil esquálido, o corpo magro, premido de trabalhos, as faces cavadas com os malares salientes, tendo pela pele parda manchas escuras, como se fossem de fumaça entranhada. De quando em quando, ela lançava-me os seus olhos aveludados, redondos, passivamente bons, onde havia raias de temor ao encarar-me. Supus que adivinhava os perigos que eu tinha de passar; sofrimentos e dores que a educação e inteligência, qualidades a mais na minha frágil consistência social, haviam de atrair fatalmente. Não sei que de raro, excepcional e delicado, e ao mesmo tempo perigoso, ela via em mim, para me deitar aqueles olhares de amor e espanto, de piedade e orgulho. Aos seus olhos - muitas vezes se me veio a afigurar - eu era como uma rapariga, do meu nascimento e condição, extraordinariamente bonita, vivaz e perturbadora... Seria demais tudo isso; cercá-la-ia logo o ambiente de sedução e corrupção, e havia de acabar por aí, por essas ruas...
Por vezes, também acreditei que ela nada quisesse exprimir com eles; que tinha por mim a indiferença da máquina pelo seu produto. Que importa aos teares de Valenciennes o destino de suas rendas?! Eu cria-a, então, resignada a ficar ali, nas proximidades de uma cidade de terceira ordem, tendo, de onde em onde, notícias minhas naquela grande cidade que a sua imaginação a custo havia de representar. E quem sabe se as notícias seriam de ordem a provocar-lhe dúvidas sobre sua maternidade?! Coitada! Pobre de minha mãe! - Olhe, mamãe, disse eu, logo que me arrume mando-a buscar. A senhora está ouvindo? - Sim, respondeu ela com fingida indiferença.
- Alugaremos uma casa. Todos os dias, quando eu for trabalhar, tomarei a sua bênção; quando tiver de estudar até alta noite, a senhora há de dar-me café, para espantar o sono... Sim, mamãe? E me pus a abraçá-la efusivamente.
- É bom! Estuda Isaías, fez ela, desvencilhando-se de mim brandamente. Não te importes comigo... Estuda, meu filho! Eu já estou velha demais...
- Mamãe, não acredita em mim.
- Acredito, meu filho; mas... mas não quero sair daqui.
No dia seguinte, quando me despedi, ela deu-me um forte abraço, afastou-se um pouco e olhou-me longamente, com aquele olhar que me lançava sempre, fosse em que circunstância fosse, onde havia mesclados, terror, pena, admiração e amor.
- Vai, meu filho, disse-me ela afinal! Adeus!... E não te mostres muito, porque nós...
E não acabou. O choro a tomou convulsa e foi chorando que me afastei.
A viagem de trem correu enfadonha. Não sei se devido à falta de comodidade do banco, não sei se às grandes emoções por que passara, o certo é que me invadiu durante toda ela um letargo, um torpor que me chumbou o corpo e me tornou a inteligência de difícil penetração. Encostado ao espaldar do banco, viajava meio acordado, meio dormindo; de quando em quando, um solavanco do carro abria-me violentamente os olhos e obrigava-me a considerar mais detidamente a paisagem que fugia pela portinhola do vagão.
Eram as mesmas charnecas úmidas ao sopé de morros de porte médio, revestidos de um mato ralo, anêmico, verde-escuro, onde, por vezes, uma árvore de mais vulto se erguia soberbamente, como se o conseguisse pelo esforço de uma vontade própria.
O sol coava-se com dificuldade por entre grossos novelos de nuvens erradias, distribuindo, sobre as coisas que eu ia vendo, uma luz amarelada e desigual.
Pelo declive suave de uma encosta, o tapete escuro do mato aparecia mosqueado, com as manchas arredondadas, claras e escuras, salpicadas com relativa regularidade. Por aqui, por ali, trechos foscos e baços contrastavam com tufos vivos, profusamente iluminados - rebentos de vida numa pele doente...
O trem parara e eu abstinha-me de saltar. Uma vez, porém, o fiz; não sei mesmo em que estação. Tive fome e dirigi-me ao pequeno balcão onde havia café e bolos. Encontravam-se lá muitos passageiros. Servi-me e dei uma pequena nota para pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco reclamei: "Oh! fez o caxeiro indignado e em tom desabrido. Que pressa tem você?! Aqui não se rouba, fique sabendo?" Ao mesmo tempo ao meu lado, um rapazola alourado, reclamava o dele, que lhe foi prazenteiramente entregue. O contraste feriu-me, e com os olhares que os presentes me lançaram, mais cresceu a minha indignação. Curti durante segundos, uma raiva muda, e por pouco ela não rebentou em pranto. Trôpego e tonto, embarquei e tentei decifrar a razão da diferença dos dois tratamentos. Não atinei; em vão passei em revista a minha roupa e a minha pessoa... Os meus dezenove anos eram sadios e poupados, e o meu corpo regularmente talhado. Tinha os ombros largos e os membros ágeis e elásticos. As minhas mãos fidalgas com dedos afilados e esguios, eram herança de minha mãe, que as tinha tão valentemente bonitas que se mantiveram assim, apesar do trabalho manual a que a sua condição a obrigava. Mesmo de rosto, se bem que os meus traços não fossem extraordinariamente regulares, eu não era hediondo nem repugnante. Tinha-o perfeitamente oval, e a tez de cor pronunciadamente azeitonada.
Além de tudo, eu sentia que a minha fisionomia era animada pelos meus olhos castanhos, que brilhavam doces e ternos nas arcadas superciliares profundas, traço de sagacidade que herdei do meu pai. Demais, a emanação da minha pessoa, os desprendimentos da minha alma, deviam ser de mansuetude, de timidez e bondade... Por que seria então, meu Deus? Os esforços que fiz, mais espesso tornaram o capacete plúmbeo que me oprimia o cérebro. O torpor tomou-me mais fortemente e por fim dormi, dormi não sei quantas horas, não sei quantos minutos, pois que, ao despertar, era boca da noite, e o crepúsculo cobria as coisas com uma capa de melancolia por assim dizer tangível. Afagava, roçava pelas minhas faces, tocava-me nas mãos de leve como uma pelúcia... Por entre laranjais dourados de pomos maduros, a locomotiva corria célere... Chegamos à estação terminal, mas não acabou aí a viagem. Passamo-nos para uma barca que atravessou vagarosamente por entre ilhotas até alcançar o largo da baía.
O espetáculo chocou-me. Repentinamente senti-me outro. Os meus sentidos aguçaram-se; a minha inteligência entorpecida durante a viagem, despertou com força, alegre e cantante... Eu via nitidamente as coisas e elas penetraram em mim até ao âmago. Convergi todo o meu aparelho de exame para o espetáculo que me surpreendia. Estive por instantes espasmodicamente arrebatado, para um outro mundo, adivinhado além das coisas sensíveis e materiais. Voluptuosamente, cerrei os olhos; depois, aos poucos, descerrei as pálpebras para olhar embaixo o mar espelhento e misterioso. A barca vogava, as águas negras abriam - fingindo resistência, calculando a recusa.
O casario defronte - o da orla da praia, envolvido já nas brumas da noite, e o do alto, queimando-se na púrpura do poente - surgia revolto aos meus olhos, bizarramente disposto sem uma ordem geometricamente definida, mas guardando com as montanhas que espreitavam a cidade, com as inflexões caprichosas das colinas e o meandro dos vales, um acordo oculto, sutilmente lógico.
Evolava-se do ambiente um perfume, uma poesia, alguma coisa de unificador, a abraçar o mar, as casas, as montanhas e o céu; pareciam erguidos por um só pensamento, afastados e aproximados por uma inteligência coordenadora que calculasse a divisão dos planos, abrisse vales, recortasse curvas, a fim de agitar viva e harmoniosamente aquele amontoado de coisas diferentes... O aconchego, a tepidez da hora, a solenidade do lugar, o crenulado das montanhas engastadas no céu côncavo, deram-me impressões várias, fantásticas, discordantes e fugidias...
Havia um brando ar de sonho, e eu fiquei todo penetrado dele. Andamos. Agora, a barca movia-se ao longo de uma comprida ilha pejada de edifícios. Mais perto, mais longe, pequenas lanchas corriam, erguendo para a pureza do céu irreverentes penachos de fumo; na linha horizontal de uma terra baixa, ao fundo, onde, dolentemente agitado pela viração, um esguio coqueiro, firme e orgulhoso, crescia solitário; grandes cascos escuros de saveiros e galeras ruminavam placidamente; e botes velozes, cruzando as respectivas derrotas, brincavam sobre as ondas como crianças travessas...
Um escaler aproximou-se da barca, bem perto; a tripulação rubicunda entoava uma canção, um hino. O escaler afastou-se logo, desdenhoso e superior.
Antes de atracar, a noite caiu de todo.
Na cidade longos riscos de fogo brilharam, juntos e espaçados, retos e curvos, paralelos e emaranhados... Chegamos.
Quando saltei e me pus em plena cidade, na praça para onde dava a estação, tive uma decepção. Aquela praça inesperadamente feia, fechada em frente por um edifício sem gosto, ofendeu-me como se levasse uma bofetada. Enganaram-me os que me representavam a cidade bela e majestosa. Nas ruas, havia muito pouca gente e, do bonde em que as ia atravessando, pareciam-me feias, estreitas, lamacentas, marginadas de casas sujas e sem beleza alguma.
A rua do Ouvidor, que vi de longe, iluminada e transitada, em pouco diminuiu a má impressão que me fez a cidade. Pouco antes de partir, havia-me informado dos hotéis e, por essa ocasião, recomendaram-me o Hotel Jenikalé, na praça da República, de módica diária, me dirigi a ele, no propósito de me demorar os poucos dias exigidos para obter a colocação que me daria o deputado Castro. Fui jantar e sentei-me à mesa redonda, onde havia muita gente a falar de tudo e de todas as coisas. Evitei travar conversa com qualquer dos circunstantes. Jantei calado, de olhos desconfiados, baixos, erguendo-os de quando em quando do prato para as gravuras que guarneciam a sala, sem me animar a pousá-los na fisionomia de qualquer dos comensais. Não obstante a isso, alguém, pelo fim do jantar, venceu minha obstinação: - Creio que viemos juntos...
- Não me recorda, fiz eu polidamente.
- Perfeitamente. O senhor dormia quando embarquei.
- Pode ser...Viajei quase sempre assim... Alonguei a resposta a muito custo e a medo; mas, arrependido, comecei a pesá-la bem e vi que por ela o meu interlocutor não me poderia roubar o fraco pecúlio.
- Vim a negócios... O senhor sabe, continuou o desconhecido; o senhor sabe: quem quer vai, quem não quer manda... Se me limito e encomendar a farinha - é uma desgraça! Chega azeda e de péssima qualidade - então é um inferno! Os fregueses reclamam; a pretexto disso, não pagam. Para evitar essas e outras venho de dois em dois meses comprá-la, eu mesmo... Veja o senhor só - é uma despesa, mas que se há de fazer?!...
- O senhor está estabelecido? - Em Itaporanga, sim senhor; tenho uma padaria, pequena sim, mas rende. O senhor sabe: o pobre não passa sem pão.
Aproveitei um instante em que se virara para o vizinho, para analisar o padeiro de Itaporanga.
Era um homem baixo, de membros fortes, que respirava com força e desembaraçadamente. Falando, torcia, com a mão áspera de antigo trabalhador, o bigode farto. Descobria-se que na sua mocidade se entregara a trabalhos grosseiros, mas que, de uns tempos a esta parte, gozava de uma vida mais fácil e leve. O seu olhar, inquieto e fugidio, mas vivo, quando se fixava, era de velhaco mercadejante, bem com o código e as leis.
- O senhor veio a passeio? perguntou-me - Não senhor, disse-lhe de pronto. Vim estudar.
- Estudar! - De que se admira? - De nada.
Em seguida, abrindo o rosto queimado e ameigando a voz, em que havia longinquamente o sotaque português, disse: - Venha comigo, doutor, vamos dar uma volta.
Não tive tempo de opor uma resposta. O padeiro voltou-se para os fundos da sala e gritou ao caixeiro: - José! Charutos...
Aquele homem ia pondo em mim uma singular inquietação. A sua admiração tão explosiva ao meu projeto de estudo, as suas maneiras ambíguas e ao mesmo tempo desembaraçadas, o seu olhar cauteloso, perscrutador e sagaz, junto ao seu ar bonacheirão e simplório, provocavam-me desencontrados sentimentos de confiança e desconfiança. Havia nele tanta coisa oposta à profissão que dizia ter que me pus a desconfiar - Quem sabe! Entretanto, a sua afabilidade, as suas mãos grossas...
- Ó José! Os charutos? fez impaciente o negociante.
O caixeiro veio capengando sobre umas amplas botinas, e estendeu-nos uma caixa cheia de charutos claros, pimpantes, cujo aroma recendia e tentava a fumá-los.
Sirva-se, doutor! São magníficos! O Machado recebe-os diretamente.
E com um franzir de sobrolhos, deu-me a entender a origem semicriminosa dos charutos. Picou a ponta com os dentes, e não sem uma certa elegância, chegou o fósforo aceso ao seu e depois de esperar que eu também acendesse, falou-me: - O doutor conhece o Rio? - Não, fiz eu prazenteiramente, pois que o tratamento me agradava. Era a primeira vez que o recebia; lisonjeava-me naturalmente.
- Venha então comigo. Não saio nunca, mas posso acompanhá-lo na primeira visita. Podemos ir ao teatro, são oito e meia. Em dois minutos chego ali à confeitaria da Estrada, e antes das nove estamos no Recreio...
- Mas, meu caro senhor...
- Laje da Silva, um seu criado.
- Mas, meu caro Sr. Laje da Silva, continuei, estou cansado. Seria melhor...
- Oh! o senhor! Um menino! Deixe-se disso... Vamos, doutor.
O doutor era mágico. Acedi e o Senhor Laje da Silva, negociante com padaria em Itaporanga, muito orgulhosamente estendeu a perna esquerda, e dos profundos refolhos da algibeira da calça respectiva tirou um maço enorme de notas, escolheu uma e pagou os charutos que fumávamos.
"Os antigos bebiam pérolas dissolvidas em vinagre. Não eram lá de gosto muito fino e a extravagância nada significava. Eu bebo a verde esmeralda sadia, emblema da mater Natureza, num copo de Xerez. Em vez da pérola mórbida, doença de um marisco, no acre vinagre, bebo o verde dos prados, a magnífica coma das palmeiras, o perfume das flores, tudo que o verde lembra da grande mãe augusta!" Lembrei-me no dia seguinte dessa frase que o Raul Gusmão, um jovem jornalista, da amizade do Laje da Silva, pronunciou solenemente devagar no botequim do teatro, enquanto nos servíamos de bebidas. Disse-a com a sua voz fanhosa, sem acento de sexo e emitida com grande esforço doloroso. Falar era para a sua natureza obra difícil. Toda a sua pessoa se movia, se esforçava extraordinariamente; todos os seus músculos entravam em ação; toda a energia da sua vida se aplicava em articular os sons e sempre, quando falava, era como se falasse pela primeira vez, como indivíduo e como espécie. Essa sua voz de parto difícil, esse espumar de sons ou gritos de um antropóide que há pouco tivesse adquirido a palavra articulada, deu-me não sei que mal-estar, que não mais falei até à sua despedida. Tive medo de que me fosse preciso empregar o mesmo esforço, que a minha palavra custasse também aquela grande dor já olvidada e vencida pela nossa espécie; e fiquei a ouvi-lo respeitosamente, tanto mais que nos tratou, a mim e ao padeiro, com tal desdém, com tal superioridade que fiquei entibiado, esmagado, diante do retrato, que dele fiz intimamente, de um grande literato, universal e aclamado, espécie de Balzac ou Dickens, apesar da voz de Pithecanthropus.
Falava e não nos olhava quase; errava os olhos - os olhos pequeninos dentro de umas órbitas quase circulares a lembrar vagamente uma raça qualquer de suíno - errava os olhos, dizia, pelo pátio do teatro, e quando nos fixava trazia uma expressão de escárnio que ele mantinha num razoável dispêndio de energia muscular. Veio ter à nossa mesa por instâncias do Laje da Silva. Ia passando um pouco afastado, quando meu companheiro lhe correu ao encontro e, com os maiores rogos, o trouxe para a mesa. Apresentou-nos e perguntou depois: - Que toma, dr.? - Nada.
- Oh! Alguma coisa... Um licor... Um conhaque? - Vinho, Venha lá um vinho! Hoje não há mais vinhos... O sr., acrescentou, voltando-se para mim com o seu ar fingidamente insolente; o sr. porventura me dá notícias dos vinhos de Esmirna e de Quios? Desviou o rosto sem esperar a resposta, tirou uma preguiçosa fumaça do charuto e pôs-se a olhar pausadamente o teatro, alçando a vista às vezes até à varanda; e, por fim, cheio de insolência e com aquela voz de parto difícil, chamou o caixeiro e encomendou meio cálice de peppermint e uma dose de Xerez. Simulando não perceber o nosso espanto, fez algumas considerações sobre os vinhos antigos, confrontando-os com os modernos, no sabor, na cor e no preparo, com um exato conhecimento de ambos. Vieram-lhe as garrafas e o jornalista, pegando na colherzinha com dois dedos e estendendo os outros de sua mão polpuda, abacial, como a qualificou mais tarde, misturou ritualmente o verde peppermint no Xerez e foi por aí que disse: "Os antigos..." Diante dele, dos seus gestos, das suas palavras, a impressão das mulheres, da agitação do teatro, apagou-se-me completamente. Ele resumiu-me o teatro, e fiquei com este encontro tão indelevelmente gravado que ainda agora, ao traçar estas linhas, estou a vê-lo erguer-se da cadeira com visível esforço, ficar um instante parado junto a nós, com o alentado corpanzil encostado à bengala vergada, dizer cheio de profundo aborrecimento - como isto é feio! - para então se afastar por fim, vagarosamente...
Mal saiu, pedi pormenorizadas informações ao Laje da Silva. Nos confins da minha aldeia natal, eu não podia adivinhar que o Rio contivesse exemplar tão curioso do gênero humano, uma desencontrada mistura de porco e de símio adiantado, ainda por cima jornalista ou coisa que o valha, exuberante de gestos inéditos e frases imprevistas. Laje da Silva, porém, só sabia que ele tinha a Aurora à sua disposição, jornal muito lido e antigo, respeitado e que, no tempo do Império, derrubou mais de um Ministério. Escrevia nos jornais; era o bastante. E essa sua admiração, se era de fato esse o sentimento do padeiro pelos homens dos jornais, levava-o a respeitá-los a todos desde o mais graduado, o redator-chefe, o polemista de talento, até ao repórter de polícia, ao revisor e ao caixeiro de balcão. Todos para ele eram sagrados, seres superiores ou necessários aos seus negócios, pois viviam naquela oficina de ciclopes onde se forjavam os temerosos raios capazes de ferir deuses e mortais, e os escudos capazes também de proteger as traficâncias dos mortais e dos deuses. Laje não lhe conhecia as obras, nem mesmo os artigos e ficou satisfeito que um outro conhecido seu viesse sentar-se sem cerimônia alguma à nossa mesa, obrigando-me a não lhe fazer mais perguntas sobre o Pithecanthropus literato. Era o Oliveira - não me conhece? O Oliveira, do O Globo!... tão conhecido!... Oh! O padeiro ofereceu-lhe alguma coisa e perguntou amavelmente o que havia de novo.
- Uma inundação no Norte.
- Onde? - No forte S. Joaquim, no Purus.
- Perdão! fiz eu muito colegialmente. O forte S. Joaquim não fica no Purus...
O Oliveira olhou-me com alguma raiva e eu tive que comprimir a alegria colegial do quinau. Mas a sua raiva foi breve, o repórter Oliveira procurou uma saída conveniente para a sua ignorância numa crítica larga e patriótica: - Esta nossa geografia anda tão baralhada... O governo não cuida nessas coisas. É só política e "comidelas"... Tudo come... Uma vergonha! Do que o país precisa não cuidam... O sr. com certeza não conhece o rio das Capivaras? - Não, senhor, fiz satisfeito por mostrar a meu turno a minha ignorância.
- Pois é um rio muito importante e nenhuma geografia dá! Eu o conheço porque nasci perto, senão... Nós não temos governo...
De manhã, pus-me a recapitular todos esses episódios; e sobre todos pairava a figura inflada, mescla de suíno e de símio, do célebre jornalista Raul Gusmão. O próprio Oliveira, tão parvo e tão besta, tinha alguma coisa dele, do seu fingimento de superioridade, dos seus gestos fabricados, da sua procura de frases de efeito, de seu galope para o espanto e para a surpresa. Era já genial, com quem viria travar conhecimento mais tarde, que me assombrava com o seu maquinismo de pose e me colhia nos alçapões de apanhar os simples. E senti também que o espantoso Gusmão e o bobo Oliveira me tinham desviado da observação meticulosa a que vinha submetendo o padeiro de Itaporanga. Achava extraordinário que um varejista de um vilarejo longínquo cultivasse e mantivesse amizades tão fora do seu círculo; não se explica bem aquele seu norteio para os jornalistas, a especial admiração com que os cercava, o carinho com que tratava a todos.
No teatro e na rua, cumprimentou mais de uma dezena deles e apontou-me, sem lhes falar, uma dúzia de outros. É de tal jornal diário, dizia; é de tal semanário; faz guerra, faz marinha... Conhecia minuciosamente toda a vida jornalística. Informava-me sobre os nomes dos redatores, dos proprietários, dos colaboradores; sabia a tiragem de cada um dos grandes jornais, como a de cada semanário de caricaturas... Havia nisso uma mania pueril ou o que era? Não se manifestava homem de leituras, político ou dado às letras; não lhe senti a mais elementar preocupação intelectual; todo ele me pareceu convergindo para os negócios, para as coisas de dinheiro, especulações... Por isso, a sua jovialidade e sociabilidade não impediram que, aqui e ali, repontassem em mim alguns propósitos sobre a sua honestidade.
Houve um fato que tornou um pouco mais consistentes as fluídicas suspeitas que alimentava.
Acabando de cear, ao pagar a conta, o padeiro examinou com o cuidado especial de entendido o papel, a estampa e a numeração das notas do troco. Notando que eu reparava com insistência para o seu exame pericial, com a mais tranqüila das vozes e cheio de uma linda ingenuidade, pediu-me: - Faça o favor, dr.: veja-me de que estampa é esta... Não posso ler direito...
E passava-me a cédula velha, mas ainda em bom estado, em que li: estampa 9a - perfeitamente legível.
- Obrigado. É preciso muito cuidado, meu caro dr. A Casa da Moeda tem muitas filiais por aí...
Com o seu gesto habitual, estendeu a perna, arrumou as notas no maço e guardou-o no fundo da algibeira.
Daí em diante, não sei se com justeza, mas certamente com muita segurança íntima, tive por afetadas a sua simplicidade e bonomia, e julguei que escondiam algo de grave que se desenrolava na sua vida e ainda não tivera termo.
Pelo almoço, a uma pergunta minha, o copeiro avisou-me que o padeiro tinha ido aos subúrbios e não voltaria senão à tarde. Almocei vagarosamente e tranqüilo. O dia estava fresco e azul. Pela janela avistava os grandes relvados do jardim, muito verdes e macios, de uma macieza de tapete e de um verde que afagava o olhar. Soavam onze horas quando saí do hotel e vim a pé até às ruas centrais da cidade. Era cedo; não fui logo à Câmara. Fiquei vagueando pelas ruas à espera da hora conveniente. Cansado de andar pelo centro, aventurei-me tomar um daqueles bondes pequenos; chegando ao termo, bebi um refresco num botequim sórdido das proximidades e tomei outro bonde que, me informaram, levava à Câmara. Não reparei que a meu lado se sentara um homem acobreado, de cabelo liso mas de barba rala e crespa, ar decidido e tórax forte; mas notara que, bancos adiante, um senhor de cartola, fraque e calças brancas, tomara lugar à direita de uma senhora, jovem ainda, cuja passagem pagara, sem que com ela trocasse sequer um olhar. Observei-os intrigado; em meio da viagem o vizinho segredou-me: - Está vendo que pouca-vergonha? Um senador bolinar! Não entendi. Bolinar... Senador... O que era? O homem, entretanto, insistiu: - Todo o dia é aquilo... Uma vergonha! Se fosse outro, mas um senador! Por esse tempo, o par saltou, isto é, o senador um pouco antes, com o veículo em movimento, e a senhora saltou adiante; e ambos, ao jeito de desconhecidos, tomaram uma rua transversal. O meu vizinho não fez mais nenhuma observação, não me deixando, porém, de olhar durante a viagem toda e, quando saltei, mal tinha pisado o passeio, cortou-me os passos interpelando-me: - Olhe, menino, deixe-se disso, senão...
- Mas, o quê? - Então não sabe! Ora, não se faça de besta, continuou, atirando o chapéu para o alto da cabeça.
- Mas...
- É isto que lhe digo; não se meta na vida de "seu" Carvalho... É um graúdo, pode ter lá "seus arranjos" e não tem que dar satisfação a ninguém - fique sabendo! - Eu! - Sim, você! Olhou-me durante instantes cheio de desafio e perguntou-me com redobrado atrevimento: - Você não é repórter do O Azeite, um jornaleco que anda por aí? - Eu, não senhor.
E com a humildade que ditava a minha segurança, repliquei ao notável Lucrécio "Barba de Bode", que havia chegado do interior, que não conhecia o Senador Carvalho, que nada sabia dos "seus arranjos", e que ia entregar uma carta (mostrei-lha) a um deputado na Câmara, etc., etc.
O capanga acreditou, desculpou-se, disse-me o nome e ofereceu-me a casa. Dirigi-me para a Câmara. A minha simplicidade tinha julgado fácil falar a um deputado na Câmara. Era proibido; só se trouxesse ingresso; contudo, o porteiro disse-me que era melhor procurar o dr. Castro na sua residência, que me ensinou; e eu fui assistir à sessão para encher o tempo e para travar conhecimento com o misterioso trabalho de fazer leis para um país. De fato, subi pensando no ofício de legislador que ia ver exercer pela primeira vez, em plena Câmara dos Srs. Deputados - augustos e digníssimos representantes da Nação Brasileira. Não foi sem espanto que descobri em mim um grande respeito por esse alto e venerável ofício. Lembrei-me daqueles velhos legisladores da lenda e da história: os Manus, os Licurgos, os Moisés. Sólons, os Numas - esses nomes todos que os povos agradecidos pela fecundidade e pela sabedoria de suas leis reverenciaram por dilatados anos, ergueram-nos à altura de deuses, consagraram-lhes templos magníficos.