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O Namorador ou a Noite de São João

Martins Pena

Comédia em 1 ato

PERSONAGENS

VICENTE, velho. CLARA, mulher de Vicente. CLEMENTINA, sua filha. RITINHA, amiga de Clementina. LUÍS, primo de Clementina. JÚLIO. MANUEL, ilhéu, feitor. MARIA, ilhoa, sua mulher. Convidados de ambos os sexos, meninos, negros e moleques.

A cena se passa em uma chácara no Engenho Velho, no ano de 1844.

ATO ÚNICO

O teatro representa uma chácara. No fundo, a casa de vivenda com quatro janelas rasgadas e uma porta para a cena. A casa dentro estará iluminada, deixando ver pelas janelas várias pessoas dançando ao som de música, outras sentadas e alguns meninos atacando rodinhas. À esquerda, no primeiro plano, a casinha do feitor, a qual, sendo saliente sobre a cena, terá uma janela larga para frente do tablado e uma porta para o lado; debaixo da janela haverá um banco de relva. No canto que faz a casinha, um monte de palha; à direita, no mesmo plano a casinha, uma carroça. Defronte da porta da casa, uma fogueira ainda não acabada; mais para frente, o mastro de S. João, e dos lados deste, um pequeno fogo de artifício constando de duas rodas nas extremidades e de fogos de vista e coloridos, que serão atacados a seu tempo. A cena é alumiada pela lua, que se vê sobre a casa por entre árvores. (N.B.: Deve-se dar todo o espaço necessário para a distribuição da cena acima marcada, a fim de se evitar a confusão e conservar a naturalidade do que se quer representar.)

CENA I

Ritinha com um copo com água na mão, e Clementina com um ovo

Ritinha com um copo com água na mão, e Clementina com um ovo.

RITINHA – Só nos falta esta adivinhação. Já plantamos o dente de alho, para vê-lo amanhã nascido; já.

saltamos três vezes por cima de um tição...

CLEMENTINA – E já nos escondemos detrás da porta, para ouvirmos pronunciar o nome daquele que virá.

a ser teu noivo.

RITINHA – Vamos à do ovo. (Clementina quebra o ovo na beira do copo e deita a clara e gema dentro da.

água.).

CLEMENTINA – Agora dê cá, (toma o copo) e ponhamo-lo ao sereno.

RITINHA – Para quê? Explica-me esta, que eu não sei.

CLEMENTINA – Este ovo, exposto ao sereno dentro da água, vai tomar uma forma qualquer, por milagre.

de S. João. Se aparecer como uma mortalha, é sinal que morremos cedo; se tomar a figura de uma cama, é.

prova nos havemos de casar este ano; e se se mostrar debaixo da forma de véu de freira, é certo agouro que.

viveremos sempre solteira. (Põe o copo sobre o banco de relva.).

RITINHA – O melhor é não indagarmos isso.

CLEMENTINA – Tens receio?.

RITINHA – A esperança, quando mais não seja, alimenta. Se eu tivesse a certeza que nunca acharia um.

noivo, não sei o que faria.

CLEMENTINA – Pois eu tenho a certeza que o acharei.

RITINHA – Podes dizer isso, és bonita...

CLEMENTINA – Também o és.

RITINHA – Mas és rica, e eu não; e esta pequena diferença muda muito a questão. És filha única e teu pai.

possui esta bela chácara e outras muitas propriedades. Ali dentro estão alguns moços que porfiam em te.

agradar; está nas tuas mãos escolheres um para noivo. E eu posso dizer outro tanto?.

CLEMENTINA – E por que não?.

RITINHA – Tenho apenas um namorado.

CLEMENTINA – É o primo Luís?.

RITINHA – É ele mesmo, mas confesso-te ingenuamente que não sei o que ele quer. Ora mostra-se muito.

apaixonado, ora não faz caso de mim e namora a outras moças mesmo à minha vista; às vezes passam-se dias.

e dias sem me aparecer...

CLEMENTINA – Pois que esperas tu do primo Luís, daquele doudo que namora o torto e a direito a bonito.

e a feia, a moça e a velha?.

RITINHA, suspirando – Ai, ai!.

CLEMENTINA – O que admira-me é ver como tens conseguido tê-lo por namorado há quase três meses.

RITINHA – Bem esforços me tem custado.

CLEMENTINA – Eu te creio, porque ele diz que um namoro que dura mais de oito dias é maçada.

RITINHA – Tanto não poderás tu dizer dos teus, principalmente do Júlio.

CLEMENTINA – Queres que te diga uma coisa? O tal Sr. Júlio, com todos os seus excessos, já me vai.

aborrecendo sofrivelmente.

RITINHA – Oh, aborrecem-te os excessos?.

CLEMENTINA – Quando está junto de mim tem um ar tão sentimental que faz dó ou riso.

RITINHA – É amor.

CLEMENTINA – Se é obrigado a responder-me, é titubiando e trêmulo; atrapalha-se, não sabe o que diz e.

também nunca acaba de dizer.

RITINHA – É amor.

CLEMENTINA – Os seus olhos não me deixam; acompanham-me por toda a parte. Não dou um passo, que.

não seja observada.

RITINHA – São provas de amor.

CLEMENTINA – E se eu falo com algum moço? Isso então!... Fica logo muito aflito, a mexer-se na.

cadeira, com o nariz muito comprido e com os olhos cheios de lágrimas. E se eu não lhe faço logo e logo a.

vontade, deixando de conversar com o moço, ei-lo que levanta-se arrebatadamente, pega no chapéu e sai.

desesperado pela porta afora como quem leva a firme tenção de nunca mais voltar. Mas qual! Daí a dous.

minutos está ele ao pé de mim.

RITINHA – Tudo isso é amor.

CLEMENTINA – É amor! É amor, sei, mas aborrece-me tanto amor. (Aqui aparece no fundo Júlio.).

RITINHA – Vê como são as coisas: Eu queixo-me do meu por ser indiferente; tu, do teu, por excessivo.

CLEMENTINA – É que os extremos se tocam. Não tens ouvido cantar aquele lundu: Eu que sigo o meu.

bem? Mas também o que é verdade é que eu às vezes muito de propósito o faço desesperar.

RITINHA – Isso é maldade. (Clementina vê Júlio, que a este tempo está atrás dela.).

CLEMENTINA, à parte, para Ritinha – Olha! E ele comigo! Não te dizia que me acompanha por toda a.

parte?.

RITINHA, rindo-se – Adeus. (Sai correndo.).

CLEMENTINA, querendo retê-la – Espera! (Quer segui-la.).

JÚLIO, seguindo-a – Um momento! (Clementina volta-se para Júlio.).

CLEMENTINA – O que quer? (Caminha para frente.).

JÚLIO – Eu... (Fica enleado. Alguns momentos de silêncio.).

CLEMENTINA, à parte – E então?.

JÚLIO – Eu... (O mesmo jogo.).

CLEMENTINA, à parte – E ficamos nisto!.

JÚLIO – Se me permitisse... (Mesmo jogo.).

CLEMENTINA – O senhor está tão ansiado. Tem alguma dor?.

JÚLIO – Tenho sim, ingrata, mas é no coração.

CLEMENTINA – Ah, desembuchou?.

JÚLIO – Supunha passar hoje uma noite alegre e devertida, e só encontrei tormentos e desenganos.

CLEMENTINA – Ah, encontrou desenganos, coitado! Então quem foi que teve a barbaridade de o.

desenganar?.

JÚLIO – Uma cruel, que zomba de mim e de minha vida, que ainda será causa de algum desatino.

CLEMENTINA – Ora vejam só que crueldade!.

JÚLIO, desesperado – Oh, isto assim não pode durar muito. (Com ternura, pegando-lhe na mão:).

Clementina, por que hás-de ser tão má comigo? Que te fiz eu para ser assim maltratado? Eu, que tanto bem te.

quero!.

CLEMENTINA – Ontem despedimo-nos em paz. Quais são hoje as queixas?.

JÚLIO – Teu primo Luís.

CLEMENTINA – Ainda ciúme?.

JÚLIO – Ama-o, que ele me vingará. Não encontrarás outro coração como o meu.

CLEMENTINA – Acabou? Uma sua criada. Vou comer batatas.

JÚLIO, retendo-a – Oh, não, não!.

CLEMENTINA, voltando – Com que então queria que eu estivesse toda a noute a olhar para o senhor, com.

a boca aberta, ham? Feito uma pateta! Que não conversasse mais com minhas amigas, que estivesse amuada.

em um canto da sala, eu defronte e vós à vista, assim em ar de dois toiros que se querem investir? Sabe que.

mais? Isto já me vai aborrecendo.

JÚLIO – Perdoa-me.

CLEMENTINA – Por mais de uma vez já lhe tenho manifestado os sentimentos que me animam a seu.

respeito e dado prova da preferência em que eu o tenho. Quando um dia perguntou-me se eu queria ser sua.

mulher, respondi-lhe com franqueza que sim, mas que previa obstáculos da parte de meu pai.

JÚLIO – Tudo isto é verdade.

CLEMENTINA – E ajuntei mais: que esse temor, porém, não esfriasse o nosso amor, que paciência e tempo.

tudo conseguem, e que minha mãe era por nós. E ter-me-ia esquecido a esse ponto de minha posição e pejo,.

se não o amasse? (Aqui entra pela esquerda, por detrás da casinha do ilhéu, Luís, com uma carta de bichos.

acesa, pendurada de uma varinha. Corre para Clementina, gritando.).

LUÍS – Viva S. João! Viva S. João! (Clementina foge.).

CLEMENTINA – Primo Luís, primo Luís! (Luís vai atrás dela gritando sempre, até que ela sai pelo fundo.)

CENA II

Enquanto Luís corre após Clementina, Júlio fica a olhar para ela.

JÚLIO – E veio interromper-nos na melhor ocasião! Isto foi muito de propósito! Não é sem razão que eu.

desconfio dela; ama ao primo. (Neste tempo, Luís, que volta para cena, está junto dele.).

LUÍS – Ó Júlio, que bela patuscada, hem?.

JÚLIO, à parte – Vem mangar comigo.

LUÍS – Não há melhor! Foguetes para atacar, música para dançar, e sobretudo moças para namorar. O tio.

João festeja o nome de seu santo com grandeza. Tu não tens foguetes?.

JÚLIO, com mau modo – Não.

LUÍS – Nem namorada?.

JÚLIO, ao mesmo – Não.

LUÍS – Ó alma de cântaro, marreco de gesso! Não tens namorada, quando aquela sala está cheia de meninas.

tão encantadoras? Não tens namorada? Então que viste fazer?.

JÚLIO – Obsequiar à pessoa que me convidou, portando-me com decência.

LUÍS – Como diabo entendes tu as coisas às avessas? Quando se convida para uma soirée, ou outra qualquer.

patuscada, rapazes solteiros, é para que eles namorem. Todos sabem que sem namoro as mais brilhantes.

reuniões esfriam e poucas horas duram. Sem namorar as moças ficam amuadas, as velhas dormem e os.

velhos roncam. Sem namoro, essa vivacidade que se nota nos olhares e gestos das meninas desaparece e.

morre, falta de alimento. Sem esse grande excitativo, o desejo de conquistar adormece no coração e leva a.

moleza ao corpo e o aborrecimento à alma. Tudo fica triste e sem sabor. Os pai e mãe de família cedo.

retiram-se com as filhas, porque não vêem possibilidade de pescarem noivos para elas onde não há namoro.

prometido. Mais três ou quatro contradanças e não se vêem esses casais solitários no meio de esplêndido.

baile, sentados nos cantinhos da sala, alheios a tudo o que se passa ao redor dela, e que tanto servem para.

divertimento de todos. Cessa a maledicência, desaparecem esses segredinhos que se dizem ao ouvido e que.

fazem corar. Numa palavra, tudo esfria, emudece, dorme! O namoro é a alma da vida, a existência necessária.

de todas as reuniões. É o centro ao redor do qual giram todas as afeições, intrigas, gentes e despesas. Por ele.

é que a menina se enfeita, que os rapazes se desafiam, e se individa o homem. Por ele é que o pobre pai de.

família paga a ladroada conta das francesas. Enfim, é o motor universal, é o “fogo viste lingüiça” das.

sociedades. Por isso é que eu todas as vezes que sou convidado para algum baile ou patuscada como esta,.

namoro a torto e a direito, para obsequiar o dono da casa.

JÚLIO – Ah, é para obsequiar os donos das casas? Devem-te ficar muito agradecidos.

LUÍS – E que não fiquem pouco se me dá. Faço o meu dever. Tenho feito as moças lá dentro andarem numa.

dobradura, inclusive a minha bela priminha.

JÚLIO, travando-lhe do braço – Isto é uma traição!.

LUÍS – Hem?.

JÚLIO – É uma traição que cometes para comigo de quem te dizes amigo. Sabes muito bem, porque já te.

tenho dito, que eu amo a tua prima.

LUÍS – E o que tem isso? Tu namoras e eu também namoro; o caso não é novo – vê-se todos os dias isso.

JÚLIO – É preciso acabarmos com este gracejo. Não zombo.

LUÍS – Nem eu.

JÚLIO – Falo muito sério.

LUÍS – Que diabo de tom é esse?.

JÚLIO – Faze por toda a parte este papel de namorador e de tolo, acompanha-te sempre dessa leviandade e.

ar gracejador por desprezo pelo homem sensato, que pouco se me dá disso; nenhum interesse tenho eu em.

corrigir-te...

LUÍS – O caso vai de pregação.

JÚLIO – Mas não lances um só olhar para Clementina, não lhe digas uma só palavra de galanteio ou.

sedução, porque então te haverás comigo e tarde te arrependerás.

LUÍS – Quem, eu?.

JÚLIO – Sim, tu.

LUÍS – Isto é uma ameaça?.

JÚLIO – É, sim.

LUÍS – Ah, a coisa chegou a esse ponto? Pois meu amigo, andou muito mal; os seus ciúmes o deitaram a.

perder.

JÚLIO – Isso veremos.

LUÍS – Até agora eu namorava a prima inocentemente e sem intenção, como faço com todas as moças que.

encontro; isto é um hábito em mim. Mas agora, já que se formaliza e ameaça-me, hei-de lhe mostrar que não.

só namorarei a priminha de noute e de dia, como também casar-me-ei com ela.

JÚLIO, raivoso – Oh!.

LUÍS – O que não tem podido fazer de mim o amor, fará o amor-próprio. Estou resolvido a casar-me.

JÚLIO, segurando-lhe na gola da casaca – Não me leves ao desespero! Desiste? (Aqui aparece no fundo.

Clara, que se encaminha para eles.).

LUÍS, segurando na gola da casaca de Júlio – Não quero! (Júlio agarra com a outra mão na gola da casaca.

de Luís, que faz o mesmo, empurrando-se mutuamente.).

JÚLIO – Não me faça praticar uma ação que nos perderia a ambos.

LUÍS – Perdido já eu estou, porque me vou casar.

JÚLIO, forcejando – Insolente!

CENA III

Clara junto deles

CLARA – Então, o que é isto? (Os dois surpreendem-se e apartam-se.) LUÍS – Não é nada, minha tia, estávamos experimentando forças. CLARA – Ora, deixemos agora disso. Venham dançar, que faltam pares. Venham. LUÍS – Vamos, tiazinha. (Para Júlio:) Vou apertar o namoro. Viva S. João! (Sai dando viças.) CLARA, rindo-se – É um doudo este meu sobrinho. Venha, Sr. Júlio. JÚLIO – Já vou, minha senhora. (Clara sai.)

CENA IV

Júlio, só

JÚLIO – O que hei-de eu fazer? Talvez fiz mal em levar as coisas a este extremo. Luís principia os namoros e os deixa com a mesma facilidade. Não me devia inquietar. Maldito ciúme! Estou em uma cruel perplexidade. Devo hoje mesmo declarar-me com o Sr. João Félix e pedir-lhe a filha. Vã esperança! Estou certo que ele não consentirá; não tenho fortuna. Meu Deus! (Sai vagaroso.)

CENA V

Enquanto Júlio dirige-se para o fundo, entra pela direita baixa o ilhéu, seguido de quatro pretos, trazendo os dois primeiros lenha, o terceiro um cesto à cabeça, e o quarto um feixe de cana.

MANUEL – Paizinhos, vão acabar de fazer a fogueira. Levem primeiro vocês a cana e os carás à Senhora. (Manuel fala como os ilhéus, isto é, cantando. Os negros da lenha vão acabar de fazer a fogueira; os outros dois saem pelo fundo. Manuel, só:) Cá no Brasil é como na minha terra; também se festeja a noite de S. João. Quem me dera no Tojal! Há dois anos que aqui estou trabalhando para ganhar dinheiro e para lá voltar. Oh, quem pudera viver sem trabalhar! Cresce-me água à boca, quando vejo um rico. São os felizes, que cá o homem anda de canga ao pescoço.

CENA VI

Entra Maria com uma cesta à cabeça

MANUEL – O que levas aí, Maria?.

MARIA – A roupa que estava no campo a secar.

MANUEL – Pois ainda agora? Vem cá. (Maria deixa a cesta à porta da casinha e caminha para Manuel.).

MARIA – A senhora tomou-me o tempo e não deixou-me recolhê-la com dia. Andamos a arranjar a casa.

para a companhia.

MANUEL – E ela é que diverte com os seus, e nós trabalhamos.

MARIA – O que queres, Manuel? Somos pobres, que Deus assim nos fez.

MANUEL – E é do que me queixo. Todo o dia com a enxada na mão, e ainda em cima ter olhos nos.

paizinhos, que são peores que o diabo.

MARIA – Anda lá, não te queixes tanto, que lá no Tojal éramos mais desgraçados. Não sei como não.

morríamos de fome. Ganhavas seis vinténs por dia ao rabo da enxada, e cá o senhor te estima; pagou a nossa.

passagem.

MANUEL – Quisesse Deus que eu tivesse algum dinheirinho junto! Pagaria ao senhor o resto que lhe devo e.

ia comprar um burro e uma carroça para vender a iágua. O Zé voltou para S. Miguel com cinco mil cruzados.

que assim ganhou.

MARIA – Se puderas fazer isso, eu ficava com a senhora. Este vestido deu-me ela, e este xale também, e.

outros me dará ainda.

MANUEL – Pois se eu sair, sairás também, senão te desanco.

MARIA – Ai!.

MANUEL – Pensas que eu não sei porque queres ficar?.

MARIA – Ai, que me impacientas!.

MANUEL – Bem vejo o senhor a te fazer roda como um peru.

MARIA – Esta besta! O senhor a fazer-me roda, tão velho como é? Ai, que me rio desta!.

MANUEL – Vai-te rindo, bestinha, até que chores.

CLARA, da porta da casa – Maria?.

MARIA – Adeus, que a senhora chama-me. Esta besta!.

MANUEL – Anda com cuidado, que te tenho o olho em riba.

MARIA – Olha que cansarás a vista, animal.

CENA VII

MANUEL, só – Assim vive um homem de Deus a lavrar a terra e a vigiar a mulher. Forte ocupação, que o.

diabo leve! (Para os negros:) Anda paizinhos, acabem essa fogueira e vão arrumar o capim na carroça para ir.

para cidade. (Os dois negros saem.) Se o senhor continua a fazer festas a Maria, hei-de dizer à senhora, que.

não é para brincos. (Sai. Logo que Manuel sai, chega do fundo João.)

CENA VIII

JOÃO, só – Agora que lá dentro estão todos entretidos, é boa ocasião de cercar minha bela ilhoazinha para.

dar-lhe um abraçozinho. Aonde estará ela? (Chamando com cautela:) Maria, Maria? Tenho medo que minha.

mulher veja-me aqui. É velha, mais tem ciúmes como um mouro. Quem manda ser velha? Estará no quarto?.

(Vai espiar na casinha.) Maria? Nada. Lá dentro ainda dançam; estão devertidos e não darão por minha falta.

Vou esconder-me no seu quarto e lá esperarei para surpreendê-la. Oh, que surpresa! Só assim, porque ela é.

arisca como o diabo. Dou-lhe um abraçozinho e depois safo-me na pontinha dos pés. Oh, que surpresa! Que.

contentamento! (Esfrega as mãos. Júlio, que a este tempo entra vindo do fundo, chama por ele; João, que.

está quase junto à porta, volta-se zangado.)

CENA IX

Júlio e João

JÚLIO – Sr. João Félix?.

JOÃO, voltando-se – Quem é?.

JÚLIO – Se quisesse ter a bondade de ouvir-me por alguns instantes com atenção...

JOÃO, impaciente – O que tens agora a dizer-me, homem? Vá dançar.

JÚLIO – Pensamentos muito sérios ocupam-se neste momento para eu poder dançar.

JOÃO – Então o que é?.

JÚLIO – Desculpe a minha franqueza...

JOÃO – Avie-se, que tenho pressa.

JÚLIO – Eu amo sua filha.

JOÃO – E que tenho eu com isso?.

JÚLIO – Mas é que eu a amo com adoração, como nunca se amou, e pretendia...

JOÃO – Vá dizer a ela que eu lhe ordeno que dance com o senhor uma contradança; ande, vá, vá!.

(Empurrando-o).

JÚLIO – Não é por tão pequeno favor que eu ouso encomodá-lo.

JOÃO , à parte – Que impertinência! E eu a perder tempo e ocasião.

JÚLIO – Terei ânimo em falar, visto que o senhor não reprovou o meu amor.

JOÃO – Bem vejo que tens ânimo, mas pressa decerto que não tens. Pois é o que eu tenho.

JÚLIO – Serei breve. Concede-me a mão de sua filha?.

JOÃO – Se é para dançar, já lhe dei.

JÚLIO – Não senhor, é para casar.

JOÃO – Para casar? Sempre pensei que o senhor tivesse mais juízo. Pois de noute, no meio do campo e a.

estas horas é que o senhor vem pedir minha filha, obrigando-me a estar aqui a cabeça ao sereno? Já eu estou.

constipado. (Amarra um lenço na cabeça.).

JÚLIO – Só motivos imperiosos me obrigariam a dar este passo tão precipitado.

JOÃO – Precipitado ou não precipitado, não lhe dou minha filha! (Durante a continuação desta cena João.

passeia pela cena, dando voltas de um para outro lado; passa por trás da carroça, vai até o fundo, volta,.

etc., e Júlio o segue sempre falando.).

JÚLIO – Mas senhor, Vossa Senhoria não tem razão em responder-me deste modo. Eu decerto teria.

escolhido melhor ocasião; há porém acontecimentos que nos levam, mau grado nosso, a dar um passo que à.

primeira vista parece loucura. A causa deve ser indagada. E isto é o que Vossa Senhoria deveria fazer. Não se.

trata de um negócio de pouca monta. A minha proposição não deve ser assim recebida. Sei que a sua filha é.

um partido vantajoso ainda mesmo para um homem ambicioso, mas em mim não se dá essa idéia. Procuro os.

dotes morais de que é ornada, as virtudes que a fazem tão amável e encantadora. Conheço-a de perto, tenho.

tido a honra de freqüentar sua casa. Rogo a Vossa Senhoria que me dê um momento de atenção. Esse.

exercício violento pode-lhe fazer mal... Minha família é muito conhecida nesta cidade; não é rica, é verdade,.

mas nem sempre a riqueza constitui felicidade. Meu pai foi desembargador, e minha aliança com a filha de.

Vossa Senhoria não pode envergonhar. Sou negociante, ainda que principiante; posso ainda fazer grande.

fortuna e ouso dizer que a Sra. D. Clementina não me vê com indiferença...

JOÃO, voltando-se muito zangado para Júlio – Não lhe dou minha filha, não lhe dou, não lhe dou! E tenho.

dito.

JÚLIO – Atenda-me!.

JOÃO – Aonde viu o senhor dar-se caça a um pai de semelhante maneira?.

JÚLIO – Desculpe-me, é o meu amor a causa de...

JOÃO – Homem, não me quebre mais a cabeça! Não quero, não quero e não quero, e vá-se com os diabos!.

Não só de minha presença, como de minha casa. Vá-se, vá-se! (Empurrando.).

JÚLIO, com altivez – Basta, senhor! Até agora recebia uma denegação e com paciência a sofri; mas agora é.

um insulto!.

JOÃO – Seja lá o que quiser.

JÚLIO – E eu não me demorarei um só instante em sua casa.

JOÃO – Faz-me muito favor. (Júlio sai arrebatado.)

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