PortalSaoFrancisco.com.br

Os Imãos das Almas

Martins Pena

Comédia em 1 ato

PERSONAGENS

MARIANA, mãe de
EUFRÁSIA.
LUÍSA, irmã de
JORGE, marido de Eufrásia.
TIBÚRCIO, amante de Luísa.
SOUSA, irmão das almas.
FELISBERTO.
Um irmão das almas.
Um cabo de Permanentes.
Quatro soldados.

(A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1844, no dia de Finados)

Sala com cadeiras e mesa. Porta no fundo e à direita; à esquerda um armário grande. Durante todo o tempo da representação, ouvem-se ao longe dobres fúnebres.

ATO ÚNICO

CENA I

LUÍSA, sentada em uma cadeira junto á mesa - Não é possível viver assim muito tempo! Sofrer e calar é minha vida. Já não posso! (Levanta-se.) Sei que sou pesada a D. Mariana e que minha cunhada não me vê com bons olhas, mas quem tem culpa de tudo isto é o mano Jorge. Quem o mandou casar-se, e vir para a companhia de sua sogra? Pobre irmão; como tem pago essa loucura! Eu já podia estar livre de tudo isto, se não fosse o maldito segredo que descobri. Antes não soubesse de nada!

CENA II

EUFRÁSIA e LUÍSA.

EUFRÁSIA, entrando vestida de preto como quem vai visitar igrejas em dia de Finados - Luísa, tu não queres ir ver os finados?

LUÍSA - Não posso, estou incomodada. Quero ficar em casa.

EUFRÁSIA - Fazes mal. Dizem que este ano há muitas caixinhas e urnas em S. Francisco e no Carmo, e além disso, o dia está bonito e haverá muita gente.

LUÍSA - Sei o que perco. Bem quisera ouvir uma missa por alma de minha mãe e de meu pai, mas não posso.

EUFRÁSIA - Missas não hei-de eu ouvir hoje; missas em dia de Finados é maçada. Logo três! O que eu gosto é de ver as caixinhas dos ossos. Há agora muito luxo.

LUÍSA - Mal empregado.

EUFRÁSIA - Por quê? Cada um trata os seus defuntos como pode.

LUÍSA - Mas nem todos os choram.

EUFRÁSIA - Chorar? E para que serve chorar? Não lhes dá vida.

LUÍSA - E que lhes dão as ricas urnas?

EUFRÁSIA - O que lhes dão? Nada; mas ao menos fala-se nos parentes que as mandam fazer.

LUÍSA - E isso é uma grande consolação para os defuntos...

EUFRÁSIA - Não sei se é ou não consolação para os defuntos, mas posso-te afirmar que é divertimento para os vivos. Vai-te vestir e vamos.

LUÍSA - Já te disse que não posso.

EUFRÁSIA - Luísa, tu és muito velhaca!

LUÍSA - E por quê?

EUFRÁSIA - Queres ficar em casa para veres o teu namorado passar. Mas não sejas tola; vai à igreja, que lá é que se namora bem no aperto.

LUÍSA, com tristeza - Já lá se foi esse bom tempo de namoro!

EUFRÁSIA - Grande novidade! Brigaste com o teu apaixonado?

LUÍSA - Não; mas depois do que soube, não devo mais vê-lo.

EUFRÁSIA - E o que soubeste então?

LUÍSA - Que ele era... Até não me atrevo a dizê-lo.

EUFRÁSIA - Assustas-me!

LUÍSA - Considera a coisa mais horrorosa que pode ser um homem.

EUFRÁSIA Ladrão?

LUÍSA Pior.

EUFRÁSIA - Assassino?

LUÍSA - Ainda pior.

EUFRÁSIA - Ainda pior que assassino? Rebelde?

LUÍSA - Muito pior!

EUFRÁSIA - Muito pior que rebelde? Não sei o que seja.

LUÍSA - Não sabes? (Com mistério) Pedreiro-livre!

EUFRÁSIA - Pedreiro-livre? Santo breve da marca! Homem que fala com o diabo à meia-noite! (Benze-se.)

LUÍSA - Se fosse só falar com o diabo! Tua mãe diz que todos os que para eles se chegam ficam excomungados, e que antes quisera ver a peste em casa do que um pedreiro-livre. (Benze-se; o mesmo faz Eufrásia.) Não, não! Antes quero viver toda a minha vida de favores e acabrunhada, do que casar-me com um pedreiro-livre. (Benze-se.)

EUFRÁSIA - Tens razão. Eu tenho-lhes um medo de monte; e minha mãe quando os vê, fica tão fora de si que faz desatinos. Ora, quem havia dizer que o Sr. Tibúrcio era também da panelinha!

LUÍSA - Eu seria tão feliz com ele, se não fosse isso!...

EUFRÁSIA - Também... Perdes um marido; pouco perdes... Para que serve um marido?

LUÍSA - Para que serve um marido? Boa pergunta! Para muitas coisas.

EUFRÁSIA - Sim, para muitas coisas más.

LUÍSA - Dizes isso porque já estás casada.

EUFRÁSIA - Essa é que é a desgraça: não termos medo ao burro, senão depois do couce. Um marido! Sabes tu o que é um marido? É um animal exigente, impertinente e insuportável... A mulher que quiser viver bem com o seu, faça o que eu faço: bata o pé, grite mais do que ele, caia em desmaio, ralhe e quebre os trastes. Humilhar-se? Coitada da que se humilha! Então são eles leões. O meu homem será sendeiro toda sua vida... E se hás-de ter o trabalho de ensinares a esses animais, é melhor que te não cases.

LUÍSA - Isso é bom de se dizer...

EUFRÁSIA - E de se fazer. Vou acabar de me vestir. (Sai.)

CENA III

LUÍSA e depois JORGE.

LUÍSA, só - Pobre Jorge; com quem te foste casar! Como esta mulher te faz infeliz! Pedreiro-livre!... Quem o dissera! (Entra Jorge vestido com opa verde de irmão das almas; traz na mão uma bacia de prata com dinheiro, ovos e bananas. Logo que entra, põe a bacia sobre a mesa.)

JORGE, entrando - Adeus, mana Luísa.

LUÍSA - Já de volta?

JORGE - A colheita hoje é boa. É preciso esvaziar a salva. (Faz o que diz.) Guarda metade deste dinheiro antes que minha mulher o veja. que tudo é pouco para ela; e faze-me destes ovos uma fritada e dá estas bananas ao macaco.

LUÍSA - Tenho tanta repugnância de servir-me deste dinheiro...

JORGE - Por quê?

LUÍSA - Dinheiro de esmolas que pedes para as almas...

JORGE - E então o que tem isso? É verdade que peço para as almas, mas nós também não temos alma? Negar que a temos é ir contra a religião, e além disso, já lá deixei dous cruzados para se dizer missas para as outras almas. É bem que todas se salvem.

LUÍSA - Duvido que assim a tua se salve.

JORGE - Deixa-te de asneiras! Pois pensas que por alguns miseráveis dous vinténs, que já foram quatro, (pega em uma moeda de dous vinténs:) - olha, aqui está o carimbo... - um pai de família vá para o inferno? Ora! Supõe que amanhã afincam outro carimbo deste lado. Não desaparecem os dous vinténs e eu também não fico logrado? Nada, antes que me logrem, logro eu. E demais, tirar esmolas para almas e para os santos é um dos melhores e mais cômodos ofícios que eu conheço. Os santos sempre são credores que não falam... Tenho seis opas para os seis dias da semana; aqui as tenho. (Vai ao armário e tira seis opas.) No domingo descanso. Preferi tê-las minhas - é mais seguro; não dou satisfação a tesoureiro nenhum. As segundas-feiras visto esta verde que tenho no corpo; às terças, esta roxa; às quartas, esta branca; às quintas, esta encarnada; às sextas, esta roxa e branca e aos sábados esta azul.

LUÍSA - E não entregas dinheiro nenhum para os santos?

JORGE - Nada, o santo destas opas sou eu. Não tenho descanso, mas também o lucro não é mau.

LUÍSA - O lucro... Aquele pobre velho que morava defronte do paredão da Glória também pedia esmolas para os santos, e morreu à mingua.

JORGE - Minha rica, o fazer as coisas não é nada; o sabê-las fazer é que é tudo. O carola experiente deve conhecer as ruas por que anda, as casas em que entra e as portas a que bate. Ruas há em que se não pilha um real - essas são as da gente rica, civilizada e de bom-tom, que, ou nos conhecem, ou pouco se lhe dá que os santos se alumiem com velas de cera ou de sebo, ou mesmo que estejam às escuras. Enfim, pessoas que pensam que quando se tem dinheiro não se precisa de religião. Por essas ruas não passo eu. Falem-me dos becos aonde vive a gente pobre, das casas de rótulas, das quitandeiras; aí sim, é que a pipineira é grossa! (Vai guardar as opas.) Tenho aprendido à minha custa!

LUÍSA, sorrindo-se - À custa dos tolos, deves dizer.

JORGE - E quem os manda serem tolos? Mas, ah, neste mundo nem tudo são rosas. Eu vivia tão bem e tão feliz, e por desconto dos meus pecados dei a mais reverente das cabeçadas!

LUÍSA - Qual cabeçada?

JORGE - O casar-me. Ah, minha filha, o casamento é uma cabeçada que deixa o homem atordoado por toda a vida, se o não mata. Se eu soubesse...

LUÍSA - Agora é tarde o arrependimento; queixa-te de ti.

JORGE - Que queres? Um dia mete-se o diabo nas tripas de um homem e ei-lo casado. Ainda alguns são felizes, mas eu fui mesmo desgraçadíssimo! Esbarrei-me de focinhos! Encontrei com uma mulher linguaruda, preguiçosa, desavergonhada e atrevida... E para maior infelicidade, vim viver com minha sogra, que é um demônio; leva todo o dia a atiçar a filha contra mim. Vivo num tormento.

LUÍSA - Eu bem o vejo.

JORGE - Quando a roda principia a desandar, é assim. Dous meses depois de eu estar casado, morreu nossa mãe e tu te viste obrigada a vires para minha companhia, para aturares estas duas víboras. Ah, suportar uma mulher é um castigo, mas aturar também uma sogra é... nem eu sei o que seja!... E uma injustiça que Deus nos faz. E quando elas têm um conselheiro e compadre da laia do nosso vizinho Sousa... Isso... (Dá estalos com os dedos.)

LUÍSA - Dizes bem, Jorge, esse nosso vizinho é uma das causas do estado desgraçado em que vives com tua mulher, pelos conselhos que lhe dá.

JORGE - Velho infernal, mexeriqueiro baboso! Não te poder eu correr com um pau pela porta fora! Mas ainda isto não é o maior infortúnio... Olha, Luísa, há coisas que um marido, por mais prudente que seja, não pode tragar. Tens visto aqui nesta casa o Felisberto?

LUÍSA - Tenho sim.

JORGE - Pois esse patife, que ninguém sabe do que vive, que não tem ofício nem benefício, que está todo o santo dia no Largo do Rocio, metido na súcia dos meirinhos, com o pretexto de ser primo de minha mulher entra por esta casa a dentro com toda a sem-cerimônia, sem dizer tir-te, nem guar-te; anda de um quarto para outro com toda a frescura, conversa-se em segredo com minha mulher e cala-se quando eu chego.

LUÍSA - E por que o sofre, mano? Não é você o homem desta casa? Até quando há-de ter medo de sua mulher?

JORGE - Medo? Pois eu tenho medo dela? (Com riso forçado:) É o que me faltava! O que eu tenho é prudência; não quero desbaratar...

LUÍSA, à parte - Coitado!

JORGE - Ele já veio hoje?

LUÍSA - Ainda não.

JORGE - Admira-me!

CENA IV

FELISBERTO e os mesmos.

FELISBERTO, entrando - Vivório!

JORGE, à parte - Já tardava!

FELISBERTO, para Luísa, sem dar atenção a Jorge - Adeus, minha bela Luisinha. A prima Eufrásia está lá dentro?

LUÍSA, secamente - Está. (Felisberto encaminha-se para sair pela direita, sem dar atenção alguma a Jorge.)

JORGE, seguindo-o - Então assim se pergunta por minha mulher e vai-se entrando? (Felisberto sai.) E então? Querem-na mais clara? Que figura faço eu aqui? Que papel represento? (Passeia agitado de um para outro lado.)

LUÍSA, seguindo-o - Meu irmão, por que não fazes um esforço para saíres deste vexame em que vives? Cobre energia! Mostre que é homem! Isto é uma vergonha! Não se acredita! Que fraqueza!

JORGE, parando - É fraqueza?

LUÍSA - É, sim.

JORGE - Pois quero mostrar-te para que sirvo. Quero mostrar-te que sou homem e que nesta casa governo eu.

LUÍSA - Felizmente.

JORGE - Vou ensiná-las, botar este biltre pela porta a fora! Basta de humilhação! Vai tudo com os diabos! (Caminha intrepidamente e a passas largos para a porta da direita, mas aí chegando, pára.)

LUÍSA - Então, paras?

JORGE, voltando - Melhor é ter prudência. Tenho medo de fazer uma morte.

LUÍSA - Meu Deus, que fraqueza!

JORGE - E retiro-me, que não respondo por mim... e mesmo porque vou à botica buscar o sinapismo que minha sogra pediu. (Sai.)

CENA V

LUÍSA, só, e depois MARIANA.

LUÍSA - Isto contado não é crível! Ter um homem medo de sua mulher e de sua sogra a esse ponto! Ah, se eu fosse homem e tivesse uma mulher como esta!...

MARIANA, entrando - Vai coser a renda da minha mantilha! (Luísa sai. Mariana estará de vestido de riscado e saia de lila preta.) Pague o que come! É um trambolho que eu tenho em casa. A boa jóia do meu genro julga que eu também devo carregar com a irmã. Está enganado; hei-de atrapalhá-la até que a desgoste para sair daqui. Arre!

CENA VI

MARIANA e SOUSA.

SOUSA, entrando vestido de opa - Bons dias, comadre.

MARIANA - Oh, compadre Sousa, por cá?

SOUSA - Ando no meu fadário, comadre. É preciso ganhar a vida. (Põe a salva sobre a mesa.)

MARIANA - Isso é assim, compadre.

SOUSA - E como já estou velho, escolho o ofício que mais me serve... Tiro esmolas.

MARIANA - E as faz render, hem?

SOUSA - Nada, comadre. Ganho só duas patacas por dia, que me paga o tesoureiro da irmandade para quem tiro esmola.

MARIANA - Só duas patacas? Tão pouco, compadre?

SOUSA - Eu podia fazer como grande parte dos meus companheiros, que tiram as esmolas para si, mas isso não faço eu; quisera antes morrer de fome. Dinheiro sagrado! Talvez a comadre zombe do que eu digo...

MARIANA - Eu não, compadre.

SOUSA - Porque consta-me que seu genro...

MARIANA - Meu genro é um tratante.

SOUSA - Há em todas as profissões velhacos que as desacreditam.

MARIANA - Não se importe com isso, compadre.

SOUSA - Oh, eu vivo tranqüilo com a minha consciência.

MARIANA - Faz muito bem.

SOUSA - Como vai a comadrinha? (Aqui aparece à porta do fundo Jorge, que trará uma tigela na mão. Vendo MARIANA e Sousa, pára e escuta.)

MARIANA - Vai bem, compadre. Só o diabo do marido é que lhe dá desgostos; é uma besta que meti em casa...

SOUSA - Comadre, as bestas também se ensinam...

JORGE, à parte - Patife!

MARIANA - Deixe-o comigo, compadre.

SOUSA - A comadre é mãe e deve vigiar na felicidade de sua filha. Os maridos são o que as mulheres querem que eles sejam. Sou velho e tenho experiência do mundo. A comadrinha que não fraqueie, senão ele bota-lhe o pé no pescoço.

JORGE, à parte - Tratante!

MARIANA - Isso lhe digo eu sempre, e ela o faz. Olhe, compadre, quanto a isso puxou cá à pessoa... O meu defunto não via bóia comigo...

CENA VII

Os mesmos e FELISBERTO.

FELISBERTO - Adeus, tia; vou-me embora.

MARIANA - Vem cá, rapaz.

FELISBERTO - O que quer?

MARIANA - Ó compadre, você não achará um arranjo para este rapaz?

SOUSA - Fraco empenho sou eu, comadre.

FELISBERTO - Não preciso de arranjo.

MARIANA - É melhor trocar as pernas por essas ruas como um valdevinos, em risco de ser preso para soldado? Andar sempre pingando e sem vintém para comprar uma casaca nova? Vê como os cotovelos desta estão rotos, e esta calça, como está safada.

FELISBERTO - Assim mesmo é que eu gosto... É liberdade! Cada um faz o que quer e anda como lhe parece. Não nasci para me assujeitar a ninguém.

MARIANA - Ai, que modo de pensar é esse? Então, compadre, não descobre nada?

SOUSA - Eu? Só se ele quer também pedir esmolas; posso arranjar-lhe uma opa.

MARIANA - Lembra muito bem. Ó sobrinhozinho, queres pedir esmolas?

FELISBERTO, insultado - Pois tia Mariana, acha que eu nasci para pedir esmolas? Isto é insultar-me! E o Sr. Sousa...

SOUSA - Eu digo: no caso de querer...

MARIANA - Estou vendo que nasceste para príncipe... Já te não lembras que teu pai era malsim?

FELISBERTO - Isto foi meu pai; eu não tenho nada com isso.

SOUSA - Pedir para os santos é uma profissão honesta.

MARIANA - Que não desonra a ninguém. Veste-se uma opa, entra-se pelas casas...

FELISBERTO, á parte - Entra-se pelas casas...

MARIANA - ... bate-se à escada, e se se demoram a vir saber quem é, assenta-se o homem um momento, descansa...

FELISBERTO, embebido numa idéia, sem ouvir a tia - Entra-se pelas casas...

MARIANA - ... vem o moleque ou a rapariga trazer o vintenzinho...

FELISBERTO - Pois bem, tia, quero-lhe fazer o gosto; pedirei hoje esmola; até para ver se o ofício me agrada.

MARIANA - Sempre te conheci muito juízo, sobrinhozinho. O compadre arranja-lhe a opa?

SOUSA - Fica a meu cuidado.

MARIANA - Muito bem. E dê-me licença, que vou acabar de me vestir. (Sai.)

CENA VIII

SOUSA e FELISBERTO; (e depois JORGE.)

FELISBERTO, à parte - Não me lembrava que opa, às vezes, dá entrada até o interior das casas...

SOUSA - Vamos?

FELISBERTO - Quando quiser. (Encaminham para a porta do fundo; Jorge entra e passa por entre eles.)

SOUSA, para Jorge, quando passa - Um seu criado, Sr. Jorge. (Jorge não corresponde o cumprimento e dirige-se para a porta da direita.)

FELISBERTO, voltando-se - Malcriado! (Jorge, que está junto à porta para sair, volta-se.)

JORGE - Hem?

FELISBERTO, chegando-se para ele - Digo-lhe que é um malcriado!

JORGE, com energia - Isso é comigo?

FELISBERTO - É sim.

JORGE, vindo para a frente da cena - Há muito tempo que eu procuro esta ocasião para nos entendermos.

FELISBERTO - Muito estimo. (Arregaça as mangas da casaca.)

SOUSA - Acomodem-se...

JORGE - O senhor tem tomado muitas liberdades em minha casa.

FELISBERTO - Primeiramente, a casa não é sua; e segundo, hei-de tomar as liberdades que bem me parecerem.

SOUSA - Sr. Felisberto!...

JORGE - O senhor entra por aqui e não faz caso de mim?

FELISBERTO - E que figura é o senhor para eu fazer caso?

SOUSA - Sr. Jorge!... (Metendo-se no meio.)

JORGE - Chegue-se para lá; deixe-me, que estou zangado. O senhor fala com minha mulher em segredo, na minha presença...

FELISBERTO - Faço muito bem, porque é minha prima.

JORGE, gritando e batendo com os pés - Mas é minha mulher! E sabe que mais? É por consideração a ela que agora mesmo não lhe esmurro estas ventas. (Sai com passos largos.)

FELISBERTO - Anda cá! (Quer segui-lo; Sousa o retém.)

SOUSA - Aonde vai?

FELISBERTO, rindo-se - Ah, ah, ah! Não sei aonde foi a prima achar este côdea para marido. Tenho-lhe dito muitas vezes que é a vergonha da família.

SOUSA - É um homem sem princípios!

FELISBERTO - Eu regalo-me de não fazer caso nenhum dele... (Ouvem-se gritos dentro.) Ouça, ouça! Não ouve esses gritos? E a tia e a prima que andam com ele às voltas. Ah, ah!

SOUSA - Deixa-lo, e vamos, que se vai fazendo tarde. (Saem ambos, rindo-se.)

CENA IX

Entra JORGE desesperado.

JORGE - Os diabos que as carreguem, corujas do diabo! Assim não vai longe; desanda tudo em muita pancadaria. Ora cebolório! Que culpa tenho eu que o boticário se demorasse em fazer o sinapismo? É bem feito, Sr. Jorge, é bem feito! Quem o mandou ser tolo? Agora agüente... (Gritos dentro.) Grita, grita, canalha, até que arrebentem pelas ilhargas! Triste sorte... Que sogra, que mulher! Ah, diabos! Maldita seja a hora em que eu te dei a minha mão; antes te tivesse dado o pé, e um couce que arrebentasse a ti, a tua mãe e a toda a tua geração passada e por passar. É preciso eu tomar uma resolução. A mana Luísa tem razão; isto é fraqueza. Vou ensinar àquelas víboras! (Diz as últimas palavras caminhando com resolução para a porta; aí aparece Eufrásia e ele recua.)

CENA X

JORGE e EUFRÁSIA.

EUFRÁSIA - Quem é víbora? (Eufrásia caminha para ele, que vai recuando.)

JORGE - Não falo contigo... (Recua.)

EUFRÁSIA, seguindo-o - Quem é víbora?

JORGE, recuando sempre, e encosta-se no bastidor da esquerda --Já disse que não falo contigo!

EUFRÁSIA, junto dele - Então quem é? Sou eu? Fala!

JORGE, querendo mostrar-se forte - Eufrásia!...

EUFRÁSIA - Qual Eufrásia! Sou um raio que te parta!...

JORGE - Retira-te! Olha que te perco o respeito!

EUFRÁSIA, com desprezo - Pedaço de asno!

JORGE - Pedaço de asno? Olha que te... (Faz menção de dar uma bofetada.)

EUFRÁSIA volta para trás, gritando - Minha mãe, minha mãe!

JORGE, seguindo-a - Cala-te, demônio!

EUFRÁSIA, junto à porta - Venha cá!

voltar 12avançar