Já em 1500 a riqueza de água da Mata Atlântica foi objeto de observação. Pero Vaz de Caminha, em sua carta ao Rei D. Manuel, escrevia: "A terra em si é de mui bons ares...As águas são muitas, infindas; em tal maneira é graciosa,que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem".

Baixada do Maciambu, Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (SC)
Atualmente, mais de 100 milhões de brasileiros se beneficiam da água que nasce na Mata Atlântica e que forma diversos rios que abastecem as cidades e metrópoles brasileiras. Além disso, existem milhares nascentes e de pequenos cursos d'água que afloram no interior de seus remanescentes.
Um estudo do WWF (2003) constatou que mais de 30% das 105 maiores cidades do mundo dependem de unidades de conservação para seu abastecimento de água. Seis capitais brasileiras foram analisadas no estudo, sendo cinco na Mata Atlântica: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza. A tendência mundial se confirmou no Brasil, com exceção de Fortaleza, todas as cidades brasileiras pesquisadas dependem em maior ou menor grau de áreas protegidas para o abastecimento.
A Mata Atlântica abriga uma intrincada rede de bacias hidrográficas formadas por rios grandes como o Paraná, o Tietê, o São Francisco, o Doce, o Paraíba do Sul, o Paranapanema e o Ribeira de Iguape. Esta rede toda é importantíssima, não só para o abastecimento humano mas, também para o desenvolvimento de atividades econômicas como a agricultura, a pecuária, a indústria e todo o processo de urbanização do país.
Infelizmente se Pero Vaz de Caminha voltasse hoje ao Brasil, diria que a quantidade de floresta que ele viu já não existe mais e conseqüentemente sem a floresta as águas deixaram de ser infindas.

Cachoeira em Corupá (SC)
Segundo pesquisas realizadas pelo Laboratório de Hidrologia Florestal Walter Emerich, do Instituto Florestal de São Paulo, existe uma relação muito íntima entre a quantidade de água na Mata Atlântica e o estado de conservação da floresta. Essas pesquisas produziram um dado inédito sobre o regime hídrico na região de Cunha(SP): "de toda a chuva que cai na Mata Atlântica, nesse sítio, ao longo de um ano, 70% abastecem as águas dos rios de forma continuada e permanente. Isso significa uma alta produção de água pura. Maior que o aproveitamento da água indicada em estudos realizados na floresta Amazônica, por exemplo, que chega a apenas 50%" (ROCHA e COSTA, 1998).
A floresta auxilia no se chama de regime hídrico permanente. Com seus vários componentes: folhas, galhos, troncos, raízes e solo, age como uma poderosa esponja que retém a água da chuva e a libera ao poucos ajudando a filtrá-la e a infiltrá-la no subsolo alimentando o lençol freático. Com o desmatamento surgem então problemas como a escassez, já enfrentada em muitas das cidades situadas no domínio da Mata Atlântica.
Este também é o principal motivo da necessidade de se preservar e recuperar a Mata Ciliar que é o conjunto de árvores, arbustos, capins, cipós e flores que crescem nas margens dos rios, lagos e nascentes. As áreas nas margens de rios, lagos e nascentes onde ocorrem as matas ciliares são consideradas áreas de preservação permanente pelo Código Florestal Brasileiro.
O nome mata ciliar vem de cílios. Assim como os cílios protegem os olhos, a mata ciliar protege os rios, lagos e nascentes, cobrindo e protegendo o solo, deixando-o fofo, e permitindo que funcione como uma de esponja que absorve a água das chuvas. Com isso, além de regular o ciclo da água, evita as enxurradas. Com suas raízes a mata ciliar evita também a erosão e retém partículas de solo e materiais diversos, que com a chuva iriam acabar assoreando o leito dos rios.
Este conjunto de árvores, com sua sombra e frutos, é muito importante também para a proteção e preservação da biodiversidade da flora e fauna e para o equilíbrio do ecossistema como um todo.
Em toda a Mata Atlântica, muitas matas ciliares ao longo de rios, lagos e nascentes, foram desmatadas e indevidamente utilizadas no passado. As conseqüências desta destruição são sentidas diariamente com o agravamento das secas e também das enchentes, o que torna necessária uma urgente ação de recuperação.
As recomendações urgentes, apontadas pelo estudo do WWF, principalmente para as cidades da Mata Atlântica, são a criação de áreas protegidas em torno de reservatórios e mananciais e o manejo de mananciais que estão fora das áreas protegidas. Embora a legislação restrinja a ocupação ao redor de áreas de mananciais, em São Paulo, por exemplo, há milhares de pessoas habitando a beira de reservatórios como as represas Billings e Guarapiranga. Com a degradação dessas áreas, as companhias de abastecimento são obrigadas a buscar água mais longe, a um custo maior.
O estudo do WWF aponta também dados econômicos para justificar a adoção dessas recomendações, enfatizando que é muito mais barato conservar as florestas nas áreas de mananciais do que construir centros de tratamento mais complexos para purificar a água poluída. A cidade Nova York é citada como exemplo: "há décadas a administração da cidade optou por purificar a água potável filtrando-a naturalmente pelas florestas, a um custo inicial de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão no período de dez anos. É sete vezes mais barato do que os US$ 6 a 8 bilhões que seriam gastos na forma tradicional de tratar e distribuir água potável, mais US$ 300 a 500 milhões anuais em custos operacionais".
Fonte: www.apremavi.com.br