Quem é agricultor sabe que a erosão leva embora a camada mais fértil do solo, aquela terrinha fofa e rica em nutrientes. O agricultor também sabe que para melhorar o pomar de frutas é necessário fazer mudas usando estacas ou sementes das melhores fruteiras, aquelas que são mais sadias e produzem uma boa quantidade de frutos grandes e suculentos.
O que a maioria da população não sabe, é que Mata Atlântica está sofrendo há muitos anos, um outro tipo de erosão, não aquela provocada pela água das chuvas, mas pelo machado e a motosserra. Ao longo da história, a maioria dos agropecuaristas simplesmente eliminaram a maior parte das florestas de suas propriedades, vendendo as madeiras nobres aos madeireiros e permitindo a exploração das áreas remanescentes sem qualquer critério e cuidado.
No Brasil, tradicionalmente o setor madeireiro vem agindo sem planejamento e sem preocupação com sua subsistência no futuro, realizando a exploração florestal sem cuidados e sem observar critérios técnicos e científicos, que garantissem a conservação da biodiversidade e ao mesmo tempo a manutenção de matéria prima no longo prazo. Simplesmente faziam o "corte seletivo" de árvores, cortando todas as que tinham valor comercial e mais de 40 cm de diâmetro.
Nas florestas que sofreram "cortes seletivos" foram retiradas as mais belas, retas e mais perfeitas árvores. Com isso, aos poucos, as melhores árvores matrizes, produtoras de sementes, foram e continuam desaparecendo, da mesma forma que o solo fértil que se perde com a erosão provocada pela água das chuvas.
Este processo de exploração seletiva já ocasionou uma acentuada perda qualitativa em muitos dos remanescentes florestais da Mata Atlântica, de tal modo que "o processo de regeneração natural das florestas pode ficar seriamente comprometido, haja visto o reduzido número de fragmentos florestais primários e/ou em estágios avançados de regeneração, e o comprometedor isolamento dos mesmos" (MEDEIROS, 2002). A exploração destes remanescentes foi realizada de forma predatória, muito acima da capacidade de auto-regeneração destas espécies, de tal modo que em muitos casos restam apenas árvores raquíticas, tortas e finas, comprometendo as dinâmicas do processo de sucessão e regeneração natural das florestas degradadas e das áreas em seu entorno.
Atualmente é cada vez mais difícil encontrar exemplares de árvores de espécies nobres como as canelas, perobas, cedros, araucárias, imbuias, jequitibás, vinháticos, jatobás e muitas outras, capazes de produzir sementes. Por outro lado, está cientificamente comprovado que são necessárias várias populações geneticamente diversas para assegurar a persistência de uma espécie. Neste contexto é oportuno mencionar a observação do Professor Paul Ehrlich: "A causa básica da decomposição da diversidade orgânica não é a exploração ou a maldade humana, mas a destruição de habitats que resulta da expansão das populações humanas e de suas atividades. No momento em que se reconhece que um organismo está em perigo de extinção, geralmente já é tarde demais para salvá-lo".
A erosão genética é tão preocupante que chamou a atenção de cientistas, ambientalistas, representantes de órgãos públicos e outras pessoas que trabalham pela preservação da diversidade biológica. Visando resgatar e resguardar o patrimônio genético das espécies da Mata Atlântica que hoje encontram-se sob forte ameaça de extinção, levaram o problema à discussão no Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Em Maio de 2001 o CONAMA aprovou a Resolução no 278, suspendendo o manejo, para fins comerciais, de todas as espécies ameaçadas de extinção da Mata Atlântica, até que sejam estabelecidos critérios científicos que garantam a sustentabilidade futura dessas espécies quando manejadas. Atualmente só pode ser autorizado, em caráter excepcional e quando não existirem outras espécies na propriedade, o corte de até 15m3 a cada 5 anos para uso na pequena propriedade rural, sem propósitos comerciais diretos ou indiretos.
Com essa decisão do CONAMA, espécies ameaçadas de extinção como a araucária, a canela preta, o sassafrás, a imbuia e outras, ganharam uma chance de continuarem sua perpetuação.
Fonte: www.apremavi.com.br