Você já perdeu totalmente a visibilidade da estrada, dirigindo à noite, quando o motorista que vinha em sentido contrário acendeu o farol alto? Você Já percebeu aquelas bolhas luminosas que cobrem as cidades, quando delas você se aproxima durante uma viagem noturna? Já teve dificuldade para dormir porque uma grande quantidade de luz da rua ou do seu vizinho entrava pela janela do seu quarto? Já notou como o céu das áreas urbanas possui menos estrelas do que o céu de áreas rurais? É claro que sim! Todos nós já passamos, vez ou outra, por algumas dessas situações. Esses fatos são causados pela utilização incorreta da iluminação artificial noturna, que gera a menos conhecida de todas as formas de agressão ao meio ambiente: a Poluição Luminosa.
A Poluição Luminosa é um problema ambiental sério pouco conhecido, que pode ser definida como sendo qualquer efeito adverso causado ao meio ambiente pela luz artificial excessiva ou mal direcionada produzida pelo homem nos centros urbanos, que causa fulgor, prejudicando as condições de visibilidade noturna. As luminárias mais utilizadas em iluminação pública são ineficientes e mal projetadas, emitindo um fluxo de até 60% de luz horizontalmente e para cima. A causa está no formato das luminárias, que não costumam abrigar corretamente suas lâmpadas e no ângulo de inclinação das mesmas. São os postes da iluminação das ruas, os das praças, em forma de globo esférico, os refletores das quadras de esportes, estacionamentos, canteiros de obras, clubes, aeroportos, etc.. O desperdício é denunciado de modo marcante pela enorme bolha luminosa que cobre as grandes e médias cidades. Essa luz extra em nada contribui para a iluminação noturna útil, uma vez que a única luz que realmente importa é aquela dirigida para o solo.
Além do prejuízo à Natureza, a luz que sai lateralmente das luminárias atinge nossos olhos e faz diminuir as nossas pupilas, causando-nos um ofuscamento e diminuindo nossa visibilidade noturna, que já foi responsável por muitas mortes no mundo. A iluminação mal projetada e excessiva, ao contrário do que julga o senso comum, não traz segurança e visibilidade. Esse brilho irritante confunde os pássaros e afeta as plantas.
A poluição luminosa ocorre sem necessidade, é um problema de solução tecnicamente simples e está causando enormes danos a um bem que é de todos. A solução do problema NÂO é apagar a luz das cidades, mas cuidar para que a iluminemos corretamente, enviando luz apenas para as áreas que queremos e precisamos enxergar, sem desperdício de luz e energia. Se cada dispositivo de iluminação fosse criado com o cuidado de aproveitar toda a luz gerada, dirigindo-a para baixo, os níveis de poluição luminosa cairiam mais de 80 por cento.
Pense no incômodo imposto à população com o horário de verão e com as sugestões para que se evite o consumo exagerado de energia elétrica, principalmente no horário do pico de demanda. Ouvimos dizer que não devemos tomar banho quente nem abrir a porta da geladeira por muito tempo, mas quando vamos lá fora e olhamos para as luzes da cidade, vemos todo o nosso sacrifício indo em direção ao espaço, sem maiores explicações. E talvez a maioria das pessoas não perceba isso, mas jogar luz para cima não aumenta a segurança de ninguém nem melhora a visibilidades das nossas ruas. É apenas a mesma coisa que queimar dinheiro, que em muitos casos é público.
O estado atual da iluminação pública é lamentável, principalmente depois que as lâmpadas de mercúrio começaram a ser substituídas pelas de sódio, amarelas, em luminárias dispersivas, aumentando muito o desperdício de luz. Tudo se dá por desconhecimento, descuido, falta de interesse ou surdez aos apelos desesperados daqueles que não se conformam com a vitória da ignorância, do descaso e do desperdício sobre a inteligência, o respeito e a economia. O que infelizmente ocorre é que lançamos uma quantidade enorme de luz na direção oposta às áreas que queremos iluminar à noite.
Na iluminação privada, os erros são causados por inúmeros modelos de luminárias, algumas delas apontadas verticalmente para cima. Vários são os casos de incômodo causado a quem mora perto dessas fontes geradoras de luz mal direcionada.
A meta dessa campanha é mostrar à todos que é possível iluminar melhor e mais barato, concentrando a luz em sua área de influência.
Segundo Orlando Rodrigues Ferreira, Diretor Geral do Observatório Nacional, “em conformidade e com algumas estimativas, algo em torno de 50% até 60% da energia elétrica gerada é desperdiçada para o céu forma de energia luminosa. Portanto, com o redimensionamento de luminárias e lâmpadas será possível aos cofres públicos uma economia imediata deste percentual em termos financeiros, além de consideráveis benefícios ambientais, como não se necessitará construírem novas e dispendiosas hidrelétricas, pois as atuais existentes passarão a ter seu potencial de produção utilizado sem perdas; não será mais necessário o alagamento de grandes áreas para represamentos de águas; não será mais necessário efetuar as caríssimas desapropriações de terras, com isso impedindo o processo de migração populacional e permitindo com que comunidades venham a desenvolver mais adequadamente; matas serão preservadas e suas significantes reservas de flora e fauna; as noites serão mais límpidas, possibilitando, destarte, uma maior dedicação às pesquisas astronômicas, etc.. Sem contar os benefícios sociais à questão, tais como geração de empregos pelo estabelecimento de novas indústrias, a estabilidade econômica e social dos municípios, avanço da consciência ética e social das populações envolvidas e muito mais.”
Precisamos nos unir para exigir das autoridades o respeito a que temos direito. Até quando suportaremos ouvir um governo falar em economia de energia e ao mesmo tempo promover o desperdício irracional em nossas cidades?
Há milhões de pessoas no mundo que começam a compreender que não se pode destruir o Planeta Terra em nome do lucro, como estamos fazendo hoje, sob o risco de nada deixarmos para as futuras gerações. Muitos estão acordando para os novos tempos que se aproximam e, por isso, começam a exigir mais respeito à Natureza. Estes percebem que pessoas inescrupulosas estão transformando a Terra em um verdadeiro inferno, por motivos puramente egoístas. Se você nada fizer, estará concordando com os destruidores. Portanto, reaja! Junte-se a nós nesta campanha por cidades melhores, bem planejadas, nas quais seja garantido o espaço existencial de cada um.
Somos responsáveis em garantir a generosidade e a beleza para as atuais a as futuras gerações. Podemos e devemos evitar atrocidades ecológicas, economia energética, obter uma melhor qualidade de vida e assegurar aos nossos filhos o direito de contemplar a beleza de céu repleto de estrelas, e darmos continuidade à cultura de anos, séculos, milênios, que os homens olham as estrelas, e investigam seus segredos. Não existe beleza comparável a uma noite estrelada!
A luz mal dirigida se converte em algo realmente nocivo, causando danos econômicos, sociais e ambientais. Conforme itens subseqüentes:
Econômico: Abuso dos recursos naturais, consumo excessivo de combustíveis fósseis, energia e recursos naturais, além do que realmente é necessário.
Social: A luz intrusa entra de maneira indesejada pelas janelas das casas. É causadora de fadiga, insônia e estresse, colocando em risco as condições de sossego público, além de condutores de veículos, pois a luz potente pode causar cegueira temporária e inutiliza a paisagem noturna, resguardada pela Constituição Federal que abraçou a defesa da paisagem como parte do meio ambiente humano sadio.
Há de se considerar que os efeitos sobre a fauna e flora noturna, o ecossistema em geral, são visíveis, causando ainda resultados que se refletem na sociedade como a possível maior proliferação de cupins, moscas e pombos nas áreas urbanas.
E ainda existe o trabalho na área da Astronomia, o qual depende da observação do céu noturno, que é a razão da existência dos astrônomos, que deslumbra os apaixonados e inspira os poetas, mas que está sob a ameaça de desaparecer, porque o crescimento dos centros urbanos vem ofuscando sua beleza a tal ponto que há lugares onde poucas estrelas se mostram. Isto é difusão inútil de luz na atmosfera.
Não existe beleza comparável a uma noite estrelada. Anos, séculos, milênios, gerações de homens olhando as estrelas, investigando seus segredos. A contemplação do céu foi um dos motores da história da humanidade tal como o conhecemos. Fica uma pergunta que não quer calar: será que nossos filhos, netos e as gerações que estão por vir terão o mesmo direito de contemplar o céu noturno com sua infinita beleza? Infelizmente não! Com a modernidade essa beleza tem desaparecido. Hoje, a maioria das crianças cresce sem o prazer de parar e ver as estrelas. O desfrute dessa beleza está sendo alterado nas últimas décadas pela poluição luminosa. A luz que em aparência é algo limpo e bom, se mal dirigida se converte em algo realmente nocivo ao meio ambiente, alterando de forma significativa o equilíbrio natural dos animais de vida noturna, poluindo a atmosfera, e ainda, prejudicando a paisagem noturna, tornando os objetos celestes mais belos invisíveis, privando não só o estudo de astrônomos, bem como todos aqueles que querem usufruir a visão das estrelas.
Ambiental: A iluminação noturna também afeta os animais noturnos e diurnos. A flora também tem um ciclo natural que pode ser drasticamente afetado pela invasão luminosa. Uma rápida investigação acerca do assunto revela que alguns animais diurnos podem ser beneficiados pela extensão de horário, outros têm o seu sono prejudicado e sua sobrevivência afetada. Alguns animais de hábito noturno são afetados por precisarem da escuridão para a sua estratégia de vida, outros tiram partido da luz artificial para estender sua reprodução.
É inegável o efeito da poluição noturna sobre a biodiversidade. Porém, por se tratar de uma fonte de poluição pouco debatida, infelizmente ainda não é considerada em toda sua dimensão e portanto é pouco valorada. As aves experimentam uma série de alterações, algumas delas morrem por conseqüência da desorientação que sofrem por se sentirem atraídas por um excesso de luz artificial.
A iluminação inadequada usada de forma intensa está se refletindo de forma nociva ao ecossistema: alterando o fotoperíodo de plantas, prolongando a fotossíntese induzida pela luz artificial; atraindo espécies, levando à diminuição do número de indivíduos; desequilibrando as espécies, já que algumas são cegas a certa longitude de onda de luz e outras não, assim as predadoras podem prosperar enquanto se extinguem as depredadas; diminuição de insetos, alterando a polinização das plantas; alterando os ciclos do plâncton marinho, afetando a alimentação das outras espécies marinhas que habitam ao redor da orla marinha; criando barreiras visuais que restringirão a possibilidade de circulação de pequenos mamíferos; desnorteando espécies de aves migratórias, alterando os percursos tradicionais, ainda colaborando para que os pássaros fujam das cidades assustados com os focos luminosos; causando mortalidade de aves que perdem a orientação ou chocam-se com obstáculos devido ao excesso de luz, ou, atraídas, pode ocorrer que sobrevoem sem parar em torno da luz até caírem pelo cansaço. Enviar sinais falsos para algumas espécies, como as tartarugas marinhas que, quando da eclosão dos ovos podem ser atraídas em direção da orla iluminada e não pelo espelho de água; alterar os ciclos biológicos, levando a distúrbios comportamentais de algumas espécies. Outra espécie afetada pela luz artificial são os insetos, cuja importância é mister, dado o papel que ocupam dentro da cadeia alimentar. Muitos animais e insetos usam a luz como um meio de orientação, uma bússola interna. Valeram-se desse meio durante milhões de anos, enquanto a luz elétrica é usada há pouco mais de cem anos. Ainda não tiveram tempo de se adaptar a esse novo fenômeno humano.
Além dos danos causados à biodiversidade, a poluição luminosa provoca também danos na atmosfera, entre outros. O uso de luminárias mal projetadas provoca emissão de substâncias contaminantes na atmosfera. Ainda, ao se produzir eletricidade, está se gerando contaminação, já que a produção de energia elétrica gera CO2, que em excesso favorece o cambio climático. Portanto o que se pretende é que se diminua o uso inadequado, excessivo e inútil.
A lâmpada fluorescente de mercúrio, tão utilizada, é extremamente nociva. Segundo Carolina Valadares, da Radiobrás, “O principal motivo que exige a descontaminação de lâmpadas fluorescentes é a possibilidade do mercúrio do interior da lâmpada ser inalado pelo ser humano e causar efeitos desastrosos ao sistema nervoso. O metal pode ainda chegar ao homem por outras vias. Se as lâmpadas forem descartadas impropriamente na natureza, primeiramente o metal contaminará o solo, chegará aos cursos de água e alcançará a cadeia alimentar”.
Herbert França, da mesma Radiobrás, destaca que “Quando quebradas, elas liberam vapor de mercúrio que, inalado, pode se depositar no organismo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a legislação nacional estimam em 33 microgramas de mercúrio por grama de creatinina urinária o limite de tolerância biológica para o ser humano.
Todavia, a inalação não é a única forma de contaminação pelo vapor de mercúrio. Uma vez liberado, este elemento vai se depositando no solo, rios, lençóis freáticos, terminando por alcançar a cadeia alimentar, tendo como depósito final os seres humanos. O descarte sistemático dessas lâmpadas em aterros, sem a descontaminação e sem cuidados de armazenamento, eleva para níveis preocupantes a quantidade desse elemento químico no meio ambiente.
Nos EUA, estima-se que aproximadamente um milhão de aves atraídas pela luz morrem pelo impacto contra vidros ou por exaustão após voarem incessantemente em volta da luz pela qual foram atraídas. O fenômeno se dá em decorrência do excesso de luz artificial desnecessária provocado pelos edifícios fortemente iluminados.
Amantes das aves lançaram uma campanha para salvar a vida de milhares de aves que atravessam as cidades norte-americanas na sua migração anual para suas zonas de procriação. Voluntários pediram aos donos, gerentes e inquilinos de edifícios localizados na linha de vôo norte-sul para manterem as luzes apagadas à noite. Os resultados dessa campanha foram extremamente satisfatórios. Chicago já conta com 30 arranha-céus de grande dimensão que abraçaram a campanha e mantêm as luzes desnecessárias apagadas à noite.
Segundo Ken Wysocki, antigo presidente da Chicago Ornithological Society, em apenas 2 anos de programa, a mortalidade de aves foi reduzida em aproximadamente 80%. A solução desse problema ambiental foi simples, bastou apagar a luz desnecessária e o problema se reduziu significativamente.
Na ilhas canárias, podemos citar outro caso que obteve êxito: as pardelas cenicientas, conhecidas no Brasil como pardelas-cinzas. Trata-se de ave marinha que vive durante todo o ano no oceano Atlântico e no mar Mediterrâneo. Essas aves migradoras vão desde as Canárias até Argentina, Cabo de Boa Esperança, Namíbia, e Brasil. A contaminação luminosa nas edificações da costa do mar se tornou um obstáculo para elas, já que as crias dessas aves oceânicas são atraídas pela luz artificial. Os filhotes de pardelas que nunca viram o mar, quando saem confundem a luz com a linha branca das ondas do mar. Aproximadamente 2.000 pardelas cenicientas tiveram que ser tratadas por conseqüência do excesso de luz artificial em Gran Canária e Tenerife, onde 5% morreram. Por isso, biólogos, estudantes e amigos da natureza fundaram uma associação “Amigos de la Pardela Cenicienta” para conscientização social.
Atualmente nas ilhas La Palma e Tenerife é obrigatório apagar a luz ornamental a partir da meia noite. A redução é paulatina. Apesar de não existir nenhum regime sancionador a respeito, os critérios se cumprem em torno de 80% dos casos. Com isso a ilha de La Palma ficou afastada do problema da contaminação luminosa e Tenerife reduziu amplamente seus índices. Tal êxito se refletiu não só na vida das pardelas-cinzas, como também, na qualidade de vida de todos cidadãos, no estudo dos astrônomos, já que lá existe um grande observatório, e ainda ocasionou economia energética.
No Brasil, um caso de dano ambiental ocasionado pela Poluição Luminosa, causou repercussão internacional: o caso das tartarugas marinhas. Quando as tartarugas nascem, muitas são atraídas pela luz emanada pelo reflexo do mar. Mas, com a modernidade do homem, essa bússola natural foi prejudicada. A luz artificial se transformou numa ameaça grave. “A presença de luzes fortes próximas aos locais de postura dos ovos afugenta as tartarugas que chegam para a desova e desorienta os filhotes. Atraídas pelas luzes, as pequenas tartarugas se afastam do mar e acabam indo parar em estradas, onde correm riscos de atropelamento, ou em áreas de restinga, onde podem morrer desidratadas. Entre 1997 e 2001, a ONG Projeto Amiga Tartaruga registrou a morte de mais de 5.500 filhotes por atropelamento na orla norte de Porto Seguro. Hoje há uma portaria do Ibama (nº 11 de 30/1/95) e uma Lei Estadual (nº 7034, de 13/12/97) que restringem a iluminação em locais de notificação de tartarugas marinhas. Nessas áreas devem-se utilizar luminárias especialmente desenhadas para que a luz não incida diretamente sobre a praia. No extremo sul da Bahia, a legislação protege especialmente o trecho do litoral entre Prado e Ponta do Corumbau. Essa região é hoje legalmente considerada como área Zero Lux, onde não é permitida nenhuma iluminação na orla. Nas demais praias da região, que registram a presença de ninhos de tartarugas, a iluminação deve atender a critérios técnicos estabelecidos pelo Ibama.”
A equipe Amiga Tartaruga realizou campanha contra a Poluição Luminosa, buscando diminuir a potência das lâmpadas, e obteve êxito, conseguiu realizar a troca das lâmpadas que iluminam a orla norte de Porto Seguro. A campanha contou com apóio do rei Juan Carlos, da Espanha, que, após apelo da ONG, intercedeu a nosso favor, conseguindo que o grupo espanhol Iberdroala, que atua na região através da COELBA(9), tomasse providências. As lâmpadas de vapor de sódio de 400 watts foram trocadas por outras de 250 e se abaixou a inclinação das luminárias nos trechos onde foram detectados os atropelamentos de tartarugas. O IBAMA vem tomando as devidas providências, o projeto está tendo o êxito merecido. Como podemos observar no trecho da organização Base de Dados Tropical:
“A iluminação artificial nas ruas, avenidas, estradas, casas e bares próximos às praias de desova, ou até mesmo nas próprias praias, é uma das atuais ameaças às tartarugas marinhas. É geralmente durante a noite, com a temperatura da areia mais baixa, que as fêmeas sobem à praia para desovar. E é também quando os filhotes entram em maior atividade e saem dos ninhos. As fêmeas evitam sair do mar para desovar nestas praias iluminadas pois a iluminação artificial interfere na orientação para o retorno ao mar. Para os filhotes, recém saídos do ninho, a ameaça é ainda maior: eles se desorientam e seguem as luzes artificiais, mais fortes que a luz natural refletida no mar e não conseguem alcançar o mar. Ofuscados, atravessam as estradas com o risco de serem atropelados ou se perderem e podem ficar girando por horas em torno dos postes, até que sejam predados ou morram com os raios intensos do Sol ao amanhecer.
O Projeto TAMAR vem desenvolvendo e testando anteparos para postes de luz que possam amenizar a incidência de luz com as companhias de eletricidade de alguns estados.
Qualquer fonte de iluminação que ocasione intensidade luminosa superior a Zero Lux, em uma faixa de praia da maré mais baixa até 50 metros acima da linha da maré mais alta do ano, nas regiões de desova, está proibida pela Portaria do IBAMA No 11, de 1995, e pela Lei Estadual (Bahia) No 7034, de 1997. A Portaria do IBAMA inclui as praias desde Farol de São Tomé, no Rio de Janeiro, até o Estado do Espírito Santo; norte do Espírito Santo; sul da Bahia; praias do Farol de Itapuan, em Salvador, até Ponta dos Mangues, no Estado de Sergipe; de Pirambu (Sergipe) até Penedo, no Estado de Alagoas; praias de Fernando de Noronha e a Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte. A lei estadual cobre desde a divisa com o Espírito Santo até o Rio Corumbau e do Farol de Itapuan até a divisa com Sergipe.”(10)
A troca das lâmpadas não prejudicou a iluminação das pistas e vai salvar a vida de milhares de tartarugas. Agora as tartarugas poderão voltar para desovar no mesmo ponto onde nasceram. Esta é uma vitória brasileira na luta pela proteção da biodiversidade.
Fonte: www.revistamacrocosmo.com
A poluição luminosa pode ser definida como sendo qualquer efeito adverso causado ao meio ambiente pela luz artificial excessiva ou mal direcionada.
Um desses efeitos, que prejudica ou mesmo impossibilita totalmente o trabalho dos astrônomos, é o fulgor do céu noturno, percebido principalmente sobre as cidades, mas não se limitando a essas áreas, já que a interferência que algumas aglomerações urbanas causam pode ser notada a centenas de quilômetros de distância. E não há quem não tenha percebido a diferença entre o aspecto do céu noturno urbano e o daquele que se pode ver a partir de regiões afastadas, ainda primitivas, sem iluminação artificial.
Mas antes que você comece a imaginar que os astrônomos querem apagar todas as lâmpadas das cidades, deixando tudo e todos na mais completa escuridão durante a noite, para que eles possam ver as estrelas, é bom saber que a principal causa da poluição luminosa é o desperdício de luz. Portanto, reduzir os seus efeitos negativos significa economizar luz, energia elétrica e muitos bilhões de dólares por ano em todo o mundo. Assim, não precisamos apagar a cidade, mas cuidar para que a iluminemos corretamente, enviando luz apenas para as áreas que queremos enxergar.
Fazendo um levantamento da iluminação artificial noturna em nossas cidades, podemos perceber facilmente o enorme desperdício de luz causado por luminárias que lançam grande parte de sua luz para cima, paralelamente ao solo ou para além da área útil. São os postes da iluminação das ruas, os das praças, em forma de globo esférico, os refletores das quadras de esportes, estacionamentos, canteiros de obras, clubes, aeroportos, etc. Se cada dispositivo de iluminação fosse criado com o cuidado de aproveitar toda a luz gerada, dirigindo-a para baixo, os níveis de poluição luminosa cairiam mais de 80 por cento.
Pense no incômodo imposto à população com o horário de verão e com as sugestões para que se evite o consumo exagerado de energia elétrica, principalmente no horário do pico de demanda. Ouvimos dizer que não devemos tomar banho quente nem abrir a porta da geladeira por muito tempo, mas, quando vamos lá fora e olhamos para as luzes da cidade, vemos todo o nosso sacrifício indo em direção ao espaço sideral, sem maiores explicações. E talvez a maioria das pessoas não perceba isso, mas jogar luz para cima não aumenta a segurança de ninguém nem melhora a visibilidades das nossas ruas. É apenas a mesma coisa que queimar dinheiro, que em muitos casos é público.
Poupar energia é importante para o País, mas, se o povo vai contribuir com a sua cota de sacrifício, ele também espera ver mais competência técnica nos projetos das luminárias externas utilizadas à noite. Não é mais possível fingir que o problema não existe nem querer desviar a atenção do povo com frases que o induzam a acreditar que os astrônomos querem ruas escuras. O que estamos propondo é apenas a utilização racional das energias elétrica e luminosa, principalmente porque sabemos que nos lugares onde o problema da poluição luminosa foi tratado com a atenção que merece, as vias públicas ficaram mais visíveis, o ofuscamento foi drasticamente reduzido e uma grande economia foi obtida.
No Brasil, mesmo naqueles locais onde algumas leis foram aprovadas para evitar o fechamento de observatórios astronômicos, o descaso e o desrespeito ao meio ambiente imperam sem controle. Há casos de áreas particulares cujos proprietários parecem fazer questão de inviabilizar o trabalho dos cientistas, mesmo sabendo que uma iluminação correta em nada prejudicaria a visibilidade e a segurança de suas propriedades. E é a impunidade que gera esse tipo de distorção. Os proprietários dessas áreas se sentem com o direito de fazer o que querem, enquanto, por outro lado, nenhuma autoridade deve querer perder tempo com isso, já que há problemas mais importantes esperando por atendimento.
Aos astrônomos só resta tentar conscientizar a população, solicitando seu apoio. Você pode ajudar, se não poluir o céu com luz desperdiçada em sua própria residência, se protestar quando sentir o incômodo causado pela poluição luminosa, seja por ofuscamento, invasão de luz para dentro de sua propriedade, ou simplesmente porque não consegue ver o céu, cuja beleza é um direito de todos. Você pode orientar alguém sobre o modo correto de iluminar, evitando, por exemplo, que uma quadra de esportes de um vizinho jogue fora a metade da luz gerada. Você também pode tentar evitar que os responsáveis pela iluminação pública usem o nosso dinheiro suado para lançar luz diretamente para cima e depois ainda venham falar em economia ou racionamento de energia, o que significa que é o povo, como sempre, quem vai pagar o pato.
Por enquanto nossa campanha nada conseguiu em termos práticos, mas estamos fazendo muito barulho, mostrando os erros que não podem continuar. Esperamos que, com o passar do tempo, muitas pessoas venham a ficar conscientes sobre mais esse problema urbano, até que a opinião pública exija providências das autoridades responsáveis no sentido de resolvê-lo e de assegurar o respeito ao céu noturno através de leis ambientais mais abrangentes.
O estado atual da iluminação pública é lamentável, principalmente depois que as lâmpadas de mercúrio começaram a ser substituídas pelas de sódio, amarelas, em luminárias dispersivas, aumentando muito o desperdício de luz. Mas ainda temos esperança de que alguma coisa mude para melhor. Se isto acontecer, estaremos também aqui, elogiando.
Há milhões de pessoas no mundo que começam a compreender que não se pode destruir o Planeta em nome do lucro, como estamos fazendo hoje, sob o risco de nada deixarmos para as futuras gerações. Muitos estão acordando para os novos tempos que se aproximam e, por isso, começam a exigir mais respeito à Natureza. Estes percebem que pessoas inescrupulosas estão transformando a Terra em um verdadeiro inferno, por motivos puramente egoístas. Se você nada fizer, estará concordando com os destruidores. Portanto, reaja! Junte-se a nós nesta campanha por cidades melhores, bem planejadas, nas quais seja garantido o espaço existencial de cada um.
Iluminar uma área corretamente é tarefa que deveria ser deixada para os técnicos especializados. O que se vê, na imensa maioria dos locais que recebem iluminação artificial noturna, hoje em dia, é uma demonstração de total desconhecimento dos princípios mais elementares da física, da matemática, da astronomia, da economia, da biologia e da ecologia. Essa falta de atenção vem criando um problema urbano do qual poucos têm conhecimento: a iluminação intrusa, que é uma das formas de poluição luminosa.
A luz é considerada intrusa quando ultrapassa os limites da área a ser iluminada. Ela penetra através das janelas de nossas casas, atinge nossos olhos e nos ofusca em nossa propriedade, violando nossos direitos constitucionais. Ela nos causa incômodos como a insônia, nos tira a visão das estrelas e provoca acidentes fatais nas rodovias. Ela só continua existindo porque ficamos em silêncio, supondo que nada pode ser feito para evitá-la.
Essa luz inútil e prejudicial é gerada por luminárias dispersivas de todos os tipos, utilizadas na iluminação pública, nas quadras de esportes, nos jardins de vizinhos, nas fachadas de prédios, na iluminação de cartazes, etc. Algumas vezes causado pela instalação incorreta de boas luminárias, esse fluxo de luz mal direcionado representa a perda de uma enorme quantidade de energia, além de causar problemas ambientais.
É preciso mostrar a todos que as soluções para esse transtorno não significam uma redução do nível da iluminação útil. Elas consistem apenas no corte daquela luz que não está sendo utilizada, por partir na direção errada. Em muitos casos, o redirecionamento correto do fluxo faz aumentar a iluminação da área a tal ponto que as lâmpadas originais podem ser substituídas por lâmpadas mais fracas, produzindo o mesmo efeito de um modo mais econômico.
Explicar a um vizinho que ele não tem o direito de iluminar a minha casa não é tarefa fácil. Em geral, a primeira coisa que ele vai pensar é que estou querendo que ele fique no escuro. Ele pode sentir também que estou limitando sua liberdade de fazer o que ele quiser em sua propriedade. Entretanto, o fluxo de luz que vem da casa dele para a minha é uma invasão que pode ser um grande incômodo. Como esse fluxo não tem nenhuma utilidade para o meu vizinho, ele tem o dever de eliminá-lo. Trata-se aqui de economia, competência técnica e respeito ao meio ambiente e aos direitos dos outros, trazendo como benefício direto uma iluminação não agressiva e melhor também para o seu proprietário.
A iluminação pública de baixa qualidade é mais difícil de ser eliminada. Os postes das ruas costumam ter luminárias muito dispersivas, que enviam luz diretamente para dentro de nossas propriedades. Nesse caso, fica muito difícil reclamar, já que os políticos são, em geral, muito distantes do povo. Os técnicos responsáveis pela fabricação e pela instalação das luminárias também não se mostram interessados em colaborar porque sua preocupação é ter garantida a venda do produto. Enquanto as prefeituras das cidades comprarem suas luminárias poluentes, eles vão continuar fabricando. A única saída está numa exigência de qualidade para as luminárias cujos fabricantes queiram participar dos processos de licitação abertos pelas prefeituras. Por isso a educação do povo é tão importante. Nenhum político vai querer fazer uma obra de iluminação de péssima qualidade, que desagrade à maioria. Tais obras são feitas hoje, mas poucas pessoas percebem os erros cometidos. Assim, os políticos continuam a aprovar a iluminação dispersiva, principalmente porque ela permite que o eleitor leigo a observe à distância. Quando o povo compreender que a luz diretamente avistada de longe é uma luz desperdiçada, a situação vai mudar.
Ajude a acabar com essa forma de incompetência que agride a Natureza. Instrua seus amigos sobre o problema, denuncie as instalações de iluminação pública incorretas, mostre a todos o desperdício de dinheiro público que isso representa e procure conversar com os políticos e empresários mais próximos, em busca de parceria. O meio ambiente, o futuro da Ciência e o das nossas crianças estão em perigo.

Alguns anos antes do início da instalação das lâmpadas a vapor de sódio em Uberlândia, a emissão de luz para cima já se fazia notar pelo reflexo da luz das lâmpadas a vapor de mercúrio nas nuvens noturnas. Isto significa que o problema não está nas lâmpadas em si, mas nos formatos das luminárias que as abrigam. Estas, em maioria, cumprem a sua função de iluminar bem as nossas áreas públicas e particulares, mas, por descuido de projeto, emitem uma parcela substancial de luz para cima e para muito além das áreas a serem iluminadas. Essa luz que ultrapassa seus limites, além de inútil, causa diversos problemas ambientais.
Esta fotografia, feita a partir do Observatório, mostra o desperdício que apaga as estrelas. É essa luz, emitida diretamente para cima, que não tem utilidade alguma. Pagamos por ela e a jogamos fora, em direção ao espaço sideral e para dentro das casas das pessoas, causando problemas ambientais sem necessidade. A mancha vermelha, de forma oval, que aparece na parte superior da foto, é o fantasma do brilho da luminária de jardim de um vizinho. Essas imagens fantasmas também estragam as fotos de fenômenos astronômicos, que algumas vezes são muito raros.

Esta fotografia registra a passagem do Telescópio Espacial Hubble sobre a região de Uberlândia. A máquina fotográfica captou luz por alguns segundos, gerando uma linha luminosa por onde o satélite passou. A estrela mais brilhante é Canopus e está na parte sudoeste da cidade, ainda não muito afetada pelo desperdício de luz artificial noturna, mas já ameaçada pela expansão urbana. Esta precisa vir acompanhada por uma conscientização para o respeito ao meio ambiente em todos os seus aspectos. Veja a cor amarela das nuvens, iluminadas diretamente pela luz das lâmpadas mais modernas, a vapor de sódio.
Na fotografia astronômica é comum utilizarmos um tempo de exposição mais prolongado, para podermos captar a luz tênue das estrelas que não conseguimos observar a olho nu. Veja o que aconteceu com o céu noturno, e com a paisagem em geral, nesta foto com três minutos de exposição. Parece dia, mas não é. O céu ficou claro porque o filme captou e acumulou a luz que dele vinha, refletida pelo ar numa noite quase sem nuvens. É a triste perda de um patrimônio natural de grande beleza e enorme importância para a Ciência.
Uma única quadra de esportes, em um clube situado no horizonte, a quilômetros de distância do Observatório, mostra bem como o alinhamento dos refletores direcionais está incorreto. Embora a quadra esteja abaixo das luminárias, a luz está subindo a cerca de 45 graus com o plano horizontal. Veja o reflexo, no próprio ar, da luz desperdiçada numa noite de céu impecável para os astrônomos. Isto mostra que o problema da poluição luminosa é causado principalmente porque as pessoas não sabem que ele existe. Elas também não têm consciência de que estão perdendo muito dinheiro, incomodando outras pessoas, inviabilizando projetos de vida e interferindo negativamente com o futuro científico do País. Daí vem a necessidade desta campanha educacional.
Um simples canteiro de obras, que utiliza refletores direcionais mal alinhados, emite luz para cima e a uma grande distância. Suas lâmpadas de brilho forte podem ser vistas do outro lado da cidade ou a partir dos aviões que sobrevoam a região. Uma pequena alteração de baixo custo poderia dirigir toda a luz apenas para a área útil, que ficaria com uma iluminação mais eficiente, não invasiva e esteticamente mais atraente. As pessoas não percebem que o excesso de luz é prejudicial até mesmo para elas próprias. A luz que atinge nossos olhos causa o fechamento de nossas pupilas. É esse ofuscamento que nos atrapalha, reduzindo a visibilidade das áreas que precisamos enxergar. Até mesmo uma criança pode entender isso.
Estas lâmpadas, instaladas na varanda de uma casa vizinha, praticamente não causam poluição luminosa. Sua luz não vai diretamente para cima porque elas estão abrigadas pelo teto. O problema aqui é, quase exclusivamente, a geração de luz intrusa, aquela espalhada para os lados, invadindo as áreas que pertencem às outras pessoas. Veja aqui também as manchas vermelhas, que são os fantasmas das duas lâmpadas. A solução seria um ressalto no teto, para baixo, ao redor da varanda, que serviria como pingadeira. Conversei com meus vizinhos, que são bons amigos e sempre apagam as luzes quando vou fazer fotografias do céu. Eu estava esperando que as minhas árvores ficassem maiores, para impedir que a luz viesse em direção à minha casa, mas, numa atitude inédita e por iniciativa própria, meus vizinhos trocaram as lâmpadas por um novo tipo, cuja luz está agora restrita à sua área de utilidade. Obrigado, vizinhos! Se todos fossem como vocês e respeitassem assim os direitos de seus semelhantes, a nossa cidade não estaria tão poluída como está.
Países do Primeiro Mundo estão solucionando o problema da poluição luminosa, tecnicamente e através de leis modernas. Precisamos da colaboração dos nossos governos, em todos os seus níveis, para que juntos façamos o mesmo no Brasil. Não podemos permitir que o céu noturno seja destruído sem necessidade. É a nossa Ciência que está ameaçada. A dispersão de luz para cima não é prova de progresso, mas atestado de incompetência. Na maioria das vezes, é o nosso dinheiro que vai para o espaço. Queremos leis mais abrangentes, que garantam a preservação de nosso meio ambiente para as futuras gerações!
Roberto F. Silvestre
Fonte: www.silvestre.eng.br
A poluição luminosa, como as outras formas de poluição, resulta da utilização inconsciente e distraída de recursos. Por isso, não só sai do nosso bolso, como o consumo da energia desperdiçada tem como consequência o aumento da poluição ambiental pelas centrais produtoras de energia. E o que é a poluição luminosa? Como a designação de poluição sugere, é quando a iluminação artificial incomoda e prejudica as pessoas, e o ambiente em geral.
A causa mais imediata, é a má concepção e alinhamento dos candeeiros e holofotes: é óbvio que a iluminação é necessária no chão e não no ar. Tracemos uma linha vertical desde o candeeiro até ao chão, e chamemos a essa linha a linha dos 0o. Desta maneira, a linha correspondente à horizontal será a dos 90o. Se um candeeiro deixar sair luz para cima desta linha, essa luz nunca tocará o chão. Além disso, a luz emitida entre os 70o e os 90o, só atinge o solo a distâncias muito grandes e quando lá chega e tão fraca que não ilumina convenientemente.
Ora, se a luz emitida para cima dos 70o não cumpre as suas funções, então pode ser completamente suprimida, que os utilizadores não darão por falta dela. Como na maior parte dos casos os candeeiros emitem cerca de 50% da sua luz nestas direcções, a solução mais eficaz está no desenho de uma cobertura da lâmpada que reflita completamente toda a luz acima dos 70o e a redireccione para o solo. Assim, e mantendo a mesma lâmpada, consegue-se duplicar a iluminação do solo. Inversamente, para manter o mesmo nível de iluminação podemos comprar uma lâmpada de metade da capacidade, e poupar a electricidade que de outra forma seria desperdiçada.
Aqueles que estão habituados a olhar para o céu, sabem que basta pôr a mão a tapar uma lâmpada para se conseguir ver muito melhor. E já notaram que ao tapar a luz, os olhos descontraem-se imediatamente e abrem a pupila ou, vice-versa, quando a luz incide directamente nos olhos, a pupila contrai-se e vemos pior nessa direcção. Lembro-me da surpresa que tive quando passando num aldeamento turístico algures no Algarve, reparei que a iluminação estava toda abaixo do joelho e se tinha uma sensação muito agradável, além de se poder ver tudo perfeitamente, incluindo o céu! Este é um exemplo de como quando há cuidado na concepção se podem obter resultados muito melhores do que simplesmente pendurar umas lâmpadas por aí. Uma comparação fácil pode ser feita com as duas fotografias do cometa Hale-Bopp, ambas tiradas com a mesma máquina e a mesma exposição (50mm f/2, 15 seg) e na mesma altura. A diferença é que uma foi tirada no interior de Lisboa (brilho amarelo no céu), e a outra no Cabo Raso (céu escuro de tom azulado). Note-se também a riqueza do céu de fundo e o contraste com o cometa. Esta situação é naturalmente muito preocupante. Por isso, todos os observatórios antigos que foram "engolidos" pelas cidades, transformaram-se em museus ou institutos de investigação.
Os instrumentos foram colocados em locais mais remotos para fugir às luzes das cidades. Mas mesmo nem aí estão a salvo. Observatórios como os das Canárias, Mount Wilson ou Kitt Peak estão ameaçados pelo crescimento urbano e é necessário criar leis específicas para os proteger. Este processo já foi iniciado há vários anos nas Ilhas Canárias, e tem tido sucesso, apesar da luta constante que exige.
Outro factor muito importante é o consumo das lâmpadas usadas. Resumidamente, há no mercado lâmpadas de mercúrio, de sódio de alta pressão (SAP) e de sódio de baixa pressão (SBP). Nas estradas e aldeias é comum encontrar candeeiros com lâmpadas de mercúrio que enviam mais de metade da luz para cima dos 70o. Nas cidades já se vão encontrando lâmpadas SAP. Ora quais são as diferenças entre estas lâmpadas? Ao nível do consumo, são as seguintes: para cada Watt consumido, as lâmpadas de mercúrio emitem 54 lúmens, as SAP 125 lúmens e as SBP 183 lu. Ou seja, as lâmpadas SBP emitem 3,4 vezes mais luz do que as de mercúrio, ou ainda, para uma mesma capacidade de iluminação, gastam 3,4 vezes menos. Agora pergunta-se: qual é o autarca que não preferiria gastar apenas um terço da sua factura com a iluminação pública, e dispôr dos outros dois terços para outras iniciativas?
E o último factor: tanto as lâmpadas de mercúrio como as SAP emitem em largas zonas do espectro, estragando muita da informação que nos chega dos objectos astronómicos, e não deixam as plantas e animais repousar à noite. Mas as lâmpadas SBP apenas emitem numa zona muito restrita do espectro, ocupando pouco mais que uma risca. Torna-se assim muito fácil eliminar o seu efeito, bastando para isso utilizar um filtro que apenas absorva essa luz. Deste modo, toda a informação contida no resto do espectro continua disponível, e a investigação astronómica pode prosseguir. Melhor ainda, qualquer organismo vivo que seja quase insensível a este comprimento de onda terá de facto uma noite escura! Junta-se assim o útil ao agradável, ou melhor, a economia ao agradável. Como vimos, a má iluminação não afecta apenas os observatórios, afecta-nos a todos.
Para além dos maiores custos e dos problemas de segurança, há ainda uma outra consequência que não pode ser contabilizada. Devido à iluminação desregrada, as crianças e jovens dos nossos dias que crescem nas cidades estão impedidas de conhecerem o céu nocturno. Suspeito até que muitas nem saberão o que são estrelas ou não relacionarão as histórias de foguetões, satélites e conquista espacial com as estrelas, a Via Láctea, e o resto do Universo. As consequências culturais deste afastamento não podem ser medidas, mas serão certamente visíveis dentro de alguns anos.
Fonte: www.oal.ul.pt
Olhar o vasto céu estrelado, a abóbada celeste nocturna, eis um privilégio reservado a poucos. Mas quê, já não se pode contemplar os astros, em busca da estrela polar e das constelações distantes, com seus desenhos míticos - perguntará o meu caro leitor?
Na verdade, e em particular para quem vive nas cidades, esse é um exercício cada vez mais difícil... e improdutivo. O céu não nos revela os seus segredos, tornou-se baço e isso por causa da poluição luminosa, tão pouco falada quanto omnipresente. Há quanto tempo não reparamos no brilho das estrelas? As crianças de agora podem mesmo crescer, sem que saibam o que é a beleza do firmamento - num tempo em que tanto se ouve dizer sobre conquistas espaciais e viagens percorrendo o nosso sistema solar e mais longe ainda!
Mas o que vem a ser essa poluição luminosa, que nos tapa a visão maravilhosa dos quadrantes estelares? Afinal de contas, nada mais que os reflexos da luz artificial, da iluminação pública, candeeiros e holofotes disseminados a esmo nas cidades, nas estradas, mesmo já nas áreas rurais, a luz dos anúncios comerciais e a que realça monumentos durante a noite. Habituámo-nos a cidades feéricas, refulgentes de luz e de brilhos - mas o preço disso é não podermos ver o céu.
A luz emitida para o espaço, reflecte-se nas nuvens, em gotículas de água e nas poeiras em suspensão, criando nas camadas atmosféricas um sério obstáculo à observação das estrelas.
As primeiras vítimas deste fenómeno - que é hoje quase universal - foram os astrónomos profissionais e os grandes observatórios, que a pouco e pouco se deslocalizaram para as improváveis paragens onde o céu ainda está livre das tais impurezas luminosas. Por isso mesmo, a pesquisa dos fenómenos estelares mudou-se para locais como o Chile - onde está o Observatório Europeu do Sul - Tenerife, Porto Rico e Austrália, com os seus poderosos rádiotelescópios.
Os amadores das estrelas, esses, procuram sítios mais próximos, porém ainda oferecendo condições mínimas de observação. Se, há poucas décadas, ainda se viam as principais estrelas na noite portuense, com o equipamento adequado, agora há que demandar a serra do Gerês ou o interior alentejano. Em todo o restante território nacional, e sobretudo em volta das áreas urbanas, a prática da astronomia tornou-se quase impossível.
Talvez fosse possível atenuar, ao menos, esta poluição que nos priva de tanta beleza e fascínio (será preciso referir o significado das estrelas, das constelações, na nossa cultura desde há milénios e que ficou na ciência, na literatura, na memória colectiva?).
Bastaria moderar o gosto das autarquias pela iluminação... desnecessária. Um gigantesco desperdício de energia acompanha a poluição do céu. Seria fácil prescindir dos monumentos e edifícios iluminados toda a noite. Melhor ainda os candeeiros de iluminação pública podem ser mais eficientes, se forem concebidos para projectar a luz para onde ela é indispensável (o chão) e não para cima, como vemos em tantos sítios.
As lâmpadas em globo, dizem os entendidos, são totalmente irracionais - espalham a luz em todas as direcções menos para baixo, dissipando luminosidade para o espaço e deixando ruas... às escuras!
Calcula-se que a energia perdida por esses sistemas, numa cidade, se situe entre 25% e 40%. Ou seja, os contribuintes não podem ver a Ursa Maior nem a Cassiopeia, e ainda pagam a factura.
Perdemos o contacto vivido e físico com a terra e a vida silvestre, já nem o céu se avista, o mundo empobrece e uma enorme herança cultural passa para a categoria das coisas de museu.
Será essa a vida que queremos?
Fonte: jn.sapo.pt
Por vezes, parece que os responsáveis pela iluminação pública têm medo do escuro e estão apostados em destruir o céu. Mas este é um mal remediável. Com inteligência e boa vontade, pode iluminar-se melhor as ruas, poupar recursos e não estragar o firmamento.
Há muitos jovens citadinos que nunca viram mais que meia dúzia de estrelas. Para esses jovens, o Mundo é mais pobre. Não fazem ideia do que é o céu estrelado. Não podem perceber o que são constelações, nem como se identifica a estrela polar. Não conseguem perceber como os antigos detectaram a existência de planetas e o que são os signos do Zodíaco.
Para esses jovens, e para muitos outros menos jovens, não é só o céu que é mais pobre. Para eles, há muitas referências culturais que não fazem sentido. Quando lêem "Os Lusíadas", não podem perceber como se vê "de Cassiopeia a fermosura/ E do Orionte o gesto turbulento" ou a surpresa que é ver "as Ursas banharem-se nas águas". Quando lêem Aquilino, não podem imaginar o que sejam as "Três Marias". Quando ouvem falar de "perder o norte", não podem compreender que isso tenha algo a ver com as estrelas. Quando ouvem dizer que "subaru" é a designação japonesa das "Plêiades", essa curiosidade também nada lhes diz, porque não poderão ver esse grupo de estrelas.
Perder o contacto com o céu é perder o contacto com a Natureza e com uma herança cultural que tem muitos milhares de anos. Em grande parte, trata-se de um facto inevitável, tal como é inevitável na cidade deixar de ouvir o despertar dos galos ou desconhecer o ciclo das colheitas. Mas nem todas as percas são irremediáveis e não se deve aceitar que o progresso nos afaste cegamente da Natureza.
A culpa da perca de contacto com o céu reside essencialmente na iluminação artificial que, nas grandes cidades, ofusca por completo quase todas as estrelas. Talvez surpreendentemente, quem mais sofre com isso não são os astrónomos, mas sim os citadinos e o bolso dos contribuintes.
Os astrónomos são inimigos da poluição luminosa, como é natural. No entanto, aprenderam a lidar com o problema. Construíram observatórios em locais ermos e elevados, afastados das luzes das cidades e com condições de observação quase ideais. Construíram mesmo telescópios que não estão sobre a Terra e que, por isso, nem sequer sofrem com a atmosfera. O mais célebre destes é o telescópio espacial Hubble, mas há outros sistemas de observação situados em satélites. Os astrónomos portugueses, por exemplo, efectuam muitas observações fora do país, em observatórios internacionais com condições privilegiadas. Deslocam-se ao Chile, ao Observatório Europeu do Sul, a Tenerife e aos radiotelescópios de Porto Rico ou da Austrália. Por vezes nem precisam de se deslocar, pois recolhem os dados por sistemas remotos, pela Internet e via satélite. Durante todo o século XX a astronomia observacional deslocou-se da vizinhança dos antigos centros urbanos para locais especialmente adaptados à observação.
O mesmo não se passa com os astrónomos amadores, que realizam as suas observações em casa, num quintal ou em descampados onde se deslocam para o efeito. Esses estão constantemente a fugir das luzes da cidade e a tentar contornar os problemas que a poluição luminosa lhes cria. É uma luta constante, pois parece que as autarquias e os serviços públicos têm medo do escuro e estão sempre à procura de mais locais para instalarem candeeiros e holofotes. Há alguns anos, podia-se ir para a praia, à noite. Hoje, muitas praias estão iluminadas por holofotes.
A continuar esta febre, será preciso passar a conduzir dezenas de quilómetros só para poder vislumbrar meia dúzia de estrelas. Mas os astrónomos amadores, precisamente porque têm amor às observações do céu, acabam por conseguir contornar estes problemas. Usam protecções de luz e conseguem reduzir os efeitos da iluminação artificial usando filtros nos seus telescópios. Deslocam-se a sítios isolados, frequentemente no Alentejo, onde as condições de observação são melhores. Muitas vezes, juntam-se em acampamentos, as chamadas astrofestas, para partilharem o céu escuro em segurança. Este ano realizar-se-á nos dias 17 e 18 de Agosto, em Nisa, mais uma Astrofesta nacional, aberta a todos os interessados.
Quem acaba por ser mais prejudicado com a poluição luminosa é o cidadão. Por um lado, porque perde contacto com o firmamento; por outro, porque são os seus impostos que pagam o desperdício de luz. Por todas estas razões, em 1988, nos Estados Unidos, um grupo de astrónomos amadores e cidadãos indiferenciados decidiram enfrentar o problema e constituíram uma associação internacional para combater a poluição luminosa - a IDA, International Dark-Sky Association. Este grupo tem actualmente cerca de dez mil membros, espalhados por muitos países.
À primeira vista, pode parecer uma batalha inglória. Mas será que a poluição luminosa é inevitável? Nem toda, responde a IDA.
O que é, afinal, a poluição luminosa? Em primeiro lugar, é a iluminação indiscriminada de todas as áreas da cidade por candeeiros que se interpõem entre os transeuntes e o céu. A iluminação é necessária, sobretudo por razões de conforto e segurança. Mas será mesmo necessário que todos os locais estejam intensamente iluminados? Junto ao rio Tejo, por exemplo, não bastaria uma iluminação superficial, com candeeiros que incidissem rasteiramente sobre o solo e deixassem ao transeunte algumas zonas do céu para onde pudesse olhar sem ser ofuscado pelos candeeiros?
O ofuscamento directo pelos candeeiros que espalham a luz em todas as direcções é um dos grandes defeitos do sistema de iluminação. Os astrónomos amadores que se preocupam com o problema têm conseguido convencer os responsáveis a proteger alguns candeeiros, de forma a estes apontarem a luz apenas para o solo, onde ela pode ser útil. Mas essas são situações localizadas e não é isso que habitualmente acontece.
Há boa, má e péssima iluminação pública. Há candeeiros que apontam para o solo e concentram a luz onde ela é necessária. Na maioria, contudo, apesar de apontarem para baixo, deixam escapar grande parte da luz para cima. E há ainda os globos completamente irracionais, que espalham a luz em todas as direcções menos para baixo, pois o sistema de suporte não permite que as lâmpadas iluminem directamente o que seria mais necessário. Calcula-se que, numa cidade, a energia global perdida por estes sistemas se situe entre os 20% e os 40%. Quer isto dizer que os contribuintes estão a pagar para se iluminar o céu...
A iluminação dos monumentos é outra fonte de problemas. Não é necessário nem racional que tenham luz durante toda a noite, nem tem qualquer sentido iluminá-los de baixo para cima, fazendo com que a luz se reflicta para o espaço.
A luz que se envia para a atmosfera é responsável por uma poluição luminosa adicional. Ela reflecte-se nas nuvens, em gotículas de água e poeiras em suspensão e cria nas camadas atmosféricas uma barreira à visibilidade das estrelas. A luminosidade que se vê ao longe sobre as cidades torna-se um obstáculo à observação do firmamento. E trata-se de um obstáculo criado, em grande parte, pelo esbanjamento. A poluição luminosa é simultaneamente um desperdício dos recursos públicos, uma barreira à Natureza e um ataque à nossa cultura. Se não lhe pusermos um travão, dentro em breve haverá jovens citadinos que nunca viram uma estrela e que julgarão que as estrelas do céu têm mesmo cinco pontas.
Fonte: www.terrasdemouros.pt