A Capela Sistina é uma capela situada no Palácio Apostólico, residência oficial do Papa na Cidade do Vaticano, erigida entre os anos 1475 e 1483, durante o pontificado do Papa Sisto IV. A Celebração Eucarística de inauguração ocorreu em 15 de Agosto de 1483.

A Criação de Adão de Michelangelo - Clique para ampliar
Era um projeto relativamente simples e despretensioso, no início, destinado ao culto particular dos papas e da alta hierarquia eclesiástica, contudo, fruto de uma época de expansão política e territorial da Santa Sé, viria a tornar-se num dos símbolos desta, tamanha magnificência adquiriu.
A celebridade da capela deve-se, também, ao fato de nela se realizarem os conclaves para a eleição do Sumo Pontífice da Igreja Católica Romana.
A virada do Quattrocento para o Cinquecento foi um dos momentos mais marcantes para a História da arte ocidental, quiçá mundial. A Itália, com epicentro em Florença, deu ao mundo uma tal gama de geniais artistas que parece milagrosa. "Não há como explicar a existência do gênio. É preferível apreciá-lo", diz Gombrich[2], tentando entender por que tantos grandes mestres nasceram no mesmo período.

Sisto IV, por Melozzo da Forlì - Clique para ampliar
A Capela Sistina é um dos locais mais propícios para aquilatar a dimensão desta explosão criativa. Para a sua feitura concorreram os maiores nomes de que dispunha a Itália no momento.
Sisto IV, como parte da política que empreendia para o restabelecimento do prestígio e fortalecimento do papado, convocou a Roma os maiores artistas da Itália. Florença era o centro de excelência até então. De lá e da Úmbria vieram os maiores nomes, fato que deslocaria para Roma a capitalidade cultural, que atingiria o zênite algumas décadas depois, com a eleição de Júlio II para ocupar a Cátedra de São Pedro. Para a história da cultura o significado do projeto e construção da Sistina é imenso, juntamente com as demais obras encomendadas por Sisto IV. Não somente porque marca o deslocamento da capitalidade cultural para Roma, mas por se tratar do ciclo pictórico de maior relevo da Itália no final do século XV, "constituindo além disso um documento inapreciável para observar as virtudes e os limites da pintura do Quattrocento'".
Com exceção de Ghirlandaio, os pintores que nela assinalaram seus talentos avançam com a sua obra o século seguinte e os gênios que mudaram os rumos da pintura no período estão todos estreitamente relacionados com eles: Ghirlandaio fora mestre de Michelangelo; Rafael aprendiz de Perugino; e no atelier de Verrocchio passaram: Leonardo, Perugino e Botticelli.
Mais que um liame entre o Quattrocento e o Cinquecento, esta geração de artistas "representa um ponto final, a constatação de uma crise. Algo que ficará manifesto pelo fato de que tanto Leonardo como Michelangelo construírem em boa medida suas respectivas linguagens sobre a negação da deles"
Baccio Pontelli foi o autor do projeto arquitetônico para a construção da capela. Este florentino era um dos responsáveis pela reformulação e revitalização urbanística que Sisto IV efetuava em Roma, tendo realizado dezenas de obras públicas.

Vista externa da Capela Sistina do alto da Basílica de São Pedro
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No projeto, construído com a supervisão de Giovannino de Dolci entre 1473 e 1484, emprestaram seus dons: Perugino, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli, Signorelli, Pinturicchio, Piero di Cosimo, Bartolomeo della Gatta, Rafael e outros. Coroando este festival, alguns anos depois, um dos maiores gênios artísticos de todos os tempos: Michelangelo Buonarroti.
As dimensões do projeto de Baccio Pontelli tiveram como inspiração as descrições contidas no Antigo Testamento relativas ao Templo de Salomão. A sua forma é retangular medindo 40,93 m de longitude, 13,41 m e largura e 20,70 m de altura. Os numerosos artistas vestiram o seu interior, esculpindo e pintando as suas paredes, transformando-a em um estupendo e célebre lugar conhecido em todo o mundo pelas maravilhosas obras de arte que encerra.
Uma finíssima transenna de mármore, em que trabalharam Mino de Fiesole, Giovanni Dálmata e Andréa Bregno, divide a capela em duas partes desiguais. Os mesmos artistas levaram a cabo a construção do coro.
Internamente, as paredes, divididas por cornijas horizontais, apresentam 3 níveis:
o primeiro nível, junto ao chão em mármore - que, em alguns setores, apresenta o característico marchetado cosmatesco - simula refinadas tapeçarias. No lado direito, próximo à transenna está o coro;
o intermediário é onde figuram os afrescos narrando os episódios da vida de Cristo e de Moisés. A cronologia inicia-se a partir da parede do altar, onde se encontravam, antes da feitura do Juízo Final de Michelangelo, as primeiras cenas e um retábulo de Perugino representando a Virgem da Assunção, a quem foi dedicada a capela.
o nível mais alto, onde estão as pilastras que sustentam os pendentes do teto. Acima da cornija estão situadas as lunettes, entre as quais foram alocadas as imagens dos primeiros papas.
Afrescos inspirados em cenas do Velho e do Novo Testamento decoram as paredes laterais, assim como o teto.

A Entrega das Chaves a São Pedro - Perugino - Clique para ampliar
Precisamente, na parede esquerda, a partir do altar, estão as cenas do Velho Testamento a representar:
1 – Moisés a caminho do Egito e a circuncisão de seus
filhos, obra de Pinturicchio;
2 – Cenas da Vida de Moisés, de Botticelli;
3 – Passagem do Mar Vermelho, de Cosimo Rosselli;
4 – Moisés no Monte Sinai e a Adoração do Bezerro
de Ouro, de Rosselli;
5 – A Punição de Korah, Natan e Abiram, de Botticelli;
6 – A Morte de Moisés, de Lucas Signorelli.
Na parte direita, também a partir do altar, as cenas do Novo Testamento:
1 – O Batismo de Jesus, de Pinturicchio;
2 – Tentação de Cristo e a Purificação do
Leproso, de Botticelli;
3 – Vocação dos Apóstolos, de Ghirlandaio;
4 – Sermão da Montanha, de Rosselli,
5 – A Entrega das Chaves a São Pedro, de Perugino;
6 – A Última Ceia,de Rosselli.
Entre as janelas, seis de cada lado, figuram 24 retratos de papas, pintados
por Botticelli, Ghirlandaio e Fra Diamante. Na abóbada estão
os famosos afrescos de Michelangelo, pintados entre 1508 e 1512. O mesmo artista
realizaria entre os anos de 1535 e 1541, na parede do altar, o Juízo
Final.
Rafael realizou uma série de tapeçarias que, em ocasiões especiais, vestem as paredes.
Botticelli, o talentoso discípulo de Filippino Lippi, exercia seu ofício em Florença. Chamado a Roma por Sisto IV para a decoração da capela, ali executou entre 1481 e 1482 alguns afrescos: A Punição de Korah, Dathan e Abiram; Tentação de Cristo e a Purificação do Leproso e Cenas da Vida de Moisés .
Cenas da Vida de Moisés, afresco medindo 348 cm x 558 cm, é a obra mais complexa. Botticelli teve que se empenhar para entrelaçar os diversos episódios que ali figuram numa narrativa bem articulada [4]. O quadro tem certas irregularidades. É mais apreciado em virtude de detalhes isolados do que pelo conjunto. Os episódios estão narrados no Livro do Êxodo, capítulos II, III e XIII.
A Punição de Korah, medindo 348,5 cm x 570 cm, é a representação da narrativa contida no Livro dos Números, capítulo XVI, onde Korah, subleva 250.000 hebreus contra a autoridade de Moisés e de seu irmão Aarão.
Tentação de Cristo e a Purificação do Leproso, medindo 345,5 cm x 555 cm, ilustra as 3 tentações de Cristo no deserto e a cura do leproso narradas no Evangelho de Mateus, capítulos IV e VIII. No centro do quadro vê-se o edifício do Hospital do Santo Espírito mandado construir por Sisto IV.

Vista do teto da Capela Sistina, projetada por Michelangelo - Clique para
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Na realização desta grandiloqüente obra concorreram amor e ódio. Michelangelo teria feito este trabalho contrariado, convencido que era mais um escultor que um pintor. Encarregado pelo Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, de pintar o teto da capela, julgou ser um conluio de seus rivais para desviá-lo da obra para a qual havia sido chamado a Roma: o mausoléu do Papa. Mas dedicou-se à tarefa e o fez com tanta mestria que praticamente ofuscou as obras primas de seus antecessores na empresa. Os afrescos no teto da Capela Sistina são, de fato, um dos maiores tesouros artísticos da humanidade.

Diagrama - Clique para ampliar
É difícil acreditar que tenha sido obra de um só homem, pois dispensara os assistentes que havia contratado inicialmente, insatisfeito com a produção destes, e que o mesmo ainda encontraria forças para retornar ao local, duas décadas depois, e pintar na parede do altar, sacrificando, inclusive, alguns afrescos de Perugino, o Juízo Final, entre 1535 e 1541, já sob o pontificado de Paulo III.
A superfície da abóbada foi dividida em áreas concebendo-se arquitetonicamente o trabalho de maneira que resultasse numa articulação do espaço entremeado por pilares. Nas áreas triangulares alocou as figuras de profetas e sibilas; nas retangulares, os episódios do Gênesis. Para entender estas últimas deve-se atentar para as que tocam a parede do fundo:
Deus separando a Luz das Trevas;
Deus criando o Sol e a Lua;
Deus separando a terra das águas;
A Criação de Adão;
A Criação de Eva;
O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso;
O Sacrifício de Noé;
O Dilúvio Universal;
Noé Embriagado.

O Juízo Final - Clique para ampliar
A parede do altar foi destinada a conservar a maior pintura na qual Michelangelo dedicou, desde 1534, todo seu engenho e força: o Juízo Final.
O afresco ocupa inteiramente a parede atrás do altar. Para sua execução, duas janelas foram fechadas e algumas pinturas da época de Sisto IV apagadas: os primeiros retratos de papas; a primeira cena da vida de Cristo e a primeira da vida de Moisés. Uma imagem da Virgem da Assunção de Perugino, e os afrescos das duas lunettes, onde o próprio Michelangelo havia pintado os ancestrais de Cristo.
A grandiosidade da personalidade do grande mestre se revela aqui, com toda sua potência, devido sobretudo à concepção e a força de realização da obra.
Aqui, o "Pai do Barroco", como querem alguns, já desnuda de forma marcante os novos rumos que o artista imprimira em sua arte. A liberdade em relação aos cânones anteriores, da chamada Alta Renascença, manifesta-se na rigorosa maneira com que trata a figura humana. O que seria chamado o terribile por seus contemporâneos.
Michelangelo expressa vigorosamente o conceito de Justiça Divina, severa e implacável em relação aos condenados. O Cristo, parte central da composição, é o Juiz dos eleitos que sobem ao Céu por sua direita, enquanto os condenados, abaixo de sua esquerda esperam Caronte e Minos.
A ressurreição dos mortos e os anjos tocando trombetas completam a composição.
No último quartel do século XX, obras empreendidas no teto da Capela Sistina no intuito de recuperar o brilho original do tempo de Michelangelo foram motivo de inúmeras controvérsias.
Restaurações vinham sendo feitas ao longo dos anos, e desde a década de 1960 já se trabalhava nos afrescos mais antigos. O projeto mais audacioso, a cargo do restaurador Gianluigi Colalucci, iniciou-se em 1979 com a limpeza da parede do altar: o Juízo Final, de Michelangelo.
Durante este período a capela esteve fechada ao público que visita o Museu do Vaticano - cerca de 3.000.000 pessoas por ano - só voltando a ser reaberta em 8 de Abril de 1994.
Fonte: pt.wikipedia.org
Se existem lugares em que a arte se aproxima de Deus, um deles é a Capela Sistina. Esta dependência do Palácio do Vaticano, em Roma, atinge o absoluto graças aos magníficos afrescos pintados por Michelangelo, Perugino, Ghirlandaio e Botticelli, entre outros artistas do Renascimento.
Temas do Antigo e do Novo Testamento são o ponto de partida das imagens imortais da Capela. Seu nome é uma homenagem ao Papa Sisto IV, que ordenou a sua construção em 1475. Os trabalhos se prolongaram até 1483 e, atualmente, a Capela é usada para as reuniões do Colégio dos Cardeais destinadas a eleger os novos Papas e também para cerimônias da Semana Santa
O projeto da Capela Sistina, segundo o arquiteto e teórico italiano Giorgio Vasari, foi de Baccio Ponteli; porém, nas notas de pagamento, figura o nome do florentino Giovannini de Dolci. Polêmica à parte, o importante é que externamente o edifício parece uma fortaleza, deixando evidente que a função da Capela seria apenas a de uso interno dos moradores do Palácio do Vaticano, principalmente do Papa.
Ao que tudo indica, as dimensões parecem ter sido inspiradas nas do templo de Salomão, descrito na Bíblia, e o teto abobadado era originariamente desprovido de qualquer adorno pictórico. Ainda sob o papado de Sisto IV, começaram as decorações das paredes. Pedro Perugino, Cosimo Roselli, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, professor de Michelangelo, e Luca Signorelli pintaram quadros da vida de Moisés e de Jesus Cristo, além de uma série de Papas entre as janelas, seis no alto de cada parede lateral.
Entretanto, em maio de 1508, o Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, encomendou a Michelangelo o afresco que hoje decora o teto da Capela. O artista florentino aceitou o desafio pleno de dúvidas, pois considerava-se mais um escultor do que pintor, preferindo os blocos de mármore de Carrara aos pincéis.
A obra foi terminada em outubro de 1512, sendo o resultado de um processo muito doloroso. No plano físico, a posição incômoda em que o artista tinha que pintar, sobre andaimes, todo retorcido e com gotas de tinta prejudicando-lhe a visão, causava cansaço. Além disso, segundo alguns historiadores e críticos de arte, Michelangelo sofria veladas ameaças de que seria substituído pelo jovem pintor Rafael, então em ascensão, se o seu trabalho não agradasse ou não correspondesse aos desejos do Papa.
Mas o resultado foi magnífico, superando qualquer expectativa. Michelangelo representou, seguindo uma ordenação teológica, desde a Criação do Universo até a Embriaguez de Noé, incluindo mais sete episódios do Gênesis, além de sete profetas, cinco sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e quatro cenas nos cantos representando façanhas de heróis do povo de Israel: Davi vencendo Golias, Judite matando Holofernes, Ester denunciando as perseguições de Amã aos judeus e o episódio em que, picados por serpentes venenosas, aqueles que tivessem fé poderiam se curar olhando para uma serpente de bronze, colocada no alto de um poste por Moisés.
O primeiro projeto que começou a ser pintado por Michelangelo, contudo, era bem mais modesto, limitando-se a representações dos 12 Apóstolos. Porém, não demorou muito para o artista perceber que o espaço a ser preenchido exigia uma obra colossal. Com liberdade de criação e assessoria teológica do próprio Júlio II, Michelangelo conseguiu realizar o seu intento, pintando uma síntese da Origem do Universo e do Homem.
Todo o teto é ocupado por uma composição unitária. São 40 m de comprimento e 13 m de largura subdivididos em nove áreas centrais. A disposição das figuras não é aleatória. Um dado nesse sentido é o fato do profeta Jonas estar representado sobre a parede do altar, pois simboliza exatamente Cristo ressuscitado.
Segundo a Bíblia, Jonas ficou três dias no ventre de uma baleia antes de ser lançado à praia de Nínive, cidade em que não queria pregar, enquanto, Jesus, analogamente, ressuscitou no terceiro dia após a sua morte na Cruz. A analogia torna-se ainda mais evidente com a posterior pintura do Juízo Final pelo próprio Michelangelo na parede atrás do altar. No afresco, Cristo ocupa justamente o local central, travando um diálogo teológico com Jonas logo acima. Ambos caracterizam-se pela trindade (ficaram mortos três dias) e pela ressurreição.
Quanto às paredes da Capela, Leão X ordenou a feitura de tapeçarias com cenas envolvendo os Apóstolos. Os desenhos foram realizados por Rafael e o resultado final está hoje conservado na Pinacoteca do Vaticano, tendo sido exposto pela primeira vez na Capela em 1519, no dia de Santo Estevam.
Não se pode deixar ainda de referir ao talento de Michelangelo na execução do Juízo Final. Em 1533, vinte e um anos após a decoração do teto da Capela, Clemente VII, da família Médicis, tradicional pelo poder em Florença e pela prática do mecenato, fez a encomenda ao artista florentino.
Mas nada foi feito até que Paulo III, da família Farnese, no ano seguinte, confirmasse o interesse pela obra, destinada a decorar a enorme parede sobre o altar. Tratava-se de um desafio considerável. A responsabilidade era imensa para um artista que, já com 60 anos, via-se mais uma vez obrigado a deixar o cinzel e o martelo de suas amadas esculturas pelos pincéis abandonados há 20 anos.
Ao contrário do que ocorreu com o teto da Capela, a escolha do tema não foi problemática. Desde o início da Idade Média, o tema do Juízo Final costumava ocupar a parede de entrada das Igrejas. A dificuldade é que o espaço a ser pintado era a parede dos fundos. Isto obrigou Michelangelo a cobrir duas janelas da arquitetura original, dois afrescos de Perugino e figuras que ele mesmo havia realizado quando decorara o teto.
Com essas modificações, a parede ficou 200 m2, vazio preenchido por 391 figuras, muitas em tamanho superior ao natural. Iniciada em 1535, a obra foi concluída em 31 de outubro de 1541. No mesmo dia, Paulo III ordenou a rápida retirada dos andaimes para celebrar um Ofício aos pés do extraordinário trabalho.
Maravilhado, o crítico Vasari, ao olhar aquelas figuras com formas e rostos distorcidos, viu, "pensamentos e emoções que, melhor do que ninguém, ele (Michelangelo) soube pintar". De fato, a obra fugia aos ditames clássicos da Renascença, apontando para o Maneirismo italiano e o posterior Barroco, expressão estilística de seres humanos cada vez mais dilacerados entre o sagrado e o profano.
Por essas enigmáticas coincidências em que a vida imita a arte, um dos maiores representantes do Barroco italiano é exatamente outro pintor também chamado Michelangelo. Todavia, seu sobrenome não era Buonarroti, como o escultor florentino, mas Merisi. Este talentoso artista, porém, ficou mais conhecido como Caravaggio, nome da aldeia de onde a sua família era originária.
Mestre das luzes, mas também talentoso com as formas como o seu homônimo, Caravaggio, expõe em suas telas uma agonia de existir e uma turbulência capazes de gerar obras de arte ímpares. Nessa ótica, Michelangelo e Caravaggio levam o fruidor dos seus trabalhos, sejam esculturas ou pinturas, à transcendência, expondo, seja nos temas, nos traços, nas cores, nas formas ou nas luzes, o sublime e o amargo da existência humana.
Pelo que foi dito até aqui, fica evidente que a Capela Sistina reúne obras magistrais da pintura do Renascimento e do patrimônio artístico da humanidade. Além disso, a temática abordada, seja no teto, no Juízo Final ou nas pinturas laterais, propõe ao observador uma visão cristã do mundo com ampla significação em uma dimensão física e simbólica até então nunca atingida e, sob certos aspectos, insuperável mesmo em nossos dias.
A jornada poética a que estamos convidando o leitor tem o intuito de penetrar em algumas de suas facetas, propiciadas pelas pinturas, pelo passado da Capela e pela sua significação presente. Fatos e figuras históricas, profetas, sibilas e episódios bíblicos são relacionados durante 33 poemas (justamente a idade da morte de Jesus), que não pretendem a perfeição estilística ou formal, mas sim constituir um agradável e educativo mergulho no denso universo da Capela Sistina, um local divino em que a fé, o conhecimento teológico e a sensibilidade se conjugam em mística, misteriosa e sagrada harmonia.
I- Sisto IV
Tio de Júlio II,
iniciou
a construção da Capela Sistina.
Como todo Papa,
era humano.
Dizem que outorgou
a familiares favores e cargos oficiais
e que praticou a simonia,
comprando e vendendo privilégios sagrados.
Poucos se lembram disso.
Foi a Capela que sonhou
que o consagrou
para a eternidade.
Guarda um teto divino,
criado pelo florentino Michelangelo,
um artista com mãos de anjo.
II – Júlio II
Dividia-se entre
a espada e
os livros sagrados.
Mas sabia que a imortalidade
está na arte.
Foi patrono de Michelangelo
e o estimulou a pintar
o teto da Capela Sistina,
obra acima das palavras.
Quem se lembraria do sacerdote
se o escultor florentino
não tivesse
feito
um manto celeste?
III - Michelangelo
Era escultor
e não pintor,
mas pintava
como um escultor.
Suas formas revelam volumes
suas cores são tangíveis.
Não queria pintar,
mas,
no teto da Capela Sistina,
encontrou sua obra épica.
Maravilhou o mundo
sem se satisfazer.
Queria esculpir
a própria vida,
não pintá-la.
IV- Rafael
Rafael pintava como Rafael.
Não era Michelangelo
e,
quando tentou sê-lo,
o pincel desafinou.
Cada um tem seu estilo
e o de Rafael era o do bom moço.
Michelangelo era a agonia
transformada em gente.
Rafael era o clássico domínio
da arte renascentista.
Não se pode pedir de um homem
mais ou menos do que ele é.
Rafael era um homem da Renascença,
um pintor que pincelava poesia.
V- Pintura e escultura
Esculpir
é transformar mármore em gente,
fazendo nascer,
do bloco imenso e pesado,
a figura adormecida.
O escultor
é um parteiro de formas.
Pintar
é transformar cores e traços em gente,
fazendo nascer,
das paredes com rachaduras,
uma alegoria inimaginável.
O pintor
é um poeta das tintas.
VI- O trabalho
.
Não é fácil criar uma alegoria.
Quatro anos são muitas horas
a lidar com tintas.
O pescoço esticado,
as costas curvadas,
os olhos salpicados,
a ansiedade,
o receio de jamais terminar...
A visão prejudicada,
o dedo de Deus
tocando Adão.
Michelangelo fez um teto divino,
vivendo
imerso
no inferno.
VII- A serpente de bronze
O povo escolhido
não raras vezes
deixava Deus de lado.
Adorava bezerros dourados ou outras divindades.
Deus castigava.
Certa vez, enviou a morte na forma de serpentes venenosas.
Moisés foi o responsável pela fabricação do antídoto:
uma serpente de bronze,
colocada no alto de um poste.
Quem a olhasse
se salvava das picadas letais.
Quem insistisse
em desafiar o poder divino,
fenecia
com dores lancinantes.
VIII- A morte de Amã
Foi em Susa, Pérsia,
que a judia Ester
se tornou rainha.
Porém, o maior desafio
era proteger seu povo
de Amã,
o grão-vizir
perseguidor de judeus.
Amã preparou uma forca
para Mardoqueu,
pai adotivo de Éster.
Mas Éster revelou ao rei a trama.
E Amã
foi pendurado
no cadafalso que mandara erguer.
IX- Judite e Holofernes
Os judeus derrotaram os assírios
graças a uma mulher,
uma viúva chamada Judite.
Heroína,
não hesitou
em seduzir
o general rival Holofernes.
Em seguida,
o indefeso militar
conheceu as trevas.
Judite matou
em nome do povo.
Através de um corpo,
salvou
uma nação.
X- David e Golias
As batalhas são sempre desafios.
O grande ameaça o pequeno.
A armadura não respeita a simplicidade.
O vitorioso
nunca espera conhecer uma derrota.
O aparentemente indefeso sabe:
o medo é fatal.
Nas lutas entre rivais desiguais,
o que vale é a psicologia.
Se um ri, convencido da superioridade,
o outro racionaliza as possibilidades.
Assim,
o fraco fica forte
e o forte é derrotado pelo fraco.
A aparência é mais uma vez derrotada.
XI- Sibila líbia
O norte da África
comporta
enigmas e segredos.
A sibila
os decifra.
Não há caos em que ela não penetre.
Não existe luz que não busque atingir.
A sibila
conhece o futuro
e não teme
as conseqüências.
O poder sagrado
não receia
o profano e efêmero
saber temporal.
XII- Sibila pérsica
O Oriente Médio
também tinha
suas mulheres sagradas.
A sibila da Pérsia
dizia
o que muitos sentiam.
O papel dos seres sagrados
é cristalizar
as verdades não manifestas
do inconsciente coletivo.
Todos sabem ou desconfiam
e não verbalizam.
A sibila, por sua vez,
fala
e assombra.
XIII- Sibila cuméia
Perto de Nápoles,
na mais antiga colônia grega na Itália,
havia um importante santuário.
Em sua caverna,
a sibila
realizava profecias.
A cidade de Cumae
abrigava
o santuário e a sibila,
a sibila e o santuário.
Como separar
um local sagrado de sua sacerdotisa?
Pela divina língua da sibila,
são ditas verdades sobre
os homens e seus destinos.
XIV- Sibila eritréia
Local seco e quente,
próximo ao Mar Vermelho,
a Eritréia
era
uma província ao norte
da atual Etiópia.
Lá também havia sibilas,
prontas a vaticinar caminhos
e a desvendar
insondáveis pesadelos.
Cada sibila sabe o que diz,
mas interpretar
a voz da razão
é
um perene desafio.
XV- Sibila délfica
O Oráculo de Delfos,
consagrado
ao solar deus grego Apolo,
era o reduto da sabedoria helênica.
A sibila respondia a todos,
sempre com enigmas.
Assim, Édipo
não percebeu que,
ao tentar fugir da profecia,
caminhava para a confirmação do oráculo.
Quando a verdade não pode ser dita
claramente,
usam-se metáforas.
E nem todos as decifram.
XVI- Jonas
Ficou três dias
no ventre de uma baleia.
E ressurgiu para a vida
na praia em que se negava a pregar.
Tentou fugir de seu destino
mas não pode reagir ao seu chamado.
Como Cristo, demorou três dias
para renascer.
Algo os iguala.
Uma missão precisava ser cumprida.
Quanto antes melhor.
Ressurgindo das trevas,
mostraram:
a luz existe.
Basta crer e lutar por ela.
XVII- Jeremias
Profetizou
a conquista de Judá pela Babilônia
e
a destruição de Jerusalém.
Avisou:
sem fé,
perde-se o sustentáculo
do corpo e da alma;
e
quem deixa de lado a tradição
em nome do vazio existencial
vê os caminhos se estreitarem.
A nitidez se esvai
perante as dúvidas.
Verdades e mentiras se confundem.
As superstições dominam,
ocupando os espaços do inexplicável.
XVIII- Daniel
Esteve cativo na Babilônia,
mas interpretava sonhos e realizava profecias.
Era diferente,
tão diferente
que escapou ileso
da cova dos leões.
Os reis do mundo animal
pouco ou nada puderam perante
o homem diferente,
protegido pelo Deus dos homens.
Salvar-se foi um milagre vivo na memória presente.
Quando novamente
os leões
se ajoelharão
perante um homem?
XIX- Ezequiel
Deportado para a Babilônia,
previu
a destruição de Jerusalém
e
a restauração de Israel.
Suas palavras, frases e raciocínios
clamavam
a santidade de Deus
e
a necessidade da vida espiritual.
Ver adiante
e mais longe
é uma dádiva.
Mas a maior de todas
é saber utiliza-la.
XX- Isaías
Amigo e conselheiro de reis,
condenava as injustiças sociais.
Queria igualdade entre os homens
e
paz entre os povos.
Sabia que Deus
é o Deus de todas as nações.
Se castiga,
é para levar ao arrependimento.
E, ao perdoar,
a divindade atinge sua glória suprema.
É no perdão
que Deus
mostra que é Deus.
É no ato de pedir perdão e no arrependimento
que o homem
se valoriza como homem.
XXI- Joel
Na era messiânica,
a efusão do espírito de Deus
estaria sobre o povo escolhido.
As nações seriam julgadas
de acordo com o seu comportamento.
Ao fazer previsões,
viu que o que ninguém antes vira.
Falou com coragem
e desprendimento.
Não se preocupava em
agradar os poderosos.
Tinha consciência
de que a palavra
não nasceu
para ser usada em vão.
XXII- Zacarias
Prenuncia
o nascimento
de Israel.
A capacidade
de saber antes
também provoca dor.
É um privilégio,
uma benção,
mas contém
o eterno terno receio
de ser um falso profeta.
Na fé, a melhor resposta.
O profeta comunga
com os anjos;
e a palavra de Deus
está em suas palavras.
XXIII- Separação das luz das trevas
As trevas
são a resistência do inconsciente.
Impedem o homem de pensar com clareza.
São o universo dos instintos.
As trevas
são a morada do desconhecido.
Impõem o medo.
São o escuro inverno da mente.
A luz traz
a consciência renovadora,
a busca incessante.
da verdade.
Onde há dúvidas,
procuram-se caminhos.
O horizonte aparece
mesmo para os mais aflitos.
XXIV- Criação do sol, da lua e dos planetas
O universo se expande
em todas as direções.
As espécies são infinitas.
Os limites desaparecem.
Cada criatura
homenageia o Criador a seu modo.
É parte Dele.
Somos todos partes de um todo
nem sempre claramente
compreensível.
Somos todos criaturas,
seres criados por algum motivo.
Foge ao nosso entendimento
o porquê.
Mas isso faz parte
de todo jogo da existência.
XXV- Separação da terra das águas
O solo e o mar
permeiam a vida.
Piso forte e sinto o calor da terra.
Mergulho fundo e sinto o clamor do mar.
Amar o mar e a terra que me cercam
é um destino já escrito.
Temê-los também.
Podem surpreender o menos avisado.
Podem matar o orgulhoso da própria força.
Jamais os esquecemos em sonhos.
Aparecem lentos e serenos,
movediços e revoltos.
Aparecem
e podem
nos fazer desaparecer.
XXVI- Criação de Adão
Com um mero tocar de dedos,
criou-se o sonho
e o medo.
Cada homem passou a vagar
sem saber qual exatamente
o seu sentido.
A viagem vivencial começava
e a jornada não era fácil
como podia parecer.
Os dedos produziram arte, violência e vingança.
De tudo um pouco,
mas,
mesmo na maior das crises,
não se perderam
os olhos verdes da esperança.
XXVII- Criação de Eva
De uma parte do homem,
surge a mulher,
uma parte do todo
ou
o todo de uma parte?
A dúvida resiste
à retórica e aos poetas.
Torna-se uma esfinge
criadora de enigmas
e devoradora de falsidades.
Integrados pelo tempo,
homem e mulher
caminham
pela mesma jornada
vocacionada ao amor.
XXVIII- Tentação e expulsão do Paraíso
O fruto proibido
é muito mais do que um fruto.
É o próprio interdito,
símbolo da pureza perdida.
Perder a fé
é como perder a alma.
Não há mais identidade.
Resta apenas a sombra do que se foi.
O medo desconhecido surge.
O pudor nasce.
A inocência não existia
antes de o homem provar o pecado
da
árvore
proibida.
XXIX- Sacrifício de Noé
Na saída da Arca,
animais domésticos,
aves e répteis
foram mortos
em honra ao Senhor.
Um mundo novo
começava.
Um novo homem
deveria seguir o seu caminho.
Será que
estamos mais puros do que antes?
Será que
o ser humano aprendeu a lição?
Olho ao meu redor
e
duvido.
XXX- O dilúvio
Choveu 40 dias.
A terra foi varrida
com uma intensidade jamais vista.
A água purifica e renova.
Apenas alguns flutuaram,
salvos na Arca sagrada.
A água tudo transforma.
Nada deixa como antes.
Ocorrem mudanças
em nível
físico,
psicológico,
existencial.
A chuva parou.
O mundo era outro.
XXXI- A embriaguez de Noé
Findo o dilúvio,
Noé plantava.
Colhendo uvas,
conhece a embriaguez.
Fica nu,
fora de si,
entusiasmado com o conhecimento de Dionísio.
Há quem olhe,
há quem o cubra.
A bebida
transforma
em impura a pureza dos líquidos.
A bebida
perde
a razão
Baco chega ao êxtase.
Noé alerta:
o homem é falível.
XXXII- Juízo Final
O mais barroco dos renascentistas
deixou sua obra-prima.
As claras distinções entre
Céu e Inferno
perderam os alicerces.
Almas sofridas
preenchem
a vista
e não se sabe bem
quem
se salvou
e quem
foi condenado.
O gesto de Cristo salva
e
condena.
Predomina a incerteza
e
o espanto
do observador:
qual será,
Michelangelo,
o destino da minha alma?
XXXIII- Caravaggio
Chamava-se Michelangelo Merisi.
Nasceu provavelmente em Milão,
mas sua família era da aldeia de Caravaggio.
Daí o nome que o consagrou.
Tinha o talento de Michelangelo,
seu senso de observação
e intensidade dramática.
Entretanto,
preferiu a luz
ao desenho e à cor.
Constitui a plenitude do barroco italiano,
contrastando
luz e sombra.
Sem ornamentos,
criou a luz barroca,
prevista nos traços
do profético e sábio mestre
da Capela Sistina.
Fonte: www.artcanal.com.br